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Deu Jesus um sentido salvífico para sua morte? considerações sobre Mc 14.24 e 10.45

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Deu Jesus um sentido salvífico para sua m orte?

Considerações sobre M c 14.24 e 10.450)

U w e W e g n e r

I. Observações introdutórias

P a rticip a n d o d e um c u lto com Santa C eia na c a p e la d a Fa­ c u ld a d e de T e o lo g ia , lo g o após te r re c e b id o o pã o e o v in h o , passou-m e p e la ca b e ça a p e rg u n ta : m as seria re a lm e n te in d is p e n ­ sável este c o m e r e b e b e r para o p e rd ã o de m eus pecados? N ão h a v ia eu já confessad o os pecado s n o in íc io d o c u lto e a subse­ q ü e n te p a la v ra da graça p ro fe rid a p e lo pastor m e c e rtific a d o do p e rd ã o d iv in o ? Estas in te rro g a ç õ e s , na v e rd a d e , e ra m o re fle x o de um a p e rg u n ta a in d a m ais e s p e c ífic a : se Deus p e rd o a , se o p ró p rio Cristo nos o fe re c e u o p e rd ã o d e Deus, há necessida de de um p e r­ d ã o " c o m p le m e n ta r " a tra vé s da m o rte de Cristo?

A lg u n s te ó lo g o s te n d e m a re s p o n d e r n e g a tiv a m e n te a esta p e rg u n ta . A seu fa v o r parece fa la r um a série d e a rg u m e n to s :

— Na fo n te dos d ito s de Jesus, usada por M a te u s e Lucas ( = fo n te Q), n ã o tem os n e n h u m a re fe rê n c ia a um a m o rte v ic á ria de Cristo. Nesta

(1) Este a rtig o é o esboço le v e m e n te re to c a d o d a m in h a p a le stra in a u g u ra l, p r o fe rid a há d o is anos na F a cu ld a d e de T e o lo g ia . As razões p a ra a esco lh a d o te m a fo ra m duas: 1. Leitura d o liv ro d e L. B o ff: P aixão de Cristo — P aixão d o m u n d o . N esta o b ra o a u to r pro cu ra in te rp re ta r a p a ix ã o d e C risto p e n sa n d o " r a d ic a lm e n te a h u m a n id a d e de Je­ sus". S e g u n d o e le , sua "o p ç ã o de fu n d o im p lic a con se q ü ê n cia s d e o rd e m e x e g é tic a e d o g m á tic a " (op. c it., p. 8). D ia n te d is to , nosso p rim e iro p ro p ó s ito co n sistiu e m p ro c u ­ rar a v e rig u a r se as c o n se q ü ê n cia s e x e g é tic a s tira d a s p o r B o ff p o d e ria m ser en dossa­ das nu m e x a m e m ais a c u ra d o dos textos. 2. S e m in á rio e x e g é tic o d o NT p a ra e s tu d a n ­ tes d o C urso T e o ló g ic o de Base. N este s e m in á rio d e te c ta m o s d ific u ld a d e s na a v a lia ç ã o histó rica dos re la to s e d ito s d e Jesus. A ssim sen do, co lo c a m o -n o s co m o s e g u n d o p ro ­ p ó sito deste tra b a lh o , e n s a ia r e x e m p la rm e n te a lg u n s c rité rio s d e h is to ric id a d e e sua a p lic a ç ã o em textos sinótico s.

(2)

a m orte de Jesus não é vista isoladam ente com o caso ú ni­ co, para o qual seja necessário dar uma e xplicaçã o espe­ c ia l; e la perm anece na linha de todos os m ensageiros da sabedoria (Lc 11,49-52)(2).

— Um dos q u a tro e v a n g e lista s, Lucas, re c o n h e c id a m e n te dá pou ca im p o rtâ n c ia a o p e n sa m e n to da m orte e x p ia tó ria ^3). — O p ró p rio Jesus d ific ilm e n te te ria a g o n iz a d o da fo rm a com o

o fe z (cf. M c 15.34), se tivesse consciência de e x p ia r os p e ­ cados através de sua m o rte : não desespera assim q u e m se sabe sa lv a d o r da h u m a n id a d e !

— O c o m p o rta m e n to q u e os d iscíp ilo s a p re se n ta m por ocasião da p a ix ã o e lo g o após a c ru c ific a ç ã o (m e d o , re n ú n c ia ) fic a in c o m p re e n s ív e l caso Jesus lhes te n h a re a lm e n te fris a d o por d iversas vezes sua m o rte e ressurreição im in e n te s , bem co m o o s e n tid o s a lv ífic o deste fim (cf. M c 8.31; 9.31; 10.33s;

10.45; 14.24).

A rg u m e n to s desta o rd e m p a re ce m fa v o re c e r a in te rp re ta ­ ção da m o rte d e Jesus co m o " p a ix ã o do p ro fe ta e Justo s o fre d o r” (4). D entro desta lin h a in te rp re ta tiv a procura-se destacar qu e o fim de Jesus fo i o re s u lta d o de um h o m ic íd io , e q u e , p o rta n to , a trans­ fo rm a ç ã o deste h o m ic íd io em "s im p le s m o rte " a c o b e rta , a o invés de to rn a r tra n s p a re n te , o v e rd a d e iro e s câ n d a lo da cruz(5).

Se este tip o de ra c io c ín io é co rre to , o qu e p o d e ria ter le v a ­ d o os re p re se n ta n te s das p rim e ira s c o m u n id a d e s cristãs a e xp re s­ sarem d e fo rm a tão u n â n im e sua fé no s e n tid o s a lv ífic o da m orte de Jesus?(6) N ão te ria m eles e le v a d o Jesus a um a coisa q u e e le nem quis ser e re p re s e n ta r e fe tiv a m e n te ? Em outras p a la vra s: fo i le g ítim o , por p a rte da c o m u n id a d e p rim itiv a , a trib u ir a posteriore um s ig n ific a d o s a lv ífic o a um a m o rte q u e , a n te rio rm e n te , nã o ha­ via sido e n te n d id a neste se ntido?

(2) Cf. J. S c h re in e r/G . D a u tze n b e rg , Forma e e x ig ê n c ia s d o N o v o T e stam e nto, p. 217; ta m b é m W. G. K ü m m e l, In tro d u ç ã o a o N o v o T e stam e nto, p. 83-85.

(3) Cf. sobre isto L. G o p p e lt, T e o lo g ia d o N o v o Testam e nto, p. 535s.

(4) E esta a in te rp re ta ç ã o q u e p re d o m in a em L. B o ff, P aixão d e Cristo — P aixão do m u n ­ do . P etró polis, 1978.

(5) C f e n tre o u tros F. B elo, Lectura m a te ria lis ta d e i e v a n g e lio de M arcos, p. 423s. (6) Para a in te rp re ta ç ã o da m o rte de Cristo p e la c o m u n id a d e p r im itiv a de Jeru sa lé m e p e ­

los o u tros cen tros de irra d ia ç ã o , cf. W. G. K ü m m e l, Síntese te o ló g ic a d o N o vo Testa­ m e n to , p. 132ss, 212-235, 284-286, 328-340,376ss; L. G o p p e lt, T e o lo g ia do N o v o Testa­ m e n to , p. 360ss, 533ss (as d e m a is p á g in a s v e ja no ín d ice re m issivo , p. 574, sob a e x ­ pressão “ m o rte de J e s u s "); B. Ferraro. A s ig n ific a ç ã o p o lític a e te o ló g ic a da m o rte de Jesus à luz d o N o v o T e stam e nto, p. 205ss, e n tre outros.

(3)

Para os in te g ra n te s da C om issão T e o ló g ica In te rn a c io n a l is­ to é m ais d o q u e co n te stá ve l:

Se para Jesus a p aixão tivesse sido um fracasso, um n a u frá ­ g io , se tivesse perdid o a esperança em Deus e na própria missão, a sua m orte não pod eria ser co m p re en did a com o o ato d e fin itiv o da econom ia da salvação nem em seu te m ­ po, nem agora.

E m ais a d ia n te :

Em todo o caso, a orien ta ção de Jesus para a salvação dos hom ens de m odo a lg um pode ser e nte n d id a no equívoco ou na a m b ig ü id a d e . Ela não tem sentido se não inclui um conhecim ento e um a consciência pesoais, uma disposição d ecidid a do sujeito que se entrega^7).

De fo rm a bem se m e lh a n te lem os em C ousin:

... a a firm a tiv a da Ressurreição não pode prescindir de uma refe rên cia ao p ro je to te rre no d o M estre. Na verdade, se Jesus tivesse silen cia do antes da Paixão; se, d ia n te de Deus, não houvesse tido um p ro je to para os hom ens, a sua p rópria Ressurreição não pod eria suprir tal ausência de s e n tid o ^ ).

Q uer d iz e r: o c ristia n ism o nã o d e ix a rá n e ce ssa ria m e n te de re p re s e n ta r um a m ensa g e m s a lv ífic a para a h u m a n id a d e se Jesus nã o in te g ro u sua m orte d e n tro do seu p ro je to re d e n to r. O q u e m u­ d a , neste caso, é u n ic a m e n te q u e o p e rd ã o dos pecado s nã o n e ­ cessita m ais de m e d ia ç ã o , v o lta n d o a ser c o n c e d id o d ire ta m e n te p o r Deus. Em outras p a la vra s: não há necessidade de Cristo ser o o b je to da p re g a çã o , basta q u e o a m o r d e Deus por e le p re g a d o o seja. F ie d le r parece, pois, te r razão q u a n d o in d a g a : se Jesus a n u n ­ ciou Deus com o a q u e le disposto a co n ce d e r p e rd ã o in c o n d ic io n a l­ m e n te , a insistência n u m a e x p ia ç ã o de Jesus nã o c o n flita com a g e n e ro s id a d e e s o b e ra n ia da graça d iv in a ? (9)

D iante da p ro b le m á tic a exposta de fo rm a bem suscinta nes­ tas consideraçõ es in tro d u tó ria s , e n te n d e m o s nossa ta re fa co m o se­ g u e : a n a lis a r os textos e sco lh id o s — M c 14.24 e 10.45 com seus p a ­

(7) Cf. SEDOC 14, 143, 1981, p. 37s.

(8) H. C ousin, O p ro fe ta assassinado. H istó ria dos te xto s e v a n g é lic o s da p a ix ã o , p. 203- 206 (205).

(4)

ra le lo s — de tal m a n e ira , q u e o grau de p ro b a b ilid a d e de re tra ta ­ rem a co n sciê n cia pré-p a sca l de Jesus possa ser d e te rm in a d o com um a ra z o á v e l a p ro x im a ç ã o d o re a l. D izem os " ra z o á v e l a p ro x im a ­ ção do r e a l" pois q u e , em term os de juízos históricos, a d is tâ n cia q u e nos separa dos e ve n to s em to rn o d e Jesus não p e rm ite m ais do q u e isto; a lé m disso, nossos p ró p rio s c o n d ic io n a m e n to s e pres­ supostos co m o in té rp re te s ig u a lm e n te , p o r vezes, im p e d e m um a a p ro x im a ç ã o m ais sadia dos e ve n to s c e n tra is da fé .

II. A n álise dos textos de Mc 14.24 e 10.45

Os dois textos são de n a tu re za d ive rsa , a p re s e n ta n d o p ro ­ b le m á tic a s específicas. Por esta razão, há q u e se c o n sid e ra r o ca­ rá te r e sp e cífico de cada q u a l p a ra a in te rp re ta ç ã o . M esm o assim, p ro cu ra m o s te r o c u id a d o para q u e , p e lo m enos a lg u n s passos es­ senciais, pudessem ser dados de fo rm a c o in c id e n te . São eles: c o m p a ra çã o com e a v a lia ç ã o de textos p a ra le lo s ; a v a lia ç ã o de in ­ dícios re d a c io n a is ; b re v e c o m e n tá rio sobre o c o n te ú d o , e, a v a lia ­ ção d o e v e n tu a l substrato je suânico .

1. A in terp retação salvífica da m orte de Jesus segundo as p a la ­ vras de instituição da Santa Ceia (M c 14.22-25/1 Co 11.23-25; cf. tam b ém M t 26.26-29 e Lc 22.15-18.19s).

Para a c o m p a n h a r as re fle x õ e s q u e se se g u irã o , faz-se m is­ te r v is u a liz a r os re la to s de in s titu iç ã o , ta n to nas suas c o in cid ê n cia s, q u a n to nas suas d iv e rs id a d e s . Para fa c ilita r a o le ito r, dam os, pois, a seguir, um a sinopse em p o rtu g u ê s dos dois re la to s q u e m ais nos interessam , a saber, de M arcos e P aulo(10):

Mc 14.22-25 1 Co 11.23-25

v.22 Enquanto eles com iam , v .23 o Senhor Jesus, na noite em

tendo to m a do um pão tendo-o abençoado, p artiu(-o ) e deu-lhes e disse: tom ai. Isto é o corpo de m im . que fo i entregue, tom ou um pão

v .24 e, tendo dado graças, p artiu(-o )

e disse:

Isto de m im é o corpo, o (a ser dado) por vós. Isto fa zei para a m em ória de m im .

(10) P rocuram os tra d u z ir lite ra lm e n te . Para um a sinop se em p o rtu g u ê s dos q u a tro textos, v e ja J. Je re m ia s, Isto é o m e u co rp o , p. 22-25.

(5)

v.23 E, tendo to m a do um cálice tendo dad o graças,

d eu-lhes e tom aram d ele todos.

v.24 E disse-lhes:

Isto é o meu sangue da a lia n ç a d e rra m a d o por muitos.

v.25 perspectiva escatológica

v.25 Da mesma fo rm a tam bém o cálice depois de cear

d izendo:

Este cálice a nova a lia nça é no meu sangue.

Isto fa zei — todas as vezes em que

tom ardes — para a m em ória de m im .

v .26 perspectiva escatalógica 1.1. Com paração dos relatos e opção pelo te x to de M arcos

O N o v o T estam ento descreve em q u a tro re la to s o q u e Jesus fe z e disse po r ocasião da ú ltim a ceia em q u e p a rtic ip o u com seus discípulos. C aracterístico destes re la to s é q u e n e n h u m d e le s des­ creve a cena e as p a la v ra s p ro n u n c ia d a s de fo rm a e x a ta m e n te ig u a l aos outros. O q u e p o d e m o s constatar num p rim e iro re la n c e é só q u e há se m e lh a n ça s m u ito g ra n d e s e n tre os re la to s de M c e M t po r um la d o , e os d e Lc e Paulo p o r o u tro la d o . Assim , a o q u e tu d o in d ic a , a transm issão d o q u e o c o rre u e fo i d ito po r ocasião da San­ ta C eia processou-se, desde os seus inícios, através de dois canais tra d itiv o s distintos. Há q u e m pense a té q u e o re la to de Lc seja ta m ­ bém a u tô n o m o , c o n s titu in d o a in d a um te rc e iro ca n a l tra d itiv o de o rig e m in d e p e n d e n te t11). O m a io r p ro b le m a desta tese, p o ré m , está no fa to de qu e as p a la v ra s de in te rp re ta ç ã o d o pã o ( = Lc 22.19b: " d a d o po r v ó s ") e as re fe re n te a o c á lic e ( = Lc 22.20b: "Es­ te c á lic e é a nova a lia n ç a no m eu sangue , d e rra m a d o por v ó s ") e n co n tra m -se , ju n ta m e n te com o ja m o ld u ra ( = Lc 22.19c + 20a) o m itid a s no m a n u scrito D e em certos re p re se n ta n te s das tra d u çõ e s la tin a s a n tig a s f12), sendo p o r isso m esm o, a lta m e n te q u e s tio n á v e is

(11) Assim , p. e x ., H. S ch ü rm a n n , Der E insetzu ngsb ericht. Lk 22,19-20. II. Teil e in e r q u e l­ le n k ritis c h e n U n te rsu ch u n g des lu ka n isch e n A b e n d m a h lb e ric h te s Lk 22,7-38, p. 17ss; H. Patsch, A b e n d m a h l und histo risch e r Jesus, p. 95ss, e n tre outros.

(12) Trata-se, c o n c re ta m e n te , dos m a n uscrito s la tin o s a n tig o s a, d, ff^ , i e 1. C om o h a rm o ­ nizaçõ es e n tre o tip o de te x to lo n g o e cu rto a p re se n ta m -se as le itu ra s dos m anuscrito s la tin o s b e " e " , be m c o m o as tra d u çõ e s siríacas c u re to n ia n a , s in a ític a e p e s h itta : cf. a ta b e la a p re s e n ta d a em B. M . M e tz g e r, A te x tu a l c o m m e n ta ry on the G re e k N e w Testa­ m e n t, p. 175.

(6)

q u a n to a sua o rig in a lid a d e ^ 13). Este fa to fa z c o m q u e , p a ra e fe ito s d e nossa a n á lis e , o re la to d e Lc s e ja p re s c in d ív e l. P re s c in d ív e l é ig u a lm e n te o re la to a p re s e n ta d o p e lo e v a n g e lis ta M a te u s , p o is há g ra n d e co n s e n s o na p e s q u is a q u a n to a o c a rá te r n itid a m e n te se­ c u n d á r io d os a c ré s c im o s a o te x to d e M c a li e x is te n te s (14).

Passadas estas c o n s id e ra ç õ e s p re lim in a re s , p o d e m o s a g o ra nos c o n c e n tra r n o e x a m e m a is a p u ra d o d os te x to s d e M c e P a ulo . A q u e s tã o q u e se le v a n ta é : c o n s id e ra n d o c o n v e rg ê n c ia s e d iv e r ­ g ê n c ia s c o n s ta tá v e is , q u a l d os d o is re la to s m e re c e a m a io r c r e d ib i­ lid a d e q u a n to a sua a u te n tic id a d e e o r ig in a lid a d e e q u a l d os d o is a p re s e n ta tra ç o s q u e d e v e m ser c o n s id e ra d o s c o m o s e c u n d á rio s ?

A n te s d e e n tra rm o s na q u e s tã o p r o p r ia m e n te d ita , n o e n ­ ta n to , c o n v é m q u e nos c o n s c ie n tiz e m o s lig e ir a m e n te d os c rité rio s a d o ta d o s n a p e s q u is a p a ra a d e te r m in a ç ã o d o c a rá te r s e c u n d á r io /a u tê n tic o d o s re la to s d a S a nta C e ia e s im ila re s . Há c o n s e n s o q u e , e m casos c o m o e s te , tê m a p r o b a b ilid a d e d e ser m a is o r ig in a l. — p a la v ra s ou a ç õ e s q u e e n c o n tra m o m e n o r g ra u d e p a r a le li- z a ç ã o q u a n d o c ita d a s ou c o m e n ta d a s m a is d e u m a v e z ; — p a la v ra s ou a ç õ e s q u e a p re s e n ta m o m e n o r g ra u d e r e f le ­ x ã o te o ló g ic a ; — p a la v ra s ou a ç õ e s , c u ja r e fe r ê n c ia n ã o p o d e ser e x p lic a d a p e lo seu uso litú r g ic o , o u s e ja , r e p e titiv o , e,

— p a la v ra s ou a ç õ e s q u e , na c o m p a ra ç ã o c o m o u tra s , re v e la m m a io r in flu ê n c ia d a lín g u a h e b ra ic a ou a ra m á ic a , ou q u e e s te ja m e m m a io r c o n c o rd â n c ia c o m as tra d iç õ e s e a c u ltu ra e x is te n te s na P a le s tin a d o te m p o d e Jesus.

De posse desses c rité rio s e co m o a u x ílio d e o u tro s a r g u ­ m e n to s , p a s s e m o s a s e g u ir a a v a lia r in ic ia lm e n te as partes con­ cernentes à m oldura dos relatos. A este re s p e ito lim ita m o -n o s a três c o n s id e ra ç õ e s :

(a) N o re la to d e P a u lo n ã o há a o rd e m d e Jesus p a ra to m a r o p ã o : “ t o m a i" ! T a m b é m n ã o e x is te n e n h u m a r e fe r ê n c ia a o fa to

(13) C f., so b re tu d o , M . Rese, Zu r P ro b le m a tik von Kurz — und La ngte xt in Luk. XXII. 17ff, em : N e w Te stam e nt S tudies 22, 1975/76, p. 15-31. Os p rin c ip a is a rg u m e n to s c o n trá rio s e a fa v o r d o te x to m ais cu rto estão a rro la d o s s u scin ta m e n te em B. M. M e tz g e r, op. cit., p. 174-176; I. H. M a rs h a ll, The go spel o f Luke, p. 799s.

(14) Para o ca rá te r s e c u n d á rio d o re la to de M t, cf. R. Pesch, Das A b e n d m a h l und Jesu To- d e sve rsta e n d n is, p. 24s e H. Patsch, op. c«t., p. 69s.

(7)

de Jesus te r passado o cá lic e aos seus discípulos ( " e d e u -lh e s ") ou às p a la v ra s " e to m a ra m d e le to d o s " (v. 23). N ão é m ais possível d e te rm in a r se o re la to m ais c o m p rim id o d e Paulo já ch e g o u assim a té e le , ou se fo i o p ró p rio a p ó s to lo q u e s u p rim iu as partes in d ic a ­ das. S u p rim id a s ou não s e c u n d a ria m e n te em 1 Co 11.24, estas in ­ d ica çõ e s p e rte n ce n te s à m o ld u ra do re la to de M c h a rm o n iz a m de tal fo rm a com a situ a çã o e fe tiv a de um a ce ia , q u e não e xiste m m o tivo s plausíveis para co n sid e rá -la s co m o secundá ria s. Pelo co n ­ trá rio : ju sta m e n te o fa to de a p a la v ra de o rd e m " t o m a i" não vir p a ra le liz a d a no re la to da d is trib u iç ã o d o cá lice é in d íc io de o r ig i­ n a lid a d e !^ 5)

(b) S ig n ific a tiv a é a in tro d u ç ã o e n c o n tra d a em 1 Co 11,25a: "D a m esm a fo rm a ta m b é m o cá lice d e p o is de cear, d iz e n d o ". A q u i há p ro b a b ilid a d e de h a v e r um a re m in is c ê n c ia h istó rica , um a suposição a q u e som os le va d o s p e la p rá tic a c o rre n te da litu rg ia pascal ju d a ic a . Talvez m u ita s das tra d u çõ e s desta passagem ao p o rtu g u ê s e ste ja m in c o rre n d o em e rro , d isso cia n d o a expressão

m età tò deipnesai ( = " d e p o is do c e a r" ) da p a la v ra a n te rio r poté- rion ( = " c á lic e " ) , q u a n d o , na re a lid a d e , a expressão " c á lic e d e ­

pois do c e a r" e v e n tu a lm e n te nã o re p re se n te senão um te rm o téc­ nico — em a n a lo g ia a o c á lice da b ê n çã o (potérion tês eulogías: 1 Co 10.16) — usado p a ra d e s ig n a r c o n c re ta m e n te o te rc e iro cá lic e to m a d o d e n tro da litu rg ia pascaK16).

(c) A o c o n trá rio de M c, q u e só traz as p a la v ra s de in te rp re ­ tação, Paulo a p re se n ta duas vezes um a o rd e m de m e m o riz a ç ã o . A pós a p a la v ra sobre o pão lem os: " is to fa z e i p a ra a m e m ó ria de m im " ; de fo rm a s e m e lh a n te , d e p o is da p a la v ra sobre o cá lice ,

(15) N ote -se o u trossim , q u e nã o era p ra x e d is trib u ir o p ã o na litu rg ia pascal ju d a ic a com p a la v ra s de o rd e m desta ou de n a tu re za s e m e lh a n te (cf. J. Je re m ia s, Die A b e n d - m a h ls w o rte Jesu, p. 103, n o ta 13; 158 e 211). Caso Jesus, m e sm o assim , te n h a o rd e n a ­ d o o " t o m a i" , fê -lo , m u i p ro v a v e lm e n te , p a ra in d ic a r q u e e le p ró p rio nã o p a rtic ip a ria do co m e r d o pão. A lg u n s p e squisad ore s, no e n ta n to , e n te n d e m o lá b e te co m o secu n­ d á rio , por co n d iz e r m e lh o r com o uso do te xto d e n tro de ce le b ra çõ e s litú rg ic a s : assim , H. Patsch, op. c it., p. 74. C ontra este a rg u m e n to , cf. re c e n te m e n te R. Pesch, op. c it., p. 46.

(16) C o n fira sobre isto R. Pesch, op. c it., p. 44s. Pesch c h a m a a te n ç ã o pa ra o fa to de qu e, caso a e xp ressão m e tà tò deipnesai ( = após o ce a r) fosse o r ig in a lm e n te u m a re fe rê n ­ cia à se q ü ê n cia da ce ia , a fo rm u la ç ã o g re g a m ais a c e rta d a d e v e ria ser osautos m età

tò d eipn esai ka i tò po tério n, ou e n tã o m età tò deipn esai osaútos ka í tò po tério n. A

tra d u ç ã o usu al: "D a m e sm a fo rm a , ta m b é m o c á lic e , d e p o is da ce ia , d iz e n d o " é, no m ín im o , q u e s tio n á v e l!

(8)

consta: " is to fa z e i — todas as vezes em q u e to m a rd e s — para a m e m ó ria d e m im " (1 Co 11.24s). Q u a n to a estes ade n d o s, co n s id e ra m o -lo s co m o sendo se cu n d á rio s; s u rg ira m , m ui p ro v a v e l­ m ente, a p a rtir de um a é p o ca em q u e Jesus não m ais estava fis ic a ­ m ente e n tre os discípulos, o n d e , p o rta n to , a necessida de d e tê -lo em m e m ó ria era concreta. Na Santa C eia, a o c o n trá rio , Jesus a in ­ da e stava presente. S o b re tu d o as p a la v ra s de m e m o riz a ç ã o p ro fe ­ ridas d e p o is do cá lice ("Is to fa z e i todas as vezes em qu e to m a r­ d e s ...) pressupõem , a nosso ver, a situ a çã o re p e titiv a da litu rg ia da Santa C eia nos cultos da c o m u n id a d e p rim itiv a . N ão existe m o tiv o p la u síve l para a d m itir-s e o c o n trá rio , ou seja, q u e estas duas o r­ dens d e m e m o riz a ç ã o te n h a m sido s e c u n d a ria m e n te s u p rim id a s ou desco n sid e ra d a s p e lo s transm issores da tra d iç ã o de M c: elas e ra m por d e m a is p re sta tiva s e s ig n ific a tiv a s p a ra a litu rg ia da C eia, co m o era c e le b ra d a c o n tin u a m e n te no c ristia n ism o p r im iti­ vo.

Estas três consideraçõ es e fe tu a d a s sobre a m o ld u ra p e rm i­ tem a conclusão : o re la to de M c n ã o a p re se n ta in d ício s de acrésci­ mos ou om issões secundá ria s. Q u a n to à m o ld u ra em 1 Co 11.23ss, c o n sid e ra m o s co m o s e c u n d á ria a d u p la o rd e m de m e m o riz a ç ã o ; re m in is c ê n c ia s históricas p a re ce m estar presentes na expressão "c á lic e d e p o is d o c e a r" em 1 Co 11.25a.

Passemos a g o ra à p a rte q u e c o n ce rn e às palavras de insti­

tuição p ro p riam en te ditas. V e ja m o s in ic ia lm e n te as d ife re n ç a s

nas p a la v ra s sobre o pão. As le itu ra s a p re se n ta d a s por M c e Paulo são:

M c: Isto é o corpo de m im Paulo: Isto de m im é o corpo, o (a ser d a d o ) po r vós. Somos de o p in iã o q u e neste caso o te xto de M c d e v e ser o p re fe ri­ do, e isto pelas razões q u e seguem :

1. T e o lo g ic a m e n te o te xto p a u lin o a p resenta -se m ais d e ­ s e n v o lv id o a tra vé s da in clu sã o de " p o r v ó s ". Q ue m o tivo s p o d e ria ter tid o M c para o m iti-lo , caso fosse o rig in a l? (17)

(17 C om o in clu sã o p o s te rio r o " p o r v ó s " é fa c ilm e n te e x p lic á v e l. S abem os dos A tos dos A p ó sto lo s e de outras fo n te s , q u e nas c o m u n id a d e s p rim itiv a s a Santa C eia m u ita s ve ­ zes era c o m e m o ra d a só com o p ã o , sem o v in h o , pois as co m u n id a d e s e ra m po bres e o v in h o era caro. O ra, nestes casos, sem as p a la v ra s sobre o v in h o , o n d e a e x p lic a ç ã o d o " p o r v ó s " / " p o r m u ito s " era o rig in a l (v id e a b a ix o ), as curtas p a la v ra s de e x p lic a ç ã o sobre o p ã o c o rria m o p e rig o de nã o m ais serem d e v id a m e n te e n te n d id a s em seu s ig ­ n ific a d o s a lv ífic o . Isto de u ra zã o m ais do q u e s u fic ie n te p a ra — já po r oca siã o da

(9)

dis-2. E nquanto M c a p re se n ta a fo rm u la ç ã o "Is to é o c o rp o de

m im ", Paulo a p re se n ta o p ro n o m e a n te p o sto : Isto d e m im é o cor­

po. N o h e b ra ic o /a ra m a ic o a a n te p o s iç ã o do p ro n o m e nã o é possí­ ve l, re v e la n d o a co lo c a ç ã o em M c m a io r p ro x im id a d e aos id io m a s sem itas(18).

3. Interessante é n o ta r q u e no te xto de Paulo o yp èr ymõn ( " p o r v ó s ") vem is o la d o ; nã o há in d ic a ç ã o do s e n tid o m ais preciso do m esm o, se é " d a d o " , " e n tr e g u e " , " o fe r e c id o " ou coisa sem e­ lh a n te . D alm an e Jerem ias, p ro fu n d o s c o n h e ce d o re s q u e são dos id io m a s sem itas, a p o n ta m para o fa to de q u e a expressão re fe rid a " n ã o s e g u id a de um p a rtic íp io e x p lic a tiv o " é, s in ta tic a m e n te , im ­ possível no a ra m a ic o t19).

4. A expressão " p o r v ó s " não tem p a ra le lo na p a la v ra de M c sobre o pão. Na p a la v ra de M c sobre o c á lic e , no e n ta n to , te ­ mos a expressão " p o r m u ito s " q u e , po r sua vez, n ã o e n c o n tra p a ­ ra le lo em M t. A d m ite -s e q u e , o rig in a lm e n te , h a v ia re fe rê n c ia a um a das duas expressões. Se isto fo r co rre to , há in d ício s p a ra d a r p rio rid a d e à expressão " p o r m u ito s ", co m o lo g o ve re m o s m ais a b a ix o .

A n a lis a d a s as p a la v ra s sobre o pã o e con sta ta d a a p rim a z ia q u e cabe a o te xto d o s e g u n d o e v a n g e lh o , passem os a g o ra à a n á ­ lise c o m p a ra tiv a d o c o n te ú d o das p a la v ra s sobre o c á lic e , q u e p a ­ ra nosso te m a , são centrais. T am bém neste caso vá rio s indícios a p o n ta m p a ra M c co m o re p re s e n ta n d o o m e lh o r texto.

C om o p rim e iro a rg u m e n to p o d e m ser a rro la d o s n o v a m e n te um a série de sem itism os q u e a p ro x im a m o te xto d o 2 o e v a n g e lh o be m m ais q u e o d e Paulo a o id io m a fa la d o por Jesus. Trata-se, co n c re ta m e n te , dos seguintes:

— O p ro n o m e moü (" d e m im " ) vem c o lo c a d o em M c atrás, mas em Paulo, antes do su b sta n tivo co rre s p o n d e n te , ou se­ ja, " s a n g u e " . C om o já vim o s a c im a , a co lo c a ç ã o d o p ro n o ­ m e atrá s dos su b sta n tivo s, c o rre s p o n d e m e lh o r a o a ra m a ic o /h e b ra ic o .

trib u iç ã o d o p ã o — fris a r o " p o r v ó s ". Sobre a c e le b ra ç ã o e u ca rística , q u e nestes casos e ra d e n o m in a d a d e sub una (isto é, sob u m a só e sp é cie ), cf. J. J e re m ia s, Die A b e n d ­ m a h ls w o rte Jesu, p. 46 (com no ta 5) e 108.

(18) Cf. J. J e re m ia s, op. c it., p. 170 (sob n ° 11).

(10)

— M c escreve com o v e rb o no in íc io : Isto é o m eu s a n g u e ... Já Paulo a p re se n ta o v e rb o posposto: Este cá lic e a nova a lia n ç a

é no m eu sangue . O ra, q u a lq u e r e stu d a n te d e h e b ra ic o sa­

be: o se m ita costum a escrever com o p re d ic a d o antes d o su­ je ito , ou seja, v e rb o + su je ito .

— Paulo a p re se n ta a expressão n o va a lia n ç a (e k a in è d ia té k e ) e x a ta m e n te nesta o rd e m de p a la v ra s , ou seja, com o a d je ti­ vo c o lo c a d o antes do seu su b sta n tivo . O se m ita , a o c o n trá ­ rio , costum a c o lo c a r o a d je tiv o d e p o is do su je ito . Ele d iria : a a lia n ç a , a nova!

— Especial a te n ç ã o m erece o p a rtic íp io passivo presente

ekchynóm enon, lite ra lm e n te , que é d erram ad o (por m u i­

tos). O ra e v id e n te m e n te Jesus nã o está d e rra m a n d o sangue seu po r ocasião da ce ia com os discípulos. Estas p a la v ra s são ditas, isto sim , te n d o em vista sua m o rte im in e n te , te n d o pois s e n tid o fu tu ro . A tra d u ç ã o , em c o n s e q ü ê n cia , d e v e ria ser: Isto é o m eu sangue da a lia n ç a que será derram ad o . Neste caso, p o ré m , com o su rg iu e p o r q u e é e m p re g a d o o p a rtic íp io p resente, e nã o o fu tu ro ? O e m p re g o do p a rtic íp io presente e x p lic a -s e s a tis fa to ria m e n te desde q u e c o n s id e re ­ mos o fa to de q u e nem o h e b ra ic o nem o a ra m a ic o possuem fo rm a s p a rtic ip ia is a tra vé s das q u a is seja possível um a d is­ tin ç ã o de diversos tem pos, co m o o passado, presente e fu tu ­ ro ; o p a rtic íp io é a q u i, m u ito m ais, a te m p o ra l, d e v e n d o o co n te x to d e te rm in a r sua in te rp re ta ç ã o m ais e x a ta . D iante disto, fic a m u ito p ro v á v e l ser o e m p re g o d o p a rtic íp io p re ­ sente de ekchynóm enon expressão de um a tra d u ç ã o bas­ ta n te lite ra l do seu e q u iv a le n te se m ítico o rig in a K

20)-— O u tro re c o n h e c id o se m itism o no te x to de M arcos rep re se n ta a p a la v ra pollõn ( " m u ito s " ) , não p re c e d id a de a rtig o , mas m ui p ro v a v e lm e n te com s e n tid o in c lu s iv o , s ig n ific a n d o , em v e rd a d e , " to d o s " . C oube a J. J e re m ia s d e m o n s trá -lo com to d a a cla re za (2 i), C om o e x e m p lo para este e m p re g o s e m íti­ co de " m u ito s " , basta qu e se co m p a re o o rig in a l de M c 10.45 ( = resgate por m uitos) com sua versão em g re g o , e n ­ co n tra d a em 1 Tm 2.6 ( = resgate po r todos!).

(20) Cf. pa ra o e xp o sto J. J e re m ia s, op. c it., p. 170$.

(21) Cf. J. J e re m ia s, op. c it., p. 1 7 1 -1 7 4 ;_________, Das Lösegeid fü r v ie le , em A b b a , p. 2 2 5 -2 2 8 ;_________, a rtig o polloí, em T h eolog isches W ö rte rb u c h zum N e u e n T e stam ent, v. 2, p. 5 4 3 -5 4 5 ;_________, T e o lo g ia d o N o vo T e stam e nto, p. 442-444.

(11)

— F in a liz a n d o , ch a m a m o s a in d a a te n ç ã o para a expressão " d e rra m a d o por m u ito s " ( = tò ekchynóm enon yp èr pollõn). Nesta, o c o m p le m e n to p ro n o m in a l " p o r m u ito s "

v e m , bem a p ro p ó sito d o seu e m p re g o se m ítico , após o par- tic íp io . M ateus e Lucas m ostram -nos, nas suas passagens p a ­ ra le la s , com o a m esm a expressão é fo rm u la d a nu m bom g re g o , ou seja: tò yp èr pollõn (Lc: y p è r y m õ n !) ekchynóm e­

non, ou seja, com o c o m p le m e n to p ro n o m in a l n ã o no fim ,

mas e n tre o a rtig o e o p a rtic íp io (cf. M t 26.28 e Lc 22.20). Um s e g u n d o a rg u m e n to q u e fa v o re c e a p rio rid a d e d o te xto de M arcos resid e no fa to de a versão de Paulo ser a q u e la q u e re ­ trata um m a io r g ra u de re fle x ã o te o ló g ic a . Isto se d e d u z de um a co m p a ra ç ã o e n tre as expressões "s a n g u e da a lia n ç a " (M c; cf. Ex 24.8) e " n o v a a lia n ç a " (P aulo; cf. Jr 31.31, ou 38.31 no te x to da S e p tu a g in ta ). Pois, é b e m m ais p ro v á v e l q u e a expressão "s a n g u e da a lia n ç a " te n h a sido in te rp re ta d a num e s tá g io p o s te rio r pelas p a la v ra s sobre a " n o v a a lia n ç a " , fa z e n d o , desta fo rm a , jus à in te r­ p re ta çã o c o rre n te no c ristia n ism o p rim itiv o , s e g u n d o a q u a l Cristo é o M e d ia d o r de um a n o va a lia n ç a (v e ja , s o b re tu d o , nas cartas p a u lin a s e na carta aos H e b re u s!), d o q u e o c o n trá rio . O ra, d e n tro da histó ria tra d itiv a v e rific a -s e m a c iç a m e n te a te n d ê n c ia de to rn a r as coisas im p líc ita s m ais claras e co m p re e n síve is, e não vice -ve rsa . Por isso m esm o, não co n sig o im a g in a r q u e a expressão e x p líc ita sobre a nova a lia n ç a no sangue de Jesus seja o rig in a l e te n h a , se­ c u n d a ria m e n te , passado po r um processo re ve rsivo , c u lm in a n d o com a re fe rê n c ia a um a a lia n ç a a in d a nã o q u a lific a d a de re a l­ m e n te n o va , co m o é o caso na expressão "s a n g u e de a lia n ç a " . A re fe rê n c ia à nova a lia n ç a em Paulo é, pois, s e cu n d á ria . Sua in c lu ­ são e x p lic a ta m b é m p o rq u e em Paulo n ã o m ais são m e n c io n a d o s as p a la v ra s "d e rra m a d o p o r m u ito s ": ora, q u e um sangue seja d e rra m a d o por m u ito s é c o m p re e n s ív e l, nã o , p o ré m , qu e um a a lia n ç a o seja(22).

(22) Q u a n to à s -re fe rê n c ia s n e o te s ta m e n tá ria s à no va a lia n ç a , cf. 2 Co 3 .6 ; Hb 8 .8 ; 12.24 etc. Q ue re a lm e n te o p re d ic a d o o rig in a l da o ra ç ã o sobre o c á lic e fo i o san gue e nã o a a lia n ç a , o p ró p rio P aulo c o n firm a n u m a o u tra passagem re fe re n c ia l da Santa C e ia , a sab er, em 1 Co 10.16: "P o rv e n tu ra o cálice q u e a b e n ç o a m o s nã o é a c o m u n h ã o do

sangue de C risto? O p ã o q u e p a rtim o s , n ã o é a c o m u n h ã o d o co rp o de C ris to ? " Para

alg u n s pe sq u isa d o re s a m u d a n ç a da fo rm u la ç ã o em P aulo p o d e te r o c o rrid o p o r m o ti­ vos p rá tico s de c o n v iv ê n c ia e re s p e ito a con cepçõe s ju d a ica s: pa ra os jude us e ra a b o ­ m in á v e l c o m e r s a n g u e de a n im a is (cf. Gn 9 .4 ; Lv 3.1 7; 7.26s; 17.10,14, e tc.). D iante disso a fo rm u la ç ã o "Is to é o m e u s a n g u e " n a tu ra lm e n te esta va su je ita a ser in te rp re ta ­ d a co m o se os cristãos na Santa C e ia in g e risse m s a n g u e . Para e v ita r esta esp é cie de m a l-e n te n d id o , m u dou-se a fo rm u la ç ã o .

(12)

C om o te rc e iro e ú ltim o a rg u m e n to em fa v o r d o te xto de Mc d e ve ser c ita d o o fa to d e suas expressões não v ire m p a ra le liz a d a s . No passado usou-se, p o r vezes, esse m esm o a rg u m e n to contra o te xto de Mc. A rg u m e n ta v a -s e q u e , em co m p a ra ç ã o com o te xto de Paulo, o te x to em M c a p re s e n ta v a as expressões em p a ra le lis m o bem m ais h a rm o n io so . V e ja m o s estes p a ra le lis m o s . Em M arcos e n ­ co n tra m o s

p ã o ... c o rp o , e, c á lic e ... sangue . Já Paulo a p re se n ta p ã o ... c o rp o , mas, c á lic e ... a lia n ç a !

C o n clu i-se d a q u i q u e c o rp o e sangue (sõma e aim a ), po r serem term os q u e n o rm a lm e n te a p a re c e m vin c u la d o s , d e v e m ser consi­ d e ra d o s m ais sim é trico s e p a ra le liz a d o s d o qu e os co rre sp o n d e n te s c o rp o e a lia n ç a de Paulo. Esta a rg u m e n ta ç ã o , à p rim e ira vista m u i­ to c o n v id a tiv a , não co n ve n ce por duas razões. A p rim e ira é qu e

sõma e a im a , a o c o n trá rio d o q u e sugerem na lín g u a p o rtu g u e sa ,

nã o são term os p a ra le lo s com uns no N o vo Testam ento: e n co n tra m -se , la d o a la d o , um a só vez a in d a , em Hb 13.11. Ter­ mos p a ra le lo s usuais d o NT são, m u ito m ais, sárx e aim a, carne e sangue (cf. 1 Co 15.50; Ef 6.12; G1 1.16; M t 16.17; A t 15.20). A se­ g u n d a razão é d a d a p e lo já m e n c io n a d o te xto de 1 Co 10.16, o nde o p ró p rio Paulo usa o m esm o esq u e m a de M c, ou seja p ã o ...c o rp o , e, c á lic e ... sangue , só qu e em o rd e m in v e rtid a (23).

C o n c lu in d o este estudo c o m p a ra tiv o sobre as p a la vra s de in s titu iç ã o p ro p ria m e n te ditas, tem os q u e o te xto do seg u n d o e v a n g e lis ta a p re se n ta m a io re s características de o rig in a lid a d e do q u e 1 Co 11.23-25. Os resultados a este re sp e ito c o in c id e m , p o rta n ­ to, com a q u e le s v e rific a d o s q u a n d o da a n á lis e da m o ld u ra dos dois relatos. Assim é q u e , c o n c lu in d o to d a esta p rim e ira p a rte , p o ­ d em os a firm a r: O re la to de Paulo re v e la um e s tá g io m ais a d ia n ta ­ do de re fle x ã o te o ló g ic a , m a io r in flu ê n c ia das ce le b ra çõ e s litú rg i- cas e um m e n o r g ra u de sem itism os q u a n d o c o m p a ra d o com o re ­ lato de Mc. Este ú ltim o é, po r estas razões, co n s id e ra d o co m o o r ig i­ na l, s e rv in d o de base p a ra as in te rp re ta çõ e s qu e seguem .

1.2. O conteúdo de Mc 14.22-25

Para e fe ito s de in te rp re ta ç ã o das p a la v ra s de in s titu iç ã o da C eia, é d e sum a im p o rtâ n c ia con sid e ra r-se o fa to de v ire m as mes­ mas segu id a s de um d ito e s c a to ló g ico , M c 14.25: "E m v e rd a d e vos

(13)

d ig o q u e n ã o m ais b e b e re i d o fru to da v id e ira , a té a q u e le d ia em qu e o hei de b e b e r, n o vo , no re in o de D eus". Jesus a firm a a q u i nã o m ais to m a r d o v in h o por um d e te rm in a d o p e río d o a té q u e ir­ ro m p a o re in o de Deus: isto pressupõe q u e e le está c la ra m e n te con scie n te de q u e va i m o rre r. Sua a lu sã o a um a n o va C eia no re i­ no, c o m b in a m u ito be m com passagens se m e lh a n te s sobre um b a n q u e te e sca to ló g ico , e n co n tra d a s em textos co m o M t 25. lss (p a ­ rá b o la das 10 virg e n s), Lc. 1 4 .15ss (p a rá b o la da g ra n d e c e ia ) e M t 8. l i s (d ito sobre o b a n q u e te com A b ra ã o , Isaque e Jacó). Ig u a l­ m e n te be m te s te m u n h a d a em outros textos e n co n tra m o s a id é ia d o te m p o in te rm e d iá rio pressuposto e n tre o m o rre r de Jesus e o ir- ro m p im e n to d e fin itiv o do re in o : cf. M c 9 .1 ; 13.28-30; M t 10.23 e Lc 12.54-56(24). M c 14.25 tem , por estas razões, boas p erspectivas de re p re se n ta r um d ito o rig in a l de Jesus. Se isto e stive r certo, a Santa C eia re p re se n ta , e n tre outras coisas, um te s te m u n h o da p re o c u p a ­ ção e c le s io ló g ic a de Jesus: trata-se da p re o c u p a ç ã o d a q u e le qu e , ju sta m e n te por ter q u e ir, se p re o c u p a com a c o n tin u id a d e d e co­ m u n h ã o após a sua partiH a(25).

Na p alavra sobre o pão, " is to é o m eu c o rp o ", há consenso e n tre a m a io ria dos p esquisa dores de q u e a expressão " m e u cor­ p o " neste co n te x to não s ig n ific a senão " e u p r ó p rio " , " e u com o p e sso a ". Tanto os substantivos a ra m a ic o s bisra co m o gu fa, que e n tra m em c o g ita ç ã o co m o e q u iv a le n te s a ra m a ic o s para o g re g o

soma, p o d e m ter este s ig n ific a d o (26). A tra vé s d o pã o a d á d iv a qu e

Jesus o fe re c e é, p o rta n to , sua pessoa, sua e x istê n cia h istórica. O m e lh o r a rg u m e n to em fa v o r desta in te rp re ta ç ã o é q u e e la c o in c i­ de com a in te rp re ta ç ã o da p a la v ra sobre o c á lic e , o n d e ig u a lm e n ­ te é fe ita re fe rê n c ia a Jesus co m o pessoa, só q u e aí, a Jesus co m o pessoa prestes a m o rre r p elos m u ito sí27).

(24) Na pesquisa a id é ia de Jesus de um te m p o in te rm e d iá rio e n tre sua m o rte e o irro m p i- m e n to d o re in o é c o n tro v e rtid a . Entre os pe sq u isa d o re s q u e a d e re m à m esm a, cita m o s W. G. K üm m el (cf. sua o b ra V e rh e issu n g und E rfü llu n g , p. 58ss), L. G o p p e lt (cf. na sua T e o lo g ia do N o vo T e stam e nto, p. 226s) e H. Patsch (cf. sua o b ra A b e n d m a h l u n d h isto ­ rische r Jesus, p. 142ss).

(25) Cf. L. G o p p e lt, T e o lo g ia do N o vo Testam e nto, p. 226s.

(26) Cf. R. Pesch, Das A b e n d m a h l und Jesu Todesve rstän dnis, p. 90s; L. G o p p e lt, op. c it., p. 227; J. J e re m ia s, Die A b e n d m a h ls w o rte Jesu, p. 191-193 (crítico fre n te ao e q u iv a le n te

g u fa!); W . G. K ü m m e l, Síntese te o ló g ic a d o NT, p. 106.

(14)

Q u a n to a o dito sobre o cálice há q u e co n sid e ra r-se , in ic ia l­ m ente, a expressão "s a n g u e a ser d e rra m a d o ". U sando estas p a ­ lavras Jesus estava se re p o rta n d o a um a expressão co rre n te que s ig n ific a v a " a n iq u ila r a v id a , m a ta r, assassinar"(28). Isto é m eu sangue a ser d e rra m a d o s ig n ific a , pois, a m esm a coisa q u e : isto sou eu a ser m o rto , isto é a m in h a v id a qu e será d e stru íd a ! A e x ­ pressão e q u iv a le n te é spk dm , lite ra lm e n te , ekchyno aim a. Assim , p. e x ., lê-se em Gn 9.6: "S e a lg u é m d e rra m a r o sangue d o ho­ m em , p e lo h o m e m se d e rra m a rá o s e u ". Ou em Gn 37.22: "M a s Rúbem , o u v in d o isto, liv ro u -o das m ãos d eles, e disse: nã o lhe tire ­ mos a vid a . T am bém lhes disse Rúbem : não d e rra m a re is sa n g u e ; la n ç a i-o nesta c is te rn a ..." O utras passagens a serem c o n fe rid a s são: Nu 35.33; Dt 21.7; Ez 16.38. "Is to é m eu sangue a ser d e rra m a ­ d o " te ste m u n h a , pois, acerca da consciência q u e Jesus tin h a de sua m o rte v io le n ta i29).

Q u a n to à expressão yp èr p o llõ n = por m uitos, a pesquisa a p re se n ta um re la tiv o consenso. Trata-se, com g ra n d e p ro b a b ili­ d a d e , de um a cita ç ã o lite ra l de Is 53.10-12, o n d e consta:

M eu escravo, um justo, trará justiça para muitos. Suas cu l­ pas — e le as suportará... Por isso lhe darei parte entre m ui­ tos, porqu an to entregou sua vida à m orte ... e le sustentou o pecado de muitos e intercederá pelos p eca do re

sl3®)-(28) Cf. J. B ehm , a im a , aim atekch ys ía, em T h eolog isches W ö rte rb u c h zum N e u e n Testa­ m e n t, v. 1, p. 172s; W. G e se n iu s/F . B uhl, H ebräisches und ara m ä isch e s H a n d w ö rte r­ buch ü b e r das A lte T estam ent, p. 851.

(29) A lg u n s pe squisad ore s, co m o J. J e re m ia s, a ch a ra m q u e a tra vé s desta expressão Jesus fa z re fe rê n c ia d ire ta a Is 53.12, te x to m a so ré tico , o n d e se lê qu e o Servo de Javé e n ­

treg o u sua v id a à m o rte, sendo c o n ta d o e n tre p e cadores. Esta tese, p o ré m , n ã o co n d iz

com a te rm in o lo g ia usada em Is 53.12, o n d e a o invés de san gue é fa la d o em néfes = v id a , e o n d e , a o invés d o v e rb o a lu d id o spk é usado um o u tro , a saber, h'rh (h ifil) . Es­ te ú ltim o v e rb o , no e n ta n to , é tra d u z id o na passagem po r p a re d ó th e p e la S e p tu a g in ­ ta, não po r ekchynein, co m o seria de se e sp erar. D ecisivo é, p o ré m , q u e o ve rb o

ekchyneirt, e m p re g a d o 139 vezes p e la S e p tu a g in ta , ja m a is consta co m o tra d u ç ã o de h'rh. Em sum a: a tese de q u e a expressão aim a ekchynóm enon seja cita çã o lite ra l de

Is 53.12, te xto m a so ré tico , não p o d e ser e v id e n c ia d a .

(30) Para esta tra d u ç ã o cf. M . S chw antes, Isaías 52.13-53-12, em P roclam ar Libe rtaçã o, v. 9, p. 201. Ele in te rp re ta o “ m u ito s " em se n tid o in clu s iv o , tra d u z in d o o te rm o p o r " to d o s " . Se Jesus usa com yp èr ym õn um a expressão de Is 53.10-12, e n tã o é de supor-se que e le re la c io n o u sua pessoa e m issão com a fig u ra d o Servo d e Deus a li te m a tiz a d a , p a ­ ra o q u e , de fa to , e xiste m um a série de in d ício s: cf. O. C u llm a n n , Die C h ris to lo g ie des N e u e n Testam ents, p. 59-81; O. M ic h e l/I. H. M a rs h a ll, a rtig o pais th eou , e m O no vo d ic io n á rio in te rn a c io n a l de te o lo g ia d o N o v o T e stam e nto, v. 4, p. 458-463; L. G o p p e lt, T e o lo g ia d o N o vo Testam e nto, p. 204-212, e n tre outros. R efe rência s e x p líc ita s a Jesus co m o o S ervo de Deus o co rre m , to d a v ia , u n ic a m e n te em 5 passagens: M t 12.18; A t 3.1 3 ,2 6 ; 4.27,30.

(15)

Para o te rm o " m u ito s " o e q u iv a le n te h e b ra ic o é rabim , o a ra m a i- co é sagiim . C oube, s o b re tu d o , a J. Je re m ia s a c o m p ro v a ç ã o de q u e em nosso caso, isto é, sem o e m p re g o de a rtig o , a expressão " p o r m u ito s " tem s e n tid o in c lu d e n te , s ig n ific a n d o , na v e rd a d e ,

por todosí31). A expressão re p re se n ta um se m itism o e a d v é m do

fa to de as línguas sem itas n ã o possuírem " p a la v r a q u e (co m o o nosso " to d o s " ) d e s ig n e a o m esm o te m p o to ta lid a d e e p lu r a lid a d e " ( 31). Daí ser rabim ta m b é m usado fo ra de Is 53 p o r v á ­ rias vezes in c lu s iv a m e n te : c f., p .e x ., 1 Rs 18.25; Dn 9.27; 1 1 .3 3 / Ex 23.2; SI 71.7; 109.30; Ne 7.2 (com e sem o a rtig o !). A lé m deste fa ­ to r in e re n te a o lin g u a ja r se m ita , um a in te rp re ta ç ã o in c lu s iv a de

rabim em Is 53.11 s (e, por e xte n sã o , em M c 14.24) é ta m b é m fa v o ­

re c id a p e lo co n te x to im e d ia to (cf. Is 52.15), bem co m o po r outras re fe rê n c ia s (im p líc ita s ) a g e n tio s em passagens p a ra le la s sobre a a tiv id a d e s a lv ífic a d o Servo de Javé (cf. Is 42 .1 ,4 ,6 ; 49.6). T am bém o fa to de rabim vir p re c e d id o de a rtig o em Is 53.11 s d e v e ser co n si­ d e ra d o , pois é ju sta m e n te com o a rtig o q u e seu uso in c lu s iv o pod e ser a te sta d o m ais fre q ü e n te m e n te . Todos estes in d ício s a p o n ta m na m esm a d ire ç ã o : políoí e m Is 53.1 ls (e, por e xte n sã o , em Mc

14.24) é usado no s e n tid o de p á n te s = todos!

M as, co m o e n te n d e r m ais p re cisa m e n te este " to d o s " ? Q ue ca te g o ria s concretas de pessoas p o d e m ser n e le e n q u a d ra d a s ? Na discussão le v a n ta ra m -s e , so b re tu d o , d u a s hipóteses. De a c o rd o com a p rim e ira " m u ito s " d e ve ser e n te n d id o co m o " to d o s " , p o ­ rém , em se n tid o restrito a o p o vo ju d e u ; todos, neste caso, e q u iv a ­ le ria a todos os judeus. Esta é, p .e x ., a in te rp re ta ç ã o de Pesch e

B r o w n ( 3 2 ) A m b o s a rg u m e n ta m com o uso de rabim em C unrã, o n ­

de o te rm o é usado em s e n tid o in c lu s iv o para d e s ig n a r a p lu ra id a - de dos m em bros judeus da c o m u n id a d e : cf. 1 QS VI. 1,8,11 s,24; VI1.3 ,1 0 ,1 6 ,20s; VIII. 19, etc.

De a co rd o com um a se g u n d a h ipótese , os rabim c o m p re e n ­ de m ta n to ju d e u s co m o ge n tio s. Esta nos parece ser a h ip ó te se m ais p ro v á v e l: e la é fa v o re c id a , so b re tu d o , p elas segu id a s re fe ­

(31) Cf. J. Je re m ia s, T e o lo g ia d o N o v o Testam e nto, p. 203. C o m o o u tros e x e m p lo s p a ra o e m p re g o in c lu s iv o de potloí d e n tro d o N o vo T e stam e nto p o d e m ser cita d o s M t 22.14; Lc 7.4 7; Rm 5.1 5 (c o m p a ra d o com a expressão " to d o s os h o m e n s " de 5 .1 2 ); 1 Co 5.19; 12.5 (cf. com 1 Co 10.17); 15.22 e 10.33.

(32) Cf. R. Pesch, op. cit. (cf. no ta 26), p. 99s; C. B ro w n , a rtig o lytron, em O n o vo d ic io n á rio in te rn a c io n a l de te o lo g ia d o N o v o T e sta m e n to , v. 4, p. 99-101.

(16)

rências a g e n tio s nos e n u n c ia d o s sobre o servo de Javé (cf. Is 5 2 .14s; 4 2 .1 ,4 ,6 e 49.6s)(33). C oncordam o s por isto, com G n ilk a , q u a n d o a firm a :

Os m uitos constituem um term o usado com restrições nos escritos de Cunrã e re la cio n a d o com a com unidade. C onsiderando-se os hinos sobre o Servo de Deus, e n tre ta n ­ to, é im possível restringí-lo u nicam ente a Israel. Ele desig­ na a u niversa lid ad e dos vários povos, com o tam bém o Ser­ vo pode ser d e n o m in a d o de " lu z para todos os p o v o s "(34).

Se são corretas estas re fle x õ e s , tem os m o tivo s para supor qu e Jesus — a lu d in d o a Is 53.10-12 na expressão ypèr pollõn de M c 14.24 — e n te n d e u -a ig u a lm e n te em s e n tid o in c lu s iv o u niversa- listaí35). Se Jesus e n te n d e u sua m orte assim, co m o m orte v ic á ria pelos " to d o s " , p elos rabim , não é im possível q u e e le te n h a lig a d o esta sua co n sciê n cia s a lv ífic a s im u lta n e a m e n te à id é ia de um a n o ­ va a lia n ç a , q u e , a tra vé s da sua m o rte , v iria a ser se la d a . Isto e x p li­ ca ria a expressão " is to é o m eu sangue da aliança d e rra m a d o ", um a a lu sã o à a lia n ç a re fe rid a em Ex 24.3-8 e, v e la d a m e n te , à n o ­ va a lia n ç a re fe rid a em Jr 31.31. Esta re fe rê n c ia à a lia n ç a na e x ­ pressão "s a n g u e da a lia n ç a " é, no e n ta n to , m u ito c o n tro v e rti­ da na pesquisa, sendo qu e a q uestão pod e fic a r a q u i em a b e rto , já q u e não a lte ra a substância do e n te n d im e n to s a lv ífic o de Jesust36).

(33) Cf. sobre isto ta m b é m M . S chw antes, op. c it., p. 204, q u e usa a fig u ra dos círcu los co n ­ cê n tricos pa ra a in te rp re ta ç ã o dos rabim : o círcu lo com eça com os escravos, passa p e ­ lo p o vo de Israel em g e ra l e te rm in a e n g lo b a n d o in c lu s iv e os povos e reis. (34) Cf. J. G n ilk a , Das E v a n g e liu m nach M a rku s, V. 2, p. 246 (tra d u ç ã o p ró p ria ). (35) C ontra esta in te rp re ta ç ã o c o m u m e n te é a rro la d o o a rg u m e n to de q u e a m esm a

en co n tra -se em ten são com o e fe tiv o d e s e n v o lv im e n to d o tra b a lh o m is s io n á rio da co­ m u n id a d e das o r igen s q u e , in ic ia lm e n te , re strin g iu -se ao â m b ito do a n tig o p o vo e le ito (assim , p. e x ., R. Pesch, op. c it., p. 99, 122s). M as, tem os o d ire ito de pressupor q u e o d e s e n v o lv im e n to d o c ris tia n is m o p r im itiv o te n h a se d a d o se m p re e n e ce ssa ria m e n te e m p le n a c o n so n â n cia com a p re g a ç ã o e ação de Jesus? A d e m a is , co m o bem o d e ­ m o nstra a p e rs e g u iç ã o m o v id a con tra os p rim e iro s cristãos em Je ru sa lé m (A t 6.8ss; 7; 8.1 -3), nã o h a v ia nesta cid a d e um c lim a p ro p íc io pa ra um a m issão q u e qu estiona sse lei e te m p lo (cf. A t 6 .1 1 ,1 4 ) nos p rim ó rd io s do cristia n ism o .

(36) Há razões p a ra q u e s tio n a r a o r ig in a lid a d e do g e n itiv o tês d iath ékes na expressão " s a n g u e da a lia n ç a " . N o g re g o a co n struçã o g ra m a tic a l é rústica (m e lh o r serio : tò ai-

m a m ou tò tês d ia th é k e s !). N o h e b ra ic o /a ra m a ic o nã o é possível d e ix a r um g e n itiv o

d e p e n d e r de um n o m e com s u fix o p ro n o m in a l (cf. Lohse, M ä rty re r und G otteskne cht, p. 124), ou seja, em construções com o status constructus o s u fix o tin h a qu e v ir o b rig a ­ to ria m e n te no fin a l (h e b ra ic o : dam b e riti; a ra m a ic o : ad am qejam i: cf. Je re m ia s, Die A b e n d m a h ls w o rte Jesu, p. 187). Estas d ific u ld a d e s são um in d íc io de q u e este g e n itiv o

(17)

1.3. Q uestões de historicidade

H a v e n d o c o m p a ra d o o te xto de M c com o de Paulo e te c id o breves consid e ra çõ e s sobre o c o n te ú d o de M c 14.22-25, estam os a g o ra em cond içõ e s d e e x a m in a r o te xto q u a n to a o seu m a io r ou m e n o r g ra u de p ro b a b ilid a d e de re m o n ta r a o p ró p rio Jesus de N a ­ zaré. Interessa-nos, pois, a g o ra , saber c o n c re ta m e n te , se o e n te n ­ d im e n to s a lv ífic o da m o rte d e Jesus c o n tid o nos d ito s sobre o c o rp o e o c á lic e é expressão de um a fé pós-pascal da c o m u n id a d e p rim i­ tiv a ou rep re se n ta um te s te m u n h o da p ró p ria co n sciê n cia d o Jesus d e N azaré.

Para re s p o n d e r a esta qu e stã o , fa z e m o s uso de a lg u n s c rité ­ rios d e s e n v o lv id o s p e la pesquisa e x e g é tic a dos ú ltim o s d e c ê n io s e la r g a m e n te e m p r e g a d o s e m e s tu d o s m a is re c e n te s ^ 37). C o n ce n tra r-n o s-e m o s, neste ú ltim o passo, sobre o d ito do cá lice , M c 14.24.

C om o p rim e iro c rité rio o rie n ta d o r tem os o assim ch a m a d o

critério de m últipla atestação. S egu n d o o m esm o

pode-se considerar com o a utê ntico um dad o que se encon­ tra atestado em todas ou quase todas as fontes dos sinóticos (Q, Mc, fontes especiais) e por outros escritos do N ovo Tes- ta m e n to í3®).

A e v id ê n c ia q u e p o d e m o s e x tra ir dos textos a p a rtir deste c rité rio fa v o re c e a sua h is to ric id a d e : um a re fe rê n c ia a o se n tid o s a lv ífic o d a d o por Jesus a sua m o rte p o r o ca siã o d e sua ú ltim a C eia é a testada

" d a a lia n ç a " p o d e te r sido um a cré scim o p o s te rio r, e m b o ra n ã o p recise sê -lo necessa­ ria m e n te . C om o a e xp ressão se e n c o n tra lite ra lm e n te em Ex 24.8, n ã o se p o d e d e scar­ ta r a p o s s ib ilid a d e de " s a n g u e da a lia n ç a " ser o rig in a l e c o n s titu ir u m a a lu s ã o d ire ta a esta passagem . Isto e x p lic a ria ta m b é m m ais fa c ilm e n te co m o e p o rq u e o p re d ic a d o "s a n g u e da a lia n ç a " p ô d e ser s u b stitu íd o m ais ta rd e po r " n o v a a lia n ç a " (no m e u san­ g u e ): caso o r ig in a lm e n te constasse só "s a n g u e d e rra m a d o ", a asso cia ção com um a no va a lia n ç a (v id e em P aulo) n ã o se ria tã o ló g ica assim (em Is 53.10-12 n ã o há re fe ­ rê n c ia à a lia n ç a !). Som a-se a isto o fa to de a esp e ra n ça po r um a no va a lia n ç a d o tip o d a de Jr 31.31 ss ser c o rre n te na é p o ca de Jesus (cf. J. J e re m ia s, op. cit. p. 188). (37) Há um a vasta lite ra tu ra a re sp e ito . A m e lh o r in fo rm a ç ã o em p o rtu g u ê s é pre sta d a p e lo

liv ro de F. La m biasi, A u te n tic id a d e h istó rica dos e v a n g e lh o s — Estudo d e c rite rio lo g ia , P aulinas, 1978. In fo rm a ç õ e s a re s p e ito p o d e m ser a d q u irid a s ta m b é m em N. P errin, O q u e e n sin o u Jesus re a lm e n te ? , p. 13-59; J. E. AA. Terra, O Jesus h istó rico e o C risto q u e - rig m á tic o , 156-166; J. J e re m ia s, T e o lo g ia do N o v o Testam e nto, p. 13-62; J. D rane, Je­ sus. Sua v id a , seu e v a n g e lh o p a ra o h o m e m de h o je , p. 197-201, e n tre outros. (38) Cf. J. E. M a rtin s Terra, op. c it., p. 157.

(18)

— p e lo e v a n g e lh o de M arcos;

— p e lo e v a n g e lh o de M ateus, d e p e n d e n te lite ra ria m e n te de M arcos;

— p e lo e v a n g e lh o d e Lucas, num te xto e v e n tu a lm e n te nã o d e ­ p e n d e n te de M arcos e p e rte n c e n te à m a té ria e x clu siva do te rc e iro e v a n g e lh o ;

— por um a a n tig a tra d iç ã o q u e Paulo leva a o c o n h e c im e n to dos coríntios em 1 Co 11.23-25.

Isto co n stitu i, sem som bras de d ú v id a , um a boa e v id ê n c ia .

Passemos, a s e g u ir, p a ra um s e g u n d o c rité rio , d e n o m in a d o de critério da descontinuidade. S egund o o m esm o

Podemos considerar a utê ntico um dado e va n g é lic o (sobre­ tudo em se tratando de palavras e de atitudes de Jesus) ir- reduzível, q ue r às concepções do judaísm o, que r às con­ cepções da igreja p r im it iv a ^ ) .

U m a fla g ra n te d e s c o n tin u id a d e e n tre a p a la v ra d e Jesus so­ bre o cá lic e e o ju d a ísm o reside no fa to de nem o ju d a ísm o im e ­ d ia ta m e n te a n te rio r nem o im e d ia ta m e n te p o s te rio r a Jesus terem in te rp re ta d o as a firm a ç õ e s de Isaías 53.10-12 sobre o Escravo de Javé num s e n tid o s a lv ífic o u n ive rsa l. E m ais do qu e n o tó rio que nem o ju d a ísm o p a le stin e n se nem o da d iá sp o ra e x p lo ra ra m as a firm a ç õ e s deste h in o para a sua te o lo g ia sobre a e x p ia ç ã o v ic á ­ ria ; E. Lohse, e m sua o b ra M ä rty re r und G o tte skn e ch t, c o m p ro v a o fa to de fo rm a c o n v in c e n te . Q u a n d o o ju d a ísm o p o ste rio r in te rp re ­ ta va Is 53 m e ssia n ica m e n te , e n tã o o fa z ia sobre a q u e la s partes qu e tra ta m da e x a lta ç ã o , não do s o frim e n to do Servo de Javé. A id é ia q u e o ju d a ísm o fa z ia do seu s a lv a d o r não era e x a ta m e n te c o m p a tív e l co m o c a m in h o d a h u m ilh a ç ã o , u ltr a je e p a d e c im e n to (40): textos co m o M c 8.31 ss e 10.35ss o atestam c la ra ­ m e n te . A lé m disso, p a ra os ju d e u s não era a d m issíve l q u e a m orte v ic á ria de a lg u é m fosse b e n e fic ia r a " to d o s " , isto é, a judeus e p a ­ gãos: " p a r a povos (g e n tio s) nã o existe re s g a te ", d iz um d ito ra b

i-(39) Cf. F. La m biasi, op. c it., p. 156.

(40) Cf. p a ra as e x p e c ta tiv a s m essiânicas ao te m p o de Jesus os a rtig o s c o rre sp o n d e n te s nos d ic io n á rio s b íb lico s. V e ja ta m b é m H. G. K ip p e n b e rg /G . A. W e w e rs , T e xtbuch zur n e u te s ta m e n tlic h e n Z e itg e s c h ic h te , p. 208ss; E. S chürer, The histo ry o f the J e w ish p e o ­ p le in the a g e o f Jesus C hrist, v. 2, p. 488ss; H. D aniel-R ops, A v id a d iá ria nos tem pos de Jesus, p. 273-276, e n tre outros.

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nico. Disto pode-se c o n c lu ir: Se Jesus in te rp re to u sua m o rte com o s a lv ífic a a p a rtir d e Is 53, c e rta m e n te nã o o fe z in flu e n c ia d o p e lo ju d a ísm o de sua é p oca.

De fo rm a s e m e lh a n te ta m b é m é im p ro v á v e l q u e M c 14.24 te n h a se o rig in a d o s e c u n d a ria m e n te no c e io da c o m u n id a d e p ri­ m itiv a . A ra zã o é a s e g u in te : a o c o n trá rio d o q u e se p o d e ria supor à p rim e ira vista, as c o m u n id a d e s p rim itiv a s p a le s tin a e h e le n ista era m a lta m e n te reservadas q u a n to a re fe rê n c ia s e x p líc ita s a Is 53.10-12 em c o n e x ã o com a p ro c la m a ç ã o da m o rte e x p ia tó ria de Jesus(41). Na v e rd a d e , com e xce çã o d e M c 10.45 e 14.24 (e p a ra le ­ los), em to d o o NT n ã o há n e n h u m a o u tra passagem o n d e a re fe ­ rê n c ia à e x p ia ç ã o v ic á ria u n ive rsa l de C risto v e n h a s im u lta n e a ­ m e n te a c o m p a n h a d a po r um a a lu sã o d ire ta a Is 53.10-12. Pelo m e ­ nos, n ã o existem outras passagens a lé m das duas citadas, o n d e o a firm a d o possa ser co n sta ta d o com cla re za e sem som bra d e d ú v i- dasí42).

Um te rc e iro c rité rio , a o q u a l passam os a nos re fe rir, é co­ n h e c id o co m o critério da conform idade. N este caso

uma p alavra ou ação de Jesus tem tanto m ais p ro b a b ilid a ­ de de ser o rig in a l, q ua nto mais c o in c id ir e estar em co n fo r­ m idade com as características fu n d a m e n ta is de sua m ensa­ gem e atitudes^43).

Este c rité rio le v a n ta duas questões na nossa te m á tic a . Se é ce rto q u e a expressão aim a ekchynóm enon = " m e u sangue q u e é d e rra m a d o ” não s ig n ific a senão " m in h a pessoa a ser m o rta /e u a so fre r m o rte v io le n ta " , a p rim e ira q u e stã o a tra ta r é p ro c u ra r v e ri­ fic a r se Jesus re a lm e n te co ntou ou não com um a m o rte v io le n ta . A s e g u n d a q u e s tã o d e c o rre á u in te rp re ta ç ã o in c lu siva de

polloí = m uitos, no s e n tid o de " to d o s " . A q u i tem os q u e nos p e r­

(41) A q u a n tid a d e de passagens a lis ta d a s ao la d o de Is 53.10-12 no N e s tle -A la n d , N o vu m T e stam e ntum G ra e ce , p. 761, po d e causar um a im pressão b e m e rrô n e a sobre nosso assunto!

(42) C oub e a H. Patsch, A b e n d m a h l un h isto risch e r Jesus, p. 158-170, c o m p ro v a r isto a tra ­ vés de a n á lise s m in u cio sa s e crite riosas.

(43) J. E. M a rtin s Terra, op. c it., p. 160 cita I. DE LA POTTERIE, q u e c a ra c te riz o u este c rité rio da se g u in te m a n e ira : " u m d ito ou um fa to d e Jesus d e v e m inse rir-se be m no a m b ie n te p a le stin e n se e p a rtic u la rm e n te na m issão m e sm a de Jesus, p o ré m , s o b re tu d o , com as ca racterísticas fu n d a m e n ta is d e sua m e n sa g e m , (a p re g a ç ã o d o R eino m e ssiâ n ico e e sc a to ló g ic o , re a liz a d o com Ele e n e le )" .

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g u n ta r: o fa to de Jesus ter e n te n d id o sua m o rte co m o s a lv ífic a p a ­ ra todos, n ã o va i co n tra sua m issão p re fe re n c ia lm e n te d irig id a às o ve lh a s p e rd id a s da casa de Israel (M t 10.6)?

Q u a n to à p rim e ira q u e stã o é possível ser b re ve . Há consen­ so na pesquisa de q u e Jesus teve um a co n sciê n cia m u ito n ítid a de q u e p o d e ria v ir a so fre r m o rte v io le n ta . E, de fa to , n ã o há razões p a ra d u v id a r disto. Q u e m , co m o e le , p õ e em x e q u e os dois fu n d a ­ m entos p rin c ip a is d o ju d a ísm o , o te m p lo e a lei (cf. M c 11.13ss; 7. lss: M t 5.33ss), mas ta m b é m to d a a base de p o d e r sobre a q u a l sustentava-se o Im p é rio R om ano (cf. M c 10.42ss); q u e m , co m o e le , assum iu a causa de pobres d o e n te s e m a rg in a liz a d o s , n ã o p o u ­ p a n d o o c o n flito e a crítica às classes sociais e re lig io s a s re p re se n ­ ta tiva s da sua é p o ca (cf. M c 2 — 3.6; M t 5.3-12/Lc 6.20-26; M t 23, e tc.), tin h a qu e co n ta r com a p o s s ib ilid a d e de m orte v io le n ta , caso não fosse de e x tre m a in g e n u id a d e . M as, in g e n u id a d e a este res­ p e ito , c e rta m e n te não é o caso de Jesus, co m o n ô -lo d e m o n stra m os vá rio s textos q u e se g u e m : cf. M c 8.31; 9.31; 10.33s; 2 . 19s; 10.38,45; 12.1-12; 14.3-9,18-21,27,32-42; Lc 13.31-33(44).

Q u a n to à se g u n d a q u e stã o , é preciso d iz e r in ic ia lm e n te qu e Jesus n a tu ra lm e n te era um filh o de sua é p o ca e, p o rta n to , li­ m ita d o ao seu te m p o e espaço. Um a m issão aos g e n tio s, com o m ais ta rd e seria e m p re e n d id a por Paulo e outros, e le não fe z e nem constava d o seu p ro je to de a tu a çã o . Esta é a v e rd a d e po r trás de M t 10.6. N ão s ig n ific a isto, p o ré m , qu e os g e n tio s não estives­ sem ta m b é m d e n tro de sua p e rsp e ctiva s a lv ífic a ou da p e rsp e ctiva sa lv ífic a de Deus, da q u a l e le se c o n s id e ra v a o le g ítim o p o rta -vo z. Textos co m o o do a te n d im e n to d e Jesus a o p e d id o da m u lh e r siro- fe n íc ia (Mc 7 .2 4 -3 0 /M t 15.21-28) e a o p e d id o d o c e n tu riã o de Ca- fa rn a u m (Lc 7 . 1 -1 0 /M t 8.5ss) d ã o disto um a p ro va in co n te stá ve l. Em outros ditos Jesus m ostra até q u e g e n tio s p re c e d e rã o ou m esm o o c u p a rã o os lugares o u tro ra p e rte ce n te s a judeus no p ro je to do re in o : cf. M t8 .1 1 s /L c 13.28s; M t 11,20-24/Lc 10.13-16; Lc 4.24-27; Lc 14 .1 5 -2 4 /M t 22.1-10. O c o n v ite d o re in o , assim crem os te r Jesus d e m o n s tra d o com p a la v ra s e ações, não d e s c rim in a ou separa, mas é um a o fe rta g raciosa a q u a l " to d o s " p o d e m ter acesso. A o c o n trá rio d o q u e fa z ia a re lig iã o e a so cie d a d e de sua é p o ca , Jesus se sente v o c a c io n a d o a ro m p e r com as b a rre ira s d e s c rim in a tó ria s e

(4 4) Cf. d e ta lh e s sobre isto em B. Ferraro, A s ig n ific a ç ã o p o lític a e te o ló g ic a da m o rte de Jesus, p. 101-116.

Referências

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