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A constituição do humano na aprendizagem

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU MESTRADO EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS

ELAINE DE FÁTIMA DUDEL MAYER

A CONSTITUIÇÃO DO HUMANO NA APRENDIZAGEM

Ijuí (RS) 2013

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ELAINE DE FÁTIMA DUDEL MAYER

A CONSTITUIÇÃO DO HUMANO NA APRENDIZAGEM

Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação Stricto Sensu, Mestrado em Educação nas Ciências, Linha de Pesquisa: Teorias Pedagógicas, Dimensões Éticas e Políticas da Educação, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências.

Orientador: Prof. Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer

Ijuí (RS) 2013

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A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação

A CONSTITUIÇÃO DO HUMANO NA APRENDIZAGEM

elaborada por

ELAINE DE FÁTIMA DUDEL MAYER

como requisito parcial para a obtenção do grau de

MESTRE EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS

BANCA EXAMINADORA:

_______________________________________________________ Prof. Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer, Orientador (Unijuí)

______________________________________________________ Profª Drª Elza Maria Fonseca Falkembach (Unijuí)

______________________________________________________ Prof. Dr. José Pedro Boufleuer (Unijuí)

_______________________________________________________ Prof. Dr. Ricardo Rezer (Professor Externo-Unochapecó)

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AGRADECIMENTOS

A Deus, pelo sopro de vida e espírito inquieto que me fazem seguir sempre em procura de melhorias e do aperfeiçoamento do ser.

Aos meus pais, a quem tudo devo, pela base genética e cultural, responsável pela minha constituição como ser humano-gente.

Ao meu esposo e filhos, por serem a minha força, o meu porto seguro, apoiando e incentivando no movimento de procura por conhecimento e crescimento pessoal.

Ao corpo docente do curso de Mestrado em Educação da Unijuí, composto de pessoas conscientes do seu papel formador, com as quais muito aprendi na ampliação dos meus conhecimentos e aprendizagens de conteúdos.

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RESUMO

O homem como cocriador de sua própria existência tem na educação um modo específico de inserção e reprodução cultural. Para além desse amplo sentido de educação que o indivíduo adquire com os mais próximos, as sociedades modernas desenvolveram a Educação Escolar, que é realizada por intermédio de uma instituição e de professores que possuem a responsabilidade do ensinar/aprender de modo sistemático. O presente estudo procura um melhor entendimento a respeito das razões pelas quais flui a educação na constituição humana, seja pelo ensino/aprendizagem, em meio familiar-cultural e ou escolar. As indagações a que se pretende responder nesta pesquisa envolvem a compreensão da aprendizagem por meio da pedagogia na relação educativa entre humanos, ou seja, entre seus familiares, comunidade e instituição escolar, especialmente entre educadores e educandos. O perfil metodológico ora utilizado enfatizou a abordagem qualitativa mediante revisão de literatura. Assim, sua perspectiva está baseada no pensamento de escritores da área da Educação, tais como: Paulo Freire, Mario Osorio Marques, Angel Pino, Fernando Savater, Miguel Arroyo, Edgar Morin, Lev Semenovich Vigotsky e Gerard Guillot, os quais evidenciam que o educador é o que conhece os conteúdos que são objetos de ensino, enquanto o educando é o que ainda não se apropriou dos mesmos. Inicialmente, o estudo mostra, em sentido amplo, como se desenvolvem as primeiras aprendizagens, e apresenta alguns entendimentos quanto ao nascimento biológico e cultural do ser humano. Aborda, também, a aprendizagem humana na especificidade escolar, ou seja, de quem ensina e os desafios do ensinar. E, finalmente, traz o papel do educador na especificidade da escola, o trabalho docente, a responsabilidade na atuação diante do aprendizado de seu discente e a educação escolar como necessidade social. A partir dos resultados obtidos é possível compreender a infinitude da aprendizagem humana, em que cada indivíduo nasce propenso a aprender a forma humana de ser, e para isso terá de ser auxiliado e se esforçar para que de fato se comprove essa característica. Nesse sentido, a atuação docente na relação educador x educando é responsável pela formação de pessoas que atuam em sociedades desenvolvidas e complexas. Esta pesquisa pode contribuir para o aprimoramento do ambiente educacional, o processo de aprendizagem, a relação docente/ discente e o convívio social, uma vez que visa a explicitar a especificidade de cada âmbito educacional e das responsabilidades de seus atores. Palavras-chave: Educação. Aprendizagem. Pedagogia. Humano.

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RESUMEN

El hombre como cocriador de su propia existencia tiene en la educación un modo específico de inserción y reproducción cultural. Además de ese sentido amplio de educación que el individuo adquiere con los más cercanos, las sociedades modernas han desarrollado la Educación Escolar, que es realizada por intermedio de una institución y de profesores que poseen la responsabilidad de la enseñanza/del aprendizaje de modo sistemático. Este estudio procura un mejor entendimiento a respecto de las razones por las cuales fluye la educación en la constitución humana, sea por la enseñanza/el aprendizaje, en el medio familiar-cultural y o escolar. Las indagaciones a que se pretende responder en esta pesquisa envuelven la comprensión del aprendizaje por medio de la pedagogía en la educación entre humanos, o sea, entre sus familiares, comunidad e institución escolar, especialmente entre educadores y educandos. El perfil metodológico ora utilizado enfatizó el abordaje cualitativo mediante revisión de la literatura. Así, su perspectiva se basa en el pensamiento de escritores del área de la Educación, como: Paulo Freire, Mario Osorio Marques, Angel Pino, Fernando Savater, Miguel Arroyo, Edgar Morin, Lev Semenovich Vigotsky e Gerard Guillot, los cuales evidencian que el educador es lo que conoce los contenidos del conocimiento, en cuanto el educando es lo que aún no los descubrió. Inicialmente, el estudio muestra, en sentido amplio, como se desarrollan los primeros aprendizajes, y presenta algunos entendimientos cuanto al nacimiento biológico y cultural del ser humano. Aborda, también, el aprendizaje humano en la especificidad escolar, o sea, de quién enseña y los desafíos de la enseñanza. Finalmente, trae el papel del educador en la especificidad de la escuela, el trabajo docente, la responsabilidad en la actuación delante del aprendizaje de su discente y la educación escolar como necesidad social. De los resultados obtenidos es posible comprender la infinitud del aprendizaje humano, en que cada persona nace propensa a aprender el modo humano de ser, y para eso tendrá de ser ayudado y esforzarse para que, de hecho, se demuestre esa característica. En ese sentido, la actuación docente cuanto al educador x educando es responsable por la formación de personas que actúan en sociedades desarrolladas y complejas. Esta pesquisa puede contribuir para el mejoramiento del ambiente educacional, el proceso de aprendizaje, la relación docente/discente y el convivir social, una vez que su objetivo es explicitar la especificidad de cada ámbito educacional y de las responsabilidades de sus actores.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 8

1 A CONSTITUIÇÃO DO HUMANO COMO ESPÉCIE APRENDENTE ... 10

1.1 O NASCIMENTO BIOLÓGICO E CULTURAL ... 10

1.2 A FAMÍLIA E OS VALORES NA EDUCAÇÃO ... 19

1.3 A APRENDIZAGEM HUMANA ... 26

2 A APRENDIZAGEM NO ESPAÇO ESCOLAR ... 29

2.1 A INTERVENÇÃO ESCOLAR ... 29

2.2 O OLHAR HUMANO DE QUEM ENSINA ... 45

2.3 OS DESAFIOS DO ENSINAR ... 52

3 O LUGAR DA DOCÊNCIA ... 57

3.1 O PAPEL DO(A) PROFESSOR(A) ... 57

3.2 A ÉTICA NA ATUAÇÃO DOCENTE ... 67

3.3 O TRABALHO DOCENTE ... 72

3.4 A EDUCAÇÃO COMO UMA NECESSIDADE SOCIAL ... 80

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 87

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INTRODUÇÃO

A presente investigação traz uma melhor compreensão do fato de a Educação ser fundamental na constituição humana, em especial o ensino/aprendizagem, tanto em meio familiar-cultural como escolar. A constatação evidencia o ser humano como um ser aprendente que embora nasça com as potencialidades inerentes à espécie, necessita de sua potencialização para assumir a condição humana relativa ao tempo-espaço em que emerge.

O nascimento biológico e cultural que caracteriza o humano articula o ser e o aprender de modo contextual e singular. A família, em suas diferentes formas, serve de base para que o neófito encontre apoio necessário no longo período de sua formação. O homem é o único animal, que por adquirir conhecimentos, desenvolve gradativamente a arte de aprender, e necessita da intervenção de outros humanos para adquirir a forma humana de ser. A educação é uma forma encontrada pelo homem para se constituir como família e como sociedade.

O ser humano é, por excelência, o ser do aprender, pois desde o seu nascimento evolui e aprende com outros seres humanos. Tudo aprende, inclusive a ser gente, pois ninguém nasce ou já nasceu sabendo, e se sabe é porque aprendeu com alguém. Aprende porque foi ensinado e o desenvolvimento da disciplina pode potencializá-lo para novas aprendizagens.

O homem como cocriador de sua própria existência percebeu a necessidade da educação como forma humana de ser. De modo que se pode entender a educação como o ato ou efeito de (se) educar, ou seja, é um processo de desenvolvimento da capacidade intelectual, moral e física do ser humano. A educação que o indivíduo adquire com os mais próximos (familiares), entretanto, é mais cultural, contém crenças e valores, tais como um credo, uma religião, balizadores dos princípios morais, cujas orientações formam a sua maneira de ser.

A educação escolar é assumida por uma instituição que tem por objetivo primeiro instruir, capacitar, de modo que é exercida por especialistas – professores(as) que possuem a responsabilidade do ensinar/aprender. O(a) professor(a) possui a função de dominar os conteúdos científicos com os quais vai trabalhar, e o(a) aluno(a) vai para a escola para aprendê-los, a fim de se tornar apto a conviver e atuar em sociedade.

Assim, em seu primeiro capítulo este estudo apresenta alguns entendimentos quanto à aprendizagem do ser humano no sentido amplo – o nascimento biológico e cultural, em que ocorrem as primeiras aprendizagens na relação pedagógica familiar e a apropriação da educação pela espécie humana.

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Na sequência, o segundo capítulo aborda a especificidade da educação e da intervenção escolar na aprendizagem humana, em que são disponibilizados conhecimentos especializados e sistemáticos, com vistas a potencializar as novas gerações para as complexidades das sociedades modernas.

E, finalmente, no terceiro e último capítulo constam reflexões acerca do papel do educador na especificidade da escola, a ética na atuação docente, o trabalho e a responsabilidade do educador diante do aprendizado de seu discente, e a educação escolar como necessidade social. O perfil metodológico ora utilizado enfatizou a abordagem qualitativa mediante revisão de literatura. Assim, sua perspectiva está baseada no pensamento de escritores da área da Educação, tais como: Paulo Freire, Mario Osorio Marques, Angel Pino, Fernando Savater, Miguel Arroyo, Edgar Morin, Lev Semenovich Vigotsky e Gerard Guillot, através dos quais, procura-se o entendimento da aprendizagem concebida pela Pedagogia na relação educativa entre humanos, ou seja, entre familiares, comunidade e instituição escolar, especialmente entre educadores e educandos. Em função de a educação escolar estar sendo questionada quanto ao seu papel formador perante a sociedade informatizada. Informação é diferente de saber ou conhecimento mais aprofundado de um assunto, objeto de estudos. Com isso evidencia-se que o educador é o que conhece os conteúdos que são objetos de ensino, enquanto o educando é o que ainda não se apropriou dos mesmos. Por essa razão, a relação é conceituada como pedagógica.

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1ACONSTITUIÇÃODOHUMANOCOMOESPÉCIEAPRENDENTE

“A vida não se resume a uma coisa, mas sim a sentimentos, reflexões, experiências, contextos, momen-tos e recordações” (BOWELL, 2005, p. 4).

1.1 O NASCIMENTO BIOLÓGICO E CULTURAL

Inicialmente pretende-se responder alguns questionamentos quanto à formação do ser humano, sua constituição como pessoa, o seu desenvolvimento, a inserção cultural e a aprendizagem. O nascimento em meio familiar-cultural tem como base o biológico na sua estrutura hereditária, fundamental para seu desenvolvimento, aprendizagem e inserção no meio social, onde ocorre a interação com outros humanos com vistas à sua formação. Apresenta, então, um pouco da histórica e fantástica aventura do homem como um ser que ao longo dos séculos aprendeu, repetiu, viu que deu certo, refletiu, apostou e acreditou em sua própria consciência de que aprender é uma das formas mais elementares para a preservação da própria espécie. A ação do homem perante seu meio fez surgir a consciência de si mesmo, de seu entorno e dos demais. Nesta perspectiva, para Ernani Maria Fiori (apud FREIRE, 1981, p. 8), “É um comportar-se do homem frente ao meio que o envolve, transformando-o em mundo humano”.

Desde os primórdios dos tempos aos dias atuais, de geração em geração o ser humano vem evoluindo, entre tentativas que foram bem sucedidas e outras nem tanto, e que deram impulso para novas investidas. Segundo Pino (2005, p. 15), “O homem como criador da condição humana da sua natureza”, envolve a todos em uma interessante pesquisa sobre a natureza humana. A necessidade é uma das inquietudes do homem que o leva a refletir, transformar e recriar sua condição. Freire (1981, p. 29, grifo do autor) assim discorre: “Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem, a si mesmos, como problema. Pouco sabem de si, de seu pôsto no cosmos, e se inquietam por saber mais. Nesse sentido, Pino (2005, p. 16) expressa que: “A consciência surge, portanto, no distanciamento do homem da natureza que lhe permite fazer dela o objeto de sua ação”. Esta visão também é compartilhada por Freire (2001, p. 29, grifo do autor) ao afirmar que: “Os homens são capazes de agir conscientemente sobre a realidade objetivada. É precisamente isto, a práxis humana, a unidade indissolúvel entre minha ação e minha reflexão sobre o mundo. O nascimento familiar-cultural concede a aprendizagem sobre si, seu meio e a natureza que, queira ou não, já estava ali presente desde o momento da primeira respiração.

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Sendo natureza e pertencendo ao meio humano, o homem precisa desenvolver-se e aprender. No seio familiar é primordial que seja proporcionada atenção ao recém-nascido, visando ao seu desenvolvimento e aprendizagem, traduzida em educação. De acordo com Vigotsky (2007, p. 100), “O aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daqueles que a cercam”. Isso demonstra o quanto cada geração é responsável por seus ascendentes que vêm se desenvolvendo e, assim, consecutivamente.

Possivelmente, a educação, tanto familiar quanto escolar, seja uma das formas mais sucintas de o ser humano desenvolver a noção da própria existência. Acredita-se que a base do seu aprendizado e de sua educação aconteça no meio familiar-cultural, dependendo de noções que envolvem o ser no centro de seu universo, ser com os outros, incluído em um tempo de aprender. Diante de fragilidade humana concorda-se com Pino (2005, p. 43) ao discorrer que:

A fragilidade do bebê humano no momento de nascer e sua insuficiência para sobreviver por conta própria fazem dele, efetivamente, o mais indefeso dos mamíferos. Durante muito tempo, bem mais do que aquele que as crias de animais mais próximos do ser humano precisam para adquirir sua autonomia, a sobrevivência do bebê humano depende totalmente da solidariedade dos seus semelhantes, em particular dos pais.

Supõe-se que haja a interferência de outros humanos para que a aprendizagem, desde logo, seja assumida como parte essencial do ser. E que a conscientização, conforme Freire (2001, p. 31), “se apresente como um processo num determinado momento, que deve continuar sendo processo no momento seguinte, durante o qual a realidade transformada mostra um novo perfil”. Aprender e evoluir como ser de espécie humana é determinante, pois já traz consigo, como descreve Pino (2005, p. 30-31, grifos do autor), “Duas funções, as naturais, regidas por mecanismos biológicos, e as culturais, regidas por leis históricas”. Aliado à importância do ensinar ou do aprender é fundamental saber que:

a razão e o afeto, qualidades tipicamente humanas, são, sem sombra de dúvida, forças poderosas para garantir aos frágeis bebês humanos a sua sobrevivência na sociedade adulta; pode-se afirmar, então, que a aparente condição de inferioridade e de prematuridade do bebê humano, em vez de se constituir uma perda e um obstáculo ao seu desenvolvimento, representa, pelo contrário, um enorme ganho e um grande meio de desenvolvimento, uma vez que possibilita que possa ser “educado”, ou seja, que possa beneficiar-se da experiência cultural da espécie

humana para devir um ser humano. Nesse caso, a aparente desvantagem em termos

biológicos constitui uma vantagem em termos culturais (PINO, 2005, p. 46, grifos do autor).

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Educação requer consideração, exige respeito pelo outro, tanto dos adultos pelos adolescentes e crianças quanto das crianças e adolescentes pelos adultos. Mesmo tendo origem em um meio cultural específico e aprendendo sobre esse meio, o bebê humano necessita da atenção de outro humano para que seu desenvolvimento aconteça de maneira saudável. O afeto, o aconchego, o sentir-se bem-vindo, são itens fundamentais para o desenvolvimento, e habilitam o homem a aprender a sua cultura e as demais, inclusive a respeitar outras formas de vida que ameaçam interferir no seu meio e em sua própria aprendizagem. Evidencia-se, no meio escolar, e de maneira precoce, a falta de identificação, o tempo dessa construção humana por meio do afeto, o acompanhamento nesse desenvolver e crescer aprendendo. A educação que se dá pela atenção, contudo, é uma das formas de construção humana que somente um humano pode fazer pelo outro.

Na aprendizagem, segundo Marques (2006, p. 18), “constitui-se em suma, a humanidade e se constituem os homens e seus grupos, pela ação comunicativa e na hermenêutica reconstrutiva das tradições, de face aos desafios dos sempre novos tempos e no imperativo da emancipação humana”. As faculdades mentais do ser humano somente se desenvolvem a partir do momento em que ele entra em contato com outras fontes mentais que o ajudam a desenvolver o conhecimento e a aprendizagem. Tudo se aprende, inclusive a ser gente e, de forma humana, a acreditar na capacidade do outro, ou de maneira desumana a humilhar, oprimir e excluir, cujo modelo geralmente é copiado e usado da mesma forma mais tarde. No contexto biológico e cultural, Pino (2005, p. 47) ressalta: “A origem social das funções mentais superiores ou culturais, é que a história do ser humano implica um novo nascimento, o cultural, uma vez que só o nascimento biológico não dá conta da emergência dessas funções definidoras do humano”. Nesse sentido Vigotsky questiona:

Mas, se existe um nascimento cultural deve existir também, um hipotético momento

zero cultural. A razão é simples: se as funções culturais têm que se “instalar” no

indivíduo é porque elas ainda não estão lá, ao contrário do que ocorre com as funções biológicas que estão lá desde o início da existência, nem que seja de forma embrionária (apud PINO, 2005, p. 47, grifos do autor).

A cultura, de acordo com Marques (2006, p. 19), pode ser entendida como a simbologia do ser, a qual adequa o indivíduo ao mundo dos homens. Nesse momento, o intelecto é acionado e remete o indivíduo a uma aprendizagem interminável, muito diferente da dos animais, pois se constitui num sujeito incompleto e, consequentemente, eterno aprendiz. Como bem salienta Freire (2001, p. 94), “A educação crítica considera os homens

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como seres em devir, como seres inacabados, incompletos em uma realidade igualmente inacabada e juntamente com ela”. O autor reconhece que,

encontram-se as raízes mesmas da educação como fenômeno puramente humano. O caráter inacabado dos homens e o caráter evolutivo da realidade exigem que a educação seja uma atividade contínua. A educação é continuamente refeita pela práxis. Para ser deve chegar a ser (FREIRE, 2001, p. 94).

Mediante a noção do inacabado, a educação, no entendimento de Freire (2001), não deve jamais ser abrupta ou excludente. Ela é, por excelência, uma construção que vai acrescentando o saber ao outro, e se modificando conforme é realizada e observada pelo próprio homem, proporcionando-lhe o desenvolvimento e o crescimento como indivíduo. Vigotsky (2007) critica ainda a intervenção educacional que se arrasta ao longo dos processos psicológicos ao invés de focalizar as capacidades e as funções emergentes. Ao considerar esses estudos percebe-se a importância da humanização do processo ensino-aprendizagem, a exemplo do olhar de quem ensina, a observação das diferenças de cada um dos aprendizes, e a necessária presença do outro para que na interação ocorra a grande façanha de aprender e ensinar, que somente o homem é capaz de realizar. Já o ato de aprender e o desenvolvimento são definidos por Vigotsky (2007, p. 103) como:

O aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança.

O ser humano, portanto, em sua singularidade, pode absorver a cultura do local aonde nasce, sendo por essa mesma cultura inserido no meio humano. Pela singularidade desenvolve uma pluralidade de gestos, jeitos, sons da voz, alimentação, maneira de ser e de se comportar, sendo dependente e ao mesmo tempo independente em suas conquistas e aprendizagens, mediante a criação de um jeito único, apesar das várias cópias que faz durante a sua formação. Como lidar com as diferentes individualidades? O ser humano possui uma história geral e outra pessoal, sendo único entre tantos semelhantes, e essa individualidade é o que acrescenta ao outro e a si a aprendizagem. É nessa diferença que ocorrem as grandes descobertas, como por exemplo, que a dificuldade de alguém pode ser sanada por outro ser com facilidade. A ajuda mútua provoca um grande salto no desenvolvimento intelectual, tanto para quem ajuda quanto para quem é ajudado. Quem ajuda aprende ainda mais, se afirma no que já sabe, e quem é ajudado acaba compreendendo o que ainda não sabia. E, assim, o

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avanço do conhecimento também permeia a vida em nosso planeta e vai sucessivamente se desenvolvendo de uma maneira significativa e complementar de geração em geração, em beneficio de uma humanidade. Saber algo significa que alguém ensinou, pois ninguém nasce sabendo. Deve-se ser sempre grato ao que já se aprendeu, por isso humildade e paciência são necessárias na capacidade de ensinar.

São várias e diferentes culturas, e todas elas levam à simbologia da espécie humana, em cujo seio é inventada a forma de ser. Uma dessas formas é a educação, que diferencia o ser humano de outras espécies que fazem parte da natureza. Desenvolve-se, assim, a história geral e pessoal de cada ser, como bem afirma Vigotsky,

Se o desenvolvimento daquele não é uma simples repetição do desenvolvimento desta, todavia, na medida em que o desenvolvimento da espécie é a história da sua

humanização e o do indivíduo é a história da humanização de cada membro dessa

espécie, conclui-se que este é um caso particular daquele ou, em outros termos, que a história pessoal de cada indivíduo é um caso particular da história geral da espécie (apud PINO, 2005, p. 52, grifo do autor).

Cultura e crenças são valores inseridos desde a mais tenra idade. A mãe ou cuidadores são os grandes incentivadores do personagem humano que aí vai se formando e se inserindo em meio à sociedade à qual pertence. Em meio ao coletivo, e cada vez mais dando conta de si, de seu jeito, o sujeito passa a fazer parte dessa geração, contribuindo com seu meio à sua maneira de ser. Pode-se perceber o quanto esse trabalho coletivo faz com que cada ser que nasce se torne da espécie por meio da educação. Freire (1996, p. 77, grifos do autor) destaca de maneira realista a condição humana do masculino e do feminino ao afirmar:

Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de aprender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada.

História e cultura são as grandes fontes que formam o indivíduo desde o nascimento. Mesmo em sociedades mais remotas as marcas do humano já estavam presentes devido à forma de se comportar e à transmissão de conhecimentos. Marques (1993, p. 108) escreve ainda que:

A educação é o alargamento do horizonte cultural, relacional e expressivo, na dinâmica das experiências vividas e na totalidade da aprendizagem da humanidade pelos homens. Nela, pessoas e grupos com experiências diversificadas confrontam-se no diálogo aventuroso da aprendizagem coletiva, em que cada um, a confrontam-seu modo, dá testemunho das múltiplas possibilidades humanas.

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Hoje, cada vez mais vem se aperfeiçoando essa forma de aprender, na qual são utilizadas várias ferramentas. Mesmo assim são necessárias diversas pessoas para intermediar a aprendizagem, a fim de que o conhecimento adquirido tenha um sentido. Esta visão é compartilhada por Savater (2005, p. 29), ao destacar: “A possibilidade de ser humano só se realiza efetivamente por meio dos outros, dos semelhantes, ou seja, daqueles com os quais a criança, em seguida, fará todo o possível para se parecer”. O autor segue explicando que:

Essa disposição mimética, a vontade de imitar os congêneres, também existe nos antropóides, mas é enormemente multiplicada no macaco humano: somos antes de tudo macacos de imitação, e é por meio da imitação que chegamos a ser algo mais do que macacos. O específico da sociedade humana é que seus membros não se transformam em modelos para os mais jovens de modo acidental, inadvertidamente, mas de forma intencional e conspícua (SAVATER, 2005, p. 29).

Esse processo continua na identificação com os mais próximos, e lentamente com os que fazem parte do seu círculo de convivência, imitando e se incluindo de forma ativa na sociedade, promovendo a construção do ser enquanto humano. Estudos realizados com macacos são sinalizados por Savater (2005, p. 29), que afirma: “Os jovens chipanzés atentam para o que fazem seus adultos; as crianças são obrigadas pelos adultos a atentar para o que devem fazer”. Enquanto que os adultos humanos

[...] reclamam a atenção de seus filhotes e encenam diante deles as maneiras da humanidade para que as aprendam. De fato, por meio dos estímulos de prazer ou de dor, praticamente tudo na sociedade humana tem uma intenção decididamente pedagógica. A comunidade em que a criança nasce implica que será obrigada a aprender e também as peculiaridades desse aprendizado (SAVATER, 2005, p. 29, grifo do autor).

No interior dessas comunidades se desenvolvem normas e regras para que o homem, educado, se torne social, garantindo a preservação da espécie. Isso demanda tempo e vivências, as quais revelam as necessidades e desenvolvem meios para que a sobrevivência seja preservada. Acredita-se que muitas perdas devem ter ocorrido até que o homem percebesse o quanto a preservação do outro é necessária para garantir a sua vida e promover a aprendizagem. Essas normas e regras podem ser chamadas de cultura, ideias humanas que provieram de uma ou mais necessidades de uma comunidade, em que o homem se constrói como forma humana de ser.

O valor cultural é definido por Pino (2005, p. 83) da seguinte forma:

Quer consideremos uma cultura muito simples ou primitiva, ou uma extremamente complexa e desenvolvida, deparamo-nos com uma vasta aparelhagem, em parte

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16 material, em parte humana, em parte espiritual, com a ajuda da qual o homem é capaz de lidar com os problemas concretos, específicos com que se defronta.

Supõe-se que, diante da complexidade da forma humana de ser, independente do desenvolvimento, a existência de uma comunidade desencadeia uma densidade de instrumentos que vão colaborar com a aprendizagem da cultura, ou seja, inserem o indivíduo no meio humano, onde ele aprende, faz, constrói, forma, reforma e refaz de forma simples ou complexa. Como descrito por Pino (2005, p. 89, grifos do autor), “A cultura é uma ‘produção humana’ e essa produção tem duas fontes simultâneas: a ‘vida social’ e a ‘atividade social’ do homem”, confirmando a interação tão necessária para a construção de tudo o que existe. A convivência com seres da mesma espécie faz com que o indivíduo seja mais criativo e enfrente maiores desafios quando em grupo. Ao observar os animais pode-se perceber a grande sabedoria que existe na natureza, pois eles vivem em grupos e se protegem, procuram alimentos em conjunto e se aninham para enfrentar temperaturas, tudo para garantir a espécie. O ser humano, por outro lado, necessita aprender pelo desenvolvimento da capacidade intelectual, a valorar o ser de sua espécie que pensa, reflete e age, o que confirma a sua condição de ser, que deveria ter a consciência da necessidade da inclusão dos novos ao seu meio cultural e histórico, preservando assim o gênero humano.

Conforme Arroyo (2000, p. 55), na questão de ser e de aprender, “Descuidamos uma das curiosidades mais próprias de nossa condição humana, a curiosidade por aprender a ser, por entender os significados, por apropriar-nos da cultura. Nesses complexos saberes nascemos ignorantes”. O ser humano possui a necessidade de aprender a ser gente, e revela o gosto de ser gente, de ser melhor, além da boniteza de ser. É, portanto, eterno aprendiz, por isso sempre em construção, cuja evolução inicia no nascimento e perdura até a morte. Essa construção existe enquanto estiver em interação com outros, confirmando-se o saber pelo outro e com o outro. O semelhante é aquele que vai concordar ou discordar, dizer sim ou não, afirmar ou negar, acolher ou repudiar e, mesmo que sua opinião seja indiferente, vai fazer com que siga ou pare, reflita ou haja. Os resultados vão ocorrendo na práxis humana.

No entendimento de Marques (2006, p. 17), “O homem pode se definir como ser que aprende. Não surge ele feito ou programado de vez. E, sua existência não é por inteiro dada ou fixa; ele a constrói a partir de imensa gama de possibilidades em aberto”. O autor segue argumentando que o crescimento humano “É algo além do visto, e sem meios de crescimento e ressignificação singular, onde cada ser na sua herança biológica reforma e transforma no que já existe, perante seu entendimento, do ‘seu jeito’, vai acrescentando algo novo ao meio” (MARQUES, 2006, p. 17).

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Depreende-se daí que o ser humano possui capacidades infinitas, percebidas tão logo aprende as primeiras necessidades e, assim, sucessivamente. As palavras de Savater (2005, p. 27, grifo do autor) confirmam que: “Para os antropólogos a neotenia é um processo peculiar humano. Essa palavra pretende indicar que nós humanos nascemos aparentemente cedo demais, sem estarmos totalmente consumados”.

Os animais aprendem algo, mesmo que seja por questões de sobrevivência, enquanto os indivíduos humanos, em contrapartida, “permanecem, até o fim de seus dias, imaturos, tateantes e falíveis, mas em certo sentido sempre juvenis, ou seja, abertos a novos saberes” (SAVATER, 2005, p. 28). A frágil e ao mesmo tempo incrível estrutura na forma humana de ser proporciona essa gama de possibilidades de aprendizagem e de fazer e refazer-se em meio cultural e social. Como estabelece o autor, “neotenia significa, pois, ‘plasticidade ou disponibilidade juvenil’ (os pedagogos falam em educabilidade), mas também implica uma trama de relações necessárias com outros seres humanos” (SAVATER, 2005, p. 29, grifo do autor). Os homens humanizam-se entre si eambas – humanização e desumanização – estão inscritas num permanente movimento de descobrir.

Requer a dialética da história que se superem os caminhos andados, mas refazendo-os. Reconstruir não significa ignorar o passado que, na cultura e em cada homem, continua presente e ativo, vivo e operante; mas impõe que nele penetrem e atuem novas formas que o transformem e introduzam na novidade de outro momento histórico e outros lugares sociais (MARQUES, 1993, p. 104).

A história pode garantir a continuidade e a aprendizagem por meio de experiências passadas. Para se chegar ao que se é hoje, o meio histórico disponibiliza a percepção do que já foi e do que pode ser. O homem em si deveria volver um olhar ao passado e elaborar um planejamento futuro. A educação, contudo, é uma forma de aprendizagem oriunda da experiência passada acrescida à evolução.

Considerando o material e o simbólico, o indivíduo torna-se humano mediante o ensino/aprendizagem. A educação é uma das formas de o homem adquirir consciência de ser histórico, de fazer parte da práxis, e ao conhecer e aprender um pouco do legado histórico, se inclui nesse fazer cotidiano, ou seja, na sociedade da qual faz parte.

O ser humano é aprendiz desde o momento do nascimento e daí sucessivamente enquanto vive. A aprendizagem cultural influencia nesse contexto, sendo a escola responsável por repassar, de forma intencional, conteúdos e atitudes de convivência social. Outra expressiva influência é a socialização, que lhe permite aprender a viver e a conviver com familiares e amigos que fazem parte do seu dia a dia, de maneira direta ou indireta. Esse é o

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grande legado humano – a mediação intencional e pedagógica – que proporcionam formas de ser e de parecer. Mesmo convivendo cada vez mais com objetos de uso para o desenvolvimento e a aprendizagem, o convívio dos sujeitos é fundamental para a construção do humano.

A sociedade contemporânea faz com que as crianças também atinjam um desenvolvimento cada vez mais precoce na questão de conhecimentos do que há alguns anos. Estimuladas cada vez mais precocemente à significação de aprender, elas respondem de uma maneira saudável à interação, favorecendo o crescimento, o desenvolvimento e a aprendizagem. Já a cultura é aprendida em meio familiar e social, favorecendo a outras aprendizagens no meio humano, constituindo-se na porta de entrada ao humano. Como bem salienta Pino (2005, p. 22), “A distância que separa a mitologia e a ciência, ou seja, a crença e a razão, talvez não seja tão grande como se pensa, dado que ambas são obras da mesma mente humana”. Por outro lado, o autor afirma: “Consolida-se assim na consciência do homem contemporâneo a ideia de que só o homem pode dizer ao homem quem é ele e como apareceu no movimento evolutivo da matéria” (PINO, 2005, p. 23).No sentido oposto, Geertz explica:

‘Os homens sem cultura’, diz ele, ‘não seriam os selvagens inteligentes, ou até mesmo como a antropologia insinua, os macacos intrinsecamente talentosos que por algum motivo, deixaram de se encontrar’. Eles seriam monstruosidades incontroláveis, com muito pouco instintos úteis, menos sentimentos reconhecíveis e nenhum intelecto, verdadeiros casos psiquiátricos (apud PINO, 2005, p. 86).

Toda cultura deveria proporcionar a base de sustentação, limites, valores, normas e regras infundidas pela educação. Trata-se de uma necessidade humana, contudo, é preciso direcionamento específico a fim de que o indivíduo se construa como ser da espécie. A questão humana, segundo Savater (2005, p. 35) acontece devido ao fato de que “ensinar a nossos semelhantes e de aprender com nossos semelhantes é mais importante para o estabelecimento de nossa humanidade do que qualquer um dos conhecimentos concretos que assim se perpetuam ou se transmitem”. A intervenção humana no desenvolvimento do indivíduo, portanto, é fundamental, pois ao nascer todos precisam de cuidados específicos, a fim de se constituírem da espécie e se tornarem adultos responsáveis pelo cuidado do outro e pela sua própria aprendizagem. Segundo Savater (2005, p. 35, grifo do autor), “Das coisas, podemos aprender efeitos e modos de funcionamento”. Contudo, para o autor: “do comércio intersubjetivo com os semelhantes aprendemos significados”. O ser humano possui a necessidade de educar-se, sentir-se em grupo, é onde cresce e aprende a ser gente.

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Para Marques (2006, p. 62), “Dá-se a humanização do ser individual pela multiplicação de seus grupos de pertença e referência, que assim se relativizam, permitindo as opções livres e a proteção de uns grupos contra a excessiva ingerência de outros”. A possibilidade de entrar em contato com outros humanos, além da família, demonstra a pertença da espécie e as significações de mais e diferentes culturas, o que abre e expande os conhecimentos.

Freire (2009, p. 25) compartilha a visão de que as possibilidades humanas na aprendizagem ocorrem por intermédio da interação, e destaca: “Assim como nós nos construímos historicamente e não apenas geneticamente, nós somos a relação entre a herança genética e a herança cultural e histórica”. Várias formas de viver e aprender se originam na escola, e lá se encontram muitas e diversas culturas. Mesmo em lugares pequenos a cultura e a maneira de ser e de viver podem ser diferentes, o que engrandece a aprendizagem humana.

1.2 A FAMÍLIA E OS VALORES NA EDUCAÇÃO

“O que precisamos compreender é que o propósito da vida é encontrar o propósito da vida – e, então, vivenciar isso” (BOWELL, 2005, p. 12).

A própria evolução humana, concedeu ao homem a percepção da importância de aninhar os seus em uma família. Forma de preservar geração após geração a linhagem da espécie. Na definição de Savater (2005, p. 58), “O aprendizado familiar tem por trás o mais eficaz dos instrumentos de coação: a ameaça de perder o carinho daqueles seres sem os quais não se sabe como sobreviver”. A família não deixa de ser uma das formas mais complexas e necessárias à formação do ser humano. É ali que o indivíduo, sob os cuidados dos seus, começa a pertencer a um grupo cultural, fazendo parte de uma aprendizagem humana. Para que ocorra essa formação, os cuidadores usam, ou deveriam usar, todas as ferramentas necessárias para o desenvolvimento saudável em meio social. É na família que o indivíduo possui o maior embasamento para mais tarde fazer parte de uma sociedade. É nesse meio que aprende a forma humana de ser, e começa a ser inserido na espécie.

Savater (2005, p. 58-59) prossegue afirmando que, “Desde a mais tenra infância, a principal motivação de nossas atitudes sociais não é o desejo de ser amado, nem a ânsia de amar, mas o medo de deixar de ser amado pelos que mais contam para nós”. O sentimento de ser amado é talvez a mais forte razão de ser e querer ser, por isso afirma Goethe: “Dá mais

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força se saber amado do que se saber forte: a certeza do amor, quando existe, nos torna invulneráveis” (apud SAVATER, 2005, p. 59).

O cuidado é inerente à sobrevivência humana devido à vulnerabilidade com que chega ao contexto. Sem uma atenção devidamente dedicada ao assistir é muito difícil alguém se desenvolver, pois a vida em si é o cuidar. Concorda-se com Savater (2005, p. 59) quando escreve: “É no ninho familiar, quando este funciona com a devida eficácia, que saboreamos pela primeira vez, e talvez pela última, a sensação reconfortante dessa invulnerabilidade”. Na atualidade o núcleo familiar tem se modificado, homens e mulheres atuam em sociedade de forma quase igualitária, ficando as crianças, adolescentes e jovens entregues a outros no cuidado de sua educação e formação. Dessa forma, são mantidos quase que diariamente a uma distância dos familiares, privados da comunicação e da interação tão necessárias à sua formação.

Acredita-se que em função do trabalho educativo com as crianças a família seja uma sociedade em formação, em cujo meio os adultos devem constantemente recorrer a educação. Afinal, os adultos podem se observar e analisar como está a sua educação em meio a essa pequena sociedade em que vivem. “No entanto, para que uma família funcione educacionalmente é imprescindível que alguém nela se resigne a ser adulto [...]. Quanto menos os pais quiserem ser pais, mais paternalista se exigirá que seja o Estado” (SAVATER, 2005, p. 64-65). Aos adultos cabe a responsabilidade e a consciência de ensinar às crianças as peculiaridades de sua cultura. A aprendizagem humana é contrária à dos animais, que nascem com instinto de sobrevivência muito apurado, logo já imitam os seus para dar conta de sua própria vida ou sobrevivência.

No fluir normal da vida são necessárias várias aprendizagens de convivência entre os seus personagens. Nesse ínterim, a família ensina primeiramente cuidando, depois apresenta os fundamentos, normas, regras e valores para que a convivência tanto familiar como social seja possível. Savater (2005, p. 57) expressa que:

As crianças passaram muito mais tempo fora da escola do que dentro, sobretudo em seus primeiros anos. Antes de entrar em contato com seus professores, já experimentaram amplamente a influência educacional de seu entorno familiar e de seu entorno social.

Espera-se que em meio à comunidade a convivência se configure numa possibilidade de interação, em que as pessoas assumem condutas que são adotadas por todos para viver e conviver pacificamente. Para isso, a educação começa no nascimento e evolui gradativamente

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com o crescimento e o desenvolvimento, o que coloca na família a necessidade primeira diante da formação humana. Nesse sentido aborda Savater (2005, p. 57):

Na família a criança aprende – ou deveria aprender – atitudes fundamentais, como falar, limpar-se, vestir-se, obedecer aos adultos, proteger os menores (ou seja, conviver com pessoas de diferentes idades), compartilhar alimentos e outros bens com quem a cerca, participar em jogos coletivos respeitando as regras, rezar para os deuses (se a família for religiosa), distinguir em nível primário o que é bom do que é mau segundo as pautas da comunidade a que pertence etc. Tudo isso compõe o que os estudiosos chamam de “socialização primária” do neófito, por meio da qual este se transforma em um membro mais ou menos padrão da sociedade.

A socialização primária, como necessidade humana de constituição do ser, segundo os padrões da sociedade atual, deve ter o seu foco na questão da educação e da autonomia, uma vez que as exigências de sobrevivência no meio humano são cada vez mais complexas. A educação familiar exige dos responsáveis uma constante supervisão, em especial da infância, período em que ocorre a formação do ser. Para tanto, a família precisa se adaptar às mudanças econômicas e sociais, consideradas meras companheiras do dia a dia na práxis humana. Conforme entendimento de Savater (2005, p. 58):

Se a socialização primária tiver se realizado de modo satisfatório, a socialização secundária será muito mais frutífera, pois terá uma base sólida sobre a qual vai assentar seus ensinamentos; caso contrário, os professores ou companheiros deverão perder muito tempo polindo e civilizando (ou seja, tornando apto para a vida civil) quem deveria estar pronto para aprendizados menos elementares.

A própria interação do homem com o meio transforma o contexto e diferencia as situações vividas. Prova disso é que, apesar de ser considerada porto seguro, a família tem passado por transformações ao longo das últimas gerações. Mesmo assim não deve deixar de cumprir com seu papel fundamental, que é educar os seus para o social. As crianças são inseridas nesse meio desde muito cedo, e com o tempo vão adquirindo todas as formas de ser dessa comunidade, incorporando a aprendizagem humana e, assim, são incluídas na sociedade. As crianças, segundo Savater (2005, p. 66),

[…] são educadas para serem adultas, não para continuarem crianças. [...] são educadas para crescerem melhor, não para não crescerem, uma vez que, de qualquer modo, bem ou mal, irão crescer inevitavelmente. Se os pais não ajudam os filhos, com sua autoridade amorosa, a crescer e a se preparar para serem adultos, as instituições públicas se verão obrigadas a lhes impor o princípio de realidade, não com afeto, mas à força.

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Quer se aceite ou não os filhos são criados para a humanidade, portanto, devem aprender a conviver desde muito cedo com os semelhantes de forma civilizada e educada. “A sobrevivência do indivíduo justifica a coesão familiar, mas provavelmente foi a necessidade de educar que causou laços sociais que vão além do núcleo procriador” (SAVATER, 2005, p. 32). Para ter uma vida digna e de sucesso o indivíduo precisa ser educado, e quanto mais educado for, mais saberá atuar e conviver em sociedade, respeitando limites, regras, normas e valores a fim de construir uma sociedade humana. E, quanto mais complexa for essa sociedade, mais necessários são o conhecimento e a aprendizagem escolar, a educação, o bom senso, a civilidade, a humana noção do senso de comunhão, o respeito à individualidade do outro, pois ninguém é uma ilha, e há necessidade do outro para que a vida tenha um sentido. “Sabemos que o medo cobra um preço enorme sob forma de inibição ou rigidez. Mas a criança deverá temer alguma coisa se quisermos que ela se aplique na árdua tarefa de aprender” (SAVATER, 2005, p. 68).

A aprendizagem exige do ser humano adulto uma constante vigilância sobre a criança, a fim de assisti-la dando-lhe a noção de ser, ser que ainda não sabe. É preciso realizar a tarefa de educar as crianças com senso de responsabilidade, pois a vida cobra educação em qualquer contexto em que se possa estar, e as crianças precisam saber disso, afinal elas vêm para conviver e ser. “Essencialmente, a autoridade não consiste em mandar: etimologicamente, a palavra provém de um verbo latino que significa algo como ‘ajudar a crescer’” (SAVATER, 2005, p. 65).

O ser humano começa a aprender no momento em que segura o seio materno para se alimentar, mantendo o olho no olhar da mãe que aninha e ensina essa primária e necessária atividade de se nutrir. Aprende também a observar objetos em seu entorno, conforme suas mãos vão se tornando conhecidas, tenta pegá-los e, assim, sucessivamente, vai conhecendo e se adaptando ao meio, onde inicia sua caminhada da aprendizagem de ser humano culturalmente inserido nesse contexto. Para Marques (2006, p. 61), “Não significa isto, porém, que possa a família subsistir insulada fechada em si mesmo. Está ela inserida no contexto mais amplo das demais instituições sociais e penetrada, como elas, das determinações da sociedade global”. Mesmo sendo um núcleo, uma pequena sociedade, a família está ligada a um meio social maior e, nesse meio ocorrem interações diversas que contribuem para a formação dos que vêm chegando ao contexto. Marques (2006, p. 61) corrobora, afirmando que: “A família não só funda as relações sociais; funda também a sociedade política e nela se inscreve. Constituída em âmbito linguístico específico, nela se fundamentam as aprendizagens exigidas pela vida adulta social e moralmente responsável”.

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Marques (2006, p. 60) complementa que,

Na família nuclear os processos da socialização/individuação se cumprem pela mediação de uma ação consensual amplamente desinstitucionalizada no tocante à sua inserção sistêmica na sociedade ampla, o que significa a necessidade de levar ela a sério sua própria estrutura comunicativa interna.

É necessária a conscientização do ser humano quanto à responsabilidade de constituir uma sociedade para viver, levando em conta a fragilidade da formação do homem que só é homem porque outros homens e mulheres se propuseram a constituí-lo mediante a educação. Conforme Savater (2005, p. 58),

Do mundo exterior, heterogêneo e com frequência hostil, a criança pode refugiar-se na família, mas da própria família já não há escapatória possível, salvo à custa de um desligamento traumático, que nos primeiros anos ninguém é capaz de se permitir.

Em uma de suas pesquisas sobre a razão de muitos alunos faltarem com frequência às aulas, Freire (1992, p. 22) expressou sua inquietude diante e sobre os castigos praticados em crianças dentro de suas próprias famílias, tanto em áreas rurais como urbanas do Recife. Constatou que lhes eram aplicados castigos em função de motivos triviais, o que o levou a se posicionar de forma contrária a essas atitudes familiares e os resultados educativos que poderiam decorrer na vida adulta dessas crianças. Em seu entendimento, repudiou as consequências

[...] políticas que um tal tipo de relação pais-filhos, alongando-se depois nas relações professores-alunos, teria com vistas ao processo de aprendizagem de nossa incipiente democracia. Era como se família e escola, completamente subjugadas ao contexto maior da sociedade global nada pudessem fazer a não ser reproduzir a ideologia autoritária.

Geralmente se ensina de maneira tal como se aprende, ou como salienta Freire (1992, p. 23): “Corremos o risco de cair seduzidos ou pela tirania da liberdade ou pela tirania da autoridade, trabalhando em qualquer das hipóteses, contra a nossa incipiente democracia”. Educar em família, de uma maneira muito permissiva, não dá à criança noção de limites e torna difícil a convivência em sociedade, como também educar de uma maneira severa e autoritária pode fazer com que a criança seja medrosa perante a humanidade. Nesse caso, quando puder irá reproduzir por medo a mesma forma autoritária como garantia de seu poder de pai ou professor(a), ou qualquer outro cargo que venha por ventura assumir. Confirma Savater (2005, p. 61) que,

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24 Seja como for, esse papel fundamental da família, para bem ou para mal, na socialização primária dos indivíduos passa por um eclipse indubitável na maioria dos países, o que constitui um problema sério para a escola e os professores.

Ao que Savater (2005, p. 61) acrescenta:

Cada vez com maior frequência, os pais e outros familiares encarregados das crianças sentem desânimo ou desconcerto diante da tarefa de formar as pautas mínimas de sua consciência social e a deixam aos professores, mostrando depois irritação tanto maior pelas falhas deles quanto não deixam de se sentir obscuramente culpados por se esquivarem à sua obrigação.

Quando a base familiar deixa de fazer a sua parte em relação à educação de seus filhos, fica difícil para a comunidade escolar dar continuidade a esse processo necessário à constituição do ser. Ao citar Juan Carlos Tedesco, Savater (2005, p. 60) estabelece: “Os docentes percebem esse fenômeno cotidianamente, e uma de suas queixas mais recorrentes é que as crianças chegam à escola com um núcleo básico de socialização insuficiente para enfrentar com êxito a tarefa de aprendizado”. O fato não condiz com a educação propriamente dita, que deveria ser a princípio uma das mínimas condizentes com o esperado pela civilidade do homem que atualmente se considera em tão grande evolução. O autor complementa afirmando que: “A reflexão sobre os valores e, junto com ela, o debate crítico a respeito de sua plasmação social constituem por si só pautas imprescindíveis tanto de formação quanto de informação moral” (SAVATER, 2005, p. 77). Como seres históricos e por isso mesmo humanos, por poderem contar e refletir sobre a própria história é que seria necessário, adultos em comum acordo, reverem certos pilares que constituem a garantia, com qualidade, à sobrevivência humana. A convivência com os seus semelhantes educados é que vai permitir ao ser humano uma vida decente e saudável ou não.

A este respeito Savater (2005, p. 77) referencia: “E tudo provém sem rodeios do anseio básico de viver mais e melhor a cujo impulso serve o projeto ético a partir da consciência individual e das instituições sociopolíticas no plano comunitário, pelo menos em seu desígnio ideal”. Queira ou não, essa consciência que o ser humano desenvolveu e que o torna o ser mais inteligente da natureza, devido a sua capacidade de transformá-la em seu próprio beneficio, fez com que a constituição familiar formasse uma base de sustentação para que, à medida que evolua, também esteja apto a aprender com os seus em sociedade. A primeira sociedade que o homem constitui é a sua família, em cujo seio deveria aprender o

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respeito mútuo e as limitações, a ética e os valores. Paradoxalmente, para Savater (2005, p. 32),

Os grupos com maior índice de sobrevivência sempre devem ter sido os mais capazes de educar e preparar bem seus membros jovens: esses grupos decerto tiveram de contar com velhos que convivessem o maior tempo possível com as crianças para ensiná-las.

A presença da família nos primeiros anos de vida escolar das crianças é muito importante em função de se constituir em suporte à educação, onde é estimulada e acompanhada a fim de que haja uma real compreensão do valor de estudar. Nesse momento a insegurança é normal, afinal ela está entrando em um mundo novo. Por outro lado, os pais devem ter um entendimento sobre essa insegurança de seu filho, sem oprimi-lo por causa disso e nem compará-lo com outros. Cada criança é única e necessita de um tempo diferente para entender as coisas e aprender. Deve-se, portanto, respeitar esse período, apesar de os adultos, muitas vezes, serem imediatistas, esquecendo que um dia também foram crianças e que só com o tempo assumiram sua condição atual. A criança vai para a escola por curiosidade e depois por estímulo da família. Nesse contexto, o amor dos pais é o maior aliado para que ela goste de estudar. Contribui para tanto o fato de haver em casa um horário para realizar as tarefas escolares e formar o hábito da leitura. Essa é a maior ajuda que os filhos necessitam obter dos pais – o gosto pela leitura, a realização de tarefas e pesquisas, o estudo em si, que exige tempo e valor, o que leva a refletir sobre o atual papel da família.

É importante haver bom senso ao educar uma criança, entretanto, pode-se educar sem grandes conflitos ou agressões, bastando firmeza e amor. A realidade é conflituosa, a criação de filhos é ainda maior, o poder socioeconômico pode agravar essa missão, mas o conhecimento é por demais instrutivo neste período. Mesmo assim não existem receitas, todo ser humano é singular e diferente e, assim, como os professores, a incumbência de educar é cumprida e o resultado advirá com o tempo. Nesse sentido atesta Savater (2005, p. 39): “Para ser homem não basta nascer, é preciso também aprender”. A aprendizagem é iminentemente da espécie humana, e para fazer parte desse meio humano é necessário aprender a ser humano mediante a inserção na cultura familiar.

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1.3AAPRENDIZAGEMHUMANA

“A oportunidade reside exatamente onde não imagina-mos olhar – no meio de nossos problemas, dentro da vida que já levamos” (BOWELL, 2005, p. 54).

Estudos e pesquisas revelam que em meio à espécie humana, mesmo quem já sabe muito pode ter certeza de que ainda é possível aprender mais. A sabedoria é uma das qualidades que leva o indivíduo a ser precavido quanto ao aprendizado, apresentando flexibilidade e facilidade em conviver com os demais de forma humana. Assim, pode-se aprender uma nova língua, uma dança diferente da sua cultura, uma culinária, um artesanato, um novo livro, enfim, existe uma gama de saberes culturais nas diferentes formas de viver. O que é, então, aprender? Segundo Lakomy (2003, p. 11),

Há um conjunto de representações a respeito da aprendizagem sobre as quais é preciso refletir para não ser enredado pelo espontaneísmo do senso comum. Em geral a aprendizagem é vista sob a metáfora do “recipiente” que atenção permitiria preencher, ou aquela da pirâmide, em que os conhecimentos se elevariam progressivamente de baixo para cima. Neste sentido, a ideia subjacente é de os conhecimentos serem coisas que podem ser adquiridas e acumuladas ordenadamente.

Pode-se perceber, portanto, que o ato de aprender não é tão simples como parece. O ser humano, para se tornar da espécie homo, desde o princípio precisa se esforçar para aprender as especificidades da espécie, o que exige dele força de vontade. Precisa também que alguém o instigue a continuar insistindo até entender para daí dizer que aprendeu e, possivelmente, que esse aprendizado ou conhecimento seja seu, que está internalizado. Lakomy (2003, p. 15-16) expressa que “a aprendizagem não é a simples passagem da ignorância ao saber, sem resistências e sem conflitos”. Da mesma forma o autor defende que:

Na aprendizagem acontece algo novo, não é uma simples reestruturação. Por conseguinte, o novo é uma nova estruturação, o que significa deixar antigas estruturas. Quando as crianças aprendem precisam abandonar a “centração”. Na situação de aprendizagem é preciso que haja desestabilização e conflito com estruturas pré-adquiridas. Então, aprender, apprehendere é, prender consigo, é tomar para si, ou, em outras palavras “tornar próprio” (LAKOMY, 2003, p. 15-16, grifos do autor).

Lakomy (2003, p. 16-17) prossegue afirmando que:

A aprendizagem é, pois, um fenômeno ou uma operação pela qual um sujeito (uma pessoa) torna seu ou torna sua uma nova forma de conduta, uma informação, transformando-a em conhecimento, algum hábito ou alguma atitude. Aprender é adquirir um comportamento que anteriormente não apresentávamos.

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Marques (2006, p. 53) enfoca que “a aprendizagem em que se constitui o homem genérico, e nele o homem indivíduo e sujeito singularizado, não se dá em um meio natural e sociocultural homogêneo e amorfo”. O autor considera ainda que:

Os mundos da cultura, da sociedade e da pessoa, além de suas próprias estruturas internas, supõem e se sustentam também num meio estruturado, organizado em níveis de complexidade e abrangência distintos, o mundo das objetivações que materializam as consequências da atuação dos homens, constituído, ao mesmo tempo, em distintos lugares sociais e âmbitos linguísticos específicos (MARQUES, 2006, p. 53).

A inteligência humana idealizou e criou essa ampla e complexa sociedade. Mesmo na diversidade cultural a educação é uma das formas mais complementares do entendimento entre os grupos culturais que formam a humanidade. A forma humana de ser é adquirida no grupo e com o grupo. Como demonstra Savater (2005, p. 26-27):

Nossa humanidade biológica necessita uma confirmação posterior, algo como um segundo nascimento no qual, por meio do nosso próprio esforço e da relação com outros humanos, se confirme definitivamente o primeiro. É preciso nascer humano, mas só chegamos a sê-lo plenamente quando os outros nos contagiam com sua humanidade deliberadamente e com nossa cumplicidade.

O ser humano é complexo e por nascer inserido em uma cultura, levará esse ensinamento e conhecimento cultural para toda a vida. Afinal, é por meio da cultura que se efetiva a aprendizagem humana. Para Morin (2001, p. 55), contudo, “Cabe à educação cuidar para que a ideia de unidade da espécie humana não apague a ideia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade. Há uma unidade humana. Há uma diversidade humana”. A unidade não está apenas nos traços biológicos da espécie homo sapiens, assim como a diversidade não está apenas nos traços psicológicos, culturais, sociais do ser humano. O autor explica que há uma diversidade

[...] propriamente biológica no seio da unidade humana; não apenas existe unidade cerebral, mas mental, psíquica, afetiva, intelectual; alem disso, as mais diversas culturas e sociedades têm princípios geradores ou organizacionais comuns. É a unidade humana que traz em si os princípios de suas múltiplas diversidades. Compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade (MORIN, 2001, p. 55).

A experiência humana remete à cultura e faz e refaz o homem em sua maneira de ser e de fazer. A aprendizagem surge dessa interação e por meio do trabalho o homem garante a sua inclusão em meio à sociedade à qual pertence. Sobre a natureza e a cultura Freire (2010, p.

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117, grifo do autor) explica que há distinção entre ambas, e descreve o papel ativo do homem em sua e com sua realidade:

O sentido de mediação que tem a natureza para as relações e comunicação dos homens. A cultura como o acrescentamento que o homem faz ao mundo que não fez. A cultura como resultado de seu trabalho. Do seu esforço criador e recriador. O sentido transcendental de suas relações. A dimensão humanista da cultura. A cultura como aquisição sistemática da experiência humana. Como uma incorporação, crítica e criadora, e não como uma justaposição de informes ou prescrições “doadas”.

A comunicação é considerada uma das ferramentas que o homem utiliza para facilitar a interação e o aprendizado. A aquisição da escrita também é de fundamental valor ao ser humano, que se conscientiza de que faz parte desse fazer e refazer a vida em si, em seu entorno, em sua comunidade. De acordo com Freire (2010, p. 117), “O aprendizado da escrita e da leitura é como uma chave que o analfabeto, tanto adulto quanto criança e inclusive adolescentes, iniciaria a sua introdução no mundo da comunicação escrita”. Nesse sentido, o autor apresenta que:

O homem afinal no mundo e com o mundo. O seu papel de sujeito e não de mero e permanente objeto. Descobriria que tanto ele, como o letrado, tem um ímpeto de criação e recriação. Descobriria que tanto é cultura o boneco de barro feito pelos artistas, seus irmãos do povo, como cultura também é a obra de um grande escultor, de um grande pintor, de um grande místico, ou de um pensador. Cultura é toda criação humana (FREIRE, 2010, p. 117, grifos do autor).

Já educação é uma forma de aprender a ser, em meio à sociedade em que o sujeito se encontra inserido. Ela torna a vida mais simples em colaboração mútua, em que grupos de pessoas em atividade geram a manutenção da espécie, primeiro em pequenos grupos e, atualmente, quase que globalmente. Em geral, uns geram produtos para outros os transformarem em mercadorias de utilidade pessoal que vão sendo transportadas e levadas até os que necessitam desse bem. Marques (2006, p. 18) observa que: “Na aprendizagem, graças à produtividade de indivíduos e grupos intervinculados no sucederem-se às gerações, reassumem eles e reconstroem o mundo da vida”. O aprender, na opinião do autor,

Se reinterpreta a experiência cultural dos grupos e se insere em novas totalidades de sentido; ressignifica-se cada um de seus elementos. Ao se entrelaçarem aos processos da socialização, da individuação e da singularização do sujeito, os homens aprendem uns dos outros, constituem-se em sujeitos sociais concretos da aprendizagem e adquirem, como pessoas, as competências que os tornam capazes de linguagem e ação para tomarem parte nos processos de entendimento compartilhado e neles afirmarem sua própria identidade (MARQUES, 2006, p. 18).

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Ao firmar sua identidade pessoal, compartilhando com outros as suas aprendizagens, e se comunicando por intermédio do significado das coisas, da linguagem ou da escrita, o homem vai sendo alguém histórico que contribui e retribui o que já sabe. Ele pertence ao grupo devido aos cuidados recebidos desde tenra idade por parte de sua família e da comunidade, e aprende a cultura de seu lugar de origem. Com o desenvolvimento das sociedades humanas percebeu-se, além da educação familiar, a necessária intervenção escolar, o que torna o ser humano um ser do aprender. Conforme as descobertas do próprio homem, a aprendizagem é tal que quanto mais se aprende, mais se tem para aprender e acrescentar ao que já foi inventado, construído, modificado, reaprendido e realizado.

2AAPRENDIZAGEMNOESPAÇOESCOLAR

2.1AINTERVENÇÃOESCOLAR

“Nós jamais podemos retornar à nossa fase infantil, porém a fase adulta da inteligência é semelhante a da infância em seu sentido de significado, brilho, interesse e envolvimento” (BOWELL, 2005, p. 5).

Atualmente, a educação infantil (creches, pré-escola e jardim de infância) tem possibilitado às crianças, desde a mais tenra idade, a sua inclusão no contexto escolar. É ali que ocorrem as primeiras socializações, aprendem a ler e a escrever e, queira ou não, o fato as cativa, originando a curiosidade de aprender. Essa curiosidade precisa ser preservada pelos adultos, pais e professores, os quais acompanham as crianças nesse começo da aprendizagem escolar. Marques (1993, p. 109) salienta que:

A escola, mais do que por sua estrutura institucionalizada, se determina, em seus aspectos criadores próprios, pelo entendimento compartilhado e atuação solidária de seus instituintes internos, sujeitos coletivos organizados: os educadores, os educandos e a comunidade humana concreta a que busca ela servir.

O autor complementa, afirmando que:

Toda a dinâmica da ação educativa escolar deriva do projeto ou proposta político-pedagógico que a anima e informa, impulsiona, organiza e conduz. E validam-se as perspectivas pedagógicas não pelo seu conteúdo intrínseco, mas pela forma consensual em que se constroem e expressam, como resultado de um processo de elucidação discursiva à base dos melhores argumentos e o mais próximo possível das condições ideais de fala (MARQUES, 1993, p. 109).

Referências

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