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Bolha Económica em Moçambique?

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Academic year: 2021

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“Bolha Económica” em Moçambique?

Problematizando a Sustentabilidade

de um Sistema de Acumulação de Capital

Carlos Nuno Castel-Branco

[email protected]

Lançamento do livro “Desafios para Moçambique 2015” Maputo, 18 de Setembro de 2015

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Contexto do assunto

• Há cerca de um ano fiz a minha primeira apresentação sobre a economia de bolha (acumulação

especulativa de capital fictício) em Moçambique. Era um conceito ainda estranho. Havia receio que a audiência não o entendesse. Soprámos bolhas de sabão na palestra, para capar a imaginação para algumas características das bolhas económicas – rápida expansão, gerada por pouco mais do que especulação (ar), que enfraquece o tecido da economia à medida que esta expande, que é efémera, que pode implodir ou explodir, que tudo o que deixa quando termina é a mancha doq eu realmente era a sua substância (água com sabão, ou dívida).

• Infelizmente, passado este tempo estamos todos muito mais familiarizados com o significado real da

bolha económica: galopante dívida pública com dinâmica própria de crescimento, desvalorização da moeda à medida que fica insustentável financiar a taxa de câmbio “antimotim”, aprofundamento do carácter especulativo do sistema financeiro, redução da credibilidade financeira internacional da economia e encarecimento do capital, conversão de activos reais em financeiros e crescente

submissão da economia e das suas principais dinâmicas de acumulação à especulação com esses activos, rápida expansão do número de milionários em contraposição com o aumento significativo do número de pobres nas zonas rurais e urbanas, crescente casualização do emprego e deterioração das condições de emprego, instabilidade macroeconómica e social e sinais de retracção de grandes projectos de investimento.

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Contexto do assunto

• Secção económica do livro Desafios 2015 – economia de mega projectos, a sua lógica como parte de

um sistema social de acumulação, e as suas implicações para os padrões de vida e desenvolvimento • Dois capítulos a considerar em conjunto: “Capitalizando” o capitalismo doméstico: ligações entre o

capital doméstico e multinacional facilitadas pelo Estado, em que a expropriação sistemática do

Estado, ou porosidade económica, é um mecanismo privilegiado de distribuição de mais valia; “Bolha económica”, ou desafios de sustentabilidade macroeconómica: efeito do processo de capitalização especulativa do capitalismo doméstico por via da porosidade económica

• Portanto, a apresentação começa com a síntese da lógica socioeconómica que cria as tendências de

“bolha económica” em Moçambique – um sistema de acumulação de capital dominado pela acumulação de capital fictício (ou financeirização)

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Acumulação primitiva e a voracidade por capital – modelo de acumulação e uma

economia cara

Influxos de capital externo sem condicionalismos políticos Base de rentabilidade do capital: expropriação do Estado + força de trabalho remunerada abaixo dos custos da sua reprodução social Ligações entre tais

influxos de capital e oligarquias nacionais

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O que atrai capital externo em grande escala e como é ligado com o capital doméstico?

• O que atrai?

• Recursos estratégicos – minerais e energéticos

• Oportunidade de especular com tais recursos, convertendo-os em activos financeiros transacionáveis – mega concessões a baixo custo e liberdade de especulação (rápida recuperação do investimento por via da conversão de activos reais em financeiros, e subsequente substituição de capital real por fictício)

• Redução de custos de investimento privado – PPPs, dívida pública ou garantida pelo Estado, baixos custos de expropriação (terra e infraestruturas), compensação plena pelo investimento (privatização plena das externalidades positivas e

socialização das externalidades negativas – por exemplo, conversão de externalidades negativas em responsabilidade social com impacto fiscal negativo para o estado)

• Redução dos custos de desinvestimento – oportunidade de revenda

• Como é ligado?

• Porosidade económica (expropriação do Estado – dívida, expropriações a baixo custo, conversão de propriedade pública em acções privadas, concessões de infraestruturas e contratos, etc.), associada a oportunidades especulativas e diferentes formas de cumplicidade social na formação de alianças para acesso a recursos (familiares, políticas e outras).

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Contexto internacional do Sistema especulativo de acumulação de capital em Moçambique Capitalismo Contemporâneo Global e desigual Financeiro (domínio do capital fictício ou financeirização do capital) Monopolista Subordinação do Estado e da política pública às dinâmicas de financeirização e crise

Especificidade histórica de Moçambique

Acumulação Primitiva de Capital De onde vêm os capitalistas – elites políticas e especulativas Dependência de influxos de capital externo em grande escala Acesso barato a recursos e infraestruras para

atrair e ligar com capital internacional Expansão do Sistema capitalista – mercantilização do que é público Socialização de custos – pobreza e dívida pública – e privatização dos ganhos Afunilamento da base produtiva e expansão da financeirização como negócio

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O modelo de acumulação de capital em Moçambique

Dependência de capital privado

Vantagens locacionais – recursos estratégicos ou

estratégias corporativas

Redução dos custos de investimento Redução dos riscos

Manter expectativas elevadas – financiamento público

Ligações com o capital doméstico emergente

Porosidade económica Acesso barato e privilegiado a recursos naturais Subsídos fiscais por acções Investimento público e dívida Mercantilização dos recursos, infraestruras e serviços públicos

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Por que é que a “bolha económica” emerge deste modelo de acumulação?

• O papel da dívida

• Manter as expectativas, reduzir custos de investimento e riscos e criar oportunidades para grande capital (financeiro e especulação imobiliária)

• O papel da especulação

• Ligações com o capital doméstico, rápida acumulação/recuperação do capital e redução dos riscos privados

• As consequências

• Afunilamento do investimento e sua concentração na acumulação e negócio de recursos, emergência da financeirização como negócio (negócio da dívida, da moeda e de acções)

• Acumulação de dívida e um sistema financeiro monopolista, especulativo • A especulação imobiliária

• Redução das oportunidades para pequenas e médias empresas, diversificação e articulação, e desemprego selectivo (mas em grande escala)

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Da acumulação primitiva especulativa de capital à “bolha económica”

Dívida, finanças e serviços públicos

A dívida pública como mecanismo de acumulação – o FMI e as reservas de dívida criadas Investimento público como oportunidade de negócio numa economia de enclave Austeridade como oportunidade de negócio Sistema financeiro especulativo e capital Redução das oportnidades para PMEs, diversificação e dnâmicas do mercado domêstico

Implicações económicas gerais

Bolha Económica

Expansão baseada em expectativas – novos recursos, dívida e mercados de commodities Base económica afunilada e financeirizada Muito investimento com limitada produção e emprego

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Aplicação de capital, afunilamento e a dependência da incorporação extensiva de novos recursos

Finanças

[IDE, empréstimos bancários externos e domésticos, investimento/endividamento

públicos, PPPs]

5% da taxa de crescimento do PIB

Infraestruturas, serviços de apoio, negócio imobiliário,

15% do investimento privado, 5% das exportações, 15% da taxa de crescimento do PIB

Núcleo Extractivo

[complexo mineral-energético e commodities agrícolas, para exportação]

75% do investimento privado, 90% das exportações, 50% da taxa de crescimento do

PIB

Indústrias de montagem final, dependendentes de importações, com carácter oligopolista

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Conclusões

• Muitas tensões neste sistema de acumulação apontam para vulnerabilidades e crise de acumulação

de capital:

• Potencial para uma bolha especulativa que pode implodir, se as expectativas do grande capital não forem

alimentadas, ou explodir, se continuarem a ser por vida da dívida pública e privada.

Crescente exposição e vulnerabilidade perante os mercados internacionais, financeiros e de commodities, geralmente

especulativos e voláteis.

• Inconsistências entre política fiscal e monetária que exacerbam as tendências especulativas dos mercados

financeiros e imobiliários

• Emprego e pobreza – casualização, deterioração das condições de trabalho, especialização e rigidez da força de

trabalho, conduzindo à expansão das camadas lúmpen da força de trabalho

• Conflitos entre facções de capital – pequeno que não pode crescer e grande que se torna mais especulativo

• Haverá algum espaço mais para austeridade social de modo a extrair as últimas gotas de valor de classes

trabalhadoras cada vez mais sem trabalho?

• Que futuro – uma revolução social ou a reforma do capitalismo? O que nos diz a história recente do

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Referências

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