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[Recensão a] Solé, Robert; Valbelle, Dominique - La pierre de Rosette
Autor(es):
Sales, José das Candeias
Publicado por:
Instituto Oriental da Universidade de Lisboa
URL
persistente:
URI:http://hdl.handle.net/10316.2/24129
Accessed :
31-Jan-2021 04:30:06
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RECENSÕES
Pelo número de páginas dedicadas à Terra Santa e a Jerusalém, entranhada «na memória, na saudade, na alma», se vê o peso descri- tivo dessa região em todo o livro - 186. O périplo pelo Egipto ocupa 65 páginas, a viagem pelo Iraque e pela Pérsia mereceu 80 e a jor- nada pelo Líbano, Síria e Turquia consta em 45 páginas. Em todas elas narra 0 Autor, com deleite e vivacidade, os seus aventurosos e instrutivos percursos, seduzindo o leitor e convidando-o também a via- jar e, desta forma, a impregnar-se de cultura. A sua experiência de viajante por terras do Próximo Oriente já aflorara em livros anteriores, mas é neste que avulta a grande riqueza de conhecimentos granjea- dos com a ânsia de saber e com a pertinácia de ultrapassar algumas dificuldades de jornadas mais ínvias e acidentadas, aqui narradas por vezes com humor contagiante.
Estas entusiasmantes e vivas reflexões das viagens por terras de Jerusalém e do Próximo Oriente, não sendo propriamente as me- mórias do Autor - são, aliás, «temporãs para “memórias” e serôdias para relato de viagem» - podem muito bem propiciar, como se dese- ja, um gratificante estímulo para peregrinos da Terra Santa, aonde to- dos os anos milhares de portugueses se deslocam ou deslocavam e potenciais turistas do Oriente Próximo. E são também em grande me- dida, substancial apoio para os estudantes universitários e 0 público em geral que pretenda familiarizar-se com 0 berço de antigas civiliza- ções.
O volume contém um pequeno caderno extra-texto de oito pági- nas não numeradas com fotografias do Autor que mereciam ser mais ampliadas (para tal teria valido a pena fazer um caderno de dezasseis páginas). O que se lamenta em tão útil obra são as muitas gralhas tipográficas, que se atribuem a uma deficiente revisão, descurando tão importante tarefa e maculando assim o trabalho proficiente do Autor e o seu português airoso e escorreito.
Luís Manuel de Araújo
ROBERT SOLÉ, DOMINIQUE VALBELLE, La pierre de Rosette, Pa- ris, Éditions du Seuil, 1999, 234 pp.
Julho de 1799. Borg Rachid, aliás «Fort Julien», em Roseta, a mais agradável cidade do Egipto segundo os europeus da época. Um lugar-tenete do exército napoleónico, Pierre François Xavier Bouchard,
descobre, de acordo com os relatórios oficiais, um negro bloco de pedra de forma rectangular, com cerca de um metro de altura, gravado com três escritas diferentes: hieroglífica, demótica e grega.
São este «object star» (p. 169) e esta descoberta «faite par hasard, en un lieu improbable et à un moment inoportun» (p. 11) que servem neste livro de objectos de reflexão a Robert Solé (escritor e jornalista — director-adjunto da redacção de Le Monde — de origem egípcia) e a Dominique Valbelle (directora do Instituto de Papirologia e de Egiptologia da Universidade de Lille III e presidente da Société française d’Égyptologie).
Mas porquê, realmente, um livro sobre a Pedra de Roseta, aten- dendo a que não há, certamente, muito de novo a propósito deste ícone da Egiptologia, em geral, e do British Museum, em particular?
O único dado relevante recente prende-se com a determinação rigorosa do tipo de pedra em que se inscreveu 0 decreto de Ptolomeu V Epifânio, no início do século II a.C. A cuidadosa operação de limpe- za feita em 1998, permitiu apurar que esta relíquia não era de basalto negro, como até então sempre se considerara, mas de granito cinzento escuro. Foram precisos mais de 200 anos para tal se fazer notado e para se poder afirmar peremptoriamente: a pedra é «une roche granitoïde, riche en quartz, contenant notamment du feldspath et du mice» (p. 170). Os estudos então realizados permitiram perceber também que a coloração negra que, entretanto, a pedra adquirira se devera à aplicação de cera que se fizera na sua superfície para a preservar e que, em consequência, contribuirá para a absorção e acumulação do pó atmosférico.
Não são logicamente estes factos dispersos que justificam a obra de Robert Solé e Dominiquye Valbelle. Sem as enunciarem de forma muito explícita, as verdadeiras motivações para este livro são equacionadas, sob a forma de pergunta, no parágrafo de abertura do capítulo 16, intitulado La magie d’une écriture, ou seja após 156 pági- nas de texto: «Comment présente-t-on aujourd’hui l’écriture égyptienne aux foules d’étudiants et d’amateurs qu’elle continue à fasciner? L’un des attraits les plus puissants des hiéroglyphes réside dans le con- traste entre la simplicité apparente des images représentées et la complexité relative du système graphique qui les utilise. Aussi ne doit- -on pas s’attendre à la facilité lorsqu’on s’intéresse de près à cette écriture!» (p. 157).
A Solé e Valbelle não interessou, pois, estudar e analisar o texto preservado na Pedra de Roseta. De facto, quem procurar neste livro qualquer elemento de tratamento histórico do decreto elaborado pelos
RECENSÕES
sacerdotes reunidos em Mênfis e publicado, a 27 de Março de 196 a.C., pelo rei Ptolomeu V Epifânio (205-180 a.C.), nada encontrará.
O seu objectivo é, no fundo, explicar as grandes características do sistema hieroglífico egípcio. Ao longo de 17 capítulos (178 pági- nas), os dois especialistas da história egípcia fazem reviver as várias etapas da ímpar aventura intelectual que se desencadeou em torno do estudo da esteia de Roseta e da decifração das suas escritas des- conhecidas.
No essencial, são descritas as circunstâncias da descoberta, dis- puta e salvaguarda da estela, que envolveram directamente franceses e ingleses (capítulos 1-6 e 17; pp. 7-64; 169-178) e as múltiplas tenta- tivas de decifração dos signos e símbolos sagrados, enigmáticos e mudos desde o século IV, encetadas sistematicamente, sobretudo, a partir do Renascimento (capítulos 7-16; pp. 65-168).
Os fracassos e embaraços na compreensão da natureza profun- da dos hieróglifos egípcios por parte de determinados estudiosos (ex. Amiano Marcelino, Heródoto, Diodoro da Sicília, Plutarco, Horapolon, Atanásio Kircher, William Warburton, Barthélémy, Charles Joseph de Guignes, Jörgen Zoëga, Nils Gustav Palin) e as hipóteses e iniciativas frutuosas que outros empreenderam (sobretudo Antoine Isaac Silves- tre de Sacy, Johann David Ákerblad, Thomas Young e Jean-François Champollion) possibilitam aos autores e aos leitores uma revisão de- talhada da complexidade do sistema gráfico egípcio.
As etapas da redescoberta das escritas egípcias antigas a partir do estudo da Pedra de Roseta são, portanto, aproveitadas por R. Solé e D. Valbelle para darem a conhecer a todos os estudantes e aos amadores da escrita egípcia todas as suas características, permitindo- -lhes, assim, penetrar no sue estudo de forma consistente.
Neste particular, a obra é, realmente, um precioso repositório de informações, extremamente ricas e diversificadas, susceptível de con- duzir à apreensão das questões filológicas mais importantes em torno do estudo da escrita hieroglífica.
Em termos formais, obra compreende ainda quatro utilíssimos Ane- xos, a saber «I. Le décret de Memphis» (pp. 183-189) — tradução da secção demótica da Pedra de Roseta —; «II. D’autres stèles bilingues» (pp. 191-194) — breve revisão de outras versões do decreto de Mênfis e do decreto bilingue de Canopo encontradas até hoje no Egipto —; «lll. Les intuitions de Thomas Young» (pp. 195-202) — texto integral da sexta parte do artigo « Egypt» (consagrada ã análise da inscrição de Roseta), publicado pelo físico inglês Thomas Young no Suplemento da Encyclopaedia Britannica, dando conta dos resultados das suas
investigações de decifração dos hieróglifos — e «IV. La leçon de Champollion» (pp. 203-211) — extracto do discurso feito por Jean- -François Champollion por ocasião da abertura do curso de arqueolo- gia no Collège de France (10 de Maio de 1831) e que serviria de introdução à sua Grammaire égyptienne, publicada em 1836, após a sua morte.
Entre as páginas 128 e 129, o volume integra vários extra-textos com figuras, nomeadamente sobre a povoação de Roseta, sobre a própria Pedra de Roseta e as suas diferentes inscrições e sobre al- guns dos seus mais famosos estudiosos.
Uma «Chronologie» (pp. 213-216), dividida em vários sub-temas (escrita egípcia; primeiras tentativas; Pedra de Roseta; decifração e trabalhos ulteriores), uma «Bibliographie» (pp. 217-224) arrumada por secções e um sempre proveitoso «Index des noms de personnes» (pp. 225-230) completam esta agradável e apurada obra.