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X Colóquio Internacional "Educação e Contemporaneidade" - Eixo 23 - Pesquisa fora do contexto educacional

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Academic year: 2021

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O LUGAR E SEUS SIGNIFICADOS NO RITUAL DE CORAÇÃO DA RAINHA DAS TAIEIRAS -LARANJEIRAS/SE

ANA CLAUDIA BATISTA SOUZA DANIELE LUCIANO SANTOS LUAN LACERDA RAMOS

EIXO: 23. PESQUISA FORA DO CONTEXTO EDUCACIONAL

Resumo: O foco deste artigo será o ritual de celebração da missa de coroação da Rainha das Taieiras, que acontece na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, em Laranjeiras, normalmente no segundo domingo do mês de janeiro. Esta celebração nos conduz a reflexão acerca da igreja como sendo lugar das trocas simbólicas, dos significados do sagrado, da cultura, do senso de pertencer ao folguedo e do sincretismo. Com base no exposto tem-se como objetivo a análise dos significados atribuídos pelas Taieiras à “Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito”, a partir das experiências e vivências no rito de coroação de sua Rainha. Para tanto, o percurso metodológico adotado foi composto por observação semiestruturada, levantamento e registros fotográficos e entrevista semiestruturada aplicada junto aos sujeitos dançantes do folguedo.

Palavras-chave: Taieiras, Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Lugar/Significado.

Resumen: El foco de este artículo será el ritual de celebración de la misa de coroação de la Reina de las Taieiras, que acontece en la Iglesia de Nuestra Señora del Rosário y Son Benedito, en Naranjos, normalmente el segundo domingo del mes de enero. Esta celebración nos conduce la reflexión acerca de la iglesia como siendo lugar de los cambios simbólicos, de los significados del sagrado, de la cultura, de la manifestación del senso de pertenecer al grupo y del sincretismo. El objetivo céntrico es analizar los significados atribuidos por las Taieiras al lugar “Iglesia Nuestra Señora del Rosário y Son Benedito” de las

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experiencias y vivencias en el rito de coroação de su reina. Para tanto, el recorrido metodológico adoptado fue compuesto por observación semiestruturada, levantamiento y registros fotográficos y entrevista semiestruturada aplicada junto a los integrantes del folguedo.

Palabras clave: Taieiras, Iglesia Nuestra Señora del Rosário y Son Benedito, Lugar/Significado.

1. Introdução O presente trabalho sustenta-se no projeto de pesquisa em fase de execução, intitulado “São Gonçalo, Cacumbi e Taieras: sentidos de ser, pertencer e viver a cultura popular no município de Laranjeiras/Sergipe[1]”. Este trabalho, especificamente, foca as Taieiras, e tem como objetivo analisar a igreja enquanto lugar do rito de coroação da Rainha, envolto de símbolos e significados para os sujeitos dançantes. O folguedo Taieiras do município de Laranjeiras/SE tem influência da cultura Nagô e é constituído por rituais e ritos sagrados e profanos. Os sujeitos dançantes[2] são predominantemente do sexo feminino, com faixa etária entre 10 e 70 anos. Um dos rituais mais importantes é caracterizado pelo ato de festejar e louvar os santos padroeiros Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, ambos considerados protetores dos negros. A louvação aos santos que antes acontecia no dia 06 de janeiro, atualmente é realizada no segundo domingo do referido mês, e se dá em dois momentos, sendo o primeiro na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, por meio da celebração de uma missa durante grande parte do turno da manhã; já o segundo, ocorre à tarde com a procissão, cujo cortejo percorre as principais ruas da sede do município. Neste artigo, o foco estará no ritual de celebração da missa, pois nele se dá o rito de coroação da Rainha das Taieiras, momento em que o padre retira a coroa de prata da imagem de Nossa Senhora do Rosário e a põe sobre a Taieira designada para o cargo de Rainha. O ritual de coroação inicia-se quando as Taieiras sobem a escadaria da Igreja de São Benedito, organizadas em duas fileiras, com o patrão ao centro, entre as duas primeiras meninas. Vêm tocando o tambô e os querequexés e adentram a igreja pela porta da frente, seguindo em silêncio, sem esboçar nenhum gesto até o altar, onde se acomodam na escadaria logo atrás do padre. Esta celebração nos conduz a reflexão acerca da igreja como sendo lugar das trocas simbólicas, dos significados do sagrado, da cultura, da manifestação do senso de pertencer ao folguedo que tem ligações fortes com santos católicos dentro de um sincretismo que é uma das características do folguedo. O fundamento teórico-conceitual que consubstancia a reflexão aqui esposada está em duas obras do geógrafo Yi-Fu-Tuan: Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente (2012) e Espaço e Lugar: A perspectiva da Diferença (2013). A partir delas, defendemos que lugar é um mundo revestido de significado, fruto da experiência, que por sua vez se traduz na capacidade de aprender a partir da vivência. Com base no exposto, temos como objetivo central a análise dos significados atribuídos pelas Taieiras ao lugar sagrado Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a partir das experiências e vivências dos sujeitos dançantes no rito de coroação da sua Rainha. Desta forma, o presente artigo é composto por introdução, que apresenta a temática; método de análise, demonstrando qual foi o método e as técnicas empregadas na pesquisa; o lugar e sua abordagem na Geografia Cultural; os símbolos e os

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significados ligados aos rituais das Taieiras; a igreja enquanto lugar do folguedo; considerações finais; e, referências. 2. A Fenomenologia como ancora analítica para construção do trilhar metodológico Método Fenomenológico tem como uma das suas principais características a ênfase no mundo da vida cotidiana, não se apegando somente ao observável, mas, penetrando o significado e o contexto do objeto de estudo, notadamente, por meio de relatos descritivos da vida social. E, para ir além da aparência, através da vivência e da experiência, a utilização dos relatos descritivos nas pesquisas fenomenológicas permite que a interpretação de tais relatos apegue-se mais aos significados e menos aos fatos (COLTRO, 2000). O método utilizado na referida pesquisa foi a fenomenologia existencialista de Merleau-Ponty, pois, na busca das essências dos objetos, este autor propõe o retorno às coisas mesmas. Mas, essas coisas devem ser vistas como parte do mundo vivido e experienciado pelo sujeito (MERLEAU-PONTY, 2011). Nesse sentido, a percepção é fundamental para a compreensão dos objetos tanto naturais, quanto culturais, tornando o indivíduo um sujeito ativo nas pesquisas que abordam a relação sujeito/lugar. Para a apreensão dos significados atribuídos pelas Taieiras acerca do ritual de coroação de sua Rainha, recorremos a Fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty (2011), uma vez que a percepção é o elo entre o vivido e as representações. O sujeito é o intermediário dessa simbiose. Neste caso, especificamente, o mundo perceptivo das Taieiras é o elo para apreendermos os seus significados entre o lugar e o rito. Desta forma, poderemos ter a maturidade para afirmamos ou não o senso de pertencimento deste folguedo para com o lugar do sagrado – a igreja. 2.1 A pesquisa: caminhos instrumentais Em consonância com o método, o percurso metodológico adotado se fez por meio da revisão bibliográfica; da observação semiestruturada, a partir de três roteiros elaborados; da construção de banco de documentação fotográfica, pautado no levantamento e registro fotográficos; e, realização de entrevista semiestruturada aplicada junto aos sujeitos dançantes do folguedo. Na revisão bibliográfica definiu-se a base teórica da pesquisa, os conceitos e as categorias que seriam trabalhadas. Para tanto, utilizamos Dantas (2013), Claval (2014), Souza (2013) e Tuan (2012; 2013). A observação importa na medida em que possibilita, segundo Gil (1995), descrever o fenômeno com mais precisão e profundidade. Designa-se semiestruturada, pois, refere-se ao momento em que o pesquisador vai ao campo, mas, utiliza um roteiro previamente estabelecido, o qual poderá ser seguido estritamente ou não. Nesse caso, as observações semiestruturadas foram realizadas em três momentos distintos: observação do lugar, observação da festa e observação dos ritos. A utilização desses três roteiros teve como objetivos observar as disposições econômicas, sócio espaciais, dos aspectos envolvendo a paisagem sociocultural e das disposições relacionadas aos serviços públicos e privados presentes em Laranjeiras; a observação quanto a participação das Taieiras na festa e a sua relação com outros folguedos; e, a identificação dá a participação das Taieiras nos rituais sagrados e profanos da cidade de Laranjeiras. Para a elaboração deste artigo utilizaremos como referência a observação do folguedo nos ritos, pois, este tinha foco principal na dinâmica dos rituais. Para tanto, o seu objetivo foi observar o envolvimento das Taieiras com a igreja enquanto lugar. Além disso, procuramos coletar informações referentes às características do folguedo, do

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ritual e do lugar, assim como do entorno do templo religioso. O levantamento fotográfico foi realizado em material bibliográfico e, os registros fotográficos foram realizados durante a realização da pesquisa de campo. Segundo Guran (2013) a fotografia descreve, representa ou interpreta tudo o que pode ser visto, sendo um ponto de partida para a reflexão e para a apresentação de conceitos. As entrevistas semiestruturadas foram aplicadas junto aos sujeitos dançantes com o intuito de aprofundar o conhecimento sobre o tema proposto, sendo adicionadas outras questões ao roteiro quando necessário. Salienta-se que os resultados foram obtidos entre novembro de 2015 e maio de 2016. 3. Entremeando o lugar da Geografia Cultural A geografia, enquanto estudo das ações humanas no ato de modelar a superfície terrestre (CÔRREA, 1995), se utiliza das categorias de análise espaço, região, território, paisagem e lugar. É salutar destacar que o espaço é a categoria fundante da Ciência Geográfica e que as demais categorias guardam entre si um forte grau de parentesco, e estão envoltas em um amplo debate entre várias concepções dentro e fora da própria Geografia. Para tanto, a base do presente estudo está no arcabouço da Geografia Cultural, através da leitura acerca do lugar, perpassando pela noção de senso de pertencimento por meio das dimensões dinâmicas da percepção dos indivíduos, imbricadas na sua subjetividade. Sobre a Geografia Cultural, Côrrea (1995, p.30) afirma ter surgido como crítica à geografia tradicional, “assentada na subjetividade, na intuição, nos sentimentos, na experiência, no simbolismo e na contingência, privilegiando o singular, [...] tem na compreensão a base de inteligibilidade do mundo real”. Em outras palavras, a Geografia Cultural está calcada nas filosofias do significado, especialmente na fenomenologia. Por este motivo, considera-se que o lugar passou a ser a categoria mais relevante nos estudos da Geografia Cultural devido a sua dimensão cultural simbólica. Na Geografia Cultural o lugar é principalmente um produto da experiência humana e significa muito mais que o sentido geográfico de localização. Segundo Tuan (2013), o conceito de lugar valoriza as relações de afetividade desenvolvidas pelos indivíduos em relação ao seu ambiente, é reconhecido como materialização da vida cotidiana, o lugar das relações mais íntimas construído por aqueles que vivem, experienciam e percebem a cotidianidade do lugar. Nesta perspectiva da Geografia “os lugares não têm somente uma forma e uma cor, uma racionalidade social e econômica. Eles estão carregados de sentido para aqueles que os habitam ou que os frequentam” (CLAVAL, 2014, p. 63). Portanto, o que “os defensores da Geografia Cultural [...] procuram compreender é a interpretação simbólica que os grupos e as classes sociais dão ao ambiente” (CLAVAL, 2014, p.64), por meio de suas experiências. Na obra, Espaço e Lugar: A perspectiva da diferença, Yi-Fu Tuan (2013) destaca a questão das experiências do sujeito com o mundo, a partir dos sentidos. Ele afirma que é no lugar que se estruturam as relações sociais e que se percebem as representações. Para o autor, quando um determinado espaço adquire familiaridade e sentido para os sujeitos que o habitam, ele torna-se lugar. E isto somente é possível por meio daquilo que Tuan chama de “experiências íntimas” com o lugar. As “experiências íntimas” com o lugar se dão principalmente a partir da forma que o individuo se relaciona com esse lugar e com os objetos que o compõe, nesse sentido, Tuan (2013) destaca que a intensidade do sentimento de lugar varia de acordo com as experiências que o

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indivíduo vive nele, e, apesar da existência de diversas formas de registro, nenhuma delas é capaz de transmitir a experiência íntima que o sujeito viveu naquele momento. É o caso das Taieiras no município de Laranjeiras, especialmente quando nos remetemos ao rito de coroação da Rainha na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, que se materializam no cotidiano daqueles que as percebem como parte do lugar, como elemento identitário, considerando as diversas facetas que caracterizam o folguedo. O sentido de lugar, as relações cotidianas, e as “experiências íntimas” podem ainda despertar o sentimento de pertencimento, caracterizado principalmente pelo vinculo afetivo que o homem desenvolve com o lugar. Esta relação que vincula o homem ao lugar é abordada pela noção de topofilia, criada por Bachelard, mas largamente difundida e utilizada por Tuan (1980), topo - lugar, e filia - afeição, auferem à relação homem-lugar um tom de cumplicidade, de indissociabilidade. Sobre sentido de lugar, Souza fundamenta-se em Oslender para afirmar que “as abordagens fenomenológicas do lugar [...] têm tendido a enfatizar os modos como os indivíduos e as comunidades desenvolvem ligações profundas com os lugares por meio da experiência, da memória e da intenção” (2013, p. 114). Para o autor, “sem os sentimentos e as imagens que se produzem e reproduzem na comunicação e nos discursos, o que há é o substrato material, não o lugar” (SOUZA, 2013, p.118). Portanto, os sentidos de lugar não são “coisas” materiais, deste modo os próprios lugares não devem ser assimilados à materialidade. Nesse sentido, a igreja enquanto lugar do rito de coroação das Taieiras é carregada de símbolos e significados que dão dinamicidade ao folguedo, que se manifesta por meio das suas várias práticas entre as quais o ato de ser e pertencer ao grupo.

3.1 As Taieiras de Laranjeiras/SE: Peculiaridades e significados O folguedo Taieiras que se apresenta esporadicamente pelas ruas de Laranjeiras teve influência de personalidades vinculadas a religião Nagô que chegaram em Laranjeiras nos séculos XIX e XX, como Ti Henrique e Ti Herculano (IPHAN, 2011). Quando a chefia do Nagô passou para Umbelina Araújo, coincidentemente, ela também passou a ser mestra das Taieiras. Entretanto, a escolha tanto da mestra, como da Rainha, não está condicionada a chefia do Terreiro Nagô de Santa Bárbara Virgem. Não se sabe exatamente a idade do grupo, apenas que as suas influências remontam dos séculos XIX e XX, e até então, o número de participantes tem variado. Atualmente o folguedo é formado por 35 integrantes, sendo vinte e sete meninas, cinco meninos, uma Rainha, uma lacraia, e uma coordenadora. A composição dos trajes usados pelos sujeitos dançantes varia de acordo com os personagens do folguedo. As Guias utilizam blusa vermelha e saia branca enfeitada com fitas coloridas, além de adornos como pulseiras e colares, e meias rosa, e sapato branco. Também faz parte da composição o chapéu branco de papelão forrado com papel crepom, enfeitado de fitas e flores vermelhas. Levam nas mãos um querequexé e uma vareta, recoberta de papel de seda nas cores vermelhas e amarela; além de uma pequena cesta no braço com enfeites das referidas cores, e flores. A Rainha utiliza um vestido longo, de cor creme, luvas brancas, colares, uma manta curta nos ombros na cor branca, e um lenço branco de forma triangular na cabeça, também na cor

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branca (uma ponta na testa e as demais nos ombros), preso por uma fita, sob o qual está a coroa de papelão enfeitada nas cores prata e vermelho. Além disso, carrega um cetro constituído de um pedaço de madeira recoberto de papel e flores de plástico. Ela é acompanhada pela(s) lacraia(s) que utilizam trajes comuns e durante o cortejo armam suas sombrinhas para ampará-la. Portanto, a figura da Rainha se destaca no folguedo como símbolo de imponência. Os trajes masculinos são compostos por calças vermelhas com listras laterais amarelas que vão até o joelho, camisas azuis de mangas compridas, uma faixa verde na cintura e outra verde-amarelo cruzando o peito, meias brancas que vão até o joelho e sobre estas vestes estão sobrepostos acessórios que identificam os vários personagens. O Patrão utiliza um chapéu branco, e leva o tambor enfeitado com fitas coloridas; os Capacetes utilizam um manto vermelho, coroa prateada e espada de madeira representado os guardas do Rei; os Ministros, manto branco, espada e coroa prateada; e, o rei, manto amarelo, espada e coroa dourada. O predomínio das cores vermelha e branca nas roupas dos sujeitos dançantes, apesar de não ser do conhecimento de todos, não são escolhas alheatórias. O vermelho e o branco representam as cores das vestes de Santa Bárbara Virgem, e as fitas coloridas representam os demais orixás do Nagô. Os cantos, as danças, e a música com os querequexés e o tambor são utilizados para destacar a louvação aos santos. E as flores que as Taieiras carregam nas mãos, distribuída pela mestra, são oferecidas aos mesmos santos homenageados durante e após a apresentação. Dentro do que foi descrito, podemos afirmar que as Taieiras se constituem como um folguedo que possui singularidades, tornando-o único no universo cultural laranjeirense. As indumentárias de seus dançantes, seus adereços, a forma de se posicionar seja na igreja, seja em cortejos, seja em palcos ou tablados, os cânticos rítmicos avivados pelos sons dos instrumentos, a sua Rainha, todos estes signos, lhe dão identidade. Na igreja, mais precisamente no ritual litúrgico, o folguedo se torna veemente, justamente pela sua composição, pela postura de seus sujeitos, pelos olhares atentos do público ouvinte e participante do ritual. Salientamos a relevância de trazermos uma breve descrição do folguedo pelo fato de proporcionar o conhecimento de aspectos que adensarão as discussões aqui esposadas entorno dos ritos e rituais que o envolve. Ao conjunto de gestos simbólicos repetitivos dá-se o nome ritos (GUILOUSKI; COSTA, 2012). A prática de tais gestos é associada às diversas finalidades, dentre as quais destacam-se àquelas de cunho religiosos como foi observado no ritual de coroação das Taieiras e na procissão de Santos Reis em Laranjeiras. Os rituais são compostos por um conjunto de ritos postos em prática na composição de uma cerimônia cujo caráter pode ser religioso ou não-religioso (GUILOUSKI; COSTA, 2012). Nesta perspectiva, refletir sobre a representatividade do ritual é de suma importância, posto que pela prática ritualística, passado e futuro se coadunam num mesmo momento; o passado pelo resgate, o futuro pela promessa de continuidade dos sentidos e significados que possibilitam a existência do que se quer referenciar (RODOLPHO, 2004). Quando os rituais de Coroação das Taieiras e a procissão de Santos Reis são analisados,

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descobre-se o fato de que os ritos e rituais envolvidos em ambas cerimônias servem de ponte capaz de conectar os sujeitos dançantes ao mundo divino referenciado pelos mesmos. Nas palavras de Guilouski e Costa (2012):

No âmbito do sagrado, por meio do rito os seres humanos adentram no mundo divino e, de certa forma, o trazem para a realidade humana. O rito é a poesia que o ser humano cria com o intuito de impressionar a divindade, os espíritos ou as forças da natureza e assim obter o seu favor (p. 92). Portanto, compreende-se a coroação da Rainha das Taieiras enquanto ritual que perpetua o folguedo como parte do lugar.

3.2 Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito: O lugar do simbólico, o lugar das Taieiras O lugar como uma construção sustentada pela experiência contínua, social, é um espaço de movimento, é o vivido que se substancia no afetivo, na magia, no imaginário. É palco de representações simbólicas, que se traduzem em sinais visíveis não só no plano vital da sociedade no sentido mais funcional, mas também inclui as suas aspirações, crenças, o mais íntimo de sua cultura. Neste contexto, podemos trazer para a discussão aqui proposta uma breve reflexão sobre o lugar do simbólico e do sagrado. Os lugares simbólicos são lugares dotados de significados pelos indivíduos, pelo uso de símbolos. Captar o sentido de pertencimento é de fundamental importância para esclarecer melhor as maneiras como os lugares são construídos e se conforma nas identidades do ambiente e nas identidades de pessoas, como indivíduos e como membros de grupos, levando em conta que há uma relação recíproca entre essas identidades (ROSENDAHL, 2005). O lugar também assume os vieses do sagrado, que segundo a autora representa:

[...] um campo de forças e de valores que eleva o homem religioso acima de si mesmo, que o transporta para um meio distinto daquele no qual transcorre sua existência. É por meio dos símbolos, dos mitos e dos ritos que o sagrado exerce sua função de mediação entre o homem e a divindade. E é o espaço sagrado, enquanto expressão do sagrado, que possibilita ao homem entrar em contato com a realidade transcendente chamada deuses, nas religiões politeístas, e Deus, nas monoteístas (ROSENDAHL, 2002, p. 30). É neste contexto que trazemos uma reflexão sobre as Taieiras e a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, vislumbrado como o lugar das trocas simbólicas, da manifestação da cultura popular de Laranjeiras, lugar da construção do senso de pertencer a um grupo, a uma identidade, do sagrado, da contemplação do ritual que perpetua a manifestação enquanto parte do lugar e no lugar. Segundo Dantas (2013) o folguedo Taieiras do Município de Laranjeiras possui fortes influências da cultura

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Nagô, mas também da cultura popular, sendo paralelamente sagrado e profano; entretanto, a essência da Taieira é o seu lado religioso, a sua devoção aos santos católicos, quando as Taieiras vão a igreja coroar a sua Rainha com a coroa de Nossa Senhora do Rosário. O momento de coroação traz à tona também o forte sincretismo religioso, decorrente, principalmente, do contato entre as crenças católicas dos povos já fixados em Laranjeiras, com as crenças dos negros que chegaram à região como escravos. Entretanto, apesar das heranças da matriz religiosa africana, o momento em que o padre coroa a Rainha das Taieiras com a coroa de Nossa Senhora do Rosário para aqueles sujeitos dançantes é a representação material/simbólica do sentido de ser e pertencer ao folguedo, como é expresso no relato abaixo:

A pessoa muda muito [...] acho que até porque o caso da coroação, né?

Aí, eu acho que Nossa Senhora deve abençoar alguma coisa, porque eu sempre fui uma pessoa muito farrista, sabe?

! E, com o passar do tempo eu mudei muito. Mudei minha personalidade, mudei muito o meu jeito de ser. Eu tenho pra mim que isso tem alguma coisa a ver. E eu acho que ela vai abençoando e dando mais consciência às pessoas das coisas, eu acho... Assim pra mim (Sujeito dançante B, 2016). O lugar – de coroação – das Taieiras é a Igreja de Nossa do Rosário e São Benedito, uma edificação do final do século XVIII e início do século XIX, localizada em um ponto estratégico da área urbana do município de Laranjeiras e que possui grande importância na cultura popular local por ser utilizada para celebração de manifestações culturais, como o referido rito. Mesmo sendo uma representação da religião católica, após as experiências e vivências dos sujeitos dançantes das Taieras, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito também se constitui enquanto lugar para o folguedo. Yi-Fu-Tuan (2013) diz que não há nenhuma forma da intensidade dessas vivências e experiências serem transmitidas em formas de registros, pois trata-se de uma experiência íntima. Essa experiência é constatada a partir do seguinte relato:

[...] O momento em que ela está sendo coroada. Eu acho que isso é... É... É o ponto alto das Taieiras. Porque ali também representa a ligação daquela pessoa com aquela santa católica. A proteção que ela dá através daquele momento. As bênçãos que ela recebe através daquele momento (Sujeito dançante A, 2016). Ou seja, no momento da celebração, a igreja encontra-se lotada, tratando-se tanto da população católica do município e arredores, além dos pesquisadores, da imprensa

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e dos turistas presentes na cidade devido ao Encontro Cultural de Laranjeiras, evento consolidado que ocorre desde o ano de 1975, como fomentador da identidade sergipana, valorizando a pesquisa, o estudo e a divulgação do folclore do estado. Porém, é importante ressaltar que cada sujeito vive aquele momento de forma particular e dá um sentido a ele de acordo com a forma como o percebem. Sobre percepção Tuan (2012, p. 18) afirma que “é tanto a resposta dos sentidos aos estímulos externos como a atividade proposital, na qual certos fenômenos são claramente registrados, enquanto outros retrocedem para a sombra ou são bloqueados”. Cada sujeito através dos sentidos responde aos estímulos externos de forma diferenciada, portanto, o que os fazem registrar os fenômenos também de formas distintas. Antes do rito de coroação, acontece o rito da santa missa, durante o qual os sujeitos dançantes se mantiveram sentados nas escadarias do altar, em silêncio, e com semblantes concentrados na maior parte do tempo, no entanto, houve momentos em que conversavam entre si, e em que ocorreu a interferência da imprensa para registrar o momento. Posteriormente acontece o rito de coroação: todos os componentes do folguedo se mantêm no altar, enquanto entram três crianças vestidas de anjo na igreja, e uma delas trás a coroa de nossa senhora do Rosário. A coroa é entregue ao padre, que a segura por um tempo sob os olhares atentos da assembleia. Ele está posicionado no altar entre a imagem da santa e a Rainha das Taieiras, de frente para o público. O padre coloca a coroa na imagem e depois sob a cabeça da Rainha das Taieiras, quando a retira, a mestra das Taieiras recoloca sob a cabeça da Rainha a coroa de “papel” que ela usava anteriormente. Esse rito é realizado ao som de um cântico católico popular da década de 1930, chamado: No céu existe. Após a coroação, o folguedo retoma a posição tradicional em duas fileiras de meninas com o patrão ao meio, e uma a uma, depositam flores no altar que são oferecidas a santa como parte da louvação. Posteriormente, acontece a queima de fogos e as Taieiras deixam a igreja, ainda de frente para o altar. Na saída retomam a formação normal e seguem em cortejo pelas ruas da cidade para visitar duas residências, onde dançam e recebem lanche. As apresentações do folguedo estão vinculadas a configuração histórico-geográfica e as tradições culturais da cidade. A tradição, como consta no Dicionário de Conceitos Históricos (p. 405) “é um produto do passado que continua a ser aceito e atuante no presente. É um conjunto de práticas e valores enraizado nos costumes de uma sociedade”. No Simpósio do XLI Encontro Cultural de Laranjeiras, durante a realização da Roda dos Mestres, a valorização da tradição e da cultura é percebida no discurso de um dos sujeitos dançantes do grupo.

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Eu danço Taieira desde os meus três anos de idade. Eu aprendi com ela a dar valor a cultura e a manter a tradição, que as Taieiras é um grupo de tradição (sujeito dançante C, 2016)[3].

Então a gente vem dando segmento a tradição das Taieiras aqui na cidade de laranjeiras e eu me sinto muito feliz e muito honrada de poder ter tido essa vivência junto com a minha mãe e de hoje poder tá dando continuidade à tradição (sujeito dançante C, 2016)[4].

E as Taieiras, eu costumo dizer que mesmo em meio a globalização e a modernidade ela preserva as suas raízes culturais, a sua essência (sujeito dançante C, 2016)[5]. Entende-se como tradição um conjunto de práticas, ritos e símbolos construído no passado e que continua a ser aceito e atuante no presente. Para Hobsbawm (2002), tradição refere-se aos valores enraizados no cotidiano de um grupo social; um conjunto de práticas, regulado por regras aceitas por todos, desenvolvendo na percepção dos sujeitos e na sua cultura esses valores por meio de uma relação com o passado feita pela repetição constante dessas práticas no lugar, no vivido. Portanto, na percepção dos sujeitos dançantes, eles têm o compromisso de dar continuidade à tradição, e as Taieiras de Laranjeiras se constituem nesse sentido enquanto transmissores dos valores culturais da cidade por meio das experiências e vivências de cada um dos sujeitos dançantes que compõe o folguedo. Os significados e os sentidos atribuídos aos ritos dos quais as Taieiras participam, vinculam o folguedo a identidade cultural da cidade e dos seus moradores, sendo o rito de coroação da Rainha das Taieiras uma sigularidade dessa representatividade, que tem como lugar íntimo a Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. 4. Conclusão No presente artigo tivemos o intuito de refletir sobre o lugar e seus significados no ritual de coroação da Rainha das Taieiras em Laranjeiras/se, isto levando em consideração a importância da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, que por sua vez se configura como o lugar da coroação. O artigo teve como embasamento a categoria lugar, envolto das noções de pertencimento e topofilia respaldados em Tuan (2012, 2013). O lugar como o espaço carregado de sentido e significado, onde são desenvolvidas as “experiências intimas” que podem despertar o sentimento de pertencimento, caracterizado principalmente pelo vinculo afetivo que o homem desenvolve com o lugar, a topofilia. Com base no exposto e partir da percepção dos sujeitos dançantes, pode ser compreendido o que foi proposto no objetivo do artigo, ou seja, a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito como o lugar do ritual de coroação da Rainha

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das Taieiras, e que os sujeitos dançantes que vivem o lugar mantém vivos o senso de pertencimento, as experiências intimas com o lugar e os rituais ligados a ele, dando-os identidade. Conclui-se também, que as Taieiras reavivam aspectos que muitas vezes são invisíveis na percepção de indivíduos que não possuem ligação afetiva com o lugar, como os signos e os significados do folguedo através das vestes, das danças e das músicas. Diante do exposto, é indiscutível a influência da cultura Nagô, da cultura popular e da religiosidade que constituem a essência das Taieiras, e vincula o folguedo ao lugar. Nesse sentido, a ligação do folguedo com os santos católicos e o momento da coroação da Rainha na Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário apresentam-se como parte da essência e identidade das Taieiras. Por fim, espera-se que essa análise possa contribuir com as discussões e pesquisas dentro da Geografia Cultural de base fenomenológica e, sobretudo, com pesquisas que prezem pelos valores culturais, as experiências e vivências dos sujeitos e pelos significados que estes atribuem ao lugar.

5. Referências CLAVAL, Paul. A Geografia Cultural. 4 ed. Ver. – Florianópolis: Ed. da UFSC, 2014. COLTRO, Alex. A Fenomenologia: Um enfoque metodológico para Além da Modernidade. Caderno de pesquisa em Administração. São Paulo, v. 1 Nº 11, 1º TRIM./2000. CÔRREA, Roberto Lobato. Espaço, um conceito-chave da Geografia. in: CASTRO, Iná Elias de. Geografia,conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p.15 – 47 1995. DANTAS, Beatriz Góis.ATaieira de Sergipe: Uma Dança Folclórica. 2. Ed. São Cristóvão: Editora UFS, 2013. GIL, Antônio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5 ed. São Paulo: Atlas, 1995. GUILOUSKI, Borres; COSTA, Diná Raquel D. da. Ritos e Rituais. In: II JUINTH – subjetividade contemporânea e religiosidade. Escola de educação e humanidades, 20 e 21 de agosto de 2012. GURAN, Milton. Documentação fotográfica e pesquisa científica - Notas e Reflexões. 2013. (Relatório de pesquisa). IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Casa de Ti Herculano é entregue à comunidade de Laranjeiras – SE. 2011.

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[1]“São Gonçalo, Cacumbi e Taieras: sentidos de ser, pertencer e viver a cultura popular no município de Laranjeiras/Sergipe” corresponde ao projeto de iniciação científica coordenado pela professora Dra. Roseane Cristina Santos Gomes e vinculado ao Grupo de Pesquisa Sociedade & Cultura do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe, durante o período de agosto de 2015 a julho de 2016.

[2]A expressão sujeito(s) dançante(s) foi adotada neste artigo para referir-se aos integrantes do folguedo Taieiras.

[3]Notícia fornecida por Bárbara Cristina no Simpósio do XLI Encontro Cultural de Laranjeiras. [4]Idem.

[5]Idem.

* Graduanda em Geografia – UFS, e-mail: [email protected]

. ** Mestranda em Geografia - PPGEO/UFS, Grupo de Pesquisa Sociedade & Cultura, e-mail: [email protected]

. ***Graduado em Ciências sociais – Universidade Nove de Julho, Graduando em Geografia – UFS, Grupo de Pesquisa Sociedade & Cultura, e-mail: [email protected]

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Recebido em: 05/07/2016 Aprovado em: 05/07/2016

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Metodo de Avaliação: Double Blind Review E-ISSN:1982-3657

Referências

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