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Equipe técnicas de CRAS: entre o querer e o poder nas intervenções

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Academic year: 2021

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*Graduanda em curso de psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina

**Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e docente do curso de psicologia

EQUIPE TÉCNICAS DE CRAS: ENTRE O QUERER E O PODER NAS INTERVENÇÕES

Rafaela Clarice Gesser*

Zuleica Pretto**

Resumo: Este trabalho teve como objetivo central conhecer as percepções das equipes técnicas de Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) acerca da relação entre as suas intervenções profissionais e as políticas públicas. A pesquisa seguiu o método qualitativo, sendo de campo, do tipo exploratória e com corte transversal. Os dados para análise foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada realizadas com seis participantes de duas unidades CRAS, sendo uma equipe técnica (formada por dois profissionais) e um coordenador por unidade CRAS. Por intermédio de uma análise de conteúdo, foi possível caracterizar as ações propostas pelas equipes técnicas bem como as dificuldades e as facilidades apontadas pelas entrevistadas, indicando a perceção de uma política fragilizada diante de uma implementação tardia e das ausências de recursos para efetivação da mesma. Essa realidade impacta as ações desempenhadas nos serviços, solicitando das profissionais uma proatividade que ruma para a fomentação do controle social na busca da prevenção, proteção e proatividade na garantia de direitos e do fortalecimento de vínculos sociocomunitários por meio do pertencimento e autonomia dos usuários.

Palavras-chaves: Política de Assistência. CRAS. Equipe técnica. 1. INTRODUÇÃO

Este trabalho teve como objetivo central conhecer as percepções das equipes técnicas de Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) acerca da relação entre as suas intervenções profissionais e as políticas públicas propostas. Com função de gestão do território, o CRAS é considerado “a porta de entrada” para o acesso aos serviços socioassistenciais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), acolhendo, inserindo, encaminhando e acompanhando o usuário deste Sistema (BRASIL, 2009a). Este serviço prioriza as famílias e indivíduos em situações de vulnerabilidade em decorrência do ciclo de vida e das fragilidades dos vínculos familiares afetivos e comunitários (BRASIL, 2009a).

Os objetivos centrais do CRAS são ações de prevenção, proteção e proatividade de forma coletiva na comunidade, o que vai além do atendimento particularizado na medida em que promove um espaço aberto à escuta e a integração comunitárias e busca identificar juntamente ao território de referência suas potencialidade e vulnerabilidades (BRASIL, 2009a; BRASIL, 2009b).

A atuação ocorre em caráter continuado, dada sua função protetiva em articulação com os demais serviços socioassistenciais e políticas públicas. As ações e serviços no SUAS seguem as diretrizes da descentralização político-administrativas por meio do pacto

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federativo, primando pela participação política popular. Esta é viabilizada pelas pré-conferências, conferências e conselhos de assistência que permitem a representavilidade social nas três esferas das organizações hierárquicas (municipal, estadual e nacional), porém, sob responsabilidade do Estado (BRASIL, 2004).

O CRAS também tem como prioridade possibilitar o acesso das famílias aos programas como o BPC (benefício de prestação continuada) e PBF (Programa Bolsa Família) articulando ações para inclusão das famílias nos programas e redução dos descumprimentos1

das condicionalidades do Programa Bolsa Família (PBF). Tais práticas visam fortalecer a extensão da cidadania e oferece informações e encaminhamentos a políticas de emprego e renda, como cooperativismo e associativismo, e a demais políticas públicas (BRASIL, 2009a).

O CRAS se articula com outros serviços do SUAS para viabilizar atuações em programas e ações socioassistenciais, que o caracterizam como um serviço de Proteção Social Básica (PSB)2. De acordo com a demanda dos usuários, cabe ao CRAS articular-se com a Proteção Social Especial (PSE) e seus serviços de média e alta complexidade, do Sistema único de Saúde (SUS), da Educação e demais serviços ofertados por atores da sociedade civil. E mantém suas funções privativas de trabalho social através do Programa de Atenção Integral às Famílias (PAIF), com a gestão territorial da rede socioassistencial de Proteção Social Básica em perspectiva dos eixos estruturados do SUAS, são eles o matriciamento sociofamiliar e a territorialização. Em busca da garantia ao convívio familiar e comunitário, ampliando o senso de pertencimento, tal como, autonomia e habilidades para construção do projeto de vida e, desta forma, fortalecendo os vínculos sociocomunitário (BRASIL, 2004; BRASIL, 2009a; MACEDO, 2011). A família então é entendida como unidade nuclear a qual as pessoas possuem laços de parentesco ou afinidade, na forma de grupo doméstico, ou seja, que conviva sob o mesmo teto, e cabe a política de assistência intervir com ações a modo de valorizar e respeitar as heterogeneidades e particularidades de cada grupo familiar, bem como as diversidades culturais que a constituem (BRASIL, 2009a).

1 O MDS é responsável por organizar os resultados do acompanhamento das condicionalidades do Bolsa Família, por meio do Sicon, e identificar as famílias em situação de descumprimento das condicionalidades, ou seja, aquelas que têm um ou mais integrantes que deixaram de cumprir os compromissos nas áreas de saúde ou de educação

2 Proteção Social Básica (PSB) funda suas ações na prevenção de situações de risco e fragilização dos vínculos socioafetivos e comunitários. A Proteção Social Especial tem como foco de atuação com famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, em decorrência de violação de direitos como (média complexidade): abandono, maus tratos físicos e/ou psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio-educativas, situação de rua entre outras, que podem ter fragilizados ou rompido seus vínculos socioafetivos (alta complexidade) (BRASIL, 2004)

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A rede SUAS, consequentemente o serviço CRAS, são resultados de uma grande conquista, que iniciou com a Constituição Federal, a qual dispõe a seguridade social com ações destinadas à garantia dos direitos relativos à saúde (SUS), à previdência e à assistência social (SUAS) (BRASIL, 1988). Estas ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade, estão destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social, financiados pela sociedade de forma direta e indireta, mediante recursos dos Estados, Municípios e do Distrito Federal e contribuição social civil, ou seja, de forma descentralizada e com participação popular (BRASIL, 1988). Desta forma, a Assistência Social juntamente com a saúde e previdência forma o que chamam de tripé da Seguridade Social sendo atribuído ao Estado o dever de assegurar liberdade, segurança, bem-estar, igualdade, desenvolvimento e justiça, assegurando os direitos sociais aos cidadãos (SILVIA; CORGOZINHO, 2011).

Mesmo fazendo parte da seguridade social, o SUAS e as ações para garantia dos direitos sociais relativos a Constituição Federal de 1988 só vem ganhar densidade política, após os anos de 1990 início de 2000. Segundo Macedo (2011), estes eventos foram marcados por fragmentação e desarticulação das políticas sociais, mesmo diante das notáveis conquistas do Sistema Único de Saúde (SUS), do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS). O SUAS, então, é fruto da IV Conferência Nacional de Assistência Social, tendo início a sua implementação em 2005, após a publicação e sistematização das Políticas Nacionais de Assistência Social (PNAS) em 2004. Porém, qual a abrangência de ações relativas à Assistência Social?

Norteadas pela Constituição Federal e legitimada pela LOAS e as PNAS, hoje as equipes técnicas de assistência social efetuam suas ações embasadas em princípios e diretrizes políticas dispostas em leis e cartilhas de orientações, na busca da garantia de direitos e da ruptura com atendimentos segmentados de caráter clientelista, que caracterizaram as ações na assistência como no passado. Estas foram caracterizadas com ações de benemerência da sociedade civil, mas que se inseriram no âmbito político do Estado, validadas pelo trabalho civil feminino de elite com a extinta Legião Brasileira de Assistência (1942) e o Programa Comunidade solidária (1996) (MESTRINER, 2001 apud, NERY, 2009 p, 44). É possível perceber tal concepção fazendo-se presente no discurso de Marcela Temer, esposa do Presidente Michel Temer, em 2016, em sua declaração em rede aberta como embaixadora do Projeto Criança Feliz, na qual a primeira dama dispõe seu trabalho voluntário para sensibilização da causa. Essa atitude corrobora para alimentar o imaginário social nas atuações políticas, como demonstram dados levantados por Sposati (2007) os quais indicam

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que em 50%, ou mais dos municípios brasileiros, é ainda a esposa (primeira dama) do prefeito a gestora da assistência social, e em 20% dos casos, esta preside o Conselho Municipal de Assistência Social, orgão democrático criado na busca da garantia do controle social.

Se as políticas de Assistência atuais sofrem influências de sua constituição histórica, o mesmo se pode dizer dos profissionais que nela atuam que tiveram um papel fundamental na efetivação do SUAS, em especial a partir reivindicações de profissionais, sindicatos e movimentos sociais, que se formaram no período pós-ditatorial e se fortificaram com os agravos sociais ocasionados pelo processo de industrialização. Entre as classes de trabalhadores o serviço social participa ativamente, questionando não só a ausência de direitos mas também a visão histórica da profissão, vinculada aos interesses de setores dominantes, apontando a necessidade da dimensão da política na prática profissional (SILVA, 2007). Já os profissionais da psicologia que se incluíram nas políticas assistenciais de forma efetiva após a promulgação da constituição 1988 se deparam com marcas históricas de práticas elitistas e com pouca atuação junto às demandas sociais. A chamada psicologia social comunitária e crítica, que já vinha se fortalecendo desde meados da decada de 1970 no Brasil, foi importante para o movimento de reflexão e revisão de pressupostos teóricos e práticas dessa profissão, ampliando temáticas e suas ações para públicos de camadas populares (YAMAMATO; OLIVEIRA, 2010 apud GERMANO, 1993; NETTO, 1990, p.9). Hoje psicólogos e assistentes sociais são os profissionais mais presentes nas equipes técnicas do serviço SUAS, como indicado na pesquisa realizada por Macedo (2011) no CadSUAS.

Nota-se que, com as mudanças na concepção de políticas públicas, o trabalho em assistência social não é mais uma exclusividade dos profissionais do serviço social, mas torna-se campo de atuação para profissionais de nível superior, médio e fundamental. As equipes técnicas de CRAS e demais serviços SUAS podem ser compostas por assistente social, psicólogos, pedagogos, advogados entre outras categorias (MACEDO, 2011). As categorias e a quantidade de trabalhadores a serem inseridos nos serviços socioassistenciais são identificados por diagnóstico socioterritorial, as demandas da comunidade em que este serviço deve ser implementado (BRASIL, 2004). O enfoque interdisciplinar parte do entendimento dos fatores complexos e multifacetados que estão envolvidos no processo de exclusão, com intuito de prevenir situações de risco e vulnerabilidade fortalecendo os vínculos afetivos e sociocomunitários.

Importante destacar que a noção de vínculo, segundo Merhy (1994 apud Gomes; Pinheiro, 2005, p293), nos faz refletir sobre a responsabilidade e o compromisso como profissionais. Isso porque criar ou fortalecer vínculos implica o estabelecimento de relações

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de uma grande proximidade, que permite ao profissional ser afetado pela realidade, dificuldades e desejos do outro, ser implicado em intervenções responsáveis tendo como objetivo a necessidade do usuário e não a do Sistema. Desse modo, criam-se as condições para que ocorra a promoção do empoderamento territorial político e cultural, já que são valorizadas as potencialidades do território, bem como, a autonomia e a conscientização política e o processo de cidadania.

Para fortalecer os vínculos afetivos e/ou sociocomunitários as equipes técnicas necessitam compreender quem são os indivíduos e as suas comunidades, suas redes de relações sociais no território (GOMES, PINHEIRO, 2005). Para tal, é preciso identificar o território como o espaço geográfico limitado, no qual as famílias estão inseridas dentro de contextos históricos, sociais e culturais que fornecem indicativos reais da formação dos processos de inclusão e exclusão (BRASIL, 2004)

Desta forma, compreender a família é também compreender os vínculos que esta estabelece em seu cotidiano/território e como os processos de exclusão sócio-cultural as afetam, fragilizam ou intensificam as diferenças. E reconhecer as fortes pressões dos processos de exclusão vividos pelas famílias, as quais evidenciam as situações de vulnerabilidade e seus modos de enfrentamento se torna o centro de ações políticas de assistência social, dado seu espaço de proteção e socialização primária, devido aos cuidados que esta provê aos seus membros (BRASIL, 2009a). Dada a heterogeneidade e alta densidade populacional somada a desigualdade socioterritorial do território brasileiro, tornando-se necessária a vertente territorial nas políticas públicas, exigindo agregar a realidade e a dinâmica demográfica e socioterritorial (BRASIL, 2004: BRASIL, 2009a)

Percebe-se que a proposta dos serviços da rede SUAS, bem como na composição técnica dos profissionais, enfatizam a importância da constituição, manutenção e fortalecimento dos vínculos sejam eles afetivos e/ou sociocomunitários e afirmam o território como espaço dinâmico, no qual ocorrem mediações e subjetivações relacionais. Assim, o CRAS pretende se destacar como espaço comunitário de debates e fomentações políticas culturais, valorizando a identidade comunitária e respeitando suas diversidades, e não apenas um espaço exclusivo de concessões de benefícios. Busca articular, com isso, ações de intervenção imediata, mas com foco em ações de médio e longo prazo que contribuam efetivamente para autonomia e protagonismo social (BRASIL, 2009a).

Neste contexto de novas compreensões que norteiam as intervenções dos profissionais da Assistência Social, questionam-se às práticas dos profissionais “eletistas” ou “clientelistas” e de políticas públicas de Assistência de “benemerências”, e busca-se propor ações para

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proteção, prevenção, proatividade dos usuários, torna-se relevante questionar como os profissionais que atuam nestes serviços, em específico no CRAS, percebem suas intervenções?

Com a intenção de buscar dados que auxiliassem na familiarização e na compreensão do tema, realizou-se revisão de literatura na base de dados Biblioteca Digital de teses e Dissertações (BDTD) Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia (BVS-Psi) no período compreendido entre março e maio de 2017. Foi possível observar que as pesquisas encontradas abarcavam diversos temas como: história social e política referentes a Seguridade Social, implementação de serviços e ações, profissionais e suas práticas, benefícios e serviços ofertados, mas poucas tratam a perspectiva da equipe técnica e suas intervenções frente às propostas para o fortalecimento de vínculos afetivos e/ou sociocomunitários.

Compreende-se assim, que caracterizar as intervenções das equipes técnicas de CRAS e identificar suas percepções acerca da relação entre a suas intervenções profissionais e as políticas públicas propostas, pode permitir ao pesquisador e ao profissional refletir sobre as práticas apresentadas em articulação crítica às prerrogativas das políticas deste serviço, levantando suas facilidades e dificuldades. Igualmente, poderá contribuir para a compreensão dos objetivos deste serviço e das ações dos profissionais que nele trabalham. Nesse sentido, poderá subsidiar propostas de capacitação e formação dos futuros profissionais junto a rede socioassistencial para efetiva atuação no campo da complexidade.

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E CARACTERIZAÇÃO DOS CRAS PESQUISADOS

A pesquisa foi realizada em duas unidades CRAS de um dos municípios da Região Metropolitana de Florianópolis. O município possui uma população 137.334 habitantes com um território de 395.133 km e uma densidade demográfica de 347,56 km, é considerado o município que mais cresce na Grande Florianópolis (indústrias, comércio e prestação de serviços). Apesar desse crescimento populacional, a cidade não possui vários serviços considerados básicos, como hospitais por exemplo, caracterizando seu crescimento como desordenado e desorganizado, como consta em seu histórico de apresentação.

O fenômeno estudado pela presente pesquisa: as percepções de equipes técnicas de CRAS acerca da relação entre a suas intervenções profissionais e as políticas públicas propostas para o fortalecimento de vínculos, valeu-se de estudo qualitativo, por meio de pesquisa de campo do tipo exploratória, de corte transversal. Para coleta de dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas que abarcavam questões sobre percepção das

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intervenções das equipes acerca de sua atuação no cotidiano e quanto às proposições das políticas públicas de assistência, sua implementação e efetivação. As entrevistas foram realizadas em duas unidades CRAS de um município da Região Metropolitana de Florianópolis, nas quais participaram: uma equipe técnica (formadas por dois profissionais) e um coordenador por unidade CRAS, totalizando seis profissionais. As duplas de profissionais que realizam os atendimentos conjuntamente foram entrevistadas simultaneamente e os respectivos coordenadores das unidades CRAS separadamente, totalizando quatro entrevistas com seis profissionais. É importante ressaltar que a presente pesquisadora atua no serviço CRAS, com vínculo de estágio obrigatório para conclusão do curso de psicologia, o que a levou ao interesse pela presente pesquisa. As entrevistas foram realizadas em salas disponibilizadas pelas instituições, com uma duração total de três horas e quarenta minutos e só aconteceram após a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa. Para analisar os dados utilizou-se a análise de conteúdo, sendo os dados coletados organizados em categorias, segundo Bardin (2004).

Assim, as profissionais entrevistadas da unidade CRAS I, foram uma equipe técnica formada por psicóloga e assistente social, e coordenadora de serviço, esta ex-técnica com formação em psicologia, assim nominadas: Elena, Cristina e Sandra. Elena, a psicóloga de 29 anos, atua na proteção básica há três anos e quatro meses, constituindo dupla de atendimento há um ano com Cristina de 37 anos, que atua neste CRAS I há sete anos. Sandra de 36 anos, psicóloga que atualmente responsável pela coordenação do serviço CRAS, trabalha na assistência social há seis anos.

3. CARACTERIZAÇÃO

No CRAS II foram mantidos o mesmo número de entrevistados, tal como as funções por elas exercidas. Esta equipe realiza os atendimentos em duplas, a assistente social e a psicóloga e a coordenadora de Serviço, a qual é assistente social, são elas: Sílvia, Clara e Júlia, respectivamente. Silvia de 36 anos, assistente social e Clara, psicóloga de 28 anos formam equipe há dez meses sendo esta a primeira experiência na rede de assistência. Júlia assistente social de 33 anos atua há 7 anos na rede de assistência passando pelo CRAS e o serviço de família acolhedora no nível de proteção especial

Esta instituição de "portas abertas", assim percebida pelas entrevistadas, se articula em bairros do município, chamado de território de abrangência. Atualmente o presente município não possui unidades CRAS para oferecer a cobertura total. Porém, prioriza o atendimento

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psicossocial realizado em duplas formadas por psicólogos e assistentes sociais denominadas equipes técnicas (todos os servidores dos CRAS I e II são efetivos). Seus territórios possuem características distintas quanto a densidade demográfica e extensão territorial, o que impactam nas intervenções do serviço pesquisado.

As particularidades do CRAS I, inaugurado em 2008, consistem em possuir como território dois bairros, um deles caracteriza por uma densa vulnerabilidade, ao qual se destina a maioria de seus atendimentos, com demandas voltadas para habitação, emprego e renda precarizada. Atualmente sua composição técnica é de profissionais efetivos em equipe multidisciplinar e duplas técnicas formadas por assistente social e psicólogo e pedagoga para dois serviços de proteção básica (CRAS e Centro de Convivências e Fortalecimento de Vínculos). Entre os grupos realizados no CRAS I tem-se o grupo do descumprimento, realizado junto às famílias beneficiárias do bolsa família, na busca de estratégias de superação dos motivos que levaram ao descumprimento das condicionalidades; o Café cidadão, com temáticas diferenciadas sobre a rede e questões de direitos; o grupo infantil realizado em parceria com a educação para prevenção de trabalho infantil; a participação no fórum social, fórum dos usuários SUAS e realização das pré-conferências de assistência social.

O CRAS II foi inaugurado em 2007, e possui como território de abrangência três bairros, sendo caracterizado por ampla dimensão e por ser o território que mais possui famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família do município. Nas intervenções propostas, este CRAS se diferencia na presença de trabalhos em grupo com as seguintes demandas: o grupo de mulheres debatendo a questão de gênero nas relações; o grupo da horta trabalhando as questões referentes aos direitos e o pertencimento territorial; grupo de produções fotográficas da comunidade com o público adolescente, discutindo temáticas que perpassam as questões relacionadas ao jovem e a comunidade (espaços públicos, emprego, escola e família), e o grupo de adultos, que visa promover reflexões e trocas de experiências a partir de relatos da vida cotidiana. Importante destacar que os últimos dois grupos são realizados com parceria de alunos de psicologia de uma das universidades particulares da região. Outra ação importante tem sido a mobilização social para formação do fórum social e fórum dos usuários do SUAS de abrangência municipal.

Conforme a descrição das entrevistadas os profissionais do serviço em questão promovem intervenções com seu público prioritário; Bolsa Família, BPC, descumprimento do Bolsa Família. O público de atuação do CRAS abrange ainda usuários em situação de risco ou vulnerabilidades oferecendo lhes: orientações efetuadas pela equipe técnica e técnicos administrativos, acolhimentos, encaminhamento e acompanhamento no programa PAIF. As

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modalidades de atendimentos podem ser individuais ou coletivas, além das visitas domiciliares e institucionais. Entre as funções apontadas os profissionais articulam a confecção de relatórios e estudos de casos para atualização dos próprios registros e articulação com a rede. Suas intervenções estão para além do atendimento individualizado com as propostas de trabalhos grupais, em perspectivas socioeducativas, sensibilização e mobilização social que distinguem as ações e caracterizam a individualidade de cada CRAS de acordo com a descrição das profissionais.

As descrições das percepções das profissionais permitiram a identificação de três categorias gerais de análise viabilizando uma compreensão sobre o atual estado das políticas públicas e as propostas de intervenções das equipes técnicas para o fortalecimento de vínculos sociocomunitários: a precarização das políticas públicas, a equipe técnica e o que dá certo, pontos analíticos descritos a seguir.

4. PRECARIZAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS.

É dentro de uma nova estruturação política proposta pelo SUAS que os profissionais do CRAS se encontram a pensar e propor intervenções na busca da garantia de direitos e fortalecimento de vínculos sociocomunitários, através das demandas territoriais e a solicitação dos usuários, a fim de evitar modelos individualizantes e descontextualizados (LEÃO, 2014). Porém, passados treze anos do início da implementação do SUAS, que relações podem-se observar-se entre as percepções das equipes técnicas de CRAS acerca de sua intervenção profissional com sua percepção acerca das políticas públicas que embasam suas intervenções?! Diante da tardia implementação e efetivação do Sistema Único de Assistência Social e do contexto histórico social, que engendrou as políticas públicas, é importante refletir quais os possíveis questionamentos sobre as ações que articulam a proteção social como direito social universal no Brasil (SPOZATI, 2007).

De acordo com as informações sobre as intervenções propostas pelos serviços foi possível identificar na percepção das equipes técnicas que as profissionais compreendem a importância de suas práticas e buscam viabilizá-las mediante o disposto nas legislações e cadernos de orientações. Porém, as Técnicas mantém o olhar crítico sobre as intervenções e objetivos tangíveis diante da atual inserção da política de assistência e a articulação para garantia de direitos relacionada às demais políticas públicas, como expõe Cristina. “A gente

entende que a política pública teria que estar melhor inserida e garantida né, a gente segue o que está na política e na tipificação mas se tivesse uma política efetiva e mais presente com

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certeza a gente conseguiria avançar mais". Silvia também denota as limitações do serviço de

Proteção Social o CRAS, que ao se deparar com os problemas sociais vê as maiorias das demandas voltadas para Proteção Social Especial. “Eu vejo assim oh legal bonito né quando

tu pensa no âmbito do CRAS ele trabalha a proteção básica, proteção e prevenção beleza, mas quando os casos vem para nós eles já passaram de proteção e prevenção em suas maiorias[...]. A reforçar a ideia Clara apresenta[...] a gente sabe que as políticas não funcionam como tem que funcionar, como no papel[...]

Desta forma, as participantes apontam as limitações desta política que busca se articular de forma intersetorial com as demais políticas para garantia de direitos que caracteriza o serviço em questão. As falas apresentadas juntamente com a de Julia confirmam, não só a necessidade de efetivação e implementação da política socioassistencial, mas também indica o atual estado das demais políticas e serviços. [...] quando parece que só vem

demandas de outras políticas; as demandas de outras políticas é que nos fazem entender que não há o acesso, e que há um prejuízo no acesso às políticas públicas e que isso compete ao CRAS [...].

A Educação e a Saúde são indicadas como geradores de demanda ao CRAS, porém as Técnicas indicam a precariedade de políticas habitacionais, de segurança, incluída a política de Assistência, que raramente é disponibilizada em sua integralidade como os demais equipamentos como: os centros de convivências e fortalecimento de vínculos e os serviços, atendimento domiciliar a pessoa idosa, dentro dos serviços da proteção PSB e demais serviços de media e alta complexidade no que se diz respeito a PSE. Os serviços implementados atendem o que seu corpo profissional permite, indicando quantidade mínima de profissionais e de estruturas. A contribuir com esta situação poucos ou nenhum recurso são destinados para ações dos serviços, seja este um serviço na PSE quanto na proteção social básica, gerando demandas reprimidas e uma restrição nas possibilidades de articulação entre os serviços públicos e socioassistenciais.

As falas das profissionais expõem as dificuldades na articulação entre as demais políticas, apresentando uma crescente demanda aos níveis de proteção social, seja na proteção básica ou especializada e apontada para a assistência e demais serviços públicos oferecidos, acabam por caracterizar as políticas públicas do Brasil fragilizadas e fragmentadas.

Esta realidade política reflete-se na efetivação dos serviços e consequentemente nas intervenções socioassistenciais propostas pelo CRAS, como referência a entrevistada Silvia ao falar das dificuldades frente ao número de demandas e o desfecho delas, e reflete-se nos

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distintos níveis de atuação socioassistencial [...] e daí fica naquela, fica na lista da demanda

reprimida lá do CREAS, quando não é caso de acolhimento, só que neste tempo em que ela vai ficar nesta lista reprimida esta demanda ela vai ficar aonde? Tal situação corrobora para

não integralidade do usuário e das ações assistenciais, o que faz com que haja divergências entre ações e objetivos propostos pela política de assistência, dando notas de precariedade aos serviços.

A fala de Sílvia relata uma crescente demanda com que os serviços públicos oferecidos vem se deparando, podendo apontar inúmeros fatores: uma a compreensão dos serviços como um direito a ser acessado, um Estado que olha tardiamente para as demandas sociais, uma política pública implementada tardiamente, bem como, trabalhadores e estruturas que se deparam com as demandas acumuladas de mais de 40 anos. "[...] acabamos sendo

engolidas pelas demandas né e reflete sobre o que, na falta de profissional, tanto de equipe técnica quanto de profissionais do administrativos." (Clara) [...] e o mínimo de acolhimento que você dá normalmente vem demandas para fazer (Sílvia). Estas fragilidades também foram

constatadas por Nery (2009) em sua pesquisa nos serviços CRAS. Esta analisa que as fragilidades das estruturas e as exigências cotidianas de improvisações e ajustes para responder adequadamente às famílias fazem com que os profissionais sofram ora exigências dos textos normativos ora as condições éticas e técnicas do exercício profissional.

A somar a precarização dos serviços, as gestões municipais se atravessam nas ações dos serviços gerando sentimentos de manipulação e instabilidade, mesmo diante de um quadro efetivo de funcionários. Este se vê movimentado como peças em um tabuleiro, com mudança de setores de coordenação de serviços, diretorias e secretarias como relata Cristina [...] parece um jogo de xadrez que nós somos peças muitas vezes nas mãos dos gestores e daí

quando muda gestão a gente fica assim até onde pode ir né porque se tu faz alguma coisa que não agrada tu pode ser derrubado um xeque-mate. Isto é, os trabalhos de mobilização social

acabam levantando demandas que são vistas como uma política de desfavor da gestão e não de uma busca de garantia aos direitos.

Acho que até eles têm a intenção de fazer um bom trabalho né, mas muitas vezes acham que tem que mostrar só o que é positivo, o que é negativo não é para parecer. Eu não penso assim, eu acho que tem que aparecer o dado de que não está legal e gerar demanda para ser resolvida (Cristina).

Esta não compreensão do serviço ofertado pela rede de proteção básica não se restringe só às ações de mobilização realizadas. O entendimento do que compete ao CRAS também traz dúvidas na rede política, seja saúde, educação e até mesmo dentro da própria hierarquia das políticas de assistência como expõem Julia referindo-se a sua experiência na

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proteção social especial. [...] quando eu cheguei na alta falando com pessoal da média eu

também observei isso, as pessoas quase não entende o que o Cras faz e reproduzem, - o Cras faz prevenção - mas o que o CRAS faz de fato [...] As gestões municipais também apresentam

uma percepção equivocada em relação ao trabalho e a importância do serviço como relata Julia sobre as conversas com colegas do setor do estadual que trabalham na difusão e implementação dos serviços socioassistenciais em outras cidades, expõe as respostas comumente encontradas nesta sensibilização ao serviço CRAS. Minhas colegas do estado que

chegaram em um município de pequeno porte e foram apresentar a proposta CRAS, a importância, a prefeitura olhou assim - ah o que eu vou ganhar com isso - ele não vai ganhar nada, ainda vai dar despesa porque não tem entendimento né! Esta é a concepção ou a falta

de compreensão sobre o serviço oferecido, diante da amplitude das ações oferecidas, principalmente tratando-se de um serviço de prevenção e mobilização social.

Apesar de uma gestão descentralizada com uma pactuação entre municípios estados e União, as gestões municipais vem sofrendo com a ausência de investimentos financeiros por parte dos demais formadores do pacto federativo, o que vem a somar com o sentimento de precarização e das restrições nas possibilidades das ações socioassistenciais, bem como o sentimento retrocesso histórico como expõem as técnicas que utilizam outros atores sociais para articularem as ações.

Vamos voltar para 70/80 como era, a gente tá atendendo situações aqui que a gente tem buscado o direito, mas só que a prefeitura não dá, não tem recurso [...] aí tu trabalha com? O seguinte como você é da assistente social você tem que trabalhar com os direitos então tu não pode pedir no terceiro setor [...]não funciona educação se não funciona a saúde não funciona a previdência para onde é que eles vão para assistência e para onde é que a gente, vai para o terceiro!

As apresentações das falas das entrevistadas oferecem indícios de um abandono das políticas voltadas ao bem estar social, seja na esfera da Saúde Educação e da própria Assistência tornando-se possível o questionamento de como a política de assistência, em especial o serviço CRAS, está articulando as intervenções junto a população atendida. Segundo as profissionais, muito se tem recorrido ao terceiro setor, ou seja, as ações filantrópicas e solidárias da sociedade civil como ONGs e de instituições religiosas [...] com a

questão do desemprego tem muita gente procurando. Aumentou muito número de solicitação de cestas básicas e aí a gente não consegue garantir isso, aí nós temos que sugerir para as pessoas procurar um outro lugar em ONGs igrejas (Cristina). Na mesma direção

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trabalho mas frente às necessidades a gente teve e tem que deixar separado para quando a gente vê que a situação tá feia a gente poder usar esse recurso né.

O terceiro setor trás consigo responsabilidades pela “questão social” no projeto neoliberal, no qual o Estado divide com outros setores (mercado e sociedade civil) a responsabilidade, podendo ter como conseguência o que Yamamoto (2007) relata como despolitização dos conflitos sociais. O autor ainda relembra que, Organizações não governamentais (ONGs) estabelecem “parcerias” com o Estado, sendo repositórios de transferências de recursos públicos,

As políticas de Assistência Social pressupõe a presença do Estado como referência para consolidação da política pública, cabendo ao poder público propiciar que todos os agentes desta política, OG’s e, ou, ONG’s rompam com os campo da ajuda, filantropia, benemerência para o da cidadania e dos direitos conferindo a estas unidades que compõem a rede de ações socioassistenciais intervenções de qualidade que visem assegurar os direitos, de tal forma que sejam passíveis de avaliação (BRASIL, 2004) . A pergunta é como gerar ações para a cidadania e direitos diante das exposições das equipes técnicas? Como no atual momento, em que se vive um retrocesso aos direitos e a concepção dos mesmos pode-se dizer que atuamos para uma efetivação quando temos uma primeira dama chamando a população para ações filantrópicas e de voluntariado em rede nacional!? Entende-se que a partir do momento que o Estado assume a responsabilidade de mecanismos extra-econômicos como as questões sociais estas solicitam sua legitimidade, por meio de institucionalização de direito e garantias sociais (YAMAMOTO, 2017). A corroborar com o pensamento de Yamamoto Julia enfatiza a ação do Estado como direito a ser trabalhado. [...] todo mundo pode dar alguma

coisa alguém pode dar enquanto pessoa física a igreja pode dar enquanto instituição mas a ideia de direito ela é muito interessante, ela tem que ser melhor trabalhada!

As percepções referentes às políticas públicas e as políticas de assistência, direcionam as entrevistadas para as atuais ações que precarizam o serviço para além da efetivação apontando desmonte das mesmas e impacto social e político frente e as propostas para fortalecimento de vínculos sociocomunitário, objetivo que funda todas as ações executadas neste serviço. A fala de Cristina ao fazer referência a possibilidade de efetivação das políticas socioassistenciais deixa isso explícito [...] é possível, com certeza é possível, só que não está

sendo suficiente, ainda mais agora, com essa crise nacional, esse desmonte.

O momento de retrocesso ou desmonte das políticas, palavras utilizadas no discurso das entrevistadas, nos reporta a uma política que não pode-se dizer implementada diante de uma política geradora de demandas aos serviços socioassistenciais. Parece que estamos diante

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de antigos fantasmas do assistencialismo e da ausência de direitos, e como observado na fala de Julia [...] agora quando o Estado viola seu direito quem encaminha?! E para onde não

encaminha?! Eu fico com ela aqui, na proteção social básica, tentando dar um jeito, e quem vai trabalhar especificamente essa questão de ir atrás são os espaços de mobilização.

Aspectos como a falta de entendimento das gestões municipais acerca das ações propostas pelos serviços socioassistenciais, e medidas governamentais a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/2016, que congela os gastos públicos por 20 anos, a reforma trabalhista e previdenciária que aumenta o tempo de contribuição, será que quando estas medidas foram pensadas questionou se em algum momento a quem efetivamente impactará? Quem é a população que utiliza estes serviços que terão seus gastos congelado? E como tais medidas vão impactar neste serviço pesquisado?

Para as entrevistadas é evidente o impacto seja nas demandas crescentes ao serviço, como relata Julia [...] mas a pessoa veio aqui e quer saber sobre a Saúde, a saúde não é com

a gente, mas a partir do momento que ela não tem acesso a um direito, ela tem acesso ao CRAS. Do mesmo modo se inserem os benefícios concedidos como o Benefício de Prestação

Continuada que tem como proposta passar a idade de concessão de 65 para 68 anos, (argumentado que está para além da aposentadoria, são as condições de trabalho aos quais a população se encontra). Ainda de acordo com Julia:

no Bairro São João o pessoal com aquelas carroça com material,[...] essa pessoa vai trabalhar mais, com 65 já é surrado pela vida entendeu ele não tem vida boa ele tem uma vida de privação tu vê o sofrimento daquele idoso de não conseguir trabalhar por certo os motivos, por doenças, por falta de acessar o mercado - tu viu meu Deus eu não consigo me aposentar eu não consigo ter uma renda para me manter - (reproduz fala dos usuários) nós estamos falando de um salário mínimo então o impacto é muito significativo e vai impactar diretamente aqui e a gente não consegue fazer nada.

Este "desmonte" da garantia de direitos ressoa nas falas das técnicas, que questionam não só a implementação e efetivação dos serviços para garantia das políticas de assistência, mas também da manutenção e condições dos atuais serviços e programas implementados como nos expõe Sandra ao relatar as atuais dificuldades em relação aos repasses dos recursos aos serviços e aos programas. Esta profissional cogita a possibilidade de extinção de programas como, Família Acolhedora e o Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil (PETI) que não estão recebendo repasses para as ações implementadas há um ano. A presente entrevistada também relata dados sobre a diminuição significativa de repasses federais para os serviços socioassistenciais e tendo como referência o ano precedente. Atualmente a gente tá

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guerreiros porque para ter uma noção eles não repassaram nada até o momento do Governo Federal (Julia). Diante disso, ficam indagações: como lidar com um Estado que promove

políticas para garantia de direitos sociais e ao mesmo tempo é um dos violadores dos direitos? Será que desresponsabilização pode ou acarreta o que Yamamoto exemplifica como um discurso neoliberal das questões sociais que trabalham em uma lógica: "(a) estatal-gratuito-precário; (b) privado-mercantil-boa qualidade e (c) filantrópico-voluntário-com virtual ausência de controle" (YAMAMOTO, 2017, p 33).

Como analisam Boschetti e Texeira (2017) os acontecimentos políticos e sociais vêm a demonstrar que a concretização de um direito não depende somente da inscrição da lei (apesar do Estado democrático considerar a lei uma condição para aquisição do sentido de obrigatoriedade de seu cumprimento). Para os mesmos autores, historicamente no Brasil o reconhecimento legal não tem sido suficiente para legitimar um direito, dado que suas ações empreendidas na assistência social não possuíam caráter de direito, apontando a necessidade de reconstruir relações sociais entre quem formula, fiscaliza e executa.

5. A EQUIPE TÉCNICA

Os profissionais que atuam nos equipamentos de Políticas Sociais podem ser considerados, segundo Macedo (2010), como principais ferramentas de intervenção das redes socioassistencias. Corroborando com essa visão, segundo Merhy (2002, apud MACEDO, 2010 p. 485), o trabalho da Assistência é um trabalho imaterial, cujas ferramentas de intervenção são, por excelência, o próprio trabalhador e seu conhecimento, incluindo sua formação prático-profissional e ético-política. Diante desses apontamentos, quais serão as posições adotadas pelos profissionais desta política em especial o assistente social e o psicólogo (dupla de atendimento dos serviços entrevistados) que historicamente vem suas profissões vinculadas ao assistencialismo e a um público elitizado, respectivamente?

Como já assinalado, os serviços pesquisados contam com uma formação de atendimento em dupla técnica de assistente social e psicólogo. Para as entrevistadas, essa configuração é vista como uma possibilidade de trocar compreensões e experiências sobre os atendimentos realizados, sobre a própria política e permite também discutir estratégias de planejamentos das ações coletivas. Nesse sentido, a reunião de equipe é apontada pela equipe do CRAS I como mais uma estratégia que viabiliza esta troca neste serviço.

É o principal e a dupla né para mim como psicóloga, no início custa um pouco a se encontrar no trabalho, aqui assim que é mais de orientação é mais diretivo, eu na faculdade não tive muita coisa da assistência é um trabalho difícil emocionalmente

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falando sabe e eu falo sempre para elas que o que ajuda aqui né são as nossas reuniões as nossas trocas (Elena).

Além de evidenciar o trabalho em equipe, a fala de Elena aponta para uma questão levantada também pelas demais entrevistadas, o fato de que psicólogos e pedagogos sintam um desfalque na formação acadêmica relacionada a política de assistência social. Logo, a formação das equipes multidisciplinares pode ser para muitos profissionais o primeiro contato com esta política.

Vale destacar ainda que, mesmo sendo o assistente social profissional de referência da política, a presença de outras profissões, ao contrário de uma competitividade indesejável, coloca a possibilidade de agregar novos olhares e saberes a produzir um salto de qualidade no trabalho da equipe dos serviços. E que esta complementariedade de trabalhos constitua uma perspectiva fértil a ser trilhada na direção da interdisciplinaridade (SILVA, 2008; NERY 2009).

Desta maneira é possível considerar que a interdisciplinaridade é uma das possibilidades para agregar nas ações do CRAS evitando as fragmentações que marcaram as ações no âmbito social, as multiplicidades de ações e de entender o território como espaço propício para as fomentações sociais. A ação interdisciplinar ainda solicita de sua equipe técnica proatividade e criatividade diante dos recursos reduzidos e necessidade de emergenciais como relata Silvia Nossa jornada e muito dinâmica não é estática e precisa de

muita proatividade cada caso que vem, a gente acha meu deus, a gente não vai ver pior, mas sempre tem uma coisa pior para ser vista então (risadas). Esta proatividade também é

demonstrada na fala de Clara a importância do processo de acolhimento e encaminhamentos feitos no serviço. [...] mas só o fato de ter a saliva aquilo ali pode dar um suporte para

pessoa aquele momento, a gente sabe que as políticas não funcionam como tem que funcionar como no papel mas que tem um olhar muito particular do profissional [...]

Para as profissionais do serviço CRAS fica o desafio do fortalecimento de vínculo, que se configura no âmbito da proteção básica como alvo de responsabilidade pública que busca combater as desigualdades e promover o desenvolvimento humano (BRASIL, 2004). Para tanto, são sinalizados fatores referentes ao campo relacional que embasarão esse objetivo e que, conforme as cartilhas, precisam ser valorizados nos trabalhos com as famílias. Assim, fortalecer vínculos é cumprir objetivos e métodos expostos em cartilhas ou alcançar metas estabelecidas por pactuações de gestões?

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A esse respeito compartilham Clara e Sílvia em relação ao mínimo de atendimentos estipulados como meta de atendimento municipal, relatando terem superado a meta já em junho julho. O município não estava atendendo este mínimo [...] mês passado nós fizemos 62

ou 63 atendimento individualizados quando agenda tá lotada eram cinco ou seis atendimentos por dia (Clara).

Apesar de o acompanhamento no serviço CRAS ser de decisão do usuário, os profissionais sentem este chamamento a uma apresentação de produtividade diante do que é acordado entre gestões e pactos de aprimoramento e o disposto nas políticas, o que tensiona suas práticas entre uma postura técnica, crítica e uma produtibilidade de ações designadas. Sílvia, ao referir-se à fomentação para manter os recursos mínimos necessários para prosseguir com o grupo da horta, deixa isso bem claro tu trabalha com o mínimo do mínimo

[...] ou tu podes ir atrás e tipo assim e vais e continuas tentando. Este posicionamento

político de compreender que as políticas devem ser instigadas a oferecer o que é de direito do usuário e promover com qualidade as ações a eles destinadas, bem como ter um posicionamento técnico e crítico frente ao que é solicitado na relação entre o usuário e o serviço. Na mesma linha Julia questiona para além da garantia do serviço como um direito, as intencionalidades das ações propostas:

Qual é o objetivo da Matricialidade será que é justamente para conhecer o movimento dessa família para eu atender a família como um todo ou é para eu ser um fiscal dessa família,e a ideia do território porque de tudo eu posso ter um contra. a ideia do território estar lá o CRAS no território é para real facilitar o acesso da pessoa a um serviço público ou é para limitar ela naquele território e fazer com que ela não percorra outros locais né, então a ideia de emancipação da política do usuário emancipar uma vez emancipado autônomo ele não precisa usar mais a política de assistência ou é o inverso ou usuário autônomo e emancipado daí mesmo é que ele vai usar porque ele conhece seu o direito são palavras chaves dentro da política de assistência território família autonomia que vai te fazer ou te colocar numa postura Profissional ou te levar para um outro caminho.

Em consequência ao pensamento político-crítico de Júlia, pode-se dizer que o trabalho comunitário solicita do profissional uma opção política favorável aos usuários, compreendendo a realidade social em que esta está inserida, muitas vezes oposta ao lugar que ocupa o profissional sendo atravessado por dilemas e tensões, deixando se afetar por esta realidade para transformação e orientação de suas intervenções (ANSARA; DANTAS, 2010). De acordo com as autoras, contribuir com que estas intervenções ultrapassem a obrigatoriedade de alguns programas governamentais coopera com a identidade coletiva e ao mesmo tempo com a legitimidade a necessidade da responsabilização do Estado. Pois como expõe Julia [...] todo mundo acha que pode dar alguma coisa alguém e todo mundo pode dar

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instituição, mas a ideia de direito ela é muito interessante [...]. No entanto, há uma

oportunidade histórica, renovada a partir do SUAS, de o Serviço Social se aproximar da Psicologia e trilhar um caminho de construção coletiva de novos aportes teórico-metodológicos no campo da assistência social (NERY,2009). Esta considera a ocasião enquanto um momento fértil de ressignificação da relação histórica entre as áreas, permitindo um diálogo em um patamar alargado no que se refere ao trabalho social e ao enfrentamento das múltiplas expressões da questão social, enquanto sujeitos de direitos e de desejos.

5. O QUE DÁ CERTO!!

5.1 PONTOS POSITIVOS, VISTOS PELA EQUIPE

Dentre os aspectos suscitados no decorrer desta análise, foram apontadas questões pertinentes aos dificultadores desta política, bem como à precarização. Porém, vale ressaltar os aspectos positivos identificados nas percepções das profissionais em relação a realização do próprio trabalho. É destacado pelas equipes técnicas o apoio das gerências de serviço na execução das ações. Diante do que há de recursos e parceria das gerências as entrevistadas relatam usufruir de autonomia técnica para propor e executar suas intervenções, como nos relatos "[...] uma coordenação que trabalhe não a teu favor mas junto contigo [...] (Sílvia)

[...] quando a gente tem uma coordenação assim implicada também que nos conhece eu acho que facilita[...] (Elena). A autonomia técnica e enfatizada nas falas das coordenadoras, que

mesmo mediando as solicitações dos gestores diante dos cortes e restrições de recursos, buscam não assumir uma postura de controle. [...] nós estamos tendo restrições em relação às

cestas básicas, eu repasso as condições atuais do benefício, mas não controlo, a autonomia da concessão é delas [...] (Sandra).

As técnicas do CRAS I também apresentam como ponto positivo a atuação da equipe técnica ser feita em dupla, do mesmo modo que consideram importantes as trocas entre as demais equipes como exposto: "[...] eu gosto da equipe a gente se dá bem, a gente está

sempre conversando, a gente sabe qual a família da fulana da ciclana [...] Porque a gente conversa porque a gente tem essa troca. Esta equipe também apresenta o acolhimento da

comunidade como um fator positivo que as fazem compreender a vinculação dos usuários com o serviço. "[...] as famílias nos recebem muito bem isso é positivo a gente é acolhido e

quem conhece o nosso trabalho fala bem do CRAS (Cristina). Olha, eu vejo que aqui o CRAS é bem referenciado na comunidade o pessoal conhece os nossos serviços e procuram, a demanda e a procura é bem alta de atendimento (Elena) " eles nos procuram para tudo, mas

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ainda tem muita gente que não sabe o que é o CRAS a gente não alcança todo mundo tem que ter mais visibilidade”.

Diante dos dados levantados nos serviços, ambos os CRAS compreendem como objetivo e a prevenção, proteção e proatividade. Enfatiza-se que os serviços estes serviços e fóruns apresentam como uma das ações que os caracteriza como referenciado pelas técnicas

[...] a gente tem que fazer as coisas mas assim de estimular quem é o nosso trabalho mesmo de mobilização popular né [...] (Cristina) empoderando os usuários com ações fomentadoras, fazendo que os mesmos sejam protagonistas rumando para uma autonomia, fortalecendo assim os vínculos sociocomunitários.

5.2 AS METODOLOGIAS DE INTERVENÇÃO

Como vimos anteriormente, para Nery (2009) a interdisciplinaridade é uma possibilidade de agregar diversas possibilidades, novos olhares e saberes para um trabalho de qualidade, possibilitando o renovar do aportes teóricos-metodológicos, ao qual pode se acrescentar também disponibilizados a partir da proposta SUAS, e da aproximação com demais áreas de atuação, a psicologia.

Apesar da interdisciplinaridade presentificar-se na composição das equipes técnicas de ambos os CRAS, no decorrer da pesquisa e da presente análise, foi possível presenciar as fortes notas dadas por uma precarização do serviço, consequentemente uma precarização da proposta da política de assistência e do seu principal objetivo, o fortalecimento de vínculos sociocomunitários. Então como as equipes técnicas vem trabalhando o vínculo diante do que já foi exposto e sobre o que expõem a fala de Sílvia O mais desgastante assim dentro dos

atendimentos e encaminhamentos é que parece muitas vezes que a única coisa que a gente tem é saliva e que por muitas vezes você vai encaminhar eles para saúde e que saúde não vai dar o suporte que eles precisam! O que estas equipes técnicas conseguem propor para além da

"saliva" diante de um cenário político, em meio a uma precarização do acesso aos direitos? Como trabalhar a proteção e prevenção da fragilização dos vínculos sociocomunitários quando o próprio Estado fragiliza as políticas, precarizando serviços e o trabalho do profissional?

Pode-se dizer que o SUAS com suas proposições de trabalhos grupais, com uma compreensão socioterritorial que permite um trabalho tanto com as famílias e como a comunidade, viabiliza ao CRAS fomentar com os usuários potencialidades e fragilidades dos mesmos, do território e das políticas que os assistem por meio do dispositivo de controle social, o que pode ser efetuado pela participação dos conselhos e pelas conferências, por

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espaços de mobilização social como os fóruns comunitários, a exemplo do ocorrido no território do CRAS I e no CRAS II.

Esta mobilização é vista pelas entrevistadas como uma das principais ações do CRAS, como afirma a fala de Cristina "esse é o nosso trabalho mesmo, de mobilização popular né". A entrevistada Julia também expõe a formação de grupos como um start para possíveis fomentações sociais, fazendo com que o usuário se torne um fiscalizador, questionador e propositor de ações para as políticas diante das suas vivências no espaço social e nos serviços públicos. [...] CRAS quando a gente fala prevenção isso é um trabalho de prevenção,

prevenção para que o direito não se viole, prevenção para que o Estado não vá lá e não viole o teu direito, porque, se a família viola o direito dela nós temos eu CREAS.

Desse modo, o grupo constitui-se como ferramenta importante na busca de garantia dos direitos e confirmam a possibilidade dos sujeitos como autônomos. Segundo Costa e Brandão (2005) a modalidade grupal pode propiciar a resolução de problemas, mediando as trocas intra e extragrupal, possibilitando que valores, mitos e tabus sejam apresentados e questionados, viabilizando a valorização e o pertencimento social, por meio do diálogo, resgatando vínculos afetivos e sociais. Assim as práticas grupais são um método de ações para prevenção e saúde permitindo que os sujeitos falem de suas relações com o social

O CRAS, como serviço que objetiva o fortalecimento de vínculos sociocomunitários, vê, nas ações grupais, a possibilidade de resignificar a relação do usuário com sua comunidade, tal como as mobilizações sociais resignificam o papel do usuário como cidadão de direito por meio do diálogo entre os gestores responsáveis pelas políticas e os executores desta política. Assim, torna-se necessário compreender o território como universo histórico cultural da população e estabelecer relações de proximidade com o território para que assim possam propor ações com os objetivos de empoderamento, autonomia e protagonismo social, ou seja, a CIDADANIA como o fortalecimento de vínculo sociocomunitário. Segundo Campos (1998 apud Silva; Corgozinho 2011) os trabalhos com as questões sociais procuram instigar o papel de sujeitos ativos com os usuários, com consciência das determinantes sociopolíticas da qual se encontra, de forma ativa na busca de estratégias para as demandas levantadas pelo território. De maneira muito ampla, questão social seria o conjunto de problemas políticos, sociais e econômicos gerados idante do processo de constituição da sociedade capitalista, impactando a classe operária (SILVA; CORGOZINHO, 2011)

Diante da compreensão do que são vínculos e do que são questões sociais e o que é CRAS como serviço que objetiva o atuar com vínculos sociocomunitários, pode-se observar, na fala das entrevistadas, que as ações de destaque em ambos os CRAS são as intervenções

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em grupo e a fomentação a participação social. Júlia exemplifica essa questão ao afirmar que uma demanda como a cesta básica pode se desdobrar em outra ação, para além da concessão deste benefício, viabilizando um local de reflexão, tornando-se mais do que falas técnicas, a fala do usuário com o usuário [...] quando o usuário começa ouvir o outro usuário ou porque

ele vai se identificar, porque não está sozinho nessa ou ele vai pegar o que a pessoa fez para superar o seu problema e ele pode usar como exemplo, então trabalho de grupo é interessante [...]. Ou seja, essa ação pode promover um processo de alteridade, entendida

como “o relacionar-se com o outro, diferente de mim, mas reconhecido por mim como uma pessoa com direitos iguais aos meus e valorizada enquanto sujeito (CAMARGO-BORGES; CARDOSO, 2005, apud SILVA; CORGOZINHO, 2011, p 18).

Desta forma, pode-se viabilizar a formação do grupo por vários meios. Porém fica evidenciado na fala das entrevistadas, que as intervenções estão para além do café, do plantio, da roda de conversas, das dinâmicas propostas para o trabalho das temáticas. O objetivo é a integração, reflexão e as mobilizações nascem com os grupos e nos grupos. Oportunizar ações em grupo faz com que uma demanda que pode ser respondida de forma pontual, seja uma orientação, encaminhamento ou um benefício, podendo se desdobrar em uma participação do usuário como sujeito ativo nas ações (questionando, solicitando e idealizando ações para sua comunidade, ampliando sua rede de apoio para além do serviço socioassistencial), como vislumbra Julia [...] coordenadora sai e aí e aí vai começar tudo de novo, não, o fórum é a

idéia de ser legitímado no território, independente de quem esteja, independente do cargo que ocupa [...] aí não fica sobre o olhar de uma instituição não é o Cras o fórum e da comunidade.

Nessa discussão, vale assinalar a importância que Dirce Koga (2003) atribui ao território como fomentador de políticas, que fornecem dados históricos e culturais para embasar a atuação política.

Os direcionamentos das políticas públicas estão intrinsecamente vinculados à própria qualidade de vida dos cidadãos. É no embate relacional da política pública entre governo e sociedade que se dará a ratificação ou o combate ao processo de exclusão social em curso. Pensar na política pública a partir do território exige também um exercício de revista à história, ao cotidiano, ao universo cultural da população que vive neste território [...] (DIRCE KOGA, 2003 apud BRASIL, 2004, p. 37)

Assim, o CRAS consiste em um dos espaços possíveis para este debate não só com a formação de grupos, mas também com as pré conferências de assistência, expandindo para as conferências e conselhos de assistência e demais locais possíveis para desempenhar o controle social. Encontra-se, deste modo, no controle social a possibilidade de um potencializador de

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"grupo sujeito" como explana Barros (2009). A autora, a partir da compreensão de Guattari (1930 – 1992), entende que os indivíduos propõem-se a pensar a partir de uma posição de alteridade e aos processos criativos, negando hegemonias, permitindo que este amplie a compreensão do processo de subjetivação, e assim pensar e buscar novos sentidos para as construções históricas, segundo um movimento criativo e permanente em que inscreve e reescreve o individual em história grupal, social e comunitária. Como relata Julia [...] assim

vamos trabalhar questões para além de posso fazer o grupo, entendeu isso é bacana é isso que dá cara o CRAS é isso que dá Cara ao trabalho [...]

Como apresentado na caracterização dos serviços, o CRAS I se articula com o fórum social e o CRAS II ruma para a implementação do mesmo, e ambos, participantes da implementação do fórum do usuários do SUAS, de abrangência municipal, fazem com que as Técnicas apresentem o método de práticas grupais como viabilizador das mudanças quanto a mobilização para a formação do fórum social do CRAS I e a construção de uma coletividade, como relata Clara [...]isso era uma coisa que se percebia inicialmente que, era tudo

individualizado [...] a minha demanda hoje no grupo é o nós o coletivo. A representatividade

deste trilhar para a grupalidade, acentuada nas falas das técnicas do CRAS II, que veêm as primeiras participações dos usuários de sua área de abrangência, e a integração dos demais territórios para formação do fórum dos usuários do SUAS com entusiasmo. Sandra coordenadora do CRAS I também expõem que é possível ver uma mudança nas participações diante das presenças nas pré-conferências e conferências de assistência social pontuando os números crescentes de cinco usuários para 50 na última conferência municipal que ocorreu no dia 21de junho de 2017. O que vem a corroborar com esta construção participativa. Os fóruns sociais somam na representabilidade dos usuários e legitimam seu território. Para Júlia há uma necessidade da implementação do fórum social [...] o fórum vai atingir essa rede a

comunidade e as instituições. O bom é que não personaliza não é só o cras chamando [...]é uma integração de todos que participam do território. Assim, o controle social, instrumento

de efetivação da participação popular no processo de gestão político é apresentado como uma das principais ações de prevenção e fortalecimento de vínculo sociocomunitário pelas Técnicas entrevistadas, com refere Sílvia [...] aí tu vê o crescimento gradativo dele né

enquanto sujeito de direito, tormando se apoderando deste conhecimento para buscar para si e para o outros.

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Diante do objetivo a que se propos a presente pesquisa, foi possível observar que, diante dos recursos e materiais que são ofertados, as equipes técnicas executam a maioria das ações previstas pelos cadernos de orientações, com alguns dificultadores, como a comunicação nas relações intersetoriais e de rede, as quais, segundo as entrevistadas denunciam a não compreensão das ações ofertadas pelo CRAS, em especial ações de médio e longo prazo, como as sensibilizações socioeducativas, a formação de grupos e a fomentação social.

Nota-se que permanece ainda na construção da imagem social este lugar conhecido pela assistência, como o local das solicitações e de concessão, porém hoje essas ações são pautadas na garantia de acesso às políticas públicas, geradoras da maioria das demandas que se referem ao CRAS, demonstrando a importância de sua concretização.

As falas das entrevistadas evidenciam não só a necessidade de efetivação e implementação da política socioassistencial, mas também são indicativas do atual estado das demais políticas e serviços. As demandas de outras políticas sinalizam um prejuízo no acesso aos direitos, e que como serviço de proteção e garantia sente-se chamado as práticas de levantamento de demandas e fomentação social.

A não valorização das políticas que atendem populações em situação de vulnerabilidade são marcadas por paradoxos e contradições como aponta Spozati (2017) que se reiteram na desproteção social, por meio de interrupções que acompanharam sua legitimação. Para a autora o intervalo e incompletude de sua implementação fazem com que a proteção social como um todo, incluído o serviço pesquisado, sofra mais facilmente ajustes diante de crises conjunturais ou estruturais do capital, como corte de repasses, de benefícios e de precarização de programas do que outros setores.

O CRAS, serviço de proteção social básica, parte integrante das políticas de assistência que nasceu da mobilização da sociedade civil diante dos agravos das demandas sociais se vê hoje após treze anos da conquista da garantia da política de assistência, sua implementação e efetivação precarizada com recursos reduzidos, impactando nas possibilidades de ações que estes profissionais podem efetivar. A postura assumida pelos federados nos últimos anos fez com que as demandas direcionadas a esta política inflem o terceiro setor diante de uma desresponsabilização da política de direito. Isso nos faz questionar o que este serviço de prevenção proteção e proatividade vem conseguindo efetivar em seu território para fortalecer os vínculos sociocomunitários um de seus objetivos. Para tal, as Técnicas apresentam as ações grupais e as mobilizações sociais como possibilidades para manutenção da política.

Referências

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