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Dissert PEGORARO Everly

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF CENTRO DE ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO INTERINSTITUCIONAL EM HISTÓRIA UFF – UNICENTRO. DIZERES EM CONFRONTO (A Revolta dos Posseiros de 1957 na Imprensa Paranaense). ÉVERLY PEGORARO. Niterói/RJ 2007.

(2) 2. ÉVERLY PEGORARO. DIZERES EM CONFRONTO (A Revolta dos Posseiros de 1957 na Imprensa Paranaense). Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Interinstitucional em História UFF/UNICENTRO, como requisito para obtenção do Grau de Mestre. Área de Concentração: História Social. Orientadora: Profª. Drª. Ismênia de Lima Martins. Niterói/RJ 2007.

(3) 3. ÉVERLY PEGORARO. DIZERES EM CONFRONTO (A Revolta dos Posseiros de 1957 na Imprensa Paranaense). Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Interinstitucional em História UFF/UNICENTRO, como requisito para obtenção do Grau de Mestre. Área de Concentração: História Social.. COMISSÃO EXAMINADORA. Prof. Dra. María Verónica Secreto de Ferreras (UFRRJ). Prof. Dra. Márcia Maria Menendes Motta (UFF). Prof. Dra. Ismênia de Lima Martins (UFF).

(4) 4. Para minha família e amigos, com todo amor..

(5) 5. AGRADECIMENTOS. A minha orientadora, professora Ismênia, por toda a sua ajuda nessa etapa de minha trajetória acadêmica. A Unicentro e a UFF, pela oportunidade de desenvolver uma pesquisa que traz em si um pouco de minha própria história e do povo de minha região, o Sudoeste do Paraná. Aos professores Sitillo Voltolini, Márcia Motta, Beatriz Olinto e Verónica Secreto, pois sua ajuda foi fundamental para a realização desse trabalho. A Mafalda Francischett, pela sua disponibilidade em elaborar os mapas que aqui se encontram. Aos meus depoentes, por compartilharem comigo memórias tão preciosas. A meus pais, irmão e amigos, pela compreensão e pelo apoio em todos os momentos, principalmente nos mais difíceis. Não poderia deixar de registrar um agradecimento especial a Rogério e Janaína, amigos tão queridos que me acolheram todas as vezes que precisei de hospedagem em Curitiba. Também deixo meus agradecimentos a todos os demais que, mesmo não mencionados aqui, sabem que ajudaram a tornar essa pesquisa uma realidade. Finalmente, agradeço a Deus, a quem devo tudo que sou e tudo que tenho..

(6) 6. “... os falares diferem de grupo para grupo, e cada homem é prisioneiro de sua linguagem: fora da sua classe, a primeira palavra marca-o, situa-o inteiramente e expõe-no com toda a sua história. O homem é oferecido, entregue pela sua linguagem, traído por uma verdade formal que escapa às suas mentiras interesseiras ou generosas.". Roland Barthes.

(7) 7. SUMÁRIO. 1. 1.1 1.2 1.2.1 1.2.2 1.3 1.3.1 1.3.2 2. 2.1 2.2 2.3 3.. 3.1 3.1.1 3.1.2 3.1.3 3.2 3.2.1 3.2.2 3.2.3. LISTA DE FIGURAS E TABELAS LISTA DE SIGLAS RESUMO ABSTRACT APRESENTAÇÃO A REVOLTA DOS POSSEIROS DE 1957 O DEBATE DAS INTERPRETAÇÕES SUDOESTE DO PARANÁ: TERRAS MARCADAS POR DISPUTAS Colonização dirigida Articulação de interesses e o conflito de 1957 O GOVERNO LUPION A política de colonização de Lupion 1957: dificuldades provisórias e clima de insatisfações A VOZ DE UM CONFLITO: A RÁDIO COLMÉIA NA REVOLTA DOS POSSEIROS DE 1957 QUANDO A IMPRENSA PARTICIPA DA HISTÓRIA A MEDIAÇÃO DA RÁDIO COLMÉIA DE PATO BRANCO NO CONFLITO DE 1957 A RÁDIO COLMÉIA DE FRANCISCO BELTRÃO NO CONFLITO DE 1957 AS PALAVRAS DE UM CONFLITO: DISCURSOS SOBRE A REVOLTA DOS POSSEIROS DE 1957 NAS PÁGINAS DA IMPRENSA PARANAENSE O ESTADO DO PARANÁ NA REVOLTA DOS POSSEIROS Colonos e posseiros Violência Panorama político A GAZETA DO POVO NA REVOLTA DOS POSSEIROS Colonos e posseiros Violência Panorama político CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. 9 10 12 13 14 20 21 26 38 43. 55 58 63 68 73 79 89 99. 104 109 116 123 130 135 139 143 153 157.

(8) 8. FONTES PRIMÁRIAS 157 TESES, DISSERTAÇÕES E MONOGRAFIAS CITADAS E/OU 158 CONSULTADAS BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 160 BIBLIOGRAFIA CITADA 162 166 ENTREVISTAS 167 ANEXOS.

(9) 9. LISTA DE FIGURAS E TABELAS. FIGURA 01. Mapa da localização das Glebas Missões e Chopim. 31. no Sudoeste do Paraná FIGURA 02. Localização da região Sudoeste do Paraná. 36. FIGURA 03. Divisão atual dos municípios do Sudoeste do Paraná. 37. FIGURA 04. Principais municípios envolvidos na. 51. Revolta dos Posseiros de 1957.

(10) 10. LISTA DE SIGLAS. APUCARANA Imobiliária Apucarana Ltda. CANGO CEFSPRS CITLA. Colônia Agrícola Nacional General Osório Companhia de Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande do Sul Clevelândia Industrial e Territorial Limitada. COMERCIAL Companhia Comercial e Agrícola Paraná Ltda. CPI. Comissão Parlamentar de Inquérito. DOPS. Delegacia da Ordem Política e Social. DGTC. Departamento de Geografia, Terras e Colonização. DTC. Divisão de Terras e Colonização. GETSOP. Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. INIC. Instituto Nacional de Imigração e Colonização. KHZ. Quilohertz. PDC. Partido Democrata Cristão. PL. Partido Libertador. PR. Partido Republicano. PRT. Partido Republicano Trabalhista. PSD. Partido Socialista Democrático. PSP. Partido Social Progressista. PST. Partido Social Trabalhista. PTB. Partido Trabalhista Brasileiro.

(11) 11. PTN. Partido Trabalhista Nacional. SEIPU. Superintendência das Empresas Incorporadas da União. SVOP. Secretaria de Viação e Obras Públicas. UDN. União Democrática Nacional.

(12) 12. RESUMO. Esta pesquisa reflete sobre a participação da imprensa na Revolta dos Posseiros de 1957. Parte-se do pressuposto de que jornalismo é mediação simbólica e de que as estruturas narrativas têm papel ativo na criação e descrição da realidade histórica. O estudo faz uma análise comparativa do discurso jornalístico acerca do levante entre os periódicos paranaenses Gazeta do Povo e O Estado do Paraná. Além disso, apresenta as rádios Colméia de Pato Branco e Francisco Beltrão, com seu envolvimento direto no conflito. A revolta envolveu a disputa das mesmas terras entre os governos estadual e federal, companhias de terras, colonos e posseiros, no Sudoeste do Paraná, resultando em violências, mortes e desentendimentos políticos. A análise contempla o período mais intenso e violento, entre os meses de setembro e novembro, quando colonos e posseiros organizaram-se e expulsaram as companhias de terras e os jagunços por elas contratados, além de exigir a designação de novas autoridades municipais.. Palavras-chaves: Revolta dos Posseiros de 1957; discurso, jornalismo, conflitos de terras..

(13) 13. ABSTRACT. This research reflects about the press’ participation in the Leaseholders’ Revolt in 1957. It’s presupposed journalism is symbolic mediation and narrative structures have an active function in the historical reality’s creation and description. The study does a comparative analysis about journalistic discourse on the subject of the revolt between Gazeta do Povo and O Estado do Paraná, newspapers from Paraná. Moreover, it presents Pato Branco’s and Francisco Beltrão’s broadcasting stations, with their direct involvement in the conflict. The revolt was the dispute among the state and federal government, companies of lands, colonists and leaseholders, in the Southwest of Paraná, resulting in violence, deaths and political misunderstandings. The analysis involves the most intense and violent period, among September, October and November, when the colonists and leaseholders organized themselves into the expulsion of the companies of lands and the gunmen whose were contracted by them. They also demanded new authorities to the cities.. Key-words: Leaseholders’ Revolt in 1957; discourse, journalism, conflict of lands..

(14) 14. APRESENTAÇÃO. “De espingarda, de facão à cinta e empunhando a bandeira nacional, os colonos se levantaram em governos populares”. O Cruzeiro, 2 de novembro de 1957.. Como a imprensa media e colabora para a construção histórica de um conflito de terras? Essa é uma das perguntas que perpassa toda essa pesquisa. Entende-se que a imprensa assumiu um papel significativo na construção da narrativa histórica contemporânea, já que os meios de comunicação tomam para si o papel de intermediários para que o acontecimento marque agora a sua presença. Entretanto, o discurso jornalístico é construído através de uma série de intervenções e interesses. Essas intenções, traduzidas em estruturas textuais e perceptíveis no contexto da produção discursiva, confirmam o papel ativo da linguagem na construção histórica de um conflito. Não é minha pretensão afirmar que a versão transmitida por um ou outro jornal seja mais ou menos verdadeira. Afinal se a história pode ser contada de inúmeras maneiras, fornecendo diferentes interpretações aos assuntos, dotandoos, então, de sentidos diversos, os jornais, ao optarem por uma forma discursiva,.

(15) 15. uma maneira de selecionar os fatos e apresentá-los ao leitor, também fornecem um ângulo peculiar para a escrita da história1. Entender como as idéias são transmitidas e como os meios pelos quais se dá a sua transmissão interferem na própria compreensão das mensagens, além de refletir sobre como o contato com essa palavra afeta o comportamento de um sujeito histórico, inserido em um tempo e lugar determinados, fazem parte dos argumentos que justificam a pertinência do estudo do discurso jornalístico2. Partindo-se desses pressupostos, esta pesquisa analisa como a imprensa paranaense construiu o discurso jornalístico sobre a Revolta dos Posseiros de 1957 no Sudoeste do Paraná, apontando possíveis interesses dos veículos de comunicação analisados, perceptíveis na forma como eles expressam o conflito em suas narrativas. O levante envolveu posseiros, companhias de terras e o governo estadual, cujo início das disputas de terras se deu em 1940 e perdurou por mais de 20 anos. Em outubro de 1957, posseiros e colonos se organizaram em um conflito armado, tomaram as suas cidades e expulsaram as companhias de terras e os jagunços por elas contratados. Nos anos 50 do século XX, como o Sudoeste iniciava seu processo de ocupação incentivado pelo governo federal, ainda não possuía periódicos impressos que possam servir como fonte de pesquisa. Entretanto, contava com uma emissora de rádio, a Rádio Colméia, presente nos municípios de Pato Branco e Francisco Beltrão, que realizou uma mediação significativa durante o conflito, resgatada neste trabalho a partir de depoimentos orais de radialistas, lideranças locais e ouvintes. O discurso jornalístico impresso é analisado através dos periódicos paranaenses Gazeta do Povo e O Estado do Paraná, em suas edições de setembro, outubro e novembro de 1957. Os dois primeiros meses representam o período mais intenso e violento do conflito, culminando com a Revolta dos Posseiros, em 10, 11 e 12 de outubro de 1957.. 1. BARBOSA, Marialva. Por uma história dos sistemas de comunicação. Revista Contracampo, nº 1, julho/dezembro 1997. 2 Ibid., p. 78..

(16) 16. Entre os objetivos de minha pesquisa estão: analisar como se deu a produção de sentido da revolta nos dois veículos; comparar o discurso dos dois jornais paranaenses, de que forma o conflito foi mostrado, quem ganhou voz e quem foi silenciado nas matérias jornalísticas; retomar alguns aspectos dos dois periódicos em análise, que irão ajudar a definir a linha editorial que cada jornal seguiu; analisar o papel do rádio no conflito, como espaço de ligação comunitária, já que a Rádio Colméia, tanto em Pato Branco como em Francisco Beltrão, participou da revolta; fazer um levantamento dos principais autores que já discorreram sobre o conflito e levantar informações que possam contribuir para a história da imprensa paranaense, assunto que ainda está em seus contornos iniciais. No primeiro capítulo da dissertação, apresento a Revolta dos Posseiros de 1957. Explico o início da colonização no Sudoeste do Paraná, como se deu a chegada de posseiros, colonos e companhias grileiras na região e a contextualização dos conflitos que surgiram a partir disso. Para essa etapa, utilizo sobretudo fontes bibliográficas, pois minha intenção principal de pesquisa não é discorrer a respeito da Revolta dos Posseiros em si, motivo que pretende justificar a não utilização de fontes comprobatórias. Inicio este capítulo justamente mostrando os principais autores que estudaram o levante e os debates de interpretações que se abriram. Além disso, aponto a contextualização política do período e informações sobre o governador do Paraná, Moysés Lupion, tendo como fontes históricas as mensagens apresentadas a Assembléia Legislativa do Estado por ocasião da abertura das Sessões Ordinárias de: 1948; 1957; 1958; 1959 e 1960, alguns dos anos em que esteve a frente da administração pública do Estado. “As revoluções no Paraná se fazem pelo rádio”, já dizia a revista O Cruzeiro3. Dessa forma, não poderia deixar de falar sobre a intercessão das emissoras da Rádio Colméia, em Pato Branco e Francisco Beltrão, no levante. Ambas tiveram papel importante na intervenção a favor dos colonos. Único veículo de comunicação no Sudoeste, em meio a uma população em sua grande 3. MORAES, Mário de. Sangue no Paraná. O Cruzeiro, p. 5, 12 out. 1957..

(17) 17. maioria analfabeta, o rádio desempenhava a função de informador, mediador e conselheiro. Nessa época, seus radialistas eram tidos em grande consideração pelos ouvintes, eram verdadeiros artistas. Foi dessa forma que Ivo Thomazoni, radialista da Colméia em Pato Branco, foi gradativamente assumindo o papel de uma das lideranças do levante. Já em Francisco Beltrão, eram os próprios acionistas da emissora que tomaram partido a favor dos colonos, utilizando o rádio como megafone de luta. Essas informações são trazidas no segundo capítulo da pesquisa. Em sua parte inicial, falo sobre a participação e a influência da imprensa enquanto poder simbólico formador de discurso histórico. É também nesta etapa do trabalho que trago algumas reflexões sobre a relação entre imprensa e história. Sou jornalista por formação, e esses conceitos foram primordiais para adentrar no território dos historiadores. Além disso, apresento algumas características do rádio que permitem compreender a força que esse veículo de comunicação tinha em uma região como o Sudoeste do Paraná. As duas emissoras não apenas forneciam informações para o seu público ouvinte, mas também alimentavam a imprensa da capital, pois somente no mês de outubro de 1957 alguns veículos de comunicação enviaram repórteres para cobrir in loco o levante. Entre eles, cita-se O Estado do Paraná, O Cruzeiro e Manchete. Foi interessante observar como posicionamentos diferentes construíram discursos diferentes sobre a mesma revolta. Enquanto a imprensa da capital, distante do cotidiano de luta, abordava principalmente o aspecto político do conflito, a imprensa regional tomava parte direta no confronto, embora sem abandonar os seus interesses partidários. As principais fontes de pesquisa para esse capítulo são orais. Infelizmente, as duas emissoras não possuem arquivos sonoros que pudessem servir como fontes históricas. Para suprir essa falta, utilizei-me da História Oral. Para compreender a participação da Rádio Colméia de Pato Branco, conversei com Inelci Pedro Matiello e Ivo Thomazoni, os quais trabalhavam na emissora no ano de 1957. Também conversei com Jácomo Trento, o vendedor de equipamentos que percorria o interior do Sudoeste e alimentava com informações a Rádio.

(18) 18. Colméia de Pato Branco. Sobre a Rádio Colméia de Francisco Beltrão, não foi possível conversar com os seus acionistas, pois já não vivem mais. Entretanto, alguns ouvintes puderam delinear o perfil que ajuda a compreender a sua importância. O caminhoneiro Aurélio Antonio Negri, além de ouvinte, transportou colonos até a praça de Francisco Beltrão para participarem do levante de outubro. A outra depoente é Manoela Pécoits, esposa do médico e um dos líderes da revolta, Valter Pécoits. Seu relato forneceu informações relevantes sobre a construção da liderança de seu marido e a forma como suas entrevistas no veículo de comunicação atuavam como formadoras de opinião. No terceiro capítulo, apresento os dois periódicos da capital: O Estado do Paraná e a Gazeta do Povo. Alguns aspectos de criação e linha editorial permitem compreender a postura adotada face ao conflito. Minhas fontes históricas serão as primeiras edições, assim como alguns números comemorativos históricos e os próprios exemplares a serem analisados de 1957. Na segunda parte do capítulo, apresento a análise de discursos jornalísticos das matérias publicadas pela Gazeta do Povo e O Estado do Paraná, entre os meses de setembro, outubro e novembro de 1957. Meu principal objetivo foi confrontar os discursos dos dois jornais paranaenses, apontando quem ganhou voz e quem foi silenciado nas matérias jornalísticas e analisando como se deu a produção de sentido nos textos. O Estado do Paraná fez uma cobertura mais ampla, enfocando principalmente o aspecto político da questão. De posição contrária ao governo do Estado, seu discurso reiterava que o principal culpado pelo problema de terras no Sudoeste era o governador do Paraná. Depois que o periódico enviou repórteres para a região, suas matérias tornaram-se mais “humanas”, no sentido de mostrarem os próprios personagens envolvidos no conflito. Já a Gazeta do Povo assumiu uma postura de defensora do governo do Estado. O próprio governador era um dos acionistas do jornal e o diretor era o Chefe de Polícia do Estado, Pinheiro Junior. Seu principal discurso era de que a questão de terras no Sudoeste foi inflamada por uma oposição política interessada em manipular a situação a seu favor..

(19) 19. Essa pesquisa é, portanto, o trabalho de uma jornalista por formação, interessada em adentrar no campo da História e em tecer relações entre duas áreas tão relacionadas entre si na construção do discurso histórico na contemporaneidade. Um mesmo discurso apresenta múltiplas possibilidades de leitura, inseridas em épocas e contextos diversos. Nessa pesquisa, emergem algumas dessas alternativas, que não se esgotam em si, mas servem para apontar as relações complexas que surgem entre o Jornalismo e a História..

(20) 20. 1. A REVOLTA DOS POSSEIROS DE 1957. “A maior ofensa contra a propriedade era não ter propriedade” 4 Eduard P. Thompson. A citação de Edward Thompson, ainda que se refira às situações vividas por camponeses ingleses do século 18, perfeitamente se encaixa nas experiências brasileiras do século XX, no que diz respeito a conflitos agrários. A maior ofensa contra a propriedade pode ser não possuir propriedade. Principalmente quando os grandes domínios de terras estão ameaçados, quando os “pequenos” resolvem lutar para garantir alguma melhoria de vida e isso representar a invasão de espaço dos “grandes senhores de terras”. Em diferentes lugares, em diferentes situações, com diferentes tipos de gente, a luta pela terra sempre esteve presente nos diversos capítulos da história do Brasil. A Revolta dos Posseiros de 1957 é mais um dos muitos capítulos da história de conflitos agrários no país. Os sujeitos envolvidos, como não podiam deixar de ser, são colonos, posseiros, companhias grileiras e políticos. O palco do conflito foi a região Sudoeste do Paraná, a qual, desde o início de seu. 4. THOMPSON, Eduard P. A formação da classe operária. A árvore da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 64..

(21) 21. povoamento, presenciou várias e longas disputas de terras. Muitas delas acabaram por interferir, de uma forma ou de outra, no conflito de 1957. Cabem aqui algumas observações em torno da compreensão que tenho sobre região. Mais que limitações geográficas, o conceito envolve um complexo sistema de relações sociais, políticas, econômicas e culturais, construído historicamente e imposto, muitas vezes, para que seja entendido e reconhecido como tal. “O poder sobre o grupo que se trata de trazer à existência enquanto grupo é, a um tempo, um poder de fazer o grupo impondo-lhe princípios de visão e de divisão comuns, portanto, uma visão única da sua identidade, e uma visão idêntica da sua unidade”5. É nesse ambiente que diferentes agentes sociais atuam, com objetivos diversificados, em torno das mesmas ações. Estas, por sua vez, englobam disputas, conflitos, persuasões, manifestações de poder. Analisar historicamente como se produz efeitos de sentido através de discursos jornalísticos pode ser uma forma de desconstruir os discursos dominantes. Confrontar narrativas em diferentes periódicos, algumas vezes complementares, em outras contraditórias, torna-se uma maneira de descobrir os interesses, as exigências, as motivações perpassados nas palavras e nos conceitos de indivíduos ou de grupos sociais. Afinal, a informação é um direito público, mas o jornalismo é uma atividade exercida no setor privado.. 1.1 O DEBATE DAS INTERPRETAÇÕES. Apesar de não ser meu objetivo principal discorrer a respeito da Revolta dos Posseiros, neste primeiro capítulo da pesquisa apresentarei os principais fatos do conflito de terras na região Sudoeste do Paraná desde o início de sua colonização efetiva, na década de 1940. É importante frisar que os próprios fatos aqui apresentados são construções, assim como os discursos jornalísticos que. 5. BOURDIEU, Pierre. Elementos para uma reflexão crítica sobre a idéia de região. In: O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989, p. 117..

(22) 22. serão criticados. Dessa forma, os aspectos apresentados fazem parte, em primeiro lugar, de uma seleção feita pelos autores citados e, em segundo lugar, por mim, ao eleger aqueles que considero relevantes para a compreensão do leitor e para os objetivos propostos nessa pesquisa. Apesar de a colonização efetiva ser relativamente recente (até século XX), desde o final dos anos 1970 a região Sudoeste aparece com destaque nas pesquisas históricas. Nesta fase, consolida-se o projeto nacional de capacitação docente e vários trabalhos, entre dissertações e teses, foram produzidos. Algumas das pesquisas tornaram-se obras publicadas e referências diretas nas releituras que o conflito provoca até hoje. Assim como há aquelas que ajudam a reiterar discursos dominantes, há outras que possibilitam diferentes ângulos de reflexão sobre o assunto. Mas todas, a seu modo, contribuem para manter viva a memória sobre o conflito, evidenciando a participação de alguns envolvidos. Uma das primeiras pesquisas é de Maria Cristina Colnaghi6. A autora mostra que a luta pela terra no Sudoeste gira em torno de dois pólos explorações agrícola e madeireira - argumentando que a revolta virou palco de manobras políticas em âmbito estadual e federal. Afirma que o confronto de outubro de 1957 foi conseqüência, basicamente, de dois aspectos. O primeiro deve-se ao que denominou de conflito hegemônico entre facções do grupo político dirigente (Partido Socialista Democrático nacional e estadual). Assim, a questão da terra no Sudoeste paranaense era tratada como instrumento de manipulação política e econômica, com vistas à preservação do poder de Estado. O segundo aspecto refere-se à morosidade, inércia, parcialidade e omissão do aparelho repressivo do Estado. Duas abordagens relevantes do trabalho de Colnaghi são a contextualização política do período e a sua influência sobre os acontecimentos. de. 1957,. assuntos. retomados. em. artigo. publicado. posteriormente7. Para ela, quando houve a intervenção do Estado na revolta, foi para “minimizar a tensão social, evitando que o movimento assumisse um caráter. 6. COLNAGHI, Maria Cristina. Colonos e poder: a luta pela terra no sudoeste do Paraná. Curitiba, 1984. Dissertação (Mestrado em História do Brasil). UFPR. 7 COLNAGHI, Maria Cristina. O processo político de ocupação do Sudoeste. In: PAZ, Francisco Moraes (org.). Cenários de economia e política: Paraná. Curitiba: Prephacio, 1991, pp. 7-21..

(23) 23. de contestação mais profundo e pusesse em risco a preservação do poder de Estado”8. O discurso para a sociedade, entretanto, era de que as autoridades estavam ali agindo vigilantemente para garantir a segurança da população. Um dos nomes mais conhecidos da historiografia paranaense, Ruy Wachowicz, tem, entre seus livros publicados sobre História do Paraná, um que fala especificamente sobre a ocupação e colonização do Sudoeste9. A obra preocupa-se em relatar histórica e cronologicamente o início desse processo, os migrantes que lá chegaram e sua instalação. Um dos capítulos é dedicado exclusivamente à Revolta dos Posseiros, com vários relatos orais e diversas outras fontes documentais. Justamente por sua abrangência de assuntos, a obra acaba por ser superficial em suas reflexões. Na década de 1980, a obra de Hermógenes Lazier10, historiador de Francisco Beltrão, uma das cidades envolvidas no conflito, também marcou os estudos sobre o Sudoeste. Seu livro, fruto de dissertação de mestrado na Universidade Federal do Paraná, aborda a ocupação e colonização da região, levantando os principais problemas de ocupação de terras que a afligiram e, em especial, a Revolta dos Posseiros. Outros de seus livros, na seqüência, também se dedicaram a discutir o Sudoeste. Rubens Martins acompanhou de perto a Revolta dos Posseiros e escreveu um livro de memórias11 sobre o levante e sua própria experiência como médico, político e delegado em Francisco Beltrão durante o levante dos posseiros. Foi o primeiro prefeito de Marrecas, distrito elevado à categoria de município em 1952, e suas idéias divergem dos demais autores apresentados. Nos dias do levante, foi destituído pelos colonos e posseiros de seu posto de delegado. Em seu lugar, ficou o médico Valter Pécoits, considerado um dos líderes dos revoltosos em Francisco Beltrão.. 8. COLNAGHI, op. cit., 1984, p. 162. WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paraná, Sudoeste: ocupação e colonização. Curitiba: Lítero-Técnica, 1985. 10 LAZIER, Hermógenes. Análise histórica da posse de terra no Sudoeste paranaense. Curitiba: SECE/BPP, 1986. 11 MARTINS, Rubens da Silva. Entre jagunços e posseiros. 1ª ed. Curitiba: Studio GMP, 1986. 9.

(24) 24. Na obra de Rubens Martins é possível perceber o ambiente político tenso que reinava na região, principalmente sob o reinado do Partido Socialista Democrático (PSD) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O autor declara ter sido amigo íntimo de Cândido de Oliveira (PSD), um dos políticos mais influentes do Sudoeste na década de 1950, e ter apoiado Moysés Lupion e os pessedistas rumo à vitória ao governo do Estado em 1956. Na opinião de Rubens Martins, foram vários os motivos que levaram ao Levante de Posseiros, sobretudo políticos.. Os desmandos de uma das colonizadoras do sudoeste do Estado e os confrontos ocasionais entre seus empregados e posseiros; os constantes pronunciamentos de autoridades militares, condenando o processo de dação em pagamento das glebas Chopim e Missões (...) as peregrinações de políticos oposicionistas, insuflando os colonos da região e os concitando a repelir a força os legítimos ou pretensos donos das terras; a onda de boatos, relacionados com massacres de posseiros (...); tudo isso sensibilizou a opinião pública e as autoridades federais, propiciando as ações que culminariam, em outubro de 1957, com a subversão da ordem pública em todo o sudoeste paranaense12.. Rubens Martins considera a Revolta dos Posseiros de 1957 um hábil e inescrupuloso golpe dos adversários ao governo do Estado, o qual só não foi derrotado porque soube negociar com a facção vencedora, que tinha entre os seus, posseiros filiados aos partidos de oposição. Predomina, em toda a obra, a idéia que os revoltosos não passam de vítimas passivas e manipuladas, um grupo de desordeiros simplórios e até mesmo violentos, pois gente simples, sem estudos, não seria capaz de se auto-organizar para defender os seus direitos. Ele prefere denominar a Revolta dos Posseiros de 1957 de “Movimento PolíticoMilitar Pró-Intervenção no Paraná”13. Para ele, os colonos da região foram. ... empurrados numa aventura de resultados incertos que só não malogrou por ter contado com a participação ostensiva do contingente do Exército sediado em Francisco 12 13. Ibid., p. 359. Ibid., p. 358..

(25) 25 Beltrão, e não se transformou numa carnificina sem precedentes, graças à habilidade, à serenidade e cautela das autoridades locais e à decisão desesperada do comando político no Estado, de negociar diretamente com os sublevados, à custa do sacrifício de suas lideranças nas regiões conflitadas14.. O autor acredita que os conflitos entre posseiros e funcionários das empresas eram esporádicos, mas estes episódios, juntamente com a tentativa de desestabilização da ordem jurídico-institucional do Estado, propiciaram a aparição de bandoleiros dos mais diversos lugares, estes sim jagunços, mas não a mando das companhias. Iria Zanoni Gomes também é citação freqüente quando o assunto é Revolta dos Posseiros de 1957. Seu livro15 foi apresentado, primeiramente, como dissertação no mestrado em Sociologia do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Ela declara que sua preocupação é mostrar a participação, a organização e a resistência dos colonos como aprendizado adquirido no processo de luta. Utiliza a imprensa apenas como suporte para as suas fontes, assim como relatórios da Colônia Agrícola Nacional General Osório (Cango), de comissões e de inquéritos. Entretanto, afirma ao longo do texto, que desempenharam papel importante no processo as lideranças locais, a Cango e o Legislativo. Nomes de políticos também são mencionados várias vezes, ao passo que nomes e entrevistas dos próprios colonos que, segundo a autora são os principais atores da revolta, raramente são mencionados. Como em vários outros trabalhos, os agentes principais do conflito não passam de sombras sem identificação, são agentes essenciais ao processo de luta, mas sua individualização já não é passível de demonstração, ou seja, “eles” continuam como uma massa anônima e amorfa. Uma parcela importante desses agentes ganha voz na dissertação de mestrado do Gilmar Fiorese16: são as mulheres. Seu trabalho preocupa-se em mostrar a participação ativa e o sofrimento delas durante o conflito. Sua pesquisa 14. Id. GOMES, Iria Zanoni. 1957. A Revolta dos Posseiros. 2ª ed. Curitiba: Criar Edições, 1987. 16 FIORESE, Gilmar. A mulher e conflitos sociais no Sudoeste do Paraná (1943-1962). Guarapuava, 2000. Dissertação. (Mestrado em História). Unicentro/Unesp. 15.

(26) 26. tem o mérito de contar com diversos relatos orais de esposas de colonos como principais fontes históricas. O interesse da população do Sudoeste a respeito do assunto também permanece vivo. Prova disso é o livro do professor Sitillo Voltolini17, que procura relembrar o conflito especificamente em Pato Branco. O livro faz parte de uma série de quatro, produzidos pelo autor com o objetivo de relatar a história do município, contudo, sem problematizações históricas. Em sua segunda edição, conta com vários depoimentos de envolvidos na revolta. A imprensa da época, assim como nas demais obras citadas aqui, é utilizada como fonte de pesquisa histórica para comprovação empírica dos fatos apresentados. Vários outros autores poderiam e mereceriam ser citados aqui. Entretanto, não caberia, nos limites e na intenção desse trabalho, apresentá-los em sua totalidade18. A seguir, falarei sobre o início da colonização no Sudoeste, apontando as complicadas questões que envolveram a disputa de terras na região até a revolta propriamente dita, em 1957.. 1.2 SUDOESTE DO PARANÁ: TERRAS MARCADAS POR DISPUTAS. A história do Sudoeste do Paraná é marcada por lutas. Lutas por delimitação de fronteiras, lutas para não perder vastas extensões do território para os países vizinhos, lutas para garantir o direito de uso da terra. Para melhor situar 17. VOLTOLINI, Sitillo. Retorno 2. Pato Branco na Revolta dos Posseiros de 1957. 2 ed. Pato Branco: Fatex, 2003. 18 Entre essas obras, citam-se: ABRAMOVAY, Ricardo. Transformações na vida camponesa: o sudoeste paranaense. São Paulo. 1981. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). USP; BONETI, Lindomar W. O Capital Comercial e o Surgimento de Conflitos no Campo: O Caso do Sudoeste do Paraná. Porto Alegre: UFRGS, 1986 (Dissertação de Mestrado); FOWERAKER, Joe. A Luta Pela Terra. A economia política da fronteira pioneira no Brasil de 1930 aos dias atuais. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981; RÊGO, Rubem Murilo Leão. Terra de Violência: Um Estudo sobre a Luta pela Terra no Sudoeste do Paraná. São Paulo: USP, 1979. Dissertação de mestrado em sociologia. (datil.); VERONESE. Claudino Domingos. O papel pedagógico da Assessoar no apoio à construção da cidadania dos ex-posseiros do sudoeste do Paraná. Rio Grande do Sul: Editora Unijuí, 1998; WESTPHALEN, Cecília. Nota prévia ao estudo da ocupação da terra no Estado do Paraná. Boletim da UFPR, nº 7, pp. 1-52, 1968..

(27) 27. o contexto social, político e econômico que levou à Revolta dos Posseiros, vale a pena ressaltar alguns aspectos dessas lutas. A região, uma vasta extensão rica em cobertura vegetal, em rios e com solo fértil para a agricultura, começou a ser disputada pelo Brasil e pela Argentina na delimitação de sua linha divisória. O impasse só foi resolvido em 1895, quando a área em disputa passou a pertencer oficialmente ao Brasil. Mas ainda nesta época havia outra pendência entre o Paraná e Santa Catarina, sobre o mesmo espaço. As terras onde hoje se localiza o Sudoeste só passaram a pertencer ao Paraná oficialmente em 1916. O Sudoeste paranaense, no início do século XX, contava com cerca de três mil habitantes. Os primeiros moradores, em sua grande maioria, não nasceram na região. Eram provenientes de três situações distintas: agregados de fazendas de gado dos Campos de Palmas; vindos do Rio Grande do Sul, afastados pela imigração européia que, a partir de 1824, chegou ao Estado gaúcho, porém ainda não caracterizando a imigração massiva; e refugiados da Guerra do Contestado19. Os fazendeiros de Palmas, uma das únicas cidades estabelecidas na região, interessavam-se em estabelecer campos para criatórios de animais20. E os poucos moradores, estabelecidos como posseiros, pretendiam extrair a erva-mate, principal atrativo econômico para a colonização da região21. O termo posseiro empregado nesta pesquisa refere-se àquele que “ocupa um trecho de terra, sem, no entanto, ser seu dono efetivo, ser portador de um título legal de propriedade”22. Os caboclos buscavam na região um lugar propício para sobrevivência. Diferentemente do colono de origem européia, interessavam-se pela terra para lhe dar os frutos que precisavam como objeto de trabalho. “Assim ao chegar o caboclo não subdividiu a mata em parcelas sobre as quais cada indivíduo ou. 19. Cf. ABRAMOVAY, op. cit., p. 20. Cf. WACHOWICZ, op. cit., p. 65. 21 Para vários moradores do Sudoeste em início de colonização, a erva-mate era uma espécie de moeda de troca por mercadorias. O comércio acontecia no território das Missões Argentinas, Barracão e União da Vitória. Já em 1903, funcionava uma Coletoria Estadual em Dionísio Cerqueira, região fronteiriça com a Argentina. Cf. LAZIER, op. cit., pp. 48-49. 22 GRYNSPAN, Mario. Posseiro. In: MOTTA, Márcia (org.). Dicionário da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 373. 20.

(28) 28. família seria soberano ao que se colhia ou caçava, isto sim era um patrimônio individual.”23. A partir de 1940, as condições da economia cabocla se modificaram, com a chegada do colono – geralmente vindo do Rio Grande do Sul ou Santa Catarina – e a inserção de um novo modo de vida. Esses colonos podem ser caracterizados como trabalhadores agrícolas com pequenas propriedades, imigrantes ou descendentes desses. Dedicaram-se à produção familiar de subsistência e de mercado, geralmente sem a utilização de mão-de-obra externa24. O caboclo se viu seduzido pela possibilidade de vender as terras que cultivava (ou o direito a elas) aos agricultores recém-chegados. O caboclo, ou posseiro, não resistia a uma oferta de compra de sua posse. Duas razões para tal atitude são atribuídas: o conhecimento de que sem escritura a terra não lhe pertencia, sendo inseguro permanecer dessa forma, e a impossibilidade de conviver com a forma de agricultura intensiva praticada pelos sulistas, já que o posseiro trabalhava com um sistema de criação de porcos soltos em suas plantações de milho25. O dinheiro adquirido com a venda das terras funcionava, na visão do caboclo, como algo a mais que a região colocava em suas mãos, assim como a caça, a pesca e a coleta26. Aqueles que tinham maiores posses dividiam-nas, de acordo com seu interesse, e as vendiam para colonos. Nesse. processo. migratório,. do. tipo. rural-rural,. os. migrantes. estabeleceram-se em pequenas propriedades para a prática agrícola27. A topografia da região contribuiu para a característica de colonização em pequenas propriedades, pois os terrenos eram acidentados, o que dificultava a utilização de tecnologia agrária mecanizada. Além disso, os grandes centros urbanos estavam 23. ABRAMOVAY, op. cit., p. 24. GREGORY, Valdir. Colono. In: MOTTA, op. cit., 2005, p. 102. 25 De acordo com WACHOWICZ, op. cit., p. 86, a maioria dos posseiros preferiu vender suas terras a adaptar-se ao sistema agrário sulista. Assim, a “frente da frente” ia cada vez mais para o interior e novas posses iam surgindo. 26 Para um aprofundamento sobre a condição cabocla no Sudoeste do Paraná e suas transformações com a chegada do colono de origem européia, ler o primeiro e segundo capítulos de ABRAMOVAY, op. cit.. 27 Cf. NADALIN, Sérgio Odilon. Paraná: ocupação do território, população e migrações. Curitiba: SEED, 2001, p. 80, havia uma dicotomia entre o campo e a floresta, que seguiu com os descendentes dos imigrantes, ou seja, estes ocupavam as regiões florestais, ao passo que os fazendeiros preferiam os campos para o criatório de animais, caracterizando uma diferenciação não apenas geográfica, mas social e econômica também. 24.

(29) 29. distantes, motivo que dificultava a possibilidade de produzir excedentes para venda28. Várias povoações em todo o Estado surgiram a partir do comércio, em pontos de parada ou abastecimentos, principalmente nas regiões próximas ao litoral, nos campos gerais de Palmas, Guarapuava e Ponta Grossa. Dessa forma, a ocupação territorial se dava associada às condições de transporte, comércio e comunicação29. Os fatores que levavam esses migrantes a partirem para locais cada vez mais distantes dos seus de origem foram a estrutura demográfica (pois as áreas de cada família tornavam-se cada vez mais pulverizadas na divisão entre descendentes, diminuindo os rendimentos), o esgotamento do solo e a incapacidade de sustentar uma família muito numerosa. Dessa forma, alguns filhos de colonos foram para as cidades, outros resolveram se manter como agricultores, imigrando para terras cada vez mais distantes30. Abramovay também acredita que a divisão de uma mesma propriedade familiar no Rio Grande do Sul é apenas um dos motivos que trouxeram grandes levas de colonos gaúchos ao Paraná. Para ele, o crescimento dos latifúndios (muitas vezes improdutivos) é outro fator que contribuiu para a imigração31. O processo migratório, a questão do Contestado e a busca pela erva-mate elevaram, em 20 anos, a população sudoestina para seis mil habitantes. Em antigas fazendas, os herdeiros vendiam pedaços de suas propriedades, sem preocupações legais, a colonos que também não se preocupavam com a aquisição de documentos, já que a maioria dos envolvidos era analfabeta. As posses caracterizavam,. geralmente,. pequenas. propriedades.. Queimadas. e. desmatamentos foram as técnicas utilizadas pelos posseiros para formar suas roças.. 28. Cf. ibid., p.85. Cf. KLAUCK, Samuel. Memória e identidade da Gleba dos Bispos: uma experiência de colonização na fronteira do Oeste do Paraná. Niterói, 2002. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal Fluminense/Unioeste, p. 25. 30 De acordo com NADALIN, op. cit., pp. 82-83, a melhoria das comunicações, os empreendimentos coloniais de empresas privadas e o baixo preço das terras devolutas também facilitaram o aumento do raio das migrações. 31 ABRAMOVAY, op. cit., p.48. 29.

(30) 30. Convêm apresentar, ainda, outros aspectos das disputas de terras no Sudoeste que influenciaram decisivamente o conflito de 1957. Entre os anos 1913 e 1920, as glebas Missões (425.731 hectares) e Chopim (71.528 hectares), ambas ocupando quase a totalidade do sudoeste paranaense (Figura 01), foram tituladas pelo Estado do Paraná em favor da Companhia de Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande do Sul (CEFSPRS), subsidiária da Brazil Railway Co., como pagamento pela construção da estrada de ferro Itararé – Uruguai, com duas ramificações: Guarapuava – Foz do Iguaçu e Jaguariaiva – Ourinhos. O acordo não levou em consideração o fato de que já havia alguns moradores na região, tendo sido um dos fatores que levou a Guerra do Contestado32.. 32. Não entrarei em detalhes sobre a Guerra do Contestado, por não ser este o objetivo do trabalho. Há uma vasta produção sobre o assunto, aqui apenas algumas obras são citadas, a título de exemplo: TONON, E. Ecos do Contestado: Rebeldia sertaneja. Palmas: Kaygangue, 2002. AURAS, M. Guerra do Contestado – organização da irmandade cabocla. Florianópolis, Carter, 1989; BERNARDET, J. C. Guerra Camponesa no Contestado. São Paulo: Global, 1979; LEMOS, A. O. A história dos fanáticos em Santa Catarina. Passo Fundo: Editora Berthier, 1986; PEIXOTO, D. A Campanha do Contestado. 3 vol. Rio de Janeiro: Milheiro Editorial, 1920..

(31) 31. FIGURA 01. MAPA DA LOCALIZAÇÃO DAS GLEBAS MISSÕES E CHOPIM - SUDOESTE DO PARANÁ.

(32) 32. Após a revolução de 1930, o interventor do Estado do Paraná, general Mauro Tourinho, percebeu que havia irregularidades no contrato e o anulou. Inicia-se uma disputa jurídica sobre as terras do Sudoeste entre o Estado do Paraná e a CEFSPRS. Em 1940, através do decreto lei número 2.073, de 8 de março, a União incorporou os bens da Brazil Railway Co. e suas subsidiárias, entre elas, a CEFSPRS. A briga, então, estabelece-se entre a União e o Estado do Paraná. Para administrar estes bens, Getúlio Vargas criou a Superintendência das Empresas Incorporadas da União (Seipu). Além disso, havia outra questão que se arrastava desde o século anterior, entre José Rupp e o poder público. Rupp tinha uma indenização a receber do poder federal. Ele obteve, no fim do século XIX, uma autorização do governo catarinense para explorar erva-mate e madeiras na região, nas mesmas terras que foram tituladas pelo governo paranaense a CEFSPRS, fator que ocasionou mais uma disputa judicial, agora entre Rupp e o Estado do Paraná. Mais tarde, tais terras foram incorporadas ao patrimônio da União, como já foi explicado. Rupp lutou vários anos e não conseguiu receber uma indenização que pedia ao Estado sobre a questão. Então, decidiu ceder seu crédito a companhia de terras Clevelândia Industrial e Territorial Limitada (Citla), em julho de 1950. Assim, o poder público não deveria mais pagar a indenização a Rupp e sim à empresa. O pedido que ele havia feito em 1º de julho de 1950, para que a indenização fosse paga através da gleba Missões, e o qual havia sido negado, acabou sendo acertado em 17 de novembro do mesmo ano, só que dessa vez para a Citla, que recebeu não apenas a gleba Missões, mas parte da gleba Chopim também. O procurador da República, Ademar Vidal, quatro dias depois de assinada a escritura de dação a Citla, protestou e exigiu a anulação do documento. O Conselho de Segurança Nacional avisou, através de ofício, todos os cartórios do Paraná e de Santa Catarina para que não lavrassem a escritura. Mas, como os senhores e possuidores sempre operam com a lei para assegurar sua própria.

(33) 33. invasão33, até mesmo um cartório imobiliário foi criado para garantir que a escritura fosse lavrada. Os deputados do PSD na Assembléia Legislativa enviaram um projeto de lei ao Executivo, desmembrando o cartório de Clevelândia, que havia se negado a lavrar a escritura. Instalou-se, então, um cartório em Santo Antônio do Sudoeste, para que a escritura fosse registrada. Imediatamente, os escritórios da Citla foram instalados em Francisco Beltrão e Santo Antônio do Sudoeste. Como afirma Motta, a grilagem se torna, então, uma rede de solidariedade e suborno, na qual as artimanhas dos advogados e o emaranhado das leis operam para garantir o sucesso dos fraudulentos. “Assim os intermitentes conflitos de terra no país demonstram que a legalização da terra se dá nos bastidores dos Cartórios locais (...) Neste sentido, o processo de legalização de uma grilagem parte, indubitavelmente, de relações pessoais capazes de auxiliar na mágica que transforma uma grilagem em propriedade privada”34. Um dos personagens políticos mais exaltados com a questão, de oposição ao grupo político que governava o Paraná na época, era o senador udenista Othon Mader, figura freqüente nas matérias jornalísticas referentes ao assunto, tanto na Gazeta do Povo quanto em O Estado do Paraná. Quando ocorreu a titulação das glebas Missões e Chopim à Citla, seu discurso no Senado da República foi inflamado de indignação:. Terras que pouco ou nada lhes custaram, são vendidas a Cr$ 8.000,00 cada alqueire, e os pinheiros que lhes ficam de graça, são vendidos ao preço de Cr$ 200 cada árvore. Multiplicando estes preços unitários pelos milhares de alqueires e pelos milhões de pinheiros têm elas (CITLA, Paraná e Apucarana) lucros fabulosos, que atingem a bilhões de cruzeiros. Segundo uma estimativa feita pelo “Grupo Lupion” nas terras de que se apossou fraudulentamente, e que tem a área de 198.000 alqueires, cerca de quatro vezes o Distrito Federal, a quantidade de pinheiros ali existentes é de dez milhões (10.000.000). (...) Esse patrimônio, que é constituído das glebas “Missões” e “Chopim” foi transferido da União para a CITLA, por escritura fraudulenta e já anulada, pela. 33. MOTTA, Márcia. A grilagem como legado. Disponível em: http://www.historia.uff.br/artigos/motta_grilagem.pdf. 34 Ibid...

(34) 34 ínfima quantia de Cr$ 8.000.000. O preço pago pela CITLA (Grupo Lupion) foi de 0,2% do valor das glebas35.. Na época, Lupion era acusado pela oposição política e pela imprensa de ser um dos acionistas da Citla, assunto que será retomado adiante. Pouco depois da chegada dessa companhia a região, outras duas se instalaram, a Companhia Comercial e Agrícola Paraná Ltda. e a Imobiliária Apucarana Ltda.. Outras irregularidades foram apontadas na transação da Citla:. A escritura de dação em pagamento, assinada em 17 de novembro de 1950, abrangeu uma área de 198.000 alqueires, incluindo faixa de fronteira com Argentina, a Colônia Agrícola Nacional General Osório – CANGO, diversas propriedades particulares, inclusive uma área de 27.775 hectares, vendida pela Superintendência à firma Pinho e Terras Ltda., em 22 de maio de 1950, as posses de agricultores acolhidos pela CANGO, em número aproximado de 3.000 famílias e as sedes distritais e dos municípios de Francisco Beltrão, Santo Antonio e Capanema36.. A Constituição Federal não permitia a venda de terras na faixa de fronteira. Assim, o Tribunal de Contas da União negou o registro de dação. Mas a justiça dá ganho de causa à União somente em janeiro de 1953, época em que a Citla já estava atuando na região. O desejo dos colonos era procurar formas legais, dentro da lei instituída, para legalizar sua situação. A comunidade, por várias vezes desde 1951, fez abaixo-assinados para tentar solucionar os problemas da legalidade de suas terras. Algumas das primeiras reações dos moradores da região, expressando a sua preocupação sobre a legalidade da posse de terras, aconteceram em uma assembléia na Vila Marrecas (futura cidade de Francisco Beltrão), em setembro de 1951. No total, entre comerciantes, industriais, ocupantes de terras e profissionais liberais, 251 pessoas assinaram o documento. Variados segmentos sociais constituíram uma Comissão Permanente para a defesa de seus direitos sobre as terras. O grupo era composto por 20 membros e tinha as atribuições de 35 36. Cf. LAZIER, op. cit., pp. 42-43. GOMES, op. cit., p. 35..

(35) 35. manter contato com as autoridades governamentais, promover a defesa das pessoas prejudicadas por medidas injustas das companhias ou autoridades instituídas e o entendimento com os “legítimos proprietários” da Gleba. Em 15 de outubro do mesmo ano, a comissão designa três membros para ir à capital da República tratar da questão da legalidade de terras, pois se esperava que o governo tomasse medidas legais e concretas para solucionar o problema. Outro abaixo-assinado, nos moldes reivindicatórios acima mencionados, consta de 3 de março de 1957, contando com a assinatura de mais de 2 mil pessoas no município de Santo Antonio do Sudoeste. Este documento também foi levado à capital da República por uma comissão formada por Rosalino Albano da Costa e Augusto Pedro Pereira, de Santo Antonio do Sudoeste, e Luiz Prollo, comerciante de Francisco Beltrão37. A atitude constituiu-se em mais uma tentativa de reação organizada dos colonos, uma forma de procurar ajuda para combater as injustiças que estavam sendo cometidas. Convém esclarecer que, até 1950, apenas os municípios de Mangueirinha e Clevelândia e os distritos de Pato Branco e Chopinzinho estavam oficializados no Sudoeste. Foi o governador Bento Munhoz da Rocha, no início de seu governo, quem desmembrou esses dois municípios em 23 novos municípios e três distritos38 (FIGURAS 02 e 03). Como as relações regionais ligam-se diretamente às ligações de poder e de saber que se estabelecem, o desmembramento era uma forma de ocupar política e administrativamente a região, demarcando uma área definida e institucional para estabelecer campos de atuação e influência dos líderes políticos regionais.. 37 38. Cf. ibid., p. 69. Lei nº 790, de 14 de novembro de 1951..

(36) 36. FIGURA 02. LOCALIZAÇÃO DA REGIÃO SUDOESTE DO PARANÁ.

(37) 37. FIGURA 03. DIVISÃO ATUAL DOS MUNICÍPIOS DO SUDOESTE DO PARANÁ.

(38) 38. 1.2.1 Colonização dirigida Em meio às disputas de terras não resolvidas, à atuação ilegal da Citla e à instabilidade de posse dos moradores já instalados, havia a Colônia Agrícola General Osório (Cango), criada no governo de Getulio Vargas, em 12 de maio de 1943, através do decreto-lei número 12.417, cujos limites não estavam definidos em seu projeto, mas situava-se na Gleba Missões. Foi o ponto de partida da colonização efetiva do Sudoeste paranaense, o marco jurídico do povoamento da região. Houve outra colônia de incentivo à colonização anterior à Cango, a Colônia Bom Retiro, fundada em 1918, que deu origem a cidade de Pato Branco. Seu objetivo era alocar colonos vindos da região do Contestado. O projeto inicial para a Cango era fundar uma colônia militar na faixa de fronteira do Paraná, a pedido dos reservistas. A comissão designada para estudar o projeto escolheu a Gleba Missões, optando por ampliá-la para colonos também. O seu projeto de colonização passou por dois momentos diferentes: primeiramente, estava sob responsabilidade do Ministério da Agricultura, como colônia agrícola, permanecendo assim por dez anos. Posteriormente, foi transformado em Núcleo da Fundação Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) com o nome de Núcleo Colonial General Osório, quando passou a ter fins lucrativos39. As opiniões sobre a atuação da Cango divergem em alguns pontos, apesar de todos reconhecerem sua importância para a colonização do Sudoeste. Wachowicz acredita que a sua criação foi um ato juridicamente arbitrário, pois nem as companhias grileiras nem a colônia tinham condições legais de transmitir escrituras de propriedade aos colonos40. Já Abramovay elogia a sua atuação, mas aponta um aspecto não abordado por outros autores: a colônia privilegiava os descendentes europeus, ou seja, só tinha direito à terra quem tivesse o desejo de 39. Cf. COLNAGHI, op. cit., 1984, p. 67. Entretanto, “o Núcleo nunca vendeu a terra porque a questão da legitimidade de sua propriedade estava em juízo. Desta forma, a fase em que atuou concretamente se restringiu ao 1º momento”, cf. GOMES,op. cit., p. 18, nota de rodapé 11. 40 WACHOWICZ, op.cit., p. 150..

(39) 39. ocupá-la como proprietário, quem estivesse disposto a trabalhar nela. O caboclo, oficialmente, também tinha o direito de adquirir essas terras, mas para ele, a terra era uma necessidade social, um meio de subsistência, mais importante que o título de propriedade. “Os órgãos que distribuíam e legalizavam terras promoveram a democratização fundiária, mas a partir do princípio historicamente determinado da propriedade. Seu horizonte era amplo, mas nele sequer se vislumbrava qualquer outra forma possível de ocupação do solo, como por exemplo, a incorporada pelos caboclos”41. Na opinião de Gomes, ao mesmo tempo em que a Cango foi um elemento impulsionador da colonização da região, ela não estava estruturalmente preparada para controlar a intensidade do movimento migratório. “A população da Colônia Agrícola, em 1950, era de 7.147 pessoas, enquanto que a da região era de 76.373 pessoas. De 50 para 60, houve uma verdadeira explosão populacional na região. Enquanto a CANGO, em fins de 1956, tinha cadastradas 15.284 pessoas e 26.000 esperavam cadastramento, em 1960 a região estava com 230.379 pessoas, sendo 119.787 na área rural”42. Opiniões divergentes à parte, o que interessa salientar é que o processo organizado de colonização começou através da Cango, pois essa fornecia o material de construção, oferecia tratamento médico e dentário e distribuía ferramentas e sementes aos colonos. Como as terras ainda estavam sob impasse jurídico, os primeiros habitantes da região não podiam receber título de propriedade sendo denominados, então, de posseiros43. Outro fator que favoreceu o povoamento foi o fato de a Cango ser um órgão público federal, que distribuía terras gratuitamente. Gregory contextualiza política e economicamente a situação do país no âmbito da colonização, mostrando que o desenvolvimento do Brasil, da forma como ocorreu, levou a sua população a partir das terras litorâneas em direção às suas fronteiras agrícolas e político-territoriais. Aponta que, a partir de 1930, as 41. ABRAMOVAY, op. cit., pp. 63-64. GOMES, op. cit., p.22. 43 De acordo com LAZIER, op. cit., p.52, havia dois tipos de posseiros: os aventureiros, que vieram para o local, construíram seus ranchos e começaram a produzir, e os oficiais, a maioria deles, sendo trazidos pela Cango. Estes recebiam apenas um protocolo, que representava um documento provisório de posse. 42.

(40) 40. transformações da economia rural brasileira levaram uma parte dos trabalhadores agrícolas a procurarem novos espaços pelo interior do país, em busca de novas terras. As décadas de 1930 e 1940 representaram um período de afirmação territorial para o Paraná, o qual procurava influenciar de forma mais categórica a política habitacional do Estado. Da mesma forma, dos anos 1930 a 1950, a colonização paranaense se constituía de duas frentes: as terras do Norte eram ocupadas por paulistas e mineiros, enquanto as terras do Sudoeste e Oeste recebiam a frente sulista.. Enquanto a primeira, após o vigor inicial, cedia em volume e em importância, a segunda se intensificava durante os anos 50 e 60. Esta dinâmica diferenciada tem a ver, dentre outros fatores, com aspectos geopolíticos regionais do getulismo. Ou seja, a marcha sulista encontrava incentivos maiores no poder central e na sua articulação com o poder regional, ao passo que a marcha nortista, como também é denominada, era vista como uma forma de manifestação de vigor econômico e de força política de São Paulo contra os quais a Revolução de 30 conseguiu aglutinar descontentamentos regionais44.. Havia uma troca de favores entre governo e empresas privadas. A iniciativa privada providenciava a infra-estrutura necessária para o processo de colonização, mediante a autorização do Estado. Este, por sua vez, obtinha das empresas a aplicação de recursos privados em obras. A partir de tais incentivos, houve um intenso processo de colonização no Paraná, juntamente com a exploração madeireira45. A política de colonização propiciada pela Cango tinha que conviver com a tensão de conflitos gerados por disputas entre posseiros e companhias grileiras. A Citla instalou-se no Sudoeste em 1951, desenvolvendo suas atividades até meados de 1952, quando o governador Bento Munhoz da Rocha (governador de 1951 a 1955), baixou a portaria número 419, de 2 de junho de 1952, proibindo o. 44. Cf. GREGORY, Valdir. Os euro-brasileiros e o espaço colonial: a dinâmica da colonização no oeste do Paraná nas décadas de 1940-1970. Niterói, 1997. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense, pp. 88-89. 45 Ibid., 1997, pp. 82-83..

(41) 41. recolhimento dos Impostos de Transmissão de Propriedade (sisas) sobre as glebas Missões e Chopim, o que impediria a atuação da referida companhia até que a questão da legalidade de terras fosse resolvida. A proibição caiu por terra quando Lupion assumiu seu segundo mandato como governador do Estado. A. Citla. foi. constituída. como. uma. sociedade. por. quotas. de. responsabilidade limitada em Clevelândia, por 146 quotistas que adquiriram o imóvel São Francisco de Sales, que pertencia ao espólio de Francisco Gutierrez Beltrão46. As primeiras desavenças entre Citla e Cango referem-se a dois projetos distintos de colonização. A Cango objetivava a colonização da região com colonos vindos de regiões mais antigas, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O assentamento deles aconteceria através da distribuição de lotes para a produção agrícola voltada ao consumo interno, seguindo os ideais da Marcha para o Oeste. A Citla, por sua vez, objetivava implantar uma indústria de celulose na região.. Há um documento elaborado pela CITLA – Projeto Celulose – em que a mesma especifica os levantamentos preliminares realizados, bem como os projetos a serem implantados, já com o estabelecimento de prioridades. Nos levantamentos feitos constatou-se que havia na época mais de três milhões de pinheiros adultos industrializáveis, várias quedas d’água passíveis de serem aproveitadas, um número significativo de pés de erva-mate de exploração imediata, milhões de pés de madeira de lei, principalmente cedro e peroba e milhares de toneladas de nó de pinho, matériaprima para a indústria de plásticos47.. Nesse jogo de forças entre Citla e Cango, esta última tem uma derrota significativa em 31 de dezembro de 1953. Dez anos após sua instalação no Sudoeste, ela suspende a alocação de novos colonos para a Colônia, a mando da Divisão de Terras e Colonização (DTC). As outras duas companhias imobiliárias atuantes na região, a Companhia Comercial e Agrícola Paraná Ltda. e a Imobiliária Apucarana Ltda., foram 46 47. COLNAGHI, op. cit., 1984, pp. 56-57. Cf. GOMES, op. cit., p. 43. WACHOWICZ, op. cit., pp. 195-199 também aborda a questão..

(42) 42. juridicamente desmembradas da Citla. Isso porque, em sua segunda campanha eleitoral ao governo do Estado, Lupion ficou devendo grandes quantias a João Simões, diretor do Banco do Estado do Paraná, e a Jorge Amim Maia, prefeito de Apucarana. Assim, vendeu ao primeiro a Comercial e ao segundo a Apucarana48. As companhias imobiliárias eram classificadas de grileiras devido às irregularidades dos títulos de propriedade que emitiam, já que o seu direito de posse foi negado pela justiça e, mesmo assim, vendiam terras sem autorização legal, mediante falsas escrituras de propriedade49. Os posseiros, por sua vez, eram alvo tanto das companhias grileiras quanto daqueles que reclamavam a titulação das terras. Sobre as companhias grileiras, as opiniões de Rubens Martins divergem das de outros autores citados nesse trabalho. Para ele, a Comercial Agrícola Paraná utilizava ameaças e intimidações aos posseiros para forçá-los a atender seus objetivos. Já a Clevelândia Industrial e Territorial Ltda. usava métodos mais brandos de persuasão através de Júlio Assis Cavalheiro. Contudo, reconhece que a Citla tinha fortes ligações com o PSD em Francisco Beltrão, já que Júlio Assis Cavalheiro era diretor da Citla e presidente do diretório do PSD do município. As companhias forçavam os posseiros a comprar as terras onde moravam, exigindo uma entrada para oficializar a transação e a assinatura de promissórias. Como os representantes das empresas sabiam que o que faziam era ilegal, tinham pressa em “acertar” a situação, arrecadando o máximo de dinheiro no menor tempo possível. É aqui que surge a figura do jagunço, homem de índole duvidosa contratado para a manutenção da ordem imposta pelas companhias50. Quando a situação não se fazia de forma “amigável”, ele era contratado para forçar os posseiros a saírem das terras ou a pagarem a dívida. Até mesmo os colonos que se instalaram na região através da Cango não estavam a salvo da disputa, já que estavam alocados nas mesmas áreas que a Citla dizia serem suas.. 48. COLNAGHI, op. cit., 1984, p. 101. MOTTA, Márcia. Grilagem. In: MOTTA, op. cit., 2005, p. 238. 50 BARROS, Luitgarde. Jagunço. In: ibid., p. 267. 49.

(43) 43. Mas é interessante observar que, na bibliografia consultada, todos os autores são unânimes em apresentar apenas o envolvimento de pequenos posseiros nas disputas de terras. Os grandes fazendeiros, por mais que suas propriedades fossem passíveis de questionamentos legais quanto a posse, pareciam não ser perturbados pelas companhias grileiras. A violência começou a ser freqüente entre os jagunços contratados pelas companhias para atemorizar e os colonos que não sabiam o que fazer para garantir suas propriedades. Expulsões, espancamentos, estupros, assassinatos aconteciam e eram relatados através das rádios locais e de boca em boca. Para garantir que o direito de propriedade privada fosse respeitado, valiam os mecanismos de persuasão e de ameaça para que os posseiros reconhecessem quem eram os “verdadeiros” possuidores daquela área. Geralmente, a violência que acompanha as ações grileiras e a luta pela democratização do acesso a terra não chega à justiça, quem dirá os executores dos crimes serem condenados, sob a justificativa de falta de provas51. E é o que se pôde constatar na Revolta dos Posseiros, pelos mesmos relatos citados, já que as companhias contavam com a conivência da polícia local. Poucos foram os casos de crimes que chegaram à justiça. Alguns inquéritos foram abertos após os acontecimentos de outubro de 1957, quando vários jagunços foram presos e interrogados52.. 1.2.2 Articulação de interesses e o conflito de 1957 A Revolta de 1957 no Sudoeste do Paraná não se constituiu em um movimento social organizado, permanente, com projeto político e diretrizes de ação, mas também não representou apenas uma forma simplificada de descontentamento popular que sofreu ou resultou em ações violentas. As experiências compartilhadas pelos envolvidos desde a época em que chegaram à região, juntamente com a vontade de permanecerem nas terras ocupadas, foram 51. MOTTA, Márcia. A grilagem como legado. Sugiro ao leitor interessado em mais detalhes sobre esses assuntos procurar a bibliografia citada nesta pesquisa.. 52.

Referências

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