A violência doméstica no concelho de
Santo Tirso: Denúncia, estruturas de
apoio à vítima e empoderamento
Ricardo Manuel da Costa Gouveia
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Ricardo Manuel da Costa Gouveia
A violência doméstica no concelho de Santo Tirso: Denúncia,
estruturas de apoio à vítima e empoderamento
Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Sociologia orientada pela Professora Doutora Maria Isabel Correia Dias
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
A violência doméstica no concelho de Santo Tirso: Denúncia,
estruturas de apoio à vítima e empoderamento
Ricardo Manuel da Costa Gouveia
Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Sociologia orientada pela Professora Doutora Maria Isabel Correia Dias
Membros do Júri
Professor Doutor Carlos Gonçalves Faculdade de Letras – Universidade do Porto
Professora Doutora Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti Universidade Católica do Salvador (Brasil)
Professora Doutora Maria Isabel Correia Dias Faculdade de Letras – Universidade do Porto
Sumário
Agradecimentos...8
Resumo...9
Abstract...10
Índice de tabelas...11
Lista de abreviaturas e siglas...12
Introdução...13
Capítulo 1 – Violência Doméstica: da contextualização histórica à abordagem sociológica...17
1.1. Violência na família...17
1.2. A violência doméstica como um problema sociológico...20
1.3. A construção do género...23
1.4. Definição de conceitos...30
Capítulo 2. – A violência doméstica: caracterização socio-legal e estatística...33
2.1. A violência doméstica em Portugal – evolução legal do crime...33
2.2. Os principais intervenientes no processo de denúncia do crime...37
2.2.1. Os órgãos de polícia criminal...37
2.2.2. O Ministério Público...39
2.2.3. O Juiz...40
2.2.4. A Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica...40
2.3. O Processo de denúncia no crime de violência doméstica...42
2.4. Breve referência estatística - Contexto nacional...43
2.5. Breve referência estatística – Contexto local...46
Capítulo 3. – Abordagem metodológica e análise das entrevistas...50
3.1. Metodologia...50
3.2. A identificação das instituições...52
3.3. Análise das entrevistas...55
3.3.1. O início da relação – o período de namoro...55
3.3.2. Viver juntos – o início da violência e estratégias de sobrevivência...58
3.3.3. Lua de mel – a continuação das agressões...63
3.3.4. A denúncia do crime...66
3.3.5. Reação do agressor à denúncia do crime ...70
3.3.7. Uma nova vida?...75
3.3.8. Avaliação do processo de denúncia...82
3.4. O empoderamento das vítimas de violência doméstica...88
Conclusão...95
Referências bibliográficas...99
ANEXOS...110
Anexo 1 – Caracterização dos intervenientes nas ocorrências de violência doméstica...111
Anexo 2 – Art.º 152º Violência Doméstica...112
Anexo 3 – Ficha de Avaliação de Risco...113
Anexo 4 - Profissão das vítimas de acordo com a Classificação Portuguesa das Profissões...114
Anexo 5 - Tipo de violência denunciada pelas vítimas (2015/2016)...115
Anexo 6 – Tipos de crimes mais participados (2015/2016)...116
Anexo 7 – Análise da categoria de crimes contra as pessoas (2016)...117
Anexo 8 – Taxa de feminização da vítima segundo a tipologia de vitimação (2016)...118
Anexo 9 – Grau de parentesco entre a vítima e o denunciado (2016)...119
Anexo 10 – Deluth Model...120
Anexo 11 - Guião de entrevista - Vítimas de Violência Doméstica...121
Anexo 12 – Guião de entrevista - Técnicos de Intervenção Social...122
Anexo 13 – Guião de entrevista - Advogada...123
Agradecimentos
Quero deixar um agradecimento especial às vítimas que tiveram a amabilidade e a confiança de partilhar comigo as suas vidas.
Agradeço também aos técnicos das várias instituições, parceiros valiosos com quem trabalho diariamente, que gentilmente me concederam entrevistas enriquecedoras onde foi possível trocar experiências profissionais e novas aprendizagens.
Agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Isabel Dias, pela sua orientação nesta investigação.
Agradeço e peço desculpa à Isabel e ao João pelo tempo que estive ausente, mas fica a promessa que muito em breve o vamos recuperar.
Resumo
Esta investigação pretende perceber a implicação da denúncia do crime de violência doméstica no fim do ciclo de violência em relações de intimidade abusivas, bem como estudar o impacto da ausência de uma estrutura especializada no atendimento a estas vítimas no seu processo de empoderamento. O nosso trabalho foi desenvolvido no concelho de Santo Tirso, onde entrevistamos onzes vítimas de violência doméstica, seis técnicas de intervenção social, uma advogada e um elemento da Polícia de Segurança Pública. Seguindo uma abordagem qualitativa, procuramos interpretar os resultados obtidos através da análise de conteúdo das entrevistas. Constatamos que, apesar do aumento da violência nos momentos posteriores à denúncia, e, quando aconteceu, após a separação do agressor, a queixa é decisiva para terminar com o ciclo da violência. Por sua vez, a inexistência de uma estrutura de apoio à vítima dificulta o processo de empoderamento das vítimas que, após a saída da relação abusiva, não encontram respostas para os problemas que resultam da separação do agressor. Esta investigação vem assim confirmar o impacto positivo da denúncia do crime no fim do ciclo da violência, bem como a necessidade da criação de uma estrutura de apoio à vítima no concelho uma vez que a sua inexistência foi identificada por todos como uma lacuna que importa colmatar.
Abstract
This research aimed at understanding the effect of the denunciation of the crime of domestic violence in ending the cycle of violence within abusive intimate relationships. It also intended to analyse the impact of the lack of a specialised structure to care for the victims on their empowerment. Our work took place in the county of Santo Tirso where we interviewed eleven victims of domestic violence, six social intervention technicians, one lawyer and one Police Officer. Following a qualitative approach, results were interpreted based on a content analysis of those interviews. We concluded that in spite of an increase of violence after the complaint and whenever the separation from the aggressor took place this is a decisive step to end the cycle of violence. On the other hand, the absence of a victim support structure complicates the process of empowerment of the victims who, after leaving an abusive relationship, cannot find answers to the problems resulting from their separation from the aggressor. As such, this research confirms the positive impact of the denunciation of the crime in ending the violence cycle, as well as the importance of setting up a victim support structure in the county since its absence has been unanimously identified as a problem that needs to be addressed.
Índice de tabelas
Tabela 1 – Estratégias para o empoderamento de vítimas de violência doméstica nos níveis Intrapessoal, Interpessoal e Institucional...93 Tabela 2 – Passos e níveis para o empoderamento: Declarações de uma vítima ...95
Lista de abreviaturas e siglas
APAV – Associação de Apoio à Vítima
APMJ – Associação Portuguesa de Mulheres Juristas
ASAS – Associação de Solidariedade e Ação Social de Santo Tirso
CIG – Comissão para a Igualdade de Género
CMST – Câmara Municipal de Santo Tirso
EPAV – Equipa de Apoio à Vítima
EPES – Equipa Projeto Escola Segura
FS – Forças de Segurança
GAS – Gabinete de Ação Social do ASAS
GNR – Guarda Nacional Republicana
LNES – Linha Nacional de Emergência Social
MAI – Ministério da Administração Interna
NLIS – Núcleo Local de Inserção Social de Santo Tirso
PSP – Polícia de Segurança Pública
RASI – Relatório Anual de Segurança Interna
ISCMST – Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Santo Tirso
UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta
Introdução
A violência doméstica é um assunto que diariamente nos interpela e que, apesar do trabalho que tem sido desenvolvido nas últimas décadas quer pelos sucessivos Governos, quer por várias organizações relacionadas com este fenómeno, continuamos a assistir quase diariamente à difusão de notícias trágicas, envolvendo sobretudo mulheres, divulgadas pelos órgãos de comunicação social. De acordo com relatórios estatísticos dos últimos anos, o número de participações criminais tem-se mantido relativamente estável, continuando a verificar-se milhares de crimes em cada ano, apesar de todas as campanhas de sensibilização que são realizadas anualmente pelas várias associações de apoio à vítima e Forças de Segurança, estas últimas, através dos seus programas de proximidade que anualmente desenvolvem milhares de ações de sensibilização sobre o tema nas escolas em todo o país.
Parece-nos, de certa forma evidente, que a sensibilização dos cidadãos, a formação dos intervenientes no processo e o investimento legislativo que se verificou nos últimos anos, pode explicar, em certa medida, esta visibilidade do fenómeno da violência doméstica. Contudo, os profissionais que lidam diariamente com este problema, entre os quais, o autor desta investigação1, sentem, por vezes, algum
desalento por lhes parecer que o seu trabalho não está a dar os resultados esperados, sendo um bom exemplo deste aparente insucesso, a violência manifestada nas relações de namoro que registou nos últimos anos um aumento do número de participações. Se este incremento pode, por um lado, refletir algumas alterações legislativas que clarificaram o conceito de “namoro” e a crescente visibilidade pública do fenómeno, por outro, sentimos no contacto diário que mantemos com os jovens e em várias ações de sensibilização que realizamos sobre o tema nas escolas do concelho, uma normalização generalizada de alguns comportamentos violentos logo no início das relações afetivas que, como demonstraremos ao longo deste trabalho, podem ser preditores de violência nas relações afetivas no futuro.
1 O autor deste trabalho é Agente da PSP na Esquadra de Santo Tirso e presta serviço no Modelo Integrado de Policiamento de Proximidade (MIPP), mais especificamente, no Programa Escola Segura (PES) e Apoio à Vítima (EPAV).
O trabalho que desenvolvemos com vítimas de violência doméstica passa, umas vezes pelo recebimento da denúncia e posterior avaliação do risco inerente à sua situação perante o agressor, outras, apenas pela avaliação do risco uma vez que a denúncia já foi realizada no local do crime ou na Esquadra. Apesar de a legislação em vigor prever um conjunto de medidas de proteção à vítima que podem ser acionadas quase de imediato quer pelos agentes que tomam conhecimento do crime, quer pelo Tribunal, a realidade é que, por diversas razões, algumas das quais abordadas neste trabalho, a vítima deposita muitas vezes a sua confiança nas Forças de Segurança a quem denuncia o crime e acaba por abandonar o posto policial mais desprotegida do que quando ali entrou, por um lado, pelo risco de ter denunciado o agressor, por outro, pela complexidade do processo que terá que enfrentar. O nosso trabalho vai centrar-se nestas denúncias efetuadas na PSP de Santo Tirso, por vítimas residentes no concelho.
Como veremos existem várias razões que explicam a continuação da relação afetiva após uma agressão ou mesmo depois da denúncia do crime. Da nossa experiência, sentimos que na maior parte dos casos, as denúncias resultam mais de atos de desespero e pedidos de ajuda em situações limite, do que de ações devidamente planeadas e com a antecipação de como resolver questões emergentes do processo que vai ser desencadeado pela queixa-crime. Esta preparação prévia pretende dotar a vítima de ferramentas que lhe permitam enfrentar o processo judicial e promover o seu empoderamento para abandonar a relação abusiva. Atualmente, no concelho de Santo Tirso, não existe qualquer estrutura especializada no atendimento a vítimas de violência doméstica pelo que muitas vezes sentimos falta de uma estrutura com estas características para lhes oferecer um apoio e um conforto que não nos cabe atribuir, dada a inerência das nossas funções.
Neste trabalho pretendemos perceber a relação entre o processo desencadeado pela denúncia do crime no fim do ciclo da violência, bem como as consequências da inexistência de uma estrutura especializada de apoio à vítima no concelho de Santo Tirso no processo de empoderamento das vítimas. Para isso, entrevistamos onze mulheres que denunciaram o crime na PSP desta cidade, assim como vários profissionais que lidam com este fenómeno no âmbito das suas competências nas várias organizações de cariz social do concelho.
No que concerne à sua estrutura, a presente tese encontra-se organizada em 3 capítulos, seguidos de uma conclusão, das referências bibliográficas e alguns anexos. Assim, no capítulo I dissertamos sobre o fenómeno da violência no seio da família e como de um problema social se transformou num problema sociológico. Daqui emergiram várias teorias, salientando-se a corrente feminista que atribui esta violência a uma sociedade marcadamente patriarcal que subalterniza as mulheres e lhes confere um papel menor na sociedade. Neste contexto importa entender o conceito de género e explicar a relação entre este e a violência conjugal que afeta maioritariamente as mulheres. Com a evolução dos estudos nesta área foram surgindo vários conceitos que clarificaram determinadas definições como a de “violência doméstica” ou “violência de género”, as quais serão também abordadas neste capítulo.
No capítulo II fazemos uma breve abordagem a algumas questões de índole jurídica sobre a evolução do crime de violência doméstica em Portugal e traçamos uma linha temporal onde podemos observar as alterações legislativas que foram produzidas ao longo das últimas décadas. De seguida, explicamos o trabalho que é desenvolvido por algumas das principais instituições intervenientes num processo-crime de violência doméstica e descrevemos, de forma sucinta, o decorrer deste processo. Ainda neste capítulo, recordamos alguns dados estatísticos sobre a prevalência do ilícito criminal no contexto nacional, através da informação que é disponibilizada anualmente pela Secretaria Geral do MAI, por via do Relatório Anual de Segurança Interna, e relacionamos essa informação com os dados do concelho de Santo Tirso, recolhidos pela divisão de ação social do município.
No capítulo III apresentamos as estratégias metodológicas e as técnicas de investigação utilizadas, a par dos objetivos que nos propomos atingir com a realização deste trabalho. Como já dissemos, entrevistamos vários profissionais que trabalham em instituições do concelho diretamente relacionadas com o apoio social. Nesta parte, fazemos uma breve descrição de cada uma delas e do trabalho que desenvolvem na cidade. De seguida, analisamos as entrevistas que realizamos e que decidimos dividir em períodos-chave, tendo como base teórica o ciclo da violência doméstica: o início da relação, onde analisamos a fase inicial da relação afetiva e a existência, ou não, de comportamentos preditores de violência. De seguida, tratamos do período em que
tiveram início os comportamentos violentos e tentando-se perceber, por um lado, que estratégias foram usadas pelas vítimas para suportar a relação e, por outro, que motivos as levaram a não abandonar o agressor. Na fase seguinte, por norma, a da lua-de-mel, descrevemos o comportamento do agressor e as estratégias que este utiliza para coagir e ludibriar a vítima a manter-se na relação.
Um momento marcante na relação abusiva, pela importância que pode ter no fim do ciclo da violência, é o momento da denúncia do crime. Nesta fase, percebemos muitas vezes que a sua vontade quando apresentam queixa passa simplesmente por desejar que o seu sofrimento termine, depositando em meia dúzia de folhas a esperança do fim do seu tormento. Contudo, como veremos, raramente isso acontece. Importa, por isso, perceber os motivos que as levaram a efetivar a denúncia, qual a sua reação e que avaliação fazem de todo o processo, desde que ele foi iniciado até à sua conclusão. A maior parte das vítimas entrevistadas não abandonaram de imediato o agressor após a denúncia do crime. Em alguns casos, voltaram para as suas casas e coabitaram com os agressores durante algumas semanas ou meses. No entanto, com a exceção de um caso, que explicaremos mais tarde, todas abandonam os agressores. Desta forma, pretendemos saber o que aconteceu após esta separação e se a ausência de estruturas de apoio à vítima no concelho influenciou o seu processo de empoderamento.
Na conclusão deste trabalho fazemos uma síntese da nossa investigação e apresentamos os resultados obtidos, assim como algumas propostas de trabalho que consideramos serem importantes implementar no concelho, mas também para melhorar o atendimento na Esquadra da PSP, uma vez que é esta a nossa área de atuação pela inerência das nossas funções.
Capítulo 1 – Violência Doméstica: da contextualização
histórica à abordagem sociológica
1.1. Violência na família
A violência no seio da família não é um fenómeno recente, sendo conhecidos relatos de práticas conjugais violentas desde que praticamente se conhecem registos da civilização humana. De acordo com as teorias feministas emergentes na década de 60 do séc. XX, estas práticas resultaram do papel central do homem na organização social que lhe conferiu um poder quase absoluto sobre as mulheres que as relegou para funções subalternas e menos relevantes socialmente (Anderson e Umberson, 2001). Aristóteles numa reflexão sobre a organização da cidade refere-se às diferenças existentes entre homens e mulheres afirmando que os homens tinham o dever de ditar “a lei aos filhos e
às mulheres” (Aristóteles, 1998 [trad. Amaral e Gomes], p. 53). Apesar de diferenciar o
tratamento que o homem deveria dar à mulher (cidadã) e aos filhos (súbditos), era utilizado o argumento biológico para a distinção de funções entre os sexos, afirmando que o homem estaria mais predisposto para mandar do que a mulher, existindo como que uma hierarquização natural de um face ao outro. Se recuarmos aos tempos da Roma Antiga, como recorda Thompson (2006, p. 6), de acordo como o princípio Patria
Potestae o homem tinha o poder/direito de castigar severamente a sua esposa pelo crime
de drunkness ou, em caso de adultério, a matar. No entanto, se fosse o homem a cometer a infidelidade, a mulher não teria o mesmo direito.
Entre os séculos XIII e XVIII através da influência crescente do direito romano verificou-se um aumento da subordinação da mulher ao marido (Lebrun, 1983; Flandrin, 1995; Oliveira e Oliveira, 2011) que a viria a tornar juridicamente incapaz não podendo gerir os seus bens, intentar uma ação em tribunal sem a sua autorização ou mesmo prestar qualquer depoimento naquela instância. Em caso de adultério o marido podia pedir a separação da mulher, sendo o contrário impossível. Esta subalternação da mulher viria a ser justificada por alguns moralistas dos séculos seguintes como resultado
da sua fisionomia (o sexo fraco), de acordo com argumentos bíblicos2 e com a
necessidade desta se reservar em exclusivo às tarefas domésticas3, ocorrendo uma
“domesticação da mulher” (Oliveira e Oliveira, 2011, p.307).
Durante o Antigo Regime, na família tradicional, o homem continuou a manter a sua posição dominante adquirindo através do casamento a posição de chefe de família que lhe conferia um poder sobranceiro sobre todos os restantes elementos do agregado familiar (Lebrun, 1983). Depois de casar, a mulher era transferida de propriedade do seu pai para o seu marido que, até à sua morte, dada a indissolubilidade do casamento, era o seu dono. Shorter (1995) recorda que neste período a taxa de mortalidade era muito elevada e que a sexualidade, para a mulher, se resumia exclusivamente ao dever de procriar4. Como refere o autor, “os papéis da esposa eram todos subservientes […] o
marido deveria assumir o papel ativo, a mulher, o papel passivo” (Idem, p. 81),
esperando-se que os homens fossem “dominadores, aterradores na sua autoridade
patriarcal, egoístas, brutais e nada sentimentais; as mulheres deviam ser leais, apagadas e submissas” (Idem, Ibidem, p. 88).
Na Gália do séc. XV dizia-se, “mulher que fala como o homem e a galinha que
canta como o galo não prestam para guardar […] Bom cavalo ou mau cavalo precisa de espora. Boa mulher ou má mulher precisa de pau” (Meurier cit. Flandrin, 1995, p.
133). Mais tarde, na França oitocentista o papel da mulher era reproduzido em provérbios populares: “Mort de femme et vie de cheval font l`homme riche […] Deuil de
femme morte dure jusq`à la porte” 5 (Lebrun cit. Shorter, 1997: p. 67), recordando os
autores o domínio dos homens sobre as mulheres a quem podiam bater e castigar, na maior parte dos casos, desde que não lhes causassem a morte.
Se nas famílias tradicionais os afetos parecem ter ficado ausentes, “na família
moderna o amor e a felicidade tornam-se centrais […] triunfa a lógica do sentimento” 2Epístola de S. Paulo aos Efésios (5,22 a 6,9) “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor”, “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo.”; “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.”
3 Apesar de nas classes populares a mulher também executar tarefas fora de casa, mas claramente definidas como as menos exigentes fisicamente.
4 Ao contrário dos homens para quem os rituais iniciais da sexualidade eram socialmente aceites, sendo frequente o recurso à prostituição.
5 “Morte de mulher e vida de cavalo tornam o homem rico. […] Luto por mulher morta, dura até à porta”.
(Dias, 2004a, pp. 45-46). Começando nas classes superiores e mais tarde passando para as classes populares, a família moderna centra em si o ideal de felicidade e realização pessoal (Vaquinhas, 2011). No entanto, a mulher permanece dentro de casa e tem como principais funções o cuidado do lar e dos filhos. Apesar de este modelo ser caracterizado por um ideal de harmonia e segurança, apresentava também focos de tensão entre o que realmente se esperava e o que realmente acontecia, nomeadamente a violência que era exercida contra as mulheres e crianças e a expetativa social que relegava para a esfera privada a resolução dessas questões.
Nesta época, o casamento torna-se central na organização familiar, ocorrendo uma apologia ao casamento sendo o matrimónio encarado por muitas mulheres como a independência dos pais e o único caminho para a sua liberdade (Dias, 2004a). Vaquinhas (2011) diz-nos que o séc. XIX é visto como o século da vida privada em que a família se fecha sobre si própria, passando simultaneamente o homem a pertencer a esfera pública e a mulher ao privado e ao recato do lar6, passando a casa a ser uma
espécie “de muro da vida privada” (Cascão, 2011, p.21), que ocultava tudo o que no seu interior acontecia. Esta proteção socialmente aceite, quer pelo papel atribuído às mulheres (e crianças), quer pela moral judaico-cristã que reforçava esta visão do mundo contribuiu de forma indelével para o perpetuar da violência ocultando-a da esfera pública, levando a que fosse tratada como um assunto de exclusiva responsabilidade do casal.
Até aos anos 60 do séc. XX a família parecia estar estabilizada dada as raras ruturas familiares e a demarcação claramente hierarquizada e definida dos papéis de género (Leandro, 2001). Contudo, com o surgimento da segunda vaga feminista, sobretudo nos Estados Unidos da América e Grã-Bretanha, aliada à luta pela igualdade de direitos, associa-se a denúncia da violência cometida no seio da família contra as mulheres, transportando para a esfera pública uma questão que até então permanecia encerrada no lar.
6Segundo a autora, no período oitocentista reforça-se a posição determinista da divisão sexual em torno das diferenças biológicas. A mulher incumpridora da ocupação do seu espaço no interior do lar era acusada de “mulher pública”, e conotada com práticas associadas à prostituição.
1.2. A violência doméstica como um problema sociológico
Numa pesquisa realizada em 1971 por O´Brian (1971) no índice do Journal of
Marriage, verificou-se que entre 1939 e 1969 em nenhum título deste periódico
constava a palavra “violência”. Neste período, como refere Gelles (1980), as raras investigações existentes no âmbito da violência no seio da família, reportavam-se aos abusos sobre as crianças, sendo a sua principal explicação para a violência cometida pelos agressores, a sua psicopatologia, excluindo-se nesse período qualquer aspeto de índole social. Nesta fase, houve também alguma dificuldade em definir a “violência legítima” da “violência ilegítima” no seio da família, justamente devido à perceção que existia sobre o modelo ideal de família, onde o homem, em determinadas situações, teria o dever de punir a sua mulher por práticas consideradas contrárias ao modelo social idealizado (Idem, Ibidem, p. 875).
De uma forma sucinta Gelles (1980) afirma que as pesquisas realizadas nos anos 70 do mesmo século sobre violência doméstica se centravam em três questões fundamentais: 1) fazer uma estimativa fiável do número de casos existentes; 2) identificar os fatores associados aos vários tipos de violência existente no lar; 3) desenvolver modelos teóricos das causas da violência na família. Do ponto de vista teórico surgem também três abordagens: a intraindividual ou psiquiátrica, que focava o problema nas características psicológicas do indivíduo (e.g. a violência era causada por doença mental ou devido ao consumo excessivo de substancias aditivas); o modelo psicossocial que atendia já ao ambiente externo da família e relacionava-o com as causas da violência, observando-se, por exemplo, a ocorrência passada de episódios de violência ou outros fatores de stress, e o modelo sociocultural, onde se assumia que a violência era o resultado de tensões produzidas por uma sociedade desigual e estruturada.
Neste período o movimento feminista, sobretudo nos Estados Unidos da América e na Grã-Bretanha, defende que a violência contra as mulheres resulta da dominação masculina mantida por uma sociedade patriarcal cujos pilares dessa existência assentavam justamente na violência cometida contra as mulheres (Anderson e Umberson, 2001). Em 1974 é publicada a primeira obra em que este problema é abordado de uma forma clara (Pizzey, 1974) tendo a sua divulgação tido uma forte
influência em várias organizações feministas7. Num período em que as investigações
sobre a violência contra as crianças se encontrava em crescimento, tendo para isso contribuído a publicação de Kempe (et al. 1962), onde se estudaram e denunciaram os abusos cometidos sobre as crianças em consultas hospitalares, a investigação sobre a violência contra as mulheres foi sendo impulsionada por outras publicações que surgem alguns anos depois (Martin, 1976; Dobash e Dobash; 1979). Da “síndroma da criança batida” surge posteriormente a “síndroma da mulher batida” que se definiu como um “conjunto de sintomas psicológicos, normalmente transitórios, que são frequentemente
observados, num padrão reconhecível e específico, em mulheres que afirmam terem sido física, sexual e/ou psicologicamente maltratadas de uma forma grave pelos seus parceiros masculinos” (Walker, 1993, p.135).
Em 1978 é publicado um artigo que defende a bidirecionalidade da violência entre parceiros, ou seja, a violência praticada entre cônjuges é simétrica quanto à sua natureza e intensidade (Steinmetz,1978). Este trabalho foi amplamente criticado pelos movimentos feministas e pelos investigadores que defendiam que a violência é assimétrica e que resulta da dominação masculina emergente de uma sociedade patriarcal. Desta forma, passamos a ter duas abordagens teóricas distintas: a feminist
perspective sustentada por metodologias qualitativas e que centram o seu estudo na
violência cometida contra as mulheres, tendo como causa fundamental a sociedade patriarcal8 e a consequente dominação masculina e, por outro, a family violence
perspective que investiga a violência que ocorre em contexto familiar e que não centra a
atenção na mulher vítima, mas em qualquer elemento da família sobre o qual ocorram episódios de violência (Casimiro, 2008).
Estamos de acordo com Johnson (1995), quando o autor alerta para a necessidade de distinguir-mos estes dois tipos de violência, uma vez que nos estudos onde se
7 Em 1971 Erin Pizzey organiza em Chiswick um dos primeiros espaços para acolhimento de mulheres vítimas de violência. Com a publicação deste livro são denunciados publicamente vários episódios de violência contra as mulheres através de cartas recebidas pela autora, onde as vítimas narram a sua experiência de abusos. Mais tarde seria também disponibilizado um documentário televisivo, sobre o mesmo tema (http://player.bfi.org.uk/film/watch-scream-quietly-or-the-neighbours-will-hear-1974/).
8Outra das críticas atribuídas a esta investigação resultou do uso das Conflit Tactic Scales (C.T.S.) e ao enviesamento do resultado A CTS foi criada por Straus (1979) nos EUA e consistia numa série de questões que eram colocadas ao casal sobre como resolveriam os seus conflitos sendo medida em três vertentes: discussão racional e argumentação; agressão verbal; a violência. Um dos problemas prende-se com o tipo de respostas fechadas colocadas.
defende a bidirecionalidade destas práticas, por norma, referem-se ao que o autor define como “common couple violence”, ou seja, práticas violentas menos severas9 que podem
ser cometidas por ambos os parceiros e que, sendo ocasional, não provoca na vítima consequências tão graves como nos casos em que ocorre o “patriarchal terrorism”, caracterizado por agressões severas, com efeitos mais gravosos e duráveis nas vítimas10.
Nestes casos, a violência é cometida sobretudo por homens que pretendem controlar, dominar as suas vítimas e mantê-las na relação afetiva, sendo este o tipo de violência a que se referem geralmente os meios de comunicação social, os tribunais, hospitais e forças de segurança, quando se referem a esse conceito (Idem, Ibidem).
No mesmo sentido, Anderson (2005) argumenta que o investigador deve clarificar os seus princípios teóricos que sustentam a sua análise da violência conjugal uma vez que esta pode condicionar/direcionar o resultado da sua investigação. Assim, define três tipos de abordagens: 1) individualista, que parte do princípio que a violência é, em parte, herdada geneticamente e adquirida através da socialização; 2) estruturalista, onde o género existe de uma forma independente dos indivíduos e eles inserem-se nessa estrutura e assumem os seus papéis sociais. O género, neste caso, é uma estrutura que contém em si homens e mulheres que per si não são violentos. No entanto, na sociedade há diferentes oportunidades11 e recompensas para cada um dos indivíduos, decorrendo
daí uma desigualdade que potencia comportamentos diversos (como a violência) para a obtenção de determinados benefícios; 3) interacionista, que surge para contrariar a posição individualista explicando que o género resulta das interações entre os sujeitos e não de qualquer passado genético. Nesta abordagem teórica, a violência é um meio através do qual o agressor afirma e impõe o seu poder. De acordo com esta perspetiva, o género é também construído através de práticas de violência contra as mulheres, na medida em que estas reforçam a sua masculinidade, como veremos mais à frente.
Dada a expressividade dos dados no que diz respeito ao género dos agressores de violência doméstica em Portugal (Anexo 1), entendemos ser pertinente a utilização do
9 Por exemplo insultos verbais. O autor afirma que apesar de ser comum e não ter como objetivo o controlo do parceiro, pode, em alguns casos, apresentar alguma gravidade.
10 O autor veio mais tarde rever o conceito de patriarchal terrorism passando a denomina-lo de intimate terrorism.
11 Se os homens recebem encorajamentos para o uso da força (ex. através dos filmes, publicidade, …), as raparigas são incentivadas a tratar de temas menos violentos (ex. brincar com bonecas, princesas, etc.).
conceito de intimate partner violence (Johnson, 2005) para definir o tipo de violência a que nos referimos. Desta forma, e de acordo com esta definição, é para nós claro que a violência doméstica participada às Forças de Segurança é assimétrica.
1.3. A construção do género
Por que é que os homens agridem as mulheres em contexto de intimidade? As explicações desta realidade variam de acordo com a abordagem teórica que sustenta a argumentação. Dado o nosso objeto de estudo e problemática, sobre os quais nos vamos debruçar mais adiante, vamos fundamentar a nossa pesquisa seguindo uma abordagem que atribui a génese da violência contra às mulheres a um modelo de sociedade que constrói a identidade de género que favorece práticas que legitimam a dominação masculina (Anderson, 2005).
Laqueur (1990, p.21) recorda que as diferenças de género são uma “invenção” do séc. XVIII na medida em que até esse período apenas existia um género: o masculino, pois a fêmea era encarada como um macho incompleto. Com o início dos estudos de género, percebeu-se que “o determinismo biológico não é suficiente para
compreender a variedade de modos de ser que se encontram entre homens e mulheres, nem a diversidade de configurações que as relações entre homens e mulheres assumem em diferentes contextos sociais” (Amâncio, 2004, p. 9). Neste período, do ponto de vista
académico, as investigadoras tentaram contrariar uma tendência que, de acordo com os papéis sexuais de cada um dos sexos, atribuía aos homens um lugar de destaque nas famílias, dado o seu papel de bread winners, responsáveis pela subsistência da família, e à mulher o garante da harmonia e bem-estar emocionais (Idem, Ibidem). Até este período, a ciência tinha sido dominada por homens tendo as feministas percebido que o conhecimento científico estava enviesado por uma visão androcêntrica do mundo social. Nos anos 60 do século XX, emerge um novo conceito que pretendeu separar o sexo biológico do sexo “social”, o género (Crawford, 1995). O género começou por ser definido como um conjunto de características inatas e estáveis que estavam associadas a cada um dos sexos. Nesta perspetiva essencialista, esta categoria era caracterizada como “uma propriedade estável, inata e bipolar de diferenciação sexual, tendo um carater
Como explica a autora, esta estabilidade e imutabilidade do género, muito associada ainda a um posicionamento positivista e determinista da ciência, foi criticada por uma outra perspetiva teórica que defendia que o género não era determinado por características biológicas, mas por constrangimentos sociais e culturais que eram apreendidos através da socialização. Segundo a perspetiva empiricista, desde a nascença, as crianças aprendem a comportar-se de acordo com o que a sociedade espera de cada uma delas e que se comportem de acordo com o seu sexo. Esta nova perspetiva, como defende Nogueira (2001), apesar de ter sido importante por ter permitido descolar o género da biologia, “continua a definir o género em termos de diferença dicotómica” (Idem, Ibidem, p. 141), uma vez que continuava a estar diretamente relacionada com cada um dos géneros que seria, depois de interiorizado, estável e imutável, acabando no entanto esta corrente teórica, por estar limitada, “à natureza dos seus conceitos,
sustentados por uma visão de mundo baseada em dualidades relacionadas com o género” (Morawski, 1990).
Alguns anos mais tarde, Harding (1986) propõem uma nova perspetiva centrada na compreensão da construção social das categorias apropriadas pelos sujeitos onde a sua identidade deixa de ser estável e imutável e passa a ser entendida como constituída por retalhos mutáveis que variam de acordo com as condições de apreensão dessas mesmas categorias. Nogueira (2001) argumenta que esta perspetiva pós-moderna do feminismo se distingue das restantes porque, “aceita a multiplicidade, a incoerência e o
paradoxo (…) Nega a aparente rigidez da linguagem sobre os significados estabelecidos, e é céptica acerca da natureza fixa da realidade” (Idem, Ibidem,145).
Um dos aspetos relevantes da 2.ª vaga feminista foi a conquista de questionar a divisão sexual do trabalho, a qual era até então explicada de acordo com argumentos biológicos que limitavam a capacidade analítica do problema porque a questão se centrava nas diferenças físicas, (evidentes) entre homens e mulheres. O que o feminismo veio demonstrar é que essas diferenças (de género) não eram naturais, mas artificialmente criadas por uma sociedade dominada por um modelo patriarcal que protegia os homens em detrimento das mulheres12. Mais tarde, durante a década de 70,
juntar-se-iam outras mulheres que lutavam pelo direito a sentirem-se seguras no seio da 12Foi muito importante o contributo de Simone de Beauvoir que denunciou uma sociedade desigual onde as mulheres eram dominadas pelos homens “não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”.
família, as “mulheres batidas”, passando a reclamar, “a denúncia da opressão das
mulheres, da sua exploração pelo homem, do androcentrismo e do patriarcalismo passaram a estar no centro das lutas feministas” (Dias, 2015, p. 84).
Neste período, as feministas consideravam que a violência dos homens exercida sobre as mulheres, resultava de uma sociedade patriarcal, “a social system in which
structural differences and in privilege, power and authority are invested in masculinity and the cultural, economic and/or social positions of men” (Cranny-Francis et al., 2003,
p. 15), conceito adaptado da antropologia que o usou para definir sociedades em que o poder e a autoridade estavam atribuídos ao homem mais velho do clã, devendo-lhes os mais novos subserviência, onde as mulheres estavam excluídas do poder. Tal como nesse período, a dominação masculina explicava o poder que os homens exerciam na sociedade, quer na esfera privada (no seio da família), quer na esfera pública (no trabalho, política ou cultura). A autora refere que, tal como no passado, onde as mulheres se encontravam afastadas das decisões relevantes e do poder, exceto quando isso servia os interesses da reprodução dessa ordem desigual13, tal ocorria nas
sociedades patriarcais “modernas”14.
Dias (2015) explica que dada a complexidade e pluridisciplinaridade do conceito de género, este tem sido estudado por várias disciplinas e campos científicos como é o caso da Sociologia. Antes de mais, importa distinguir o conceito de sexo, que diz respeito às características biológicas dos indivíduos, do conceito de género. Este refere-se às características socialmente adquiridas, portanto, variáveis de acordo com o contexto onde se manifesta, “a feminilidade e a masculinidade são conceitos culturais e
como tal possuem significações flutuantes” (Idem, Ibidem, p. 78), como tal, “o género não é um fenómeno que existe dentro dos indivíduos (…) pelo contrário, o género é um acordo que existe nas interações sociais” (Nogueira, 2001, p. 56). Os papéis que cada
um dos géneros representam na sociedade decorrem de uma interiorização do que é aprendido pelos indivíduos no seu processo de socialização e é justamente por haver um
13 Exemplo das professoras primárias do Estado Novo a quem o Estado atribuía o poder de doutrinar os jovens na ideologia do regime (Gouveia, 2009).
14 Este conceito (sociedade patriarcal) viria mais tarde a ser revisto devido à sua redutibilidade e ao facto de não conseguir explicar, por exemplo, o domínio de mulheres poderosas sobre homens com menos recursos (por não incluir variáveis como classe social, estatuto social, etc.). Hoje em dia é mais comum a utilização do conceito de masculinidade hegemónica para caracterizar um sistema social onde o poder do masculino se sobrepõe ao feminino.
desequilíbrio de oportunidades entre ambos que decorre a subordinação e desvalorização das mulheres relativamente aos homens (Idem, Ibidem).
De acordo com Hare-Mustin e Marecek (1990) o conceito de género é uma invenção com múltiplas facetas que possibilita a manutenção de representações sociais distintas. Howard e Hollander (1997) defendem que da linguagem e da interação social quotidiana contruímos a realidade, desta forma o género “é o significado que
concordamos imputar a determinada classe de transações entre indivíduos e contextos ambientais” (Nogueira, 2001, p. 35). Assim, esta troca de interações é determinada pelo
contexto social, ela não é intrínseca aos indivíduos. Por outro lado, a ação ou o comportamento dos géneros varia de acordo com o ambiente em que os mesmos se encontram, podendo assim entender-se comportamentos não normativos dos papéis de género como, por exemplo, o comportamento “masculinizado” das mulheres em posições de liderança (Nogueira e Amâncio, 1996).
Esta classificação de género surge da necessidade que os indivíduos sentem, logo desde a nascença, de se encaixarem nas categorias previamente definidas pela sociedade, “esta identificação com a compreensão socialmente contruída de género,
guia o comportamento, dirigindo as pessoas a conformar-se com as expetativas genderizadas e deste modo a fazer o género de uma forma compatível com a sua construção num determinado contexto social” (Nogueira, 2001, p. 58). Numa sociedade
onde o masculino é mais valorizado do que o feminino, as mulheres acabam por ser mais afetadas pelos efeitos de género do que os homens15. Ocorre assim um
questionamento sobre o feminino e sobre as reais capacidades das mulheres em conseguir executar tarefas associadas normalmente aos homens (e.g. a perícia na condução de veículos ou o exercício de determinadas tarefas), acabando, na realidade, por haver uma divisão sexuada das profissões16.
Amâncio (2004) afirma que a masculinidade não se refere apenas aos homens nem a feminilidade se refere apenas às mulheres, uma vez que ambos os conceitos
15 A autora refere alguns exemplos de linguagem exclusiva. Este tema foi abordado em alguns Planos Nacionais Conta a Violência Doméstica. Connell (1995) defende também que os modelos das sociedades ocidentais favorecem o posicionamento dos interesses da masculinidade através do patriarcado que é o garante desse domínio.
16 É frequente no ensino profissional a existência de turmas de determinadas áreas, como por exemplo mecânica ou eletrotecnia, exclusivamente frequentadas por rapazes e outras turmas, por exemplo de Termalismo, exclusivamente frequentadas por mulheres.
“constituem formas de pensar, dizer e fazer, socialmente construídas em diversos
planos da vida em sociedade” (Idem, Ibidem, p. 10). No mesmo sentido, Badinter
(1993) diz-nos que a masculinidade apenas faz sentido se a relacionarmos com a feminilidade, pois, um conceito está, em certa medida, em oposição ao outro. Connell (1996) afirma que das investigações já realizadas sobre a masculinidade se podem tirar várias conclusões. Podemos afirmar que há vários conceitos de masculinidade que variam de acordo com a cultura e com diferentes períodos da história. Contudo, ela assume múltiplas definições que podem coexistir na mesma cultura e contexto temporal. Como exemplo refere o conceito de masculinidade existente nas classes trabalhadoras e nas classes socialmente mais favorecidas. Sabemos também que há uma hierarquia entre essas masculinidades na medida em que nem todas assumem igual relevo social. Umas são valorizadas, representadas por ideais de masculinidade, outras marginalizadas, dependendo do contexto onde predominam17.
Apesar desta coexistência de masculinidades, há uma que é predominante e que Connell (1996) denominou de “masculinidade hegemónica” que é aquela que assume maior relevo e poder sobre as outras formas de masculinidade. Esta masculinidade pode não ser maioritária, mas é dominante sobre as outras (masculinidades) e a própria feminilidade, na medida em que representa uma expressão de privilégios dos homens sobre as mulheres. O género é independente dos indivíduos e estes, através das suas condutas, adaptam-se ao que consideram mais ajustado à sua identidade. No entanto, quando essa conduta choca com os padrões da masculinidade hegemónica ou das instituições onde se inserem os sujeitos, é alvo de críticas18. A masculinidade
hegemónica manifesta-se de várias formas e oferece recompensas pela sua manifestação. Por exemplo, o futebol é, apesar de algumas alterações recentes, um desporto praticado por homens, exibindo como representante máximo o português Cristiano Ronaldo. O jogador surge como modelo e expoente máximo do que deve ser um desportista de sucesso, sendo muitas vezes apontado como o “futebolista perfeito”
17 Nas classes menos favorecidas, as figuras de cantores de música rap, como e.g. Tupak, são idealizados como ideais de masculinidade e os jovens tendem a seguir/imitar os comportamentos associados a essas personagens. O mesmo músico, para jovens de camadas sociais mais favorecidas, pode não ser relevante, tendo esses rapazes outros ideais mais de acordo com o seu contexto social.
18Quando um homem não segue os padrões de masculinidade definidos por um determinado contexto social ou institucional, por exemplo, quando manifesta uma orientação sexual não normativa, no seio de uma organização marcadamente masculina, é vítima de críticas por parte dos seus pares.
cujo trabalho, dedicação, garra e espírito de sacrifício é recompensado com fama e muito dinheiro. Este modelo de masculinidade contém muitas características do que Connell (1996) define como traços que os rapazes pretendem alcançar e adquirir desde cedo (modelos de masculinidade).
A masculinidade é também construída ativamente, ela existe nas manifestações dos indivíduos no seu quotidiano e configuram práticas sociais. O autor defende que em determinados contextos a criminalidade é uma manifestação objetiva e necessária para alcançar um determinado conceito de masculinidade, seja nos pequenos delitos cometidos durante a adolescência, seja mais tarde para demonstrar que se tem o que é necessário para fazer parte de um grupo19. A masculinidade também é estratificada e
complexa, na medida em que é geradora de tensões entre o que eu sou e o que a sociedade espera que eu seja (Badinter, 1996) e é, ainda, dinâmica, pois varia de acordo com a época e o contexto histórico20.
Connell (1996) afirma que as escolas, apesar de não serem as únicas agências de socialização dos rapazes e raparigas, assumem um papel fundamental na construção do género que assenta em quatro componentes fundamentais: relações de poder, onde se inscreve a figura de autoridade e supervisão entre professores. Trata-se da associação que os alunos fazem nas escolas entre o poder e a masculinidade. A figura do diretor ou do funcionário mais severo que detém o poder e o controlo. A divisão do trabalho que está relacionada com a especialização das áreas disciplinares dos professores – ainda hoje podemos verificar que, por exemplo nas escolas do ensino secundário, há determinadas áreas científicas que são maioritariamente ensinadas por mulheres, e.g. as ciências sociais e linguísticas, e outras em que é mais frequente a presença de homens, as engenharias (e.g. mecânica ou eletrónica). Os padrões emocionais, que correspondem às imagens associadas a determinados papéis desempenhados na escola – sobre o tratamento que é dado pelos pares, por exemplo, aos colegas com uma identidade de género não normativa. Este tratamento, por vezes, homofóbico, poderá contribuir para a construção de uma masculinidade enviesada. A simbolização, a escola, enquanto espaço
19 Neste sentido, podemos também relacionar algumas práticas violentas cometidas pelos homens contra as suas mulheres para o garante de uma certa ideia de masculinidade e domínio sobre elas.
20 Beynon (2002) defende que a masculinidade resulta do contexto histórico, idade, orientação sexual, educação, estatuto social, estilo de vida, localização geográfica, etnia, religião, classe social, profissão e cultura ou subcultura.
de interações sociais, contém códigos e condutas inerentes ao seu funcionamento. Por vezes, há uma uniformização (e.g. na indumentária, saia para meninas e calção para meninos) que é ela própria responsável pela atribuição de características e codificações distintas a cada um dos géneros.
Da interceção destas estruturas, as escolas criam uma definição do que é a masculinidade e a feminilidade que, apesar de serem impessoais, têm um poder de atração para os jovens que através do seu comportamento se adaptam (ou não) às estruturas de género21. Barbosa e Nogueira (2004) recordam que na escola ocorrem
diariamente comportamentos de assédio sexual por parte dos rapazes às raparigas e que essas práticas reforçam a ideia de que estes assumem sobre elas uma posição dominante. Barbosa (2004) refere também que as formas de violência mais comuns nas escolas são caracterizadas por práticas relacionadas com violência de género. Quando esta violência é dirigida às raparigas tem um efeito gerador de medo nas vítimas e simultaneamente de enraizamento do poder da dominação masculina.
Stanko e Newburn (1994, p. 41) defendem também que a violência é sobretudo uma prática manifestada pelos homens e define dois tipos de violência: a violência expressiva, que surge de uma forma não premeditada, é instintiva; e a violência instrumental, quando é calculada e planeada para conseguir um determinado intento. Polk (1994, p. 188) explica que o uso extremo de violência em defesa da honra é definitivamente masculino. Connell (2002, p. 15) considera que a violência é uma marca da masculinidade. Os homens, desde novos, são educados para serem duros, competitivos, insensíveis, em suma, para não demonstrarem afeto. Para eles, o género é algo natural e não questionável. Ele não é imposto, existe e agimos de acordo com o padrão onde nos encaixamos. Contudo, como explica o autor, essas práticas não são inatas e devem ser discutidas, elas decorrem da pressão que é exercida por diversas instituições como, por exemplo, a escola (Idem, Ibidem). No mesmo sentido, Amâncio (1994) afirma que a violência normalmente associada aos rapazes não se deve a qualquer predisposição genética, mas à construção social de género, ou seja, a violência
21 Quando existe uma inconformidade de conduta relativamente à masculinidade hegemónica ocorre uma ação de coação que pode passar pelo uso de linguagem sexista que associa o inconformado com o género não dominante. Desta forma resulta que, não raras vezes, os rapazes recorram, à violência para repor a ordem natural das coisas, ou seja, que sejam vistos pelos pares como “verdadeiros homens” (Connell, 1996).
é aprendida e interiorizada como um aspeto legitimador do seu domínio sobre as raparigas. Badinter (1996), no mesmo sentido, explica que durante a construção da identidade masculina, os rapazes devem abandonar uma parte de si mesmos (ou da sua vontade) e reprimir comportamentos associados, por norma, ao sexo oposto como, por exemplo, sentimentos de afeto ou emoção, associados à fraqueza das mulheres, dado que um verdadeiro homem se deve assumir pela sua audácia, bravura e agressividade. Badinter (1996) conclui que a masculinidade resulta de uma série de relações/imposições/medidas (económicas, sociais e políticas) e Gilmore (1992), no mesmo sentido, argumenta que esta assume diversas formas e varia consoante as várias culturas22. Dias (2015) explica que as mulheres, “são mais sensíveis aos efeitos de
género pelo facto de viverem num mundo onde a norma é masculina” (Idem, p. 78).
Desta assimetria e deste desequilíbrio de forças resulta a violência no seio das relações de intimidade e que afetam sobretudo as mulheres.
1.4. Definição de conceitos
Com o avançar dos anos e com o aprofundamento teórico, político e jurídico do fenómeno, o conceito de violência doméstica foi sendo revisto e atualizado, tendo passado por várias definições que expressavam o entendimento técnico, cultural e ideológico do momento em que foi sendo sucessivamente definido23 (Manita, et. al.,
2009). O conceito de violência doméstica pode ter vários sentidos que convém esclarecer. Desde logo, o conceito jurídico tipificado no Código Penal Português e previsto no Art.º 152.º do mesmo diploma legal (Anexo 2) onde se definem, por um lado, quais as práticas violentas e, por outro, as circunstâncias e a relação entre os sujeitos que tipificam o ilícito num crime de violência doméstica.
22 Através de uma pesquisa alargada a várias comunidades, o autor pretendeu saber se existiria alguma estrutura universal que definisse a masculinidade, ou seja, se existiria algum arquétipo de masculinidade. As suas conclusões mostram não só a impossibilidade de tal definição, como a forte dependência do conceito face a certos rituais de iniciação. Na verdade, o que o autor demonstra é a inutilidade da tentativa de provar a existência de um padrão positivista de masculinidade culturalmente generalizável.
23 Recordo-me que no final da década de 90 havia uma enorme dificuldade no seio da Polícia em tipificar o crime, dada a falta de esclarecimento sobre o tema e redação do diploma pouco clara. A reiteração do crime (e.g. se o agressor tinha apenas dado uma bofetada ou mais à vítima) era apenas um dos exemplos que levava muitas vezes os agentes a não consideraram essa agressão como um crime de “maus tratos e infração às regras de segurança” (violência doméstica) mas como um simples crime de “ofensas à integridade física simples”.
Do ponto de vista sociológico o conceito é mais amplo e abrangente e não atende a alguns detalhes que o conceito jurídico procura salvaguardar como, por exemplo, a relação de dependência entre o agressor e a vítima quando não há uma relação de conjugalidade ou análoga24. Manita et. al. (2009) define violência doméstica
como “um comportamento violento continuado ou um padrão de controlo coercivo
exercido, direta ou indiretamente, sobre qualquer pessoa que habite no mesmo agregado familiar (e.g., cônjuge, companheiro/a, filho/a, pai, mãe, avô, avó), ou que, mesmo não co-habitando, seja companheiro, ex-companheiro ou familiar” (Idem,
Ibidem, p. 10 e 11).
Nesta investigação vamos centrar-nos apenas na violência cometida contra as mulheres, definida como “todo o ato de violência que tenha ou possa ter como
resultado o dano ou sofrimento (físico, sexual ou psicológico) da mulher, ou a sua morte, incluindo a ameaça de tais actos, a coação ou a privação de liberdade, realizado na esfera pública ou privada, violência que é exercida sobre a vítima por ser mulher.” (Idem, Ibidem, p.10), num contexto de intimidade. Este alargamento surge da
necessidade de englobar na violência conjugal, a que se referem as definições anteriores, a violência exercida sobre o conjugue/ex-cônjuge, companheiro/ex-companheiro a outras relações de intimidade, como é o caso das relações de namoro ou outros tipos de relacionamentos, como as relações homossexuais.
Nesta investigação vamos usar os conceitos de acordo com o que considerarmos mais apropriado para cada momento analítico. Se nos estivermos a referir às questões jurídico-legais, usamos o termo “violência doméstica” e conferimos-lhe o sentido dado pelo Artigo 152.º do Código Penal. Quando usamos o conceito sociológico, evocamos o conceito de Violência nas Relações de Intimidade (VRI) pela amplitude teórica que nos confere.
24 Como exemplo e de uma forma simplificada, podemos dizer que do ponto de vista jurídico se um filho agride um pai e este não está numa relação de dependência/fragilidade em relação ao agressor, em regra, estamos perante um crime de ofensas à integridade física qualificado e não perante um crime de violência doméstica.
Capítulo 2 – A violência doméstica: caracterização socio-legal
e estatística
2.1. A violência doméstica em Portugal – evolução legal do crime
A violência doméstica em Portugal não é um fenómeno recente, contudo como refere Dias (2000) só a partir da década de oitenta do século XX é que começou a ser encarada como um problema social. Para isso, segundo a autora, contribuíram vários fatores, como a intolerância ao fenómeno da violência, a sensibidade crescente dos profissionais da justiça e da saúde, o surgimento de algumas organizações de apoio à vítima que deram visibilidade ao problema que, em conjunto com a comunicação social, alertaram a população para este flagelo, ocorrendo simultaneamente um incremento nas medidas e serviços de apoio à vítima.
Perista et. al (2010), recorda que apenas no final dos anos 60 do séc. XX, se vislumbrou uma ténue mudança no que se refere à mudança social da mulher, dado a sua entrada no mercado de trabalho remunerado, deixando por essa razão, de estar centrada na agricultura, em parte, como resultado da forte vaga de emigração masculina e escassez de mão-de-obra. Com a Revolução de Abril de 1974 e a posterior alteração constitucional em 1976 e 1977, ocorrem importantes mudanças legislativas que visaram uma aproximação da igualdade de direitos entre os sexos. Esta publicação permitiu a revogação de algumas normas discriminatórias onde ser considerava, por exemplo, que, “O marido é o chefe da família, competindo-lhe nessa qualidade representá-la e decidir
em todos os actos da vida conjugal comum, sem prejuízo no disposto nos artigos subsequentes.” (Art.º 1647.º, Decreto-Lei n.º 47344 de 25 novembro).
Contudo, apesar desta conquista constitucional, a violência contra as mulheres nas suas relações de intimidade continuou a ser praticamente ignorada até 1982, ano em que foi publicado um artigo no Código Penal referente aos maus tratos entre cônjuges (Art.º 153.º, Decreto-Lei n.º 400/82 de 23 setembro) que, ainda que referindo-se especificamente aos maus tratos físicos ou tratamentos cruéis, foi um passo importante para a futura criminalização da violência doméstica em Portugal.
Este problema já havia sido abordado, dois anos antes, na Conferência Mundial da Década das Nações Unidas para a Mulher, em Copenhaga, assim como no 6.º Congresso da ONU sobre a Prevenção Criminal e o Tratamento de Agressores, em 1985, onde foi aprovada a Resolução n.º 40/36 específica sobre violência doméstica e se pretendia criar uma estratégia concertada no combate a este fenómeno.
Em 1991 é publicada pela primeira vez uma Lei que visa a proteção de mulheres vítimas de violência doméstica (Lei n.º 61/91, 13 de agosto), apesar de nunca ter sido regulamentada. Alguns anos depois foi publicada a Resolução da Assembleia da República n.º 31/99 de 4 de abril, que chamava à atenção para a regulamentação da Lei referida anteriormente bem como para a necessidade de formação dos elementos das Forças de Segurança para o atendimento nas Esquadras da PSP e Postos da GNR a vítimas de violência doméstica.
Com a publicação do Decreto-Lei n.º 48/95 de 15 de março, o crime de maus tratos anteriormente previsto no artigo 153.º do Código Penal, passou a ter uma nova redação, incluindo os maus tratos psicológicos, passando a aceitar também relações análogas à dos cônjuges, assumindo o crime a natureza de semipúblico. Neste período a coação cometida sobre o cônjuge era um crime autónomo e também semipúblico, o que impedia não só a denúncia pública como a vontade expressa da vítima em avançar com o inquérito criminal. Dois anos depois é publicada a Lei n.º 65/98 de 02 de setembro que introduz uma novidade: a possibilidade do Ministério Público, por interesse público, poder prosseguir com o processo caso houvesse a concordância da vítima. No entanto, a possibilidade da desistência do procedimento criminal (responsável por uma parte significativa do arquivamento dos processos na época) continuava a existir.
Com a Resolução do Conselho de Ministros n.º 49/97 de 24 de março, é criado o Plano Global para a Igualdade de Oportunidades onde se pretendia promover um conjunto de iniciativas que fossem ao encontro de um maior equilíbrio entre os direitos de ambos os géneros. Em 1998 surge o primeiro conceito “técnico-normativo” de violência doméstica em dois Despachos do MAI (15 e 16/98 de 9 de março) visando a criação de um instrumento estatístico onde estivessem registadas todas essas ocorrências. Definia-se então assim o conceito: “Deverá entender-se como ato de
contra a vítima por alguém que com ela resida habitualmente da relação de parentesco, de consanguinidade ou afinidade, ou qualquer outra relação entre agressor e amigo” (Despacho MAI n.º 15/98, 9 março). Neste ano é lançado um programa
pioneiro no combate à Violência Doméstica, o Projeto Inovar (Resolução Conselho Ministros n.º 6/99, 15 janeiro). Promovido pelo MAI, visava a criação de medidas de apoio e proteção às vítimas de violência doméstica e o início da formação de elementos das forças de segurança no atendimento a este tipo de vítimas. Este programa foi importante para o despertar do problema nas forças de segurança, na medida em que foram implantadas várias medidas, sobretudo de sensibilização, mas também alterações nos procedimentos técnicos adotados até então25.
Em 1999 é publicada a Resolução da Assembleia da República n.º 31/99 que vem reforçar a necessidade do cumprimento das medidas estipuladas na Lei n.º 61/91 de 13 de agosto, nomeadamente a criação de uma rede nacional de casas abrigo para as vitimas de violência doméstica, bem como a criação de uma série de medidas de apoio e proteção as vitimas, entre as quais, a criação de secções especializadas de apoio à vitima no seio das Forças de Segurança. O I Plano Nacional Contra a Violência Doméstica é criado com a Resolução do Conselho de Ministros n.º 55/99 de 15 de junho que vem compilar um conjunto de intensões manifestadas em anteriores medidas legislativas, onde se pode ler, “É altura de agir concretamente e com lucidez: a eliminação da
violência doméstica é um elemento indispensável na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, fundada no respeito dos direitos da pessoa e na dignidade humana” (Idem, preâmbulo). Com a Lei n.º 107/99 de 3 de agosto é
publicado o regime jurídico das Casas Abrigo, ampliando-se as medidas de apoio e proteção às vítimas de violência doméstica.
Em 2000 há uma importante alteração no Código Penal que transforma a natureza do crime, que passa a ser público. É também tipificado no crime a ofensa que ocorra em situações que exista um descendente comum, bem como a possibilidade de afastamento do agressor da vítima como pena acessória (Lei n.º 7/2000, 27 maio). É também nesta alteração legislativa que é introduzida a possibilidade de suspensão do processo até ao limite máximo da moldura penal do crime. A alteração da natureza do
25 Por exemplo, foi implementado um Auto de Denúncia padronizado para situações de violência doméstica, inexistente até então.
crime bloqueou a possibilidade da vítima desistir do procedimento criminal apesar de, face à sua relação com o agressor, ter a possibilidade de não prestar declarações nas fases subsequentes do processo (Art.º 134.º da Lei n.º 78/87 de 17 fevereiro), o que, quando esse direito é exercido, pode impossibilitar a acusação do suspeito por falta de prova, dado que a vítima ou os seus filhos (também abrangidos pelo mesmo artigo) constituem, muitas vezes, a única prova (testemunhal) do crime.
Em 2007 ocorre uma nova alteração à Lei n.º 59/2007 de 4 de setembro que vem autonomizar o crime de violência doméstica, introduzido alterações significativas, nomeadamente a equiparação das relações conjugais a casais homossexuais e a não necessidade da reiteração do ato violento para a configuração do crime de violência doméstica. Dois anos depois, é publicada a Lei n.º 112/2009 de 16 setembro, que inclui como “conduta típica do tipo legal da violência doméstica os maus tratos físicos ou
psíquicos, incluindo os castigos corporais, privações da liberdade ou ofensas sexuais”
(DGAI, 2013, p. 23). Esta publicação passou assim a integrar “um conjunto de
dispositivos normativos avulsos que estabelece um regime unificado da prevenção da violência doméstica, da proteção e das suas vítimas” (Idem, Ibidem, p. 24).
Com a publicação da Lei n.º 19/2013 de 21 de fevereiro, é novamente alterada a redação do Art.º 152.º que passa também a abranger de forma mais clara as relações de namoro bem como passou a estar contemplada a possibilidade do afastamento do agressor da residência da vítima e do seu local de trabalho sendo esse controlo efetuado por vigilância eletrónica. Ao longo dos anos a definição legal de vítima foi assumindo diversas interpretações que se ajustavam a visão que o legislador e a própria sociedade tinham do fenómeno. Atualmente a Lei define como vítima, “a pessoa singular que
sofreu um dano, nomeadamente um atentado à sua dignidade física ou mental, um dano moral, ou uma perda material, diretamente causada por ação ou omissão, no âmbito do crime de violência doméstica previsto no artigo 152.º do Código Penal” (Art.º 2.º, al. a),
Lei n.º 112/2009 de 16 setembro).
A legislação em vigor prevê um conjunto de medidas especiais de proteção às vítimas de violência doméstica, como a possibilidade de proteção por teleassistência (Artigo 20.º, n.º 4, Lei n.º 112/99 de 16 setembro), o direito de não contactar com o agressor em locais que impliquem diligências processuais (Art.º 20.º, n.º 2 e 3, Lei n.º