A
experiência mística do sujeito contemporâneo, especificamente aquela que ocorre fora das religiões já estabelecidas e se manifesta claramente como uma experiência pessoal, subjetiva e transformadora e sua consequente expressão, é o tema abordado por esta comunicação.Estamos nos referindo aqui ao ser humano urbano e de alto nível de escolaridade que procura, em ambientes variados, seja por meio da prática da yoga, do tai chi chuan, da meditação, do xamanismo, de diferentes técnicas espiritualistas de autoconhecimento e outras proporcionadas pela psicologia transpessoal, experiências criadoras de significado.
Em sua busca de sentido em uma sociedade multicultural, o sujeito contemporâneo entra em contado com experiências oriundas de outras etnias, o que o leva a vivenciar estados de consciência diferentes daquele de Resumo: esta pesquisa aborda a urgente necessidade de comunica-ção que emerge do sujeito que experimenta o fenômeno religioso. Aquele que vivencia a experiência mística precisa encontrar formas de expressá-la e se defronta com dificuldades e limitações impostas pelo pragmático e en-gessado arcabouço racionalista da linguagem cotidiana. Uma experiência claramente subjetiva, que traz em seu bojo emoções e sentimentos avessos à lógica do pensamento. É possível observar que a linguagem estética possui meios para expressar tais experiências: símbolos, signos, metáforas e analogias. Isso sugere uma relação estreita entre experiência estética e experiência mística, cujo estudo pode auxiliar na compreensão do fenô-meno religioso conforme ele se apresenta para o sujeito.
Palavras-chave: experiência, estética, mística, fenômeno religioso,
sagrado
Azize Maria Yared de Medeiros
EXPERIÊNCIA MÍSTICA E O INDIZÍVEL
vigília a que está acostumado. Muitas dessas experiências representam um impacto tão transformador em sua vida que o instiga a expressá-la. Passa a sentir uma urgente necessidade de comunicar primeiro a si mesmo e depois aos seus pares o conhecimento recém-adquirido.
A procura por esse tipo de experiência relacionada ao mundo interno, aos silenciosos anseios da alma, à busca do contato com o sagrado é bastante compreensível. Desenvolvemos uma civilização totalmente voltada para o exterior, para o lado de fora, para as aparências, imersos em tecnologia, informação e ampla racionalidade. Os indivíduos procuram, portanto, experiências de realização interior plena de sentido, que apresentem uma dimensão espiritual reveladora do grande mistério.
Embora todas as religiões conhecidas tenham surgido a partir de experiências místicas de seus fundadores, a profunda vivência do sagrado de que trata esta pesquisa refere-se a pessoas que não sentem necessidade de fundar religiões ou seitas, mas unicamente encontrar meios de expressar suas solitárias descobertas, para, assim, poder compartilhar os ganhos resultantes de suas caminhadas espirituais.
Chamaremos essas experiências, portanto, de místicas ou do sagrado, pois são experiências que não se relacionam com religiões específicas. Mas referem-se a um sagrado universal, que parece fazer parte de uma busca ontológica de sentido. Estamos aqui ousando afirmar, como premissa inicial deste estudo, que o sagrado faz parte da estrutura da consciência humana. Premissa que foi bastante defendida por Eliade, para quem “a experiência do sagrado que funda o mundo e, mesmo a religião mais elementar é antes de tudo uma ontologia” (ELIADE, 1992, p. 171). Esse autor afirma que um homem exclusivamente racional é uma abstração. Para ele, todo ser humano é constituído por uma atividade consciente e por experiências irracionais, e “os conteúdos e as estruturas do inconsciente apresentam semelhanças surpreendentes com as imagens e figuras mitológicas (ELIADE, 1992, p. 170). Conteúdos esses também amplamente encontrados em trabalhos artísticos de diferentes linguagens.
Um dos fundadores da psicologia científica, William James (1842-1910), em seu trabalho The Varieties of Religious Experience1 (2004), afirmava que a consciência não era um fenômeno cerebral e que as experiências místicas eram experiências pessoais, que envolviam sentimentos e ações relaciona-das com o divino. Ele se manifestava contra os excessos do racionalismo e acreditava que as experiências subjetivas, com suas características emocio-nais, afetivas e intuitivas, representavam uma forma válida de percepção e construção de conhecimento.
O pano de fundo de nossa argumentação sobre a aproximação da arte e da mística se encontra nas descrições dos aspectos irracionais do sagrado, conforme descrito por Otto2 (1869-1937) em seu estudo.
Um dos principais pontos em comum das duas experiências é o contato com o mistério. Tanto a experiência do sagrado quanto a obra de arte estão imbuídas da sensação de que algo foge das possíveis explicações da lógica racionalista.
O mysterium tremendum e fascinans caracteriza as duas experiências. O sujeito se vê diante de algo que o assusta e atrai. Ambas as experiências envolvem o ser humano como um todo: os sentidos, as emoções e o afeto. Certamente ambas são experiências epistemológicas, que envolvem corpo-ralidade e sentimentos.
Percebe-se que tanto os grandes místicos quanto os grandes artistas que vivenciaram experiências místicas só puderam expressá-las por meio da linguagem estética. Observa-se que o belo, enquanto categoria estética, não se limita ao artístico, mas também ao religioso. O tremendum, a majestas e a orgé, que sintetizam o numen, conforme descrito por Otto, são igualmente características dos trabalhos artísticos em suas diferentes linguagens.
Seguem-se três exemplos do que afirmamos, de épocas variadas da história do pensamento humano.
O belo atrai e afasta. Como em Agostinho (354-430), influenciado pelo neoplatonismo plotiniano3, mesmo temendo que a beleza e as sensações
corpóreas de prazer estético o afastassem de Deus, só conseguia expressar-se em linguagem estética.
Os olhos amam a beleza e a variedade das formas, o brilho e a amenidade das cores. Oxalá que tais atrativos não me acorrentassem a alma! Oxalá que ela só fosse possuída por aquele Deus que criou estas coisas tão belas! O meu bem é Ele, e não as criaturas que todos os dias me importunam acordado, não me dando descanso, como o dão as vozes dos cantores, que por vezes ficam todas em silêncio (SANTO AGOSTINHO, 1973, p. 220). Dante Alighieri (1265-1321), na Divina Comédia, Canto IV, repleto de dúvidas dirige-se a Beatriz, que representa uma consciência superior ou, numa linguagem mais contemporânea, a consciência cósmica:
Ó querida de Deus, ó senhora, vossa palavra me inunda de glória, exalta-me e eleva-me! Não pode o meu afeto ser tão grande que logre agradecer-lhe suficientemente. Supra minha falta aquele que tudo vê e
tudo pode! O intelecto humano só pode penetrar os mistérios divinos se ilumi-nado pela verdade, sem a qual não há luz (ALIGHIERI, 2007, p. 240). E ao questionar sobre a possibilidade de redimir-se perante a justiça divina, Dante diz que Beatriz fixou nele seus olhos “tão cheios de ardor divino que transido recuei; fiz então enorme esforço para não sucumbir” (ALIGHIERI, 2007, p. 240).
O poeta americano Walt Whitman (1819-1892) tornou-se conhecido por suas experiências místicas e expressou em poemas um sentimento de profundo amor pela humanidade e natureza. Seu contato com o sagrado proporcionou-lhe apenas sentimentos de bondade, generosidade e gratidão. Em seu livro Folhas das Folhas de Relva, podemos ler:
Creio em você, minha alma: O outro que sou não deve Rebaixar-se a você, Nem você deve rebaixar-se
Ao outro. (WHITMAN, 1983, p. 28) Por que haveria eu de querer ver a Deus Melhor que neste dia?
Eu vejo algo de Deus em cada uma Das vinte e quatro horas
E em cada instante de cada uma delas Nos rostos dos homens e das mulheres Eu vejo a Deus
E no meu próprio rosto em cada espelho [...] (WHITMAN, 1983, p. 44).
Um exemplo que certamente desperta no observador as três caracte-rísticas já citadas do numinoso pode ser atribuído à tela Guernica de Pablo Picasso (1881-1973). Ao retratar em linguagem cubista (linguagem que já demonstra a fragmentação do ser humano e a perda da unicidade) o genocí-dio ocorrido em uma pequena vila durante a guerra civil espanhola, Picasso provoca uma sensação de calafrio, seguida de pânico e terror (tremendum). Também é possível sentir uma força ilimitada e misteriosa que provoca um sentimento de insignificância (majestas) e fragilidade diante daquele poder. Finalmente ocorre de forma intensa no observador o surgimento de uma espécie de excitação, um impulso (orgé) que o incita a expressar tais emoções
em formas que fogem à racionalidade humana e só podem ser manifestadas por meio de símbolos.
Essas mesmas características são também experimentadas diante das muitas e intrigantes telas de Salvador Dalí (1904-1989), que buscava nas formas oníricas expressar o mistério da vida.
No mundo contemporâneo, as descrições fornecidas pela Psicolo-gia Transpessoal a respeito de pessoas que tiveram experiências místicas apresentam, do mesmo modo, a linguagem estética como o único meio de expressá-las, seja utilizando-se de desenhos, pinturas, poemas ou exposições repletas de metáforas. Da mesma maneira, as experiências que ocorrem na atualidade incluem o elemento de atração e repulsa.
De acordo com centenas de relatos de pessoas que passaram por experiências denominadas pela Psicologia Transpessoal de expansão de consciência, estudadas por Stanislav Grof4, existem duas formas distintas
para alguém experimentar o numinoso:
[...] fundir-se com a fonte divina, sentindo-se Um com ela e indistinguível dela, ou manter o sentido da própria identidade, separada e como um observador perplexo, testemunhar de fora o mysterium tremendum da existência (GROF, 1998, p. 28).
Os estudos da mística ao longo da história podem confirmar dois tipos diferentes de experiência mística: impessoal e transcendente e pessoal e imanente.
Grof atesta a dificuldade que as pessoas demonstram ao tentar expressar tais experiências, exatamente por parecerem tão contraditórias. Elas afirmam que os termos normalmente usados, como Deus, Consciência Absoluta ou Mente Universal, “parecem ser desesperadamente inadequados para trans-mitir a grandeza e o impacto de tal encontro. Algumas pessoas consideram ser o silêncio a reação mais apropriada à experiência do Absoluto” (GROF, 1998, p. 29).
Conforme relatos das psicólogas transpessoais Basso e Pustilnik, as experiências unitivas de dissolução do eu no numinoso sempre envolvem uma beleza estética surpreendente, de grandiosidade e plenitude. “O importante de todas essas experiências é a sensação de perder as fronteiras individuais e fundir-se a vários aspectos do meio ambiente” (BASSO; PUSTILNIK, 2000, p. 63).
Ambas (mística e estética) são experiências unitivas, que geram perple-xidade, conhecimento e tornam-se emblemáticas. A partir de um elemento
amplia-se a sensação de totalidade. O sujeito que experimenta une-se com o todo. Nessa união são despertados sentimentos de igualdade, respeito e compreensão por seus semelhantes.
Essas conclusões parecem confirmar os estudos do filósofo francês Henri Bergson, quando afirma que o místico verdadeiro não se preocuparia tanto em transmitir sua experiência mediante palavras, mas por meio de suas ações, porque a sua experiência impregnou-o do Amor:
[…] o amor que o consome não mais é simplesmente o amor de um homem por Deus, é o amor de Deus por todos os homens. Através de Deus, por Deus ele ama toda a humanidade com um amor divino (BERGSON, 1978, p.192).
Embora o desencantamento do mundo, a expulsão da magia da sociedade moderna, conforme sugerido por Weber (1864-1920), e o cres-cimento das metafísicas racionalistas tenham reduzido as possibilidades de expressão da experiência do sagrado, não reduziram a sua incessante busca, mesmo na secular sociedade contemporânea.
É possível, portanto, afirmar que essa aproximação da expressão estética com a experiência mística está relacionada com o fato de serem ambas experiências profundamente subjetivas, que não se submetem aos parâmetros da lógica racionalista, mas que, de algum modo, representam um tipo de energia, uma pulsão incontrolável que tem urgência para encontrar seu caminho de ser no mundo.
Notas
1 James publicou este longo trabalho em 1902. 2 O Sagrado, publicado em 1917.
3 Plotino acreditava que o corpo impedia as almas de se unirem ao Absoluto. 4 Stanislav Grof, médico psiquiatra contemporâneo radicado nos Estados Unidos
que há quarenta anos estuda estados incomuns de consciência. Referências
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Abstract: this research focus on the urgent need of communication that comes out of a person who has gone through mystical experience. It is often observed that aesthetic language has the means to express that kind of experiences by symbols, metaphors and analogies. A daily rationalistic language often shows difficulties and limitations to express
the feelings and emotions that emerges from the individual. This paper suggests a deep link between aesthetic experience and mystical experience. A study of this relationship may be able to help the comprehension of religious phenomenon as it presents itself to the individual.
Keywords: Mystical experience; Aesthetic experience; Religious phenomenon; Holy
AZIZE MARIA YAREDE DE MEDEIROS
Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. E-mail: [email protected]