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Cad. Saúde Pública vol.30 suppl.1 X csp 30 s1 0035

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Academic year: 2018

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INTERVENÇÕES OBSTÉTRICAS DURANTE O TRABALHO DE PARTO E PARTO S35

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30 Sup:S17-S47, 2014

Nascer no Brasil “em tempo”: uma

questão de hierarquia das intervenções

no parto?

Inicialmente, manifesto a satisfação e o senti-mento de responsabilidade por comentar um artigo derivado da pesquisa nacional Nascer no Brasil. Essa pesquisa representa um marco na produção de conhecimentos sobre o modelo de assistência ao parto no país, dada sua relevância, abrangência e ineditismo.

À exceção das taxas de cesariana, episioto-mia e alívio da dor no parto normal, os outros dados apresentados no artigo são únicos. Des-conheço informações sobre as demais práticas e intervenções obstétricas no parto – alimentação, mobilidade, uso do partograma, cateterização venosa periférica, infusão de ocitocina, amnio-tomia, parto em posição litotômica, manobra de Kristeller (pressão no fundo do útero durante a expulsão fetal) e parto normal sem intervenções –, salvo em estudos parciais ou localizados. Além disso, no papel de comentadora, gozo o privilégio da liberdade de interpretação, sem prender-me à “imanência” dos resultados.

É provável que a “noção de segurança” da as-sistência ao parto, com a intervenção oportuna para prevenir desfechos mórbidos, se confun-da com as metas de celericonfun-dade e oportunismo, sacrificando a “noção de fisiologia” do parto. A cesariana se tornou a maneira de resolver rapida-mente o parto, tanto em mulheres de baixo risco (45,5%) quanto para as demais (60,3%).

Para as mulheres classificadas como de baixo risco, outra forma de abreviar o parto é tentada mediante uso de intervenções que dão

Maria Luiza Gonzalez Riesco

Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. [email protected]

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XCO02S114

agilidade, ligeireza, rapidez ou velocidade ao processo assistencial. Destaco aquelas que, com ou sem sucesso, se prestam a acelerar o parto normal: amniotomia e infusão de ocitocina, na dilatação cervical; Kristeller e episiotomia, na expulsão fetal.

Nas mulheres da pesquisa, o modo de produ-ção em saúde no parto dominante é via modelo assistencial centrado no serviço e no profissio-nal, não na mulher e no processo do parto. Por consequência, esse modelo gera alguns dos re-sultados observados: maior exposição das nulí-paras à infusão de ocitocina, manobra de Kristel-ler e episiotomia; maior chance para as mulheres de menor escolaridade de sofrerem amniotomia e receberem ocitocina ao darem à luz em serviços da rede pública; também para aquelas com parto na região Centro-oeste do país, mais Kristeller e episiotomia.

Por sua vez, mesmo em centros de parto normal, onde são atendidas exclusivamente mu-lheres de baixo risco, algumas intervenções des-necessárias são utilizadas em alta proporção. As taxas de amniotomia e infusão de ocitocina che-gam a 75,1% e 46,3%, respectivamente, e indicam o uso não criterioso 1.

Em relação à episiotomia, embora as taxas em centros de parto normal sejam elevadas (variação entre 16,2% e 35%) 1, a intervenção se mostra mais sensível à redução, pois houve dimi-nuição importante na taxa encontrada em todas as macrorregiões no Nascer no Brasil, em compa-ração com a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) 2, de 2006, em que a taxa nacional foi de 76,1%.

Parece haver uma hierarquia em relação ao abandono de práticas inadequadas na assistên-cia obstétrica. É provável que as intervenções nas quais o atual processo assistencial apoia forte-mente seu modo de produção constituam os últi-mos obstáculos que serão, finalmente, superados na promoção do parto fisiológico. Suspeito que tais intervenções são a cesariana e a condução do parto com ocitocina.

Os dados sugerem a necessidade de mudan-ças rápidas na assistência ao parto no Brasil, sob a pena de se estabelecerem, a longo prazo, padrões irreversíveis de morbidade materna e neonatal, em consequência das intervenções desnecessárias.

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Leal MC et al. S36

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 30 Sup:S17-S47, 2014 1. Riesco MLG, Oliveira SMJV, Bonadio IC, Schneck

CA, Silva FMB, Diniz CSG, Lobo SF, Saito E. Birth centers in Brazil: scientific production review. Rev Esc Enferm USP 2009; 43:1291-6.

Referências

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