Conceito de responsabilidade penal em psiquiatria forense
Concept of penal imputability in forensic psychiatry
Alexandre Valença, Miguel Chalub, Mauro Mendlowicz, Kátia Mecler e Antonio Egidio Nardi
Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ) (Valença A, Chalub M, Mendlowicz M, Nardi AE)
Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da Universidade Federal Fluminense (MSM/UFF) (Valença A, Mendlowicz M)
Manicômio Judiciário Heitor Carrilho (Valença A, Chalub M, Mecler K) Resumo
O presente artigo estuda o conceito de responsabilidade penal em psiquiatria forense. Os autores ilustram o relato com diversos casos clínicos, dessa forma mostrando a aplicação do critério biopsicológico na avaliação da responsabilidade penal. A avaliação psiquiátrico-forense da responsabilidade penal é realizada com base na avaliação da capacidade de entendimento e determinação. Por sua vez, a avaliação desses aspectos envolve o estudo cuidadoso dos autos do processo, de antecedentes pessoais, familiares e psicossociais do periciando, além do exame psicopatológico. Este último implica o conhecimento da psicopatologia e a exploração minuciosa de todas as funções psíquicas do indivíduo durante a entrevista psiquiátrica, como consciência, juízo de realidade, sensório-percepção, inteligência, afetividade e vontade. Sem dúvida, o exame psicopatológico constitui peça fundamental na avaliação da responsabilidade penal. Ressalta-se a importância do exame psicopatológico na avaliação da responsabilidade penal.
Palavra-chave: transtorno mental, responsabilidade penal, medida de
segurança, psiquiatria forense.
Abstract
The present paper studies the concept of penal imputability in forensic psychiatry. The authors illustrate the paper with clinical cases, thus showing the application of the biopsychological criteria in the assessment of penal imputability. The forensic psychiatry assessment of the penal imputability is carried out based on the evaluation of the capacity of understanding and determination. Thus, the evaluation of these aspects includes the careful investigation of the judicial process, personal, familiar history and psychosocial of the individual, along with the psychopathological examination. It reflects the knowledge of the psychopathology of all the psychological functions of the individual during the psychiatric interview such as the consciousness, reality judgment, perception, intelligence, affectivity and will. Undoubtedly, the psychopathological examination constitutes the cornerstone in penal imputability evaluation. We emphasize the importance of the psychopathologic examination in assessing penal imputability.
Key words: mental disorder, penal imputability, safety measure, forensic
psychiatry.
Recebido 27-04-05 Aprovado 26-07-05
Correspondência para: Alexandre Valença
o caráter criminoso do seu ato e de determinar-se totalmente de acordo com esse entendimento. Nesse caso o delito que praticou lhe é imputável, podendo o agente ser julgado responsável penalmente pelo delito; 2. responsabilidade parcial, significando que o agente era, à época do delito, parcialmente capaz de entender o caráter criminoso do fato e/ou parcialmente capaz de determinar-se de acordo com esse entendimento. Nesse caso, o delito que praticou lhe é semi-imputável e o agente poderá ser julgado parcialmente responsável pelo que fez (o que na prática implicará redução da pena de um a dois terços ou medida de segurança); 3. responsabilidade nula, quando o agente era, à época do delito, totalmente incapaz de entender o caráter criminoso do fato ou totalmente incapaz de determinar-se de acordo com este entendimento. Nesse caso o delito praticado lhe é inimputável e o agente será julgado irresponsável penalmente pelo que fez.
Ao cometer um delito, um indivíduo considerado responsável será submetido a uma pena. Ao inimputável será aplicada uma me-dida de segurança. Segundo Paim (1979), entende-se por meme-dida de segurança o ato jurídico que consiste na “providência substitutiva ou complementar da pena, sem caráter expiatório ou aflitivo, mas de índole assistencial, preventiva e recuperatória, e que representa certas restrições pessoais e patrimoniais (internação em manicômio, em colônia agrícola, liberdade vigiada, interdições e confiscos), fundada na periculosidade, e não na responsabilidade do criminoso”.
Ainda segundo Paim (1979), a pena e a medida de segurança são distinguidas pelos seguintes aspectos:
● a pena assume cunho essencialmente ético e é baseada na justiça; a medida de segurança, eticamente neutra, tem por fundamento a utilidade;
● a pena é sanção e se impõe por um fato certo, isto é, o crime praticado; a medida de segurança não é sanção e se impõe por um fato provável, isto é, o provável retorno à prática de fato previsto como crime;
● a pena tem como caráter jurídico essencial o sofrimento, sendo repressiva e intimidante. A medida de segurança tem caráter de tratamento, assistência e pedagogia;
● a pena é prevalentemente retributiva; a medida de segurança serve ao fim de segregação tutelar ou readaptação do indivíduo;
● a pena, além de expiatória, visa à prevenção geral (coação psicoló-gica e abstenção do crime) e especial (escarmento, emenda de quem sofre). A medida de segurança visa somente à prevenção especial (neutralização profilática ou recuperação social do indivíduo).
Para Taborda (2001), uma diferença importante entre a pena e a medida de segurança é que nesta última o tempo de duração não é sabido, ou seja, nunca é estabelecido um tempo máximo, devendo persistir enquanto o interno for considerado potencialmente perigoso. Na pena, ao contrário, o tempo de prisão é estabelecido.
Cabe ao perito informar se o indivíduo é mentalmente de-senvolvido e mentalmente são. Ao juiz compete sentenciar sobre a capacidade e a responsabilidade (aplicação de pena ou medida de segurança).
Essas disposições estão presentes no artigo 26 do código penal de 1984, em seu caput e parágrafo único:
“É isento de pena o agente que, por doença mental ou desen-volvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com este entendimento.
Parágrafo único – A pena pode ser reduzida de um a dois terços se o agente, em virtude de perturbação da saúde mental ou por
Introdução
A tendência das sociedades modernas é orientar o indivíduo nos interesses coletivos e organizar a vida em termos de civilidade e nivelação dos tipos e modo de viver (Veloso de França, 1998). O crime é um fenômeno social e eminentemente humano. A história do crime começa com a própria história do homem.
De acordo com Chalub (1981), a exposição de motivos do Código Penal brasileiro declara que todo crime é resultado de uma ação ou omissão que se consideram criminosas e, para o serem, devem produzir um dano efetivo ou potencial, lesão ou perigo de lesão ou de um bem ou interesse juridicamente tutelado. Dessa forma, a ação ou a omissão criminosas encerram um caráter danoso ou, pelo menos, perigoso a outrem, acarretando uma perturbação nas condições que presidem a vida social. É o delito um fato socialmente nocivo e injusto. É uma ação ou omissão humana antijurídica, típica, culpável e punível.
Para Vargas (1990), à medida que as sociedades foram evoluindo, as normas empíricas proibitivas começaram a ter um ordenamento, sendo criados os primeiros códigos. Alguns filósofos e pensadores começaram a influir na concepção do crime e da pena, como a culpabilidade através do livre arbítrio de Aristóteles; ou, com Platão, nas leis onde se antevê a pena como uma medida de defesa social, pela intimidação. Através de observação de que existem fatores subjetivos na liberdade de ação voluntária e delituosa, surgiu a proposta de uma série de novas normas, onde a vontade e a inteligência eram analisadas objetiva e subjetivamente antes da aplicação penal. De outra forma, a aptidão de realizar com discernimento um ato por parte do indivíduo teria relação direta com o desenvolvimento e a normalidade mental (ação consciente e voluntária).
Do ponto de vista jurídico, a responsabilidade pressupõe no agente, contemporaneamente à ação ou à omissão, a capacidade de entender o caráter criminoso do fato e também a de determinar-se de acordo com esdeterminar-se entendimento. É possível então definir-determinar-se a responsabilidade como a existência dos pressupostos psíquicos pelos quais alguém é chamado a responder penalmente pelo crime que praticou. Nesse aspecto, dois conceitos importantes são os de responsabilidade e imputabilidade, significando esta a condição psíquica da punibilidade, enquanto aquela designaria a obrigação de responder penalmente ou de sofrer a pena por um fato determinado, pressuposta a imputabilidade. De acordo com Vargas (1990), o conceito básico de imputabilidade seria a condição de quem tem aptidão para realizar com pleno discernimento um ato. Representa a imputabilidade uma relação de causalidade psíquica entre o fato e o seu autor. Com uma frase interessante, Von Liszt, apud Lutz (1941), resume bem essa questão: “imputável é todo indivíduo mentalmente desenvolvido e mentalmente são”. Para Hungria (1949), na terminologia jurídica, ambos os vocábulos podem ser indiferentemente empregados para exprimir tanto a capacidade penal in genere, quanto a obrigação de responder penalmente pelo fato concreto, pois uma e outra são aspectos da mesma noção. Entretanto prefere o emprego do termo responsabilidade.
desenvolvimento completo ou retardado, não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com este entendimento”.
Na fixação do pressuposto da responsabilidade penal com base na culpa moral, existem três critérios fundamentais: o bioló-gico, o psicológico e o biopsicológico ou misto. O critério biológico condiciona a responsabilidade à saúde mental, à anormalidade da mente. Dessa forma, se o agente apresenta uma doença mental ou deficiência mental grave, deve ser considerado irresponsável, sem necessidade de posterior indagação psicológica. O critério psicológico não indaga se há uma perturbação mental mórbida: declara a irresponsabilidade se, ao tempo do crime, estava abo-lida no agente, seja qual for a causa, a faculdade de apreciar a criminalidade do fato (momento intelectivo) e de determinar-se de acordo com essa apreciação (momento volitivo). Finalmente, no critério biopsicológico, que é a reunião dos dois primeiros, a responsabilidade só é excluída se o agente, em razão de doença mental ou retardamento mental, era, no momento da ação, incapaz de entendimento ético-jurídico e de autodeterminação. É importante salientar que o nosso código penal vigente adotou este último cri-tério. Outra questão é que o código adotou como responsabilidade penal o homo medius, o homem relativamente normal, ou o tipo comum do homem da sociedade. Não se trata de um tipo ideal, de um homem abstrato, mas de um padrão fixado segundo a média estatística (Hungria, 1949).
O método biopsicológico exige a averiguação da efetiva exis-tência de um nexo de causalidade entre o estado mental anômalo e o crime praticado, isto é, que este estado, contemporâneo à conduta, tenha privado parcial ou completamente o agente de qualquer das mencionadas capacidades psicológicas (seja a intelectiva ou a voli-tiva). Não basta diagnosticar apenas a doença mental, dependendo a responsabilidade do período ou grau de evolução da doença ou deficiência mental da estrutura psíquica do indivíduo e da natureza do crime. Dessa forma, deve o perito avaliar e investigar tanto os fatores criminogênicos (que motivaram o delito), como os criminodinâmicos (como se deu o delito). É indispensável o exame psiquiátrico pericial sempre que houver dúvidas em relação à sanidade mental do acusado. Entretanto cabe ao juiz a palavra final na decisão de aplicar ou não a pena. A conclusão positiva do laudo pericial não substitui a sentença judicial, que é soberana.
O entendimento e a determinação:
aspectos psicopatológicos e forenses
Na perspectiva jurídica, entender é a capacidade normal de apreensão intelectual das coisas, ou seja, a consciência que tem o ho-mem daquilo que é certo ou errado. Determinar se é a espontaneidade na inclinação ou tendência do sujeito que atua para, entre diversas opções, escolher aquela que o levará ao fim previsível, previsto e desejado. Com a finalidade de facilitar a compreensão dos termos entendimento e determinação, daremos algumas noções dos seus significados do ponto de vista psicopatológico. O entendimento de um fato tem sobretudo um componente cognitivo, havendo implicação de importantes funções psíquicas como a consciência, a inteligência e o juízo de realidade. Por sua vez, a vontade, enquanto atividade consciente e deliberada, tem íntimas conexões com outra função psíquica, a afetividade.
Para Cabaleiro Goas (1966) a consciência é a atividade que
nos permite apreender e captar todas as coisas do mundo externo, do nosso corpo e do psiquismo (mundo interno) de forma clara e nítida. A vigilância é a capacidade de se manter alerta. Certamente é a consciência uma função psíquica integradora das demais, envolvida com aspectos de captação e compreensão da realidade. A maioria dos estados anormais de consciência mostra uma diminuição desta.
Delgado (1969) afirma que as anormalidades da consciência têm considerável importância clínica, e sua classificação compreende os seguintes gêneros: estreitamento, entorpecimento e obnubilação. ● Estreitamento da consciência – compreende, exclusivamente, redução da amplitude do campo da consciência, de modo que o foco (porção mais clara da consciência) inclui um conteúdo apreciavelmente menor. Aqui se ligam os estados dissociativos histéricos.
● Embotamento ou entorpecimento da consciência – é a perda ou diminuição da lucidez da consciência; vale dizer da continuidade, am-plitude, intensidade e claridade da vivência, sem sintomas produtivos acessórios (delírios, alucinações, agitação, etc.). Aqui se perdem o foco da consciência, a lucidez e a vigilância. É observado nas síndromes confusionais simples e no traumatismo craniencefálico. As impressões exteriores são apreendidas só com o esforço da atenção, a qual dificil-mente se constitui e se mantém. No exame do paciente é necessário insistir com as perguntas para apreender o sentido das mesmas. A desorientação mais potente é a relativa ao tempo. Os sentimentos também se mostram sem diferenciação.
● Obnubilação ou turvação da consciência – presença de entor-pecimento associado a alterações do juízo da realidade e/ou fenô-menos anormais da sensório-percepção, ou seja, os aspectos da apreensão da realidade não só se debilitam ou se anulam, mas são substituídos por fenômenos mais ou menos incoerentes, até certo ponto variáveis com os fatores etiopatogênicos em jogo. Cabem aqui, pois, desde o delirium tremens relacionado ao alcoolismo até os estados crepusculares epilépticos.
Exemplo psiquiátrico-forense
J., sexo masculino, 47 anos, ensino fundamental completo, balconista, viúvo. J., Alcoolista desde os 27 anos, desenvolveu um quadro de delirium tremens, apresentando rebaixamento do nível de consciência, grande confusão mental, desorientação temporo-espacial e ilusões e alucinações visuais. Nesse dia, vê no rosto de sua esposa um espírito maligno e a agride com arma branca no tórax, causando a sua morte.
No momento do exame, realizado após seis meses, o peri-ciando apresentava consciência vígil, lucidez, estando globalmente orientado, sem quaisquer transtornos sensório-perceptivos.
Esse caso ilustra bem como funciona o critério biopsicológi-co. A doença mental (componente biológico), na forma de delirium tremens relacionado ao alcoolismo, representado por rebaixamento do nível de consciência, distorção perceptiva e do juízo de realidade e impulsividade patológica, trouxe a esse indivíduo uma incapacida-de incapacida-de entendimento e incapacida-determinação (componentes psicológicos). A motivação para o delito foi conseqüente à doença mental (nexo de causalidade). Portanto a perícia psiquiátrica concluiu nesse caso que o indivíduo em questão era inteiramente incapaz de entendimento e determinação (caput do art. 26 do CP).
ideativos, de forma oportuna e conveniente, na consecução de um propósito determinado. De acordo com Jaspers (1979), há a inteligência prática, que a cada momento sabe escolher o que é correto entre uma variedade de possibilidades e adaptar-se a novas tarefas; e a inteligência teórica, que é a capacidade que o indivíduo tem para julgar, pensar, dar sentido ao que é essencial, além da capacidade de abstrair (do particular para o geral e do geral para o particular). Exemplo psiquiátrico-forense
Ana, 35 anos, solteira, sem profissão.
Consta na acusação que a pericianda, de forma súbita, agre-diu um bebê com um CD de música numa loja comercial. Alegou que o motivo da agressão “é porque queria ter um bebê e não tinha”.
História de surdez até os 4 anos, demorou muito a falar, repetição de anos escolares, não conseguindo ir além da 4a série
do ensino fundamental. Freqüentou escolas especiais desde cedo, sempre com grande dificuldade de aprendizado.
Ao exame pueril e lábil, pensamento concreto, perseve-ração.
No exame psiquiátrico da pericianda estavam presentes sinais e sintomas de desenvolvimento mental retardado, como es-casso cabedal mental (conjunto de conhecimentos que o indivíduo tem acerca do mundo que o cerca), além de precária capacidade de abstração e simbolização mentais, pobreza ideativa e concretude do pensamento. Também foi registrada nesse exame grande dificuldade de realização de cálculos simples e de interpretação de provérbios populares, o que é indicativo de uma inteligência significativamente abaixo dos padrões de normalidade.
Não era a pericianda, à época dos fatos, capaz de ter crítica em relação à antijuridicidade de seus atos, deixando-se levar facil-mente por impulsos hostis em relação à criança (vítima), agredindo a mesma de forma despropositada e sem motivação compreensível.
Dentro do critério biopsicológico, apresentava a pericianda desenvolvimento mental retardado, grau moderado (componente biológico), que acarretou-lhe uma incapacidade de entendimento (deficiência de inteligência) e determinação (debilidade da vonta-de), havendo nexo de causalidade entre o desenvolvimento mental retardado e o delito. A perícia concluiu, nesse caso, que, em virtude de desenvolvimento mental retardado, era a pericianda, à época dos fatos, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito dos fatos ou de determinar-se de acordo com esse entendimento (caput do art. 26 do CP).
Uma outra função psíquica envolvida na compreensão da ilicitude de um fato é o juízo, definido como ato de consciência mediante o qual afirmamos ou negamos algo, e com que podemos definir se uma coisa é verdadeira ou falsa. O juízo é um fenômeno interno que postula relações e significações com referência à reali-dade externa e objetiva (Nobre de Melo, 1981). O homem adulto e normal pauta sua conduta pelos princípios que regem o pensamento reflexivo ou lógico, em consonância com a realidade objetiva. De acordo com Jaspers (1979), o delírio é um juízo falseado patologi-camente, indicando a presença de doença mental.
O delírio, alteração do juízo de realidade, é psicologicamente incompreensível para o homem normal, sem equivalentes nas nossas experiências psíquicas. São juízos acompanhados de certeza subje-tiva absoluta, de convicção interior, ininfluenciáveis psicologicamente, acompanhados de irredutibilidade e incorrigibilidade (não mudam com a argumentação lógica ou com dados objetivos da realidade).
Exemplo psiquiátrico-forense
J., sexo masculino, solteiro, 34 anos, semi-analfabeto, pedreiro.
Constava na denúncia que o periciando, no ano de 2002, ao estar andando no interior de um aeroporto, subitamente pegou uma criança de 5 anos de idade, carregando-a em seus braços. Diante da aproximação de policiais, pulou com a mesma de uma altura de cerca de 8 metros. A criança foi hospitalizada com fratura de membro inferior, tendo sobrevivido.
O periciando referiu que chegou em um aeroporto brasileiro proveniente de cidade da Europa. Afirma que deveria desembarcar em outra cidade do Brasil, não o fazendo por achar que no interior do avião existiam três homens que “queriam matá-lo” (sic). Diz ainda o periciando que, ao andar pelo aeroporto, avistou uma criança pequena (5 anos de idade) e resolveu carregá-la nos braços para se proteger dos seus perseguidores. Diante da aproximação de policiais, pulou com a mesma de uma altura de cerca de 8 metros. O periciando afirma que não tinha nenhuma intenção de machucar a criança.
Referiu uma internação psiquiátrica anterior, há cerca de três anos. Naquela ocasião acreditava que estava sendo perseguido, escu-tava vozes de homens que diziam que iam matá-lo (sic). Foi internado em hospital psiquiátrico e em seguida realizou acompanhamento am-bulatorial, não especificando qual a medicação utilizada. Interrompeu o tratamento um ano antes do delito pelo fato de ter ido morar com o irmão em cidade da Europa (sic). Começou a sentir-se perseguido novamente dois meses antes de retornar ao Brasil.
Durante o exame verbalizou que “tinha um carro que me esperava no lugar onde eu trabalhava diariamente... eram homens que queriam me matar... eles estavam dentro do avião que eu viajei”. No conteúdo do pensamento do periciando havia idéias delirantes primárias, com temas de perseguição e auto-referência. A aderência de sua personalidade à temática delirante era completa, desprovida de autocrítica.
Dentro do critério biopsicológico, apresentava esse indivíduo diagnóstico de esquizofrenia paranóide (componente biológico), que lhe acarretou uma incapacidade de entendimento e determinação em relação ao delito cometido (componente psicológico). Certamente a realização do delito de que foi acusado o periciando aconteceu por motivação delirante. Houve nexo direto de causalidade entre a doença mental e o delito. O periciando tomou a criança para si por acreditar que estaria se defendendo de uma ameaça grave de morte. Todo o seu comportamento, na ocasião do delito, estava ditado por essa grave alteração do juízo de realidade.
Conclui-se que o periciando exibia transtornos que tipificavam a rubrica substantivo-penal referida no artigo 26 do código penal como doença mental, na forma de esquizofrenia paranóide. Portanto o pare-cer da perícia foi que, à época dos fatos, era o periciando inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito dos fatos ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
A avaliação da vontade enquanto função psíquica é essencial para a investigação da capacidade de determinação na perícia psi-quiátrico-forense. No seu aspecto mais puro e ideal, a vontade está ligada à liberdade humana: “somente quando se vivencia, de alguma maneira, uma escolha e uma decisão, é que falamos de vontade, de ações do arbítrio” (Jaspers, 1979).
● a intenção ou o propósito, fase em que se esboçam as inclinações ou tendências de ação, havendo polarização de nossa atenção sobre determinado objeto;
● a deliberação, etapa que corresponde à ponderação consciente dos móveis e motivos acima mencionados, análise atenta do que é favorável ou desfavorável e que levará forçosamente a uma opção, isto é, fazer ou deixar de fazer alguma coisa;
● a decisão, momento culminante do processo volitivo, instante que demarca o começo da ação, mediante a inibição dos móveis e motivos vencidos;
● a execução, fase final, em que surgem os movimentos físicos requeridos para a consumação dos propósitos em pauta.
De acordo com Chalub (1981, 2004), são fenômenos volitivos: vontade, desejos, pulsões, instintos, tendências e inclinações. É óbvia a ligação de tais fenômenos com a capacidade de determinação. A avaliação do estado em que se encontram esses fenômenos em uma determinada pessoa, suas alterações quantitativas e qualitativas e o grau de normalidade será de extrema importância para um exame pericial. Animus significa a intenção consciente e deliberada de pra-ticar um ato. Intenção e animus, permitindo conhecer com razoável segurança as etapas de deliberação e decisão da vontade, são de real valor para a avaliação da capacidade de determinação. A delibe-ração é a determinação e a resolução da vontade individual. Indica o discorrer, considerar, premeditar no que se há de fazer, o resolver-se com advertência e consideração.
Para Hungria (1949), o momento volitivo da responsabilidade (determinação) é a capacidade de dirigir a conduta de acordo com o entendimento ético-jurídico. É a capacidade no sentido de uma força de vontade para resistir ao impulso para a ação e agir em conformi-dade com a consciência ético-jurídica geral. Em outras palavras, é a capacidade de resistência ou de inibição ao impulso criminoso. Exemplo psiquiátrico-forense
M., sexo feminino, 30 anos, casada, ensino médio incompleto, do lar.
Consta na denúncia que a pericianda adicionou aos alimentos que serviu ao filho, menor de 4 anos, substância conhecida como chumbinho, a qual foi ingerida pelo mesmo, causando a sua morte. Consta ainda que o delito foi praticado por vingança contra o pai da vítima, por problema de relacionamento.
A pericianda negou história de tratamento psiquiátrico ou psicológico antes dos fatos relatados na denúncia. Há relato de compor-tamento impulsivo desde a adolescência: “não aceitava provocações”, envolvendo-se em brigas. Histórico de diversas mudanças de emprego por se envolver em discussões com chefia, relacionamento conjugal tumultuado, com agressões físicas freqüentes e mútuas.
Ao exame apresentava idéias de conteúdo projetivo, respon-sabilizando a família do marido por seus atos, distorção de julgamento e hipobulia. Não estava presente nenhuma atividade delirante ou alucinatória em curso. Humor irritado e disfórico.
Foi diagnosticada nesse caso uma perturbação da saúde mental, na forma de transtorno de personalidade emocionalmente instável, do tipo impulsivo. Na décima edição da Classificação Internacional de Doenças (CID) (1993), são características deste transtorno: 1. tendência marcante a agir impulsivamente, sem consideração das conseqüências; 2. acessos de raiva intensa e explosão comportamental, levando a atos de violência; 3. falta de controle dos impulsos. Todas essas características estavam presentes no caso em questão. Dentro do critério biopsicológico, apresentava a pericianda uma perturbação da saúde mental, que afetou (diminuiu) sua capacidade de determinação, havendo nexo de causalidade entre esta perturbação da saúde mental e o delito. Entretanto não houve, à época dos fatos, abolição do entendimento ou da determinação. Não apresentou a pericianda perturbação da consciência ou quadro psicótico. Em virtude disso, foi considerada semi-imputável (parágrafo único do art. 26 do CP).
Conclusão
A avaliação psiquiátrico-forense da responsabilidade penal é realizada com base na análise da capacidade de entendimento e determinação. Por sua vez, a avaliação desses aspectos envolve o estudo cuidadoso dos autos do processo, de antecedentes pessoais, familiares e psicossociais do periciando, além do exame psicopatológico. Este último implica o conhecimento da psicopa-tologia e exploração minuciosa de todas as funções psíquicas do indivíduo durante a entrevista psiquiátrica, como consciência, juízo de realidade, sensório-percepção, inteligência, afetividade e vontade. Sem dúvida, o exame psicopatológico constitui peça fundamental na avaliação da responsabilidade penal.
Referências
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