Texto Complementar da Disciplina
Estética e História das Artes
. 2008.2. Unipê. Professora: Ana Laura RosasMoMA (re)descobre a América Latina
---Por Ana Letícia Fialho. Fonte: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2386,1.shl Mostra apresenta museu como precursor do reconhecimento da arte latino-americana ”MoMA at El Museo: Latin American and Caribbean Art from the collection of the Museum of Modern Art”, em cartaz até o fim de julho no Museo del Barrio, em Nova York, se propõe a desvendar os mistérios de uma coleção que ficou mais de 40 anos no anonimato. A idéia central da exposição, na qual insistem os organizadores, é apresentar o MoMA como o precursor mundial no reconhecimento da arte da América Latina e do Caribe. Infelizmente, a exposição acaba sendo a prova de que o grande templo da arte moderna passou ao largo de boa parte do que se produziu em termos artísticos ao Sul do continente americano. As 158 obras, selecionadas entre mais de 2.000 objetos, em nada refletem a riqueza e o interesse da produção artística latino-americana. Do ponto de vista estético, a exposição é decepcionante, embora inclua artistas excelentes.O projeto conceitual parte de outra premissa, igualmente questionável: a própria existência de uma “coleção de arte latino-americana”. O fato é que tal “coleção” é uma ficção, ou era, até recentemente. O conjunto de objetos, acumulados desde os anos 30, não permite qualquer analogia aos diversos movimentos artísticos e, muito menos, possibilitam a reconstituição de uma história da arte latino-americana.
Invisível, dispersa em vários departamentos, esquecida nas reservas, pouco estudada e menos ainda exposta, a “coleção” fora vista pela última vez em “Latin American Art 1931-1966”, mostra organizada por Alfred H. Barr, diretor-fundador de MoMA, em 1967.
Vale lembrar que a organização estrutural do museu é fundada num modelo que atende aos ideais de uma história da arte moderna, no qual devem prevalecer os valores estéticos “universais”. Nela, uma coleção de arte latino-americana -organizada segundo critérios geopolíticos- não pode existir, pelo menos não formalmente. No MoMA, as competências dos curadores e a organização/classificação dos objetos se dividem em categorias bem definidas e tradicionais: departamentos de escultura, de pintura, de desenho, de gravura. Nesse contexto, os agentes do museu, em sua maioria, parecem não ter reconhecido na arte produzida na América Latina os altos valores estéticos que buscavam integrar em suas coleções. Houve, entretanto, alguns períodos e sobretudo personagens de exceção; e é justamente sobre eles que a curadoria se apóia na tentativa de justificar as muitas lacunas e de dar certa coerência ao conjunto de obras díspares. É na reconstituição histórica dos momentos de maior dinâmica nas políticas de aquisição de obras provenientes da América Latina e do Caribe -apresentada em quatro segmentos- que reside o maior interesse da mostra, ainda que se possa questionar a interpretação dos fatos proposta pela curadoria. Anos 30. Abby Aldrich Rockefeller, uma das fundadoras do Museu de Arte Moderna, doa, em 1935 1, uma série de trabalhos de Orozco, Siqueiros e Rivera (Artistas do
Movimento Muralista Mexicano)*, iniciando assim o que hoje se apresenta como “a coleção latino-americana”. O museu logo adquire outras obras de artistas mexicanos e de outros países da América Latina. Destaque para o conjunto de aquarelas que Diego Rivera
produziu sobre Moscou (“My day, Moscow”, 1928) e “Suicídio coletivo” (1936), de Siqueiros. Não havia, entretanto, uma coleção à parte, simplesmente o desejo de Alfred Barr de formar uma coleção de arte moderna internacional 2, engajada em o seu tempo.
* - Como manifestação genuinamente nacional, o muralismo mexicano conseguiu produzir profundo impacto no panorama pictórico mundial. As primeiras obras remontam a 1910, ano em que Gerardo Murillo, conhecido como Doutor Atl, e vários estudantes da Academia de São Carlos organizaram uma exposição de arte e se propuseram decorar com murais o anfiteatro da Escola Preparatória, na Cidade do México. Ao deflagrar-se a revolução, o projeto foi interrompido, mas as bases do movimento artístico já tinham sido assentadas. Trata-se de uma arte monumental e política, elaborada por artistas combativos, e aberta a todo o povo. Seus cultores pretendiam também revalorizar a cultura pré-hispânica. Essas idéias foram expostas num manifesto redigido em 1921 pelo pintor David Alfaro Siqueiros.
Deuses do mundo moderno. Clemente Orozco. 1932. Parte do Mural da Biblioteca da Universiddae de Dartmouth , Hanover, New Hampshire.
Meu dia de procissão em Moscou. Diego Rivera. 1956.
com a criação/reconhecimento a posteriori de uma categoria (arte-latino americana), auto-promove-se, apresentando-se como precursora mundial, “a primeira instituição de
proeminência internacional a dar atenção e recursos à America Latina…”, segundo a ênfase do diretor do Museo del Barrio, Julian Zagazagoitia, no catálogo.
Mas, na França, o Museu de Grenoble adquiriu obras de Rego Monteiro (“O Combate” ou “Os Boxeadores”, 1927) e de Tarsila do Amaral (“A Cuca”, 1924) em 1928 e 1926, respectivamente, ou seja, antes mesmo do MoMA ser criado.
Anos 40. O aspecto mais interessante desse período são as relações entre arte e política. O MoMA, com a anuência de seus dirigentes, serviu de base para projetos diplomáticos. Como parte das estratégias de controle ideológico durante a guerra, o governo federal nomeou um agente que, em nome do museu, viajou pelo continente não somente fazendo aquisições, mas também enviando relatórios sobre a vida política e social dos países visitados. No mesmo contexto foi fundado o Fundo Interamericano, anonimamente financiado por Nelson Rockfeller, o que permitiu ao museu a aquisição de grande número de obras, além da realização de exposições dedicadas a artistas latino-americanos.
Durante esse período entram para coleção dos brasileiros Candido Portinari (“The Hill”, 1933), Alberto da Veiga Guignard, da barsileira Maria Martins (“O Impossível III”, 1946), do Uruguaio Torres-García, da mexicana Frida Kahlo (“Auto-retrato com cabelo cortado”, 1940), o cubano Wilfredo Lam, do chileno Roberto Matta, entre outros. Apesar da excelência de alguns artistas desse período, suas obras foram poucas vezes expostas, a maioria tendo sido guardada nas reservas após a aquisição3. Passada a guerra, as atenções
foram desviadas da América Latina.
“O Combate” ou “Os Boxeadores. Vicente do Rego Menteiro. 1927.
O Mestiço. Candido Portinari. 1934.
Fantasia. Guinard. 1960.
Oitavo Véu. Maria Martins. 1948.
Década de 60. Período de renovação do “interesse” do museu pela América Latina. É também o momento em que o governo americano, como parte da batalha anti-comunista, cria a Aliança para o Progresso, programa internacional de patrulha ideológica camuflado de programa de cooperação ao desenvolvimento econômico, social e cultural. Aumenta o número de exposições dedicadas à América Latina. O Fundo Interamericano retoma fôlego, e assim obras da alemã , com nacionalidade venezuelana Gego (Gertrude Goldschmidt)
(“Sphere”, 1959), do argentino Julio Le Parc, dos venezuelanos Jesus Soto e Cruz-Diez entram para a coleção do museu, constituindo, de certa forma, um conjunto de qualidade, embora bastante incompleto, de arte construtiva.
Auto retrato com macaco.Frida Khalo. 1938.
Maternidad en verde. Wilfredo lam. 1942.
Sphere. Gego. 1959.
Triangles sur réticules.Julio Le Parc . 1958.
L. Johnson - viajam pelo continente e fazem aquisições para o museu. O projeto de se constituir um núcleo especializado em América Latina, proposto por Johnson, acaba sendo indeferido por “falta de verbas”.
Aquisições recentes. O último módulo, cujo foco é a arte contemporânea, apresenta alguns nomes de alcance internacional: o colombiano Doris Salcedo (“Untitled”, 1995), do cubano
Felix Gonzalez-Torres (“Untitled”, “Perfect Lovers”, 1991), dos brasileiros Vik Muniz e Cildo Meireles (“Thread”, 1990-95), Los Carpinteros (Marco Castillo and Dagoberto Rodriguez) (“Coal Oven”, 1998), Ana Mendieta (“Nile born”, 1984), Waltércio Caldas (“Mirror of light”, 1974), do brasileiro Hélio Oiticica. Observa-se, entretanto, que, como nos módulos precedentes, boa parte das obras foi incorporada à coleção através de doações de colecionadores, de fundações e de artistas, e confinada nas reservas: “Muitas das peças nunca foram vistas antes, e proximamente muitas voltarão às reservas, onde não poderão mais ser vistas”, declarou o diretor do Museo del Barrio ao jornal “Daily News”4.
Mona Lisa de Botero. Botero. 1977
Instalação para a Bienal de Istambul. Salcedo. 2007
“Untitled” (Strange Bird), Felix Gonzalez-Torres. 1994
After Wahrol series: Double Mona Lisa, Peanut Butter and Jelly, 1999, Vik Muniz.
INSERÇÕES EM CIRCUITOS IDEOLÓGICOS: 1. PROJETO "COCA-COLA", Cildo Meireles. 1970
É evidente, em todos os segmentos, que o MoMA nunca foi movido pelo simples desejo de promover a arte pela arte. Se houve momentos de maior interesse pela produção latino-americana e caribenha, foi pela confluência de determinantes gerais (interesses políticos, econômicos e sociais) e determinantes específicas (trajetórias e interesses de determinados agentes: curadores, colecionadores, mecenas).
Na fase atual de redinamização da coleção de arte latino-americana, tem fundamental sido a influência de Patrícia Cisneros. Graças a ela, a coleção tem tomado novos rumos. Além de doações diretas, a colecionadora venezuelana financia diversos projetos. Foi graças a seu lobby que se estabeleceu o cargo de curador-adjunto, reservado a curadores
latino-americanos. A posição foi ocupada primeiramente por Paulo Herkenhoff, substituído agora pelo venezuelano Luis Perez-Oramas, também consultor da Fundação Cisneros.
O museu acaba de inaugurar uma biblioteca dedicada à arte latino-americana e,
recentemente, passou a integrar, no seu quadro funcional, especialistas na matéria, como é o caso do Miriam Basilio, curadora-assistente, responsável por grande parte da rigorosa pesquisa sobre a história do MoMA, suas relações com a América Latina, suas políticas de aquisição e de exposição, assim como sobre a história específica das exposições de arte latino-americana nos Estados Unidos cujos resultados estão apresentados no catálogo da exposição.
Nile Born, Ana Mendieta. 1984
Mirror of Light. Waltércio Caldas.197?
Existe um fundo para financiar viagens de curadores do museu à América Latina e outros programas na área de arte-educação, formação para curadores, circulação de exposições. Três publicações estão sendo organizadas e deverão contemplar textos de críticos latino-americanos (uma delas dedicada a Mario Pedrosa).
Tantas iniciativas podem indicar uma certa abertura da instituição a novos horizontes artísticos e resultar, quem sabe, numa revalorização da arte latino-americana, como desejam seus defensores (entre eles alguns agentes do museu).
Entretanto, a idéia da existência de uma “coleção latino-americana” à parte significa que esta ainda não alcançou status suficiente no interior do MoMA, que, no caso da exposição, optou por uma parceria com o Museo del Barrio, instituição interessante, mas ainda marginal, no circuito nova-iorquino. A predominância de obras sobre papel indica uma economia nos investimentos.
E, considerando a moda da valorização das singularidades culturais nos circuitos da arte nos últimos anos e o fato de que os latinos se tornaram a maior minoria dos Estados Unidos, pode ser que o museu esteja simplesmente dando mostras de um certo oportunismo. O tempo dirá. Certo é que esse súbito interesse pela América Latina não é gratuito -como nada, aliás, no âmbito das artes.
Ana Letícia Fialho
É critica independente, pesquisadora especialista em inserção da arte brasileira e latino-americana nos circuitos internacionais, doutoranda na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris (Bolsa Capes).
1 - Na época, a família Rockefeller já tinha interesses na América Latina.
2 - No arrojado projeto de Barr, as obras mais antigas deveriam passar ao Metropolitam Museum e ser substituídas por obras mais contemporâneas.
3 - “La jungle”, obra de Lam, de 1943, foi uma das poucas exceções, exposta de forma permanente por muitos anos.
4 - “Daily News”, domingo, 14 de março de 2004.
Indicação de Leitura e Pesquisa complementar no Livro
(Disponível na Biblioteca do Unipê):
• Dawn Ades. Arte na América Latina. Capítulo 7. O Movimento Muralista Americano. Capítulo 9. Nativismo e Realismo Social.
Capítulo 10. Universos Particulares e Mitos manifestos.