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ECLI:PT:TRC:2005: B8

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ECLI:PT:TRC:2005:3714.04.B8

http://jurisprudencia.csm.org.pt/ecli/ECLI:PT:TRC:2005:3714.04.B8

Relator Nº do Documento

Távora Vitor

Apenso Data do Acordão

18/01/2005

Data de decisão sumária Votação

unanimidade

Tribunal de recurso Processo de recurso

Tribunal Judicial De Aveiro - 3º Juízo

Data Recurso

Referência de processo de recurso Nivel de acesso Público

Meio Processual Decisão

Agravo revogada

Indicações eventuais Área Temática

Referencias Internacionais

Jurisprudência Nacional

Legislação Comunitária

Legislação Estrangeira

Descritores

injunção; erro na forma do processo;

(2)

Sumário:

1.O processo de injunção aplica-se em duas situa-ções: i) as referidas no artigo 1º do Diploma Preambular ao DL 269/98 de 1 de Setembro; acções que se destinam “a exigir o cumprimento de obri-gações pecuniárias emergentes de contratos de valor não supe-rior à alçada do tribunal de 1ª instância; ii) as emergentes de transacções comerciais abrangi-das pelo DL 32/03, de 17 de Fevereiro.

2.À luz do artigo 3º alí-nea a) do DL 32/03; “tran-sacção comercial” é qualquer transacção entre empresas ou entre empresas e entidades públicas, qual-quer que seja a respectiva natureza, forma ou designa-ção, que dê origem ao fornecimento de mercadorias ou à prestação de serviços contra uma remu-neração;

3.Acresce que a alínea b) do artigo supracitado refere que “Empresa” é qualquer organização que desen-volva uma actividade económica ou profissional autó-noma, mesmo que exercida por pessoa singular.

4.Basta para a identificação do comerciante indi-vidual a adopção de um firma, composta pelo seu nome, completo ou abreviado; o aditamento de qualquer outra expressão é uma simples faculdade que a lei lhe con-fere.

5.Pretendendo implementar um processo célere de cobrança de dívidas, a Lei dispensa à partida a alega-ção de factos que pudessem garantir sem margem para dúvida estar-se em face de um acto bilateralmente comercial provando serem comerciantes ambos os interve-nientes contratuais;

o Legislador con-tenta-se aqui, de certo modo, com uma primeira aparência.

6.Basta assim para o seguimento do processo de injunção com base em transacções comerciais, que se a menção do nome do requerido e o esclarecimento de que a empresa que do mesmo pretende cobrar uma dívida o faz em virtude de uma transacção comercial.

7.Todavia sendo contestada a acção, poderá o Réu então opor-se Autor invocando desde logo a excepção da nulidade por erro de processo ao abrigo do disposto no artigo 3º nº 1 do DL 269/98 de 1 de Setembro.

Decisão Integral:

Acordam na secção cível do Tribunal da Relação de Coimbra.

A... veio intentar contra B..., residente em Amajeira, Lagos, injunção para pagamento da quantia de € 13.581,55.

O Sr. Juiz por despacho de fls. 13 ss declarou a nulidade de todo o processo, e nos termos do precei-tuado no artigo 288º nº 1 alínea b) do Código de Pro-cesso Civil, absolveu o Réu da instância.

Daí o presente recurso de agravo interposto pelo requerente, o qual no termo da sua alegação pediu que se revogue o despacho agravado.

Foram para tanto apresentadas as seguintes, Conclusões.

1) A sentença posta em crise nestes autos violou o disposto nos artigos 7º, 10º, 11º, 16º, 17º e 18º do Decreto-Lei nº 269/98 de 1 de Setembro, bem assim como o disposto nos artigos 3º e 8º do Decreto-Lei nº 32/2003 de 17 de Fevereiro.

2) A sentença ora recorrida também violou o dis-posto nos artigos 199º e 288º, nº 1 do C.P.C.,

(3)

pois ine-xiste qualquer erro na forma de processo e, conse-quen-temente, nunca poderá haver lugar à absolvição do Réu da instância.

3) No requerimento de injunção dos autos, a aqui Recorrente peticionou o pagamento de uma quantia emer-gente de uma transacção comercial, colocando, para tanto, a correspondente menção a que alude a alínea g) do nº 2 do artigo 10º do DL nº 269/98 de 1 de Setem-bro.

4) Andou mal o Mmo. Juiz a quo ao sentenciar que “ no caso dos autos, sendo o Réu uma pessoa singular é evidente que a obrigação – o cumprimento que se reclama não é emergente de

transacções comerciais abrangido pelo Decreto-Lei nº 32/2003”.

5) Assim, por o R. ser pessoa singular dotada de organização comercial que explora (ou

explorava) uma actividade económica autónoma, exercida pelo próprio, a forma de processo de injunção é manifestamente adequada à pretensão dos autos, que deveriam ter prosseguido ulteriores termos após a distribuição.

6) O regime das injunções apenas obriga a que o respectivo requerimento identifique as partes e classi-fique a obrigação peticionada: não obriga à apresenta-ção de qualquer prova sobre a qualidade das partes ou, sequer, da própria obrigação.

7) Aliás, nenhum esclarecimento foi solicitado pelo Mmo. Juiz a quo quanto a este ou qualquer outro aspecto da relação jurídica em causa.

8) Tão pouco se concede que “as diferenças entre o requerimento inicial do processo de injunção e a petição inicial no processo declarativo comum são de tal forma que aquele não se pode

converter nesta”: no caso sub judice, por exemplo, o requeri-mento de injunção “converteu-se” em processo declara-tivo comum sob a forma sumária.

9) Do exposto se conclui que o requerimento de injunção foi devida e atempadamente apresentado, não enfermando a sua propositura de quaisquer vícios.

10) É justa e adequada a forma de processo esco-lhida pela Recorrente, como é legítimo que seja aceite o pedido formulado em 1ª Instância, por não se verificar aqui a existência de qualquer nulidade.

Não houve contra-alegações.

Cabe decidir.

+

2. FUNDAMENTOS.

+

2.1. Factos Provados.

+

Os factos que interessam à decisão da causa cons-tam já do Relatório e do Despacho agravado.

Assim, não tendo sido impugnada a matéria de facto nem havendo tão pouco qualquer alteração a fazer-lhe, nos termos do preceituado no artº 713º nº 6 do Código de Processo Civil, dá-se aqui a mesma por reproduzida.

+

2.2. O Direito.

+

Nos termos do precei-tuado nos artsº 660º nº 2, 684º nº 3 e 690º nº 1 do Código de Pro-cesso Civil e sem prejuízo das questões cujo conhecimento oficioso se imponha, as conclusões da alegação de recurso deli-mitam os poderes de cognição deste Tribunal. Nesta conformi-dade e conside-rando também a natureza jurídica da maté-ria versada, cumpre focar os seguintes pontos:

(4)

- Verifica-se erro na forma de processo?

+

2.2.1. Verifica-se erro na forma de processo?

+

Entendeu o Sr. Juiz que o processo de injunção não é aplicável no caso sub iudice, já que, por um lado, o pedido ultrapassa o valor máximo permitido no artigo 1º do Diploma Preambular ao DL 269/98 de 1 de Setembro; por outro lado, o negócio subjacente ao crédito não é uma transacção comercial abrangida pelo DL 32/2003, dado que nele não têm intervenção só empresas ou empre- sas e entidades públicas.

Vejamos.

Estatui o artigo 7º do Regime dos Procedimentos a que se reporta o Diploma Preambular ao DL 269/98 de 1 de Setembro “Considera-se injunção a providência que tem por fim conferir força executiva a requerimento destinado a exigir o cumprimento das obrigações a que se refere o artigo 1º do diploma preambular, ou das obrigações emergentes de transacções comerciais abran-gidas pelo DL 32/03, de 17 de Fevereiro”.

Daqui se infere que o processo de injunção aplica-se em duas situações:

- As referidas no artigo 1º do Diploma Preambular; e

- As emergentes de transacções comerciais abrangi-das pelo DL 32/02.

As acções a que se refere o primeiro grupo são as que se destinam “a exigir o cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes de contratos de valor não supe-rior à alçada do tribunal de 1ª instância”.

Por seu turno ao 2º grupo de acções refere-se o artigo 7º do DL 269/98; Para efeitos do diploma em causa, as obrigações emergentes de transacções comer-ciais são as abrangidas pelo DL 32/03 de 17 de Feve-reiro.

Está fora de causa que a importância que está em jogo neste processo – € 13.581,55 – é superior à alçada do Tribunal de 1ª instância.

No entanto a agravante pretende fazer valer a sua tese contra o agravado, fundamentada na interpretação que faz do artigo 3º alí-nea a) do DL 32/03; «Transacção comercial» é qualquer

transacção entre empresas ou entre empresas e entidades públicas, qualquer que seja a respectiva natureza, forma ou designação, que dê ori-gem ao fornecimento de mercadorias ou à prestação de serviços contra uma remu-neração;

Acresce que a alínea b) do artigo supracitado refere que «Empresa» é qualquer organização que desen-volva uma actividade económica ou profissional autó-noma, mesmo que exercida por pessoa singular”.

Ora no caso concreto, sendo o valor do crédito supe-rior à alçada do Tribunal de 1ª instância, a única via de seguimento do processo de injunção seria real-mente a que é facultada pelo DL 32/03 de 17 de Feve-reiro; só que de harmonia com o que deixámos dito, a lei exige que estejam em presença como partes empresas ou empresas e entidades públicas. Assim, caso chegásse-mos à conclusão que o agravado interveio no processo na qualidade pessoa individual o processo de injunção não poderia ter seguimento por ser inadequada a respec-tiva forma Não se pretende com isto sustentar que a empresa não pode ser exercida em nome individual, como resulta claramente do artigo 230º do Código Comercial; todavia em tal caso deveria ter sido precisado logo no

requerimento inicial.. É bem certo que o requerido figura na PI apenas com o seu nome próprio sem qualquer outra men-ção; no entanto nada mais lhe é exigido para o exercí-cio do comércio

individual à luz do que estatui hoje o artigo 38º do Regime do Registo Nacional de Pessoas

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colectivas que apesar da respectiva inserção regula-menta para os comerciantes em nome

individual que " 1 – O comerciante individual deve adoptar uma só firma, composta pelo seu nome, completo ou abreviado, conforme seja necessário para identificação da pessoa, podendo aditar-lhe alcu-nha ou expressão alusiva à actividade exercida.

2 – O comerciante individual pode ainda aditar à sua firma a indicação «Sucessor de» ou «Herdeiro de» e a firma do estabelecimento que tenha adquirido.

3 – O nome do comerciante individual não pode ser antecedido de quaisquer expressões ou siglas, salvo as correspondentes a títulos académicos, profissionais ou nobiliárquicos a que tenha direito, e a sua abreviação não pode reduzir-se a um só vocábulo, a menos que a adição efectuada o torne completamente individualiza-dor.

4 – Os comerciantes individuais que não usem como firma apenas o seu nome completo ou abreviado têm direito ao uso exclusivo da sua firma desde a data do registo definitivo na conservatória competente e no âmbito da competência territorial desta.

5 – Os comerciantes individuais que exerçam activi-dades para além da circunscrição referida no número anterior e aditem ao seu nome expressão distin-tiva alusiva ao objecto do seu comércio podem ter direito ao uso exclusivo da firma em todo o território nacional, se pelo director-geral dos Registos e do Notariado lhes for deferida a correspondente solicita-ção".

Do exposto já se conclui que a lei actual à seme-lhança do que sucedia já na vigência do Código Comer-cial – artigo 20º - não exige para estarmos face a um comerciante em nome individual, a introdução de qual-quer sinal distintivo a acrescer ao seu nome pessoal; trata-se de uma mera opção que o comerciante pode uti-lizar ou não conforme lhe convenha.

A inexistência do sinal indicativo de se estar perante uma empresa ou comerciante em nome individual não significa por si só que o mesmo tenha que ser uma pessoa singular. Mas por outro lado vem alegado pela agravante estarmos perante dívida resultante de tran-sacção comercial – cfr.

cabeçalho da PI mau grado este informe estar quase todo tapado pela vinheta da distri-buição do processo. É bem verdade que pelo facto de uma sociedade comercial vender bens a um

consumidor não torna este ipso facto um comerciante; todavia a palavra transacção comercial inserta na PI é abrangente preten-dendo-se, quando utilizada, plasmar o conceito expen-dido nas alíneas a) e b) do artigo 3º da Lei nº 32/03. Compreende-se que pretendendo implementar um processo célere de cobrança de dívidas, a Lei pretendesse dis-pensar à partida a alegação de factos que pudessem garantir sem margem para dúvida estar-se em face de um acto bilateralmente comercial provando serem comercian-tes ambos os intervenientes contratuais; de certo modo o Legislador contenta-se com uma primeira aparência. Todavia sendo contestada a acção poderá o Réu então opor-se à pretensão do Autor invocando desde logo a excepção da nuli-dade por erro de processo ao abrigo do disposto no artigo 3º nº 1 do DL 269/98 de 1 de Setem-bro.

Nesta conformidade teremos de concluir que aquela primeira aparência está garantida, o que assegura a continuação da lide.

Pode pois concluir-se o seguinte:

1) O processo de injunção aplica-se em duas situa-ções:

- As referidas no artigo 1º do Diploma Preambular; acções que se destinam “a exigir o

cumprimento de obri-gações pecuniárias emergentes de contratos de valor não supe-rior à alçada do tribunal de 1ª instância

- As emergentes de transacções comerciais abrangi-das pelo DL 32/02.

(6)

2) À luz do artigo 3º alí-nea a) do DL 32/03; «Tran-sacção comercial» é qualquer transacção entre empresas ou entre empresas e entidades públicas, qual-quer que seja a respectiva natureza, forma ou designa-ção, que dê origem ao fornecimento de mercadorias ou à prestação de serviços contra uma remu-neração;

3) Acresce que a alínea b) do artigo supracitado refere que «Empresa» é qualquer organização que desen-volva uma actividade económica ou profissional autó-noma, mesmo que exercida por pessoa singular”.

4) Basta para a identificação do comerciante indi-vidual a adopção de um firma, composta pelo seu nome, completo ou abreviado; o aditamento de qualquer outra expressão é uma simples faculdade que a lei lhe con-fere.

5) Pretendendo implementar um processo célere de cobrança de dívidas, a Lei dispensa à partida a alega-ção de factos que pudessem garantir sem margem para dúvida estar-se em face de um acto bilateralmente comercial provando serem comerciantes ambos os interve-nientes contratuais;

o Legislador con-tenta-se aqui, de certo modo, com uma primeira aparência.

6) Basta assim para o seguimento do processo de injunção com base em transacções comerciais, que se a menção do nome do requerido e o esclarecimento de que a empresa que do mesmo pretende cobrar uma dívida o faz em virtude de uma transacção comercial.

7) Todavia sendo contestada a acção, poderá o Réu então opor-se Autor invocando desde logo a excepção da nulidade por erro de processo ao abrigo do disposto no artigo 3º nº 1 do DL 269/98 de 1 de Setembro.

*

3. DECISÃO.

+

Pelo exposto acorda-se em conceder provimento ao agravo e assim revogando o despacho em crise determina-se a substituição do mesmo por outro que entenda conve-niente no

prosseguimento dos ulteriores termos proces-suais.

Sem custas.

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