UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE DIREITO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO MESTRADO
ALEXANDRE FERNANDES SILVA
CONSTITUCIONALISMO FRACTAL: COSMOPOLÍTICA E JUSTIÇA DIACRÔNICA INTERESPÉCIES
CUIABÁ 2018
ALEXANDRE FERNANDES SILVA
CONSTITUCIONALISMO FRACTAL: COSMOPOLÍTICA E JUSTIÇA DIACRÔNICA INTERESPÉCIES
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Mato Grosso como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Direito.
Orientador: Professor Doutor Patryck de Araújo Ayala
CUIABÁ 2018
Ficha catalográfica elaborada automaticamente de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
Permitida a reprodução parcial ou total, desde que citada a fonte.
F363c Silva, Alexandre Fernandes.
Constitucionalismo fractal : Cosmopolítica e justiça diacrônica interespécies / Alexandre Fernandes Silva. -- 2018
213 f. ; 30 cm.
Orientador: Patryck de Araújo Ayala.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Mato Grosso, Faculdade de Direito, Programa de Pós-Graduação em Direito Agroambiental, Cuiabá, 2018.
Inclui bibliografia.
1. Constitucionalismo fractal. 2. Virada cosmopolítica. 3. Justiça diacrônica interespécies. I. Título.
RESUMO
A dissertação procura investigar, sob um enfoque predominantemente teórico-jurídico da pesquisa monográfica, documental e bibliográfica, quais os possíveis reenquadramentos da cena do constitucionalismo, tendo em conta que os padrões valorativos estabelecidos pelo movimento constitucionalista, tencionados à proteção de determinada comunidade política e filosófica, apresentam, contemporaneamente, fraturas e lacunas não apenas em sua estrutura cosmopolítica, mas também na composição diacrônica (interespécie) dos sujeitos da justiça. Mediado por um sincretismo teórico, buscar-se-á desenvolver uma hipótese de leitura performática que, desestabilizando suas partículas centrais, reoriente o eixo condutor do assim denominado constitucionalismo fractal. Em uma primeira análise, intenta-se alinhavar expedientes especulativos que consigam, ao lado de remodelar o potencial mal- estar sofrido pela modernidade, arrebatada pelos processos de globalizações, ofertar caminhos que realinhem a estrutura operacional constitucional. Em segundo plano, esquadrinham-se as dificuldades diacrônicas ostentadas na comunidade moral acoplada ao projeto político do constitucionalismo, cujas ausências desnudam um distanciamento temporal e espacial de (não) sujeito, enturvando as fronteiras da justiça e demandando um alargamento do círculo moral interespécies. Por fim, objetiva-se reconstruir, parcialmente, esse cenário fragmentado por meio de um horizonte valorativo que, espelhando-se em pontuais experiências homólogas, favoreça um novo enquadramento, em contínuo aperfeiçoamento, para a moldura do constitucionalismo, aplicando-se, episodicamente, tal chave de leitura no paradigma da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
PALAVRAS-CHAVE: Constitucionalismo fractal. Virada cosmopolítica. Justiça diacrônica interespécies.
ABSTRACT
This dissertation seeks to investigate, under a predominantly juridical and theorical approach of the monographic, documentary and bibliographical research, which are the possible reframing’s of the constitutionalism’s scene, considering that the standards established by the constitutionalist movement, programed for the protection of a certain political and philosophical community, presents, nowadays, fractures and gaps not only in their cosmopolitan structure, but also in the diachronic (interspecies) composition of the subjects of justice.
Mediated by a theoretical syncretism, it will be developed a hypothesis of a performative reading that, destabilizing its central particles, redirects the driving axis of the so-called fractal constitutionalism. Foremost, we seek to attach speculative expedients that, along with remodeling the potential malaise of modernity, assaulted by the processes of globalizations, offers paths that realign the constitutional operational structure. Furthermore, we outline the diachronic difficulties of the moral community inserted in the political project of constitutionalism, whose absences demonstrate a temporal and spatial distance from (non) subjects, overshadowing the frontiers of justice and demanding an expansion of the interspecies moral circle. Lastly, we aim to partially rebuild this fragmented scenario through an evaluative horizon that, inspiring itself in homologous experiences, favors a new framework, in continuous improvement, for the frame of constitutionalism, applying, episodically, such key of reading on the paradigm of the Constitution of the Federative Republic of Brazil of 1988.
KEYWORDS: Fractal constitutionalism. Cosmopolitical turn. Diachronic interspecies justice.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 9
1 O QUARTO GOLPE NARCÍSICO: MAL-ESTAR ESTRUTURAL NO PARADIGMA DO CONSTITUCIONALISMO ... 12
1.1 (DES)CAMINHOS DA MODERNIDADE: O DIAGNÓSTICO DE UM MAL- ESTAR ... 14
1.1.1 Riscos Reflexivos: Deliberação Consensual na Esfera Pública Pós-Política ... 17
1.1.2 Pós-modernismo: Desconstrução e Ocaso das Metanarrativas ... 24
1.1.3 Reconstruções da Modernidade: Um Projeto Agonista Inacabado ... 28
1.2 CONSTITUCIONALISMO EM TRANSIÇÃO: ITINERÁRIOS DE UM PORVIR ... 31
1.2.1 Constitucionalismo Normativista: Um Salto Performativo em Direção ao Localismo Globalizado ... 33
1.2.1.1 Modelo global de direitos constitucionais ... 34
1.2.1.2 A dimensão global do Constitucionalismo Multinível ... 38
1.2.2 Constitucionalismo Essencialista: Descrições Superlativas sobre o Estado ... 40
1.2.2.1 A roupagem nacionalista do constitucionalismo ... 40
1.2.2.2 Miragem sistêmica sobre os fragmentos constitucionais ... 43
1.2.3 Constitucionalismo Simbiótico: Hibridações e Balanceamentos ... 45
1.2.3.1 Constitucionalismo compensatório ... 45
1.2.3.2 O transconstitucionalismo ... 47
1.2.4 Constitucionalismo Setorial: Margens Valorativas e Imaginativas ... 49
1.2.4.1 Constitucionalismo ambiental ... 50
1.2.4.2 O assim denominado novo constitucionalismo latino-americano ... 53
2 JUSTIÇA DIACRÔNICA E A SALA DE ESPERA DO CONSTITUCIONALISMO ... 60
2.1 A HORA DOS ANIMAIS: OBSTÁCULOS E TENSÕES NO TRAJETO RUMO
AO ENFRENTAMENTO DO ESPECISMO ... 65
2.1.1 A Condição Moral dos Animais Não-Humanos ... 69
2.1.1.1 A libertação animal nas fronteiras da senciência utilitarista ... 69
2.1.1.2 Direitos morais não-humanos: uma urgente questão de justiça ... 72
2.1.2 Controvérsias Jurídicas sobre o Estatuto dos Animais ... 75
2.1.2.1 Delineando as linhas da autonomia prática por meio da estratégia gradativa... 76
2.1.2.2 Remédios transformativos e as trovoadas do abolicionismo animal .... 79
2.1.3 Teoria Política dos Direitos dos Animais ... 81
2.2 DISRUPÇÕES ECOLÓGICAS NA ERA DO ANTROPOCENO: PERSPECTIVAS CRÍTICAS DENTRO E FORA DA MODERNIDADE ... 83
2.2.1 Um Apelo às Perguntas Abissais: Teoria de Gaia, Ecologia Profunda e o Valor Intrínseco da Vida Holística na Ecosfera ... 86
2.2.2 Cosmovisões Ameríndias: Pachamama, Bem Viver e Interculturalismo em Construção ... 91
3 POR UM CONSTITUCIONALISMO FRACTAL: UMA PROPOSTA DE RECONSTRUÇÃO ... 104
3.1 TECENDO OS NÓS FRACTAIS DO CONSTITUCIONALISMO ... 107
3.1.1 A Dimensão Cosmopolítica do Constitucionalismo Fractal: Virada Estrutural Contra a Vulnerabilidade (Trans)Fronteiriça ... 112
3.1.1.1 Simbiose cosmopolítica: lutas conceituais pelo aparato jurídico- institucional do constitucionalismo ... 115
3.1.1.2 Potência democrática e poder destituinte (bio)político ... 120
3.1.2 A Dimensão Diacrônica do Constitucionalismo Fractal: Necropolítica dos Corpos e o Alargamento do Círculo Moral Interespécies ... 127
3.1.2.1 Onde queres o sim e o não, talvez: o florescimento estratégico de um novo pacto diacrônico ... 129
3.1.2.2 Transformações afirmativas: precariedade da vida necropolítica e justiça reflexiva ... 143 3.2 MORTES E VIDAS SEVERINAS: SOCIOAMBIENTALISMO E CONSTITUCIONALISMO FRACTAL NOS TRÓPICOS ... 151 CONCLUSÕES ... 169 BIBLIOGRAFIA ... 182
INTRODUÇÃO
A quadra histórica contemporânea sofreu intensas transformações no decorrer dos últimos anos, suscitadas pela remodelagem da atual conjuntura fática e pelos impulsos emanados por agentes que atuam no tecido social.
Por um lado, tem-se o cenário de crise ecológica, que prospecta vertiginosas mudanças climáticas, fomentadas e sofridas assimetricamente, bem como a indigna crise migratória, que renova – por razões econômicas, religiosas, ambientais e políticas – a dramática paisagem de párias à procura de refúgio, ao lado dos questionamentos a respeito da (i)legítima dominação humana sobre outros entes e seres vivos.
Em contrapartida, constata-se a efervescência de instâncias de poder supraestatais, cujos atores, em sua maioria, não são responsivos aos desígnios democráticos e às regras do Estado de Direito, evanescendo a controlabilidade de políticas decisórias e, por consequência, da produção de externalidades transfronteiriças.
Na gramática jurídica, os conceitos empunhados revelam, cada vez mais, um anacronismo – aquela velha opinião formada sobre tudo – que desnuda não apenas os déficits do tempo-espaço do Estado-Nação, mas também a erosão dos limites da comunidade política e filosófica registrada no programa constitucionalista.
À sua maneira, a cena do constitucionalismo, temática da presente pesquisa, é instada a responder a tais metamorfoses ambulantes, performatizando um itinerário que pode conter feições épicas, trágicas ou conservacionistas, a depender das reivindicações e resistências plasmadas tanto no plano normativo quanto na prática social.
Nesse cenário, tendo em vista que os atuais dispositivos valorativos do paradigma constitucionalista evidenciam fissuras cosmopolitas em sua estrutura política e rupturas diacrônicas nas fronteiras da comunidade moral de sujeitos da justiça, investiga-se, como problema de pesquisa nesta dissertação, o porvir de um itinerário performático do constitucionalismo, apreendido como um projeto em disputa, que propicie novos enquadramentos para as renovações político- estruturais cosmopolíticas, bem como para as insurgentes demandas por alargamento das fronteiras da justiça diacrônica (interespécies), de modo que
seja viável, ao fim, rascunhar uma hipótese reconstrutiva designada de constitucionalismo fractal.
Em ordem a impulsionar a reestruturação do script constitucionalista – objetivo geral dessa pesquisa –, busca-se descrever, criticamente, alguns vestígios a propósito das fissuras estruturais e filosóficas no projeto constitucional.
Mais especificamente, propõe-se inquirir o arquétipo da modernidade que balizará o itinerário constitucionalista, atravessado por rascunhos de tipologias genéricas que sinalizam digressões sobre o futuro do constitucionalismo para, na sequência, esmiuçar os divergentes caminhos que levantam discussões relativas ao status da natureza e à condição moral, jurídica e política dos animais não-humanos.
Por fim, valendo-se do método reconstrutivo, será elaborada uma hipótese de leitura prescritiva designada de constitucionalismo fractal, isto é, uma chave valorativa que, através de sua dimensão cosmopolítica e diacrônica, intentará contribuir para o reenquadramento das falhas e disputas narrativas da semântica constitucional, especialmente no contexto socioambiental brasileiro.
Metodologicamente, convém destacar que será utilizada a técnica hipotético-dedutiva, mediada pelo sincretismo teórico, para operacionalizar a pesquisa monográfica, documental e bibliográfica, não se filiando a nenhum marco teórico estanque, tendo em conta a potencialidade que tal hibridação fornece, com argumentos mais consentâneos à complexidade do problema científico, ainda que dissonantes do espectro original.
O plano de trabalho inicia-se com a avaliação do mal-estar da modernidade, enunciando três metadiagnósticos sobre o excesso, o déficit e o resgate das promessas modernas, empenhando-se em avaliar os influxos da quarta ferida narcísica no paradigma moderno e em seus constructos posteriores, tais como o mal-estar estrutural e filosófico gravados no constitucionalismo.
À vista disso, propõe-se discorrer sobre a dissonância estrutural no marco constitucionalista por meio de duas teorias representativas da controvérsia, aglutinando-as nas tipologias normativistas, essencialistas, simbióticas e setoriais, que prospectam heterogêneas trilhas para o futuro do constitucionalismo.
Em continuação, o foco do texto desloca-se para o enturvar das fronteiras da comunidade de sujeitos estabelecidos no constitucionalismo, lançando luzes sobre os conflitos inseridos no âmago da justiça diacrônica, notadamente as reivindicações ofuscadas pelo distanciamento entre espécies animais e naturais (justiça diacrônica interespécie), enveredando-se, assim, pelas contendas relativas ao estatuto moral, jurídico e político de animais não-humanos, bem como pelas controvérsias, dentro e fora da modernidade, quanto à revalorização do status da natureza.
A derradeira análise exibe a chave de leitura fractal, é dizer, um horizonte valorativo reconstrutivo que tenciona desestabilizar, nas franjas do aparato jurídico-institucional e (bio)político, os objetos cosmopolíticos e diacrônicos, para refundir a performance da cena do constitucionalismo, orientando-se, nesse seguimento, por três pontes de amarração – direito, democracia e diferença – que devem nortear a construção de significados e sentidos constitucionalistas para sujeitos livres e iguais, justapondo, brevemente, algumas dessas conclusões na conjuntura socioambientalista nacional.
A justificativa da dissertação baseia-se não só na possibilidade, mas também no dever do significante constitucionalista se abrir a leituras que atinjam resultados mais emancipatórios, transportando-o do mundo do ser para o fazer, de modo que outras vozes possam cantar os tons do que se faz sentir e faz sentido nas pulsões constitucionais.
1 O QUARTO GOLPE NARCÍSICO: MAL-ESTAR ESTRUTURAL NO PARADIGMA DO CONSTITUCIONALISMO
Eu, alquimista de mim mesmo. (...) vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens (...).
(Clarice Lispector)1
Em dezembro de 2016, a poluição atmosférica se tornou tão espessa na China que algumas regiões experimentaram um verdadeiro arpocalipse2.
Os mais afortunados optaram por abandonar as cidades e deslocaram-se – antes que os aeroportos se fechassem, em razão da péssima condição climática – para o interior do país, procurando respirar e contemplar o céu (azul?!).
Aos que ficaram, restou apenas o uso de máscaras de gás e um impávido nevoeiro a cobrir até mesmo as árvores mais próximas. Revelou-se, assim, uma nova categoria: os refugiados da poluição atmosférica (smog refugees)3.
O assombro, entretanto, manifestou-se na súbita naturalização do fenômeno: os agentes públicos de Beijing tentaram rapidamente listar a poluição atmosférica como um desastre meteorológico4 – ato da natureza, e não consequência da atuação humana –, objetivando isentar eventual responsabilização do governo.
Projetando restabelecer a vida cotidiana, alguns procedimentos foram
1 LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida: pulsações. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978, p. 62.
2 ŽIŽEK, Slavoj. Lessons from the ‘Airpocalypse’ on China’s smog problem and the ecological
crisis. These Times, 10 jan. 2017. Disponível em:
<http://inthesetimes.com/article/19787/spaceship-earth-lessons-of-airpocalypse-slavoj-zizek- climate-ecology-smog>. Acesso em: 13 jan. 2017.
3 Idem.
4 TATLOW, Didi Kirsten. Don’t call it ‘smog’ in Beijing, call it a ‘meteorological disaster’. The New
York Times, 15 dez. 2016. Disponível em:
<https://www.nytimes.com/2016/12/15/world/asia/beijing-smog-pollution.html?_r=0>. Acesso em: 13 jan. 2017.
estipulados, tais como o fechamento de escolas em dias específicos; estímulo à estadia nas residências e informes relativos ao uso de máscaras de gás quando em contato com a ambiência externa5.
O arpocalipse é um retrato fiel de como alguns fenômenos sociopolíticos – tais como a crise ambiental, o terrorismo e a situação dos refugiados – são experimentados para além das fronteiras geográficas e político-jurídicas do Estado-Nação, utilizados, eventualmente, como distorções (mal-estares) para justificar a impavidez, conformando verdadeiras reformas de Lampedusa6, em que tudo precisa mudar para que nada se altere...
Nesse contexto, empregando-se a diagnóstica psicanalítica como uma metadiagnóstica societal7, é admissível estabelecer que o dinamismo contemporâneo assume caracteres verossimilhantes ao de um mal-estar8, pois os processos de globalizações9 fraturam não só as bases da modernidade, como também impactam o constitucionalismo duplamente, em sua faceta filosófica – as fronteiras que circundam a comunidade moral dos sujeitos da justiça, a ser analisada no próximo capítulo – e estrutural, fator por que tais mutações são equiparáveis, em magnitude e profundidade, às revoluções “(...) epistemológicas descritas pelo pai da psicanálise. De fato, o processo de globalização incide sobre a viga-mestre que esteia o constitucionalismo moderno”10.
À vista disso, convém enfatizar, no que concerne ao plano de trabalho a
5 ŽIŽEK, Slavoj. Lessons from the ‘Airpocalypse’ on China’s smog problem and the ecological crisis. Op. cit.
6 LAMPEDUSA, Tomasi Di. O leopardo. 2. ed. Trad. de José Antonio Pinheiro Machado. Porto Alegre: LPM Editores, 1983, passim.
7 O psicanalista e professor da Universidade de São Paulo, Christian Dunker, analisa que “(...) não há nenhum motivo para que a psicanálise, herdeira do debate das luzes, não seja considerada um capítulo particular desta metadiagnóstica da modernidade. A alegoria das três feridas narcísicas – Copérnico, Darwin... e a psicanálise – é um exemplo”. DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: releitura da diagnóstica lacaniana a partir do perspectivismo animista. Revista de Sociologia da USP, Tempo Social, v. 23, n. 1, p. 115-121, mar. 2011.
8 O mal-estar, muito além de traduzir-se em sensações desagradáveis pontuais, é “(...) o sentimento existencial de perda de lugar, a experiência real de estar fora de lugar”. DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros.
São Paulo: Boitempo, 2015, p. 196.
9 Defende-se que não há um conceito singular de globalização – não raro identificado como ocidental e eurocêntrico –, senão vários substratos a compor um espectro plural de “(...) diferentes modos de produção de globalização constituídos por diferentes constelações de direitos, conhecimentos e poderes”. SANTOS, Boaventura de Sousa. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. v. 1. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2011, p. 20.
10 SARMENTO, Daniel. Constituição e globalização: a crise dos paradigmas do direito constitucional. Revista de Direito Administrativo, v. 215, p. 33, jan./mar. 1999.
ser percorrido, que a pesquisa averiguará, com um amálgama descritivo metodologicamente sincrético, as bases teóricas relativas aos (des)caminhos da modernidade (tópico 1.1) que contextualizam e tensionam o fenômeno constitucionalista, desnudando a incompletude desse projeto, tanto em sua matriz político-estrutural (seção 1.2) quanto em sua âmbito filosófico (capítulo 2), para alcançar o substrato necessário à formulação de nuances prescritivas – as dimensões do constitucionalismo fractal – que reconstroem seus eixos nucleares (capítulo 3).
A hipótese, em suma, é que a cena do constitucionalismo se apresenta como um movimento performático, que se (re)dimensiona a todo instante, de modo que a desestabilização dos elementos que trafegam em seu âmago, entrelaçados em múltiplos nós, pode ensejar a reorientação do horizonte valorativo que o norteia, sobretudo quando balizado por uma chave de leitura tridimensional – direito, democracia e diferença – que agencia os tons que cantam o que se faz sentir e faz sentido nas pulsões constitucionais.
1.1 (DES)CAMINHOS DA MODERNIDADE: O DIAGNÓSTICO DE UM MAL- ESTAR
Sigmund Freud, em 1917, afirmou, discorrendo sobre o narcisismo universal dos homens, que a humanidade “(...) sofreu até o presente três severos golpes por parte das pesquisas científicas”11: i) golpe cosmológico, ao consolidar, com Copérnico, no século XVI, que a Terra não era o centro estacionário12 do universo; ii) golpe biológico, quando Charles Darwin13 anunciou, em meados do século XIX, que o humano não era um ser diferente – tampouco superior – aos animais, levando a termo a ascendência divina14 humana; iii) golpe psicológico, desnudando (humildemente!), a partir de sua psicanálise, que “(...) nossos instintos sexuais não podem ser inteiramente
11 FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. XVII, 1976, p. 87.
12 Idem.
13 DARWIN, Charles. A origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida. Trad. de Anna Duarte e Carlos Duarte. São Paulo: Martin Claret, 2014.
14 FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. Op. cit., p. 88.
domados e (...) que os processos mentais são, em si, inconscientes”15.
Nessa ordem de ideias, pode-se elucubrar que o mal-estar do arquétipo da modernidade16 acusa o quarto golpe narcisístico da humanidade17, cujos sintomas mais agudos são diagnosticados nas falhas estruturais das vigas mestras que sustentam o edifício teórico deste paradigma, desaguando, não raro, na problematização estrutural do projeto iluminista e da composição da comunidade de sujeitos que baliza este enquadramento, matizes a serem desenvolvidas no decorrer deste trabalho.
Muitas são as prognoses lançadas – utópicas e distópicas –, a partir de saberes filosóficos, sociológicos, psicanalíticos e políticos, cabendo registrar que, a despeito da indisputável transdisciplinaridade que perpassa este acontecimento, o enfoque precípuo – não descurando de eventuais incursões em outros ramos do conhecimento – será jurídico.
Para tanto, é imprescindível acentuar, inicialmente, que a modernidade ocidental pode ser retratada como uma história épica ou trágica18, a depender do olhar do observador.
De modo geral, é representada como o desmantelamento das tradições pré-modernas, fomentando a substituição do monopólio da verdade transcendental – até então guiada por dogmas religiosos – pela crença no
15 Ibidem, p. 90.
16 Mal-estar (“Unbehagen”), para Freud, é o “(...) desconforto sentido pelo indivíduo em consequência dos sacrifícios pulsionais exigidos pela vida social. (...) O mal-estar é inerente a qualquer tipo de civilização (...). O mal-estar na modernidade é a forma contemporânea assumida pelo mal-estar na civilização. (...) Ele se traduz na rejeição do projeto iluminista”. ROUANET, Sergio Paulo. Mal-estar na modernidade. In: ROUANET, Sergio Paulo. Mal-estar na modernidade: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 96-97.
17 Daniel Lourenço fala em cinco desencantamentos, efetivados por: 1) Copérnico; 2) Darwin; 3) Marx; 4) Freud; e 5) “(..) a ampliação, para além da fronteira humana, do rol dos seres vivos agraciáveis com a possibilidade de titularizarem direitos subjetivos”. LOURENÇO, Daniel Braga.
Direito dos animais: fundamentação e novas perspectivas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2008, p. 18-19. Um equivalente – ao menos dos abalos sofridos em decorrência de Marx e Freud – encontra-se em: BARROSO, Luís Roberto. Fundamentos teóricos e filosóficos do novo direito constitucional brasileiro: pós-modernidade, teoria crítica e pós-positivismo. In: BARROSO, Luís Roberto. O novo direito constitucional brasileiro: contribuições para a construção teórica e prática da jurisdição constitucional no Brasil. Belo Horizonte: Fórum, 2013, p. 104-105. Também versando sobre a crítica do self na modernidade: TAYLOR, Charles. The malaise of modernity.
Toronto: House of Anansi Press, 2003, passim.
18 DOUZINAS, Costas; MCVEIGH, Shaun; WARRINGTON, Ronnie. Postmodern jurisprudence:
the law of text in the texts of law. London: Routledge, 1991, p. 5-14.
progresso das ciências19, originando o desencantamento do mundo20.
Paralelamente, assinalou-se que a crença no triunfo da razão21, sectária do movimento iluminista, rechaçou o organicismo pré-moderno22 com o discurso universal de valores humanistas e antropocêntricos, ladeados com a aposta na emancipação pelo racionalismo secular23.
Em prossecução, decorridos alguns séculos e após a reconfiguração do cenário mundial no segundo pós-guerra – por obra, especialmente, da banalidade do mal24 suportada pela Alemanha, embebida pelo narcisismo das pequenas diferenças25 –, observou-se o agigantamento da fragmentação insculpida no espectro da modernidade, seja em virtude das falhas – reais e simbólicas – evidenciadas pela inexecução dos seus desígnios emancipatórios26, seja por efeito da debilidade do constructo moderno diante dos novos impasses potencializados por uma sociedade cosmopolita.
19 TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Trad. de Elia Ferreira Edel. Rio de Janeiro: Vozes, 1994, p. 18.
20 O desencantamento do mundo é um conceito utilizado por Max Weber para simbolizar a desmagnificação da salvação religiosa em razão do racionalismo prático ocorrido no ocidente.
Cf. PIERUCCI, Antônio Flávio. O desencantamento do mundo: todos os passos de um conceito.
São Paulo: Editora 34, 2003.
21 É possível assinalar que, eventualmente, em nome de uma suposta razão abstrata desencarnada, sistemáticas violações de direitos foram perpetradas e naturalizadas. Nesse sentido, pergunta-se: “(...) E não é em nome da razão e da sua universalidade que se estendeu a dominação do macho ocidental, adulto e educado no mundo inteiro, sobre trabalhadores colonizados e sobre mulheres e crianças?”. Cf. TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Op.
cit., p. 10.
22 Para Daniel Sarmento, o organicismo é uma teoria que compreende as comunidades políticas como um “todo vivo”, composta por indivíduos que desempenham funções análogas às de um órgão dentro do corpo humano, de modo que os interesses do corpo – a comunidade política – suplantam às de seus integrantes. Prioriza-se o coletivo de tal forma que, acaso defeituoso, o órgão/pessoa deve ser expurgado para não macular o todo (corpo social). SARMENTO, Daniel.
Interesses públicos vs. interesses privados na perspectiva da teoria e da filosofia constitucional.
In: SARMENTO, Daniel. Livres e iguais: estudos de direito constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, p. 52.
23 SARMENTO, Daniel. Direitos fundamentais e relações privadas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2006, p. 36-37.
24 A banalidade do mal é retratada por Hannah Arendt ao descrever o julgamento de Eichmann, oficial de alta patente do Terceiro Reich, que, ao contrário do que se imaginou, não ostentava características e pensamentos terrivelmente maléficos, pois era tão somente um burocrata eficiente, uma engrenagem da máquina nacional socialista alemã que dizimou milhares de pessoas. Cf. ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal.
Trad. de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Para uma belíssima análise do pensamento de Arendt: ASSY, Bethania. Ética, responsabilidade e juízo em Hannah Arendt. São Paulo: Instituto Norberto Bobbio, 2015, passim.
25 FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão, o mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927- 1931). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. XXI, 1976, p. 72-73.
26 SARMENTO, Daniel; SOUZA NETO, Cláudio Pereira de. Direito constitucional: teoria, história e método de trabalho. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2014, p. 234.
Nessa linha, identificado o mal-estar da modernidade e valendo-se da racionalidade diagnóstica27, detectam-se três metadiagnósticos – ou seja, diagnoses conglobantes sobre discursos que organizam as narrativas históricas das formas de vida28 – que proclamam, respectivamente, o excesso (radicalização29) da experiência moderna; o déficit (desconstrução30) da modernidade; e o resgate (reconstrução31) das promessas emancipatórias.
Nomeadamente, tem-se a modernidade reflexiva32 – cuja composição se dá sob um duplo alicerce (político-social), isto é, a visão pós-política da terceira via, de Anthony Giddens33, jungida à sociedade de risco, de Ulrich Beck34 –; bem como o plurívoco campo da pós-modernidade, erigido, de modo geral, sob as luzes do movimento pós-estruturalista, flanqueados, ao fim, pela reedificação que, sem renunciar ao programa da modernidade, tenta reconstruí-lo, concebendo-o como um projeto inacabado35. A próxima seção delineará tais metadiagnósticos.
1.1.1 Riscos Reflexivos: Deliberação Consensual na Esfera Pública Pós-Política Para os sociólogos Anthony Giddens e Ulrich Beck, vivenciamos uma
27 A racionalidade diagnóstica cifra, reconhece e nomeia o mal-estar em modos de sofrimento e estipula as formas de sintoma. Cf. DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma. Op. cit., p. 20-21. Este conceito psicanalítico é aqui empregado como forma de apreensão das mutações e incompletudes observadas inicialmente na modernidade e em seus constructos posteriores, como a estrutura do constitucionalismo e a comunidade de sujeitos que habitam tal enquadramento.
28 Ibidem, p. 115-116
29 BECK, Ulrich. A sociedade de risco mundial: em busca da segurança perdida. Trad. de Marian Toldy e Teresa Toldy. Portugal: Almedina, 2015, p. 188-191.
30 RORTY, Richard. Remarks on deconstruction and pragmatism. In: CRITCHLEY, Simon;
DERRIDA, Jacques; LACLAU, Ernesto; RORTY, Richard. Deconstruction and pragmatism.
London: Routledge, 1996, p. 13-18.
31 HABERMAS, Jürgen. Modernidade: Um projeto inacabado. In: ARANTES, Otília B. Fiori;
ARANTES, Paulo Eduardo. Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas: arquitetura e dimensão estética depois das vanguardas. São Paulo: Brasiliense, 1992, p. 99-124.
32 BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. 2. ed. Trad. de Magda Lopes. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
33 GIDDENS, Anthony. A terceira via: reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social- democracia. 5. ed. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.
34 BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. 2. ed. Trad. de Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2011.
35 HABERMAS, Jürgen. Modernidade: um projeto inacabado. Op. cit., p. 99-101.
transição sub-reptícia da modernidade simples36, que evidenciou a substituição da tradição e da mítica que circundavam as ameaças (fenômenos naturais e catástrofes físicas) pelos riscos advindos de decisões humanas – permeada, portanto, por uma racionalidade científica com elevados padrões de certeza e de segurança –, para a modernidade reflexiva (tardia)37, cujos macroperigos38 tornam-se, não raro, irreversíveis e invisíveis.
Essa metamorfose social deu-se muito em razão da autodestruição pós- industrial39 causada pela imprudente lógica do progresso e da individualização40 que, experimentando a falência das instâncias de controle e proteção, impulsionou os avanços da expertise técnica/científica e, paradoxalmente, fomentou um sistema de irresponsabilidade organizada de riscos fabricados41.
Em síntese, a modernidade restaria (auto)confrontada, reflexivamente, com o potencial destrutivo das externalidades do desenvolvimentismo42 – a policrise43 de incontáveis efeitos colaterais –, através da “(...) possibilidade de uma (auto)destruição criativa, para toda uma era: aquela da sociedade industrial.
36 Regida pela lógica da inequivocidade (newtoniana), transpassada pela crença no progresso econômico-tecnológico e na sustentabilidade ilimitada, cujos riscos produzidos poderiam ser contidos por intervenções monitoradas, numa ambiência de disputas distributivas. BECK, Ulrich.
A sociedade de risco mundial. Op. cit., p. 39.
37 Orquestrada, em uma palavra, pela lógica da ambiguidade (princípio da incerteza de Heisenberg). Idem.
38 Ibidem, p. 110-111.
39 Anthony Giddens afirma que há uma finalização, sob o manto da emergência de uma sociedade pós-tradicional, da modernidade que, não obstante se coloque, quase que por definição, em oposição à tradição, a reconstruiu – dando ênfase à hegemonia ocidental sobre outras culturas – enquanto a dissolvia, de sorte que “(...) a persistência e a recriação da tradição foram fundamentais para a legitimação do poder, no sentido em que o Estado era capaz de se impor sobre ‘sujeitos’ relativamente passivos. A tradição polarizou alguns aspectos fundamentais da vida social – pelo menos a família e a identidade social – que, no que diz respeito ao
‘iluminismo radicalizador’, foram deixados bastante intocados”. GIDDENS, Anthony. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott.
Modernização reflexiva. Op. cit., p. 89-90.
40 Para Ulrich Beck, “(...) ‘individualização’ significa a desintegração das certezas da sociedade industrial, assim como a compulsão para encontrar e inventar novas certezas (...) e novas interdependências, até mesmo globais”. BECK, Ulrich. Sociedade de risco mundial. Op. cit., p.
31.
41 A diferença entre perigos e riscos é desenvolvida por Ulrich Beck, enunciando que aqueles são causados pela natureza, enquanto estes são fabricados por seres humanos. Portanto, “(...) o perigo não pressupõe decisão; o risco pressupõe decisão (e modernização)”. BECK, Ulrich.
World at risk. Cambridge: Polity Press, 2009, p. 24.
42 BECK, Ulrich. Sociedade de risco. Op. cit., p. 18-21.
43 MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000, p. 42-47.
O ‘sujeito’ dessa destruição criativa (...) é a vitória da modernização ocidental”44. No campo político, Anthony Giddens teoriza uma nova configuração para a social-democracia, por intermédio da terceira via45 – para além do espectro ideológico esquerda-direita, particularmente em razão da vitória do sistema capitalista global –, arquitetando uma sociedade pós-tradicional46 que substituiria a velha política emancipatória distributiva pela política-vida47.
O escopo da visão pós-política (subpolítica48) é a criação de uma esfera pública democrática por meio de fóruns de consenso, compostos não só por políticos, como também por especialistas, cidadãos e os mercados.
Destarte, o motor histórico social não mais seria o conflito distributivo, tampouco uma racionalidade instrumental – “(...) muletas conceituais do passado”49 –, senão a responsabilidade distributiva e a preocupação com os efeitos colaterais (prevenção e controle dos riscos), dentro de uma moldura subpolítica50 que, por efeito da vitória do capitalismo, produz uma nova forma social que dilapida a tradicional formação de classes51.
É oportuno sublinhar que o background histórico exerce inegável influência nestas teses.
Isso porque, inicialmente, no crepúsculo da década de 1980, com o fim da guerra fria, a queda do muro de Berlim e a derrocada dos regimes comunistas e socialistas, acreditava-se na suposta erosão dos antagonismos e no fim da
44 BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. In:
BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva. Op. cit., p. 11-13.
45 Segundo Anthony Giddens, a terceira via é uma forma realista, sem perder a radicalidade, de construir políticas de centro-esquerda dada a falência do socialismo tradicional e o gerenciamento econômico Keynesiano. GIDDENS, Anthony. A terceira via. Op. cit., p. 27.
46 GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. 2. ed. Trad. de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2003.
47 A política-vida é a substituição da regulação burocrática por uma flexibilidade política descentralizada, de modo a construir e manter uma confiança ativa – ao revés da passividade que circunscreve o tecnicismo isolado dos peritos –, validando-a democraticamente e transformando o sistema de peritos em esferas públicas democráticas, fazendo com que “(...) influências globalizantes penetrem profundamente no projeto reflexivo do eu e, inversamente, onde os processos de auto-realização influenciem as estratégias globais”. Ibidem, p. 197-199.
48 MOUFFE, Chantal. Sobre o político. Trad. de Fernando Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015, p. 36-39.
49 BECK, Ulrich. A reinvenção da política. Op. cit., p. 72.
50 Os conflitos distributivos, a partir do surgimento da sociedade de riscos, são “(...) encobertos pelos conflitos da distribuição dos ‘malefícios’. Estes podem ser decodificados como conflitos de responsabilidade distributiva”. BECK, Ulrich. Sociedade de risco. Op. cit., p. 19.
51 BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. In:
BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva. Op. cit., p. 13.
história52, com a ascensão da lógica política liberal estadunidense como prática hegemônica (absoluta!), isto é, a “(...) simbiose histórica entre o capitalismo e a democracia”53.
Da mesma forma, aponta-se a democracia deliberativa – cuja bibliografia a propósito do tema é inesgotável, mas que, para os fins dessa pesquisa, pode ser ilustrada a partir das lições, muitas vezes divergentes, de John Rawls, Jürgen Habermas e Joshua Cohen54 – como meio para se operacionalizar as diversas demandas que surgem desse contexto pós-político, em oposição ao modelo de democracia agregativa55, local em que as decisões são o resultado da colisão de votos auto-interessados56.
No tópico, vale assinalar que, em linhas gerais, a democracia deliberativa prescreve os seguintes objetivos: i) promover a legitimidade de decisões coletivas; ii) encorajar um espírito republicano para lidar com problemas coletivos; iii) fomentar um processo de formação de decisões lastreado no respeito mútuo; e iv) tratar as pessoas não como meros objetos (passivos) de regulação pelos governos, senão como agentes autônomos (ativos) que se governam (in)diretamente através da justificação racional de decisões mutuamente gestadas e aceitas57.
Por consequência, critica-se a irracionalidade do processo político agregativo, orientado por uma lógica privatizada, individualista e egoísta, presumindo que as pessoas não podem formular reivindicações sobre o bem comum, tampouco orientar-se na esfera pública por interesses outros que não a
52 FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Trad. de Aulyde Soares Rodrigues.
Rio de Janeiro: Rocco, 1992, passim.
53 BECK, Ulrich. A reinvenção da política. Op. cit., p. 12.
54 Não seria equivocado aproximar as ideias desses autores sob os auspícios da plurívoca democracia deliberativa. Entretanto, cabe anotar que possuem construções que podem divergir entre si. O registro do local comum da democracia deliberativa se justifica por figurar como base de parcela do pensamento pós-político, em contraponto à concepção que entende que a democracia não é um ponto de chegada, senão um legítimo espaço de disputa sobre conflitos sociais e sobre o sentido da democracia. MIGUEL, Luis Felipe. Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 8.
55 SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Trad. de Ruy Jungmann.
Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961, passim.
56 YOUNG, Iris Marion. Communication and the other: beyond deliberative democracy. In:
BENHABIB, Seyla (Ed.). Democracy and difference: contesting the boundaries of the political.
Princeton University Press, 1996, p. 120.
57 GUTMANN, Amy. THOMPSON, Dennis. Why deliberative democracy? Princeton University Press, 2004, p. 3-11.
maximização do auto-interesse58, ao passo que, de modo reducionista, se concebe a democracia, no paradigma deliberativo, como um processo dialógico aberto, regido por discussões sobre o bem comum, orientando os participantes de modo que “(...) não descansem até que a força do melhor argumento lhes imponha aceitar a conclusão”59.
Projeta-se, normativamente, uma situação ideal de fala, composta por participantes livres e iguais, que se inserem na ambiência da esfera pública em igualdade de oportunidades. Em função disso, não é dado a ninguém a posição de ameaçar/coagir/dominar outro partícipe, porquanto o escopo precípuo é alcançar um consenso racional a partir da deliberação.
No entanto, é de se ponderar que, mesmo com a deflação normativa dos desenvolvimentos ulteriores da democracia deliberativa60 – que buscaram aproximá-la ao mundo real, relaxando algumas exigências utópicas –, as trocas discursivas e o pressuposto de exterioridade da dominação em relação aos agentes sociais permanecem idealizados61.
Ora, convém acentuar que as assimetrias não são exteriores à interlocução dos participantes, pois os discursos não se sucedem num vácuo social. Ao contrário, as relações de poder e dominação tácitas são constitutivas dos agentes – que, não raro, originam a entronização dos valores dominantes pelos dominados – e pressupostas pelas estruturas vigentes, que impõem ônus e vantagens a determinados modos de discurso62.
É dizer, existem diferenças sociais e culturais na forma de deliberação, cuja descrição não é neutra, tampouco universal, senão situada e permeada por espaços de poder que conformam e colmatam o discurso em si63, operando o silenciamento desvalorativo de uns, e a invisibilidade de outros.
Não por outro motivo que Iris Marion Young desenvolve a ideia de
“democracia comunicativa”, para que as normas de deliberação não privilegiem
58 YOUNG, Iris Marion. Communication and the other. Op. cit., p. 121.
59 Idem.
60 A idealização de livre troca de argumentos iguais de John Rawls é arrefecida, normativamente, por Jürgen Habermas, movimento elucidado em: BENHABIB, Seyla. Critique, norm, and utopia:
a study of the foundations of critical theory. Columbia: Columbia University Press, 1986, p. 224- 353.
61 MIGUEL, Luis Felipe. Dominação e resistência. Op. cit., p. 29.
62 Ibidem, p. 30-31.
63 YOUNG, Iris Marion. Communication and the other. Op. cit., p. 123.
– seja pela maior possibilidade de fala, seja pela autoridade que sua argumentação carrega – um sujeito e um discurso concreto64, em detrimento de outras formas de manifestação na esfera pública65, tais como a expressão emocional e corporal, com linguagem figurativa e gestual.
Do mesmo modo, Chantal Mouffe constata algumas omissões constitutivas na subpolítica (pós-política) da modernidade reflexiva66, que negligencia a diferença entre “a política” – conjunto de práticas políticas convencionais, situadas no nível ôntico/fenomênico –, e “o político” – forma ontológica pela qual a sociedade é formada, através de disputas de espaços de poder, conflito e antagonismo67.
Em verdade, ao endossar uma política da indiferença68, olvida-se do inarredável papel – e potencial instrumento de mobilização – desempenhado por certas emoções na esfera política69, que conformam a intrínseca dimensão conflituosa da vida social70.
Obsta-se, em última análise, o florescimento de um ethos que favoreça o desnudar, através de um cenário democrático agonista vibrante71 – que autorize
64 Ibidem. p. 124.
65 A própria cisão entre esferas públicas e privadas, bem como os sujeitos pressupostos em cada ambiente, torna-se controversa em várias teorias do construcionismo social. Mais que um espaço físico ontologicamente constituído (pré-reflexivo), o espaço público se performatizaria relacionalmente, numa cena do diálogo entre corpos políticos. Desloca-se a ideia física de público e privado para uma ação que produz tecnologias de visibilidade – principalmente diante da conectividade do mundo digital que reconfigura espaços –, bem como as materialidades do sujeito reflexivo. Cf. BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Trad. de Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 11-56; BUTLER, Judith. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Trad. de Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017, p. 89-140. Esse movimento performático será retomado no último capítulo para sinalizar o (re)enquadramento do constitucionalismo.
66 MOUFFE, Chantal. Sobre o político. Op. cit. p. 49-58.
67 Ibidem. p. 7.
68 SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.
São Paulo: Cosac Naify, 2015, p. 354.
69 Para uma brilhante análise da confluência – e importância – das emoções na esfera pública:
NUSSBAUM, Martha C. Political emotions: why love matters for justice. Cambridge: Harvard University Press, 2013; NUSSBAUM, Martha C. Anger and forgiveness: resentment, generosity, justice. New York: Oxford University Press, 2016.
70 MOUFFE, Chantal. Sobre o político. Op. cit., p. 4.
71 Chantal Mouffe declara que o grande desafio é domesticar a política antagonista, de inimigos, em agonista, de adversários, compatibilizando a visão Schimittiana com os valores de uma democracia pluralista – liberdade e igualdade para todos. Cf. MOUFFE, Chantal. Sobre o político.
Op. cit., p. 30. Entretanto, como bem elaborou o cientista político Luis Felipe Miguel, a “(...) produção de consenso sobre tais princípios – definidos como sendo liberdade e igualdade – paira no vazio (...), são apenas rótulos vazios”; de resto, a crítica de Mouffe pede uma maior valorização sobre o elemento dominação na atual conjuntura. Cf. MIGUEL, Luis Felipe.
transformações profundas nas relações de poder existentes72 – de certas invisibilidades sistêmicas73, de modo que, nos termos propostos por Chantal Mouffe, é impossível alcançar um “(...) consenso ‘racional’ plenamente inclusivo, (...) pois todo consenso se baseia em atos de exclusão”74.
Ressalta-se, em sequência, tratando das questões ecológicas, que é surpreendente que tanto Ulrich Beck como Anthony Giddens não percebam que, no fim da linha, muito da problemática ambiental relaciona-se com políticas neoliberais, fator que perpassa incólume na modernidade reflexiva, que continua
“(...) 100% dentro dos limites traçados pelos parâmetros tradicionais da política liberal”75.
Ademais, o uso da “modernização” pelos mencionados autores – conquanto neguem o desaparecimento da diferenciação nós/eles – funciona como manto retórico para estabelecer uma fronteira entre os “modernos” e os
“fundamentalistas”/“tradicionalistas”, apresentando-a como um dado neutro (uma evidência sociológica), a despeito de sua inegável natureza política.
Por fim, a autora belga rebate os pressupostos da terceira via, ideologia que, basicamente, aceita a fase atual do capitalismo, alinhando-se à hegemonia neoliberal como se inexistissem alternativas outras76.
A despeito das críticas, indispensável destacar que, com o advento do Século XXI, intensificam-se os processos de “globalização”77. Alega-se que o programa da democracia deliberativa espraiou seus efeitos para o plano mundial, advogando-se uma governança global78.
Tal transformação fez com que Ulrich Beck atualizasse seu trabalho –
Consenso e conflito na teoria democrática. In: MIGUEL, Luis Felipe. Consenso e conflito na democracia contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 2017, p. 30-33.
72 MOUFFE, Chantal. Sobre o político. Op. cit., p. 50.
73 No capítulo 2 deste trabalho, será desenvolvido o reenquadramento das fronteiras da justiça, colocando luz sobre certos sujeitos que ostentam invisibilidades abissais, como os animais e a natureza.
74 MOUFFE, Chantal. Sobre o político. Op. cit., p. 10.
75 Ibidem, p. 50.
76 Ibidem, p. 49-58.
77 O suposto “fim da política” no final do século XX é transmudado para a “exclusão da política”
do espectro do Estado-Nação, pois, ao revés da extinção da questão política, o “(...) aparecimento da globalização permite aos empresários e suas associações a reconquista e o pleno domínio do poder de negociação que havia sido politicamente domesticado pelo Estado o bem-estar social”. BECK, Ulrich. A sociedade de risco mundial: Op cit., p. 14.
78 BOSSELMANN, Klaus. O princípio da sustentabilidade: Transformando direito e governança.
Trad. De Phillip Gil França. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 17.
formulando a noção de sociedade de risco mundial79 – à luz do momento cosmopolita, não pelo fato de “(...) surgirem novas incertezas e novos perigos, mas, pelo contrário, no desmoronar da ideia condutora segundo a qual estes podem ser controlados a nível nacional”80.
1.1.2 Pós-modernismo: Desconstrução e Ocaso das Metanarrativas
O polissêmico81 rótulo de pós-modernidade – termo originalmente utilizado no campo da arte, adquirindo, hodiernamente, matizes amplas que abarcam a filosofia, a sociologia, o direito e a política82 –, é articulado sob diagnósticos múltiplos, partilhando, em comum, a crítica ao paradigma da modernidade, tida como uma gaiola de ferro da burocratização83, baseando-se, via de regra, na escola pós-estruturalista84.
Sob outras alcunhas, não é incomum esbarrar com descrições societárias homólogas, tais como a estetização do mundo85, a sociedade da decepção86, a hipermodernidade87 e o império do efêmero88, de Gilles Lipovetsky; a sociedade
79 Talha-se a distinção entre risco (antecipação da catástrofe) e catástrofe (riscos que se tornaram reais), subdividindo esta em catástrofe como efeito secundário acidental (ocaso da crise ecológica e financeira) e catástrofe intencional (ameaça terrorista), ensaiando um “(...) triplo passo conceptual: risco – sociedade de risco – sociedade de risco mundial”. BECK, Ulrich. A sociedade de risco mundial. Op. cit., p. 21.
80 Ibidem, p. 42.
81 Sérgio Paulo Rouanet afirma que a irritante polissemia do pós-moderno – ideia, de resto, inquietante, pois sugere que deixamos de ser contemporâneos de nós mesmos – alberga, ao mesmo tempo, vanguardismos e regressões ao arcaico; visões de um salto para frente e uma fuga para o passado. Cf. ROUANET, Sérgio Paulo. A verdade e a ilusão do pós-modernismo. In:
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.
229.
82 DOUZINAS, Costas; MCVEIGH, Shaun; WARRINGTON, Ronnie. Postmodern jurisprudence.
Op. cit., p. 14.
83 DOUZINAS, Costas; MCVEIGH, Shaun; WARRINGTON, Ronnie. Postmodern jurisprudence.
Op. cit., p. 14.
84 A despeito do predomínio do pós-estruturalismo foucaultiano, há quem construa o pensamento pós-moderno a partir de outras ambiências, como o pragmatismo de Richard Rorty. Cf. RORTY, Richard. Remarks on deconstruction and pragmatism. Op. cit., p. 13-18; SARMENTO, Daniel;
SOUZA NETO, Cláudio Pereira de. Direito constitucional. Op. cit., p. 234-235.
85 Cf. LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista. Trad. de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
86 Cf. LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da decepção. Trad. de Armando Braio Ara. São Paulo:
Manole, 2007.
87 Cf. CHARLES, Sébastien; LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Trad. de Luís Filipe Sarmento. Lisboa: Edições 70, 2001.
88 Cf. LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero. Trad. de Maria Lúcia Machado. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007.
do medo89 da modernidade líquida90, de Zygmunt Bauman; a sociedade do excesso91, de Serge Latouche; e a sociedade do consumo, de Jean Baudrillard92. Convém realçar, ainda, que a pós-modernidade não se confunde com o pós-colonialismo93, ainda que partilhem de certas visões críticas, notadamente porque o pensamento pós-colonial emergiu como o “outro” (a contrapartida) da própria fundação da modernidade/colonialidade94, produzindo, ao mesmo tempo em que se oculta, a linha abissal que separa as epistemologias do Norte/Sul95. Genericamente, afirma-se que a pós-modernidade focaliza apenas os erros culturais da modernidade – com baixo reformismo –, e o pós-colonialismo faz uma crítica à completude do paradigma moderno, que explorou e ainda assola
89 Cf. BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro:
Editora Zahar, 2008; BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo. Trad. de Carlos Alberto Medeiros.
Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008.
90 Cf. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad. de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001; BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. 2. ed. Trad. de Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1998.
91 Cf. LATOUCHE, Serge. Salir de la sociedad de consumo: voces y vías del decrecimiento. Trad.
de Magalí Sirera Manchado. Barcelona: Octaedro, 2012.
92Cf. BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Trad. de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2009; BAUDRILLARD, Jean. Power inferno. 2. ed. Trad. de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2007.
93 Boaventura de Sousa Santos, dissertando sobre as diferenças entre o pós-modernismo e o pós-colonialismo (pós-modernidade de oposição), realça que “(...) Em vez da renúncia aos projectos colectivos, proponho a pluralidade de projectos colectivos articulados de modo não hierárquico por procedimentos de tradução que se substituem à formulação de uma teoria geral de transformação social. Em vez da celebração do fim da utopia, proponho utopias realistas, plurais e críticas. Em vez da renúncia à emancipação social, proponho a sua reinvenção. Em vez da melancolia, proponho o optimismo trágico. Em vez do relativismo, proponho a pluralidade e a construcção de uma ética a partir de baixo. Em vez de desconstrução, proponho uma teoria crítica pós-moderna, profundamente auto-reflexiva mas imune à obsessão de desconstruir a própria resistência que ela funda. Em vez do fim da política, proponho a criação de subjectividades transgressivas pela promoção da passagem da acção conformista à acção rebelde. Em vez do sincretismo acrítico, proponho a mestiçagem ou a hibridação com a consciência das relações de poder que nela intervêm, ou seja, com a investigação de quem hibrida quem, o quê, em que contextos e com que objectivos.”. SANTOS, Boaventura de Sousa.
Do pós-moderno ao pós-colonial. E para além de um e outro. In: Conferência de Abertura do VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Coimbra, 2004. p. 10. Disponível em:
<http://www.ces.uc.pt/pt/misc/Do_pos-moderno_ao_pos-colonial.pdf>. Acesso em: 23 fev. 2017.
Na mesma toada: SPIVAK, Gayatri Chakravorty. A critique of postcolonial reason: toward a history of the vanishing present. Cambridge: Harvard University Press, 1999, p. 198-422.
94 MIGNOLO, Walter D. El pensamiento descolonial: desprendimiento y apertura. Un manifiesto.
In: CASTRO-GÓMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramón (Eds.). El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del hombre Editores, 2007, p. 27.
95 O estudo das epistemologias do Sul refere-se ao Sul como metáfora, não geográfico, mas sim epistêmico e político. Há, assim, um Sul que existe no Norte geográfico, e há um Norte epistêmico e político no Sul geográfico. Cf. MENDES, José Manuel; SANTOS, Boaventura de Sousa.
Introdução. In: MENDES, José Manuel; SANTOS, Boaventura de Sousa (Orgs).
Demodiversidade: imaginar novas possibilidades democráticas. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018, p. 10-19.