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OS LAÇOS DE FAMÍLIA EM PLUTARCO: CONSOLATIO AD UXOREM (MORALIA 608 C)

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Academic year: 2022

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A temática dos laços familiares na Antiguidade proporciona, seguramente, quer ao estudioso quer ao leitor de hoje reflexões que ultrapassam as fronteiras dos seus referentes espácio-temporais. Como qualquer outra componente essencial à condição humana, as formas de relacionamento entre indivíduos do mesmo sangue, os sentimentos individuais e as práticas a ele associados são questões, senão apelati- vas, pelo menos universais. Propomo-nos, com este primeiro estudo, iniciar uma série de contributos para a análise das perspectivas em que Plutarco apresenta os laços de família como elementos estruturantes da formação do ser humano.

A nossa escolha da obra do polígrafo para objecto de reflexão deve-se, sem dúvida, à variedade tipológica e ao pendor ético dos seus escritos. Mas foram sobretudo os condicionalismos históricos da vida do Autor os responsáveis por essa eleição. Vivendo sob a soberania do Império Romano1, na qualidade de cidadão de um cosmos vasto e diversificado, produto de inúmeras fusões multiculturais, Plutarco, habitante de Queroneia na Beócia, sacerdote de Apolo em Delfos (ca.

50 A. D.), preenche todos os requisitos para ser uma voz da mentali- dade aristocrática greco-romana.2

Desta Antiguidade plural, formada sob a égide de uma cultura comum, interessa-nos investigar, neste momento, não a generalidade dos laços familiares, mas tão só os que unem pais e filhos. Assente sobre os princípios da philia grega ou da amicitia latina, o relaciona- mento entre as partes pressupõe, antes de mais, um acordo tácito de _________________

1 O seu nascimento situa-se entre os anos 40-45 e a sua morte em 120 A. D.

2 Sobre a biografia de Plutarco, em particular no que se refere à condição de membro das elites provinciais romanas, leiam-se: C. P. Jones, Plutarch and Rome (Oxford 1971); J. Boulogne, Plutarque: un aristocrate grec sous l’ occupation romaine (Lille 1994).

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apoio recíproco, a que, modernamente, se dá o nome de solidarie- dade3. Assim como é da competência dos progenitores velar pelo bem estar dos filhos, sobretudo durante o tempo em que mais dependem de si, até à idade adulta, deve a prole tudo fazer para honrar a família e contribuir para o seu engrandecimento. Referência obrigatória, nesta matéria como em muitas outras, as Histórias de Heródoto, herança literária incontornável desde logo para os Autores gregos posteriores, consagraram a noção clássica de que a felicidade de uma pessoa se avalia através da sua descendência. Telo de Atenas é um paradigma da fortuna, exibido a Creso como exemplo da eudamonia suprema, pois cumula os seguintes requisitos: perecer deixando filhos modelares, sãos de corpo e espírito; assistir à perpetuação da família, através do nascimento de netos; nunca sofrer a perda de um filho (Hdt. I 30, 4).

A literatura cumpre, como se percebe também deste quadro, uma das suas funções mais nobres, dar voz poética à condição humana. A morte de um filho, de um modo geral, produz nos pais um estado de dor profunda. Quando é inesperada ou prematura, ainda mais.

O passo escolhido para a actual reflexão, extraído da carta Con- solatio ad uxorem (Moralia 608 C), retrata precisamente uma situação de profundo padecimento pela morte de uma criança de tenra idade.

Ao falecer com dois anos apenas, Timoxena causa, em particular na mãe, uma dor nunca experimentada. A novidade não reside na morte de um descendente, pois já perdera dois filhos anteriormente. A ele- vada taxa de mortalidade infantil contribuía, aliás, para apresentar aos pais a morte de infantes como uma realidade bastante provável. Con- tudo os laços que ligavam a esposa de Plutarco àquele bebé, por cir- cunstâncias novas na sua vida, diferiam dos que a prenderam aos outros filhos entretanto desaparecidos. Além de ser um rebento serô- _________________

3 Obra de referência para a compreensão da matéria em apreço é o livro de D. Konstan, Friendship in the Classical World (Cambridge 1997).

Do mesmo autor, cf. “Reciprocity and friendship”, in G. Gill et alii (edd.), Reciprocity in Ancient Greece (Oxford 1998) 279-301.

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dio do casal, nascido ao fim de vinte anos de matrimónio, era a pri- meira filha, depois de quatro varões4.

Convencional na forma e no conteúdo, o texto da carta Conso- lação da esposa revela um toque de originalidade nas referências que faz aos longos anos de convívio dos cônjuges e à partilha dos sofri- mentos. Um dos seus passos mais interessantes para o leitor moderno é o que iremos analisar, no qual se apresenta a educação dos filhos no seio da família como uma tarefa conjunta dos progenitores. Desfaz-se a ideia pré-concebida de que, nos meios aristocratas, ao pai não com- petia a educação dos filhos nos primeiros anos de vida, obrigação essa exclusiva da mãe ou de outras mulheres da casa. Um distanciamento em relação ao código social vigente encontramo-lo ainda na forma como Plutarco pede à mulher que manifeste o luto. Não deve entregar- se à paixão do sofrimento, de que resultam mostras de histerismo e descontrolo. Esses são comportamentos indignos do seu estatuto, aviltantes para o bom nome da família. Conforme o Autor tem o cui- dado de enfatizar, a desonra daí decorrente seria mais penosa para si do que a morte por ambos chorada.

O carinho subjacente ao discurso de Plutarco desvenda uma máxima universal de vida, segundo a qual os laços de afecto, que alimentam a harmonia de uma família no convívio diário, são os mes- mos que se transformam nos pilares que a impedem de ruir nos momentos de crise, tão profunda como só a morte consegue ser.

Texto

Movnon, w\ guvnai, thvrei kajme; tw=/ pavqei kai; seauth;n ejpi; to u= kaqestw=to∫5. !Egw; ga;r aujto;∫ me;n oi\da kai; oJrivzw to; sum- _________________

4 Para o tratamento desta matéria em Plutarco, vd. K. Bradley, “Images of childhood. The evidence of Plutarch”, in S. B. Pomeroy (ed.), Plutarch’ s Advice to the bride and groom and A consolation to his wife. English translations, commentary, interpretive essays, and bibliography (New York 1999) 183-196.

5 O mesmo que kaqesthkw=to∫ (genitivo neutro singular do particípio perfeito activo do verbo kaqivsthmi).

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bebhko;∫ hJlivkon ejstivn: a]n dev se tw=/ dusforei=n uJperbavllousan eu{rw, tou=tov moi ma=llon ejnoclhvsei tou= gegonovto∫. Kaivtoi oujd

! aujtov∫ “ajpo; druo;∫ oujd! ajpo; pevtrh∫” ejgenovmhn: oi\sqa de; kai; aujt h; tosouvtwn moi tevknwn ajnatrofh=∫ koinwnhvsasa, pavntwn ejkteqra mmevnwn6 oi[koi di! aujtw=n hJmw=n, tou=to dev, o{ti kai; soi; poqouvsh/

qugavthr meta; tevssara∫ uiJou;∫ ejgennhvqh kajmoi; to; so;n o[noma qevs qai parevscen ajformhvn, [oi\da] ajgaphto;n diaferovntw∫ genovmenon.

Provsesti de; kai; drimuvth∫ ijdiva ti∫ tw=/ pro;∫ ta; thlikau=ta fil ostovrgw/ to; eujfrai=non aujtw=n kaqarovn te o]n ajtecnw=∫ kai; pavs h∫ ajmige;∫ ojrgh=∫ kai; mevmyew∫.

(Consolatio ad uxorem, 2) 1. Aspectos morfológicos a destacar:

substantivos:

– tema em sigma (pavqo∫, -ou∫);

– tema em semivogal -i (mevmyi∫, -ew∫) e –u (druv∫, druov∫);

adjectivos:

– triformes (i[dio∫, ijdiva, i[Ôdion; kaqarov∫, -av, -ovn);

– biformes de tema em sigma (ajmighv∫, -ev∫);

advérbios:

– grau normal (movnon; diaferovntw∫, ajtecnw=∫);

– grau comparativo (ma=llon);

pronomes:

– demonstrativos

(ou\to∫, au{th, tou=to;; tosou=to∫, tosauvth, tosou=to);

– pessoal não reflexo e reflexo (seauthvn);

– possessivo;

flexão verbal:

– verbos contractos: em -e (threvw; dusforevw; ejnoclevw) e em -a (gennavw; ajgapavw);

– modo indicativo: o perfeito oi\da;

– modo particípio:

_________________

6 Particípio perfeito médio do verbo ejktrevfw.

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o presente activo (uJperbavllousan; poqouvsh/;

eujfrai=non);

o aoristo activo (koinwnhvsasa) e médio (genovme- non);

o perfeito activo (kaqestw=to∫; sumbebhkov∫;

gegonovto∫) e médio-passivo (ejteqrammevnwn).

2. Conteúdos sintácticos mais relevantes:

– usos diversos do particípio e do infinito substantivados:

o complemento circunstancial de ‘tempo em que’

(ejpi; tou= kaqestw=to∫);

o sujeito (to; sumbebhkov∫);

o predicativo de verbo prefixado por ujper- (tw=/

dusforei=n);

o segundo termo da comparação

(tou= gegonovto∫);

o destinatário (tw=/ filostovrgw/);

o complemento directo (do particípio tw=/ filostovrgw/: to; eujfrai=non);

– agente da passiva: diav+genitivo (di! aujtw=n hJmw=n);

– orações subordinadas:

o condicional de modo real (a]n dev se tw=/

dusforei=n uJperbavllousan eu{rw,…);

o causal

(o{ti kai; soi; poqouvsh/ qugavthr meta; tevssara∫

uiJou;∫ ejgennhvqh).

3. Proposta de tradução:

Ao menos, querida esposa, cuida de mim e de ti também, neste momento de dor. Sem dúvida, conheço pessoalmente e posso avaliar o impacto dessa morte; mas, se venho a saber que te excedes na manifestação do sofrimento, semelhante atitude causar-me-á mais

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desgosto do que o sucedido. E eu não sou, de modo algum, filho “de um carvalho nem de um rochedo”!7 Pelo contrário. Porque partilhaste comigo a educação dos nossos filhos, todos criados em casa por nós ambos, sabes bem o seguinte: que, por ser uma filha, por ti desejada, nascida depois de quatro meninos, me proporcionou a oportunidade de lhe dar o teu nome e foi objecto de um amor muito especial da minha parte. De facto é natural que quem ama o encanto e a inocência das crianças, sinta por uma de tenra idade um afecto particular, verdadeiramente despojado de toda a perturbação e censura.

CARMEN SOARES

_________________

7 Esta é uma frase feita, usada com o sentido de reforçar que também ele, apesar de ser homem e pedir à esposa contenção no luto, tem sentimentos. Esta é uma expressão com reminiscências homéricas (cf. Ilíada 22, 126 e Odisseia 19, 163), empregue igualmente por outra grande referência da poesia grega arcaica, Hesíodo (Teogonia 35).

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