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Pode a Juventude Moçambicana Ver a Mudança Que Deseja em 2009? 1

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Pode a Juventude Moçambicana Ver a Mudança Que Deseja em 2009?1 Por: Raúl Chambote – 28 de Dezembro de 2008 - UK raulchambote@hotmail.com

A questão colocada pode suscitar mais perguntas que dar respostas conclusivas. Se mais perguntas seriam as possíveis respostas, qual é a relevância de fazer esse questionamento? Estamos perante o fim do ano de 2008 e um breve olhar sobre a Juventude e seu papel em 2009 configura-se importante para o Estado Moçambicano.

Mas antes de prosseguir, algumas notas. Primeiro, a Juventude Moçambicana não é homogênea do ponto de vista de interesses e crenças ideológicas. Será difícil tentar definir esses interesses e ideologias à luz de valores ou conceitos como patriotismo, nacionalismo, democracia ou moçambicanidade que sejam pacífico e consensualmente aceites por todos. Todavia, discutível que pareça, consensos não são mais que ceder menos e aceitar que a posição de outrem não seja completamente ignorada. Segundo, a Juventude encarada sob a vertente de camada social. Há jovens que vão herdar de seus progenitores a gestão de negócios familiares; jovens trabalhadores nas plantações e fábricas de tabaco; jovens empregues nas fábricas de bebidas alcólicas, na indústria mineira, outros na “indústria de desenvolvimento”, nos partidos políticos, na imprensa e demais sectores. A todos esses vai o meu convite de mudança no ano de 2009.

Podemos distinguir na Juventude Moçambicana dois grandes grupos. A juventude empregada e a desempregada. Não discutirei aqui a questão da juventude desempregada mas empregável. Vou-me centrar na dicotomia empregado-desempregado. Para os/as jovens empregados/as a ascendência social, económica e até política é muitas vezes consequência dos circuitos em que o jovem está inserido e como ele/a capitaliza tais oportunidades para se afirmar como indivíduo e cidadão que o Estado precisa. Tal afirmação estará necessariamente inserida num quadro configurado de consensos institucionais formais ou informais. Esse, é um ponto de vista desconfortável, na medida em que a liberdade é tida, por alguns segmentos da juventude, como um valor absoluto e o fim sublime das nossas acções sócio-económicas e políticas. Mas a liberdade não é mais do que o exercício de poder dentro de limites contextuais social ou politicamente estabelecidos. Isso, não deve ser confundido com os apelos à “boa governação ou democratização” das Instituições Financeiras Internacionais desde primórdios de 1990 até aos nossos dias, que embora sejam importantes “não estão ainda cientificamente provados que são condições necessárias e indispensáveis para desenvolvimento”

(Leftwich, 2005; Diamond, 2003; List, 1885/1966) que queremos ver em Moçambique.

Precisamos de nos lembrar que “todas as coisas são sujeitas à interpretações; qualquer que seja a interpretação que prevalece num dado período de tempo está em função do poder e não da verdade” (Friedrich Nietzche). O poder no quadro dos limites de liberdade é exercido em quase todas as instituições formais ou informais, desde as instituições do Estado (político-administrativas, sector público e as academias), organismos internacionais (agências oficiais de desenvolvimento e as ONGs, as instituições privadas (todo o sector privado, confissões religiosas) até nas relações sociais diárias. Seria

1 As referências bibliográficas podem ser solicitadas ao autor.

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bastante utópico que a juventude empregada desqualifique o contexto do exercício das suas liberdades para verem a mudança que desejam em 2009 nos seus respectivos sectores de trabalho.

Para os/as jovens desempregados/as há que distinguir os príncipes herdeiros ou as princesas herdeiras de negócios de seus progenitores, e os/as muitos/as graduados/as moçambicanos/as das nossas universidades e também de fora do País. Para os/as herdeiros/as a questão de aprender princípios de boa gestão de negócios pode ser de suma importância para que não se repitam erros de seus progenitores que tiveram imensas dificuldades em equilibrar princípios político-ideológicos com as exigências reais de sustentabilidade económica num mundo em permanente mudança. Quando Moçambique celebra a independência em 1975 coincide com o apogeu da importância do papel do Estado na economia a nível global, mas que é contraposto na década de 1980 pela importância do papel do mercado na economia, reduzindo o do Estado, a conhecida ideologia neoliberal. A ideologia neoliberal e os princípios do mercado livre favorecem à esse grupo de desempregados/as a ter um olhar realístico e coerente sobre os problemas de desenvolvimento económico do País. Seria a visão e coragem desse grupo, dado ao poder económico que detêm e o circuito de intensidade de relações políticas e sociais que usufruem mostrar ao mundo as maravilhas turísticas de Moçambique escondidas nas fontes e cascatas de Penhalonga em Manica, nas cascatas de Namarroi na Zambézia, nas águas termais em Morrumbala/Pinda na Zambézia, processamento de chicoa no Zumbo e madzai a n’somba (ovos de peixe) em Mutarara, ou malambe em Tete, processamento de lifetse/mulina em Inhambane. Esses são apenas exemplos pois as províncias de Moçambique oferecem mais do que isso.

As pessoas são livres de gastar o dinheiro que têm como quiserem e onde quiserem, mas a falta de visão do tipo de investimento que impulsione o desenvolvimento do País hipoteca o futuro de todos nós. Desejo a esses futuros/as herdeiros/as que se exponham às maravilhas e contribuam com iniciativas privadas produtivas e comerciais coerentes. Não vejo nenhuma corrupção se filhos/as da nossa elite política ou económica investirem com competência profissional e paixão desenvolvimentista em Moçambique. Todavia, considero e sempre classificarei de vergonhoso e abominável que depois de mais de 32 anos de indepenência, subtraídos com os 16 anos de conflito armado ainda não tenhamos nenhum hospital equiparado com os dos países desenvolvidos que satisfaça as necessidades de atendimento de todos e em particular às doenças da elite política e económica de Moçambique. Não se propõe aqui exclusividade no tratamentos às doenças de cidadãos moçambicanos, como foi o caso da Clínica dos Deputados proposta nesta legislatura na Assembleia da República. Trata-se de diversificar e providenciar serviços de saúde de alta qualidade, donde se espera que aqueles que tem dinheiro gastem-no em Moçambique. A morte do presidente Zambiano Mwanawasa, num hospital na França e não num hospital na Zâmbia, após sua saúde ter-se complicado numa conferência de Chefes de Estado lá pelo Norte de África, deve servir como lição de como nós queremos ver Moçambique nos próximos anos. Algo similar se passa na Nigéria onde o presidente viaja constantemente para Alemanha para ser tratado. Se algo semelhante acontece em Moçambique penso que a nossa elite política e económica precisa fazer exame de consciência senão corre o risco de ficarem apagados na memória do povo e da história

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moçambicana escrita pela geração pós 4 de Outubro de 1992. Não seria um contributo nacional gastar um pouco mais de dinheiro a construir um hospital adequado e atrair médicos de diversas especialidades a trabalhar com médicos nacionais para melhor gestão da saúde pública? Se os progenitores político-económicos não conseguiram realizar essa tarefa devido a imperativos de estabilidade política, os/as herdeiras se tiverem visão ainda podem inverter tais situações embaraçosas ao orgulho Africano ou Moçambicano.

Quanto aos graduados das universidades o desafio parece maior, pois diplomas de licenciatura ou mestrado continuarão a servir de bandeiras para marchas sociais numa incessante busca de emprego e, mil e um CVs terão de ser submetidos às empresas ou ONGs, numa lógica neoliberal afinada onde a competência e competição reinam. Não nos direccionamos pelas teorias deterministas, dentre elas, a darwiniana que advoga sobrevivência dos mais forte, mas acolhemo-la no quadro dos limites das liberdades institucionais onde a juventude pode criativamente desenvolver suas potencialidades para ver a mudança que deseja em qualquer época e, particularmente no ano 2009. Os nossos diferentes interesses constituem os nossos grandes desafios para o ano 2009. Em várias ocasiões de debate no ano que termina parece que perdemos algum compasso de tempo em termos de em quê, se existe alguma razão ainda, nos posicionamos como uma juventude robusta e com visão.

O autor destas linhas e a maioria da juventude desde País fazem parte da geração que não conheceu o colonialismo e nem viveu as vicissitudes dos 10 anos de luta de libertação.

Todavia, os benefícios da independência nacional usufruidos ao sabor acre do conflito armado de 16 anos nos fazem orgulhosos/as filhos/as desta Pátria cuja história nos remete à reflexão sobre as mudanças que desejamos ver em Moçambique. Temos memória distante sobre colonização e escravatura, assim como dos objectivos traçados na década de 1960 sobre a independência nacional, mas são legítimas as nossas perguntas como por exemplo: foi esse nível de desenvolvimento político, económico e social que os Moçambicanos, como um povo desejaram? Qual é o nosso papel no desenvolvimento e na história da humanidade hoje? É sermos identificados como País das calamidades naturais; que não consegue alimentar-se; dependente da ajuda externa ou sem capital humano enquando graduados pululam pelas cidades sem emprego ou melhor 45% de intelectuais Moçambicanos a trabalhar fora do País? (Banco Mundial, 2005)

Sejam respeitados, como jovens, os nossos diferentes interesses, mas precisamos criticamente avaliar o quadro comportamental não só das gerações que nos precedem, mas também a nossa própria geração dentro dos limites das liberdades institucionais para melhor avaliarmos o nosso papel e direccionar as nossas acções. Respeitamos as opiniões daqueles que dizem que as/os Moçambicanas/os não críticas/os (Sumich, 2007; Buur, 2007), mas dois exemplos nos fazem reflectir seriamente sobre tais alegações. Primeiro, a nossa capacidade, como jovens, de fazer questionamentos não reactivos mas construtivos.

Vejamos: é extremante desencorajador para um/a jovem graduado com aflição de emprego questionar publicamente porque o Conselho Nacional de Combate ao Sida (CNCS) tem muitas viaturas 4x4 enquanto a maioria dos Postos de Saúde não tem ambulâncias; ou porque dar poder de decisão em matérias de saúde a pessoas não

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formadas em medicina. Não estariam os/as médicos/as ou enfermeiras/os com conhecimentos e abilidades suficientes para conduzir os destinos da saúde pública do País sobre HIV-SIDA? Temos reservas se os médicos/as e enfermeiras formados nos últimos 10 anos beneficiaram-se dum investimento sério de formação e investigação sobre HIV- SIDA. Sobre malária, o Centro de Manhiça é exemplo incontestável. HIV-SIDA por ter sido dissociada e deslocada do mundo real das doenças para o mundo económico, acabou sendo conhecida nos círculos críticos dos países desenvolvidos como a doença das celebridades/personalidades, onde eminentes figuras políticas Africanas, Europeias e Americanas, promovem suas próprias imagens e políticas; os músicos e artistas promovem a venda de suas músicas e DVDs, e empresas promovem seus produtos em nome dos sofredores de HIV e SIDA. Esperemos que não atinjamos o estágio de Estado Enfermaria para que se invista com objectividade nos médicos e enfermeiros que cuidam da nossa saúde e se criem sinergias para acolher experiências médicas de outros países.

Segundo, ausência da nossa afirmação consciente face aos desafios políticos e económicos do País fazem, em parte, com que Moçambique seja um espaço tão aberto onde pessoas que conhecem Moçambique a partir de relatórios quantitativos, viciados e institucionalmente preconceituosos ditem as regras do jogo do que é melhor para os Moçambicanos. Qualquer pesquisa, conduzida por seres humanos, não está livre de juízos de valores e há sempre uma margem de preconceitos. Os economistas moçambicanos e outros sabem quais foram as instituições que promoveram a destruição da indústria de cajú, erro reconhecido anos depois, mas não houve reparo ainda. Em 2006, um estudo sobre assistência técnica em Moçambique refere que “os países ricos gastavam US$350 milhões por ano para pagar salários de 3.500 experts estrangeiros, enquanto apenas US$74 milhões por ano era para salário de 100.000 pessoas que compunham todo o sector público (Green, 2008). Não é menos problemático, quando individualidades internacionalmente respeitadas como Dr. Prof. Jeffrey Sachs, que nunca soube o que significa uma aldeia no contexto Moçambicano ou Africano, tenha a arrogância de nos ensinar como se organiza uma aldeia (Millennium Village/Aldeia do Milênio) em Chibuto. Precisamos mesmo alguém que ensine aos Moçambicanos como se organiza uma aldeia? Estão já instaladas 79 aldeias nos países da África Sub-Sahariana e nalguns destes países será implementado o projecto do Millennium Towns (Cidades do Milênio).

Os resultados dessas Millennium Villages de Sachs se configuram desastrosos nos países onde estão a serem implementados, como foram desastrosas as políticas de ajustamento estrutural, conhecidas por PRE(S) em Moçambique, religiosamente defenidas por ele.

Podemos suavizar o conceito e operacionalizar o termo, mas a questão de alguém nos propor mais aldeias e não urbanização, situa-se distante da noção de “boa vida” que se usufrui nas cidades. No Século XXI Moçambique deve precisar mais de ambientes urbanos que sermos remetidos à aldeias, locais que não só caracterizam a aversão dos graduados universitários, como também já foram documentadas evidências no quadro da resistência às aldeias comunais que creio que Prof. Sachs não tem em conta isso no seu projecto alinhado com os Objectivos do Milênio. Iniciativas externas são boas mas não devem passar sem ser questionadas. Mas como?

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O autor deste artigo, não tem dúvidas que fora de quadros institucionais não haverá mudança que desejamos ver. Mesmo a questão de intelectualidade independente na história da humanidade foi desenvolvida e protegida por instituições. Houvera instituições que promoveram as ideias de Sócrates, Rousseau e até as ideias revolucionárias para as lutas de libertação em África. Isso não deve constituir surpresa a Juventude Moçambicana que anseia ver mudanças. A recente dinámica político-eleitoral e o comportamento dos partidos políticos face à seus próprios membros ilustram que as liberdades que desejamos não passa mais de um dado averiguado do exercício de poder dentro de limites institucionais.

Para terminar, há que apontar que vem aí mais um processo eleitoral em 2009. Há um aspecto que tem sido sistematicamente ignorado pelos analistas e até instituições nacionais e internacionais com missão de observadores. É a análise pós-eleições sobre violência durante as campanhas eleitorais que muita das vezes resulta em ferimentos graves, detenções e até mortes. Os jovens tem sido apontados como os grandes protagonizadores dessas façanhas. Parece-me que não há eleições em África sem violência e morte. Enquanto os analistas ficam preocupados em saber os resultados das eleições, o cidadão ferido, detido ou luto familiar, ficam deluidos no boletim de votos e nas percentagens entre a maioria vencedora e a minorida derrotada. Não se mexe mais no assunto até as outras campanhas eleitorias. Porque investimos na democracia se os frutos desta são colhidos a custa do desgaste das energias dos jovens e cidadãos incautos em pugilismos durante as campanhas eleitorais que em trabalho produtivo? As mudanças que os jovens querem ver em Moçambique não serão conquistadas pela participação consciente-ingênua quer em questões políticas, económicas ou de desenvolvimento. Os nossos diplomas não devem servir para manter o desnecessário status quo social da petulência aura académica em armarmo-nos de senhores doutores e senhoras doutoras.

Não esperemos que os outros providenciem a mudança que desejamos ver. Trabalhemos e conquistemos os espaços com inteligência, criatividade e convicção de que nós somos os actores principais da mudança que desejamos ver em 2009. Próspero 2009.

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