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Onde está seu filho?

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Academic year: 2022

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São Paulo, 2020 EDIÇÃO DA

E

AUTORA

CAROLINA THIERI

Onde está seu filho?

E x c l u s ã o d a s m u l h e r e s

p ó s m at e r n i d a d e

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Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)

(Sistema de geração automática de Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca FIAM-FAAM)

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios acadêmicos

ou outros quaisquer sem autorização prévia da autora.

Copyright © 2020 Carolina Thieri - Todos os direitos reservados.

Livro-reportagem apresentado como trabalho de conclusão de curso, uma exigência para a obtenção do título de bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) do FIAM-FAAM Centro Universitário.

Reitor

Profª. Ms. Manuel Nabais da Furriela Gerente da HECSA

Profª. Ms. Laura Domingos Coordenador de Curso Prof. Ms. Benedito Moraes Orientadora

Profª. Drª. Maria Lucia da Silva Arte da capa

Dora Lia Gomes - Design e Ilustração Diagramação

Israel Dias de Oliveira

Onde está seu filho? Exclusão das mulheres pós maternidade / Carolina Thieri;

orientadora Profª. Drª. Maria Lucia da Silva — São Paulo, 2020.

63p.: il.

Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel - Jornalismo) — FIAM-FAAM Centro Universitário, 2019.

1. Mulheres mães. 2. Maternidade. 3. exclusão. 4. Solidão. 5. Livro-reportagem.

6. Jornalismo. I. Silva, Maria Lucia da. II. FIAM-FAAM Centro Universitário. III. Título.

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edico este livro-reportagem a todos que contribuí- ram para que ele acontecesse, toda rede de apoio que me fez chegar até aqui.

Em memória ao meu pai Austrojesilo Thieri, paulista de Ibitinga, que sempre me acolheu e me incentivou. À minha mãe, Maria Domingas Oliveira, baiana de Floresta Azul, mais conhecida aqui em São Paulo, como Ângela de Xan- gô. Não existem palavras para demonstrar minha gratidão a esta mulher, que não teve acesso aos estudos, mas nunca deixou de me acompanhar na vida e na luta que foi termi- nar esse curso. Graças aos dois, vou ser a primeira mulher da família a conquistar um diploma na universidade, sem também esquecer o apoio de minha irmã Daniela, que foi fundamental. Essa conquista é deles, de toda a família e dos meus ancestrais.

Agradeço também ao meu filho Miguel, razão deste livro existir e razão de todos os meus sonhos. Todos esses anos es-

Agradecimentos

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perando a mamãe chegar da aula pra receber um beijo antes de dormir, serão finalmente compensados. Te amo.

Preciso citar algumas pessoas muito importantes que fi- zeram parte dessa rede: Lucas meu parceiro que me acompa- nha há três anos e viveu de perto todos os choros, angústias e alegrias que a faculdade me trouxe. Beatriz, avó paterna de Miguel, que segue incansavelmente apoiando meu filho para que ele seja feliz e tenha um lindo futuro. Rodrigo, pai da minha cria, por ter me proporcionado essa loucura que é ser mãe e ter me apoiado desde quando decidi estudar. Foi ele quem esteve com o Miguel, na maioria das vezes, em que eu estava na sala de aula. Helon, minha amiga desde a adoles- cência, que conhece tudo sobre mim e sempre me ajudou em diversos aspectos. Além de outras amigas que fazem parte da minha história, Caroline Peixoto, Carolina Machado, Jéssica Sanches, Julia Portela, Marina Moraes e Luiza Cardoso.

Minha orientadora Maria Lúcia, que fez toda a diferença, desde que a conheci. Compreendeu cada dificuldade minha e sempre me motivou a não desistir.

Por fim, agradeço todas aquelas que toparam comparti- lhar suas histórias comigo, além de fontes, são mulheres que fazem parte das minhas referências pra vida.

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Sumário

Solidão materna ...7 Introdução ...8 Meus Relatos ...9

Andrea

Empoderada no forró ...12

Heloísa

Conhecer é libertar ...21

Kássia

Mãe solo com marido ...32

Tâmara

“Nunca quis ser mãe”...41

Tamires

Solidão de volta ...50

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solidão materna pode vir acompanhada de um certo estranhamento. Como pode, uma mãe se sentir sozi- nha, tendo um filho que é seu dependente?

É simples pois, embora uma mãe esteja em constante de- senvolvimento na criação de um vínculo com sua prole, si- multaneamente, ela é cada vez mais afastada das demais áreas e círculos sociais que, até então, faziam parte de sua vida.

A sociedade não sabe lidar com mães.

Solidão materna

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entro da construção da imagem feminina na socie- dade está a maternidade. O papel das mães ainda é idealizado a partir dos conceitos de amor maternal, ideais de dedicação à família e amor romântico, onde a mu- lher deve estar sempre linda, feliz, completa e satisfeita.

Por experiência própria percebi que as mulheres são vistas com outros olhos após a maternidade, são excluídas e deixam de existir como mulheres e passam a ser vistas e interpretadas somente como mães, assumindo um papel já elaborado ao longo de séculos, que é o de mulher como ser reprodutor. Por que no meio de todo processo, a mulher mãe é isolada e inadequada para participar de diversas tarefas e frequentar determinados ambientes?

Foi assim que nasceu a ideia de escrever esse livro, para registrar alguns questionamentos meus, enquanto mulher e mãe. Acredito que discutir sobre a responsabilidade de cria- ção das crianças e dos direitos das mulheres é totalmente ne- cessário e urgente.

Introdução

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esde sempre eu sabia que gostaria de ser mãe.

Aos meus 20 anos, o Miguel surgiu. Quando engra- videi, estava com nove meses de namoro e estava em processo de troca de método anticoncepcional, saindo da injeção para a pílula e não estava nada preparada psicolo- gicamente, muito menos financeiramente. Foi assustador e ao mesmo tempo amei cada segundo da gravidez, me senti muito feliz e amava aquela sensação de ter uma vida dentro de mim, mesmo enjoando sete meses seguidos.

Assim que fiz o exame de sangue e descobri a gravidez, fui morar com o pai dele, porque tive muito medo da reação que meu próprio pai teria quando soubesse. Minha relação com o meu ex mudou e, analisando nove anos depois, sei que éramos jovens demais pra lidar com tantas mudanças.

Quando meu filho nasceu, senti todo o amor do mundo, mas mesmo assim, não estava totalmente bem e feliz. Quase todos os dias brigava com o pai dele e nesses momentos tinha

Meus Relatos

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vontade de sumir, de morrer, só para acabar com tantas an- gústias. Nessa época eu não fazia ideia do que era depressão pós-parto, não sabia que eu podia e deveria procurar ajuda, chorava muito e foi ali que comecei a me sentir incapaz e acreditava que não era uma boa mãe para o meu filho.

Só tive dias melhores depois de 6 meses, quando voltei a trabalhar e o Miguel passava o dia na escolinha — sofri muito ao deixá-lo, mas era a única opção.

Melhorei, consegui um ótimo emprego, mas a relação com o pai dele continuou difícil. Quando Miguel completou três anos decidi terminar o relacionamento. Foi um processo complicado, pesado, cheio de culpa e medo. Até hoje, toda vez que toco nesse assunto, me perguntam se o pai é presente, se ele “ajuda” na criação e minha resposta é sempre a mesma, a de que ele exerce a paternidade da melhor maneira possível, de fato ele é um pai. Talvez essa pergunta seja tão recorrente porque, de acordo com o IBGE, no Brasil são cerca de 12 mi- lhões de mães que chefiam os lares sozinhas. Infelizmente o abandono paterno é tão comum, que um pai praticando suas responsabilidades chega a ser impactante.

Nesse momento também decidi estudar Jornalismo e pas- sei a observar o quanto a mulher, mãe, é extremamente julga- da e excluída em diversos aspectos.

Ouvi frases como: você não pode mais casar porque já morou junto com alguém e tem filho, ou o clássico quem pa- riu que balance. Também fui questionada em uma entrevista de emprego sobre qual seria a minha prioridade, meu filho ou o trabalho. Ainda teve aquela vez que a mãe de um na- morado queria esconder da avó dele que eu era mãe, porque a avó poderia não reagir bem, quando, na verdade, ela era a única que tinha problemas em relação à minha maternidade,

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CAROLINA THIERI

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como se eu estivesse procurando um pai para o Miguel. E é claro, as muitas vezes que a maioria de nós é obrigada a es- cutar de forma invasiva e constrangedora, a frase: Onde está o seu filho? Toda vez que estamos exercendo a nossa indivi- dualidade enquanto mulheres, e não somente mães.

A minha construção de maternidade é o motivo desse projeto existir. Este livro retrata mulheres e mães diversas, mas que ao mesmo tempo carregam culpas, frustrações, su- perações e anseios semelhantes.

Essas são suas histórias.

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Andrea

Empoderada no forró

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onheço a Andrea desde a minha infância. Ela é a irmã de uma das minhas melhores amigas. Eu era criança quando ela engravidou na adolescência aos 14 anos.

Como todo primeiro amor, Andrea estava perdidamente apaixonada pelo pai de sua filha. Eles namoravam desde os 12 anos e aquele era o primeiro relacionamento de ambos. A descoberta da gestação foi um susto e não poderia ter sido mais inesperada.

A gravidez foi complicada, não fisicamente, mas sim psi- cologicamente, já que a responsabilidade era grande demais para uma adolescente. Justamente na juventude, onde todos querem sair para se divertir, ela estava sozinha, passando por uma experiência completamente nova. Não fazia ideia do que era ser mãe, e a falta de alguém para compartilhar esse mo- mento, apenas deixou tudo mais complicado.

O próprio ex-namorado não partilhava desse sentimen- to. Enquanto ele continuou saindo e vivendo a vida normal

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de um adolescente, ela evitava qualquer passeio, já que os olhares de “ah, coitadinha” ou “tão jovem e já acabou com a vida”, a machucavam cada dia mais. Percebeu, com o passar do tempo, que seu parceiro na verdade estava ao lado dela por obrigação, não por companheirismo.

No dia do parto, quem ficou ao seu lado foi sua mãe. Os comentários que ouvia no hospital, de que Isis seria uma bo- nequinha ou de que seria como ter uma irmã, a incomoda- vam, e sempre respondia de forma grosseira: Ela não é uma boneca, é minha filha e sempre saberá disso.

Andrea não falava sobre sexo com seus pais. Dentro de sua casa, não havia essa abertura, tanto que ela foi ao gine- cologista pela primeira vez, quando já estava grávida. Ainda assim, seus pais foram sua base para que ela não desistisse de nenhum de seus objetivos. Desde que descobriram a gravidez sempre ofereceram estrutura para a filha e a neta.

Tudo é mais difícil quando se é mãe solo e não existe divisão da responsabilidade. O pai nunca estava presente em nenhum assunto relacionado à filha, pelo menos até ela completar 15 anos, quando começou a buscar um vínculo.

Essa situação está longe de ser um caso isolado. De acordo com dados colhidos pelo IBGE em 2015, somente no Estado de São Paulo, existiam 750 mil pessoas sem o nome do pai no registro.

Conseguiu continuar estudando graças aos seus pais e a avó paterna, que formavam a sua rede de apoio. Ela frequen- tou a escola até uma semana antes da sua filha, Isis, nascer em setembro de 2001.

No ano seguinte, através de uma cliente da sua mãe, con- seguiu um trabalho e seguiu com os estudos. Andrea ganhava o suficiente para deixar a Isis o dia inteiro em uma escolinha

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CAROLINA THIERI

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na Vila Monumento, próximo ao museu do Ipiranga, onde moravam em São Paulo. O avô a levava de manhã e a sua avó paterna buscava no final da tarde. Essa rotina aconteceu du- rante quase nove anos.

***

As mulheres são excluídas diariamente, seja das formas mais sutis, ou até mesmo as mais constrangedoras. Com a Andrea não foi diferente, ainda mais vivendo uma materni- dade solo na adolescência. Em uma viagem de mãe e filha para Goiás, ela sentiu isso na pele. Todo lugar que chegava com a Isis, se tornavam o centro das atenções. Mesmo sem ouvir nenhum comentário, os olhares eram inevitáveis e fa- lavam por si só.

O café da manhã e o jantar eram os momentos mais difí- ceis. Ao seu redor, famílias vistas como tradicionais as olha- vam com estranheza. Quando sua filha fazia amizades com outras crianças, os pais sempre questionavam “nossa, mais veio só você e sua mãe?” “quantos anos sua mãe tem?” “e seu pai, cadê”?

Pode até parecer bobagem, mas ocasiões como essa acon- tecem todos os dias e machucam, certamente os homens que exercem a paternidade não passam por isso, já que a partici- pação deles na criação dos filhos tende a ser glorificada e não depreciada como no caso das mulheres, mas isso não cabe a mim julgar. Agora, cabe a Bell Hooks, aclamada intelectual feminista e escritora, concluir: as ativistas feministas visio- nárias jamais negaram a importância da paternagem, mesmo enquanto trabalhamos para criar mais reconhecimento da maternidade e do trabalho das mulheres que exercem a ma-

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ternagem. É um desserviço para todas as mulheres quando a glorificação da participação do homem na parentalidade leva à depreciação e desvalorização do trabalho positivo de maternagem das mulheres.

***

Apesar de sofrer com o afastamento dos seus amigos, a maior mágoa que Andrea carregou durante muitos anos foi a ausência do pai da sua filha. Perdeu a conta de quantos en- contros ele marcou com a Isis e simplesmente não apareceu.

Enquanto o ex-namorado vivia com liberdade a sua juventu- de, Andrea tinha que organizar cada minuto da sua rotina, cumprir todas as suas tarefas de mãe para conquistar o seu momento de diversão adolescente.

Aos sábados, cuidava da casa, da Isis, cozinhava e depois das seis da tarde, enquanto seu pai cuidava da neta, ela pegava o ônibus e partia para a aula de forró na antiga casa KVA, onde hoje funciona a casa noturna o Canto da Ema, na zona oeste de São Paulo. Naquele tempo não sobrava dinheiro e ela entrava sem pagar, graças a amizade que fez com um dos professores.

Dançava até cinco da manhã e essas horas eram extremamente importantes para ela. Depois de perder seu círculo de amizade, foi um grande passo para voltar à vida social.

Fez isso por um bom tempo, mas com o avanço nos es- tudos e após ingressar em um relacionamento no qual seu parceiro não gostava de forró e sentia ciúmes em vê-la dançar com outras pessoas, ela parou de dançar. Durante todo esse tempo, suas realizações eram baseadas nas necessidades de sua filha. Quando não estava se dedicando à maternidade, estava focada no seu namoro.

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Ela não existia enquanto mulher, não se amava, não havia um momento só dela. Essa é a primeira sugestão que a escri- tora nigeriana, Chimamanda dá para sua amiga de infância em seu livro “Para Criar Crianças Feministas: O Manifesto”:

seja uma pessoa completa, a maternidade é uma dádiva ma- ravilhosa, mas não seja definida apenas pela maternidade.

Seja uma pessoa completa, vai ser bom para sua filha.

Quando a Isis passou na faculdade, em Minas Gerais, Andrea tomou duas decisões: a primeira foi deixá-la ir e a segunda, terminar a relação de 12 anos, que já estava desgastada. Essa decisão foi muito difícil, ela se sentia cul- pada por tudo e, no seu ponto de vista, essa também era uma questão de culpa materna, já que pensava demais em todos e pouco em si mesma. Foi quando se viu comple- tamente sozinha, sua filha estava longe e não tinha mais um namorado. Estava perdida e não sabia o que era viver somente para si.

Se descobriu mulher e, depois de 12 anos, voltou para o forró. Percebeu que não podia nunca mais abandonar a dança, já que o arrasta pé a salvou duas vezes da depressão:

quando Isis nasceu e hoje, quando finalmente se libertou da culpa materna.

Agora, ela acredita que não temos que ser mães 24 ho- ras por dia, é exaustivo. Para ela, os homens exercem a paternidade sem cobranças e culpas. A mulher mãe que vai pra balada sempre é questionada “mas onde está o seu filho?” e o homem não recebe esse tipo de pergunta, não é cobrado por isso.

Ao final da nossa conversa, Andrea notou ao olhar para trás e relembrar as suas experiências, que percorreu um lon- go caminho até se tornar a mulher e mãe vitoriosa que é hoje.

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A minha vida podia ter dado muito errado, fiz duas faculdades, se eu escutasse os outros, se eu não tivesse sido tei- mosa, eu não teria conseguido. Me sinto muito feliz por ser quem eu sou, minha filha está com 19 anos, numa universi- dade federal, morando em outro estado. É uma sensação de vitória, contra tudo que falaram que ia dar errado — conclui a professora de educação infantil, Andrea.

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Andrea e Isis

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Isis em sua festa de debutante entre sua mãe, Andrea (esq.) e sua tia, Marina (dir.)

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Heloísa

Conhecer é libertar

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onheci a Heloísa, que chamo carinhosamente de Helô, quando participei do projeto social TEIA, que atende mais de 60 crianças, na Vila Monumento, em São Paulo, e oferece reforço escolar e várias atividades que estimulam a educação e a cultura. Ela sempre foi responsável pela parte assistencial à todas famílias do projeto, faz isso até hoje com todo cuidado e carinho. Ela já era mãe do Filipe e eu do Miguel.

Heloísa sempre planejou dois filhos, de preferência de idade próxima entre eles. Havia combinado com seu marido, Ivan, que teriam o primeiro bebê em 2020, cinco anos depois de terem comprado sua própria casa. Seus planos não saí- ram como planejado, já que Filipe decidiu adiantar um pou- co esse cronograma e nascer naquele mesmo ano de 2016, quando ela tinha 29 anos.

A maternidade sempre foi um sonho para Helô, que des- de pequena comentava com sua irmã sobre a vontade de ser

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mãe. Hoje, ela entende que essa “vontade”, era na verdade a pressão que a sociedade exerce sobre as mulheres para que, desde pequenas, alimentem a necessidade de se tornarem mães. De qualquer maneira, isso se tornou um grande sonho.

As duas gravidezes foram complicadas. Ela enfrentou problemas de saúde durante as gestações e sofreu imposições para que realizasse cesárea, ao invés de um parto normal, que era o seu maior desejo.

Na primeira gestação, confiou seu parto a uma médica que prometeu respeitar seus desejos, porém, ao fim, a em- purrou para uma cesárea agendada. Hoje, a professora uni- versitária da Faculdade de Enfermagem da Unicamp, sabe que aquele foi um procedimento desnecessário, uma vez que não há necessidade de se marcar uma cesárea, nem mesmo nos casos em que ela é essencial. De acordo com o Ministério da Saúde, do total de partos realizados no país, 55,5% são ce- sáreas. Nos hospitais particulares, a taxa pode alcançar 84%

dos procedimentos e Heloísa endossa essa estatística.

Para a segunda gestação, Helô se preparou com antecedên- cia e contratou uma equipe humanizada para acompanhá-la durante o processo. O alto valor investido a fez refletir sobre o acesso a um cuidado humanizado e como ele acaba sendo elitizado, já que deveria ser um direito à todas as mulheres.

A doula é uma das profissionais que pode auxiliar a mu- lher durante o processo de gestação. A palavra “doula” vem do grego “mulher que serve” e, atualmente se aplica a mulhe- res que dão suporte físico e emocional a gestantes durante o pré-parto, parto e pós-parto imediato. Camila Arruda, en- fermeira de 36 anos, decidiu se tornar uma doula justamente após sua filha Clara nascer e se arrepender de não ter tido esse acompanhamento.

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A Doula faz o trabalho de apoio, 3 encontros durante o pré-natal para criar o plano de parto juntas, são os desejos da mulher, o que ela quer que aconteça na hora do parto. Por exemplo, alguns hospitais têm protocolo de procedimento, la- vagem intestinal, fazer o corte,e no plano de parto garantido por lei, a mulher tem o direito de colocar o que deseja no par- to, a doula ajuda a fazer o plano de parto, mas não interfere na equipe médica ela fica à disposição da mulher gestante.

— conta Camila.

Esse serviço ainda é pouco disseminado e reconhecido na rede pública de saúde, que conta com uma rede de voluntá- rias, e equipe humanizada profissional particular pode custar em torno de R$20 mil.

Com direito a um atendimento exclusivo, que envolveu exercícios e massagens ao lado de sua doula, Helô ficou três dias em trabalho de parto, sendo 6 horas de trabalho ativo, ainda assim, precisou realizar uma cesárea de emergência por conta do tamanho de Rita, que pesava mais de 4 quilos, mesmo com dilatação completa. Heloísa não teve o parto da forma que gostaria, mas a aplicação correta da cirurgia foi o que salvou a sua vida e a de sua filha.

Com a realização do sonho, Helô começou a vivenciar as experiências da maternidade e os preconceitos que a ela são atribuídos nas mais diversas camadas sociais, em especial, no mercado de trabalho.

Recorda de quando estava sendo avaliada em uma banca de doutorado e, lhe foi perguntado a respeito do que faria quanto a seus filhos. Pensou que essa indagação jamais seria feita a seu marido, já que, em nossa construção de socieda- de, a função de cuidar do filho é exclusiva à mulher. Lucila Scavone, professora Livre-Docente do Departamento de So-

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ciologia UNESP/Araraquara, diz que a experiência da ma- ternidade é um elemento-chave para explicar a dominação de um sexo sobre outro: o lugar das mulheres na reprodução biológica — gestação, parto, amamentação e consequentes cuidados com as crianças — determinava a ausência das mu- lheres no espaço público, confinando-as ao espaço privado e à dominação masculina.

Heloísa conta ainda, que um contrato de trabalho não foi renovado por conta da gravidez que, por ser uma gestação de risco, deveria ter sido comunicada com maior antecedência, isso na visão dos contratantes.

Com a pandemia, sem a creche para as crianças, a divi- são de tarefas entre ela e seu marido teve de ser ainda mais elaborada, para que ambos pudessem manter uma rotina de trabalho, sendo que ele, assim como ela, também é professor universitário. Eles também contam com a ajuda da mãe de He- loísa para cuidar das crianças. Os desafios ainda existem, com um filho de 4 anos e uma filha de quase 2, há uma dependência natural por parte das crianças pela mãe, algo que nem sempre é compreendido pelos colegas de trabalho que não têm filhos, seja pela interrupção das crianças durante uma reunião ou, o incômodo que alguns sentem ao ver uma mãe amamentando sua filha, ou melhor, não deixando que sua filha passe fome.

Helô, como a maioria, não escapa desses preconceitos.

É óbvio, que não seria apenas em situações profissionais que episódios como esses aconteceriam. Helô pensa que, de modo geral, a sociedade não está preparada para acolher as mães, em especial aquelas com mais de um filho. Nas diver- sas vezes em que tem de sair sozinha com eles, ela percebe os olhares que a condenam por estar ali com duas crianças, como se a presença deles não fosse bem vinda.

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Como ainda são pequenas, é difícil para Helô reali- zar qualquer atividade individualmente. Das coisas mais complexas como realizar o seu trabalho, até as mais banais como fazer as unhas toda semana, não há como se separar das crianças. Por consequência e, principalmente, por falta de empatia, essa realidade desmotiva convites por parte de amigos e afasta as mães de um convívio social. Em sua con- cepção, as pessoas nem sempre estão preparadas para acolher as mães e seus filhos, a ponto de fazer com que Helô evite determinados lugares por ter receio de como serão tratados.

***

A primeira política de saúde voltada para as mulheres no Brasil, foi o Programa de Saúde Materno Infantil (PSMI), criado em 1973, que oferecia serviços que tentavam garantir a saúde da mãe e do bebê. Até o início da década de 1980, as políticas de saúde voltadas às mulheres brasileiras eram dire- cionadas a apenas um ciclo de suas vidas, o gravídico-puer- peral, que é o momento em que a mulher mãe está suscetível a mudanças físicas, psíquicas e sociais, além de estabelecer os primeiros vínculos com sua prole.

Só em 2004 que foi consagrado o PNAISM ou a Política Nacional de Atendimento Integral à Saúde da Mulher, que consolidou políticas públicas que auxiliassem a saúde femi- nina de maneira integral, ao longo de todos os ciclos da vida.

É importante observarmos o quão recente é a universali- zação no cuidado à saúde da mulher. Ainda assim, segundo os últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 2015, o país registrou 1.463 casos de mortes causadas por problemas na gravidez, no parto ou até 42 dias após a ges-

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tação, o que nos leva a refletir não somente sobre a qualida- de dos atendimentos prestados mas principalmente, sobre o acesso a esses serviços.

Heloísa é consciente dos seus privilégios quanto a estas questões e vê a saúde no Brasil como um direito das elites.

Na sua opinião, as pessoas em situações vulneráveis não têm acesso a informações tidas como básicas, já que na maioria das vezes não possuem uma estrutura familiar fortalecida, além de não existir uma abordagem eficiente das escolas pú- blicas ainda na formação.

Para ela, existe um grande abismo entre aqueles que já possuem vantagens no sistema, e mulheres com baixa renda ou mulheres negras que precisam lidar com outros fatores além do preconceito contra a maternidade. Em outras pa- lavras, Heloísa entende que pertence a uma classe mínima comparada a realidade das mulheres brasileiras.

***

— A maternidade é uma responsabilidade única, não há nada mais significante do que ser inteiramente responsável pela a vida de outro ser humano, especialmente um vindo de dentro de você. Não há pausa, não há folga, o que acarreta em um sentimento de saudade, saudade de ter tempo — É assim que Helô reflete a princípio.

A professora sente que seu tempo é dividido da seguinte forma: quando ela não está trabalhando, está com as crianças e, quando não está com as crianças, está trabalhando. A mu- dança na rotina é inevitável e, por mais simples que algumas situações possam parecer, ela sente falta de dormir a hora que bem entender, de ler, de viajar sem se preocupar se está

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faltando levar na mala alguma coisa das crianças e, princi- palmente, a saudade que sente do relacionamento que tinha com seu marido antes dos filhos. Ela destaca que segue sendo uma convivência de muita parceria mas que já não é mais tão carinhosa ou próxima como em outros tempos. “Não há mais tempo”, ela diz.

Nenhuma dessas situações no entanto, é tão gritante para Heloísa quanto a debilitação de sua saúde mental. Ela enfrentou depressão pós parto nas duas gestações e isso a fragiliza até hoje, chegando até a pensar em cometer sui- cídio. Mesmo realizando acompanhamento médico e estar sob medicação, a dificuldade para Helô não está em conver- sar sobre isso, mas sim em tentar entender esse sentimento.

Tanto que, sempre segura e precisa em suas falas, encontra problemas ao tentar colocar essa sensação em palavras. Ela sente falta de como entendia as coisas quando estava de fato descansada. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saú- de), a depressão pós-parto atinge cerca de 25% das mães.

O número de nascimentos em 2017 foi de 2,9 milhões, de acordo com dados do IBGE. Assim, podemos concluir que hoje temos aproximadamente 740 mil mulheres que passa- ram ou passam pela depressão pós-parto.

É preciso entender que o puerpério é marcado por uma nova revolução hormonal, causando uma mudança física, emocional e psicológica na mulher. Tudo no corpo femini- no que precisou se organizar para receber um bebê, agora precisa se reorganizar para voltar ao seu devido lugar. Helô, por exemplo, ainda não teve seu ciclo menstrual restabele- cido e enfrenta dificuldades para se concentrar numa leitu- ra ou assimilar um curso quando comparado com o período anterior a gravidez.

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É parte do fenômeno conhecido como “cérebro de gravi- dez”, que teve sua confirmação em tempos recentes após es- tudos conduzidos na Universidade de Deakin, em Melbourne na Austrália. Os pesquisadores confirmaram a relação entre as mudanças cognitivas durante a gestação e o pós parto, com especial impacto na atenção e na memória da mulher.

***

Heloísa pensa que a mídia exerce um papel importante na construção do que entendemos por maternidade e que, mes- mo vendo mudanças na forma como a mulher mãe é atual- mente retratada em filmes e séries, ela ainda sente falta de um apoio à mães empreendedoras, mães reais e não somente as ficcionais. Não é o tema que ela possui mais propriedade para falar, mas ela se sente contemplada quando vê na tela uma personagem que converse com ela, que represente as di- ficuldades e os preconceitos que enfrentam diariamente.

— As pessoas te veem automaticamente como mãe, em to- das as situações e lugares, acho que essa é mais uma das si- tuações que meu marido, por exemplo, não irá passar. Acho que eu fiz isso com a minhas amigas adultas antes de ser mãe, está enraizado na nossa cabeça: “a mulher tem que cuidar da criança, cadê a criança quando a mulher está lá” — conclui.

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Heloísa em trabalho de parto acompanhada de sua doula, janeiro de 2019

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Heloísa com seu marido Ivan e os filhos, Filipe e Rita (2019)

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Kássia

Mãe solo com marido

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onheci a Kássia em uma das empresas que trabalhei.

Não levou muito tempo até que começássemos a ter intimidade, fomos nos conhecendo e não nos des- grudamos mais. Durante dois anos convivemos diariamente, nessa fase eu já era mãe e ela não.

Depois de muitos anos e um casamento — do qual eu fui madrinha — ela ficou grávida da Valentina. Fiquei muito feliz por ela, finalmente ia rolar papo de mãe entre nós.

Isso no entanto, não iria acontecer por vontade de Kássia, já que sua gravidez não foi planejada. Na verda- de, ela e o marido enfrentaram três anos de tentativas frustradas e, naquele ponto, já estavam conformados e haviam desistido de continuar tentando. Ambos estavam desempregados e passando por dificuldades financeiras naquele momento, dessa forma estavam decididos a abrir mão de tudo para recomeçarem a vida nos Estados Uni- dos. Com a gravidez, esses planos tiveram de ser repensa-

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dos completamente e tiveram de ficar na zona sul de São Paulo, onde sempre moraram.

Sua gestação foi tranquila, mesmo tendo diabetes ges- tacional, ela não enfrentou maiores problemas. Seu marido, Renato, a acompanhou em todos exames e consultas médi- cas, embora a ficha de que seria pai, tenha demorado a cair.

***

Agora, vamos fazer uma pausa da narrativa para ilustrar o cenário da minha entrevista com a Kássia. Como a conver- sa foi feita através de uma chamada por vídeo, a princípio ela tinha alguma privacidade, já que Renato, seu marido, estava com a Valentina.

Pouco mais de dez minutos depois do início, ele abre a porta do quarto e em um tom simpático, diz para a esposa ficar com a filha e naturalmente sai do cômodo.

Kássia, sem esboçar reação, pega sua filha, como quem já estivesse acostumada a isso. Ela então me diz que é assim mesmo, ele não consegue ficar muito tempo com ela pois não tem paciência. O restante da nossa entrevista então, acontece entre três pessoas.

Curiosamente, minha próxima pergunta para ela é sobre a divisão de responsabilidades entre o casal. O timing, vez ou outra, ajuda.

***

Ela diz que não há divisão alguma nas tarefas. Ela faz tudo. Dá banho, dá comida, troca a roupa, troca a fralda, ar- ruma o cabelo, tudo é ela quem faz. Algumas poucas opor-

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tunidades ele faz a mamadeira, mas somente se for pedido e jamais a dá para a filha.

No entanto, conta que antes era pior, que agora ele já a trocou por cerca de duas vezes e não faz isso mais corriquei- ramente porque, segundo o próprio Renato, não sabe limpar as partes íntimas dela, que saberia “manusear melhor” caso fosse um menino.

Em tempos recentes, após uma conversa séria entre os dois, ele melhorou, conta Kássia. Agora se esforça para lim- par ao menos o xixi da Valentina, mesmo que em raras tenta- tivas. O cocô ainda não.

O que incomoda Kássia é quem nem sempre foi assim.

Durante a gestação ele era um pai extremamente presente e atencioso, que chorou muito ao descobrir que teria uma filha.

Atendia seus desejos, jamais deixou de acompanhá-la em um exame médico ou de cuidar dela um instante sequer. Eles apro- veitaram muito a gravidez e cada sensação nova que surgia.

***

Kássia diz que não acreditava em preconceitos até viven- ciar uma situação como essa na própria pele, na empresa que trabalhamos juntas. Um dos diretores preferiu dar uma pro- moção a um homem da equipe, mesmo ela e outra funcio- nária sendo mais qualificadas e experientes do que ele. Foi naquele momento que entendeu que as mulheres possuem menos oportunidades que o homens e hoje, vê uma desvanta- gem ainda maior em relação às mães. Em uma pesquisa con- duzida no Reino Unido, publicada na revista Crescer, as mães são 47% mais propensas que os pais, a perderem o emprego ou deixarem o cargo.

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Essa exclusão não está restrita ao mercado de trabalho.

Kássia se sente deixada de lado toda vez que sai com os ami- gos do marido, até porque nenhum deles têm filhos. Quando estão juntos, ela sente como se fosse uma criança no rolê, brincando com a bebê, já que ninguém conversa com ela ou com a Valentina. É como se ela estivesse ali exclusivamente como mãe, cuja função é cuidar da filha. Não parece que elas existem, apenas de hora em hora quando alguém resolve fa- zer alguma gracinha com sua filha.

Kássia diz que não sente falta desse convívio, já que são pessoas que não fazem diferença em sua vida. Perguntada so- bre outros convívios sociais, um em que ela estivesse com seus próprios amigos e não os do marido, ela me responde com um sorriso de canto de rosto: amiga é só você e a Lili, olha isso? — nesse ponto, somos interrompidas pela Valenti- na, que tentava entrar no guarda roupa.

***

“Eu criei um bloqueio a partir de coisas que já ouvi, por- que não quero que minha filha seja vista como mal educada, ou incomode as outras pessoas”. É assim que Kássia inicial- mente responde sobre minha pergunta. Ela diz isso para ex- plicar a razão de ter diminuído o convívio com determinados grupos. A ajuda porém, vem das duas avós, com que ela sabe que pode contar para o que precisar. Há um apoio presente, seja psicológico ou financeiro, nas situações mais problemá- ticas ou nas cotidianas, elas sempre estão lá.

Mesmo com essa estrutura familiar, ainda não tempo o suficiente para que Kássia dedique algumas horas do dia para cuidar de si mesma. Se ela precisa ou quer fazer algo sozinha,

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prefere esperar o final de semana para deixar a filha com sua mãe, porque ainda não se sente à vontade em deixar a Valen- tina com o próprio marido. A sobrecarga gera exaustão, ao mesmo tempo ela tem de cuidar da filha, da casa e de Renato.

Kássia acredita que isso é fruto da criação dele, que sem- pre teve tudo pronto e disponível, feito pela mãe e a avó.

Hoje, isso se estende a ela, fazendo com que se sinta não es- posa, mas sim uma responsável por ele, tendo de abrir seus olhos constantemente para as tarefas do dia a dia e sobre as responsabilidades que ambos têm enquanto pais.

De certa forma, ela já desistiu de tentar. Chateação é o sentimento que a descreve, parece que antes os dois conse- guiam conversar mais e entenderem um ao outro.

É interessante considerarmos que somente uma em cada quatro mulheres afirma que divide igualmente as tarefas rela- cionadas à criação dos filhos, de acordo com um levantamen- to realizado pelo Google e publicado na revista Claudia. Com cada vez mais tarefas, ter tempo para cuidar de si mesma é a atividade menos praticada pelas mães brasileiras.

Hoje, com 33 anos, desempregada e casada, ela se sente sozinha cuidando da filha de pouco mais de um ano, está de- cidida a conseguir um novo emprego e ser independente de qualquer outra pessoa que não ela mesma. Ainda que lidan- do com diversos desafios e frustrações, Kássia diz que sim, é muito difícil mas também é gratificante ser mãe.

— Aceite o que você quiser aceitar, se você não aceita, fale.

O filho é seu, e você, melhor do que ninguém, saberá o que é melhor para ele — diz.

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Pouco mais de um mês depois da nossa conversa, tornei a falar com Kássia sobre a situação da participação do Rena- to na paternidade. Segundo ela, o marido está se esforçando muito mais, tentando ser presente e ativo no dia a dia, seja brincando com a filha ou fazendo sua mamadeira, coisas que não eram comuns anteriormente. Ele ainda não troca as fral- das mais “carregadas” no entanto.

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Kássia, marido Renato e Valentina

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Kássia e Valentina

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Tâmara

“Nunca quis ser mãe”

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credito que a primeira vez que conversei com a Tâma- ra foi na sala de aula da faculdade, somente ao final do curso. Como tranquei os estudos várias vezes, nessa última sala eu não conhecia muito bem as pessoas. No começo desse ano começamos a planejar nosso TCC e nós duas con- versamos na fila de atendimento da aula de planejamento, me identifiquei com ela na mesma hora que soube que era mãe e estava, assim como eu, finalizando uma faculdade.

***

Tâmara não planejava engravidar, ao menos não nessa en- carnação como ela mesma diz. Tomava anticoncepcional des- de os 19 anos, mas começou a ter enjoo constante por conta do remédio. O médico então, sugeriu alguns exames de rotina e a troca do medicamento. Naquele mesmo dia ela parou de tomar o anticoncepcional e, mais tarde, teve relação sem proteção.

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Cerca de quatro semanas depois, durante um dos exa- mes pedidos pelo doutor, sua gravidez foi confirmada. O dia, que antes estava lindo e ensolarado, ficou cinza, quan- do saiu da clínica. No retorno da consulta médica, o doutor compartilhou de seu espanto, dizendo ser impossível sua gravidez, a não ser que tivesse ocorrido no mesmo dia do atendimento anterior. Tâmara fez então um ultrassom e, embora ela pensasse durante o exame “não tem bebê, não tem bebê”, o pequeno coração que batia a 173 por minuto, tirou todas as dúvidas.

Acabou sendo uma experiência traumática para ela, que demorou algum tempo até de fato aceitar a gestação. Tinha uma casa, um relacionamento estável e estava prestes a fazer o vestibular para pedagogia, mesmo sem ter encontrado sua vocação até ali. A gravidez não era algo que a baiana, original de Laje, imaginava.

A gestação foi tranquila. Não teve grandes problemas e continuou vivendo ativamente. Porém, ela chorava e ficava triste em diversos momentos, muito disso por não aceitar a gestação, já que jamais quis ser mãe. Foi somente a partir dos sete meses que ela conseguiu passar a aproveitar toda a situa- ção, assim que descobriu que estava esperando um menino, como ela queria. A partir daí começou a se sentir melhor, conversando cada vez mais com o filho na barriga, mesmo não gostando da sensação de estar grávida em si.

Lucas nasceu de parto normal, como a mãe bem queria.

Tâmara teve seu direito garantido por lei e recebeu um parto humanizado. Sabendo que no Brasil a escolha da mu- lher antes e durante o parto, na maioria das vezes não é res- peitada, diz que teve sorte por ter acesso ao pré-natal em um convênio particular e um parto com apoio e acolhimento de

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uma equipe bem humorada do hospital público Leonor Men- des de Barros, referência em tratamentos para as mulheres.

O parto humanizado, infelizmente, é acessível para uma parte restrita da população. A assessora de imprensa acredita que no SUS não existe informação suficiente sobre todo pro- cesso de gestação, inclusive sobre o parto.

— Eu sinto que o hospital particular força a mulher a fazer um parto cesárea, enquanto o hospital público força a mulher a fazer um parto normal, em nenhum momento a mulher tem direito a escolher um parto que ela quer, a gente é sempre le- vada de um espaço para o outro.

Tal observação não é mera coincidência. A doula Cami- la, que já trabalhou no SUS como enfermeira, afirma que a política de parto humanizado existe, mas não é aplicada na prática e que até mesmo em hospitais particulares a mulher precisa exigir seus direitos.

As diretrizes das quais Camila se refere, estão previstas na Lei Nº 15.759, do Estado de São Paulo, que garante às mães, direitos que muitas vezes são desconhecidos do público em geral, como o direito a receber assistência humanizada em partos realizados no Estado e acesso ao Plano de Parto, que nada mais é do que a ferramenta para garantir uma assistên- cia de qualidade na hora do parto e uma experiência mais satisfatória do mesmo. Em outras palavras, a mulher precisa pagar para que seu direito de ser devidamente acolhida, de forma digna e confortável, seja atendido e reconhecido.

***

Tâmara possui uma sólida rede de apoio e, embora tenha terminado seu relacionamento de mais de oito anos com o pai

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do Lucas, ela diz que ele se tornou melhor na paternidade após a separação. Além dele, ela ainda pode contar com o apoio e suporte da irmã, da ex-sogra e principalmente de sua mãe.

Filha de mãe solo, Tâmara relata que, embora soubesse da existência do preconceito contra mulheres mães, ela não havia experimentado na pele esse sentimento até ela própria termi- nar o relacionamento com o ex-parceiro. Desde pequena tenta se blindar desse tipo de situação, pela experiência que obteve com a mãe e também pela sua própria personalidade.

Sentiu que os homens com quem se relacionava a trata- vam diferente a partir do momento em que sabiam que tinha um filho. Mesmo que nunca descaradamente a diminuíssem, percebia o tom que a questionavam. Ela nunca se deixou ca- lar e respondia firmemente: sim, tenho um filho sim.

Engatou em uma nova relação, e mesmo sem ter passado por situações explícitas de exclusão social, sabe que ser mãe e solteira é uma dificuldade a mais para as mulheres, por conta do olhar que a sociedade coloca sobre nós.

Enquanto estudante de comunicação, Tâmara se esforça para obter informações dentro das redes sociais e também olha com muita atenção os conteúdos que são voltados para mulheres mães e a forma que as mulheres são representadas nas mídias. Por estar consciente quanto a sua inserção em uma bolha social, faz uma reflexão de que a partir do que ela consome, existe sim uma representação que a atende e con- templa, porém em uma escala geral, não sabe até onde isso se estende, uma vez que procurou estar cercada desse conteúdo e não o contrário.

Para aquelas que irão se tornar mães daqui a pouco tempo, ela recomenda algo simples, mas que pode fazer grande diferença.

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Tenham paciência. Eu diria que a maternidade torna qualquer mulher forte, a gente precisa ser forte porque o tempo inteiro vamos lidar com gente que tá de certa forma dizendo que não vamos conseguir pela quantidade de coisas que temos para fazer (...) sejam vocês a força que vocês precisam ter, por- que eu tenho certeza que quando os filhos crescerem, vocês vão ter alguém para olhar e se orgulhar — encerra.

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Tâmara e Lucas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza

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Férias em Jericoacoara. Estavam tão felizes quanto a foto sugere

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Tâmara e Lucas na formatura da escola

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Tamires

Solidão de volta

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onheci a Tamires ainda no ensino médio, quando estudávamos em um colégio católico tradicional na Vila Monumento, próximo ao Ipiranga. Criamos uma amizade que dura há anos e, mesmo sendo bem dife- rentes uma da outra, algo que nos uniu ainda mais foi a ma- ternidade. Ela engravidou pela primeira vez quando tinha 24 anos e novamente aos 28 e atualmente mora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, onde atua como técnica de enfermagem em um hospital da cidade.

***

Jamais teve amparo de nenhum dos pais de seus filhos.

A romantização da gestação e do parto, onde a gravidez é mágica e todos apoiam a mãe, nunca fez parte de suas expe- riências. Pelo contrário, para ela, a desinformação prestada pelo atendimento de saúde durante o pré-natal, faz com que a

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mulher possa até mesmo se sentir culpada por estar grávida.

Não há preparo ou até mesmo vontade por parte do Estado em tentar incluir a mulher mãe na sociedade.

Isso também vale para o próprio ciclo social, onde, o que deveria ser apoio afetivo, se transforma em um desfile de pi- tacos, de acordo com Tamires. Pessoas opinam sobre a forma que você deve criar seus filhos, opinando sobre seu corpo, sen- do que isso se estende até mesmo depois da criança nascer.

— Desde aí você começa a carregar a culpa — Por que minha barriga não é assim? Por que não aumenta como a das outras grávidas (...) Você tá sempre errada, os outros estão to- dos certos, mas você, a mãe, está sempre errada — ela conta.

Até mesmo frequentar consultas médicas colocava uma pressão em seus ombros, já que, observar em um consultório médico as mulheres acompanhadas de seus companheiros, apenas a fazia refletir que ela não teve isso em nenhuma das duas gestações.

O pai de seu primeiro filho, por exemplo, a negligenciava em todos os aspectos. Ou, nas palavras dela: era um bosta.

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Aos 24 anos, Tamires resolveu fazer um exame para mu- dar o anticoncepcional, como tinha questões médicas, ela não podia tomar qualquer um. Como tem um útero policísti- co, não menstruava todo mês e os médicos afirmavam que ela era infértil, motivo esse, que a fez não usar métodos contra- ceptivos durante as relações. Foi nesse teste então que, para sua surpresa, descobriu que estava grávida.

Começou então, uma sequência de acontecimentos preponderantes na vida dela. O primeiro de todos é o de

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que ela e o então parceiro Fausto, estavam pensando seria- mente em terminar o relacionamento. Com a gravidez re- pentina, resolveram dar uma nova chance ao que tinham, por conta do bebê. De nada adiantou — era como se es- tivesse sozinha. Ele nunca me acompanhou em nenhum exame. Só foi no primeiro para saber se era mesmo verda- de. — ela me conta.

Ao longo da gestação e do puerpério, foi submetida a uma série de agressões e maus tratos por parte de seu ex-companheiro. Seguem agora, alguns episódios da nar- rativa de Tamires a respeito da conduta do pai de seu primeiro filho para com a criança e para com ela própria.

Deixo aqui também, um alerta para possíveis gatilhos que envolvam violência física e psicológica.

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Tamires teve polidramnia, que é o aumento do líqui- do amniótico. Ela então, pediu para que seu ex-parceiro a acompanhasse em um exame importante, cujo horário dis- ponível da consulta era somente 5h30 da manhã. Ele negou, dando de ombros como quem quisesse dizer que aquilo não era problema dele. Ela precisou recorrer a um amigo, que se disponibilizou a ir.

Em uma outra situação, estavam na casa da mãe de Faus- to e, enquanto ele jogava LOL, ela reclamava porque estava sentada em um lugar desconfortável e queria ir embora para casa dela. Ele jogou várias partidas e perdeu todas, até que na última derrota, Tamires pediu de novo para irem. Fausto co- locou a culpa nela por ter perdido e deu um soco em sua bar- riga e apertou seu pescoço. Foi quando a mãe dele entrou no

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quarto e apenas pediu para que Tami tivesse paciência com o filho dela, sem esboçar qualquer outra reação.

Próximo a data do parto, já com 37 semanas, começou a sentir muitas dores. Seu ex-parceiro no entanto, acusava de ser frescura. Ele enfim concordou em levá-la ao médico, mas somente depois que assistissem a um filme. Como as dores aumentaram, Tamires se trocou para ir ao pronto-so- corro e ele foi, a contragosto, por todo o trajeto, xingando-a e acusando-a de ter feito aquilo somente para que ele não assistisse ao filme.

Quando chegaram ao hospital, descobriram que Tamires estava com começo de deslocamento da placenta e a cesárea teve de ser agendada para o dia seguinte.

A equipe médica a pediu para ficar de repouso absolu- to, pois corria o risco de agravar o descolamento. Qualquer esforço mínimo era um risco. No entanto, como o nasci- mento seria precoce, ainda não haviam arrumado as coisas do Lucca e, foi nesse momento que pediu a Fausto para que executasse essa tarefa. Ele no entanto, foi assistir ao filme ao invés de ajudá-la. Foi Tamires quem teve de arrumar a mala da maternidade, pegar peso e roupas com 37 semanas de gestação.

No dia em que voltaram do hospital, como havia feito o procedimento cirúrgico da cesárea, Tami precisou de ajuda durante a noite para ir ao banheiro algumas vezes, o que é natural considerando que seus hormônios ainda estavam a mil e seu corpo estava debilitado. Isso o irritou a ponto de pegar uma cadeira vazia e deixar ao lado de Tamires na cama, dizendo: Se vira, eu não sou seu escra- vo. Ela tentou levantar com o auxílio da cadeira mas não teve sucesso, reunindo suas últimas forças, conseguiu se

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levantar mas abriu dois pontos com o esforço. Sangrou muito mas seu ex-parceiro sequer olhou para o lado para ver o que estava acontecendo.

Durante o período de pós-parto, ela teve de fazer tudo sozinha, lavar a roupa dos três e limpar a casa, enquanto ele ficava deitado no sofá, assistindo televisão. Ele chegou a dei- xar a criança suja de cocô pois se recusou a trocar e limpar seu próprio filho.

Nessa época, Tami chorava muito e sofreu diversos abu- sos psicológicos. Seu então parceiro a chamava de puta e ridí- cula, dizia que estava gorda demais e que nenhum homem a iria querer. Até que enfim, ela terminou com ele. Lucca tinha cinco meses.

No dia do término, Fausto chegou em casa do trabalho disparou ofensas gratuitas a Tamires, mandou ela ir se foder enquanto chamava-a de vagabunda. Foi quando ela percebeu que seu filho observava tudo do berço e nesse mesmo mo- mento, fez as malas do exnamorado, colocou os pertences dele do lado de fora e o mandou embora.

Atualmente, o pai de Lucca, que já está com 7 anos de idade, move um pedido na Justiça para que Tamires volte para São Paulo e ele tenha uma guarda de fixação paterna, alegando negligência da mãe com o filho, pois, segundo ele, Tamires não o alimenta e não dá os devidos cuidados, mesmo ela sendo a única figura responsável por todas as questões ao longo de toda a vida da criança.

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Tamires estava com 28 anos e, junto com seu até então parceiro, Vitor, já haviam comentado sobre a possibilidade

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de terem filhos, embora não houvesse planejado absoluta- mente nada. Tudo tinha ficado na conversa.

Ela trabalhava em um hospital em Jaraguá do Sul, Santa Catarina e, foi lá mesmo que descobriu a inesperada gravi- dez. Já estava com três meses.

Para complicar, nessa época o Governo Temer cortou o auxílio mensal da Universidade Federal, que até então cus- teava os estudos e estadia de Tamires na cidade. Como suges- tão para enfrentar esse momento de turbulência financeira, Vitor sugeriu que Tamires fosse com Lucca, seu filho mais velho, vender salgados nas ruas, para que as pessoas sentis- sem dó e os ajudassem. Ao lembrar dessa cena, ela diz em alto e bom som: Tá louco, desgraçado.

Todo esse processo, desgastante fisicamente, emocional- mente e psicologicamente, abalou Tamires e fez com que ela ficasse extremamente chateada em relação a gravidez. Como resultado disso, decidiu procurar um remédio para realizar um aborto e, mesmo encontrando o medicamento, não pôde dar prosseguimento ao seu plano pois não tinha como pagar. Seria um procedimento de altíssimo risco, como ela já havia realiza- do uma cesárea anteriormente, poderia passar por uma ruptu- ra uterina, pelas contrações que teria ao ingerir a medicação.

Ainda decidida a realizar o aborto, Tamires ligou para sua mãe pedindo dinheiro para comprar os comprimidos necessá- rios. Sua mãe não concordou em ajudar, pelo contrário, disse que compraria o enxoval inteiro da criança e a ajudaria como fosse necessário, mas ela teria de desistir da ideia do aborto.

Com essa conversa, ela passou a ter medo caso algo acon- tecesse, temendo como seria tratada no SUS assim que sou- bessem que ela havia abortado um feto. Seu receio era de que a tratassem mal.

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Foi nesse ponto que decidiu terminar seu relacionamento com Vitor e voltar para São Paulo, sua terra natal, para ficar com a sua mãe.

Passou toda a gravidez rejeitando o bebê. Mesmo rea- lizando todos os exames do pré-natal, um lado dela pedia para que seu filho entrasse em óbito fetal e ela não tivesse de prosseguir com aquilo. Até que, no oitavo mês de gestação, percebeu que não havia mais o que pudesse fazer a respeito e simplesmente começou a aproveitar a experiência.

Até hoje, se o Vitor viu o filho cinco vezes é muito. A úl- tima vez foi em agosto do ano passado. Ele pergunta sobre o filho uma vez a cada dois meses, pede uma foto e essa é toda a sua participação enquanto pai. Antes que esqueça, ele tam- bém “contribui” com duzentos e cinquenta reais de pensão.

Além de que, quinze dias após o término com Tamires, ele se casou com uma amiga.

Mesmo agora, que Ian tem três anos, sequer sabe quem é Vitor e acaba chamando outras figuras masculinas que estão mais próximas a ele, de pai.

***

Um dos motivos para que Tamires tenha voltado para Santa Catarina depois do nascimento de Ian, foi justamente as oportunidades de trabalho. Há sete anos ela não consegue trabalho registrado em carteira, sendo que o último também foi o único. Conta que chegava nos lugares e era questionada sobre não ter experiências anteriores, mas sabe que jamais teve as oportunidades por conta da gravidez. As perguntas não pa- ravam aí, o questionamento seguinte era por diversas vezes o mesmo: nossa, um filho de cada pai? Mas quem fica com eles?

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A busca por empregos numa área de alta rotatividade, a área da saúde e enfermaria, seguiu sem sucesso. Foram nove meses mandando currículos incansavelmente e ela tem certe- za de que em 99% dos casos, não foi contratada por ser uma mãe solo com duas crianças.

Foram anos vivendo e sustentando dois filhos através de trabalhos informais.

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Ao longo dos anos, Tamires sentiu-se excluída diversas vezes, tendo até mesmo de trocar a roda de amigos por com- pleto. Percebeu que eram pessoas que não estavam interessa- das nela, mas sim em sua disponibilidade de sair e atender à vontade deles. A partir do momento em que não estava mais em condições de dar rolê ou beber até encher a cara, passou a não ser chamada ou incluída nesses círculos, mesmo se tra- tando de pessoas com quem conviveu uma boa parte da vida no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

Mesmo passado algum tempo e ela tendo retomado essa dis- ponibilidade, nota que simplesmente não fazia mais parte des- ses grupos. Ela descreve que foi um momento em que se sentiu como alguém ou até mesmo algo, meramente descartável.

Isso reflete até mesmo em sua atual rede de apoio, que en- volve sua mãe, ainda que a distância, a moça que ela paga para que fique com as crianças enquanto trabalha e alguns poucos amigos com quem conversa de vez em quando. A consequên- cia disso não poderia ser outra além de falta de tempo que isso gera em sua vida pessoal. Todo o tempo livre que tem, passa com as crianças. Adicione isso ao fechamento das escolas na pandemia e o resultado será um desgaste tremendo.

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Depois que os filhos nasceram, tudo mudou em sua vida.

Ela adoraria voltar a lutar na academia, assistir a uma série inteira, fazer as unhas bem feitas ou até mesmo sair sozinha, algo raríssimo nos últimos sete anos. Até porque, nas poucas ocasiões em que isso aconteceu, 90% dos casos a pergunta

“onde estão os seus filhos?” surgia.

A doula Camila, que convive com mulheres nas mais di- versas condições, relata um ponto em comum entre as mu- lheres da atual geração:

— Vemos diversas situações, as mulheres que precisam dei- xar de trabalhar, outras que deixam na creche, existem diver- sos tipos de solidão, em todos os sentidos, de ter que se virar financeiramente, mães solos que precisam dar conta de tudo, isso traz sim muita solidão. tá cada vez ficando mais terceiri- zado, mais longe da rotina, as mulheres vão ficando cada vez mais sozinhas.

No caso de Tamires, toda a responsabilidade dos filhos cai sobre seus ombros. Ela sempre foi a única responsável por organizar o dever de casa, cuidar da roupa e das tarefas do dia a dia.

Infelizmente, dentro de uma sociedade que prega por afastá-la, de maneiras sutis ou explícitas, a solidão acabou se tornando companheira de Tami.

***

Ao final da entrevista, conversamos sobre um conse- lho que poderia dar às mulheres que irão se tornar mãe em breve, Tamires, como sempre, é direta e creio que não haja outra forma de colocar isso, a não ser através de suas pró- prias palavras:

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— Eu diria para elas saberem que não é esse conto de fadas lindo, que vai sentir a solidão materna, que ela existe, ela é real e ela é pra todas ou para quase todas. Mas que é muito gostoso, tem o lado que é muito bom, é uma experiência única mas é pesado. Você tem que saber que a partir daquele momento a liberdade que era pouco, não vai mais existir, muito provavel- mente. (...) A realidade é muito diferente do que eles pregam no papelzinho. Dizem como se idolatrassem as mães mas é tudo balela, só para tentar amenizar uma falha muito grande que a sociedade tem com as mulheres mães.

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Lucca, Ian e Tamires

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epois de ouvir todas essas mulheres entrevistadas e muitas outras à minha volta, é evidente que precisa- mos parar de romantizar a maternidade e parar de normalizar a responsabilidade única das mães nos cuidados com as crianças.

Não existem mães perfeitas. Existem mulheres reais que possuem cada uma sua história, sonhos, defeitos e dificulda- des. Não dá pra gente dar conta de tudo e ainda assim conse- guir ter uma vida social.

É preciso lembrar que antes de sermos mães, somos mu- lheres e que para criar pessoas felizes precisamos nos sentir completas e realizadas.

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arolina Thieri nasceu em São Paulo, no Ipiranga, em 1990. Formanda em Comunicação Social - Jornalis- mo, pela Universidade FIAM FAAM. É mãe do Mi- guel de 9 anos e atualmente trabalha com produção de con- teúdo para as redes sociais. Umbandista, representante das mulheres no atabaque, acredita firmemente que só as crian- ças podem salvar o mundo.

Arte de Miguel Thieri, 9 anos

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Título

Formato Tipografia textos Tipografia títulos Diagramação

Onde está seu filho?

Exclusão das mulheres pós maternidade

14x21cm (PDF) 144ppi Minion Pro

KG Life is Messy Israel Dias de Oliveira

Israel Dias de Oliveira www.livro-reportagem.com.br

(11) 95497-4044

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“ Onde está seu filho?”. Essa é uma pergunta que toda mulher que é mãe possivelmente já tenha escu- tado em um momento de lazer ou des- canso em que sua prole não está por perto. Por mais sutil que esse questio- namento pareça, ele carrega consigo um preconceito construído ao longo de séculos, de que as mulheres são as úni- cas responsáveis pela criação e cuida- dos das crianças. Um homem jamais é questionado ou julgado no mesmo tom de desconfiança, já que em nossa construção de sociedade, essa jamais foi sua responsabilidade.

Este livro busca relatos de mães que, embora de nichos diferentes e realida- des distintas, têm em comum a solidão que as consome enquanto perdem sua identidade como mulheres e passam a ser vistas somente como figuras ma- ternas, anulando a sua existência para ser só uma boa mãe.

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