ÍNDICE
Agradecimentos ………...I Página de Pensamento/Citação ………II
Introdução...2
Justificação...3
Objectivos do trabalho...6
Enquadramento Teórico e Metodológico...7
CAPÍTULO I...11
1. O Crioulo em Cabo Verde...11
1.1. A sua origem e formação...11
1.2. O Crioulo como Língua Nacional...16
1.3. O Estatuto do Crioulo em Cabo Verde...18
CAPÍTULO II...23
2. Atitude dos professores quanto à problemática do ensino da Língua Portuguesa: Análise dos questionários a professores do português do Ensino Secundário sobre o ensino e aprendizagem da Língua Portuguesa...23
2.1. A constituição da amostra...24
2.1.1. A recolha dos dados...26
2.1.2. Apresentação dos resultados...26
2.1.3. – Quanto ao tipo de desvios apresentados pelos alunos face ao uso do Português obtivemos as seguintes respostas:...31
2.1.4. – São os seguintes dados relativos ao tipo de desvios mais frequentes:..32
2.1.5. Opinião dos professores relativamente às causas dos desvios apresentados pelos alunos na aprendizagem do Português:...32
2.1.6. Dados Relativos aos Meios de Ensino do Português no Ensino Secundário...33
2.1.7. Opinião dos inquiridos relativamente aos meios de ensino do português no Secundário:...33
2.2. Caracterização do ensino / aprendizagem da língua portuguesa no secundário em Cabo Verde – situação actual...35
2.2.1. Propostas de soluções para a melhoria do processo ensino/aprendizagem da língua portuguesa no Ensino Secundário em Cabo Verde:...37
2.2.2. Análise dos resultados...39
2.3. A Interferência do Crioulo no uso do Português em Cabo Verde: Análise de uma entrevista sociolinguística a alunos do ensino secundário...43
2.3.1 Levantamento de dados...45
2.3.2. Sistematização dos dados...49
2.3.3 Análise dos dados apresentados...54
2.3.4. Possíveis explicações para as causas dos desvios...59
2.3.5. Propostas de solução...61
CAPÍTULO III...64
3. Considerações finais...64
3.1. Referências Bibliográficas:...67
Anexos...69
Introdução
De acordo com a Lei de Bases do Sistema Educativo, nos seus artigos 22º e 24º respectivamente, os objectivos essenciais do ensino da língua portuguesa ao nível do Ensino Secundário são: “Promover o domínio da língua, reforçando a capacidade de expressão oral e escrita” e aumentar o nível de conhecimento e possibilitar uma orientação escolar e vocacional.
A interferência que segundo Daniel Medina, entende-se por todos os desvios à norma de uma determinada língua, que consiste na introdução de elementos estranhos, ou estrangeiros, em vários níveis e classes gramaticais, nomeadamente no que diz respeito aos sistemas fónico, morfossintáctico, sintáctico, semântico-lexical, é um fenómino que também se verifica em Cabo Verde, dificultando assim, a aprendizagem e o uso correcto da Língua Portuguesa.
Daí a nossa preocupação em estudar este fenómeno e procurar entendê-lo no sentido de encontrar possíveis soluções que possam minimizar o problema. Pois, acreditamos que através dos resultados obtidos, poderá contribuir para um melhor entendimento da nossa realidade escolar cabo- verdiana, onde o português possui o estatuto de língua oficial/segunda.
O prensente trabalho contempla questionário dirigido aos professores de Língua Portuguesa que leccionam o primeiro e segundo ciclos do Ensino Secundário, e entrevista aos alunos dos dois primeiros ciclos do Ensino Secundário, visto ser este o nível de ensino que é o objecto do presente estudo.
O presente trabalho está ainda estruturado em: Introdução, Desenvolvimento –
com os seguintes títulos: - Capítulo I : O crioulo em Cabo Verde, Capítulo II: Atitude
dos professores quanto à problemática do ensino da Língua Portuguesa no Secundário,
Capítulo III: Considerações finais, Referências Bibliográficas e Anexos.
Justificação
O presente trabalho intitulado “A Interferência do Crioulo na Aprendizagem do Português em Cabo Verde”, visa para além de cumprir as obrigações curriculares, que é a realização de um trabalho de investigação de fim de curso para a obtenção do grau de Licenciatura em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses (ECVP), permite-nos, igualmente confrontar os conhecimentos teóricos adquiridos ao longo do curso na disciplina de Linguística Cabo-verdiana. É com grande motivação e com espírito de desenvolver a nossa capacidade ao longo deste percurso que realizamos este trabalho, na expectativa de que o mesmo venha a ser uma pequena, mas valiosa contribuição teórica da nossa parte, no que tange ao conhecimento de vários aspectos linguísticos e culturais da língua materna que coabitam consciente ou inconscientemente com a língua oficial quer no desenvolvimento da oralidade quer no da escrita, por um grosso significativo de falantes da classe alta, média ou baixa, com ou sem grandes instruções académicas que labutam diariamente connosco na vivência do quotidiano.
Todavia, a problemática do processo ensino-aprendizagem do português em Cabo Verde constitui uma preocupação permanente, sobretudo para aqueles que propugnam por um uso eficiente da Língua Portuguesa no arquipélago.
Sendo o português, a língua segunda e de comunicação no processo ensino/aprendizagem em Cabo Verde, e o Crioulo a língua materna e do quotidiano, considero muito relevante o estudo do tema acima citado, pois este irá permitir melhor compreensão da realidade do ensino do português neste contexto.
Deste modo, enquanto professora, estarei em condições de apresentar alguns contributos para o desenvolvimento do ensino.
Se na realidade o grande objectivo é conhecer e dar a conhecer os meandros da interferência do Crioulo na aprendizagem do Português em Cabo Verde e reflectir sobre a problemática do ensino do português em Cabo Verde, também é evidente que subjacente a este grande objectivo está a aprendizagem que o trabalho nos irá proporcionar.
É com esta atitude de quem quer questionar e analisar o fenómeno de interferência linguística tendo em vista abrir caminho à criatividade, ou seja, através de uma pesquisa e tratamento de informações capaz de despertar nas pessoas o interesse pela investigação e valorização das Línguas, Cabo-verdiana e Portuguesa.
E sendo o professor como principal actor do processo ensino – aprendizagem, não pode ficar amarado a princípios, mas sim, questioná-los sempre, pesquisando e adequá- los à realidade que a própria sociedade exige.
Razões suficientes para sentirmos curiosos em pesquisar e apresentar os motivos que estão na base da realização deste trabalho.
Não obstante, o grau de complexidade, que um trabalho desta natureza impõe, toda a nossa intenção é, trabalhar de forma aprofundada, a fim de proporcionar momentos de reflexão e de aprendizagem, por um lado, e por outro, deixar patente algumas pistas sobre a real situação sociolinguística no nosso país, tendo em consideração a própria situação de contacto entre as línguas em causa.
É com o intuito de dar uma maior contribuição sobre a linguística cabo-verdiana, analisando os fenómenos de interferência linguística, particularmente a interferência do crioulo na aprendizagem do português no nosso país, que na qualidade de professor aprendiz, iniciando uma investigação desta índole, pesquisando e analisando, tendo como suporte um conjunto de “corpus” (Questionário dirigidos a professores e entrevistas feitas aos alunos), isto é, recolha e tratamento de dados, que vamos trabalhar este tema, conforme o plano de trabalho proposto.
Apesar das várias limitações defrontadas na sua realização esperemos que o
mesmo venha a ser, de facto, um instrumento útil de pesquisa aos nossos colegas,
professores, que poderão através disso reflectir e tomar a consciência do problema, e aos demais que se interessam pela matéria.
Trata-se de um tema muito vasto, mas de extrema importância, na medida em que é um tema de actualidade que vem suscitando muita preocupação a todos.
Agora, todos os cidadãos, independentemente do seu estrato social, são convidados a
darem o melhor de si, dentro dos seus limites, no campo educacional, para o bem da
humanidade.
Objectivos do trabalho
Para o presente trabalho definimos como objectivos gerais:
a) Identificar os meandros da interferência do crioulo na aprendizagem do Português em Cabo Verde.
b) Reflectir sobre a problemática do ensino da língua portuguesa em Cabo Verde.
Em termos específico definimos:
a) Compreender o peso de cada uma das línguas na sociedade Cabo-verdiana, assim como o estatuto das mesmas.
b) Reflectir sobre as atitudes dos professores face à problemática do ensino da Língua Portuguesa em Cabo Verde.
c) Identificar as formas desviantes do português.
d) Identificar os tipos de desvios à norma linguísticos do Português e caracterizá- los quanto à natureza dos mesmos
e) Apresentar hipoteticamente justificação para algumas causas e situações de interferências do Crioulo no uso do português.
f) Apresentar algumas propostas que podem ajudar a compreender e, de alguma forma, minorar o problema.
g) Despertar interesse para essa problemática a todos aqueles que tiveram a
oportunidade de ler este trabalho.
Enquadramento Teórico e Metodológico
O trabalho ora apresentado “A Interferência do Crioulo na Aprendizagem do Português em Cabo Verde”, enquadra-se no âmbito da disciplina de Linguística Cabo- Verdiana.
A interferência significa: “dificuldades encontradas pelo aluno e erros que comete em línguas estrangeiras, devido à interferência da sua língua materna e outra língua estrangeira anteriormente estudada.” (Galisson e Coste, Op. Cit. pág. 414)
Nas comunidades onde coexistem duas ou mais línguas, existe normalmente a tendência para que haja um bilinguismo e isto leva os indivíduos a introduzirem a língua materna ao falar a língua segunda. (Op. Cit. ibidem).
A escritora Dulce Almada Duarte, na sua obra Bilinguismo ou diglossia? afirma que
“a cada dia que passa, a utilização do português como língua de escolarização está sendo mais difícil para os alunos cabo-verdianos. Isto porque, há uma grande dificuldade na aprendizagem da língua e uma resistência também. Como prova disso, as interferências que abundam, no sentido crioulo/ português. E que a única solução é fazer do português um instrumento provisório de escolaridade. Portanto, é necessário pôr nas mãos das grandes massas o único instrumento que lhes serve de comunicação e expressão da sua identidade cultural: o crioulo.”
(1)Segundo Gloria Fischer,
“os problemas de interferência do crioulo na aprendizagem do português que, por vezes só parece ter características de proximidade, leva a situações que devem ser consideradas graves e terão, por tal, de ser objecto de estudos
1
Dulce Almada Duarte, Pág. 133
aprofundados certamente a vários níveis de intervenção e será necessário encontrar as soluções mais adequadas.”
(2)O crioulo cabo-verdiano tendo em conta o contexto da sua formação (plurilinguístico adverso), é uma língua de base lexical portuguesa. Falada pela maioria do povo cabo-verdiano, desde a mais tenra idade, constitui o veículo, o modo de ser, de agir e de viver dos mesmos. E “as línguas maternas crioulas de base portuguesa interferem de um modo específico muito intenso na aquisição de produção e de compreensão da língua portuguesa".
(3)Sendo assim, o ensino da língua portuguesa em Cabo Verde, deve ter em conta, do ponto de vista metodológico, o seu estatuto de língua segunda e ainda a especificidade da língua materna (língua não oficial, não instrumentalizada, não ensinada nas escolas, de léxico superficialmente idêntico ao léxico português e tradicionalmente avaliadas, mesmo pelos falantes, como sendo de menos prestígio).
Apraz-nos afirmar que “a valorização, na escola da língua materna dos alunos aumenta a sua motivação para a aprendizagem e para a aprendizagem em geral”.
(4)Para a prossecução deste trabalho, e dos objectivos da investigação, seguimos algumas técnicas a saber:
- Questionário escrito dirigido a professores de Língua Portuguesa do ensino secundário que leccionam 1º e 2º ciclos (7,º 8º, 9º e 10º anos), onde recolhemos um conjunto de informações e/ou opiniões sobre a problemática do ensino da Língua Portuguesa em Cabo Verde neste nível de ensino. Através de análise dos dados, inferir sobre os efeitos negativos que as dificuldades da Língua Portuguesa produzem nos alunos, considerando-as como um dos problemas delicados no ensino em Cabo Verde.
O referido questionário foi realizado junto de algumas Escolas Secundárias situadas no arrabalde da Cidade da Praia (Escola Secundária de Achada Grande, Escola Secundária Amor de Deus, Escola Secundária Polivalente Cesaltina Ramos, Escola Secundária Constantino Semedo, Escola Secundária Manuel Lopes, Escola Secundária
2
Rui Vieira Castro, Linguística e Educação, pág. 111
3
Idem - pág. 123
4
Idem
de Palmarejo, Escola Secundária Pedro Gomes, Liceu Domingos Ramos) e no interior de Santiago (Escola Secundária Amílcar Cabral, Escola Secundária Alfredo da Cruz Silva, Escola Secundária de São Domingos, Escola Técnica Grão Duque Henri, Escola Secundária de São Miguel). Ainda, em algumas Escolas Secundárias situadas nas ilhas de Santo Antão (Escola Técnica de Porto Novo) e São Vicente (Escola Secundária José Augusto Pinto e Liceu Ludgero Lima).
- Realização de uma entrevista sociolinguística (trabalho de campo), recolhemos um conjunto de “corpus” junto de uma das Escolas Secundárias do arrabalde da cidade da Praia através da dita entrevista, feita a alunos do primeiro e segundo ciclos do ensino secundário respectivamente (7º, 8º, 9º e 10º anos), de faixa etária compreendida entre os doze a dezasseis anos de idade.
Foram entrevistados 10 alunos (6 do sexo masculino e 4 do sexo feminino).
O primeiro passo certamente foi o de entrevistar os informantes. De seguida fazer o levantamento dos desvios de cada informante que no passo seguinte são agrupados de acordo com a natureza gramatical dos mesmos. Por último, vem a análise dos desvios, seguida de tentativa de explicação de possíveis causas dos referidos desvios.
Apresentamos também algumas propostas de solução, isto baseando nas análises tanto das respostas dos questionários como das entrevistas.
A entrevista foi realizada ou conduzida exclusivamente pelo investigador, a cada um dos entrevistados. Todas as entrevistas foram audiogravadas e integralmente transcritas pelo investigador. Durante as entrevistas, os informantes falaram descontraidamente e sem receio sobre temas diversos tais como, futebol, novelas, pratos preferidos, infância, os tempos livres, pratos preferidos, entre outros.
É de salientar que a entrevista sociolinguística decorreu apenas num único concelho
(Praia), enquanto que os questionários dirigidos aos professores decorreram nos setes
concelhos acima referidos.
O questionário foi semi-estruturada com o suporte guião que serviu de eixo orientador ao desenvolvimento, deixando o entrevistado com liberdade para responder as perguntas, sobre matéria em que naturalmente, irão fornecer a informação desejada.
A escolha da natureza semi-estruturada da entrevista é justificada pela garantia de comparação dos dados recolhidos entre vários participantes (Bogdan e Biklen, 1994), a optimização do tempo disponível, tratamento mais sistemático dos dados, permite seleccionar temas para aprofundamento, com a garantia de que todas as questões poderão ser abordadas durante a entrevista, sem a obrigatoriedade de seguir uma sequência rígida.
Da recolha feita quer do questionário, quer da entrevista sociolinguística, não pode ser considerado e representativo do todo em relação aos alunos do Ensino Secundário mais precisamente do primeiro e segundo ciclos e nem em relação aos professores do Ensino Secundário, mas pensamos ter apurado elementos que nos permitem inferir e reflectir sobre a problemática do ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa em Cabo Verde, bem como os factores desviantes da norma linguística da mesma.
Se este trabalho poder suscitar ideias novas a todos quanto de alguma forma serão
chamados a desempenhar algum papel no tocante à definição de uma política linguística
a bem do ensino do Português em Cabo Verde, estaremos em crer que a nossa
contribuição terá sido útil.
CAPÍTULO I
1. O Crioulo em Cabo Verde 1.1. A sua origem e formação
Como confirmam os documentos oficiais, Cabo Verde foi avistado pela primeira vez em 1460 pelos navegadores portugueses ou navegadores ao serviço de Portugal. Há, contudo quem tenha feito afirmações no sentido de que, estas ilhas antes dos portugueses tinham sido visitadas por povos de outras regiões do Globo, nomeadamente da Costa Ocidental Africana e do Mediterrâneo, em tempos muito remotos.
Segundo a História Geral de Cabo Verde (1991) a ocupação deste arquipélago iniciou-se em 1462, dois anos depois do seu descobrimento. Das dez ilhas que constituem o arquipélago, Santiago foi, a primeira a ser povoada, logo seguida da ilha do Fogo. Santo Antão e São Nicolau começaram a ser povoadas só depois de 1570 e as restantes, a partir do séc. XVII, excepto Santa Luzia que até hoje é desabitada.
As primeiras populações que se estabelecerem nas ilhas foram os colonos brancos, (Portugueses, Espanhóis, Genoveses, …) e africanos (escravos) resgatados na Costa da Guiné.
Os escravos negros ao chegarem ao arquipélago eram, de imediato, submetidos a um processo de ladinização (consiste basicamente na preparação do escravo para a vida de serviçal junto do seu dono). A maioria deles era exportado para Europa e América, permanecendo em Santiago por um período pouco mais de dois meses.
Alguns, no entanto, eram aproveitados para os serviços domésticos, sobretudo em
povoações como Ribeira Grande e Alcatraz que cedo passaram a ter uma Vida Social
bem organizada. O número de escravos passou a aumentar com a implementação do
cultivo de algodão (principal moeda de troca no resgate de escravos) nas terras do interior da ilha de Santiago.
Com os colonos, chegaram a Cabo Verde vários dialectos do português, sobretudo do Norte, do Sul, e das ilhas adjacentes. Com os escravos vieram também os vários falares e línguas da costa ocidental africana.
O encontro de colonos brancos e escravos negros num mesmo espaço geográfico (Santiago) constitui, à partida, um problema sério, sobretudo, a nível de comunicação.
Se por um lado, os brancos se entendiam minimamente, por outro, a situação era bem mais complexa. Os negros não se entendiam entre si, porque cada um deles possuía a sua língua própria, muito menos entre eles e os colonos brancos. Por conseguinte, estavam criadas as condições para o surgimento de uma terceira via. Essa terceira via ficou facilitada ainda, devido a um grande desequilíbrio no contingente da colonização (maior número de negros em oposição ao menor número de brancos), o pouco tempo de permanência dos escravos negros em Cabo Verde e o baixo nível cultural dos colonos (muitos deles eram iletrados) que foram para essa ilha. Esses factores contribuíram quanto a nós, de forma decisiva para a não imposição nenhuma das línguas em presença (do colono e dos escravos) abrindo, dessa forma, caminho à formação do crioulo que hoje conhecemos.
Duas causas primordiais estão na base da não imposição da língua dos escravos, apesar do numérico: primeiro, porque apesar de serem em grande número, muitas vezes a sua presença na ilha de Santiago, berço da língua Cabo-verdiana, era transitória, tempo necessário para a ladinização, no termo da qual seguia a rota da escravatura:
umas vezes para a Europa e outras vezes para a América. A segunda causa está ligada às variedades étnicas de que pertenciam os escravos e, por conseguinte, pertenciam a uma multiplicidade étnico-linguístico, em que nenhuma era maioritária, dificultando desse modo a imposição de uma das línguas étnicas africanas.
Quanto à língua do dominador, havia em seu desfavor a fraca representatividade a
que aludimos (o número de brancos era reduzidíssimos, segundo o historiador António
Carreira), o baixo nível cultural, sendo muitos de entre eles iletrados, e ainda a ausência
ou a exiguidade de instrumentos e políticas de imposição cultural como escolas, liceus, universidades, professores, segundo Manuel Veiga. Ainda, para o linguista, “a finalidade primeira da dominação, sendo a mais económica do que cultural, favoreceu o surgimento de uma cultura mestiça em que a língua Cabo-verdiana é um dos elementos mais eloquentes.”
(5)
É neste contexto de pluralidade étnica, em que o peso demográfico do negro se
sobrepõe ao do branco, aliada à pouca ou nenhuma formação académica do dominador branco que a língua cabo-verdiana, resulte da diversidade dialéctica, encontrou húmus e terreno fértil para a sua germinação, nascimento e crescimento e quiçá para a sua afirmação como língua de comunicação do dia a dia entre os cabo-verdianos. Não é de se olvidar, porém, que nesse processo “o recém-nascido teve quase sempre, uma mãe africana e um pai Europeu”.
(6)
Se do ponto de vista histórico, este constitui o percurso da formação de crioulo em
Cabo Verde, porém, não é nunca demais dar-lhe um enquadramento teórico ou linguístico.
Segundo Isabel Hub Faria e outros, em Introdução à Linguística Geral e Portuguesa, o crioulo “é uma língua nativa que surge em circunstâncias especiais que conduzem à aquisição de uma primeira língua com base num modelo de segunda língua efectiva, tipo pré-pidjin ou pidjin”.
(7)Depreende-se desta afirmação que o crioulo exige certas condições ou factores sociológicas, geográficas e até políticas para a sua efectivação.
Segundo alguns estudiosos, a língua crioula forma-se normalmente, em comunidades formadas por elementos de origem sociolinguísticos e culturas diversos, cujos antepassados perderam total ou parcialmente os seus veículos culturais originais, devido, na sua maioria dos casos, à deslocação forçada com um contexto que resultou em escravatura. Esse contexto proporcionou contactos entre falantes de línguas maternas diferentes que, por razões de ordem social e humana, têm necessidades prementes de comunicarem, entre si, surgindo em consequência uma forma de linguagem veicular rudimentar, fragmentada e às vezes variável, a que se dá o nome de pidjin.
5
Manuel Veiga, A Construção do Bilinguismo, Pág. 120.
6
Manuel Veiga, O crioulo de Cabo Verde – surto e Expansão, Pág. 12.
7
Isabel Hub Faria e outros, Op. Cit., pág. 141.
Dulce Pereira, In Atlas da Língua Portuguesa na História e no Mundo, postula que
“pidjin corresponde aos primeiros estádios da aquisição espontânea de uma das línguas em presença – a língua do grupo socialmente dominante – pelos falantes das outras línguas”. E acrescenta: “com um léxico e morfologia muito reduzido (pode funcionar com pouco mais de mil palavras), o pidjin é suportado por outras formas de linguagem, como o gesto, e depreende, em grande parte, para a sua interpretação, do recurso ao contexto situacional
”.(8)
Segundo Dulce Duarte, o Crioulo, de ponto de vista sincrónico surgiu num contexto histórico social colonialista. E na perspectiva diacrónica, afirma que existem outros intervenientes para além da ordem linguística, sociolinguística e a sociopolítica é um produto resultante de encontro de diversas línguas, sendo uma delas que domina (europeia) as outras (africanas) que assumem a condição de dominados. Acrescentou ainda que o crioulo foi criado na ilha de Santiago, que linguisticamente foi uma das primeiras manifestações activas da cultura africana em Cabo Verde, na tentativa de reelaboração do Português e das línguas maternas africanas, como uma forma de superar a possibilidade de comunicação.
Para Isabel Hub Faria, o crioulo é
“termo registado desde o século XVII, derivado de uma extensão de significado do nome. Português cria (de criar), designava inicialmente
“animal criado em casa” tendo sido depois apelidado aos escravos nascidos e criados numa colónia na América, por oposição aos nascidos em África.
Posteriormente, passou a dominar qualquer indivíduo mestiço nascido naquele tipo de sociedade”.
(9)Manuel Ferreira afirma que
“o crioulo de Cabo Verde processa-se a partir da língua portuguesa, numa tendência constante para a simplificação fonética, morfológica e sintáctica, mantendo permanentemente o cordão umbilical preso ao léxico português, o
8
Dulce Pereira, In Atlas da Língua Portuguesa na História e no Mundo.
9
Isabel Hub Faria et alii, Introdução à Linguística geral e Portuguesa Op. Cit. Pág. 525, 526.
que lhe garante do ponto de vista etimológico e até prosódico, parentesco sempre próximo do idioma nacional”.
(10)Para Mesquitela Lima, o crioulo surgiu da dominação cultural a que os povos colonizados estiveram sujeitos, e não do encontro entre a África e a Europa. Sustentou ainda que não é por acaso que todas as línguas do mundo são resultantes da interferência cultural, mas que apenas o contexto é apelidado de Crioulo.
Em relação ao crioulo de Cabo Verde o mesmo estudioso afirma que se formou devido a uma imposição cultural e política, e que tenha derivado de uma situação de tipo colonial. Adiantou ainda que no início da colonização não existia no Arquipélago forma dialectal específica, como aconteceu com outras zonas da África em que as línguas maternas constituíam entidades com vida própria, independente.
Continuando, acrescentou que “o crioulo de Cabo Verde nasce de um processo Sócio - cultural dinâmico e que pouco se sabe quando tomou a carta de alforria, i.e., quando se cristaliza em modelos que lhe conferem o carácter de sistema independente dos troncos de origem”.
(11)
A Linguista Rosine Santos, citada, pelo I Colóquio Linguístico Sobre o Crioulo de
Cabo Verde (1979), levantando uma série de hipóteses sobre a origem dos crioulos, acabou por alegar que o crioulo de Cabo Verde, entre outros crioulos, pode ter nascido através das relações comerciais estabelecidas entre Portugal e as populações africanas antes do grande período esclavagista.
Essa forma deficitária de linguagem trilha longos caminhos, passando de geração em geração, complexifica e ganha novas estruturas, de modo a que possa cumprir todas as funções comunicativas dentro da língua materna que é, neste particular, o crioulo.
O pidjin constitui, por si só, uma fase intermédia ou se, quisermos uma forma de falar que faz a ponte entre o momento de encontro de várias línguas diferentes num determinado espaço geográfico, espaço esse diferente do da origem dos falantes, e o crioulo – língua estruturada – com funções de uma língua natural, que depois da sua formação, mesmo estando “em contacto com a língua mãe não se dissolve nela; pelo
10
Cabo Verde, Boletim de Propaganda e Informação, nº 116, Pág. 15.
11
I Colóquio Linguístico Sobre o Crioulo de Cabo Verde, pág. 18.
contrário, mantém intacta a sua personalidade e mesmo quando “o crioulo possui no seu léxico tradicional determinado vocabulário, a influência do português inscreve-se, no sentido dessa forma desaparecer, mas no de ela aproximar o mais possível da forma correspondente portuguesa”.
(12)Pode-se concluir que o crioulo é a nossa língua original, viva em todos os domínios, em progressivo aperfeiçoamento, em contínuo enriquecimento, e dia-a-dia ganhando maiores possibilidades de comunicação.
1.2 O Crioulo como Língua Nacional
O crioulo, para muita gente, não passa de um dialecto, gíria ou um “pidjin”.
Designação irrealista em relação ao que em linguística é chamada de dialecto, tendo em conta que este tem afinidade em relação à Língua Nacional e no âmbito sócio- geográfico é restrito, fazendo com que ele seja uma prática linguística com características que podem ser consideradas como próprias e peculiares ao nível fonético, morfológico e até mesmo sintáctico. O que faz com que ele seja dependente daquela.
Manuel Veiga, contesta esta opinião defendendo que o dialecto nunca pode ser considerado como Língua Nacional tendo em conta, que ele está consignado a uma determinada localidade, a um determinado meio. E estes aspectos Sócio-geográficos nunca o afastam radicalmente da Língua Nacional.Nesta óptica, pode-se falar de dialecto de Mindelo, Santa Catarina, como por exemplo, devido ao modo próprio de falar de cada localidade, sem por em causa a compreensão, continuando a ser o mesmo Crioulo.
Acrescentando que, se existe uma intercompreensão é porque os dois falares não divergem fundamentalmente um do outro. Que além disso, não se trata de um código convencional limitado a um pequeno grupo de indivíduos que não querem ser compreendidos pelas pessoas que não fazem parte do grupo.
12
Cabo Verde, Boletim de Propaganda e Informação, nº 113, Pág. 30
Sendo assim, podemos afirmar que existe uma língua Nacional em Cabo Verde, que é o Crioulo.
Segundo o mesmo autor, citando Ferdinand de Saussure “le signe linguistique est arbitraire” (C.L.G.). Realmente, na língua tudo é arbitrário, isto é, imotivado e convencional. Se o código linguístico é o resultado de uma convenção, podemos ter um dialecto em Língua Nacional, conforme a extensão da convenção e da função Sócio- geográfica. E “quando a convenção do código como veículo de cultura é extensiva a todo o povo, (pelo menos a maioria) quer na sua prática, quer na sua compreensão, nós temos Língua Nacional”.
(13)Para Manuel Veiga, a língua nacional para além de ser o veículo e o suporte de todas as experiências culturais, técnicas e científicas de um povo, constitui um meio de comunicação para todo o povo desde a mais pequena idade. Acrescentou ainda que, o Crioulo de Cabo Verde é uma língua pelo menos de maioria do povo cabo-verdiano, falada desde a mais tenra idade e constitui o veículo de todo o modo de ser, de agir e de viver dos mesmos. E que essas premissas confirmam que realmente o crioulo é uma Língua Nacional.
Na sua contestação, o linguista realçou o problema do Bilinguismo levantando por algumas pessoas, afirmando que realmente esta situação existe em Cabo Verde, mas que também, está claro que só uma certa percentagem da população cabo-verdiana fala o português, e este não traduz o pensar do povo cabo-verdiano.
A esse mesmo respeito, disse que uma outra dúvida que pode ser levantada é que se o crioulo não possuir a escrita como é que se pode considerá-lo como Língua Nacional. Confirmou que neste caso, é bom saber que uma língua é prioritária e principalmente oral e que a escrita tem a função Subsidiária e um complemento da linguagem oral. Para o linguista, “o mais importante é saber falar: … O facto de não estar ainda suficientemente instrumentalizado para veicular todas as experiências técnicas da humanidade não tira o Crioulo nada do seu carácter Nacional. Nenhuma Língua do mundo pode vangloriar-se desta qualidade”.
(14)1313
I Colóquio Linguístico Sobre o Crioulo de Cabo Verde – pág. 31
1414
I Colóquio Linguístico sobre o Crioulo de Cabo Verde, 1979 – pág. 32
De acordo com as ideias defendidas por alguns linguistas, podemos afirmar que o Crioulo, “é portanto a nossa Língua Nacional tanto quanto o Francês ou o Português são respectivamente Línguas Nacionais dos Franceses e dos Portugueses.”
(15)1.3. O Estatuto do Crioulo em Cabo Verde
O Crioulo de Cabo Verde, tendo em conta o contexto da sua formação (plurilinguístico adverso e limitado), o seu estatuto, teria que ser fruto de um processo que se concretiza através dos tempos. Segundo Manuel Veiga, quando começou o povoamento das ilhas de Cabo Verde em 1462, com um reduzido número de portugueses (colonos), genoveses, escravos africanos e comerciantes, em que cada um falava a sua própria língua, o entendimento entre eles foi um tanto ao quanto difícil.
Isto, tendo em conta universos linguísticos em presença.
E diante de um instrumento de comunicação muito limitado, fez com que houvesse confrontos, cedências e tolerância por parte dos diversos sistemas em presença.
Desse processo e/ou entendimento, originou o Pidjin, que é considerado por este estudioso, o primeiro estatuto que o referido instrumento de comunicação ganhou, por ser um “meio de comunicação instável que não obedece a uma estrutura definida, com poucos recursos lexicais e gramaticais, funcionando mais na base de parataxe (ausência de hierarquização e de relação sintáctica) do que de sintaxe.
Segundo Manuel Veiga, depois de um certo tempo (1472), com a presença permanente de colonos brancos mas em número insignificante de uma boa parte do contingente escravocrata, fez com que o referido pidgin ganhasse uma certa estabilidade lexical e gramatical, principalmente por parte dos escravos – filhos. E tendo estas condições, entradas numa nova fase, que é a de crioulização.
15
Idem.
Continuando a evoluir, o proto-crioulo já no início do século XVII o estatuto de crioulo, o qual se caracteriza por uma estrutura interna e externa muito mais estáveis e muito mais desenvolvidas do que o pidgin inicial que o originou, segundo as declarações citadas por António Carreira.
Porém, o Crioulo cuja consolidação se processou sem grandes sobressaltos, nos séculos XVII e XVIII, no século XIX passou a ser objecto de ataque cerrado, com a introdução do ensino oficial em Cabo Verde. Neste século a situação agravou-se cada vez mais, tendo em conta que a partir deste século foi imposta a prática efectiva de
«assimilação», foi marginalizado social e culturalmente, por muitos, mesmo sabendo que fosse de facto a língua de unidade de todos os cabo-verdianos, língua de identidade nacional.
No século XX, escritores, e trovadores defenderam a causa do crioulo através da escrita e este foi reclamado como suporte principal da cabo-verdianidade. E neste mesmo século, conquistou o estatuto de língua nacional e materna.
A instrumentalização do Crioulo, também constitui um dos aspectos relevantes para a sua afirmação. Desde o século XIX, várias tentativas foram desencadeadas, por estudiosos e pessoas interessados pela matéria, com o intuito de darem os seus contributos. Por não terem formação linguística, os mesmos passaram por muitas limitações, mas os contributos dados por eles foram válidos. A partir do século XX, as obras de cunho científico começaram a surgir, com o escritor Baltazar Lopes da Silva com “O Dialecto do Crioulo de Cabo Verde”. E na sequência deste, outras obras foram escritas. A título de exemplo temos - “Cabo Verde - Contributo para o Estudo do Dialecto Falado no seu Arquipélago,” um trabalho de Maria Dulce Almada que foi publicado em 1961.
Depois da Independência Nacional começou uma nova fase de instrumentalização
do Crioulo (1975) segundo Manuel Veiga. De acordo com ele, vários colóquios foram
realizados nesse sentido, e na sequência destes vários livros e documentos foram
escritos pelos linguistas.
Mas, até agora, não existe ainda um alfabeto oficializado, apesar de todo o percurso feito. Até este momento, escreve-se com base no alfabeto etmológico como também no alfabeto fonológico.
Apraz-nos afirmar que em Cabo Verde, a par do português língua oficial e de escrita, se fala o crioulo ou língua cabo-verdiana, que constitui o vernáculo e o idioma falado por toda a população residente no arquipélago.
No entanto, considerando a diferença de estatuto entre as duas línguas, sublinha-se que a sociedade cabo-verdiana vive numa situação de Diglossia em vez de Bilinguismo, contrariamente ao que muitos pensam. Isto porque, um país é verdadeiramente bilingue
“quando, para além da língua materna e vernácula, domina, em qualquer contexto ou circunstância, uma outra língua, e com a mesma competência e eficácia que a língua primeira confere. Um real bilinguismo exige ainda que a língua primeira e segunda sejam complementares, possuindo ambas um estatuto social e funcional útil e prestigiante.”
(16)De facto, o Crioulo é a língua do quotidiano cabo-verdiano, informal, não escrita, não valorizada socialmente, falada pela totalidade da população, língua exclusiva de uma maioria, esmagadora da população / sociedade. Suporte privilegiado da identidade nacional, com muito peso na comunicação oral (cerca de noventa por cento), na música e na literatura oral. Apesar disso, a nossa língua materna continua a aguardar por melhores dias, no concernente à sua oficialização. O português, ao contrário do crioulo, é uma língua de formalidade ou de situações especiais, falada por uma minoria muito reduzida no universo demográfico Cabo-verdiano que, para além do estatuto de língua oficial, é a língua veicular no contexto escolar, da administração e dos tribunais, da comunicação escrita, dos mass media e de literatura escrita.
“A diglossia contém, pois, em si o gérmen da desigualdade das línguas em presença, desigualdade que é função da sua importância e do seu estatuto na vida Social”.
(17)Dulce Duarte afirma que a situação linguística em cabo verde talvez tenha sido sempre diglóssica. Sabendo que as duas línguas (Portuguesa e Crioula) coexistem desde o nascimento da segunda (crioula), e desde cedo se impôs em Cabo Verde como língua
1616
Manuel Veiga, Dialectologia e Bilinguismo, Pág. 9
1717
Dulce Duarte, Proposta de bases para o Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana,
Pág.39
veicular. E que o Crioulo era praticamente a única língua falada tanto por negros e mestiços como por brancos, exceptuando os portugueses ao serviço da Igreja Católica ou da Coroa/bispos, governadores comerciantes e altos funcionários. E nestas condições não funcionava como uma língua dominada visto que os próprios portugueses adoptavam muitas vezes o crioulo como língua das relações oficiais.
Reconhecido o papel que a língua cabo-verdiana desempenha no reforço da cabo- verdianidade e do desenvolvimento do país, não são poucos os defensores da sua oficialização ao lado do português. Isto, não só, como da sua valorização, mas também, porque é através dela que melhor nos entendemos, que melhor pensamos, sonhamos, nos divertimos, sofremos, trabalhamos, criamos, enfim, vivemos.
Manuel Veiga, estudioso e linguista de muita reputação em Cabo Verde, considera que tanto a Língua Portuguesa como língua Cabo-verdiana estão em construção, apesar de quinhentos anos a conviverem lado a lado. E que é importante que se comece a ensinar o crioulo nas escolas para que o português não continue “Kansadu” e o crioulo
“maltratadu”.
De acordo com o mesmo linguista, o ensino do Crioulo deve de ser introduzido no sistema de ensino como a primeira língua de acesso ao conhecimento dos Cabo- verdianos, para que o Português passe a ser ensinado como língua segunda e assumir o seu valor instrumental e civilizacional. Acrescenta ainda, citando o decreto-lei nº67/98 de 31 de Dezembro (BO nº 48) que:
“Sendo o crioulo a língua do quotidiano em Cabo Verde, o elemento essencial da identidade nacional e do desenvolvimento harmonioso do país, esse desenvolvimento não será possível sem a estandardização da escrita do crioulo, ou seja, da língua cabo-verdiana. Ora, a estandardização do alfabeto constitui o primeiro passo para a estandardização da escrita”
remata.
Para cumprir esse desiderato, elaborou-se um documento de carácter experimental
designado ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana) que
modela a estrutura da escrita do crioulo, visto que, antes, cada um escrevia como lhe
convinha, de acordo com a mesma fonte.
Com a institucionalização experimental da escrita o instituto Superior da Educação (ISE), através de Departamento de Línguas Cabo-verdiana e Portuguesa criou uma cadeira de Linguística Cabo-verdiana, com o intuito de atender novos desafios que se colocam às instituições de preparação e formação de futuros professores em Cabo Verde.
O Crioulo, hoje, tem maior expressão e visibilidade contando já com alguns trabalhos de cariz científico, tais como dicionários, gramáticas e várias obras escritas, instrumentos indispensáveis à valorização e afirmação de qualquer língua. No entanto, para muitos a sua verdadeira afirmação está condicionada pela sua instrumentalização, estandardização, seguido da sua oficialização e ensino no quadro do desenvolvimento curricular.
É evidente que o crioulo continua a ser uma língua sem estatuto oficial, mas seguramente com raízes bem entranhadas no sangue e na veia de todos os cabo- verdianos, constituindo o nosso orgulho maior como povo e nação.
CAPÍTULO II
2. Atitude dos professores quanto à problemática do ensino da Língua Portuguesa:
Análise dos questionários a professores do português do Ensino Secundário sobre o ensino e aprendizagem da Língua Portuguesa
Cabo Verde é um país onde se verifica o fenómeno da coexistência de duas línguas – a Cabo-verdiana, língua materna e nacional e a Portuguesa, língua oficial. Só esta última é ministrada nas escolas, pois a cabo-verdiana até então não passou de codificação e normalização.
Até a Independência, ocorrida a 5 de Julho de 1975, o ensino da língua portuguesa, em Cabo Verde, foi sempre ministrada como que se de uma língua materna se se tratasse, tendo este processo ainda continuado até à presente data. Embora este ensino tenha sofrido não oficialmente, algumas alterações está-se, actualmente, a enveredar por um sistema de ensino cujo processo é ministrado para o das línguas estrangeiras o que também não é adequado. Trata-se de um instrumento de comunicação com estatuto definido tanto “per si” quanto pela legislação que “Estabelece as Bases do Sistema Educativo”.
(18)A convivência desses dois idiomas no espaço linguístico cabo-verdiano, faz com que haja alguma dificuldade no processo de ensino-aprendizagem, da língua portuguesa, por se tratar de uma língua segunda, cujo primeiro contacto com o falante, muitas vezes, só se efectua num estabelecimento de ensino.
Com o intuito de analisar as atitudes dos professores quanto à problemática do ensino do Português no secundário, foi imprescindível a inquirição dos mesmos, sendo estes os principais agentes do processo ensino - aprendizagem, observadores e privilegiados desse acto, profissionais preparados e vocacionados para nele intervir.
Planeamos, assim, questionar os professores de português em exercício de funções com formação superior no ramo.
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