O “Sul pobre” contra o “Norte rico”?
Elisseos Vagenas*
Explicação da imagem: Mapa mundial do consumo anual de electricidade por pessoa1
"Culpai o nosso desgraçado destino!
Culpai o Deus que nos odeia!
Culpai as nossas estúpidas cabeças!
Culpai o vinho, mais que tudo!
A quem culpar? A quem culpar?… nenhuma boca até agora a isto respondeu."
Kostas Varnalis
No entanto, já encontraram a parte culpada! Pelo menos, se acreditarmos no sr. Tsipras [presidente do partido Syrisa], no sr. Kammenos [presidente dos “Gregos Independentes”], no jornal “Pontiki”, no “ninho de vespas” fascista da Aurora Dourada e em muitos outros que no-lo apontam o dedo. A parte culpada é a srª. Angela Merkel, o nosso “demónio” do mal, primeiro- ministro da Alemanha, e a zona Euro como um todo. O moderno Kaiser da Europa, que nos odeia e nos atormenta...
Esta interpretação é tão… “clássica” que nos faz lembrar um poeta, Konstantinos Kavafis, e o seu poema “À Espera dos Bárbaros”:
“Por que esperamos, reunidos no fórum?
Os bárbaros vão chegar hoje.
Porquê nada acontece no senado?
Porque estão os senadores sentados sem fazer leis?
Os bárbaros vão chegar hoje.
Que leis podem os senadores fazer agora?
Quando os bárbaros chegarem, serão eles a fazer as leis.”
Claro que, conforme Tsipras, Kammenos, etc., nos explicam, desta vez os “bárbaros” não são apenas hostis aos gregos, mas a todo o Sul. E bem pode isto ter tornado as nossas vidas insuportáveis que também inclui em si, de acordo com a mesma gente, a nossa esperança e a nossa salvação: temos que nos fundir numa “frente do Sul pobre, contra o Norte rico”. E então, derrubaremos o “Kaiser” e a UE passará de “lobo” a cordeiro. A muito desejada “solidariedade da UE” terá expressão e basicamente hão-de correr rios de mel e as montanhas serão de arroz! Na verdade, encontraremos provavelmente as ruas pavimentadas com o ouro que nos prometeram quando o país entrou na CEE em 1981.
O que nos querem eles esconder?
É realmente uma explicação conveniente para aqueles que manejaram e manejam os destinos de milhões de trabalhadores na Grécia, em Itália, em Portugal, em Chipre, em Espanha, para todos aqueles que têm o verdadeiro poder nas mãos! De acordo com esta lógica, o sistema capitalista, que força toda a sociedade a produzir bens e fornecer serviços de modo a beneficiar uma minoria de pessoas com toda essa actividade, quer dizer, os que detêm os meios de produção, esse sistema não tem qualquer responsabilidade! Os que vivem no luxo sem saber nem o que produzem, nem como, os vários negócios cujas acções compram e vendem não têm qualquer responsabilidade. A União Europeia e as suas 4 “liberdades”
(movimentos de capital, de mercadorias, de serviços e de força de trabalho), que foram institucionalizadas e constituem a pedra de toque de todas as reestruturações reaccionáriasdas últimas duas décadas, expandindo por todo o lado a comercialização da educação e da saúde, a abolição dos ganhos sociais, o desemprego e a pobreza, não são responsáveis.
Que bonito! Que conveniente para aqueles que pretendem “democratizar” e “sanear” o capitalismo e a união capitalista inter-estados na Europa, a UE. É muito fácil apresentar apenas a srª. Merkel como “obstáculo” à prosperidade dos trabalhadores e à transformação da UE a favor do povo.
Querem esconder a barbaridade do sistema capitalista por detrás do “véu” da srª. Merkel.
Querem esconder a contradição básica, aquela que existe entre o capital e o trabalho! Os trabalhadores não devem cair nesta armadilha do sistema. Não devem acreditar no palavreado alegadamente “patriótico”, de “resistência” e “anti ocupação” em que essas forças políticas se comprazem, competindo entre si sobre quem dirige melhor o sistema.
Qual a realidade?
Talvez alguém possa dizer como argumento contra nós, que a Alemanha “ganhou” com a crise, enquanto os países do Sul estão a perder. A realidade é que a Alemanha, devido ao desenvolvimento capitalista desigual, ainda está numa fase de crescimento capitalista. Não porque a srª Merkel tenha qualquer espécie de varinha mágica, mas porque o capitalismo tem leis objectivas. Assim, por exemplo, o capital vai para os países que conseguem mais fácil e seguramente produzir lucros para os seus proprietários capitalistas.
As relações de interdependência desigual são formadas nas uniões imperialistas e no sistema capitalista global como um todo, na base do poder económico e político-militar de cada país.
Isto também acontece na UE, onde a Alemanha desempenha o papel de “força motriz” da integração capitalista no velho continente.
Isto não significa que todos os alemães estejam a ganhar! Há agora também na Alemanha um aumento da pobreza relativa e absoluta dos trabalhadores. Calcula-se que 16 milhões de alemães vivem na pobreza, isto é, 15,1% da população. Os desempregados são 2,9 milhões e trabalhadores, sobretudo jovens, com salários de 300-400 euros são mais de 7,3 milhões.
E na Alemanha um punhado de capitalistas estão a ganhar, como no resto do mundo capitalista. Ao mesmo tempo, a agenda anti trabalhadores é aplicada nos outros países da UE, com ou sem memoranda.
Os impasses do modo de produção capitalista são expressos com maior intensidade nos países do sul: (desemprego, pobreza, indigência, etc.), porque é aqui que se manifestou a crise capitalista, cuja causa não serão certamente os “ladrões” e “vigaristas” (que são apenas o glacê no bolo do sistema), mas sim a natureza do próprio capitalismo, que agora apenas é capaz de dar origem a crises e guerras.
Evidentemente que a fase de recessão que os países do sul da UE experimentam hoje traz consigo a destruição de forças produtivas sob a forma de desvalorização das mercadorias e sobretudo da principal força produtiva que é o ser humano. Isto é expresso através do súbito aumento do desemprego, da redução dos salários, com condições mais negativas no seu conjunto para a reprodução da força de trabalho. Os capitalistas procuram empurrar o fardo da crise tanto quanto possível para os empregados assalariados, isto é, aumentando o nível da exploração para aumentarem o valor da mais-valia por unidade de tempo.
Ao mesmo tempo, uma certa secção de capitalistas está a ser destruída pela crise, enquanto outra secção vence. A secção que perde promove outra fórmula para a gestão do capitalismo, de modo a poder escapar à destruição. Tenta conseguir para este projecto a maior parte de trabalhadores possível. Contudo, os trabalhadores não devem deixar-se enredar sob uma falsa bandeira! Porque o capitalismo, seja qual for a secção que vença, não muda. Os trabalhadores no Norte e no Sul devem promover a sua bandeira própria: a socialização dos meios de produção, o planeamento central e o controle popular pelos trabalhadores. As necessidades actuais e reais dos trabalhadores só podem ser satisfeitas sob esta bandeira.
Na chamada “frente do Sul”
Este absurdo deve ser algum dia deitado para o lixo. De início, disseram-nos que com a eleição de Hollande “vai soprar um vento do Sul”. O que é que se mostrou? Que se tratou de tretas!
Hollande continuou a mesma linha política contra o povo, tanto nos assuntos internos como externos (Mali, Síria, etc.). Realmente, qual a posição de Hollande sobre a questão cipriota?
Não se juntou ele à “frente” da UE? Não pediu ele também sacrifícios aos trabalhadores, pensionistas e jovens de Chipre, para salvar o capitalismo e o chamado “Projecto Europeu”?
Nenhuma “aliança” estável pode existir entre os “países do Sul”, onde o desenvolvimento capitalista desigual é também dominante, assim como existem os mais fortes conflitos e competição entre o capital nesses países e no interior do capital de cada país.
Supondo, teoricamente, que tal “frente” é criada, qual seria o resultado? Talvez a eurozona, por exemplo, se dividisse e pudéssemos ter dois euros ou alguns países regressassem à moeda nacional. No melhor dos casos, tal como nos descrevem, seria seguida outra fórmula de gestão, como Obama nos EUA, por exemplo, que o sr. Tsipras está a promover para a Grécia.
A vida tem demonstrado que não haverá absolutamente nenhum benefício para os interesses do povo. O desemprego é também um problema sério nos EUA (está a aumentar, 7,6%
segundo as estatísticas oficiais e 14% de acordo com estudos mais profundos), mais de 10%
do povo sobrevive graças à sopa dos pobres, enquanto 46 milhões de pessoas (15%) vivem abaixo da linha de pobreza e 42% sobre essa linha. Uma em cada sete crianças americanas vive em condições de pobreza e miséria. Por todo o lado, a saúde, a educação e a segurança social estão comercializadas. 15% das pessoas não têm protecção médica e 30% têm-na apenas a um nível rudimentar que na essência não abrange nem as coisas mais básicas. A idade de reforma oficial é 67 anos para homens e mulheres e os pobres vivem afogados em dívidas aos bancos e ao estado burguês.
Os velhos truques da classe burguesa
A divisão entre “Sul pobre” e “Norte rico” é um velho truque da classe burguesa e dos oportunistas. Para começar, nem sempre se referiu à própria UE, mas ao mundo em geral, através da comparação entre os países do norte (ou também os países dos “mil milhões de
ouro”, que incluem toda a população grega) com os países mais pobres do mundo. Esta divisão entre países “ricos” e “pobres” apoia-se nos números do PIB e nos dados de consumo da população, mas não pode ser desligada dos seguintes factos:
Que, mesmo nos países mais pobres do mundo, existe riqueza acumulada nas mãos dos poucos que de facto vivem de modo particularmente provocante em comparação com o resto da população.
Que, mesmo nos países mais ricos do mundo, existe enorme pobreza.
Que os ricos nos “países pobres” e os ricos nos “países ricos” têm uma frente comum contra os trabalhadores. Criam as suas próprias organizações e mecanismos para manterem e reforçarem o seu poder. A NATO e a UE são organizações dessas.
Que os trabalhadores, independentemente de viverem em “países pobres”
(onde a água pode ser escassa) ou em “países ricos” (onde se podem lavar duas ou três vezes por dia), têm interesse comum em derrubarem o poder do capital.
Os partidos burgueses e oportunistas, em nome dos interesses da “nação” e da “economia nacional”, apelam à classe operária dos países desenvolvidos para “consensos” e sacrifícios para manterem uma posição dominante na competitividade, enquanto nos países menos desenvolvidos apelam a “consensos” e sacrifícios para desenvolver e promover o país, de modo à economia ser mais “competitiva”, etc. Em ambos os casos, o capital fica com o bolo todo para ele.
Esta é a razão pela qual o nível de desenvolvimento dos países é posto como linha divisória básica no nosso tempo, visto que, caso sigam esta lógica, leva os trabalhadores a alinharem a todo o momento com a “linha política nacional”, que é criada pelo pessoal da classe burguesa, isto é, os objectivos estabelecidos pela classe burguesa dos seus países. Um objectivo dos capitalistas de qualquer país é melhorar a sua posição na “pirâmide” imperialista global, de modo ao seu negócio poder ganhar maior fatia do mercado através da exploração de recursos naturais e da força de trabalho. O seu objectivo não tem nada a oferecer aos trabalhadores, excepto a uma muito pequena parte deles, a “aristocracia operária” que, como uma hiena espera comer os restos deixados pelos leões do capitalismo, os fortes negócios monopolistas.
Os que falam de “frente do Sul”, de “ocupação do país pela Alemanha”, de saída do euro ou da UE, mas mantendo-se em capitalismo, estão a pedir aos trabalhadores essencialmente para continuarem a trabalhar para a classe burguesa ou para uma parte dela que quer outra
“fórmula” de governo e outras alianças internacionais. De facto, estão a facilitar essas secções da classe burguesa dos outros países que pretendem uma eurozona mais pequena pelo seu próprio interesse, com retirada de alguns países.
Bombardearam-nos com a infantil análise de que “Merkel é a culpada de tudo”, tal como o
“Norte do mal”, porque é uma excelente e conveniente solução para eles a fim de esconderem a barbaridade capitalista, as responsabilidades do capitalismo e a necessidade do seu derrube.
Confundem as pessoas sobre que alianças precisamos hoje.
Kavafis, no poema citado e quando se mostrava que os bárbaros afinal não vinham, ponderava:
“E agora, o que vai acontecer-nos sem os bárbaros?
Eles, os bárbaros, eram uma espécie de solução.”
Assim, aqueles que agora apontam para a Merkel irão ponderar se as pessoas percebem quem é realmente de culpar pelo sofrimento que experimentam e que espécie de aliança é necessária para ultrapassar a actual situação insuportável.
“Aliança do Sul” ou Aliança dos Povos
Os que propõem aos trabalhadores a formação de uma “Aliança do Sul” como alegada
“solução” para os impasses de hoje enlameiam as águas por uma outra razão, porque em essência estão a levar-nos a acreditar que os governos burgueses dos países Sul se podem aliar e defender os interesses das pessoas da classe operária. Seria um terrível erro para os trabalhadores dos países do Sul esperarem qualquer coisa daqui. Esperariam em vão! A barbaridade capitalista não pode ser derrubada pelos governos que emergem dos mecanismos burgueses e que representam os interesses do capital, quer sejam de direita ou se chamem de
“esquerda” ou de “centro esquerda”. É o que a vida nos tem mostrado!
A aliança de que precisamos hoje é a Aliança Popular da classe operária, dos outros estratos populares urbanos e rurais. Esta aliança estará em ruptura e derrubará o capitalismo e os monopólios. Socializará os meios de produção, organizará o planeamento central da economia, formará as instituições do poder e controle da classe operária, tirará o país de todas as uniões imperialistas e rejeitará as relações de interdependência desigual que existem no quadro do sistema imperialista, organizará a solidariedade e coordenação da luta contra o capitalismo e os monopólios não apenas do Sul, mas da Europa como um todo, por todo o mundo, com os outros movimentos e povos que se erguem!
*Membro do CC do PCC (KKE); responsável pela Secção de Relações Internacionais Publicação inicial em "Rizospastis" 4/5/2013
Tradução: Jorge Vasconcelos
1Os países do Sul estão a vermelho e os países do Norte a verde. Com base no referido indicador, o nosso país pertence ao “Norte” e o povo grego junto com outros povos do “Norte” está entre os que “tiranizam” o “Sul pobre”.
Contudo, as mesmas forças que classificam a Grécia no “Norte” com base nestes e noutros dados (p. ex., consumo médio de água por pessoa, electrodomésticos por pessoa, etc.), quando se fala da UE, classificam-na como estando no “Sul pobre” que o “Norte rico” tiraniza.
A divisão entre “Norte” e “Sul” é um velho “instrumento” político-ideológico nas mãos da classe burguesa e dos oportunistas que é usado em todo o mundo. O seu objectivo é inculcar nos trabalhadores a lógica do “consenso social”
com a classe burguesa ou uma sua parte que procura melhor posição no sistema capitalista global.
Contudo, a questão para a classe operária e os outros estratos populares não é uma melhor posição para o seu país no mercado global capitalista, nem uma melhor gestão do capitalismo, mas o derrube da barbárie capitalista e a construção socialista que rejeitará igualmente as relações de interdependência desigual formadas no quadro da
“pirâmide” imperialista e que criará as condições prévias para a satisfação das necessidades contemporâneas dos povos. Possui neste caminho a arma do Internacionalismo Proletário e a unidade de classe da classe operária, independentemente do nível de desenvolvimento das forças produtivas em cada país.