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BIOGRAFIA DE GONÇALVES DIAS

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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZE PÓS GRADUAÇÃO EM LETRAS – STRICTU SENSU

SIMONE PEREIRA LIMA DA FONSECA

GONÇALVES DIAS E A PROFISSIONALIZAÇÃO DO ESCRITOR NO BRASIL

SÃO PAULO / SP 2019

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SIMONE PEREIRA LIMA DA FONSECA

GONÇALVES DIAS E A PROFISSIONALIZAÇÃO DO ESCRITOR NO BRASIL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre.

ORIENTADORA:

Profª Drª MARISA PHILBERT LAJOLO

SÃO PAULO / SP 2019

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DEDICATÓRIA

À minha família.

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AGRADECIMENTOS

À minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Marisa Philbert Lajolo, pela orientação, paciência e conselhos.

À minha família

Aos professores participantes da minha qualificação de Mestrado pelas sugestões e orientações: Prof.º Dr. º João Cesário Leonel Ferreira e Dr.ª Gisele Gomes Maia.

À CAPES pelo incentivo aos estudos e pela contribuição financeira.

Ao Corpo docente do Programa de Mestrado em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pelo apoio e dedicação.

Aos amigos, que conheci ao longo deste caminho.

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EPÍGRAFE

I “Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos

Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!

O homem que é forte Não teme da morte;

Só teme fugir;

No arco que entesa Tem certa uma presa,

Quer seja tapuia, Condor ou tapir. ”

Canção do Tamoio

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RESUMO

Este Mestrado pretende discutir os aspectos econômicos, editoriais e de social da profissionalização do escritor Antônio Gonçalves Dias(Caxias, 1823 – Litoral do Maranhão,1864) a partir da apresentação e discussão de três cartas por ele enviadas a um amigo maranhense, Alexandre Teófilo de Carvalho Leal (1822- 1879), que fora seu colega em Portugal, quando ambos cursavam a Universidade de Coimbra.

A análise das cartas provocou uma reflexão sobre os valores sociais e culturais do Brasil do século XIX , temas controversos, construção de uma identidade literária, sistema literário e profissionalização do escritor no Brasil, aperfeiçoamento do pratica de escrita, com destaque para questões financeiras.

Palavras- chaves: Gonçalves Dias, correspondência, profissionalização do escritor no Brasil.

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ABSTRACT

This Master intends to discuss the economic, editorial and social aspects of the professionalization of the writer Antônio Gonçalves Dias (Caxias, 1823 - Litoral do Maranhão, 1864) from the presentation and discussion of three letters sent by him to a Maranese friend, Alexandre Teófilo de Carvalho Leal (1822-1879), who had been his colleague in Portugal, when both were attending the University of Coimbra.

The analysis of the letters provoked a reflection on the social and cultural values of nineteenth-century Brazil, controversial themes, construction of a literary identity, literary system and professionalization of the writer in Brazil, improvement of writing practice, highlighting financial issues.

Keys words: Gonçalves Dias, correspondence, professionalization of the writer in Brazil.

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Sumário

INTRODUÇÃO...19

1- BIBLIOGRAFIA DE GONÇALVES DIAS...21

2- CORRESPONDÊNCIA DE GONÇALVES DIAS E SUA ANÁLISE...26

2.1 CARTA 01, de Gonçalves Dias a Alexandre Teófilo em 19 nov 1846...26

2.1.1 Análise da CARTA 01...27

2.2 CARTA 02, de Gonçalves Dias a Alexandre Teófilo em 23 jan 1847...34

2.2.1 Análise da CARTA 02...40

2.3 CARTA 03, de Gonçalves Dias a Alexandre Teófilo em 12 dez 1847...51

2.3.1 Análise da CARTA 03...53

3- DOCUMENTOS DE CASTRO ALVES E JOSÉ DE ALENCAR...60

3.1 CARTA 04, de Castro Alves a seu irmão Guilherme em 28 jan 1870...60

4- FRAGMENTO DE COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA...68

5- CONSIDERAÇÕES FINAIS...70

6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁGICAS...73

7- ANEXO I...77

(11)

INTRODUÇÃO

Esta dissertação pode contribuir para melhor compreensão da profissionalização dos escritores, a partir da investigação das condições econômicas durante a profissionalização do escritor Gonçalves Dias, no século XIX , os valores sociais e sua relação com o mercado editorial. Pretende ser uma porta para discussões, que permitam compreender a complexidade da profissionalização do escritor, permitindo aprofundar dentro da nossa área Literatura, e buscar pela ótica interdisciplinar, perspectivas sociais e históricas que auxiliem na compreensão da profissionalização do escritor contemporâneo .

Essa pesquisa apresenta as práticas profissionais de Gonçalves Dias e a maneira que ele consegui financiamento para o seu projeto literário. Essas práticas profissionais (contribuição na imprensa e pesquisas históricas ) o auxiliaram de maneira significativa em seu aperfeiçoamento. Consideramos que o e estudo da correspondência de Gonçalves Dias pode servir de parâmetro para a compreedermos, também a situação profissional do escritor contemporâneo.

A hipótese é que, embora nas cartas aqui selecionadas o assunto seja relativo à situação financeira do poeta, algumas reflexões nelas presentes podem aplicar-se a outros escritores brasileiros da época e, assim, representarem aspectos da profissionalização disponível – nas Letras- para escritores brasileiros do século XIX.

O trabalho aqui apresentado inspira-se no estudo da correspondência de escritores, tema que recentemente tem sido incorporado aos estudos literários1.

O estudo da correspondência de escritores, por sua vez, se fortalece a partir da perspectiva de Antônio Candido 2 para quem a literatura constitui um sistema que, integrando autores, obras e públicos encontra, na mediação entre estes elementos, reflexos do contexto social da época.

1 Cf. entre outros : Gomes, Ângela de Castro ( org) Escrita de si, escrita da História . RJ : Editora FGV.

2004; . Moraes, Marcos Antonio de. Orgulho de jamais aconselhar : a epistolografia de Mário de Andrade . SP, EDUSP, 2007.

2 Antonio Candido. Formação da Literatura Brasileira ( momentos decisivos 1750 - 1880 . RJ , Ouro sobre Azul, 2006 ; Literatura e sociedade : Estudos de Teoria e História Literária . RJ, Ouro sobre Azul, 2014.

(12)

São várias as biografias de Gonçalves Dias disponíveis3 nelas encontramos elementos que dão concretude às interpretações de certas passagens da correspondência aqui analisada e é delas que vêm os dados que, transformados em narrativa, compõem uma resumida biografia do poeta.

3Pereira, Lúcia Miguel. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1943.

Moraes, Jomar . Gonçalves Dias : Vida e obra. São Luis: Alumar. 1998

(13)

1.

BIOGRAFIA DE GONÇALVES DIAS

4

Nascido em Caxias do Maranhão, Gonçalves Dias era filho do imigrante português João Manuel Gonçalves Dias e de Vicência Ferreira, cafuza, de quem João Manuel separa-se (1929) para casar-se com Adelaide Ramos de Almeida.

Casado, o pai leva o filho para morar com eles, matricula-o em uma escola (1830) e leva-o ( 1833) para trabalhar como caixeiro em seu armazém .

Eram planos de o pai levar o filho a Portugal, com vistas a facultar-lhe estudos universitários. Com este objetivo vão ambos de Caxias para S.Luís, onde embarcariam para a Europa. Mas João Manuel morre e o menino retorna a Caxias.

Amigos do falecido João Manuel convencem a viúva a cumprir a vontade do falecido relativamente aos estudos do enteado, o que ela relutava em fazer.

Finalmente ela concorda, e Gonçalves Dias embarca para Portugal em 1838. No ano seguinte, porém, em virtude de perdas que diz ter sofrido com a as lutas da Balaiada ( 1838-1849), a madrasta suspende o envio de dinheiro para Gonçalves Dias e pede que ele retorne a Caxias .

O rapaz – então com 16 anos – não cumpre a ordem de dona Adelaide, sua madrasta, e passa a viver da solidariedade de amigos (em suas maioria maranhenses – também estudantes em Coimbra5 - que o financiam, oferecendo-lhe alojamento e refeições.

Posteriormente (1842), a madrasta volta a ajudá-lo financeiramente, o que lhe permite viver intensamente a vida cultural coimbrã, ligando-se, inclusive a um grupo de poetas e produzindo seus primeiros textos poéticos e teatrais 6.

No entanto, a parcimônia dos recursos que recebe de Caxias, obriga-o a continuar a depender dos amigos o que, em carta posterior (01.05. 1845), ele reconhece e lamenta:

4 O Anexo I do presente trabalho é uma tábua cronológica que lista episódios da biografia de Gonçalves Dias intercalados com trechos de sua correspondência que fazem menção à sua situação financeira .

5Além do já mencionado Alexandre Teófilo de Carvalho Leal (1822- 1879), fazem parte do grupo João Duarte Serra ( 1818-1855), Joaquim Pereira Lapa) José Hermenegildo Xavier de Moraes fluminense [ não se encontrou dia de nascimento e data da morte desses amigos].

6 Quando volta ao Brasil, Gonçalves Dias já traz pronta a Canção do Exílio e a peça Beatriz de Cenci.

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Triste foi a minha vida de Coimbra – que é triste viver fora da pátria, subir degraus alheios – e por esmola sentar-se à mesa estranha. Essa mesa era de amigos...embora! o pão era alheio – era o pão da piedade- era a sorte do mendigo 7( p. 39 )

Formado em 1844, no ano seguinte Gonçalves Dias retorna ao Brasil, vive por um tempo em Caxias, com a madrasta. As relações entre eles talvez não sejam muito boas e, em 1846 o rapaz vai a São Luis, onde se hospeda na casa do antigo colega de Coimbra e amigo de toda a vida), Alexandre Teófilo.

Esta permanência na casa do amigo influi poderosamente na vida de Gonçalves Dias, pois lá ele conhece a prima e cunhada de Alexandre Teófilo, Ana Amélia Ferreira do Vale, por quem se apaixona .

De São Luis – no mesmo ano de 1846 (14.06) e sempre com ajuda de amigos – o poeta vai para o Rio de Janeiro onde pretende fazer deslanchar sua carreira de escritor. É deste ano, e da então capital do Brasil, que é datada (08.11.1846) a primeira carta que analisaremos neste trabalho. É Dirigida ao mesmo Alexandre Teófilo que o alojara tanto em Coimbra quanto em São Luiz, ela nos fornece informações úteis sobre a fase inicial de carreira de Gonçalves Dias, período em que enfrentou graves problema econômicos, enquanto buscava se estabelecer como escritor no Rio de Janeiro.

Seu livro de poemas Primeiros cantos8 foi publicado em 1847 (embora a primeira edição tenha saído com data de 1846) pela editora Laemmert e recebeu comentários elogiosos do crítico e escritor português Alexandre Herculano (1810- 1877), na prestigiosa revista Universal Lisbonense t. 7 p. 7 (1847-1848):

Os primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta.

A terra de Santa Cruz, que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um ilustre filho. O autor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos dos escritos ainda pouco amestrado pela experiência:

imperfeições de língua, de metrificação, de estilo. Que importa? O tempo apagará essas máculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas páginas deste formoso livro. (...) (Herculano apud Dias, 1944, p. 8)

7 Todas as cartas de Gonçalves Dias aqui citadas e/ ou transcritas vêm da publicação Anais da Biblioteca Nacional, Vol 84. Correspondência ativa de Gonçalves Dias. Divisão de Publicações e divulgação. 1971 . ( Org. Wilson Lousada) . Segue-se à transcrição o número da página na qual se encontra o texto.

8 DIAS, Antônio Gonçalves (1846). Primeiros Cantos. Rio de Janeiro. Eduardo & Henrique Laemmert https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4135.Acesso em 10/12/2018.

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A publicação da obra aproximou Gonçalves Dias de círculos sociais mais importantes, inclusive dos quais fazia parte o Imperador Dom Pedro II, que o protege por toda a vida.

Ainda em 1847, foi indicado para o cargo de Professor de Latim do Liceu Niterói, ganhando um conto de réis anuais. Logo depois, é indicado por Manuel de Araújo Porto Alegre, para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ser sócio desta Instituição representava tanto a inserção na principal instituição intelectual do Império como uma chance real de aproximar-se da elite intelectual política que efetivamente detinha o poder no país.

Em 1848, em licença por quatro meses, sem vencimentos do Liceu Niterói, colaborou nos principais jornais da Corte. No mesmo ano, publicou os Segundos Cantos, contendo as Sextilhas de Frei Antão, pela editora Ferreira Monteiro (Tipografia Clássica).

Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, cargo que lhe trazia estabilidade e tempo hábil para que pudesse escrever.

No mesmo ano, com Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Araújo de Porto Alegre, criou a revista Guanabara, divulgadora de textos artísticos, científicos e literários, do qual foi redator por seis meses e em função da qual Dom Pedro II, o agraciou com o hábito de Cavaleiro da Ordem das Rosas (1849)

Publicou seus Últimos Cantos em 1851, pela editora Paula Brito, e dedicou o livro ao amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal.

Ao lado de sua trajetória como poeta, Gonçalves Dias desenvolveu longas pesquisas, na área da educação, história etnografia e arqueologia, que beneficiaram suas produções.

Em 1851 foi ao Norte em missão oficial, encarregado de examinar minuciosamente os cartórios dos mosteiros e arquivos de câmaras municipais e de secretarias das províncias. Foi nesta ocasião que pediu a mão de Ana Amélia Ferreira do Vale, cunhada e prima de Alexandre Teófilo Carvalho Leal, pertencente a uma família tradicional e abastada do Maranhão: a mãe de Ana Amélia negou o pedido ao escritor devido a sua origem mestiça.

Sem poder desposar Ana Amélia, e desiludido, casou-se no Rio de Janeiro, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa, com quem partiu para a Europa em 15 de junho de 1854, sempre a serviço do Império. Foi a Lisboa, onde procurou pessoalmente

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Alexandre Herculano para agradecer pelo artigo e pedir que lhe facilitasse o acesso aos arquivos onde iria trabalhar.

Em Portugal, o poeta encontrou inesperadamente Ana Amélia, agora casada, em afronta a sua família com Comendador Domingos da Silva Porto, também de origem mestiça. Consta que por esta ocasião Gonçalves Dias escreveu a poesia

“Ainda uma vez – Adeus!”.

Com Olímpia Carolina da Costa, tiveram apenas uma filha, Joana da Costa Gonçalves Dias. Nasceu em Paris e faleceu antes de dois anos de idade, em 17 de abril de 1855 no Brasil.

No cumprimento da missão de que fora encarregado- estudar a instrução publica em países nos quais ela era considerada desenvolvida - o poeta percorreu diversos países como a Bélgica, a Inglaterra, a Itália, a Suíça e diferentes cidades alemãs.

Em Lisboa, onde se empenha nas pesquisas de documentos históricos na Torre do Tombo e nas bibliotecas nacionais de Évora e de Lisboa, pesquisou e copiou documentos relativos à história do Brasil. Nesse ínterim, recebe ordem do governo para representar o Brasil, juntamente com Guilherme Capanema e Raja Gabaglia na Exposição Universal de Paris (1855) – Nesta exposição foram expostos produtos do setor agrícola, industrial e artístico.

Em 1857 publica Os Timbiras, pela editora Brockhaus, em Leipzig na Alemanha. Em 1858, é nomeado pelo governo Brasileiro, chefe da seção etnográfica da Expedição Cientifica das províncias do Norte do Brasil, o que o traz de volta ao Brasil.

Em 26 de janeiro de 1859, a Expedição dirige-se para o Ceará, marco inicial de suas pesquisas, e onde iniciou a tradução da Noiva de Messina de Schiller.

Em 1860, quase todos os membros da Expedição Científica voltam para o Rio de Janeiro. O escritor segue outra rota: vai para o Maranhão no intuito de visitar o Pará e o Amazonas (1861), observar a língua tupi e a cultura das tribos indígenas, que se mantinham mais preservadas em relação à civilização.

No Amazonas, em 1861, recebe um comunicado de que o Governo encerrou a comissão. Volta ao Rio de Janeiro e sua saúde começa a deteriorar-se

Nos anos seguintes, 1862 e 1863, o estado de saúde do poeta piora muito. Em meados 1864 volta a Paris. Passa uma nova temporada nas Estações de cura em Aix-

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ls-Bains, Allevard. Em de 10 de setembro, embarcou no navio Ville de Boulogne com destino ao Brasil. Sua doença se agrava em viagem.

O poeta morre no naufrágio do navio, no litoral Maranhense.

Como os já aqui mencionados episódios da vida de Gonçalves Dias sugerem, sua situação financeira, desde a morte de seu pai era precária e inteiramente dependente da generosidade da madrasta anteriormente à sua transferência para o Rio de Janeiro em 1846. Sua correspondência posterior a seu retorno ao Brasil confirma isto e mostra como amigos e colegas continuavam ajudando – inclusive financeiramente- o jovem poeta.

Em setembro de 1846, ele envia a Alexandre Teófilo uma carta que, antecedendo a que, a seguir analisaremos, já menciona dificuldades financeiras: “Vê se o João Gualberto te pode abonar para mim – aí coisa de 300$ do que tenho uma indizível necessidade para os receber com o dinheiro dos meus assinantes” (19.09.

1846, p. 55)

Como se lê, em 19 de setembro, ele pede que o amigo seja intermediário de um empréstimo. A julgar pela carta abaixo integralmente transcrita, datada de 19 de novembro de 1946, Teófilo ultrapassa o que lhe pedira o poeta, e envia-lhe – ele mesmo – a quantia solicitada.

Abaixo a carta e, na sequência, a análise dela:

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2.CORRESPONDÊNCIA DE GONÇALVES DIAS E SUA ANÁLISE

2.1 CARTA 01 DE DE GONÇALVES DIAS A ALEXANDRE TEÓFILO EM 18 DE NOVEMBRO DE 1846

Meu bom Teófilo.

Recebi tua carta de 25 de outubro e com ela a ordem de 300$ sobre a casa de Faria & Irmão que foi paga imediatamente.

Meu bom Teófilo, as tuas cartas as mais extremosas são as que mais me fazem sofrer, por que me tiram o direito de queixar-me: fazes mal em dar tanto peso as minhas cartas; bem sabes que com o meu gênio as minhas dores hão de ser de pouca duração: não te importes com elas, o que te escrevo como coisas de um momento lembra-te sobretudo que eu tenho mais fôrça do que coragem. Vamos ao caso, tu me fazes presente dos 300$ que te mandei pedir, e não atentaste em duas coisas: que já me não são precisas mais provas do teu bom coração, e da tua amizade; e 2° que era isso impossibilitar-me de te eu pedir outro favor da mesma natureza. Assim, pois fico-te devendo essa quantia (de que por certo te não pagarei juros) e tu a cobrarás dos meus Subscritores do Maranhão, que dentro de um mês já lá poderás ter os exemplares do meus Primeiros Cantos.

Quanto à oferta, tem por certo que ela me deixou tão penhorado como se eu a houvesse aceitado.

O Serra chegou há 3 dias, de Angra dos Reis e torna a voltar para lá com toda a brevidade. Achou-me ainda doente de umas febres intermitentes, que me não deixam descansar. Dou- me muito mal com este clima.O Serra estava a partir para Angra, eis o motivo por que não fui para casa dele. O que me ele recomendou antes de partir foi que a ninguém mais pedisse dinheiro do que a êle e ao Morais. Está êle agora muito e muito sentido com o que há entre os irmãos a respeito de partilhas;

está tão vexado como se êle lá andasse com essa embrulhada.

Dizes-me que tenha coragem: Meu Deus e que mais coragem queres tu que eu tenha? Esta minha vida literária, seja

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longa ou breve é o pagamento a uma dívida que contraí com os meus amigos em Coimbra. Hei de segui-la mais por dever do que por gosto, até que tu e os outros me digam que é bastante.

Então lançar-me-ei em outra vida — no positivismo.

O meu [ilegível] de poesias está para acabar; cortei-lhe muitas peças por que o Laemmert entra agora com impressão de teses, e a minha impressão se demoraria indefinidamente.

Mesmo assim saem muitas [ilegível] — algumas poesias que ainda não viste e nem verás senão impressas. Não me falas da minha Leonor de Mendonça. Dizem por aqui que é um bom drama; já lhe fiz um prólogo, que, diz o Serra, vale tanto como a obra. O 2º Censor ainda não deu o seu parecer; assim não sei o que será dele; o que é certo, é que acabada a impressão dos Primeiros Cantos, principio com a dele. Creio que sairá bem por um inocente maquiavelismo que usei nestas circunstâncias.

Disse ao Presidente do Conservatório, que reconhecendo-o um homem entendido na matéria (horrível calúnia!) lhe pedia o seu parecer em particular. O homem mordeu a isca; asseverou-me que o podia apresentar ao Conservatório.

Nunca me falas em ninguém da tua família, nem da D.

Mariquinha, nem do teu filho! — É a reflexão com que acabo toda esta embrulhada de coisas para amanhã continuar com ela.

(18.11.1846, p.66-68)

2.1.1 ANÁLISE DA CARTA 01

A carta de 19-11-1846 é destinada a Teófilo (Alexandre Teófilo de Carvalho Leal) e seu vocativo já sugere a relação afetuosa entre Gonçalves Dias e seu antigo colega de universidade, em Coimbra. A missiva inicia-se acusando recebimento de carta e de 300 $ rs. da seguinte forma: “Recebi tua carta de 25 de outubro e com ela a ordem de 300$ sobre a casa de Faria & Irmãos 9 que foi paga imediatamente”.

9 Casa de Faria & Irmão, tratava-se de um estabelecimento comissionaria de Manoel Ferreira de Faria

& Irmão, que por ordens do remetente (outra praça). O contratado providenciava o destino da mercadoria e as vendia de acordo com as condições que o remetente indicou, como margem de lucro, condições de pagamento e valor de frete, por exemplo, por conta do próprio remetente. Em outras palavras era o que chamamos nos dias de hoje de especuladores financeiros. FONTOURA, Virginia de Jesus. Pedro Simões: Homem de negócios do Porto, Século XVIII Edições Ecopy, 2010. Porto, Portugal.

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Como Gonçalves Dias mantinha o propósito de viver com o que poderiam render suas obras literárias, ele se estabeleceu no Rio de Janeiro, iniciando seu projeto de publicar seu livro Primeiros Cantos, para o que contou com o auxílio financeiro de amigos.

O tom formal do primeiro parágrafo é substituído, já na abertura do segundo parágrafo (que retoma o vocativo, agora antecedido do adjetivo bom), por um tom repassado de emoção e afeto, como se pode observar pelo vocabulário empregado (sofrer, queixar, dores). Na sequência, a afetividade até então manifestada inscreve- se na situação concreta que diz respeito aos 300$ mencionados na abertura.

Não foi possível, até agora, identificar a carta que acompanhava o dinheiro, mas a resposta de Gonçalves Dias faz supor que Teófilo enviou-lhe o dinheiro como presente. Entretanto, Gonçalves Dias, baseado num plano maior, que era pagar-lhe com o recebimento das subscrições recusa essa oferta, argumentando ainda – agora de forma irônica- que aceitar a oferta impediria novas solicitações de favores“que era isso impossibilitar-me de te eu pedir outro favor da mesma natureza.”

Estas justificativas da recusa da oferta de Teófilo revelam que Gonçalves Dias estava determinado a permanecer no Rio de Janeiro mantendo-se pelo seu trabalho e contar com os amigos se e quando necessário.

O assunto “auxílio financeiro” é recorrente, em suas cartas, principalmente as destinadas a Teófilo:

Assim, pois fico-te devendo essa quantia (de que por certo te não pagarei juros) e tu a cobrarás dos meus Subscritores do Maranhão 10, que dentro de um mês já lá poderás ter os exemplares do meus Primeiros Cantos(18.11.1846, p. 66-68)

Ou seja, Gonçalves Dias pretendia resolver a questão do pagamento de sua dívida, e o reembolso do amigo com a quantia a ser recebida das subscrições do Maranhão, por cujo recebimento Teófilo era responsável. Temperado com ironia (menção a ausência de juros), o parágrafo se encerra com protestos de gratidão e amizade.

10 Trata-se de assinantes. Gonçalves Dias, por de meio de relação com amigos influentes, arranjava subscritores para realizar suas venda no mercado brasileiro.

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A questão das subscrições é constante na correspondência do poeta neste período.

Subscrições constituem um meio viável para o escritor conseguir recursos financeiros para a publicação de uma obra, no caso, o livro Primeiros Cantos. Pelo que se deduz dos comentários do poeta, cada amigo havia ficado responsável por conseguir subscritores em uma região. Teófilo cobraria dos subscritores no Maranhão, Serra dos do Rio de Janeiro e Morais dos de Pernambuco.

Esse recurso também foi usado na Europa e pode ter sido parâmetro para Gonçalves Dias. Há uma menção do arranjo de subscritores, em 1824 pelo escritor romântico João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garret, em Portugal:

Não era, porém, tarefa fácil conseguir editores, no estrangeiro, para autores aí desconhecidos e escrevendo numa língua também desconhecida, embora parte da dificuldade pudesse ser resolvida como fez José Liberato, que conseguiu que Solano Constando lhe traduzisse para francês o Ensaio Político sobre a Constituição e Governo do Reino de Portugal. Em regra, era necessário arranjar previamente subscritores, através das relações de amigos influentes; uma vez impressa a obra, o mercado brasileiro, pelo menos nalguns casos, ofereceria boas expectativas de venda.11

O próximo parágrafo da carta de Gonçalves Dias comenta episódios de sua vida no Rio de Janeiro, dos quais participa Serra:

O Serra estava a partir para Angra, eis o motivo por que não fui para casa dele. O que me êle recomendou antes de partir foi que a ninguém mais pedisse dinheiro do que a êle e ao Morais.

O trecho parece um possível jogo de Gonçalves Dias para direcionar a atenção de Teófilo para suas empreitadas, talvez incentivando um comportamento competitivo entre Teófilo, Morais e Serra, ao mesmo tempo que elenca problemas familiares deste

11 Garrett, quando emigrado no Havre (1824), escrevia ao seu amigo Duarte Lessa, então em Londres (recorda-se que Lessa foi um dos «treze beneméritos» que empreenderam o golpe de 1820), pedindo-lhe que arranjasse subscritores em Inglaterra para o seu poema Camões. Explicava- lhe que o mandaria imprimir em Paris logo que a subscrição permitisse suprir as despesas e acrescentava: «[...] daqui o poderei depois mandar para todos os portos do Brasil, onde (se o amor-próprio me não ilude) cuido que terei certa e útil venda. » SANTOS, M. de Lourdes Lima, Sobre os Intelectuais Portugueses do Século XIX, do Vintismo à Regeneração apud (Carta

publicada em G. de Amorim, op.

cit.,1.1,cap.XII.)>Disponívelhttp://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223989683G4pJI3dx8It1 5TY4.pdf. Acesso em: 12-10-2018, p.96 e 97 .

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último: “Está êle agora muito e muito sentido com o que há entre os irmãos a respeito de partilhas; está tão vexado como se êle lá andasse com essa embrulhada”.

A partir daí, ao comentar o conselho “tenha coragem” que lhe dá Teófilo, a carta de novo mergulha num clima mais sentimental. Segue-se à proclamação de sua coragem, uma espécie de confissão de altruísmo, de desinteresse pessoal. Isto se manifesta quando o poeta informa ao amigo que faz versos e esforça-se por publicá- los apenas em respeito à antiga dívida contraída com os amigos que o ajudaram em Coimbra.

Esta minha vida literária, seja longa ou breve é o pagamento a uma dívida que contraí com os meus amigos em Coimbra. Hei de segui-la mais por dever do que por gosto, até que tu e os outros me digam que é bastante.

Na sequência, informa a Teófilo que teve de reduzir o número de poemas constantes de seu livro para não atrasar a publicação já que, aparentemente, livros volumosos não eram do interesse do editor, mais interessado em publicar teses:

O meu [ilegível] de poesias está para acabar; cortei-lhe muitas peças por que o Laemmert 12 entra agora com impressão de teses, e a minha impressão se demoraria indefinidamente. Mesmo assim saem muitas [ilegível] — algumas poesias que ainda não viste e nem verás senão impressas.

Segue-se, no mesmo parágrafo, mudança radical de assunto.

Gonçalves Dias cobra de Teófilo comentários sobre sua peça de teatro Leonor de Mendonça , “Não me falas da minha Leonor de Mendonça 13 informando que tinha recebido avaliações positivas e que Serra havia elogiado o prólogo e que a peça, entregue ao Conservatório, aguardava a avaliação dos censores... “Dizem por aqui que é um bom drama.”

12Trata-se da Tipografia Universal, do Rio de Janeiro. Dirigida pelos irmãos Eduardo Laemmert (1880- 1806 ) e Henrique Laemmert.(1884-1812), que editaram o livro Primeiros Cantos de Gonçalves Dias.

13 Leonor de Mendonça (1846) drama escrito por Gonçalves Dias, que será publicada por J. Villeneuve

& Cia em 1847.

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Para confirmar essa afirmação, ele se apoia em comentário positivo feito por Serra: “já lhe fiz um prólogo, que, diz o Serra, vale tanto como a obra”.

Embora este amigo (Serra) tenha tecido comentários elogiosos ao drama, foi a outro amigo, Dr. José Hermenegildo Xavier de Morais (como já se viu, carioca, contemporâneo de Gonçalves Dias em Coimbra) que Gonçalves Dias dedicou esta obra. “O Censor 14 ainda não deu o seu parecer; assim não sei o que será dele; o que é certo, é que acabada a impressão dos Primeiros Cantos, principio com a dele.”

Esta informação, expressa na correspondência, é muito relevante no contexto da profissionalização de Gonçalves Dias: é um registro, que se refere ao processo de exame censório da peça Leonor de Mendonça, para que ela pudesse ser impressa e encenada. Na ocasião o escritor estava desapontado porque outra peça sua, o drama Beatriz Cenci15 (1845) havia sido censurado por ter sido considerado impróprio para os costumes da época.

O Conservatório Dramático Brasileiro ( 15 de janeiro de 1843), foi criado no intuito de “promover os estudos dramáticos e o melhoramento da cena brasileira, de modo que esta se tornasse a escola dos bons costumes e da língua”, para o público brasileiro.16

De acordo com a Resolução Imperial (de 28 de agosto de 1845) :

o julgamento do Conservatório é obrigatório quando as obras censuradas pecarem contra a veneração à Nossa Santa Religião, contra o respeito devido aos Poderes Políticos da Nação e às Autoridades constituídas, e contra a guarda da moral e decência pública. Nos casos, porém, em que as obras

14 REGISTROS de exame censório da peça Leonor de Mendonça. Rio de Janeiro, 1846. 3 doc.

(15 p.). Original. Manuscrito e impresso. Número inscrito pelo Conservatório: 119. Contêm:

designação de Santiago Nunes Ribeiro e Tomás José Pinto de Serqueira passada por José Rufino Rodrigues de Vasconcelos; requerimento de exame remetido por Gonçalves Dias;

parecer; despacho de Diogo Soares daSilvadeBivar.I-08,04, 071.ExamesCensóriosdoconservatórioDrámatico.Disponívelem:http://objdigital.bn.br/objdigital 2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1415592/mss1415592.pdf>Acesso em: 26-09-2018.

15 DIAS, Antônio Gonçalves – Beatriz Cenci. In Obras posthumas de A. Gonçalves Dias. Org. Antônio Henriques Leal, Vol. VI. São Luiz, B. de Matos,1867- 1869, v. 6.

16Os Exames Censórios do Conservatório Dramático Brasileiro: inventário analítico / organização e indexação, Valéria Pinto Lemos; inventário, Alexandra Almada de Oliveira, Gabriela de

Chevalier, Quézia Junia de Moraes Rocha.

RiodeJaneiro:FundaçãoBibliotecaNacional,2014RiodeJaneiro,1846.3doc.(15p.).Disponívele m:HTTP://objdigital.bn./objdigital2acervo_digital/div_manuscritos/mss1415592/mss1415592.

pdf, p 9 e 10.Acesso em: 20-02-2019.

(24)

pecarem contra a castidade da língua, e aquela parte que é relativa à ortoepia, deve-se notar os defeitos, mas não negar a licença publicação17. Foi neste contexto que Gonçalves dias escreveu um requerimento de exame ao Conservatório Dramático, para um parecer ao drama Beatriz Cenci

O primeiro censor Thomas José Pinto Cerqueira, após ler a obra (1846) dá o seguinte parecer:

Um velho carregado de vícios e crimes, farto de prazeres que na sua vanidade tem uma filha que conserva por amor fechada em um quarto, onde nem vê sol, nem lua apenas o criado que lhe leva de comer, e o pai que lhe fez leituras e lhe conta histórias adequadas a seus fins; casado mas vivendo em continuadas orgias, esbofeteando sua mulher por causa de vis prostitutas, que consente que a vilipendiasse, e depois dos bailes e saraos para fascinar mais sua filha, e que obriga sua mulher a assistir, para que sua filha seja acompanhada. Sua filha dando ópio a seu pai para que seja morto pelo amante della, mas do qual escapa por trazer hum colete de malha; Sua mulher que sabendo os projectos de sua enteada se une com ela para matar o velho; e recorre a um ópio mais poderoso efeito, o troca por veneno: o punhal doamante desta; a mulher morta pelo marido, tal é o drama intitulado Beatriz Cenci . Nem um só dá contraste para tantos horrores! He infame,muito infame, e permita a expressão, mais que muito infame.

Portanto dou parecer.

Que não se pode representar.

Rio de Janeiro, 1846 Dr. Thomás Pinto Cerqueira 18

Em 1846, Diogo da Silva Bivar, diretor do Conservatório, em cumprimento a lei Imperial (decreto de de 19 de Julho de 1845) , proibiu a peça Beatriz Cenci, de ser levada para o teatro.

Compreendemos que a censura poderia ter prejudicado o desenvolvimento artísitico e cultural de Gonçalves Dias, no entanto como ele foi muito determinado para em seu intento, , a dificuldade só serviu para fortalecer ainda mais sua determinação.

17339. REGISTROS de exame censório da peça Beatriz Cenci. Rio de Janeiro, 1846. 4 doc. (7 p.).

Original. Manuscrito e impresso. Número inscrito pelo Conservatório: 113. Contêm: designação de Tomás José Pinto de Serqueira, Domingos José Gonçalves de Magalhães e André Pereira Lima; requerimento de exame remetido por Gonçalves Dias; parecer; despacho de Diogo Soares da Silva de Bivar. I-08,04,042

18LIRA, Priscila de Souza. Consagração e Infâmia: A Recepção Crítica da dramaturgia de Gonçalves Dias. Disseração ( Mestrado em Estudos literários ) – Universidade Federal do Pará- UNIFESP- Belém, 2012. p. 87

(25)

O episódio em si, não negativou a imagm do escritor, e em outra ocasião conseguiu parecer favorável do Conservátorio, para o drama Leonor de Mendonça .

No trecho da correspondência :

Meu drama (Leonor de Mendonça) diz-me o Bivar (Presidente doConservatório) que há muito tempo que está aprovado — que gostoumuito dele — que vai fazer publicar um elogio ou crítica sobre êle — auctoritate.qua fungitur, — que me propôs ou proporá (também não estou certo qual destas duas coisas me disse êle) para Membro do Conservatório; coisa muito honrosa, que eu rejeitarei modestamente a seu tempo, ainda que mecaiam a perna toda aquela canzinada de Conservadores, que nada conservam.No entanto respondi com um = obrigado = acompanhado de uma zumbaia. . Santo Deus! Não sei como não beijei o chão! — Ora bem sabes que esta palavrinha — obrigado — é a mais gíria, a mais cavilosa, que hána santa língua portuguesa; quem diz obrigado, não diz nada; agradece simplesmente uma coisa, que indiferentemente aceitamos ou recusamos.Se eu soubesse de outra ainda mais ambígua, mais maquiavélica, era essa a que eu teria empregadonaquelascircunstâncias.Deixálosencravilhar;quando eles confessarem publicamente que eu sou alguém, quando eles me houverem aplaudido publicamente, e que já não possam voltar atrás senão por rodeios (...) quando pois eles houverem chegado àquele ponto, eu responderei humildemente que não posso aceitar (bem contra a minha vontade) tal honraria, de que me confessarei indigno, além de que as minhas idéias sobre oTeatro são opostas e bem e mais que opostas as idéias professadas pelo conservatório.

A censura , em diversos períodos, ( Ditadura Militar do século XX) , permitiram que a Literatura sofresse grandes pressões e são os motivos predominantes pelo qual vozes se calam.

Finalmente a obra Beatriz Cenci, oferecida ao o Imperador Dom Pedro II, , mandou encardenar num rico volume verde que incorporou à sua biblioteca.

Paradoxalmente, o mesmo governo, que autorizou a censura da obra, no período em que Império e o projeto de formação da literatura nacional estavam mais consolidados, reconhece o valor.19. É evidente que a censura de um governo afeta diretamente a profissionalização do escritor podendo subliminar um estigma social que segundo a definição de Erving Goffman é : “a situação do indivíduo que está inabilitado para aceitação social plena” (GOFFMAN, 2004, P.4).

Na sequência da carta1, informa ao amigo do estratagema de que lançara mão, na expectativa de não ver repetida a censura a esta outra obra. Acreditando que ” os fins justificam os meios” e considera maquiavélicas suas articulações, na ocasião do

19 https://piaui.folha.uol.com.br/goncalves-dias-censurado/Folha de São PauloPedro correia do Lago27/jun/2012Pedro Corrêa do Lago. Acesso20-02-2019

(26)

exame censório da peça Leonor de MendonçaCreio que sairá bem por um inocente maquiavelismo que usei nestas circunstâncias.

Contava Gonçalves Dias com sua influência e capacidade de argumentação. A ironia de dizer que foi inverdade o elogio que faz ao censor, “que o reconhecendo um homem entendido na matéria (horrível calúnia!) lhe pedia o seu parecer em particular”

nos mostra que Gonçalves Dias conhecia os costumes da sociedade brasileira daquele período, que era marcada por elogios e bajulações para obtenção de favores.

Pela expressão “O homem mordeu a isca; asseverou-me que o podia apresentar ao Conservatório.” vemos que Gonçalves Dias obteve êxito em seu argumento.

No final da carta, o poeta abandona questões profissionais e financeiras e conclui com um comentário que cumpre uma norma da correspondência pessoal trocada entre amigos: interesse pelos familiares do destinatário “Nunca me falas em ninguém da tua família, nem da D. Mariquinha 20, nem do teu filho”

As pessoas às quais Gonçalves Dias se refere são a esposa de Teófilo e seu filho Ricardo Leal, mencionado nas cartas como Ricardinho: era afilhado de Gonçalves Dias.

A próxima carta a ser discutida é longa e data de dois meses depois desta aqui comentada. Em razão das muitas alusões a diferentes figuras, expressões e eventos nela mencionados, optamos por pontilhá-la de notas de rodapé

2.2. CARTA 02 , DE GONÇALVES DIAS A ALEXANDRE TEÓFILO EM 23 DE JANEIRO DE 1847

Teófilo

Por causa do vapor que encalhou, e que irá agora da Bahia para diante, e também por tua causa, que deixaste(s) passar dois vapores, sem me escreveres, há muito que não tenho tido cartas tuas — há muito mais de 2 meses — isto é a 6ª parte do ano. Vê lá como emendas isso. Os meus Primeiros Cantos saíram à luz, têm me sido gabado em particular, o que

20 Refere-se a esposa de seu amigo Teófilo, Maria Luisa Leal Vale, Irmã de Ana Amélia Ferreira do Vale e sua comadre.

(27)

de certo nada quer dizer; a Gazeta Oficial 21 prometeu falar neles

— assim como alguns outros, e até agora nada de novo.

Speranza mi sustiene.

O Serra tinha-se encarregado das minhas assinaturas no Rio, —foi para Angra, — e como êle vence-te em preguiça (o que é difícil) estou por saber quem são os meus subscritores na Corte, e o Laemmert na atitude majestosa de um — lion quando si posa 22; espera impávido a módica de 900$ rs 23. perto de um conto 24. Mandei 200 exemplares para Maranhão 100 para Caxias — 100 para Pernambuco, 100 para S. Paulo e vou mandar mais.100 para o Rio Grande do Sul, e acabo com as minhas remessas. Como todas têm sido feitas por vapor, que pede 500 rs por cada palmo cúbico despachos — embarques e encadernações ricas para deles fazer presente a estes borrabotas de má sina, segue-se que tenho gasto para mais de 100$rs 25.com esta porcaria: — 100$rs. quer dizer, tudo e mais do que por ora me têm rendido os meus Primeiros Cantos. Assim pois tem paciência, vê se me fazes liquidar o montante das minhas subscrições em Maranhão — presto, presto 26, que o Serra está (suponho e é bem de supor) com terríveis cólicas de ter que desembolsar esse dinheiro.

21 Trata-se de um Folhetim de Imprensa, da corte Imperial. GAZETA OFICIAL DO IMPÉRIO DO BRASIL.1 DE SETEMBRO DE 1846-31 DE JULHO DE 1848. Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1846-1848.5v. Redator Francisco Octaviano de Almeida Rosa. Disponível em file:/ / C:/Users/AMD/Downloads/icon1285830.pdf Acesso em 29 de setembro de 2018.

22 A tradução para a expressão Lion quando si posa, segundo, Reverso dicionário ,disponível em:http://context.reverso.net/traducao/italiano-portugues. .Acesso em 30 de setembro de 2018.

Em nossa transcrição: Leão quando se assenta.

23 No ano de 1847, o salário fixo proposto para um professor de Desenho de um Liceu era de 400 $ e para o professor de língua viva era 600$. Disponível em https:/www.unicamp.br/IEL/memória/base_temmporal/meros/índex.htm.>Acesso em 30/09/2018.

24 Em 1847, 1 conto de réis (1:000$000 =1 milhão de réis ) comprava 1 kg de ouro.https:/www.unicamp.br/IEL/memória/base_temmporal/meros/índex.htm.>Acessoem 30/09/2018.

25 Para fins de comparação, uma passagem de “gôndola” custava 120 réis (...) in PEREIRA, Lúcia Miguel. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1943. Gôndola tratava-se de um transporte público, com nove lugares sendo identificadas com lanternas de diversas cores, com a finalidade de indicar o bairro para o qual se dirigiam. Disponível em http://imperiobrazil.blogspot.com/2010/06/historia-e-evolucao-da-cidade-do-rio-de.html.

Acesso em: 11.12.2018.

26 A tradução para a expressão italiana presto, presto, usada por Gonçalves Dias, é: depressa;

depressa. Disponível em: http://context.reverso.net/traducao/italiano-portugues. Acesso em 30 de setembro de 2018.

(28)

O meu drama, como creio que já te disse foi aprovado com muita soma de louvores. Levei-o ao João Caetano 27, que me fêz saber ser bom e belo cujo sobredito drama; porém que para o levar a cena carece de me falar.Ora aqui é que a porca torce o rabo: o João Caetano é um homem temível infatigável — invisível se o procuras na Corte - está em Niterói — se o procuras em Niterói, voltou para a Corte; se o procuras em casa, está no- Teatro, se no Teatro, está no escritório; se no escritório, está rua, e hás de concordar comigo que a rua é lugar bem dificultoso de se topar de propósito com um indivíduo.

O que me parece, é isto. O Homem escriturou a Companhia Francesa 28 para ambos os Teatros, de que êle é Diretor, Empresário, e Proprietário. O Teatro pouco rende — a Companhia dá-lhe perdas, ergo o homem não está agora em maré de comprar dramas.

Vê como se arranjam estes pauzinhos para me fazer dar ao diabo acardada, mais a tola cabeça que eu tenho! Quem te manda a ti, Sapateiro, tocar rabecão? — Nada, isto não tem jeito,

— vamo-nos per hi fora delongada, semear justiça e direito nas belas planícies de Caxias —; ali frutifica a ciência do justo; e a vinha do Senhor dá bastante aos segadores. Estou com mania de me meter frade, ou ordenar-me padre, talvez que eu chegue a ser bispo algum dia com biocos de virtude postiça!

Pasmo da estupidez infinita, que aprouve ao Criador, com sua alta misericórdia, encaixar-me nesta cabeça, para tudo o que se diz — vida — e meios de vida — e modos de vida, — e lucro e ganância aquela nunca assaz apreciada prosperidade que os franceses alcançam com gatimanhas e ninherias— os portugueses com pontapés e bofetões, e nós outros os netos de Tupá 29 com revoluções sem modos, nem fim; ou, o que é pior, com vergonha, e humilhações sem termo, de rojo aos pés de um

27 João Caetano dos Santos (Itaboraí, 1808, - RJ, 1863) Em 1827, ao se apresentar como galã de uma companhia Francesa, no Brasil, foi descoberto por Manuel Araujo Porto Alegre e Joaquim Manoel de Macedo. Incorporou-se a Companhia de teatro do Império recebendo o ordenado de 30 $ mensais. Criou a 1ª Companhia Nacional, dando aos primeiros atores nacionais ordenados fixo, afastando-os da miséria por não poderem atuar no teatro da corte, cujosdiretoreseramportugueses.Disponívelem:http://memoria.bn.br/pdf/107670/per107670_19 13_00263.pdf.>Acesso em 01/10/2018.

28 A ópera Cômica e o vaudeville foram trazidos ao Teatro São Januário , em 25 de Setembro de 1846 por João Caetano. Ele contratou uma Companhia Francesa que permaneceu até o ano seguinte, transferindo-se em dezembro de 1846 para o teatro São Francisco. MALUF, Sheila D.; DE AQUINO, Ricardo Bigi. Reflexões sobre a cena. UFAL, 2005.

file:///C:/Users/AMD/Downloads/8634724-3730-1-PB.pdf.

29 Forma de identificar os brasileiros a partir de um Deus dos primitivos habitantes da região.

(29)

ministro, que, por que foi vil e baixo quando era subordinado ou ninguém não quer pretendentes, que olhem fito, com a cabeça erguida, e em voz que nada tem de medrosa. Santo Deus!

Porque me não deste uma espinha dorsal de cera, uns olhos de Jacques Ferrand 30 (quando menos) e uma vozinha de leite e mel destas vizinhas que me fazem subir a côr [ao] rosto, e comerem-me as unhas com vontade e de desandar um bofetão

!

Santo Deus, por que razão?

Não penses com tudo que eu já desanimei! Fica isso para quando eu muito bem quiser, porquanto até hoje nada tenho encontrado superior a minha vontade; e seja dito em abono da verdade, — também são poucas as que tenho encontrado inferiores a ela. Estou agora compondo uma coleção de — romances — que hei-de imprimir com o nome de um Santo Padre de S. Domingos, que Deus tem há bons 300 anos; é obra pequena, bem que alguma coisa trabalhosa. Já escrevi um bom romance em português antigo — uma semelhança de Chatterton

31 — tu os verás. Continuo com os meus estudos para os Romances Históricos, que devendo ser com os Dramas, as minhas únicas obras em prosa, quero que saiam bem escritas.

Tenho lido muito alfarrábio velho e muita crônica antiga: se não saírem bons, não será nem por falta de clássicos, nem de estudos sobre a matéria. É a primeira vez, que me tenho dado ao trabalho de tomar apontamentos; e para a primeira vez tenho bons cadernos cheios de maçada indigesta e terrível!

Quando me escreveres, manda-me dizer como vai a tua boa Senhora 32, teu filho, e os teus.

É verdade. Tive cartas de teu pai: manda-me êle dizer se não te poderias arranjar aqui como explicador — ou como engenheiro civil —empregado em obras públicas e particulares.

Quanto ao lugar de explicador ou lente, é bastante que saibas que ao Serra com todas as suas proteções foi mais fácil obter o lugar de Inspetor do Tesouro do que esse, que êle requereu por

30 Trata-se do médico francês Jacques Ferrand (1575-1623) , segundo quem o amor é composto por diversos movimentos contrários: alegria e tristeza, esperança e desespero, amizade e ódio ou ciúme. Para ele, o amor é cego porque afeta o julgamento e a imaginação. Disponível em : http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142008000300010 Acesso em 03/10/201.

31 Conforme citado por Vagner Camilo, Alfred de Vigny é autor de um drama intitulado j Chatterton, que serviria de modelo à obra-prima do teatro gonçalino – a tragédia Leonor de Mendonça”.

Nos Tempos de Antão. Vagner Camilo. Disponível: REVISTA USP, São Paulo, n.40, p. 105- 113, dezembro/fevereiro 1998-99>Acesso em: 03/10/2018.

32 Trata-se de Maria Luisa Leal Vale, esposa de Teófilo, já mencionada na carta anteriormente comentada.

(30)

muito tempo: para o outro — é realmente coisa possível, mas é pouco provável que faças fortuna, por que falta-te aquele grandioso prometer francês (?) . Por exemplo: Mora comigo um sujeito que fala todas as línguas, menos a portuguesa — que tem todas as pátrias, menos aquela em que está — que sabe todas as ciências, menos aquela, em que se lhe fala, que correu as 7 partidas do mundo como o Infante D. Pedro33, que é enciclopedista e que prima em tudo, mas em Engenharia é um portento! É um velho alto, robusto, grisalho, tem partes de Moisés 34 — no semblante, nariz de Sócrates 35, cabeça de Newton 36 traja todas as modas que se usaram desde o princípio do mundo — menos a folha de figueira, — tem os costumes de todos os países do mundo: ama as flores como um holandês — cerveja como um inglês — aguardente como um africano, bebe café como um turco, chá como um chinês enfim se o vires não saberás o que hás-de dizer, se o ouvires ficarás estupefacto, pasmado, assombrado, duvidando de tudo e de todos — dele e de ti mesmo.

Pois o Cosmopolita, o homem enciclopédico — este Mefistófeles 37 ou Anticristo — compromete-se a solapar todo o Rio de Janeiro para o escoamento das águas •— a dar-lhe uma corrente submarinha, como se diz do rio Alfeu 38 e da fonte Aretusa39, a virar as casas com os alicerces para o céu para ficarem mais arejadas, a fazer das ruas uma estrada de prata com ventiladores em todas as quinas, e fazer correr por elas além uma aragem suave impregnada daqueles suaves odores e bálsamos que fervem nas caçoilas do Oriente junto ao leito dos

33 O Infante Dom Pedro das “sete partidas”, é o segundo filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre.

Recebeu este cognome em função das muitas viagens que fez. Disponível em https://seer.ufrgs.br/aedos/article/viewfile/9846/5685.Acesso em 04/10/2018.

34 Para a figura de Moisés, convergem, pelo menos, os seguintes papéis: o religioso, o político, o jurídico e o cultural, Disponível em: file:///C:/Users/AMD/Downloads/1597-4926-1-PB.pdf.

Acesso em :04/10/2018

35 Sócrates – filósofo grego (469 A.C – 399 D.C).Disponível em: Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 20, n. 9/10, p. 663-682, set..out. 2010.

36 Isaac Newton físico (1642- 1727 ) Disponível em:

http://oseusurgimento.no.comunidades.net/teorias-de-isaac-newton. Acesso em/ 04-10-2018.

37 Mefistófeles - anjo caído. Mefistófeles simboliza valores negativos. GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto Zero. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.

38 Alfeu, deus do rio, da mitologia grega, filho de Oceano e Tétis. Disponível em:

https://www1.folha.uol.com.br.>Acesso em: 04/10/2018.

39 Aretusa é ninfa filha de Nereu e de Doris, ninfa. Alfeu apaixona-se por ela, quando a observa banhando-se em um ribeiro. Disponível em: https://www.mitologiaonline.com> Acesso em:

04/10/2018.

(31)

Sultões de Constantinopla 40 — Paxás 41 do Egito,e Imperadores da China.

Isto é muito mas não tudo: acrescenta êle:

Mi direbbe, quanto costa, Quanto vale una bo[t]tiglia? 42

Supões talvez biliões ou terliões... nada, nada. Porventura quando Deus mandou maná ao seu povo no deserto, pediu por isso moedas d'oiro? Êle que não é Deus, não trabalha de graça;

mas tanto dá, e tão pouco pede que há ingratidão em se lhe não aceitar de joelhos seus prospectos.Um chavo por cabeça, e teremos a 8? maravilha em tempo, — a primeira em qualidade.

Quando fizeres isto, meu Teófilo, vem para o Rio — qual Rio! — Vai para a China ou Rússia que eu te prometo serás eleito Imperador do Grande Império da Rússia — ou do celeste Império da China, verás o mundo incensara tua Majestade, e aqui estou eu para cantar os teus louvores em uma Ode sublime, que mandaras estampar em uma teia de seda e em letras d'oiro de $ cada uma, e colocar de maneira ostensiva em uma das salas do teu Palácio de Tauride — ou no maior que tiveres fabricado em Pequim—, como já aconteceu ã ode de Derjavine.

Pago-me com isto; ou como dizia o Ferreira: Eu desta glória só fico contente.

Maldita mania de deixar correr a pena sem reparar no que escrevo, e no que me resta a escrever! Quod imberbes etc. — Fica o mais para outra ocasião. — Tenho muito que dizer a ti, ao Rego, ao Pedro43. Adeus

Teu Mano e Amigo A. G. Dias

Janeiro 23 — de 47

N.B. Há pouco mais de um ano que cheguei a tua casa vindo deCaxias, com saudades de quem não quer tornar.(

23.01.1847, p. 75-78).

40 Constantinopla, nome que recebeu a Capital Istambul, foi a capital do Império Romano (330–395).

41 Trata-se da denominação dada entre os turcos aos governadores de províncias do Império Otomano .

42 A tradução para a expressão, Mi direbbe, quanto costa, Quanto vale una bo[t]tiglia? Disponível em:http://context.reverso.net/traducao/italiano-portugues.>Acesso em 30 de setembro de 2018. Na nossa Transcrição: Me diria, quanto custa, quanto vale uma garrafa?.

32 Trata-se de Pedro Nunes Leal, foi Promotor público, usineiro, professor de mérito, fundador do “ Instituto de Humanidades” no Maranhão. PEREIRA, Lúcia Miguel. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1943.p.Fazia parte do grupo de amigos de Gonçalves Dias, em Coimbra.

(32)

2.2.1 ANÁLISE DA CARTA 02

Datada de 23 de janeiro de 1847 44, dirigida a Alexandre Teófilo de Carvalho Leal , inicia-se com considerações relativas à precariedade do sistema postal, dependente da regularidade do transporte marítimo, a cuja irregularidade o remetente – Gonçalves Dias- atribui a ausência de cartas do amigo .

Queixa-se da falta de notícias e, logo a seguir,’ informa Teófilo que o livro Primeiros Cantos, foi publicado. Nas palavras dele, “ os poemas que compõem o livro saíram à luz” .

Com efeito, em janeiro de 1847 ( não obstante a data atribuída à publicação ser 1846 ) , o livro estava disponível

A partir de então, a publicação deste livro é assunto constante da correspondência entre os amigos.

Em carta anterior (nota de rodapé) Gonçalves Dias já comentava a questão das subscrições. Nesta carta de 1847, antes, no entanto, de retomar a questões das subscrições. o poeta informa seu amigo da recepção de seu livro: parece ressentir- se do silêncio da imprensa 45 , silêncio que talvez não se compense pelos elogios que diz ter recebido de leitores individuais.

No entanto, a precariedade desta recepção parece não desestimular o poeta que, poliglota e leitor de obras estrangeiras, proclama em italiano (com um leve equívoco de ortografia -sustiene que deveria ser grafado sostiene -) a manutenção de suas expectativas de sucesso: speranza me sustiene

Logo a seguir, Gonçalves Dias trata da questão das subscrições.

Entra aqui em cena outro amigo - João Duarte Lisboa Serra, como já vimos, colega de Gonçalves Dias e de Teófilo em Coimbra e já mencionado em carta anteriormente aqui comentada. Ele é informalmente, na carta, referido como “ Serra”

e Gonçalves Dias repete que ele havia se responsabilizado pela coleta e cobrança de subscrições para os Primeiros Cantos no Rio de Janeiro .

Nas palavras de Gonçalves Dias:

44 Como se informou acima, trate-se da carta de número 33, transcrita nos Anais da Biblioteca Nacional , Vol. 84 1964 ( Divisão de Publicações e Divulgação . p. 75-78.

45 Na realidade, Jomar de Moraes informa que o jornal Sentinela da Monarquia e o Jornal do Comercio publicaram artigos sobre Primeiros Cantos.

(33)

O Serra tinha-se encarregado das minhas assinaturas 46no Rio, —foi para Angra,

— e como ele vence-te em preguiça (o que é difícil) estou por saber quem são os meus subscritores na Corte, e o Laemmert na atitude majestosa de um — lion quando si posa; espera impávido a módica [ ] de 900$ rs, perto de um conto.

Compreende-se, pelo enunciado acima – pontilhado de ironia como quando, por exemplo, sugere a preguiça de seus dois amigos- que somente Serra tinha a lista de assinantes cariocas, a ponto de Gonçalves Dias não ter conhecimento das pessoas que, no Rio de Janeiro, encomendaram sua obra, pagando-a antecipadamente

Uma hipótese é que Serra oferecera ( e efetivamente vendera ) a obra para um círculo social, ao qual Gonçalves Dias não tinha acesso ou cujos integrantes talvez nem sequer conhecesse . Por isso o poeta informa que é difícil saber quem são seus subscritores na Corte, ficando, assim na dependência de Serra para receber o pagamento dos subscritores, do que ele dependia para pagar os 900$ rs que devia a Laemmert pela produção do livro Primeiros cantos .

Tratava-se de um valor alto, como aponta o próprio poeta ( perto de um conto ) , no que ele parece estar correto, já que a pesquisa revela que esta quantia era equivalente ao salário mensal de dois professores em um Liceu47

Na menção ao editor Laemmert, mais uma vez Gonçalves Dias ostenta seu conhecimento de outras línguas e sua familiaridade com obras primas: compara o editor a um leão em repouso, tomando a imagem “ lion quando si posa” da Divina Comédia de Dante Alighieri ( Purgatório, Canto VI , verso 66 )

Na sequência, informa a Teófilo o número de exemplares enviados para diferentes localidades, o que pode nos dar uma ideia aproximada da tiragem da edição. A soma dos exemplares que o poeta diz ter enviado para honrar as subscrições resulta em 600 exemplares:

Mandei 200 exemplares para Maranhão 100 para Caxias — 100 para Pernambuco, 100 para S. Paulo e vou mandar mais 100 para o Rio Grande do Sul, e acabo com as minhas remessas. Como todas têm sido feitas por vapor, que pede 500 rs por cada palmo cúbico despachos embarques e encadernações

46 Refere-se as subscrições, já mencionada anteriormente na p. 16.

47LAJOLO,Marisa&ABREU,Márcia.ProjetoMemóriadaLeitura.DisponívelemHTTP://www.unicamp.br/IE L/memória/base_temporal/numeros/index.htm.Acesso em 30-09-2018.

(34)

ricas para deles fazer presente a estes borrabotas de má sina, segue-se que tenho gasto para mais de 100$rs.com esta porcaria[...]

Vê-se, assim, que a editora não financiou a impressão nem distribuiu os exemplares. Cabiam ao autor o esforço e o custo da distribuição de seus livros. Por serem os livros encaminhados para outros estados brasileiros por navio, suas despesas eram aumentadas pelo valor do frete.

E mais ainda.

Seguindo a praxe da época - de enviar exemplares para pessoas consideradas importantes- o poeta soma às queixas pelas despesas com a distribuição dos livros, queixas pelas despesas que os livros enviados como “presentes” acarretavam , uma vez que se esperava que livros enviados como ‘ presente” fossem ricamente encadernados, ainda que os destinatários não gozassem do respeito do poeta, que se refere a eles como “ borrabotas de má sina”

O trecho :

Segue-se que tenho gasto para mais de 100$rs48 com esta porcaria: — 100$rs. quer dizer, tudo e mais do que por ora me têm rendido os meus Primeiros Cantos. Assim pois tem paciência, vê se me fazes liquidar o montante das minhas subscrições em Maranhão — presto, presto, que o Serra está (suponho e é bem de supor) com terríveis cólicas de ter que desembolsar esse dinheiro.

Sugere – sobretudo no uso da expressão italiana presto presto - em nossa tradução, rápido, rápido - que Gonçalves Dias vivia com sérias dificuldades financeiras o que – segundo a hipótese deste trabalho - era uma realidade comum a muitos escritores da época: Gonçalves Dias tem dificuldade para publicar e promover um livro. Fazem falta ao poeta os 100 $rs necessários para pagar a distribuição, os Primeiros Cantos, o que o leva a solicitar que Teófilo, agilize a cobrança dos subscritores maranhenses.

Fica evidente a ironia de Gonçalves Dias ao sugerir que o amigo tivesse pressa nas cobranças dos seus assinantes, relacionando a rapidez solicitada à sugestão de que Serra estaria retendo a prestação de contas ( “terríveis cólicas de ter que desembolsar esse dinheiro ).

48 Ver comentário ao rodapé nº 24, p. 24.

Referências

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