Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.327.496 - SP (2012/0065464-2)
RELATOR : MINISTRO SIDNEI BENETI
RECORRENTE : ITAÚ UNIBANCO S/A
ADVOGADOS : MARCIAL BARRETO CASABONA E OUTRO(S)
LUCIANO CORREA GOMES
ADVOGADA : LIVIA BORGES FERRO FORTES ALVARENGA RECORRIDO : EDILSON ADRIANO RIBEIRO DE LIMA
ADVOGADO : JOÃO ALBERTO AFONSO E OUTRO(S)
DECISÃO
1.- ITAÚ UNIBANCO S/A interpõe Agravo contra decisão (e-STJ fls. 196) que negou seguimento a Recurso Especial, fundamentado na alínea a do inciso III do artigo 105 da Constituição Federal, interposto contra Acórdão (e-STJ fls. 156/161) da Vigésima Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo que lhe foi desfavorável (Rel. Des. LUIS CARLOS DE BARROS), assim ementado (e-STJ fls. 158):
Contexto dos autos que autoriza o acolhimento da pretensão vestibular. Recurso improvido.
2.- No caso em exame, o Agravado ajuizou Ação Ordinária, alegando danos provenientes de abertura de conta corrente por estelionatário, com emissão de cheques sem fundos, restrições cadastrais e protestos.
Sobreveio a sentença, a qual julgou o pedido procedente, declarando inexistente a relação jurídica entre as partes, condenado o réu a devolver ao autor a quantia de R$ 9.550,00 com correção monetária desde o saque indevido e juros moratórios de seis por cento ao ano a contar da citação e a pagar ao autor indenização por danos morais no valor equivalente a 150 salários mínimos em vigor na época do pagamento com juros de mora à taxa legal desde a citação (e-STJ fls. 92).
Interposta Apelação pelo Agravado, o Tribunal de origem negou provimento ao recurso, conforme a ementa acima transcrita.
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foram rejeitados pelo Colegiado Estadual (e-STJ fls. 170/173).3.- Persistindo o inconformismo, o Agravante interpôs Recurso Especial, em que alegou violação dos artigos 333, I, do código de Processo Civil e 104, 186, 927 e 944 do Código Civil, afirmando a inexistência de qualquer ato ilícito, cuja responsabilidade possa ser atribuída ao recorrente e a exorbitância da quantia fixada a título de danos morais - R$ 130.000,00.
4.- Contra-arrazoado (e-STJ fls. 190/194), o Apelo Excepcional foi inadmitido (e-STJ fls. 196), vindo os autos a este Tribunal por força do provimento dado ao Agravo nº 162.078/SP.
É o relatório.
5.- O tema já está pacificado pela jurisprudência firmada nesta Corte, de modo que o recurso deve ser julgado monocraticamente pelo Relator, segundo orientação firmada, com fundamento no art. 557 do CPC, desnecessário, portanto, o envio às sobrecarregadas pautas de julgamento deste Tribunal.
6.- No presente caso, o Tribunal de origem concluiu expressamente pela existência de culpa do Agravante no evento danoso (e-STJ fls. 160/161):
O fato de ter o réu agido de boa-fé e ter sido ludibriado por um estelionatário, não afasta o dano moral sofrido pelo recorrente. E mais deve-se considerar que o réu como empresa comercial, mesmo admitida a boa-fé, pelo simples fato de objetivamente negociar com um estelionatário, acabou cometendo falha de
diligência, acarretando danos ao requerente que é
indiscutivelmente terceiro de boa-fé .
A regra da boa-fé deve ser aplicada, pois, em favor do autor, consoante os seguintes fundamentos declinados por Pontes de Miranda:
"Quando se diz que a observância do critério da boa fé, nos casos concretos, assenta em apreciação de valores, isto é, repousa em que, na colisão de interesses, um deles há de ter maior valor ( ). Se queremos exemplos de regra de boa-fé, temos naquela que diga: nas relações da vida, de que nasçam atos jurídicos, há de ser preferida a interpretação que evite que um
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dos figurantes sofra muito e outro nada sofra, ou tire proveito"
(Tratado de Direito Privado, 4ªEdição, Tomo III, página 333).
Em resumo, entre a posição do autor, vítima de um roubo, indevidos protestos e inscrições em cadastros de inadimplentes,
e a posição do réu que concretamente negociou com
um-estelionatário, sem qualquer participação do requerente, trazendo danos ao último, deve a opção voltar-se à proteção do autor.
Enfim, o autor, inequivocamente sofreu significativo dano de ordem moral, pois, teve conta corrente indevidamente aberta em seu nome, houve emissão de cheques em seu nome a terceiros, devolvidos e protestados, além de inscrição do nome em cadastros de proteção ao crédito.
O argumento do Banco na apelação de que o autor já tinha restrições anteriores, não procede, pois, os documentos de fls. 62/63 e 65/66 são posteriores à data em que o requerente foi vítima de roubo de seus documentos (fls. 2, item 2).
Observa-se, assim, que a convicção a que chegou o Acórdão, no que tange à culpa do Recorrente para consecução do evento lesivo, decorreu da análise do conjunto fático-probatório, e o acolhimento da pretensão recursal demandaria o reexame do mencionado suporte, obstando a admissibilidade do Especial à luz da Súmula 7 desta Corte.
7.- De qualquer forma, é de se assinalar que há muito tem sido deslocada a responsabilidade civil dos bancos do campo da culpa aquiliana para o do risco profissional, respondendo pelos danos causados a terceiros no desenvolvimento de sua atividade. Nessa linha copiosos precedentes desta Corte. Anote-se:
RECURSO ESPECIAL. DANO MORAL. INCLUSÃO INDEVIDA EM CADASTRO RESTRITIVO DE CRÉDITO. ABERTURA DE CONTA CORRENTE E FORNECIMENTO DE CHEQUES
MEDIANTE FRAUDE. FALHA ADMINISTRATIVA DA
INSTITUIÇÃO BANCÁRIA. RISCO DA ATIVIDADE
ECONÔMICA. ILÍCITO PRATICADO POR TERCEIRO. CASO FORTUITO INTERNO. REVISÃO DO VALOR. VIOLAÇÃO
DOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA
PROPORCIONALIDADE. RECURSO PARCIALMENTE
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1. Inescondível a responsabilidade da instituição bancária, atrelada ao risco da própria atividade econômica que exerce, pela entrega de talão de cheques a terceiro, que mediante fraude, abriu conta bancária em nome do recorrido, dando causa, com isso e com a devolução do cheque emitido, por falta de fundos, à indevida inclusão do nome do autor em órgão de restrição ao crédito.
2. Irrelevante, na espécie, para configuração do dano, que os fatos tenham se desenrolado a partir de conduta ilícita praticada por terceiro, circunstância que não elide, por si só, a responsabilidade da instituição recorrente, tendo em vista que o panorama fático descrito no acórdão objurgado revela a ocorrência do chamado caso fortuito interno.
(REsp 774.640/SP, Rel. Ministro HÉLIO QUAGLIA BARBOSA, QUARTA TURMA, DJ 05/02/2007);
Direito processual civil e do consumidor. Recurso especial. Roubo de talonário de cheques durante transporte. Empresa
terceirizada. Uso indevido dos cheques por terceiros
posteriormente. Inscrição do correntista nos registros de proteção ao crédito. Responsabilidade do banco. Teoria do
risco profissional. Excludentes da responsabilidade do
fornecedor de serviços. art. 14, § 3º, do CDC. Ônus da prova. (...)
- O roubo do talonário de cheques durante o transporte por empresa contratada pelo banco não constituiu causa excludente da sua responsabilidade, pois trata-se de caso fortuito interno. - Se o banco envia talões de cheques para seus clientes, por intermédio de empresa terceirizada, deve assumir todos os riscos com tal atividade.
(REsp 685662/RJ, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, DJ 05/12/2005).
8.- No que concerne ao valor do dano moral, todavia, verifica-se que Tribunal de origem ao mantê-lo no valor equivalente a 150 salários mínimos em vigor na época do pagamento, incorreu, com todas as vênias, em evidente excesso.
Em se tratando de dano moral, cada caso, consideradas as circunstâncias do fato, as condições do ofensor e do ofendido, a forma e o tipo de
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ofensa, bem como suas repercussões no mundo interior e exterior da vítima, cada caso, repita-se, reveste-se de características que lhe são próprias, o que o faz distinto de outros. Assim, ainda que, objetivamente, os casos sejam bastante assemelhados, no aspecto subjetivo são sempre diferentes. Por isso, é muito difícil, nessas situações, apreciar-se um Recurso Especial com fundamento na alínea "c" do permissivo constitucional. É em razão dessa complexidade que, na 2ª Seção, firmou-se a orientação de não mais se conhecer de Embargos de Divergência quando a discrepância residir em disparidade de valores, em condenações por dano moral, por fatos objetivamente, na aparência, iguais.
Em consequência, a 3ª Turma deste Tribunal assentou o entendimento de que somente se conhece da matéria atinente aos valores fixados pelos Tribunais recorridos quando o valor for teratológico, isto é, de tal forma elevado que se considere ostensivamente exorbitante, ou a tal ponto ínfimo, que, em si, objetivamente deponha contra a dignidade do ofendido.
De fato, é isso que se passa na hipótese, pois, fixado os danos morais no valor equivalente a 150 salários mínimos em vigor na data do pagamento, hoje perfazendo o total aproximado de 93.000,00, desponta manifestamente excessiva para a reparação do dano.
9.- Ante o exposto, dá-se parcial provimento ao Recurso Especial, para reduzir a indenização fixada a título de danos morais para o patamar de R$ 10.000,00 (dez mil reais).
Intime-se.
Brasília, 10 de agosto de 2012.
Ministro SIDNEI BENETI Relator