USO E MANEJO DE NEOSSOLO QUARTZANÊNICO EM SERRANÓPOLIS (GOIÁS/BRASIL): GRAU DE DEGRADAÇÃO E POSSÍVEL RECUPERAÇÃO

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USO E MANEJO DE NEOSSOLO QUARTZANÊNICO EM SERRANÓPOLIS

(GOIÁS/BRASIL): GRAU DE DEGRADAÇÃO E POSSÍVEL RECUPERAÇÃO

Iraci Scopel; Marluce Silva Sousa; Dimas Moraes Peixinho; Régia Estevam Alves; Zilda de Fátima Mariano; Douglas Siqueira Freitas; Priscila Ferreira dos Santos.

Universidade Federal de Goiás;

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás

iraciscopel@gmail.com; mss_geo@hotmail.com; dimaspeixinho@yahoo.com.br

1 - INTRODUÇÃO

O Cerrado é o segundo maior domínio de natureza no Brasil, abrigando diferentes espécies de fauna e flora e apresentando solos de baixa fertilidade natural e com alto teor de alumínio, o que exige correção para uso agrícola. Uma das classes de solo predominantes no Cerrado é o Neossolo Quartzarênico, que apresenta textura arenosa, baixo teor de argila e matéria orgânica, baixa capacidade de retenção de água e alta suscetibilidade à erosão.

Os Neossolos Quartzarênicos Órticos da área da pesquisa, localizada no sudoeste do estado de Goiás, derivam de rochas areníticas das Formações Botucatu (Juro-cretáceo) e do grupo Bauru (Cretáceo), pertencentes ao Planalto Setentrional da Bacia Sedimentar do Paraná. Apresentam seqüência de horizontes A-C ou A, AC, C, sem contato lítico dentro dos primeiros 50 cm de profundidade, possuem textura “areia” nos vários horizontes numa profundidade de até 150 cm ou mais, a partir da superfície ou até um contato lítico (SCOPEL; PEIXINHO; SOUSA, 2005). A litologia da Formação Botucatu é constituída por arenitos de coloração rósea à avermelhada, finos a muito finos, bem selecionados, eólicos fluviais, com estratificações cruzadas de pequeno a grande porte, comumente silicificados (SOUZA JÚNIOR et al., 1983).

Os arenitos do Grupo Bauru, abrangendo as formações Adamantina e Marília, possuem maior quantidade de argila, e, em geral, apresentam um potencial maior à formação de solos com maior fertilidade, sendo, portanto, menos friáveis que os do Botucatu.

A Formação Adamantina apresenta estratos tabulares de arenitos finos a muito finos, de coloração cinza-claro e bege a róseo com níveis conglomeráticos e delamitos (silto-areno-argilosos). Em geral, apresenta arenitos mal selecionados, compostos de grãos de quartzo subangulares e subarrendondados. Já a Formação Marília, basicamente é constituída por depósitos arenosos imaturos de arenitos vermelhos,

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2 finos a grossos, mal selecionados, cimentados por sílica amorfa. Estas características geológicas e geomorfológicas relacionam-se com o resultado final do processo de formação dos Neossolos Quartzarênicos Órticos, que apresentam textura areia e areia franca (SCOPEL; PEIXINHO; SOUSA, 2005).

Embora os solos arenosos exibam altas taxas de infiltração, são facilmente erodidos devido à pouca cimentação oriundas das poucas partículas de argila e de matéria orgânica, e, à baixa ou nula coesão, favorecendo a desagregação e o transporte das partículas de areia (SILVA, 2006).

Conforme Scopel, Peixinho e Sousa (2005), no final da década de 1970, com a modernização agropecuária, houve uma rápida expansão nas atividades agrícolas, principalmente no Sudoeste de Goiás, resultando em grandes transformações no Cerrado. A partir da década de 1980, quando os chapadões constituídos por solos argilosos já estavam ocupados, intensificou-se, também, o uso dos solos arenosos nas depressões intermontanas. Com técnicas deficientes, essas áreas passaram a ser exploradas de maneira inadequada e, posteriormente, após seu esgotamento, abandonadas. Este uso inadequado dos solos resultou em danos graves como a formação de manchas de areia. Segundo os mesmos autores, atualmente é possível observar-se, através das pesquisas realizadas, um processo de ampliação desta degradação tanto nas áreas de atividades agrícolas como nas que estão abandonadas.

Em relação ao uso de tecnologias para a realização de estudos ambientais, o sensoriamento remoto (SR), aliado ao Geoprocessamento tem mostrado bons resultados, possibilitando seu uso para mapeamentos, monitoramentos e na recuperação de áreas degradadas (ASSAD, 1998). Sousa et al. (2007) utilizaram tais ferramentas para realçar e mapear manchas de Neossolos Quartzarênicos, sem cobertura vegetal, em diferentes períodos do ano, o que permitiu observar o comportamento espectral desse tipo de solo, bem como a escolha de técnicas adequadas para o mapeamento das áreas degradadas.

Assim, este trabalho visa mapear as áreas já degradadas, através de geoprocessamento e trabalhos de campo; investigar as causas e propor soluções, pesquisadas por meio de experimentos de campo, observações, bibliografia, entrevistas, trabalhos em casa-de-vegetação e análises de laboratório.

2 – MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho, realizado no sudoeste de Goiás (BR), consistiu em levantamento bibliográfico e cartográfico, visando delimitar áreas passíveis de ocorrência de solos

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3 arenosos. Para isto, utilizou-se o Levantamento Exploratório de solos do Radambrasil (1983), na escala 1:1.000.000, cujas Unidades de Mapeamento são do tipo “Associação”. O refinamento dessas Unidades, na tentativa de localizar Unidades Simples de Neossolos Quartzarênicos (RQ), foi feito através de fotointerpretação, combinada com a sobreposição de mapas de geologia e apoio de campo. As classes de declividade e a geomorfologia também foram importantes na identificação das unidades de mapeamento. Os RQ, classe de solo de interesse maior neste trabalho, foram separados dentro de graus relativos de probabilidade de ocorrência, sendo de alta probabilidade quando coincidiam os RQ com o substrato arenítico, seja da formação Botucatu ou do grupo Bauru.

Quando os indicadores são de menor evidência, a delimitação dos RQ recebe um grau de probabilidade menor. O Sensoriamento Remoto e o Geoprocessamento foram ferramentas importantes nesta fase, para determinação do uso da terra, para o cruzamento dos planos de informação e para a localização das manchas de solo degradado. Desses procedimentos resultaram: o mapa de solos, mapa de uso da terra, mapa de probabilidade da ocorrência de areais, e mapa com a localização das manchas de solo exposto (Figura 2).

Utilizando-se uma mancha de solo exposto de mais ou menos 1 ha, foi realizado, em metade dessa área, um experimento com oito culturas onde o solo foi previamente corrigido e adubado, de acordo com recomendação técnica da EMBRAPA (1984), inclusive fazendo-se adubação de cobertura e com micronutrientes.

Conduziu-se, ainda, um experimento similar em casa-de-vegetação com solo arenoso coletado no local do solo exposto, corrigindo-se e adubando-se e cultivando as culturas de soja, milho, braquiária, estilosantes e arroz para observar características de desenvolvimento dessas culturas, nas fases iniciais. Foram irrigadas, usando-se, como medida, a média da precipitação dos três meses mais chuvosos, colocando-se água a cada dois dias.

O solo foi analisado em suas características físicas e químicas, antes e após o experimento nas profundidades de 0-10 e de 40-60 cm, de acordo com metodologia descrita em EMBRAPA (1984). Mediu-se também a produção de matéria seca das culturas e a lixiviação de nutrientes em casa-de-vegetação, através da análise da água percolada nos vasos do experimento da casa-de-vegetação. Foram, ainda, instalados termômetros de solo, de máxima e mínima, e pluviômetro para acompanhar alguns dados climáticos que ocorreram no decorrer do período do experimento.

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3 - RESULTADOS

De acordo com o monitoramento realizado na pesquisa é possível observar um processo de ampliação da degradação em RQ tanto nas áreas de atividades agrícolas como nas que estão abandonadas (Figura 1 e 2).

Figura 1 - Imagens de áreas degradadas em RQ, no Sudoeste de Goiás.

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5 Em relação ao experimento de campo, observado na Figura 3, com a finalidade de avaliar o comportamento e a viabilidade técnica e financeira da implantação de culturas nos solos degradados, realizou-se o plantio de culturas anuais (soja, milho, sorgo, arroz, milheto), pastagem (braquiária e estilosantes) e cana-de-açúcar.

Figura 3: Experimento de campo demonstrando as culturas de soja, milheto, milho e sorgo em Neossolo Quartzarênico.

3.1 Análise foliar das culturas em experimento de campo e em casa-de-vegetação Soja:

De acordo com os dados de análise foliar, a soja apresentou baixo teor de nitrogênio nas folhas. Segundo Vitti et. al. (1989) o teor adequado de nitrogênio para a análise de folhas da cultura da soja está entre 45-55 g/kg, e o teor revelado pela amostra foliar na área de pesquisa foi de 30,4 g/kg. Os teores de N estão abaixo do adequado apesar da adubação com 35 kg/ha de nitrogênio no plantio da soja e inoculação com Rhizobium. Na deficiência de N ocorrem baixos teores de proteínas nos grãos, causando também clorose total das folhas mais velhas, seguida de necrose.

Os teores de potássio (K) também se encontram baixos, o que confirma a hipótese de que em solos arenosos, a deficiência do K é causada devido ao excesso de lixiviação. Atuando no processo de formação de nódulos fixadores de nitrogênio (MASCARENHAS,2001), o baixo teor de potássio pode então causar deficiência de nitrogênio nas plantas de soja, reduzindo a taxa de crescimento da planta. Além da

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6 redução do rendimento, a maturação da planta é atrasada, podendo ocorrer, também, haste verde, retenção foliar e vagens chochas.

Apesar da adubação no plantio, com sulfato de zinco, foi detectada a deficiência de enxofre. Essa deficiência é freqüente em solos tropicais ácidos e com baixo teor de matéria orgânica, caso dos RQ. Foram detectadas, ainda, nas análises foliares, baixa quantidade dos micronutrientes boro e cobre, cuja deficiência provoca um lento e anormal crescimento das plantas. A deficiência destes micronutrientes ocorre com mais freqüência em solos arenosos e altamente intemperizados.

Cana-de-açúcar:

Já, relativamente à cultura de cana-de-açúcar, verificou-se que o nitrogênio nas folhas está presente em baixa quantidade, apesar da adubação de 30 kg/ha, em cobertura, o que pode ter determinado a redução no crescimento dos internós da planta e colmos finos. Ainda, observou-se deficiência de fósforo, o que causa redução no porte da planta, um sistema radicular menos desenvolvido e um menor perfilhamento (VITTI,2006).

Para a deficiência de potássio, ocorrida nas amostras de cana, verifica-se um menor teor de açúcar. Foram detectados, também, deficiências de cálcio e enxofre, o que causou, respectivamente, má formação de plântulas e clorose foliar.

Os micronutrientes boro, cobre e o zinco estão praticamente ausentes nos resultados das análises foliares de cana. A deficiência destes micronutrientes causou morte das gemas apicais, pequeno desenvolvimento das folhas e redução dos internódios.

Milho e milheto:

Em relação às culturas de milho e milheto, constatou-se que a concentração de nitrogênio nas folhas encontra-se abaixo da requerida pelas culturas; consequentemente o crescimento é retardado e o nitrogênio é remobilizado das folhas mais velhas para as mais novas. O nitrogênio é um componente fundamental das proteínas. Tem importante função como ligante de íons metálicos, principalmente na forma de anéis heterocíclicos, como, por exemplo, na clorofila, o que causa sintomas de amarelecimento da ponta para a base em forma de "V", secamento começando na ponta das folhas mais velhas e progredindo ao longo da nervura principal, necrose em seguida e dilaceramento e afinamento dos colmos.

Apesar de apresentar também níveis deficitários de fósforo, as culturas não apresentaram os sintomas de deficiência. Segundo a análise de micronutrientes, as culturas de milho e milheto não apresentaram deficiência.

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7 Sorgo:

Na cultura do sorgo os teores de nitrogênio e de fósforo se encontram abaixo do valor estipulado para uma boa produtividade. Os sintomas de deficiência são iguais aos observados na cultura do milho e do milheto. Esta cultura não apresentou deficiência nos teores de micronutrientes, conforme tabela da EMBRAPA (2006).

Braquiária e estilosantes:

No que se refere ao consórcio de braquiária e estilosantes, análises foliares dessas plantas indicam que ambas apresentam teores muito baixos de potássio, o que possivelmente acarretou a clorose das pontas e margens das folhas mais velhas, seguida por secamento, necrose e dilaceração do tecido; colmos com internódios mais curtos e folhas mais novas podem mostrar clorose internerval (EMBRAPA, 2006).

Os teores de cálcio também se apresentam inferiores à recomendação, principalmente devido à sua lixiviação excessiva por falta de compostos adsorvíveis. Os teores dos micronutrientes cobre, manganês e zinco estão abaixo do recomendado, o que possivelmente ocorreu devido ao pH do solo não ter se estabilizado em níveis adequados para absorção dos mesmos.

4 – CONCLUSÕES

A partir do trabalho realizado constatou-se que:

i) houve ampliação da área total de RQ degradado, ou seja, com manchas de areia; ii) quando muito degradados, mesmo sob vários tipos de uso e manejo, tratando-se de culturas anuais, a deficiência em fertilidade química e física determinam, na realidade atual, a impossibilidade de recuperação dos RQ. A Correção e a adubação química, nessa classe de solos, tornam-se inviáveis, tanto pelo alto custo quanto por não apresentarem os resultados de produtividade esperados. No aspecto físico, é ainda mais difícil implementar as melhorias necessárias;

iii) há necessidade de medidas urgentes de contenção das áreas com alto grau de degradação, e preservação das áreas com RQ, ainda vegetadas, suscetíveis ao processo de arenização.

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5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abreu, C. A. Fertilidade do solo. Editora Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS). Ano 2007. Pag. 680.

Assad, E. D. Sistemas de Informações Geográficas: aplicações na agricultura. 2 ed. Rev. e ampl. Brasília: Embrapa-SPI, 1998. 434p.

EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Solo. Sistema brasileiro de classificação de

solos. Brasília. Embrapa Solos, 1999. p. 4122000.

Embrapa Milho e Sorgo, Sistemas de Produção, 2, ISSN 1679-012X Versão Eletrônica - 4 ª edição, Set./2008.

Embrapa Milho e Sorgo Sistemas de Produção, 2 ISSN 1679-012X Versão Eletrônica 2ª edição Dez./2006

Malavolta, E. Vitti, G. C. Oliveira, S. A. Avaliação do estado nutricional das plantas:

Princípios e Aplicações. Piracicaba: Associação Brasileira para Pesquisa da Potassa e

do Fosfato. Ano 1989. Pg. 81 a 85.

Mascarenhas, H.A.A. et. al. Potássio para soja, 2001. Disponível em www.iac.sp.gov.br/tecnologias/soja/potassiosoja.htm.

Vitti, G.C. Nutrição e adubação de cana-de-açúcar. 2006. Em

www.malavolta.com.br/pdf/730.pdf Disponível em:

http://www.cnpms.embrapa.br/publicacoes/milho/ferdiagnose.htm

Souza Júnior et al. Geologia da bacia sedimentar do Paraná. In: PROJETO RAMDAMBRASIL. Folha SE.22 Goiânia. Rio de Janeiro, 1993(Levantamentos de Recursos Naturais; 31).

Scopel, I.; Peixinho, D. M.; Sousa, M. S. A formação de areais e seu controle na região

de Jataí e Serranópolis/GO. Relatório final do Projeto. Jataí-GO:

PROINPE/SECTEC-GO, p. 155, 2005.

Scopel, I. et al. Experimento em casa-de-vegetação para verificar o desenvolvimento de

culturas em Neossolo Quartzarênico (Quartzipsamment). VIII Simpósio de Geografia

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9 Sousa, M. S. et al. Avaliação das imagens cbers/ccd para o mapeamento de areais no

sudoeste de Goiás. In: Boletim Goiano de Geografia. Instituto de E4studos

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