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Palavras chave: História e Literatura; Monstruosidade; História do Brasil; Século XIX.

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A monstruosidade da fome em Os Brilhantes (1895) de Rodolfo Teófilo

Filipe Hericks Universidade Federal do Paraná Financiamento: CAPES

Resumo: Os Brilhantes, romance escrito por Rodolfo Teófilo, no ano de 1895, em Fortaleza/CE, nos apresenta a transformação de um fazendeiro do interior da Paraíba em um renomado cangaceiro, que perpassa o período da seca de 1877-1879. Em sua representação do período, Teófilo dá destaque aos efeitos causados pela fome e as condições limítrofes às quais as personagens são sujeitas, transformando-as em criaturas irracionais, cadavéricas e animalescas, que agem somente em função de seu instinto, para saciar sua fome. Apesar de uma obra do Naturalismo e sua tentativa de um trabalho mais próximo ao científico, percebemos influências góticas em sua escrita, principalmente nas descrições da violência e dos famintos, gerando figuras monstruosas. A partir do conceito de imaginário, entendido como o conjunto de referenciais de um período, englobando as experiências concretas e sensíveis que formam a visão de mundo de uma época, cultura ou sociedade, podemos conhecer certos aspectos da sociedade da qual Teófilo escreve, como seu entendimento dos limites do ser humano, a influência de debates evolucionistas nos estudos sobre miscigenação de raça, ou mesmo as críticas que apresenta aos governos locais oligárquicos recém instaurados pela República. Buscamos mostrar a presença da representação desta monstruosidade no romance, nas descrições físicas e comportamentais dos retirantes, e sua relação com o contexto a partir do qual o autor escreve.

Palavras chave: História e Literatura; Monstruosidade; História do Brasil; Século XIX.

O romance intitulado “Os Brilhantes”, foi publicado originalmente no ano de 1895, na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Foi escrito por Rodolfo Marcos Teófilo, nascido em 1853, em Salvador, na Bahia, cidade em que ficou curtíssimo período de tempo, antes de voltar para Fortaleza, onde seus pais já residiam. Exerceu diversas funções em sua vida, sendo farmacêutico de formação, pela Faculdade de Medicina da Bahia, mas também foi escritor de romances, contos, trabalhos sobre a história da seca no Ceará, era dono de sua farmácia, atuava junto aos jornais locais, foi sócio correspondente do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro

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e combateu pessoalmente a epidemia da varíola, oferecendo vacinações gratuitas todos os dias em sua casa.

Intelectual ativo no círculo de letrados cearenses, Teófilo defendia ideais abolicionistas e republicanos, além de demonstrar em seus escritos grande influência de debates darwinistas, ligados ao evolucionismo social e a inferioridade na miscigenação das raças, discussões correntes nos anos oitocentistas que ganham mais força no Brasil no fim do século. Por sua formação e influências intelectuais, aproxima-se do naturalismo como estilo literário, inaugurando-o na literatura cearense com a publicação de “A Fome”, no ano de 18901.

No enredo de “Os Brilhantes”, repleto de jargões técnicos, são perceptíveis algumas características, como o darwinismo social e sua visão acerca da miscigenação, como quando descreve os inimigos do protagonista, como “uma grande família de mestiços, vulgarmente chamados cabras, no norte do Brasil, produto do cruzamento do índio e do africano, e inferior aos elementos de que é formada”2. Além disso, a minúcia nas descrições, especialmente situações que envolvem doenças, assassinatos, reações físicas destes momentos, como crânios despedaçando, sangue borrifando no rosto, vermes em feridas abertas ou os efeitos da fome, que deforma fisicamente e altera a mente das personagens.

Parte de um círculo de intelectuais3 e literatos atuantes em Fortaleza, Teófilo compartilhava de suas referências e, em um primeiro momento, de uma visão otimista da República, que aliada à ciência traria a modernidade e o progresso. Contudo, após 1889, ao se depararem com uma forma de governo que mantinha hierarquias e

1 SOUSA JUNIOR, H. B.; ALENCAR, M. C. F. Trajetórias e formação de Rodolfo Teófilo. In: II Jornada Interdisciplinar em História e Letras, 2017, Quixadá, CE. Anais, p.7.

2 Ibidem, p.93.

3 Especificamente falando nos intelectuais cearenses, formados, em sua maior parte, pelas universidades de Recife que divulgavam seus ideais através principalmente de jornais, como é o caso, por exemplo, de Capistrano de Abreu, Rocha Lima, Araripe Júnior, Thomás Pompeu Filho, Antônio Bezerra e João Cordeiro, fundadores do periódico Fraternidade, Oliveira Paiva, Abel Garcia, Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa, Juvenal Galeno, João Lopes, Antônio Sales, José Costa Júnior, além de Rodolfo Teófilo, membros do Clube Literário, que publicavam o periódico A Quinzena, ou então os membros da Padaria Espiritual, responsáveis pelo jornal O Pão, Adolfo Caminha, Lopes Filho, Xavier de Castro, Francisca Clotilde, José Carlos Júnior e Lívio Barreto, incluindo ainda os já citados Antônio Sales e Rodolfo Teófilo. Ver: ALENCAR, M. C. F. de, Adolfo Caminha e Rodolfo Teófilo: A Cidade e o Campo na Literatura Naturalista Cearense. 2002. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Ceará, Fortaleza

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relações de poder já existentes no Império, “onde dominam e se digladiam as oligarquias regionais, onde predomina a relação pessoal e a política do favor, onde se perpetuam as práticas coronelísticas”4, o que prevalece na visão destes letrados é um grande pessimismo, fazendo-os olhar para o sertão não mais como algo atrasado, que necessitava da chegada da modernidade, mas como um refúgio das cidades, símbolo do que há de moderno, agora vendo problemas de saneamento e escancarando a miséria em suas ruas. Acrescenta-se a isso a experiência cearense com as secas, que levavam multidões de retirantes à capital e com eles epidemias causadas pelas condições precárias em que viviam, além da vivência pessoal de Teófilo no combate à epidemia de varíola, na qual precisou, sem apoio do governo de Fortaleza, oferecer vacinações gratuitas em sua casa na tentativa de vencer a doença5.

Aliado a essa conjuntura, Teófilo criticava abertamente o governo cearense, representado pela figura de Nogueira Accioly, presidente do Estado, que usava de seu poder para desenvolver sua oligarquia, tomando atitudes como, por exemplo, o monopólio da venda de carne verde, perseguindo mulheres retirantes que as vendiam nas ruas, utilizando do poder da polícia para coagi-las. Seu governo “era caracterizado pela rede de favores políticos sustentada nos potentados rurais, distribuídos pelo sertão cearense, que lhes garantiam votos e a coerção dos adversários que ameaçavam seu comando político”6. Suas críticas renderam a Teófilo uma perseguição de Accioly e a consequente perda do cargo de professor no Liceu Cearense. A situação que via em sua cidade pode nos ajudar a entender a desilusão com que os intelectuais encaravam a instituição da República.

O romance acompanha a história de Jesuíno Brilhante, fazendeiro do interior da Paraíba e sua transformação em cangaceiro temido e respeitado. Ao longo e mesmo antes da trajetória de Jesuíno se iniciar, somos apresentados a outros temas

4 NEVES, M. S. Os cenários da República: O Brasil na virada do século XIX para o século XX. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2018. p.38

5 ALMEIDA, G. A. A Fome: um romance do naturalismo?. 2007. Dissertação (Mestrado em Letras) - Universidade Federal do Ceará, Fortaleza. p.27

6 SAMARA, E. M.; SOUSA, J. W. F. Morar e viver no nordeste do Brasil: Fortaleza, séc. XIX. Trajetos Revista de História UFC, Fortaleza, v. 4, n. 7, p. 41-67, 2006., p.56

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e ciclos narrativos, iniciando-se com a revolta dos Quebra-quilos iniciada por um grupo ao qual juntaram-se “indivíduos da pior condição – sentenciados evadidos das prisões das províncias limítrofes, escravos fugidos, enfim, toda casta de homens que a sociedade repele de seu seio”7, o que acaba por transformar o movimento em um bando que rouba gado e saqueia o comércio das vilas. Em um destes ataques, tendo como alvo a feira de domingo da cidade de Patu, onde Jesuíno Brilhante viajava com seu parente, Francisco Botelho, uma autoridade policial da vila, “foi disparado sobre Botelho um tiro de bacamarte, cuja bala, despedaçando-lhe o crânio, matou-o imediatamente”, cujo sangue “havia-lhe borrifado o rosto, e a fisionomia do Brilhante foi pouco a pouco perdendo a expressão de assombramento, para se carregar de uma ferocidade que metia mêdo”8, momento que marca a transformação do protagonista, pois, carregado de ódio e desejo por vingança, desperta em seu ser uma nevrose que vai acompanhá-lo até o fim de sua vida, levando-o a cometer assassinatos e tornar-se um criminoso, fugindo constantemente das autoridades locais e das tropas do exército. Esta vida de fugitivo só vai terminar quando, ao fugir de um confronto com as tropas do exército, comandadas por um veterano da Guerra do Paraguai, experiente nas táticas de guerra, Jesuíno cai de um precipício e abre sua testa, causando um ferimento que o debilita física e mentalmente, fazendo com que “as cintilações penetrantes do olhar do criminoso, quando crises de ódio e desejos de vingança lhe invadiam o espírito, se apagaram para sempre”9. Sua condição permite com que seus inimigos, aliado à traição de um dos membros de seu bando, fossem capazes de matá-lo.

Tanto a História quanto uma obra de ficção são formas narrativas, modos de apreender e representar a realidade em que se vive e ao fazê-lo, ambas utilizam da imaginação para construí-la, pois mesmo a partir do método científico historiográfico, é necessário imaginar o passado e interpretá-lo a partir de referenciais específicos do sujeito e seu tempo, para criar através da narrativa o sentido que se vê pelos vestígios do passado. Do mesmo modo, quando um trabalho ficcional é criado, é necessário

7 Ibidem, p.36 8

Ibidem, p.76 9 Ibidem, p.453

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utilizar dos mesmos referenciais pessoais e intelectuais que são próprios ao autor e ao seu tempo. A estes referenciais chamamos de imaginário, ou seja, o conjunto das percepções sensíveis da realidade concreta junto das experiências intelectuais e abstrações, do não-visto e não-experimentado, que dá forma e sentido ao mundo em que se vive, construindo a visão de mundo de uma época, cultura ou sociedade10.

A história da vida de Jesuíno Brilhante, da forma como se desenrola no romance de Rodolfo Teófilo, imagina como esta personagem agiria nas situações em que é colocada e como funcionaria o mundo a sua volta, mas não de uma forma falsa ou mentirosa, pois compartilha da visão de mundo de seu autor e do imaginário do período em que foi produzida, que a torna verossímil, uma possibilidade de leitura daquela realidade. Neste sentido, estudar literatura é preocupar-se com a obra, mas também o autor e o contexto em que viveu, suas influências e experiências, o próprio imaginário de seu tempo. É dizer que a obra é mais do que mera invenção ou falsidade, pois é a representação de uma realidade possível, a partir do imaginário, um “sistema de identificação, classificação e valorização do real, pautando condutas e inspirando ações.”11.

Falar na representação de monstruosidade em uma obra considerada naturalista pode soar deslocado, uma vez que monstros são normalmente associados à literatura de horror ou mesmo fantástica, mas para discutir este conceito em uma obra que se pretende científica, precisamos abordar de onde vêm essas características. De acordo com Julio França e Marina Sena12, apesar de uma obra do Naturalismo ter essa intencionalidade com o mundo real que buscava a precisão de um trabalho de ciência, ainda é possível perceber influências românticas, caracterizadas, por exemplo, como certos tons sombrios, característica que nos ajuda a compreender o Naturalismo brasileiro do fim do século XIX como uma forma de

10 PESAVENTO, S. J.. História e Literatura: uma velha-nova história In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Debates, 2006, 28 de jan. 2006. p.2

11 PESAVENTO, S. J. Op. Cit. p.2

12 FRANÇA, J.; SENA, M. O Gótico-Naturalismo em Rodolfo Teófilo. Soletras, Rio de Janeiro, n. 30, p.23-38, dez. 2015.

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expressão artística que que descreve com detalhes personagens e atos extremos, além de tematizar comportamentos limítrofes do ser humano13.

Os autores argumentam que as características pelas quais Teófilo recebeu duras críticas já em sua época se referem a certos aspectos de sua escrita, considerados excessos naturalistas, como o detalhamento da perversidade e transgressão das personagens ou a brutalidade com que as cenas de violências são descritas14, podem ser entendidas como um diálogo com a tradição gótica e não uma fidelidade maior aos preceitos do Naturalismo. Além disso, estes excessos estariam ligados a uma visão pessimista da modernidade que atingiu não só escritores naturalistas, mas diversos outros deste fim de século15, o que os autores chamam de visão de mundo gótica, que para além de um estilo literário com período de atuação definido, vem influenciando diversas obras de diferentes estilos.

Esta breve argumentação é apresentada para evidenciar que o Naturalismo brasileiro, mesmo ao tentar seguir normas da escola de Émile Zola e apesar de sua busca por um “empirismo”, ainda possui diversas influências e se constrói conforme seu contexto. No caso de “Os Brilhantes”, a despeito de sua tentativa de uma análise científica da psicologia da mente de um criminoso, o que vemos, especialmente ao descrever os efeitos da fome nos retirantes, é um cenário monstruoso.

Jesuíno Brilhante já vivia há algum tempo em sua fortaleza de pedra no meio da serra quando a seca se torna intensa no sertão nordestino. Por sua localização privilegiada, não sente muito impacto desta situação até que os retirantes, fugindo atrás de comida e água, migram para a mesma serra e começam a se estabelecer à

13 Ibidem, p. 24

14 A saber, os aspectos referem-se: a) à exploração de comportamentos limítrofes do ser humano; b) ao detalhamento com que narra ações de perversidade e de transgressão moral; c) à brutalidade com a qual são descritas as cenas de violência; d) ao emprego recorrente de termos científicos; e e) à ostensiva pretensão documental do autor. Ibidem, p.26

15 Este pessimismo do fim do século XIX, está ligado a uma ideia de decadência, brevemente, a civilização ocidental estaria enfrentando o seu fim, tendo a causa muitas vezes vista como a entrada de estrangeiros das colônias indo para a Europa, a influência cultural que estes vinham causando e, na visão de alguns autores, deteriorando a cultura “pura” da civilização. Para mais, ver: HERMAN, A. A idéia da Decadência na História Ocidental. Rio de Janeiro: Record, 1999. No Brasil, algumas destas ideias serão incorporadas aos estudos sobre a miscigenação de raça, afirmando que a mistura com índios e negros enfraquece a raça branca, dos quais Rodolfo Teófilo demonstra em sua obra ser afiliado.

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sua volta, comendo tudo o que encontravam em busca da sobrevivência, de forma que “era já custoso apanhar um rato ou um lagarto. Já não havia morcegos nas cavernas, nem sapos nos pântanos; tinham comido tudo. Consumida a bicharia, valeram-se dos vegetais”16, já sem importar-se com a prudência e cautela, alimentando-se de uma raiz venenosa, abundante no local e de fácil extração, ideal para aquelas pessoas já fracas, mas que as adoeciam.

Diante daquela situação, Jesuíno se compadece e decide empregar todas as suas forças para ajudá-los, bolando um plano de buscar comida saqueando os comboios enviados pelo Império, mas que eram desviados pelos poderes locais, representados pelos “chefes de partido que foram arvorados em comissários do govêrno”, pois “a gana dêsses fingidos patriotas, que só visavam o interêsse pessoal, não tardou a se manifestar. Cônscios da impunidade, cometiam os mais escandalosos estelionatos, defraudavam o Estado em prejuízo das populações famintas”17.

É o que o autor chama de ganância dos poderosos que desviam e roubam os suprimentos de uma população faminta que causa a maior destruição. Enquanto os embates de Jesuíno ocorrem como forma de defesa e afetam somente aqueles que são associados a ele, o ato de tomar para si mantimentos e deliberadamente deixar que toda uma população passe fome é o que gera monstruosidades, seres que nem mesmo se parecem com humanos, são múmias, animais e já não possuem consciência. Ao negligenciar a fome da população, o governo em “Os Brilhantes”, acaba por usar da violência contra uma parcela muito maior da população do que suas próprias armas, levando estas pessoas a situações extremas que tiram delas terras, saúde e até mesmo a humanidade.

Ao retornar à noite de sua jornada em busca do comboio com os suprimentos, Jesuíno e seu bando, por estarem cansados acabam deixando algumas sacas do lado de fora da caverna. Pela manhã, contudo, “a montanha, que parecia desabitada, povoou-se de múmias vivas”18 que saíam de seus abrigos em busca de algo para comer. Quando reparam nos sacos de farinha próximos da entrada da caverna,

16 TEÓFILO, R. Op. Cit. p.248 17

Ibidem, p.256

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colocam-se em busca deles, fazendo com que alguns dos mais famintos, ansiosos pela comida não tivessem a paciência de descer dos rochedos e árvores em que haviam subido, caindo de onde estivessem. “O choque da queda naquela massa de ossos e peles, sem carne mais que protegesse as articulações, desconjuntou-as pela maior parte”, tornando-se “verdadeiros embrulhos de pelangas”19.

A multidão seguia atropelando uns aos outros e “alguns dos mais esbaforidos e enfermos, sem tempo de evitar o atropelamento, caíam dentro da nuvem de poeira e morriam asfixiados” e nem por isso a marcha cessava, a qual “passava por cima dos cadáveres sem lamentar a sorte dos que tinham morrido em caminho. Só tinham uma idéia; só ouviam o - salve-se quem puder – e por isso pisavam os companheiros que esmoreciam na jornada”20, demonstrando que aquelas pessoas já não possuem mais controle de seus sentidos ou consciência para além da fome.

Parados em frente aos víveres, “não se ouvia o som de uma palavra, apenas um zumzum, semelhante ao esvoaçar de um enxame de abelhas”, sua aparência era marcada pelas “repetidas contrações dos mirrados músculos das faces em hórridas caretas e os espasmos dos braços e pernas davam àquelas esqueléticas figuras uma expressão fantástica e aterradora”21. Não aguentaram muito tempo até que alguns “caíram sôbre os víveres como porcos esfomeados”22, rasgando com os dentes os sacos de farinha e logo seguidos pelos outros famintos. A atitude animalesca é descrita por Teófilo quando

A legião de múmias vivas se enovelava sobre o repasto e, quanto mais se movia, mais empestava o ambiente de um cheiro nauseabundo de carniça. Não falavam, ganiam. Os mais fortes esmurravam-se, disputando o melhor quinhão. Os mais fracos rolavam por terra, derribados pelos que podiam caminhar. Crescia a fedentina que saía dos seus nojentos e esqueléticos corpos.23

A situação continua e o “novêlo de criaturas magríssimas e sujas”, que “alucinados pela fome e reduzidos sòmente à animalidade, satisfaziam, como a mais 19 Ibidem, p.277 20 Ibidem, p. 278 21 Ibidem. 22 Ibidem, p. 279 23 Ibidem.

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ínfima bêsta, as necessidades do estômago em longo jejum”24. Mesmo quando Jesuíno acorda e tenta ameaça-los com sua faca, caso não se distanciassem das sacas, a multidão parece não lhe dar ouvidos, inclusive os que ele empurrava voltavam logo em seguida. A cena é capaz de abalar até mesmo o criminoso protagonista e “Jesuíno, cuja forte têmpera de ânimo haviam tantas vêzes comprovado atos de valor, sentia o espírito profundamente abalado; chorava”25. A multidão, “com a consciência embotada e adormecidos n’alma pela fome, que tudo desorganiza”26, ignorava a presença das crianças inanidas e não procuravam protege-las, “E, como se encontravam aquelas pequenas múmias! A maior parte estavam esborrachados, tendo os mirrados intestinos espirrado por um rasgão da pele nos ossos dos quadris”27.

Finalizando a cena, a multidão é descrita como uma massa uniforme e sem características humanas:

O Brilhante não podia distinguir as vértebras do esqueleto, não via o engelhamento da pele desorganizada pela miséria, via uma enorme múmia formada de centenas de criaturas bestializadas pela fome! Não lhe chegavam aos ouvidos as pragas, as imprecações, mas um zumzum surdo, um ruído em que se fundiam desde o ai até a blasfêmia.

A massa compacta, que parecia um corpo só, foi pouco a pouco se distendendo. A figura alterou-se; tomava as formas de um grande polvo. Inúmeros tentáculos moviam-se, procurando a orla da floresta.28

Os tentáculos eram formados por aqueles que conseguiam se movimentar e carregavam a seus esconderijos os sacos que conseguiram pegar, enquanto o corpo deste molusco é constituído pelos famintos mais fracos, que só aguentaram comer até cair.

O que vemos em toda esta cena é a característica inumana dos retirantes. Teófilo já não se refere a eles como pessoas, mas criaturas, animais como a jiboia, o polvo, um enxame de abelhas, como uma massa de ossos e pele, besta ou múmias. 24 Ibidem, p. 279-280 25 Ibidem, p .281 26 Ibidem. 27 Ibidem. 28 Ibidem, p. 282

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Isso ocorre porque as características que Jesuíno, como a personagem que observa a cena, e também podemos estender para o que o próprio autor reconhece como humano. Aos poucos a aparência física dos famintos foi se tornando cada vez mais cadavérica ou inchada pela doença, machucada, suas roupas se tornaram trapos, mas também suas atitudes se modificam, ao passo que já não se importam com a vida alheia ou com a sua própria, visto os atropelamentos ou os saltos que dão, sem dar importância para os ferimentos que podem surgir, a dor ou compaixão pelo próximo. Percebemos que no romance, é a perda do controle desta consciência que os tira a humanidade, pois postos em condições extremas como a fome e a seca, transformam-se em criaturas, animais, monstros.

A monstruosidade aparece em obras de arte, cinema, literatura, entre outras, em contraponto ao que se define como humano ou natural. Cada época ou geração possui sua definição do que é o humano, trazendo características de seu tempo e cultura. Da mesma forma, a monstruosidade é formada pelo seu momento cultural, incorporando medos, angústias, desejos e ansiedades. Mesmo partindo de dentro da sociedade, representa o que está nas margens ou fora da ordem social e conforme as categorias normativas se modificam, também mudam estas transgressões e consequentemente a representação do monstro. Neste sentido, representar a monstruosidade é delimitar também o que se acredita, em determinado tempo, ser os limites do humano. Transgredir estas fronteiras é repulsivo justamente por ameaçar o que conhecemos como “normal”, “ou seja, os monstros não são totalmente outros, mas derivam seu aspecto repulsivo do fato de serem, por assim dizer, distorções baseadas no conhecido”29. Por partir de dentro da cultura, a monstruosidade faz pensar, traz questionamentos sobre a ordem estabelecida, aparece como um aviso para uma infração, da transgressão da fronteira da normalidade. Os monstros “nos pedem para reavaliarmos nossos pressupostos culturais sobre raça, gênero, sexualidade e nossa percepção da diferença, nossa tolerância relativamente à sua expressão”30.

29 CARROL, N. A filosofia do horror: ou Paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999. p. 240 30 COHEN, J. J. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p.54

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No caso de “Os Brilhantes”, nos deparamos com pessoas que são reduzidas a criaturas que vivem pelo instinto da fome, o que nos leva a questionar o que seria o humano neste contexto em que Teófilo escreve, no fim do século XIX. Estas pessoas não são mais reconhecidas como tal por não estarem mais adequadas ao convívio social, por não ter controle sobre suas atitudes, por não darem importância à vida. Se o que nos separa dos animais é a capacidade de pensar e usar da razão, estes famintos já a perderam e, portanto, são descritos como animais. Mas também nos faz questionar a sociedade em si, capaz de deixar que pessoas cheguem a situações como essa, pelo que o autor chama de ganância, tendo o governo em mãos o poder para ajudá-los a sobreviver.

A visão da fome pela seca, ressonante em toda a vida de Rodolfo Teófilo, desde o combate à epidemia de varíola, como farmacêutico, até em seus romances ou sua história da seca, é apresentada no livro como algo monstruoso e que poderia ser evitado, mas é pelo descaso e a ganância dos poderosos locais que aquelas pessoas foram reduzidas a monstros, múmias andantes. O romance traz a visão de mundo de Teófilo, apresentada nas atitudes de suas personagens e nas situações limítrofes que precisam enfrentar. Vemos a crítica que fazia à sua sociedade em Fortaleza, do controle das oligarquias e o descaso com o tratamento aos retirantes, de modo que um criminoso, assassino, se mostra mais honroso, nos termos dispostos pelo enredo da obra, do que os governantes que, mesmo não sendo condenados ou perseguidos pela polícia (que controlam), conseguem ter piores ações do que o próprio Brilhante. Neste sentido, a violência é repercussão destas relações de poder, uma vez que, desde o levante da revolta dos Quebra-Quilos e seu descontrole, a perseguição e transformação de um fazendeiro em criminoso renomado e mesmo a fome à que são sujeitos os sertanejos, perpassam pelos poderes locais.

“Os Brilhantes” é uma obra fruto de seu tempo, que apesar de não nos apresentar um retrato da sociedade brasileira do fim do século XIX, nos oferece uma representação repleta de vestígios de um imaginário que nos permite entender melhor as discussões do período e sua visão de mundo. Ao trazer para sua obra não só as críticas que faz a seu tempo, mas sua própria representação do mundo, o autor nos permite perceber características de seu modo de pensar, que incorpora o contexto da

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época, assim como suas subjetividades, agregando para nosso conhecimento do período.

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Referências

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