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Breve análise da vida e obra de Santo Agostinho

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Academic year: 2021

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Agostinho

Cinthya Nunes Vieira da Silva

Mestre em Direitos Difusos e Coletivos - PUC-SP

Coordenadora do Curso de Direito, Coordenadora do Núcleo de Prática Jurídica e Coordenadora da Pós-Graduação em Direito e Processo do Trabalho do Centro Universitário Anhanguera - Unidade Leme

Professora do Centro Universitário Anhanguera - Unidade Leme e-mail: [email protected]

Resumo

Filósofo da igreja católica, Santo Agostinho foi um ser humano atormentado, que nasceu no terceiro século depois de Cristo. Sofrendo forte influência de sua mãe, que depois de se dedicar à religião, voltou-se ao filho que também era dado aos excessos. Após um longo período de incertezas, durante o qual Agostinho passou a questionar crenças e valores, até que conheceu Santo Ambrósio, ficando fascinado pelos seus sermões, pela sua retórica. Depois de uma visão, Agostinho por fim converteu-se, por inteiro, ao cristianismo, passando a escrever suas obras mais famosas, como “Confissões”, “A cidade de Deus”e “A cidade dos homens”, entre outras.

Palavras-chave: Santo Agostinho, vida, obra,

filosofia, Deus.

Abstract

Philosopher of the Catholic church, Santo Agostinho was a tormented human being, that he was born in the third century after Christ. Suffering his mother’s strong influence, that after dedicating to the religion, she returned to the son that was also inclined to the excesses. After a long period of uncertainties, during which Agostinho started to question faiths and values, until that he met Santo Ambrósio, being fascinated by their sermons, for his rhetoric. After a vision, Agostinho finally changed, entirely, to the Christianity, starting to write their more famous works, as “Confessions”, The City of God” and “The Men’s City”, among others.

Key-words: Santo Agostinho, life, work,

philosophy, God.

Introdução

Versa o artigo que se segue sobre a vida e a obra de Santo Agostinho. Optou-se por se fazer uma abordagem sobre os pontos marcantes da vida desse santo e filósofo da Igreja Católica, e sobre suas principais obras.

Todas as pessoas são resultado do meio em que

vivem, das experiências por que passaram; assim como aquilo que produzem também sofre inevitável influência da somatória de suas circunstâncias pessoais. Nem poderia ser diferente no campo da filosofia. Algumas vezes, a vivência de um filósofo produz o resultado exato da negação do que se viveu, mas ainda sim é reflexo atribuível. Ainda que sirva apenas para negar a validade do que se acreditou, do que se lhe foi ensinado. Ainda

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que para negar a própria existência.

Já se disse que a filosofia é produto da angústia, e Santo Agostinho foi um angustiado. Em realidade, essa angústia, essa inquietude de idéias é que foi um dos motes de sua conversão e obra, aliado à forte influência materna. Assim, com intuito de propiciar maior entendimento sobre o pensamento de Santo Agostinho é que primeiramente se passará à análise dos acontecimentos mais marcantes na vida do filósofo, ao que se seguirá um estudo, sobre algumas de suas obras mais importantes.

Por razões de limitação de objetivos e de tempo, cingir-se-á apenas a breves comentários sobre a obra de Santo Agostinho, buscando, contudo, fornecer um panorama que permita ao menos fornecer subsídios mínimos para se refletir sobre o filósofo e a influência e alcance de seu pensamento.

A vida de Santo Agostinho

Agostinho nasceu em 13 de novembro de 345 d.C, na cidade de Tagasta, ao Norte da África, na província da Numídia. Era filho de Patrício e Mônica, que segundo relatos1, era um casal de classe média, dado

ao vício da bebida.

Após algum tempo, a bebida levou Patrício a uma conduta violenta e desviada emocionalmente. Em decorrência disso, Mônica abandonou o desagregante vício e voltou suas atenções para a religião e para o filho, Agostinho.

A influência da mãe foi decisiva na vida do filósofo. Mônica governava a casa e a vida do filho. Durante muitos anos, Mônica buscou converter Patrício ao Cristianismo, o que finalmente conseguiu um ano que esse viesse a falecer.

É importante que se faça menção ao fato de que, muito embora sua mãe fosse uma católica virtuosa e tendo sido esta a fornecer a Agostinho as primeiras noções sobre Deus, Mônica praticamente não tinha formação teológica.

Tal educação, precária neste sentido, não foi suficiente para neutralizar as influências do ensino pagão que recebeu na escola, fazendo com que o jovem Agostinho se enveredasse para os excessos.

Ao notar no filho alguns traços do caráter do pai, que Mônica não era capaz de tolerar, colocou Agostinho para fora de casa.

Como já se mencionou neste trabalho, Agostinho

era um angustiado, um atormentado. Gostava dos prazeres terrenos e a eles se entregava, embora repleto de remorso. Era a própria contradição encarnada. Orava a Deus para que lhe fizesse casto, mas não tinha pressa neste acontecimento!

Antes de morrer, Patrício, seu pai, conseguira amealhar dinheiro suficiente para que ele pudesse concluir seus estudos em Cartago. Foram anos de muitas aventuras e das mais variadas experiências. Desta e de outras épocas conturbadas da vida de Santo Agostinho, há o relato de sua própria lavra, a obra Confissões, na qual o filósofo narra seus amores e dissabores, bem como todos os conflitos que marcaram as primeiras décadas de sua vida, e onde se percebe muito nítido o papel que sua mãe, Mônica, desempenhou na formação ética, religiosa e moral do filho.

No período em que esteve fora de casa, Agostinho viveu uma relação amorosa, que até lhe rendeu um filho, Adeodato.

Repleto de dúvida e desejoso de uma resposta que pudesse pôr termo as suas inquietações, Agostinho dedicou-se à leitura de Cícero, porém esse não foi capaz de explicar-lhe por que razão sentia-se tão cheio de santidade e de degradação.

Eis que se deparou com o Maniqueísmo, uma seita que se aproximava do cristianismo, fundada por um lunático chamado Maniqueu e que acreditava ser o próprio Espírito Santo. De essência dualista, os maniqueístas acreditavam que o mundo era dominado por duas forças antagônicas, o Bem e o Mal, ou a Luz e as Trevas.

A ideologia de Maniqueu se amoldava exatamente no cerne do problema existencial de Agostinho, servindo-lhe de guia durante certo tempo.

Ao mudar para Roma com a companheira e o filho, Agostinho começou a questionar o maniqueísmo. Interpelando Fausto, um sábio maniqueísta, e inquirindo-lhe sobre os mistérios das estrelas. Como as respostas do homem não lhe satisfizessem, Agostinho cada vez mais foi se distanciando da crença.

No final do ano de 380 d.C, Agostinho foi nomeado professor de retórica em Milão, onde ouve os sermões de Santo Ambrósio. Encantado com o poder de persuasão deste, Agostinho se despe dos preconceitos que tinha acerca do cristianismo. Vislumbra a possibilidade de que alguém mais provido de inteligência possa efetivamente dedicar-se ao cristianismo, e que a Bíblia, um livro mais profundo do

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que supunha, não deveria sempre ser interpretado literalmente.

Mônica, que não desistira do filho, eis que almejava converte-lo, o alcançou em Milão e ficou extremamente satisfeita em perceber que o Agostinho não era mais um maniqueísta, muito embora ainda não fosse um cristão convertido.

A fim de proporcionar um melhor futuro para o filho, Mônica tratou de enviar a companheira de Agostinho de volta para África. Ficou com o neto e tratou de arrumar uma noiva de “boa família” para o filho.

Sem conseguir se livrar das dúvidas que assolavam seu íntimo, Agostinho entrou em contato com a obra de Plotino, um alexandrino que conferiu nova interpretação às teorias de Platão, dando origem ao que se chamou de neoplatonismo.

Para os neoplatonistas, o Mal nada mais era do que a ausência do Bem. Em alguns pontos, o neoplatonismo se assemelhava a uma visão filosófica do cristianismo, que não contava, contudo, com a existência de um Deus cristão. Influência com essa, acrescida aos apelos da mãe, fizeram com que Agostinho iniciasse a leitura das Epístolas de São Paulo.

Até que, em 386 d.C, Agostinho é acometido de uma séria crise espiritual, ficando muito perturbado. Tentando meditar sobre os eternos dilemas de sua alma, em um lugar sossegado, Agostinho ouve a voz de uma criança que repetia uma canção que dizia: “Tolle, lege. Tolle, lege”.2

Talvez em função de seu frágil estado emocional naquele momento, ou realmente por uma razão transcendente, Agostinho entendeu que aquilo só podia ser uma ordem divina para que ele lesse as escrituras. Ao pegar as Epístolas que estivera lendo, Agostinho se deparou com as seguintes palavras:

Não na orgia e na embriaguez, não na luxúria e na lascívia, não na disputa e na inveja. Ao invés disso, tome a si o senhor Jesus Cristo e não demore mais pensando na carne, a fim de saciar os seus problemas. Ao invés disso, tome a si o Senhor Jesus Cristo e não se demore mais pensando na carne, a fim de saciar os seus desejos.

Considerada por muitos cristãos um milagre, a conversão de Agostinho se deu nesse momento, para exultação de sua mãe.

Como conseqüência do que lhe ocorrera, Agostino

demitiu-se do cargo de professor e desistiu de se casar. Ele e o filho Adeodato foram batizados no ano seguinte por Ambrósio, mais tarde Sano Ambrósio.

Neste mesmo ano de 387 d.C, Mônica vem a falecer vítima de uma febre. Anos depois Mônica foi canonizada e reconhecida como Santa Mônica, a padroeira das mulheres casadas.

Voltando para sua terra natal, Agostinho funda, na companhia de vários amigos, uma comunidade monástica. Durante boa parte do tempo, Agostinho estava estudando e escrevendo. Provavelmente tenha sido um período no qual o filósofo tenha desenvolvido, ou ao menos amadurecido, boa parte de seu pensamento filosófico.

Ao tentar conciliar os pensamentos de Plotino com os ensinamentos cristãos de São Paulo, Agostinho aproximou a igreja católica do neoplatonismo. Havia, contudo, um óbice aparentemente intransponível para esse reencontro, já que os neoplatonistas não aceitavam a idéia de que Deus pudesse ter criado tudo a partir do nada, tal como defende a Bíblia. Como Deus, um ser atemporal poderia ter agido no tempo?

O brilhantismo de seu intelecto formulou uma resposta que para alguns é a semente inicial do pensamento kantiano. Para Agostinho, o que se conhece por tempo, além de ser um conceito eminentemente subjetivo, humano, só surgiu após a criação do mundo. De volta aos principais fatos da vida do santo filósofo, encontrava-se Agostinho em visita a Hipona, no ano de 391 d.C., situada no litoral norte da Argélia, quando conheceu o Bispo Valério. Este o convenceu a se ordenar, o que obrigou Agostinho a deixar a comunidade que fundara com seus amigos em Tagasta. Em 396 d.C, como o bispo Valério já estava idoso, nomeou Agostinho como Bispo Auxiliar em Hipona.Como Valério veio a falecer pouco depois, Agostinho foi chamado a assumir suas funções.

Muito embora, naquela época as funções de Bispo também envolviam atribuições de juiz de direito e de professor de teologia, Agostinho conseguia reservar tempo para prosseguir em sua produção filosófica. Foi nesse período que escreveu uma de suas mais conhecidas obras, Confissões, onde a tônica principal era a tormenta pela qual passou na adolescência e na juventude, em especial nas questões envolvendo a sua própria sexualidade, que entendia exacerbada.

Agostinho também apresentava uma estranha faceta. Como se não bastassem as contradições que o

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assolaram em boa parte da juventude, o filósofo dedicou-se, na qualidade de Bispo, a denunciar tudo aquilo que fugia aos padrões ortodoxos, como os próprios maniqueístas.

Ainda se dedicou a atacar o pelagianismo, uma seita herética criada por um monge gaulês de nome Morgan, que não se conformou com a pouco apego que os cristãos tinham com seus votos, tal a devassidão que viviam.

Segundo Morgan, a razão subjacente para esse tipo de comportamento era a leitura que se fazia constante, das Confissões de Agostinho, onde a temática sexual era uma constante.

No ataque ao pensamento agostiano, Morgan apegava-se a uma passagem das Confissões na qual Agostinho defendia que a bondade só se faz possível com a intervenção divina. Para Morgan, as pessoas não se esforçavam para ser boas, pois isso era apenas questão da vontade de Deus. Então, por que contrariar a vontade de Deus, ou antecipa-la. Dever-se-ia esperar que Deus operasse pela bondade quando lhe fosse oportuno.

Morgan angariou muitos seguidores e Agostinho viu-se então diante da necessidade constante de se defender, travando uma longa batalha contra os hereges pelagianos. Por essa e por outros embates do gênero é que Agostinho ficou marcado como um defensor da ortodoxia, característica marcante de uma longa histeria da igreja católica. Agostinho, a par de ser um pensador de quilate, também era um fruto e um reflexo de seu tempo e de seu meio.

Por volta de 410 d.C. Roma foi invadida e saqueada pelos visigodos. Rapidamente houve quem atribuísse a queda ao abandono do culto aos antigos e “poderosos” deuses, e a conseqüente adoção do cristianismo.

Em reposta ao que lhe era inconcebível como argumento, Agostinho escreveu A Cidade de Deus, monumental tratado sobre teologia e filosofia. Nesta obra, Agostinho busca convencer os cristãos que a queda de Roma faz parte da vontade divina.

Durante os anos que se seguiram, enquanto prosseguia o declínio de Roma, Agostinho permaneceu escrevendo, estudando e exercendo seu ofício de Bispo de Hipona.

Em 428 d.C. os visigodos invadiram a províncias do Norte da África e dois anos depois estavam em Hipona, fazendo um cerco que levaria um ano. Agostinho não resistiu a ele, e em 28 de agosto de 430,

despediu-se da vida e da cidade dos homens, aos despediu-setenta e cinco anos. Os bispos católicos, então expulsos de Hipona, levam consigo, para Sardenha, os restos mortais de um de seus mais importantes representantes.

Muito embora o seu processo de canonização só tenha se realizado centenas de anos depois, desde sua morte Agostinho foi considerado um Santo. Assim, até os dias atuais se comemora, no dia 28 de agosto, o dia de Santo Agostinho.

Os restos mortais de Santo Agostinho de Hipona estão guardados em Pavia, na Itália, levados pelo rei Lombardo, Luitprand.

Como se pode perceber pelo que aqui foi narrado, Santo Agostinho, independente de sua condição de Santo da Igreja Católica, também foi um filósofo que produziu importantes obras que lhe sobreviveram e sobre as mais importantes e conhecidas dessas obras é que se passará a dispor a seguir.

A obra

A produção literário-filosófica de Santo Agostinho foi vasta. Escreveu muito durante toda sua vida. Com o propósito de permitir uma análise sobre seu pensamento transcrito em papel, é que se abordará nesse trabalho, conforme já se frisou anteriormente, as principais obras de Agostinho.

Até mesmo por razões cronológicas é que

Confissões será a primeira delas. Obra de cunho

eminentemente autobiográfico, Confissões se traduz praticamente ao que lhe dá título, no que diz respeito à parte que Agostinho se refere à própria experiência de vida.

Não se pode dizer que Agostinho se expôs totalmente nesta obra, pois há coisas que nem a si mesmo confessa, mas relatou de tal forma sua vida e suas paixões, essencialmente as carnais, que, de início, acredita-se que tenha sido a curiosidade sua principal leitora.

Para os padrões atuais, é pouco provável que o pobre santo homem chocasse a média das opiniões.

As Confissões compõem-se de 13 livros, escritos em 399 d.C. A primeira parte da obra descreve a vida de Agostinho até próximo a sua conversão, enquanto a segunda parte é um estudo sobre o estado de sua alma ao tempo da conversão. A terceira e última parte é um hino de louvor a Deus, além de profundas reflexões sobre a criação, baseado no Gêneses, mais especificamente no primeiro capítulo.

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Arbítrio (De Libero Arbítrio), composto de três livros,

iniciados em 388 d.C e só concluído em 395 d.C. A obra versa sobre a origem do mal, a liberdade e a razão pela qual Deus dotou os homens de liberdade, se era capaz de prever o que dela fariam. Para Agostinho, o livre arbítrio é o que permite ao homem atuar segundo sua vontade, que pode estar a favor ou contra a lei divina. Neste tema, só estaria indo contra Deus aquele que tivesse discernimento para orientar-se neste sentido. Se houvesse punição sobre o homem incapaz de se valer de seu livre arbítrio, não se estaria fazendo justiça divina. A terceira e última obra agostiniana a ser comentada nesta monografia é A Cidade de Deus (De

Civitate Dei). A mais extensa obra de Santo Agostinho,

demorou treze anos para ser escrita e é composta de 22 volumes.

O mote inspirador deste trabalho foi a tomada de Roma por Alarico, no ano de 410 d.C. Nos primeiros dez livros há uma veemente defesa ao cristianismo, cujos seguidores foram acusados pelos gentios de serem os causadores da queda do Império Romano. Esses alegavam que enquanto Júpiter fora adorado, Roma se mantivera inabalável, o que não ocorreu após a adoção do cristianismo.

A segunda parte da obra, os outros doze livros, constituem-se em um tratado teológico da história.

Nesta obra Agostinho se refere a duas cidades antagônicas, como, aliás, fora durante muito tempo o seu pensamento: A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade dos Homens havia a reunião dos ímpios, eis que já se encontra maculada pelo pecado original, enquanto que, na Cidade de Deus, há a comunidade dos fiéis em Jesus Cristo; aqueles que serão beatos por conhecerem a Deus.

Principais influências

Com o intuito de fornecer uma visão mais objetiva sobre as principais influências sofridas por Santo Agostinho em sua vida, optou-se por sistematizá-las em tópico próprio deste trabalho.

Assim, as pessoas cujos pensamentos e condutas mais atingiram Agostinho a ponto de lhe proporcionar reflexões, inspiração filosófica ou mesmo de lhe permitir redirecionar sua vida foram Santa Mônica, Cícero, Maniqueu, através do maniqueísmo, Plotino e Santo Ambrósio, conforme menciona Ives Gandra Martins Filho.3

Ainda que o doutrinador não mencione a figura de Patrício, pai de Agostinho, como tendo influenciado o pensamento filosófico do filho, não se pode desprezar a provável influência deste no caráter do mesmo. Talvez as próprias contradições que lhe habitavam a alma fossem na verdade um reflexo das presenças antagônicas do pai e da mãe. A própria Mônica, cristã, percebera no filho traços do comportamento do marido, pagão.

A par das considerações supra, a primeira influência reconhecida sobre o pensamento de Agostinho foi sua mãe, Mônica. Aliás, como se ser influenciado pela mãe fosse algo raro...Pois bem, após sua conversão, Mônica se dedicou a conseguir que o filho se convertesse ao cristianismo, oferecendo-lhe um modelo de vida cristã. Tamanha era a perseverança desta mulher que conseguiu até mesmo, ainda que próximo da morte deste, a conversão do marido.

Mônica não mediu esforços para conseguir seu intento. Providenciou o afastamento de Agostinho de sua companheira e mãe de seu único filho, Adeodato. Embora não haja referências específicas sobre a identidade desta mulher, o próprio Agostinho, em suas

Confissões, admitia que fora difícil separar-se dela, mas

não apresentou oposição à decisão de Mônica.

Mônica, mais tarde Santa Mônica, após a conversão do filho, acompanhou este até que veio a falecer, tendo cumprido sua missão. A própria obra autobiográfica de Agostinho encerra sua parte narrativa com a morte de Mônica.

Foi através das obras de Cícero que Agostinho foi apresentado à filosofia. Cícero fora membro da Academia de Platão. Contudo, embora fosse através de Cícero que Agostinho aprendesse a complexa arte de pensar e a retórica, este não apresentava solução para os problemas que o atormentavam.

Assim, embora tenha sido forte influência na vida de Agostinho, Cícero ainda não era o porto seguro que o futuro Santo da Igreja Católica buscava.

Foi exatamente esse desencontro de emoções, essa mistura entre o certo e o errado que impulsionou Agostinho em sua busca por respostas. Deparou-se então como o maniqueísmo, doutrina fundada por Maniqueu, um lunático que se dizia ser o Espírito Santo. A doutrina maniqueísta era dualista. Dividia tudo entre forças antagônicas. O mundo todo era produto da luta entre o Bem e o Mal. O homem, assim, vivia entre a Luz e as Trevas, buscando sempre e muitas vezes em vão, libertar-se desta última. Para Agostinho, isso parecia

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ter sido feito sob encomenda, tamanha a perfeição com que respondia aos seus dilemas. Agostinho não podia conceber, entre outras coisas, como era capaz de gostar tanto dos prazeres terrenos e ainda assim sabe-los “imundos, indignos”. E pior, ter consciência desse saber e ser incapaz de se orientar por ele.

Agostinho se orientou por muito tempo através desta doutrina, até que, em um encontra com o bispo Fausto, representante desse pensamento, começou a indaga-lo sobre os mistérios do céu, das estrelas, tendo em vista as então recentes descobertas astronômicas. Como as explicações míticas fornecidas pelo bispo não o convenceram, até mesmo reconhecida a ausência de repostas pelo próprio Fausto, Agostinho percebeu que o maniqueísmo não se sustentava.

Em Milão, Agostinho entrou em contato com Ambrósio, bispo da cidade. Homem detentor de retórica poderosa e cujos sermões atraíam multidões. O poder de Ambrósio, mais tarde Santo Ambrósio era tamanho, que condenou o então Imperador Teodósio a uma penitência por um massacre que lhe era atribuído.

O brilhantismo de Santo Ambrósio era tamanho que através de suas palavras, Agostinho começou a compreender a Santa Escritura e a perceber que a doutrina católica era também dirigida a homens cultos e sábios. Passou a ver a inteligibilidade dos ensinamentos cristãos e quebrou os preconceitos que contra eles nutria. Interessante notar que o contato com a doutrina cristã não proporcionou o alento espiritual que Agostinho tanto buscava. Já não era capaz de crer e seguir o maniqueísmo, mas a religião cristã também não era capaz de dar respostas confiáveis às dúvidas morais que o assolavam.

Eis que Agostinho descobriu a obra de Plotino. Não bastasse certa semelhança no nome, Plotino era um crítico das idéias de Platão. Acreditava entender mais o pensamento platônico do que seu próprio criador. Acrescentou as idéias do sábio filósofo, alguns pontos dos pensamentos de Aristóteles, dos estóicos, de Pitágoras e algo de pessoal, místico, dando origem ao que se chamou de neoplatonismo.

Segundo o neoplatonismo, não era necessário nenhum dualismo para que se resolvesse o problema do mal, eis que esse era apenas a ausência do bem. Assim, Agostinho via nesta doutrina, que, a par de ser filosófica, tinha um tanto de cristã, embora sem um Deus cristão, uma saída para seu problema existencialista.

No decorrer de sua vida como bispo de Hipona, aprofundando-se nas escrituras sagradas, Agostinho tornou-se cada vez mais ortodoxo, marca que o acompanhou até o fim de seus dias.

Pode-se dizer, então, que após sua conversão, a religião cristã foi o mote que guiou seus pensamentos e que, ao que se parece, apaziguou sua alma.

Em função de sua mansidão e de sua capacidade de compreender o espírito humano, era tido como conhecedor do coração humano. Sua imagem é representada por um coração em chamas e com olhar voltado para as alturas.

Conclusão

Não se pode dizer que durante toda sua vida, Agostinho tenha sido um grande homem. Como detentor de natureza humana, o que se vislumbra na vida e obra de Agostinho, não do Santo, mas do ser humano, é que este foi um grande pensador, possuidor do dom da palavra.

Homem atormentado, viveu parte de sua vida buscando explicações para as contradições de sua alma. Tanta sabedoria não foi suficiente para entender que toda a humanidade é dotada desta dor. Alguns, contudo, cujo alcance mental não atinge os mesmos níveis que o filósofo, não têm consciência dessa condição. Agostinho a possuía, tão forte quanto era dotado das paixões humanas, e essa foi a sua condenação.

Fosse Agostinho apenas um ser humano comum, seu pensamento não teria atravessado dezenas de séculos. Sua busca pela verdade, pela sabedoria provocou-lhe dor e comiseração mental. Encontrou o Deus cristão e o seu lugar no mundo. Fez-se Santo, mas deixou acima de tudo o testemunho da dor de ter sido humano agraciado com privilegiada inteligência.

Há passagens brilhantes em suas obras, capazes de transmitir a felicidade que sentiu ao encontrar seu lugar, por fim, na cidade dos homens, tão distante da idealizada

Cidade de Deus, sua derradeira morada.

O pensamento filosófico de Santo Agostinho influenciou muitos outros pensadores que o sucederam, mas o maior mérito que lhe é atribuído é o da reconciliação entre a filosofia e o cristianismo.

Forneceu ao cristianismo uma sólida base teórica, vinculando-o à filosofia grega. Isso fez com que o cristianismo mantivesse viva a semente da filosofia durante a Idade das Trevas.

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Segundo alguns, com Agostinho a filosofia patrística, e muito provavelmente a filosofia cristã, tenham atingido seu apogeu...

Referências Bibliográficas

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THOMAS, Henry & THOMAS, Dana Lee. A vida dos

Grandes Filósofos. Rio de Janeiro: Editora Globo. 1965.

Notas

1 STRATHERN, Paul. Santo Agostinho em 90 minutos

Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 1999. p. 12.

2 Pegue e leia, pegue e leia.

3 In Manual Esquemático de História da Filosofia.

Referências

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