COMPORTAMENTO FENOLÓGICO DE VITIS VINIFERA L.
FACE À VARIABILIDADE CLIMÁTICA NA REGIÃO DE
LISBOA
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM ENGENHARIA DO AMBIENTE
ANA RITA ALVES DA FONSECA QUEIRÓS CAMPOS
Orientador: Prof. Doutor João Andrade Santos
Coorientador: Prof. Doutor Aureliano Malheiro
I
COMPORTAMENTO FENOLÓGICO DE VITIS VINIFERA L.
FACE À VARIABILIDADE CLIMÁTICA NA REGIÃO DE
LISBOA
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM ENGENHARIA DO AMBIENTE
ANA RITA ALVES DA FONSECA QUEIRÓS CAMPOS
Composição do Júri:
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Vila Real, 2013
III
Agradecimentos
O desenvolvimento deste trabalho não seria possível sem a colaboração de várias pessoas que me ajudaram e apoiaram ao longo das diversas fases. Gostaria, assim, de agradecer a todos os que de alguma forma, direta ou indiretamente, contribuíram para que a sua realização fosse possível:
- Aos meus orientadores, Prof. Dr. João Carlos Andrade dos Santos e Prof. Dr. Aureliano Malheiro, pela disponibilidade que sempre demonstraram, pela orientação no decorrer deste trabalho e também pela compreensão, paciência e conselhos.
- Ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (Estação Vitivinícola Nacional, Dois Portos) pela disponibilização dos dados fenológicos, permitindo a concretização deste estudo.
- Aos meus pais, pelo amor e confiança demonstrada ao longo da minha vida académica e vida em geral.
- A todos os meus amigos, pela disponibilidade e pela amizade ao longo de todos estes anos.
- Ao meu namorado, por estar presente nos bons e maus momentos, agradeço todo o incentivo, força, confiança e amor.
V
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à
variabilidade climática na Região de Lisboa
Resumo
O clima tem extrema importância no crescimento e desenvolvimento da videira, atuando diretamente na sua fenologia e influenciando a qualidade das uvas e do vinho. O principal objetivo deste trabalho consiste no estudo das relações entre a temperatura mensal (máxima, média e mínima) do ar e as datas de ocorrência dos principais estados fenológicos (abrolhamento, floração e pintor), assim como com os respetivos intervalos entre estados no período 1990-2011 (22 anos). Adicionalmente é utilizada a data de vindima, quando um teor de álcool provável de 11,5% é alcançado. Para o efeito são usadas duas castas brancas (Chasselas e Fernão Pires) e duas castas tintas (Aragonez e Castelão) plantadas numa vinha experimental da Estação Vitivinícola Nacional, Dois Portos, Região Vitivinícola de Lisboa.
Através de um modelo de regressão linear multivariada utilizaram-se as temperaturas do ar como variáveis independentes (preditores) e as variáveis fenológicas como variáveis dependentes (preditandos). Este modelo estatístico dá-nos informação sobre os períodos (meses) em que as temperaturas médias (máxima, mínima e média) têm maior influência para cada casta e para cada estado fenológico, permitindo aprofundar o conhecimento em termos de efeitos na variabilidade temporal da fenologia.
O presente estudo evidencia a forte influência das condições atmosféricas na fenologia da videira, em particular da temperatura do ar. Esta influência varia entre castas e de ano para ano. Anomalias da temperatura, particularmente nos meses de fevereiro, março e abril têm implicações significativas nos estados fenológicos, principalmente no abrolhamento e floração.
Este trabalho evidencia ainda a elevada importância de estudos de variabilidade climática na fenologia da videira, pois num possível cenário de alterações climáticas os impactos no ciclo vegetativo da planta e, consequentemente, nas atividades vitivinícolas poderão ser acentuados.
Palavras-chave: Vitis vinifera L., fenologia, variabilidade da temperatura, Região
VII
Phenological behaviour of Vitis Vinifera L. under
climate variability in the Lisbon region
Abstract
Climate plays a key role on the development of the grapevine, acting directly in the growth stages of their life cycle and influencing the quality of grapes and wine. The main goal of the present study is to assess the relationships between monthly mean air temperatures (maximum, mean and minimum) and dates of occurrence of the main growth stages (budbreak, flowering and veraison), as well as the respective intervals between stages in the period 1990 - 2011 (22 years). Furthermore, the harvest date is used when a probable alcohol content of 11.5% is reached. For this purpose, two white (Chasselas and Fernão Pires) and two red (Aragonez and Castelão) varieties, grown in the experimental vineyard of the Estação Vitivinícola Nacional (Dois Portos, Lisbon Wine Region), are used.
A multivariable linear regression model was applied to the air temperatures, as independent variables (predictors), and to the phenological variables, as dependent variables (predictands). This model provides information on the temperatures that mostly influence each grapevine variety and each phenological stage, thus allowing the grower to predict the date of occurrence of each stage.
This study reveals a strong influence of the atmospheric conditions on grapevine phenology, particularly air temperature. This forcing significantly varies amongst varieties and from one year to the other. Temperature anomalies in February, March and April have significant implications for the phenological stages, especially in budbreak and flowering.
The present study also highlights the relevance of studies assessing the role of climate variability on grapevine phenology, as changing climates can have strong impacts on the grapevine vegetative cycle and, as a result, on viticultural activities.
IX
Índice
Agradecimentos ...III Resumo ... V Abstract ... VII Índice ... IX Índice de Figuras ... XI 1-INTRODUÇÃO ...1 1. Introdução ...3 2-REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ...7 2.1 Fenologia da videira ...92.2 Exigências climáticas da videira ...10
3-MATERIAL E MÉTODOS ...15
3.1 Estação Vitivinícola Nacional, Dois Portos ...17
3.2 Dados de temperatura ...18
3.3 Fenologia ...21
3.4 Relações entre fenologia e temperatura do ar ...23
4-RESULTADOS E DISCUSSÃO ...25
4.1 Clima ...27
4.1.1 Normais climatológicas ...27
4.1.2 Dados meteorológicos: 1990-2011...28
4.2 Variabilidade inter-anual da fenologia ...29
4.2.1 Abrolhamento ...29
4.2.2 Floração ...32
4.2.3 Pintor ...34
4.2.4 Vindima ...37
4.3 Intervalo entre estados fenológicos ...39
4.4 Relações fenologia e temperatura ...42
4.4.1 Modelo ...45
5-CONCLUSÕES ...47
5. Conclusões ...49
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...51
XI
Índice de Figuras
Figura 1- Ilustração da videira europeia, Vitis vinifera L.. ...3 Figura 2- Indicações Geográficas e Denominações de Origem em Portugal...6 Figura 3- Ciclo vegetativo, ciclo reprodutivo e estados fenológicos da videira, para o Hemisfério Norte. ...9 Figura 4- Estados fenológicos da videira, onde a) corresponde à fase fenológica abrolhamento, b) à floração, c) ao pintor e d) à fase maturação. ...10 Figura 5- Regiões vitícolas mundiais. Os contornos limitam a maioria das áreas onde existe cultura vitícola e os pontos representam regiões vinícolas. ...11 Figura 6- Temperaturas limite e críticas da videira. ...11 Figura 7- Quinta da Almoínha, Estação Vitivinícola Nacional em Dois Portos. ...17 Figura 8- Esquema que sintetiza o processo pela qual se estimou os valores de temperatura de Dois Portos para o período completo de estudo, 1990-2011 ...19 Figura 9- Regressão linear entre a temperatura média mensal (TG em °C) dos dois locais (Lisboa e Dois Portos). Os marcadores a azul correspondem aos pares de valores em cada série temporal e a reta de regressão está indicada pela curva a preto. A respetiva equação de regressão está indicada, bem como o coeficiente de determinação (R2). ...20 Figura 10- Regressão linear entre a temperatura mínima mensal (TN em °C) dos dois locais (Lisboa e Dois Portos). Os marcadores a azul correspondem aos pares de valores em cada série temporal e a reta de regressão está indicada pela curva a preto. A respetiva equação de regressão está indicada, bem como o coeficiente de determinação (R2). ...20 Figura 11- Regressão linear entre a temperatura máxima mensal (TX em °C) dos dois locais (Lisboa e Dois Portos). Os marcadores a azul correspondem aos pares de valores em cada série temporal e a reta de regressão está indicada pela curva a preto. A respetiva equação de regressão está indicada, bem como o coeficiente de determinação (R2). ...21 Figura 12- Imagem referente às quatro castas estudadas a) Chasselas, b) Fernão Pires, c) Aragonez e d) Castelão ...22 Figura 13- Valores médios mensais da temperatura máxima (TX), média (TG) e mínima (TN) (em °C) para Lisboa e Dois Portos no período 1951-1980 ...27 Figura 14- Valores médios mensais da precipitação acumulada (mm) para Lisboa e Dois Portos no período 1951-1980. ...28
Figura 15- Temperatura média mensal (°C) para Lisboa e Dois Portos no período 1990-2011. ...29 Figura 16- Diagramas de caixa das datas de ocorrência (em dias julianos) para o abrolhamento, para cada uma das quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão) no período 1990-2011. Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos. ...30 Figura 17- Data de ocorrência da fase fenológica abrolhamento para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011. ...31 Figura 18- Número de dias desde 1 de janeiro até ao estado fenológico abrolhamento, para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011. ...31 Figura 19- Diagrama de caixa, data de ocorrência (em dias julianos) para a floração, para quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão), no período 1990-2011. Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos. Os extremos de 1º (2ª) ordem estão indicados pelos círculos (asteriscos). ...32 Figura 20- Data de ocorrência da fase fenológica floração para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011...33 Figura 21- Número de dias desde a data de ocorrência da fase fenológica abrolhamento até ao dia de ocorrência da fase fenológica floração, para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011. ...34 Figura 22- Diagrama de caixa, data de ocorrência (em dias julianos) para o estado fenológico pintor, para quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão), no período 1990-2011.Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos. Os extremos de 1º (2ª) ordem estão indicados pelos círculos (asteriscos). ...35 Figura 23- Data de ocorrência da fase fenológica pintor para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011. ...36 Figura 24- Número de dias desde o dia de ocorrência da fase fenológica floração até ao dia de ocorrência da fase fenológica pintor para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011. ...36
XIII
Figura 25- Diagrama de caixa, data de ocorrência (em dias julianos) para a vindima, para quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão), no período 1990-2011.Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos. ...37 Figura 26- Data de ocorrência da vindima para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão, para o período 1990-2011. ...38 Figura 27- Número de dias, desde o dia de ocorrência da fase fenológica do pintor até à vindima, para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão para o período 1990-2011). ...38 Figura 28- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Chasselas, no período 1990-2011. ...39 Figura 29- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Fernão Pires, no período 1990-2011. ...40 Figura 30- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Aragonez, no período 1990-2011. ...41 Figura 31- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Castelão, no período 1990-2011. ...41 Figura 32- Escala à esquerda: Dia de ocorrência (dias Julianos) do abrolhamento para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão. Escala à direita: média de TN (temperatura mínima) de fevereiro-março e para o período 1990-2011. ...43 Figura 33- Escala à esquerda: Dia de ocorrência (dias Julianos) da floração para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão. Escala à direita: média de TX (temperatura máxima) de março-abril e para o período 1990-2011. ...44 Figura 34- Escala à esquerda: Dia de ocorrência (dias Julianos) do pintor para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão. Escala à direita: média de TN (temperatura mínima) de março-abril e para o período 1990-2011. ...44 Figura 35- Escala à esquerda: Dia de ocorrência (dias Julianos) da vindima (álcool provável de 11,5%) para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão.
Escala à direita: média de TG (temperatura média) de abril e para o período 1990-2011.
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1. Introdução
Desde os tempos mais remotos que a vinha assume um papel social e económico relevante, acompanhando a cultura e a subsistência dos povos. Estima-se que o cultivo da vinha tenha tido início na zona do Cáucaso, progredindo depois para a Mesopotâmia, Hebreia, Fenícia, Grécia e Egipto (Phillips, 2000). Com a expansão do império grego é provável que a vinha tenha sido introduzida na Europa em 1600 A.C. (Magalhães, 2008).
A videira, é uma trepadeira da família das vitáceas, com tronco retorcido, ramos flexíveis, folhas grandes e repartidas em lóbulos pontiagudos, flores esverdeadas em ramos, e cujo fruto é a uva.
A videira (Vitis) compreende 3 grupos: a Europeia com uma única espécie, a Vitis
vinifera; a Americana, com cerca de 20 espécies, e a Asiática, com cerca de 15 espécies.
A Europeia, Vitis vinifera L. (Figura 1), é considerada como sendo a espécie que produz os vinhos de maior qualidade e é a mais usada em toda a Europa.
Figura 1- Ilustração da videira europeia, Vitis vinifera L..
O clima é um dos fatores que maior influência tem na cultura da vinha. Elementos meteorológicos/climáticos, tais como a temperatura do ar, precipitação e radiação solar, podem ser fatores limitantes ou condicionantes do seu desenvolvimento. Por este motivo, são de extrema importância estudos que avaliem a influência da variabilidade climática, quer no espaço, quer no tempo, sobre a videira.
Relativamente à campanha de 2008/2009 é na Europa que se encontram os países com mais produção de vinho, destacando-se a Itália (45,981 Mhl) e a França
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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(45,672 Mhl). Portugal Continental, em 2011, segundo dados do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV, 2011), possuía uma área de vinha de 234.663 ha (Quadro 2) e ocupava o 5º lugar entre os principais países produtores de vinho da União Europeia (Quadro 1). Dadas as características tipicamente mediterrâneas do clima em Portugal Continental, suavizadas pela influência atlântica, esta posição é facilmente compreendida.
Quadro 1- Produção (Mhl) dos principais países produtores de vinho a nível mundial (adaptado de IVV, 2011).
Atualmente existem diversas regiões vitícolas (Figura 2) com denominação de origem (DO), designação adotada para os produtos vitivinícolas cuja originalidade e individualidade estão ligados de forma indissociável a uma determinada região (IVV, 2011). Cada região vitícola apresenta ainda sub-regiões (com DO), que são tendencialmente consideradas de maior aptidão para o cultivo da vinha e para a produção de vinhos de elevada qualidade.
Portugal 6,073 Chile 8,227 Alemanha 10,261 África do Sul 9,783 Austrália 9,620 Argentina 15,046 China 12,000 EUA 19,870 Espanha 34,755 França 45,672 Itália 45,981 Outros 48,706 Total Mundial 265,994
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Quadro 2 - Área de vinha total (ha) em Portugal (adaptado de IVV, 2011).
A região vitivinícola de Lisboa corresponde a uma das maiores regiões do país em termos de área de vinha e de produção de vinho. O relevo desta região não é em geral muito acentuado, exceto no alinhamento do sistema Sintra-Montejunto-Aire (que se estende do extremo sudoeste para o extremo nordeste desta região, em grande parte ao longo da fronteira com a região vitícola do Tejo), onde ressaltam alguns estratos de basalto, calcário e granito. O clima é temperado mediterrânico, mas com amplitudes térmicas anuais e diurnas muito moderadas pela importante influência marítima. Na parte central desta região (antiga Estremadura) encontramos as mais vastas manchas de vinha desta região, reconhecidas pelas suas características de elevada qualidade, nomeadamente as DO “Alenquer”, “Arruda”, “Torres Vedras” e “Óbidos”. Os tipos de vinhos desta região vitícola são: tinto, branco e rosado, espumante, licoroso e “vinho leve” (IVV, 2011).
O objetivo deste trabalho consiste na avaliação da influência da temperatura na fenologia da videira, em particular no abrolhamento, floração, pintor e também na data da vindima (apesar de não ser considerada um “verdadeiro” estado fenológico, pois depende de práticas enológicas, disponibilidade de mão-de-obra, logística, entre outras). Para este efeito são consideradas duas castas brancas (Chasselas e Fernão Pires) e de duas castas tintas (Aragonez e Castelão), localizadas numa vinha experimental da Estação Vitivinícola Nacional, situada em Dois Portos, Torres Vedras (DO 8.9, na metade sul da região vitícola de Lisboa, Figura 2).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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Figura 2- Indicações Geográficas e Denominações de Origem em Portugal (adaptado de Viniportugal® 2013).
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2.1 Fenologia da videira
A fenologia é um ramo da ecologia que estuda os fenómenos periódicos dos seres vivos e as suas relações com o meio ambiente, como a luz, temperatura e humidade (De Fina & Ravelo, 1973). Para estes autores, a fase de desenvolvimento é o aparecimento, transformação ou desaparecimento dos órgãos das plantas, sendo que duas fases sucessivas delimitam um subperíodo.
Ao longo de um ano, a videira sofre transformações morfológicas e funcionais, correspondendo às diversas fases englobadas no ciclo vegetativo anual (Figura 3).
O ciclo vegetativo divide-se em duas fases, a fase do repouso vegetativo e a fase de vida ativa. A fase de repouso vegetativo, quando a videira mantém inalterado o seu aspeto exterior e apresenta uma atividade fisiológica muito reduzida (Magalhães, 2008), ocorre nas regiões extratropicais do Hemisfério Norte (região onde Portugal se localiza) de dezembro a março (aproximadamente). A fase de vida ativa, quando se observam constantes modificações na morfologia da planta (Magalhães, 2008), ocorre de março/abril a fim de novembro.
O ciclo vegetativo inicia-se quando a videira perde seiva, denominado por “choro” da videira, devido à rápida atividade radicular resultante do aumento da temperatura do solo (Magalhães, 2008). Este fenómeno ocorre cerca de 2 semanas antes do abrolhamento (rebentação das gemas), Figura 4a. A floração (abertura das flores), Figura 4b, ocorre entre finais de maio e inícios de junho e, após esta fase, dá-se a fase do
Figura 3- Ciclo vegetativo, ciclo reprodutivo e estados fenológicos da videira, para o Hemisfério Norte (adaptado de Magalhães,2008).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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pintor, Figura 4c, que também marca o início da maturação (mudança de cor até à colheita) Figura 4d.
A duração de cada fase fenológica difere de acordo com cada uma das castas (variedades) de videira. Estas diferenças podem ser muito marcadas e estão geralmente associadas às condições térmicas de cada região e às exigências específicas de cada casta (Mandelli et al., 2005).
A caracterização fenológica e a quantificação das necessidades térmicas necessárias para a videira completar as diferentes fases do ciclo vegetativo fornecem ao viticultor o conhecimento das prováveis datas de colheita (Pedro Jr. et al., 1993), permitindo assim o planeamento adequado das atividades agrícolas. Esta planificação atempada reveste-se de particular interesse para os grandes produtores de vinho, dadas as elevadas extensões de vinha que têm de gerir e toda a logística complexa associada à produção, armazenamento e comercialização do vinho.
2.2 Exigências climáticas da videira
Ainda que a videira seja moderadamente resiliente a condições ambientais desfavoráveis, o seu cultivo para produção de vinho de elevada qualidade e projeção internacional torna o seu cultivo limitado a algumas regiões específicas, que reúnem um conjunto de condições essenciais para o desenvolvimento adequado e equilibrado da videira. O clima varia naturalmente de região para região, tendo cada região a sua própria identidade. Atualmente as regiões de produção vitícola estão localizadas numa determinada zona geográfica e climática (Figura 5). Em termos de latitude, considera-se que a produção global de vinho se instalou no Hemisfério Norte entre os paralelos 30 e 50º, e no Sul entre os 30 e 40º (Branas, 1974).
Figura 4- Estados fenológicos da videira, onde a) corresponde à fase fenológica abrolhamento, b) à floração, c) ao pintor e d) à fase maturação (adaptado de drapc.min-agricultura.pt).
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Figura 5- Regiões vitícolas mundiais. Os contornos limitam a maioria das áreas onde existe cultura vitícola e os pontos representam regiões vinícolas (adaptado de De Blij, 1983).
Nestas latitudes encontram-se regiões pertencentes às classes de clima temperado (que inclui o clima mediterrânico), segundo a classificação Köppen-Geiger. Para latitudes sensivelmente inferiores a 30ºN ou S, o clima assume características subtropicais ou tropicais, cujas temperaturas médias ao longo do ano são sempre superiores ao zero-vegetativo da videira (Magalhães, 2008). O valor da temperatura a partir do qual se inicia a atividade vegetativa denomina-se por zero-vegetativo (To), correspondendo sensivelmente a 10ºC (Figura 6). Contudo, este valor pode variar, dependendo da latitude onde é cultivada e das castas. De facto, para além da localização geográfica, a temperatura do ar é considerada um dos elementos climáticos mais importantes no crescimento e produtividade da videira (Jones e Alves, 2012), controlando o ritmo a que ocorrem os vários estados fenológicos do seu ciclo vegetativo (Clímaco et al., 2008). Na Figura 6, pode-se verificar quais os valores de temperaturas limite e críticas para a videira, segundo Crespy (1987).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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A videira é bastante resistente às baixas temperaturas no Inverno, quando se encontra em período de repouso vegetativo. No entanto, temperaturas inferiores a -17ºC podem afetar órgãos vitais da videira (Hidalgo, 1999), sendo portanto uma temperatura crítica para esta (Figura 6). As geadas primaveris, com temperaturas inferiores a cerca de -1ºC, são também consideradas críticas, pois podem causar a destruição dos órgãos herbáceos da planta (Branas, 1974). Pelo exposto, regiões com invernos frios, com risco elevado de temperaturas inferiores a -17ºC, e com risco elevado de geadas durante o período vegetativo da videira não são adequadas à viticultura. Estas regiões geralmente encontram-se em latitudes superiores a 50º (HS) ou 40º (HS), em altitudes elevadas ou em regiões com climas continentais de grande amplitude térmica anual.
Relativamente às temperaturas elevadas, a videira apresenta uma tolerância considerável. Para os autores como Moutinho-Pereira et al. (2007) ou Schaffer e Andersen (1994) este é um parâmetro que depende muito da casta. Apesar da maioria das castas resistir a temperaturas acima dos 40ºC por curtos períodos de tempo, a maioria não resiste a temperaturas superiores a 47ºC devido a lesões foliares irreversíveis. O limiar de 43ºC é geralmente considerado crítico para a videira (Figura 6).
A precipitação anual e sua sazonalidade também influenciam fortemente a viticultura. Por exemplo, uma humidade adequada do solo durante o abrolhamento é fundamental para o início do crescimento da videira (Hardie e Martin, 2000; Paranychianakis et al, 2004.). Pelo contrário, humidades excessivas durante estes estados iniciais podem conduzir ao aparecimento de doenças nas folhas (During, 1986). Da floração à maturação, humidades moderadas e condições atmosféricas estáveis são consideradas favoráveis para vinhos de alta qualidade (Jones e Davis, 2000; Nemani et al, 2001; Ramos et al, 2008). Durante a maturação, enquanto humidades excessivas são desfavoráveis à qualidade do vinho (Tonietto, 1999), pois ocorre uma maior diluição dos açúcares (Reynolds e Naylor, 1994), já a secura moderada tende a aumentar a qualidade do vinho (Storchi et al., 2005). Ora esta é uma limitação muito importante, dado que muitas regiões com condições térmicas adequadas têm verões predominantemente chuvosos, o que limita o cultivo da vinha em muitas regiões temperadas quentes mas de clima continental (o verão é a estação mais chuvosa). Restam, portanto, essencialmente as regiões de climas temperados quentes de tipo mediterrânico ou de tipo marítimo sem humidade excessiva de verão. Tendo em conta que para a maioria dos climas do planeta a estação mais chuvosa corresponde ao período mais quente do ano, esta é de facto uma limitação importante para a distribuição geográfica do cultivo da vinha, bem adaptada às peculiaridades do clima mediterrânico. Assim se explica que as grandes regiões vitícolas mundiais se situam preferencialmente não apenas nas faixas de
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latitudes 30-50ºN ou 30-40ºS, mas também na parte mais ocidental das grandes massas continentais (de verão seco), frequentemente banhadas por correntes marítimas frias e sob forte influência de anticiclones subtropicais (e.g. Europa Ocidental e do Sul, Califórnia, Sudoeste da Austrália e da África do Sul, centro-norte do Chile).
A videira é também muito exigente em radiação solar direta, sendo que baixos níveis de radiação solar (de curto comprimento de onda) causa problemas, principalmente durante as fases de floração e maturação (Manica et al., 2006). Durante a fase de maturação das uvas a evolução do teor de açúcares é favorecido pela ocorrência de dias sol e, portanto, de níveis elevados de radiação solar direta (Riou et al., 1994). Assim, em regiões de baixa insolação (numero de horas de sol) durante o ciclo vegetativo é frequente obter vinho de menor qualidade. No caso português, como na generalidade dos climas mediterrânicos, salvo raras exceções em mesoclimas de altitude e de regiões costeiras, a radiação solar média disponível é elevada, não sendo por isso, em geral, um fator limitativo à produção e qualidade do vinho. Mais uma vez, as exigências da videira adaptam-se particularmente bem aos climas mediterrânicos, caracterizados por verões quentes, longos, secos e com elevados níveis de radiação solar direta disponível, o que torna Portugal num país com elevada aptidão vitivinícola.
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3.1 Estação Vitivinícola Nacional, Dois Portos
O estudo incidiu em 4 castas, 2 brancas (Chasselas e Fernão Pires) e 2 tintas (Aragonez e Castelão), pertencentes à Coleção Ampelográfica Nacional (CAN) instalada na Quinta da Almoínha (Figura 7), Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, INAV (Estação Vitivinícola Nacional, EVN), em Dois Portos (latitude 39º 02’ N, longitude 9º 11’ W), Torres Vedras (sub-região DO 8.9 da região vitícola de Lisboa; Figura 2). Nas suas instalações funcionam laboratórios e oficinas tecnológicas modernamente equipadas. É ainda detentora de valiosíssimas coleções de referência nacional e internacional (INRB, 2012).
Figura 7- Quinta da Almoínha, Estação Vitivinícola Nacional em Dois Portos (adaptado de www.inrb.pt).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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3.2 Dados de temperatura
Para estudar a influência da variabilidade climática numa região, neste caso em particular da região de Dois Portos (DOC Torres Vedras), nos estados fenológicos da videira são necessários registos meteorológicos locais e/ou regionais. Estes registos são obtidos a partir de estações meteorológicas (clássicas ou automáticas) e têm de ser sujeitos a uma análise prévia criteriosa, a fim de aferir a qualidade e fiabilidade dos dados recolhidos. Tendo em conta a reconhecida importância da temperatura (média, mínima e máxima) do ar no desenvolvimento vegetativo da videira, conforme já foi referido anteriormente, a obtenção de séries temporais da temperatura no local é decisiva para a prossecução deste estudo e para o cumprimento dos objetivos inicialmente propostos.
Para o período de estudo, 1990-2011, foram utilizados dados fenológicos (Dois Portos) e duas bases de dados de temperatura (Dois Portos e Lisboa). Utilizaram-se estas duas bases de dados por 1) os dados de Dois Portos não cobrirem a totalidade do período temporal dos dados fenológicos (1990-2011) e 2) por não ser possível encontrar dados meteorológicos nas proximidades com registos fiáveis no período de estudo.
A base de dados de Dois Portos contém informação de temperatura para o período de 1999 a 2010 e foi disponibilizada, juntamente com os dados de fenologia para as quatro castas referidas acima, pela EVN. Os dados da estação meteorológica de Lisboa/Geofísico contêm informação para o período completo de estudo 1990-2011 (Figura 8) e foram cedidos pelo projeto European Climate Assessement and Dataset (ECA&D; http://eca.knmi.nl/). Uma descrição detalhada sobre este projeto pode ser encontrada em Tank et al. 2002. As médias mensais de TG (temperatura média), TN (temperatura mínima) e TX (temperatura máxima) foram então calculadas, quer para Dois Portos, quer para Lisboa.
Através de regressões lineares simples entre os valores médios mensais da temperatura de Lisboa e Dois Portos, estimou-se uma série completa para Dois Portos. As regressões lineares foram estabelecidas separadamente para as médias mensais da temperatura média (TG; Figura 9), mínima (TN; Figura 10) e máxima (TX; Figura 11). Todos os meses foram considerados em conjunto nas regressões por não ser possível um ajuste adequado utilizando apenas 11 valores (número de anos comuns às duas bases de dados; 1999-2010). Deste modo, as regressões foram aplicadas sobre 11 anos × 12 meses = 132 valores. Contudo, um estudo de sensibilidade mostrou que os resultados não são muito diferentes quando se aplicam as regressões mês a mês, pelo que se admite que a metodologia seguida seja estatisticamente robusta.
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Figura 8- Esquema que sintetiza o processo pela qual se estimou os valores de temperatura de Dois Portos para o período completo de estudo, 1990-2011. 1) Base de dados de Dois Portos com valores de temperatura de 1999-2010. 2) Base de dados de Lisboa com valores de temperatura para o período completo de 1990-2011. 3) Valores estimados (1990-2011) de temperatura mensal para Dois Portos a partir de regressão linear com os valores de Lisboa. Estes novas dados foram utilizados com os dados fenológicos de Dois Portos para esse mesmo período.
O objetivo único desta análise de regressão linear simples é estimar o valor da variável dependente Y, que neste caso concreto corresponde à temperatura média mensal (TG, TN ou TX) em Dois Portos, sendo conhecido o valor da variável independente X, que corresponde à mesma variável em Lisboa. A equação de regressão é a fórmula algébrica pela qual se determina Y. Conforme se pode constatar dos resultados apresentados nas Figuras 9-11, os coeficientes de determinação (R2) são bastante elevados (> 95%), o que mostra que o ajuste linear entre as duas bases de dados é bastante satisfatório. Por este motivo, dado que não há evidência em contrário, pode-se inferir que no período com dados em falta em Dois Portos (1990-1998) o mesmo ajuste tenha permanecido adequado. Desta forma, os dados nesse período são estimados com base nas equações de regressão e são obtidas as séries médias mensais de TG, TN e TX para Dois Portos no período completo de 1990-2011. Esta metodologia permite, pois, a utilização da totalidade dos dados fenológicos, o que resultará também numa maior robustez estatística dos resultados a obter nas análises seguintes (maiores dimensões da amostra, que passa de 11 para 22 anos).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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Figura 9- Regressão linear entre a temperatura média mensal (TG em °C) dos dois locais (Lisboa e Dois Portos). Os marcadores a azul correspondem aos pares de valores em cada série temporal e a reta de regressão está indicada pela curva a preto. A respetiva equação de regressão está indicada, bem como o coeficiente de determinação (R2).
Figura 10- Regressão linear entre a temperatura mínima mensal (TN em °C) dos dois locais (Lisboa e Dois Portos). Os marcadores a azul correspondem aos pares de valores em cada série temporal e a reta de regressão está indicada pela curva a preto. A respetiva equação de regressão está indicada, bem como o coeficiente de determinação (R2).
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Figura 11- Regressão linear entre a temperatura máxima mensal (TX em °C) dos dois locais (Lisboa e Dois Portos). Os marcadores a azul correspondem aos pares de valores em cada série temporal e a reta de regressão está indicada pela curva a preto. A respetiva equação de regressão está indicada, bem como o coeficiente de determinação (R2).
3.3 Fenologia
Para as quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão) recorreu-se a informação das datas de ocorrência dos estados fenológicos abrolhamento, floração e pintor. Adicionalmente, a data da vindima foi igualmente considerada, com exceção de 1996 (sem informação para as 4 castas). Para a casta Aragonez, existem ainda dados em falha nos anos de 1991, 1992 e 1993 para todos os estados fenológicos.
Considerou-se a data de ocorrência da vindima quando as castas de referência (Fernão Pires e Castelão) apresentaram um teor de álcool provável de 11,5% (v/v). As datas de vindima das restantes duas castas (Aragonez e Chasselas) foram estimadas, considerando idêntico valor de álcool provável (11,5%) a ser atingido durante a maturação.
Para este estudo, foram escolhidas estas quatros castas pois eram as que apresentavam mais dados fenológicos disponíveis para o período 1990-2011.
As quatro castas estudadas apresentam diferenças entre si, para além de duas serem brancas (Chasselas e Fernão Pires) e duas serem tintas (Aragonez e Castelão), conforme já foi referido anteriormente. A casta Chasselas (Figura 12a) é cultivada em muitos vinhedos na Europa e foi durante muitos anos a principal variedade cultivada na
Suíça (www.swisswine.ch, 2013). O abrolhamento desta casta é precoce, ocorrendo nos finais de março, a floração nos inícios de junho, o pintor em inícios/meados de agosto e a vindima na costa mediterrânia no final de julho. Em média, a vindima ocorre cerca de 110 dias após a floração, daí também a sua precocidade.
Figura 12- Imagem referente às quatro castas estudadas a) Chasselas, b) Fernão Pires, c) Aragonez e d) Castelão (adaptado de Magalhães, 2008).
A casta Fernão Pires (Figura 12b) é característica da região do Tejo, ocorrendo também em grande percentagem na Bairrada, Douro e Lisboa (Magalhães, 2008). Apresenta uma produtividade elevada e uma maturação muito precoce, sendo uma das primeiras castas a ser vindimadas, originando vinhos com elevada graduação alcoólica. É uma casta sensível à geada e à secura excessiva, com melhor adaptação a solos férteis de clima temperado ou quente.
A casta tinta Aragonez (Figura 12c), com sinonímia autorizada de Tinta Roriz, é tradicional das regiões do Douro, Alentejo, Dão, Lisboa, Tejo, Setúbal e Algarve (Magalhães, 2008). É uma das castas mais conhecidas da Península Ibérica, sendo originária do norte da Espanha. O seu potencial enológico é muito diversificado e apresenta uma produtividade irregular, geralmente média a alta. Esta casta origina vinhos de elevado teor alcoólico e de baixa acidez.
Por fim, a casta Castelão (Figura 12d), apesar de ser cultivada em todo o país, esta casta apresenta maior destaque nas regiões costeiras a sul, sendo característica da Península de Setúbal, Alentejo, Tejo e Lisboa. Desenvolve-se melhor em climas quentes, mas pode adaptar-se a uma relativamente grande diversidade de condições. Vigorosa, com tendência para rebentação múltipla, origina vinhos macios de cor rubi.
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3.4 Relações entre fenologia e temperatura do ar
Através das datas anuais dos estados fenológicos de abrolhamento, floração, pintor e vindima foram realizadas comparações entre as várias castas (variabilidade inter-casta), da mesma casta ao longo dos anos (variabilidade inter-anual) e das castas com a temperatura ao longo do período de estudo (forçamento térmico).
Determinaram-se os intervalos, em dias julianos, entre os diferentes estados fenológicos (1 janeiro- Abrolhamento, Abrolhamento-Floração, Floração-Pintor, Pintor-Vindima e Abrolhamento-Pintor-Vindima). Foram também calculadas correlações entre TG, TN e TX e as datas de ocorrência de cada estado fenológico, através das quais identificámos os meses com maior correlação para cada estado e para cada casta. O coeficiente de variação (CV) e o coeficiente de determinação (R2) foram calculados para cada casta e para todos os estados fenológicos. Foram também calculadas anomalias para as temperaturas do ar de forma aclarar a forçamento térmico sobre os estados fenológicos. Estas anomalias foram calculadas subtraindo a temperatura média do mês para o ano em questão à temperatura média do período 1990-2011 para esse mês. Por razões óbvias, apenas os meses anteriores à data de ocorrência de cada estado fenológico foram utilizados nas análises.
Posteriormente procedeu-se à aplicação de modelos de regressão linear multivariada (Wilks, 2006), onde foram determinadas as variáveis com maior correlação para cada estado fenológico. Os valores médios mensais de TG, TN e TX foram utilizados como variáveis independentes (preditores) e as variáveis fenológicas como variáveis dependentes das anteriores (preditandos).
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27
4.1 Clima
4.1.1 Normais climatológicas
Na Figura 13 são apresentadas as normais climatológicas (1951-1980) para Lisboa e Dois Portos (INMG, 1991). Lisboa apresenta sempre valores de temperatura superiores, o que já era esperado (até tendo em conta os coeficientes de regressão apresentados na Figura 9). Também já esperado pelos resultados das Figuras 9-11, verifica-se um padrão semelhante das temperaturas, sendo este mais evidente nos meses de Verão. Constata-se que as temperaturas máximas são semelhantes entre as duas estações meteorológicas, particularmente para o Outono-Inverno. Contrariamente existem diferenças evidentes nas temperaturas mínimas. A título de exemplo, para o mês de agosto, a média da temperatura máxima para o período 1951-1980 é de 27,8ºC para Lisboa enquanto para Dois Portos é de 26ºC. Fazendo a mesma comparação, mas agora para a temperatura mínima, verifica-se para o mesmo mês uma maior diferença de temperaturas (2,5ºC). Em relação aos meses de inverno, as temperaturas médias e máximas das duas localidades são muito semelhantes, notando-se uma maior diferença nas temperaturas mínimas, como é o exemplo do mês de dezembro, em que se verificou uma média de 8,6ºC para Lisboa e de 6ºC para Dois Portos.
Figura 13- Valores médios mensais da temperatura máxima (TX), média (TG) e mínima (TN) (em °C) para Lisboa e Dois Portos no período 1951-1980. Fonte: INMG (1991).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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A precipitação (Figura 14), como esperado num clima mediterrânico, é superior no Inverno e relativamente escassa no Verão. Verifica-se que Lisboa e Dois Portos seguem o mesmo padrão da precipitação. No mês de dezembro, para o período de 1951-1980, o total de precipitação para Lisboa foi de 106,7 mm e para Dois Portos 96,6 mm. Em termos comparativos Lisboa apresenta valores superiores comparativamente a Dois Portos, com particular diferença no mês de novembro. Contudo, estes valores não estão de acordo com dados preliminares de outro estudo, que indicam valores de precipitação anuais similares entre as duas localidades (Fraga, comunicação pessoal, 2012).
0 20 40 60 80 100 120 140
Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Pr ec ip itaç ão Lisboa Dois Portos
Figura 14- Valores médios mensais da precipitação acumulada (mm) para Lisboa e Dois Portos no período 1951-1980. Fonte: INMG (1991).
4.1.2 Dados meteorológicos: 1990 -2011
No período de 1990-2011, compararam-se as médias mensais para os dois locais (Figura 15). Em concordância com a Figura 13, as duas localidades, para o período de 1990-2011, seguem o mesmo padrão de temperaturas, sendo esta sempre superior para Lisboa. Para o mês de agosto, em Lisboa a média da temperatura foi de 23,7ºC enquanto para Dois Portos foi de 21,8ºC. Nos meses de verão, em média, a diferença entre a temperatura de Lisboa e Dois Portos é de 2ºC. Relativamente aos meses de inverno, como verificado no ponto anterior, a diferença entre as temperaturas médias é menor, sendo neste caso de 1,8ºC.
29 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0 22,0 24,0 26,0
Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Tem p e ratu ra (ºC) Lisboa Dois Portos
Figura 15- Temperatura média mensal (°C) para Lisboa e Dois Portos no período 1990-2011.
4.2 Variabilidade inter-anual da fenologia
4.2.1 Abrolhamento
Os resultados apresentados nas Figuras 16, 17 e 18 correspondem à data de ocorrência do abrolhamento, ou seja, o número de dias desde 1 de janeiro até ao dia do abrolhamento para cada casta e para cada ano.
As castas Fernão Pires e Aragonez são as mais tardias, ocorrendo em média no dia 14 de março (dia 74) e 19 do mesmo mês (dia 79), respetivamente (Figura 16), sendo então as castas Chasselas e Castelão mais temporãs. O coeficiente de variação é mais baixo para a casta Fernão Pires, 10%, e mais elevado para a casta Castelão, 12%, sendo portanto a que apresenta maior irregularidade. As restantes castas apresentam um coeficiente de variação intermédio de 11%.
A data de ocorrência mais precoce do abrolhamento foi verificada no dia 26 de fevereiro de 2001 para as castas Chasselas e Castelão (Figura 17), o que está em linha com a sua precocidade. Constata-se, na mesma figura, que o abrolhamento mais tardio ocorreu no ano de 2005 para as quatro castas, correspondendo ao dia 29 de março para as castas Chasselas e Castelão, a 30 de março para a casta Fernão Pires e a 5 de abril para a casta Aragonez, sendo esta última a data mais tardia deste estado.
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Para a casta Chasselas, o intervalo de dias mais curto para o estado fenológico abrolhamento foi verificado nos anos de 1997 (61) e 2001 (57 dias), já o intervalo mais longo ocorreu nos anos 2005 (89), 2006 (85) e foi de 81 dias nos anos 1993 e 2010 (Figura 18). Por exemplo, no ano de 2005, o abrolhamento da Chasselas foi o mais tardio. Verifica-se para as duas castas brancas um paralelismo ao longo de todo o período de estudo (Figura 18), apresentando estas uma correlação significativa (R2 = 0,98, Anexo I, Quadro II).
Figura 16- Diagramas de caixa das datas de ocorrência (em dias julianos) para o abrolhamento, para cada uma das quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão) no período 1990-2011. Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos.
No ano de 2001 ocorreu um abrolhamento mais precoce para duas castas (Chasselas e Castelão), como foi anteriormente referido. Neste ano a média das temperaturas mínimas de janeiro e fevereiro foram superiores em 2ºC e 1,4ºC, respetivamente, em relação à média anual (1990-2011).
São visíveis mais dois anos excecionais, 2005 e 2006, em que foi verificado um abrolhamento tardio para as quatro castas. Em 2005 foram verificadas anomalias na temperatura nos meses de Inverno, que estão relacionadas com os meses de janeiro e
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fevereiro mais frios, onde foi verificada uma anomalia de -2,6ºC para a temperatura mínima de fevereiro. Também foram verificados valores significativos no mês de março, com uma anomalia de -1,6ºC na temperatura mínima média dos meses de fevereiro e março (TN Fev_Mar). Para o ano de 2006, foram verificadas duas anomalias de -2ºC para as temperaturas mínimas e máximas de fevereiro.
Pode-se constatar então uma forte influência do aumento da temperatura mínima de janeiro e fevereiro nas castas, que acelerou o processo de abrolhamento. Se por outro lado existir uma diminuição da temperatura mínima dos mesmos meses, então a data de abrolhamento será mais tardia. Verifica-se então uma forte influência no abrolhamento das temperaturas dos meses de janeiro, fevereiro e março, o que corrobora resultados anteriores de e.g. Tomasi et al. (2011).
24-Fev 28-Fev 3-Mar 7-Mar 11-Mar 15-Mar 19-Mar 23-Mar 27-Mar 31-Mar 4-Abr 8-Abr 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
Figura 17- Data de ocorrência da fase fenológica abrolhamento para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011.
40 50 60 70 80 90 100 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 N ú m e ro d e d ias Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
Figura 18- Número de dias desde 1 de janeiro até ao estado fenológico abrolhamento, para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011.
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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4.2.2 Floração
Os dados relativos à floração são apresentados nas Figuras 19, 20 e 21. Nas castas brancas a floração ocorre, em média, no dia 19 de maio (dia 140) para a casta Chasselas e no dia 20 de maio para a casta Fernão Pires. Já nas castas tintas, ocorre mais cedo no Castelão, por volta do dia 17 de maio (dia 138), e mais tarde no Aragonez, no dia 22 de maio (dia 143) (Figura19). O coeficiente de variação para as quatro castas é de 6%, mostrando que têm irregularidades inter-anuais semelhantes.
A data de ocorrência mais precoce para todas as castas foi verificada no ano de 1997, um extremo (*8, Figura 19), que corresponde a 20 de abril nas castas Chasselas e Castelão, a 24 de abril na casta Fernão Pires e a 27 de abril na casta Aragonez (Figura 20). Para esta última casta, foram verificados mais dois valores extremos (9 de maio no ano de 1995 e 12 de maio 2011 (º6 e º22 na Figura 19, respetivamente).
Figura 19- Diagrama de caixa, data de ocorrência (em dias julianos) para a floração, para quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão), no período 1990-2011. Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos. Os extremos de 1º (2ª) ordem estão indicados pelos círculos (asteriscos).
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Verificou-se uma forte influência das temperaturas máximas e mínimas de março e abril para o ano de 1997. Constataram-se várias anomalias para este ano: +4,4ºC na temperatura máxima de março, +2ºC na máxima de abril, +3,2ºC na temperatura máxima média dos meses de março-abril (TX Mar_Abr) e +2,3ºC na média da temperatura mínima média dos meses de março-abril (TN Mar_Abr). Como no estado fenológico anterior (abrolhamento), um aumento da temperatura mínima e máxima nos meses de Primavera vai implicar uma antecipação no desenvolvimento do estado fenológico, neste caso em concreto do ano de 1997, leva a que o estado ocorra muito mais cedo que o normal. 9-Abr 14-Abr 19-Abr 24-Abr 29-Abr 4-Mai 9-Mai 14-Mai 19-Mai 24-Mai 29-Mai 3-Jun 8-Jun 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
Figura 20- Data de ocorrência da fase fenológica floração para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011.
Já no ano de 1993 ocorreu a floração mais tardia para três castas (Chasselas, Fernão Pires e Castelão), sendo a data de ocorrência a mesma para as duas castas brancas (6 de junho) e 2 de junho para a casta tinta (Figura 20). Para a casta Aragonez, a floração mais tardia ocorreu dia 1 junho de 2000 e 2008.
Uma anomalia de -2ºC foi verificada para temperatura mínima de abril (TN Abr) no ano de 1993 e de -1,5ºC e -1,2ºC para a TX (Mar_Abr) e TN (Mar_Abr), respetivamente. No ano de 2000, a temperatura máxima de abril foi de 16,8ºC, enquanto a média climática (1990-2011) foi de 19,4ºC, o que revela um mês de abril significativamente mais frio que o normal, com uma anomalia de -2,6ºC.
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Para este estado fenológico, as quatro castas apresentam um paralelismo ao longo do período de estudo, o que pode ser atestado pelas elevadas correlações (Figura 21): 0,94 < R < 0,97 entre todas as castas para este evento (Anexo I, Quadro IV).
40 50 60 70 80 90 100 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 N ú m e ro d e d ias Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
4.2.3 Pintor
À semelhança do abrolhamento e da floração, os resultados das Figuras 22, 23 e 24 correspondem à data de ocorrência da fase fenológica do pintor e ao intervalo entre este e o evento anterior (floração), ou seja, o número de dias entre estes estados para cada casta e para cada ano.
Das castas brancas, a mais precoce é a Chasselas, ocorrendo em média no dia 26 de julho (dia 208). Em relação às castas tintas, a mais precoce é o Aragonez, ocorrendo em média no dia 28 de julho (dia 210), sendo a mais tardia o Castelão, ocorrendo no dia 3 de agosto (dia 216) (Figura 22). O coeficiente de variação é maior para as castas brancas, 5%, e mais baixo para as castas tintas, 4%.
Para as quatro castas, a data de ocorrência mais precoce, foi verificada no ano 1997, ocorrendo nos dias 1, 6, 10 e 15 de julho para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão, respetivamente (Figura 23). À semelhança do que se verificou no
Figura 21- Número de dias desde a data de ocorrência da fase fenológica abrolhamento até ao dia de ocorrência da fase fenológica floração, para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011.
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estado fenológico anterior, é também visível para este ano (anomalamente quente) uma ocorrência mais precoce do estado fenológico pintor.
Figura 22- Diagrama de caixa, data de ocorrência (em dias julianos) para o estado fenológico pintor, para quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão), no período 1990-2011.Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos. Os extremos de 1º (2ª) ordem estão indicados pelos círculos (asteriscos).
A data de ocorrência mais tardia ocorreu nos anos de 1993, 2000 e 2007. No ano de 1993, em particular, verificaram-se duas datas tardias, uma no dia 15 de agosto, para a casta Fernão Pires, e outra a 18 de agosto, para a casta Castelão (Figura 24). Este resultado é coerente com os resultados anteriores para o estado fenológico floração, o que é justificado pelas baixas temperaturas registadas nos meses de março e abril (já apresentadas atrás). Neste ano, uma floração tardia implicou um pintor mais tardio.
Nesta fase fenológica ainda são evidentes paralelismos entre algumas castas, apesar de não tão evidentes como nas fases anteriores (Figura 24). O paralelismo é mais notório entre as castas Chasselas e Fernão Pires, tendo estas uma correlação ainda bastante significativa de 0,945 (Anexo I, Quadro VI).
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa 36 28-Jun 2-Jul 6-Jul 10-Jul 14-Jul 18-Jul 22-Jul 26-Jul 30-Jul 3-Ago 7-Ago 11-Ago 15-Ago 19-Ago 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
Figura 23- Data de ocorrência da fase fenológica pintor para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011.
40 50 60 70 80 90 100 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 N ú m er o d e d ias Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
Figura 24- Número de dias desde o dia de ocorrência da fase fenológica floração até ao dia de ocorrência da fase fenológica pintor para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão e para o período 1990-2011.
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4.2.4 Vindima
Como explicado anteriormente, a data da vindima foi definida considerando que todas as castas atingiram um teor de álcool provável de 11,5% (v/v).
Os resultados das Figuras 25, 26 e 27 correspondem à data de vindima, ou seja, ao número de dias desde 1 de janeiro até ao final da maturação para cada casta e para cada ano e ao intervalo de dias entre o pintor e a vindima.
Em média, a vindima para a casta branca de referência ocorre no dia 16 de setembro (dia 260). Já para a casta tinta de referência, esta ocorre no dia 19 de setembro (dia 263) (Figura 25). O coeficiente de variação é maior para a casta Chasselas, 4%, e mais baixo para as restantes castas, 3%.
Figura 25- Diagrama de caixa, data de ocorrência (em dias julianos) para a vindima, para quatro castas (Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão), no período 1990-2011.Nestes diagramas as linhas horizontais dentro das caixas correspondem às medianas, os limites inferiores (superiores) das caixas ao primeiro (terceiro) quartil, os limites inferiores (superiores) dos bigodes correspondem aos máximos (mínimos) não extremos.
.
A data de ocorrência mais precoce da vindima foi no dia 27 de agosto de 2011 para a casta Fernão Pires, pois neste ano ocorreu uma anomalia de +3,5ºC na média da temperatura de abril e de +1,5ºC na temperatura média dos meses março-abril (TG Mar_Abr), o que terá promovido uma vindima mais precoce.
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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A data de vindima mais tardia foi para a casta Chasselas, dia 11 de novembro de 1993 (Figura 26), ano este que também é comum à floração e ao pintor, o que demonstra que baixas temperaturas nos meses de março e abril levam a uma floração, a um pintor e, posteriormente, a uma vindima mais tardia. É importante referir que a vindima, comparativamente com o abrolhamento, floração ou pintor, tende a apresentar menor relação com as condições atmosféricas, pois não só depende da temperatura, mas também das práticas culturais e enológicas, de disponibilidades de mão-de-obra e de outras questões logísticas (Tomasi et al., 2011).
Figura 26- Data de ocorrência da vindima para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão, para o período 1990-2011.
20 30 40 50 60 70 80 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
Figura 27- Número de dias, desde o dia de ocorrência da fase fenológica do pintor até à vindima, para as castas Chasselas, Fernão Pires, Aragonez e Castelão para o período 1990-2011).
17-Ago 27-Ago 6-Set 16-Set 26-Set 6-Out 16-Out 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 Chasselas Fernão Pires Aragonez Castelão
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No entanto, nesta fase fenológica já não são tão evidentes os paralelismos entre castas, tal como se tinha verificado nos três estados anteriores. Verifica-se ainda entre 2007 e 2011 um aumento do intervalo desde o dia de ocorrência do estado fenológico anterior (pintor) e a vindima, sendo este comportamento mais evidente para a casta Chasselas (Figura 27).
4.3 Intervalo entre estados fenológicos
O ciclo vegetativo (abrolhamento-vindima), para a casta Chasselas, foi o mais curto (249 dias) no ano de 2005 (Figura 28). Neste mesmo ano, verificou-se o intervalo 1 janeiro-abrolhamento mais longo (89 dias) e o intervalo pintor-vindima mais curto, 30 dias. Já em 2001, ao 57º dia, ocorreu o intervalo 1 janeiro-abrolhamento mais precoce mas em contrapartida, o intervalo abrolhamento- floração foi o mais tardio (79 dias). No ano de 2011, registou-se um curto intervalo floração-pintor (53 dias) e um longo intervalo pintor-vindima (77 dias). O ciclo (abrolhamento-vindima) mais longo (286 dias) foi verificado em 1993. 66 76 78 81 68 64 70 61 63 80 69 57 69 69 72 89 85 77 79 74 81 75 71 70 63 77 70 66 77 50 77 65 77 79 70 70 73 58 55 68 65 65 62 57 62 66 77 59 67 74 66 72 64 6569 68 76 74 73 72 79 80 64 59 55 53 76 64 59 69 65 47 69 67 6160 60 62 41 58 30 46 38 65 71 67 77 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 320 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 1JAN-ABR ABR-FLO FLO-PIN PIN-VIN
Figura 28- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Chasselas, no período 1990-2011.
Para a casta Fernão Pires, o período (abrolhamento-vindima) mais curto ocorreu no ano 2011 com 240 dias e o mais longo no ano de 1993, ano em que todos os estados fenológicos ocorreram mais tarde, com 278 dias (Figura 29). Tal como para a casta
Comportamento fenológico de Vitis vinifera L. face à variabilidade climática na Região de Lisboa
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anterior, foi nos anos de 2001 e 2005 que se registou o intervalo 1 janeiro-abrolhamento mais curto (60 dias) e mais tardio (90 dias), respetivamente. No ano de 1997, o intervalo abrolhamento-floração, foi o mais curto com 51 dias e ao 79º dia do ano de 2000, verificou-se o intervalo abrolhamento-floração mais tardio. O mesmo número de dias (60) foi verificado para o menor intervalo floração-pintor nos anos de 2009 e 2010. No ano de 2007 registou-se o intervalo pintor-vindima mais curto, com 25 dias, já o mais longo foi de 55 dias no ano de 1999. 70 79 78 81 68 67 74 64 64 80 69 60 69 72 70 90 84 78 78 74 82 75 67 70 60 77 74 63 73 51 73 65 79 78 70 69 72 54 58 68 66 69 61 55 76 70 80 70 70 74 70 73 78 72 73 69 81 77 81 75 83 81 67 60 60 63 54 45 53 50 53 47 62 52 55 41 51 50 36 32 31 30 25 44 50 44 47 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 1JAN-ABR ABR-FLO FLO-PIN PIN-VIN
Figura 29- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Fernão Pires, no período 1990-2011.
O ciclo vegetativo (abrolhamento-vindima) para a casta tinta Aragonez mais curto ocorreu nos anos de 1997 e 2003, com 251 dias, já o mais longo (272 dias) ocorreu no ano de 1999 (Figura 30). Tal como nas duas castas anteriores, o intervalo 1 janeiro-abrolhamento mais curto ocorreu no ano de 2001 e 1998 (67 dias) e o mais longo (96 dias) em 2005. No ano de 2011, o intervalo abrolhamento-floração foi mais precoce, com 47 dias, mas para esse mesmo ano o intervalo pintor-vindima foi o mais tardio (61 dias), tal como verificado na casta Chasselas. Em 2009, à semelhança da casta Fernão Pires, ocorreu o intervalo floração-pintor mais curto (56 dias).
Nos anos de 1995 e 2001, para a casta Castelão, ocorreu o ciclo vegetativo (abrolhamento-vindima) mais curto (251 dias) e foi em 1992 que ocorreu o mais longo (277 dias) (Figura 31). À semelhança do verificado em todas as castas anteriores, o intervalo 1 janeiro-abrolhamento mais curto (57 dias) ocorreu no ano de 2001 e o mais longo (89 dias) no ano de 2005. No ano de 2011 ocorreram os intervalos
abrolhamento-41
floração e floração-pintor mais curtos, com 54 e 68 dias respetivamente, já o intervalo pintor-vindima, para este mesmo ano, foi o mais longo, com 59 dias.
72 71 77 68 67 84 77 67 76 77 75 96 89 86 88 77 88 86 70 59 70 50 77 61 76 76 66 66 71 53 57 65 65 68 55 47 70 77 70 74 67 71 74 68 72 72 69 66 65 67 59 56 59 59 49 49 59 51 56 41 43 56 36 39 37 48 41 44 55 55 61 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 1JAN-ABR ABR-FLO FLO-PIN PIN-VIN
Figura 30- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Aragonez, no período 1990-2011. 70 76 78 81 68 64 70 61 60 77 68 57 58 67 64 89 82 74 74 71 78 76 67 70 60 73 67 63 73 50 77 65 78 81 75 69 74 55 59 69 69 69 63 54 83 81 84 77 80 77 74 86 84 75 78 74 85 80 78 73 81 78 71 69 69 68 50 42 55 41 47 47 55 48 56 38 39 52 39 39 38 40 41 50 55 57 59 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280 300 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 1JAN-ABR ABR-FLO FLO-PIN PIN-VIN
Figura 31- Duração dos períodos entre os estados fenológicos: 1Jan-Abr (1 janeiro-abrolhamento), Abr-Flo (abrolhamento-floração), Flo-Pin (floração-pintor) e Pin-Vin (pintor-vindima), para a casta Castelão, no período 1990-2011.