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A análise das trajetórias formativas e profissionais dos agentes do Programa
Mais Médicos
Izabele Pinto Câmara1, Catharina Leite Matos Soares2 e Isabela Cardoso de Matos Pinto 3 1 Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB), Brasil e Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, Brasil.
2Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Brasil. [email protected]; 3Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Brasil. [email protected].
Resumo. Com o objetivo de realizar uma análise acerca das trajetórias dos agentes do Programa Mais
Médicos (PMM), estratégia prioritária do Ministério da Saúde brasileiro para o enfrentamento do provimento da força de trabalho para a Atenção Básica (AB) até 2019, realizou-se um estudo qualitativo com os médicos do primeiro ano do programa no município de Salvador. Reconstruiu-se as trajetórias formativas e profissionais dos médicos do programa e analisou-se os pontos de vista dos mesmos sobre a medicina, o PMM e o Sistema Único de Saúde (SUS). Os resultados evidenciaram correlações entre as trajetórias formativas e os pontos de vista dos investigados, bem como entre a formação dos médicos e suas trajetórias profissionais, além das relações existentes entre as trajetórias e o compromisso dos médicos pesquisados com o sistema público e com a população mais vulnerável usuária do SUS.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Médicos; Trajetórias
The analysis of the treining and professional trajectories of the agent of the Medical Program
Abstract. With the objective of analyzing the agentes’s trajectories of the Medical Program (PMM), a
priority strategy of the Brazilian Ministry of Health, to address the provision of the workforce for Basic Care (AB), by 2019, a qualitative study with the physicians of the first year of the program in the city of Salvador. The training and professional trajectories of the physicians of the program were reconstructed and their points of view on medicine, the PMM and the Unified Health System (SUS) were analyzed. The results showed correlations between the formative trajectories and the points of view of the investigated ones, as well as between the training of the doctors and their professional trajectories, besides the existing relationships between the trajectories and the commitment of the physicians surveyed with the public system and with the population more vulnerable user of SUS.
Key words: Primary Health Care; Physicians; Trajectories
1 Introdução
A construção de trajetórias para a compreensão do mundo social vem sendo utilizado por autores da área de saúde (Barros, 2013; Paim, 2008; Soares, 2014; Souza, 2018; Vieira-da-Silva & Pinell, 2014), ancorados na sociologia reflexiva de Pierre Bourdieu (Bourdieu, 1974). Para esse autor, a trajetória distingue-se da biografia e da história oral (Vieira-da-Silva, L. M., Chaves, S. C. L., Esperidião, M. A., Barros, S. G. de & Souza, J. C., 2016), pois correspondem a posições construídas e ocupadas pelos agentes1 ao longo da vida, considerando o campo ou os campos, onde os mesmos se inserem. As
trajetórias são constituídas dentro de um campo de possíveis, como produto de forças que incidem
1 O conceito de agente é aquele que age e luta dentro de um campo de interesse, tendo em sua ação princípios e inculcações dessas lógicas que lhe são imanentes produzidas no encontro das histórias individuais dos agentes com a história coletiva do campo (Vieira-da-Silva et al, 2016, p. 29)
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sobre os agentes, de modo que os agentes transitam entre diversos campos e vão conformando suas trajetórias.
Nessa perspectiva, há investigações que utilizaram esse recurso para compreender a gênese de processos sociais, como a emergência da Saúde Coletiva no Brasil (Vieira-da-Silva e Pinell, 2014) e da Saúde Bucal Coletiva (Soares, 2014), a emergência de políticas de saúde, a exemplo da AIDS (Barros, 2018), da saúde bucal (Rossi, 2018) e da alimentação (Souza, 2018). Nesses trabalhos, revelaram-se articulações entre as trajetórias conformadas em um campo de possíveis, as disposições adquiridas e as tomadas de posição dos agentes investigados, nos casos particulares. Essas pesquisas tomam como foco o agente das práticas sociais e sua inserção nos campos para elucidar o comportamento dos mesmos. No presente trabalho, a trajetória como recurso metodológico foi utilizado como estratégia para a compreensão dos agentes médicos que se inseriram no primeiro ano do programa Mais Médicos (PMM), por diferentes motivações e escolhas, os quais possuem, também, distintas origens, diversas trajetórias formativas e profissionais, bem como diferentes pontos de vista sobre a medicina e sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Vele ressaltar que o PMM é um programa governamental formulado como resposta às dificuldades relacionadas ao provimento e manutenção de profissionais médicos no SUS. Surgiu após as manifestações populares ocorridas em junho de 2013, sendo regulamentado por meio de uma medida provisória que foi transformada em uma lei no mesmo ano. Esse programa tem como finalidade o provimento e a formação de recursos humanos na área médica para o SUS e apresenta entre os seus objetivos finalísticos, a redução da carência de médicos nas regiões prioritárias para o SUS, a fim de diminuir as desigualdades regionais em saúde e o fortalecimento dos serviços na atenção básica (Lei nº 12.871, 2013).
2 Metodologia
Esse estudo é parte de uma pesquisa denominada “Programa Mais Médicos: uma análise acerca das práticas médicas na Atenção Primária em Salvador”, a qual integra os trabalhos do Grupo de Pesquisa de Trabalho e Educação na Saúde, do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fez-se um estudo exploratório, com foco na análise das trajetórias e dos pontos de vista dos agentes médicos, do primeiro ciclo do PMM, em Salvador. Abordou-se, para isso, o “ser médico”, a “medicina”, o “SUS” e a “APS”. Tomou-se como referência a Teoria das Práticas Sociais de Pierre Bourdieu (Bourdieu, 1996; 2008; 2009). Utilizou-se o conceito de agente na medida em que esse termo integra a compreensão de Bourdieu sobre o mundo social, reconhecendo a existência de estruturas objetivas e de estruturas incorporadas que se relacionam dialeticamente na composição das práticas dos agentes. Para este autor, o agente tem suas práticas e ações inscritas em um campo e elas podem ser explicadas pelos princípios e lógicas que são produzidas a partir do encontro das histórias individuais dos agentes com a história coletiva do campo (Bourdieu, 1996; 2008, 2009; Vieira-da-Silva et al, 2016). Partiu-se, portanto, do conceito de trajetória, descrito por Bourdieu, 1996, p. 81), como: “(...) uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo), em um espaço, ele próprio em devir, e submetido a transformações incessantes”.
Nesse sentido, as trajetórias podem ser entendidas como as posições ocupadas e os deslocamentos realizados pelos agentes, no espaço social, distinguindo-se das idéias de biografia ou de história oral (Vieira-da-Silva et al, 2016). Vale ressaltar que Bourdieu (2008) trabalha com as noções de trajetória individual e de trajetória coletiva, sendo que esta última é entendida como as posições a serem ocupadas dentro de um “campo dos possíveis”. Ou seja, esse “campo de possíveis” que é oferecido a determinado agente leva a uma trajetória provável, dentro de uma classe social, a qual pode ser alterada tanto por acontecimentos coletivos como individuais. As trajetórias individuais, por sua vez,
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têm forte correlação com as posições sociais e as disposições ou habitus dos agentes, podendo se configurar como um desvio em relação à trajetória coletiva, sem deixar de ser afetada, no entanto, por esse “destino coletivo”. Os participantes da pesquisa foram escolhidos por ciclos do PMM, que referem-se à denominação do Ministério da Saúde (MS) para os períodos de adesão dos médicos aos editais de seleção pública do programa. Assim, foram selecionados os médicos do primeiro ano do PMM, que se inseriram através dos editais do primeiro, segundo e quarto ciclos do programa, publicados no período compreendido entre julho de 2013 e janeiro de 2014. No período em que foram realizadas as entrevistas do presente estudo, só havia atuando, no município de Salvador, nove estrangeiros, sendo sete cubanos e dois de outras nacionalidades. Todos os outros estrangeiros, das modalidades acima descritas, já tinham sido desligados do PMM e, nos ciclos seguintes, não vieram para Salvador novos estrangeiros da modalidade “Intercambistas Individuais”, nem cubanos da “Cooperação Técnica OPAS”. Foram selecionados, na lista dos médicos participantes do PMM, 21 agentes que atendiam aos critérios de inclusão da pesquisa. Dentre os agentes médicos selecionados, houve recusa de quatro profissionais brasileiros, para participar da pesquisa, sendo que três deles atuavam na modalidade “Brasileiro com diploma do Brasil ou revalidado no país” e um atuava na modalidade “Intercambista Individual”. Quatro profissionais que se recusaram a participar do trabalho: um não apresentou justificativa e nem quis receber a entrevistadora e os outros três apresentaram as seguintes explicações: “não se sentir à vontade com uso do gravador”; “não se sentir à vontade para participar de nenhum trabalho relacionado ao PMM”; “não ter interesse em participar do projeto”. Houve ainda um médico brasileiro em licenças médicas e na sequência em férias, no período das entrevistas. Realizaram-se, portanto, 15 entrevistas semiestruturadas com agentes médicos. No que se refere à alocação por ciclos do PMM, os participantes da pesquisa estão assim configurados: sete médicos do primeiro ciclo (julho/2013); três médicos do segundo ciclo (agosto/2013) e cinco médicos do quarto ciclo (janeiro/2014). Destes 15 entrevistados, sete tinham nacionalidade cubana e ingressaram no programa através da modalidade de “Cooperação Técnica OPAS”, três eram médicos que integravam a modalidade de “Intercambistas Individuais” (dois estrangeiros e um brasileiro com diploma de IES estrangeira) e cinco eram médicos brasileiros que ocupavam vagas na modalidade “Brasileiros com diploma do Brasil”. Em relação aos estrangeiros, além da nacionalidade cubana, havia um agente proveniente da Suíça e outro oriundo de Portugal. As entrevistas foram realizadas no período de janeiro de 2017 a janeiro de 2018, cujo roteiro for a organizado previamente. As entrevistas foram gravadas, transcritas integralmente e o material empírico foi organizado a partir das perguntas do roteiro de entrevista, entre as quais constam questões sobre as trajetórias dos agentes entrevistados, os seus pontos de vista em relação às temáticas abordadas. Para garantir a privacidade dos agentes investigados, todos os entrevistados foram codificados com letra “A” acompanhada por um número (A1 a A15), onde o A corresponde a uma abreviação para “agente” e a numeração refere-se à ordem cronológica de realização das entrevistas. Com vistas a caracterizar os agentes do primeiro ano do PMM em Salvador, foram reconstruídas suas trajetórias pessoais e profissionais, a partir das posições ocupadas nos subespaços científico, burocrático e político. Em seguida, essas trajetórias foram correlacionadas com suas disposições e tomadas de posição, levando-se em consideração os pontos de vista dos agentes sobre o ser médico, a medicina, o SUS e a APS.
Na análise das trajetórias, levou-se em consideração: a organização das matrizes curriculares das graduações de medicina; as atividades profissionais desenvolvidas ao longo da carreira; as disposições políticas (inserção em cargos políticos, militância e/ou filiação em partidos políticos, participação em movimentos profissionais, movimentos estudantis e/ou associações). Para a recomposição das trajetórias formativas e profissionais, utilizou-se uma tabela em formato excel, onde as informações foram processadas por ano, a partir do ano de conclusão da graduação pelos agentes estudados. Nessa tabela foram processadas as informações disponibilizadas pelos agentes,
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como pós-graduações realizadas, locais de trabalho e áreas de atuação, espaços ocupados pelos agentes ao longo dos anos. De acordo com as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos descritas na Resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde, o trabalho foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (CEP/ISC/UFBA) e aprovado sob o Parecer número 1.849.890. Foram garantidas as normas éticas, os objetivos da pesquisa foram esclarecidos aos médicos participantes e todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme consta na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.
2.1 Articulação entre trajetórias e pontos de vista: os agentes médicos do PMM
Correlacionando as nacionalidades dos entrevistados com suas idades, os agentes tinham idades que variavam de 31 a 75 anos, conforme identificados a seguir, em ordem crescente: dois agentes cubanos (A5 e A6) e um agente suíço (A8) com 31 anos; um agente brasileiro (A15) com 32 anos; um agente cubano (A4) com 34 anos; três agentes cubanos (A2, A3 e A13) com 36 anos; um agente brasileiro (A9) com 47 anos; um agente cubano (A1) com 52 anos; três agentes brasileiros (A12, A7 e A10) com 53 anos, 56 anos e 64 anos, respectivamente; um agente português (A14) com 70 anos; e, por fim, um agente brasileiro (A11) com 75 anos de idade. A maior parte dos médicos brasileiros se encontrava numa faixa etária mais elevada, apresentando idades entre 47 e 75 anos, tendo apenas um agente brasileiro mais jovem, com de 32 anos de idade. Já em relação aos médicos cubanos, a maioria deles encontrava-se na faixa etária compreendida entre 31 e 36 anos, tendo somente um agente com idade acima de 50 anos. Os outros dois agentes estrangeiros (intercambistas individuais), por sua vez, apresentaram idades situadas nos diferentes extremos: o médico suíço tinha 31 anos e o português tinha 70 anos de idade. A análise das trajetórias dos entrevistados revelou que os percursos formativos e profissionais dos agentes cubanos eram similares, tendo todos eles realizado, obrigatoriamente, a Residência em Medicina Geral Integral e atuado na APS em Cuba. Além disso, todos os agentes cubanos declararam ter saído, pelo menos uma vez, para prestar serviços em outros países, nos programas de cooperação técnica e trabalhos comunitários. Os agentes médicos cubanos relataram características muito semelhantes das suas formações, havendo similaridades entre as trajetórias formativas desses agentes investigados. Sendo assim, todos os agentes cubanos entrevistados passaram os dois primeiros anos do curso no denominado ciclo básico, incluindo disciplinas teóricas como anatomia, fisiologia, bioquímica, filosofia, etc e os quatro anos subsequentes voltados para a área clínica, onde se inseriram nos hospitais e passaram pelas diversas especialidades médicas. Notou-se, também, que quase todos esses agentes mencionaram que a formação em Cuba tem foco na APS, onde os estudantes realizam atividades na área de Saúde da Família desde o início da faculdade.
O agente cubano com idade mais avançada (A1) trabalhou durante seis anos como médico de família em Cuba, até sair para a primeira “missão”2 em outro país. Depois disso, foi mais duas vezes para
diferentes países, através dos programas de cooperação técnica, antes de ingressar no PMM, além de ter atuado em Cuba, nas áreas de atenção e gestão, durante toda a sua trajetória profissional. Na área de atenção, trabalhou como médico de família e na área de gestão ocupou cargos de diretor e vice-diretor de áreas de saúde, na APS de Cuba, em diferentes momentos de sua carreira profissional. Já os outros agentes cubanos, por serem mais novos e terem se formado entre 2004 e 2009, tinham saído uma única vez para atuar em outros países, antes de vir para o Brasil pelo PMM. A atuação desses agentes cubanos mais novos ocorreu, em sua maioria, na área de atenção à saúde,
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na APS, não sendo mencionado por eles o exercício de cargos de gestão. No entanto, dois desses agentes cubanos atuaram em outras áreas da medicina, em paralelo à realização da Residência em Medicina Geral Integral: A6 na área de saúde do trabalhador, em um hospital geral, e A13 como médico clínico em uma penitenciária. Também A3 relatou ter trabalhado em uma comissão médica de recrutamento e na área de epidemiologia no sistema de saúde cubano.
Em outra perspectiva, os agentes com nacionalidade brasileira, quase todos situados numa faixa etária mais elevada que os cubanos, tiveram formações acadêmicas mais centradas no hospital, com foco na doença, e com pouca ou nenhuma inserção na APS. Apenas dois médicos brasileiros – A11 e A15 – sinalizaram ter feito, durante a graduação, disciplinas voltadas à Saúde Pública, embora tenham feito a graduação em momentos históricos bem distintos. A11, por exemplo, que concluiu sua graduação em 1973, período bem anterior à implantação do SUS, salientou que houve uma disciplina no seu curso que o estimulou a pensar no coletivo e a querer trabalhar em cidades do interior. Já A15 formou-se mais recentemente, no ano de 2012, tendo vivenciado algumas mudanças nas matrizes curriculares das graduações de medicina, estimuladas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais e por outras ações e políticas governamentais. Desse modo, este último agente relatou a obrigatoriedade de disciplinas e práticas com foco na APS, durante sua graduação, mas não referiu interesse por essa área despertado na formação acadêmica.
No que se refere à realização de pós-graduações, foi observado, também, dentre os brasileiros, variações em relação à inserção em programas de residência médica, em áreas especializadas. Nenhum médico brasileiro fez residência em Medicina de Família e Comunidade, nem mencionou desejo de fazê-la.
Analiasando as trajetórias profissionais dos agentes brasileiros, percebeu-se que estes apresentaram inserções em áreas diversificadas, com atuações tanto na rede pública como na medicina privada, antes de chegar na Saúde da Família. Todos os que fizeram residência médica trabalharam nas áreas em que se especializaram, sendo posteriores as suas incursões na ESF. Além disso, foi identificado que alguns dos agentes brasileiros nunca tinham atuado na APS, sendo o PMM a primeira experiência nessa área. Apenas dois dos médicos brasileiros – A7 e A11 – relataram ter trabalhado na área de Saúde da Família, antes de entrar no PMM. Esses dois profissionais fizeram residência em Ginecologia e Obstetrícia e atuaram nessa área durante algum tempo, migrando para a APS, por diferentes motivos, em momentos singulares das suas carreiras profissionais. A7 mencionou que a obstetrícia estava precarizada, com convênios pagando pouco pelos procedimentos e resolveu trabalhar na APS, na perspectiva de ter mais qualidade de vida; e, A11 passou no concurso da Fundação SESP, logo após a conclusão da residência médica, onde trabalhou durante cinco anos e posteriormente passou no concurso do INAMPS, atuando em vários órgãos de diferentes estados, até se aposentar, quando entrou para a área de Saúde da Família.
Os entrevistados que atuavam no PMM na modalidade de “Intercambistas Individuais”, também, apresentaram diferentes escolhas em relação à residência médica e trabalharam em áreas profissionais distintas, sendo que apenas um deles (A8) expressou interesse pela área de Medicina de Família, logo após a conclusão da graduação. Esse agente suíço apontou algumas mudanças na formação médica em seu país e a sua atuação junto a bons profissionais da área de medicina de família, durante a graduação, como uma das importantes influências na sua trajetória formativa e nas suas escolhas profissionais futuras. A8 também relatou que, em seu país, os recém-formados em medicina precisam enviar currículos para garantir vagas nos serviços que deverão compor a residência desejada. Assim, ao concluir a graduação, ele passou pelas áreas de otorrinolaringologia, cirurgia, ortopedia, clínica médica, medicina do trabalho e psiquiatria, durante dois anos, especialidades estas que iriam compor sua formação na residência em Medicina Geral Interna, a qual tinha começado a seguir mas abandonou para ingressar no PMM. Já A9 não fez residência médica, mas relatou ter feito diversas especializações lato sensu em diferentes áreas, como, por exemplo,
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medicina do trabalho, medicina estética, medicina legal e psicossomática, atuando nos setores público e privado na Espanha, país onde residiu por oito anos antes de retornar ao Brasil. De outro modo, o terceiro agente intercambista (A14), aposentado atualmente, trabalhou como clínico geral e, posteriormente, fez residência em cirurgia maxilo-facial, trabalhando nessa área durante toda a sua trajetória profissional, além de realizar atividades na área de gestão, tendo em vista que era proprietário de uma clínica médica.
Pode-se afirmar, de acordo com as evidências do presente estudo, que as trajetórias profissionais dos médicos investigados apresentaram significativas relações com suas trajetórias formativas, as quais, por sua vez, revelaram estreitas correlações com os contextos sociais em que se produziram. Ou seja, a compreensão das trajetórias dos referidos agentes precisa levar em conta, conforme aponta Bourdieu (1996), a “superfície social” expressa pelo conjunto das relações objetivas que perpassa os agentes em um determinado campo e o “espaço de possíveis” que transcende os agentes singulares e geram sistemas de referências comuns. Esse “espaço de possíveis”, portanto, que é oferecido a determinado agente leva a uma trajetória provável, a qual pode ser alterada tanto por acontecimentos coletivos como individuais (Bourdieu, 2008).
No que se refere às trajetórias políticas, quase todos os entrevistados afirmaram nunca ter participado de nenhum partido político, sindicato, movimento estudantil e/ou movimento social e muitos deles, ainda, intitularam-se como “apolíticos”, de modo que os capitais políticos foram homogêneos e praticamente nulos. Apenas um dos agentes cubanos, entre todos os médicos entrevistados, informou ter tido militância política, pois embora alguns dos agentes cubanos tenham sinalizado sobre a participação na Federação Estudantil Universitária, por ser uma obrigatoriedade para todos os estudantes no período da graduação, nenhum deles considerou essa inserção como uma participação política efetiva ou como militância. Ou seja, embora os agentes cubanos possuam algum capital político oriundos da associação ao movimento estudantil, essa inserção não é uma escolha pessoal e, desse modo, eles não o reconhecem como tal. Nessa mesma perspectiva, um dos agentes estrangeiros, da modalidade “Intercambista Individual”, e todos os brasileiros entrevistados não mencionaram nenhum tipo de participação ou militância política em suas trajetórias. Ao contrário, situaram suas posturas e visões distanciadas da política, trazendo o contexto político como algo negativo ou como algo que não deveria existir na medicina e/ou na saúde. Apenas um dos entrevistados intercambistas (A8) ressaltou a importância da política e das decisões políticas no contexto da saúde, apesar de não ter mencionado sobre participação e/ou a militância política em sua trajetória; esse agente preferiu não responder a esta questão, não deixando claro algum tipo de inserção efetiva em movimentos políticos ou sociais.
No que tange aos pontos de vista dos agentes investigados sobre o que significa “ser médico”, foram identificados três diferentes pontos de vista apresentados pelos agentes: o primeiro grupo abarcou as respostas auto-referidas, de cunho pessoal, as quais se relacionavam a desejos e sonhos infantis; o segundo grupo de posicionamentos, por outro lado, envolveu respostas que descreveram os significados sobre “ser médico” a partir de características mais sociais, considerando a medicina como uma profissão voltada para o outro e abordando conceitos como cuidado, humanidade, solidariedade e responsabilidade social; por fim, o terceiro ponto de vista identificado relacionou o “ser médico” ao amor pela profissão, bem como a princípios e valores éticos.
Os agentes A1, A11 e A14, médicos com nacionalidades cubana, brasileira e portuguesa, respectivamente, foram agrupados na categoria de posicionamentos de cunho pessoal sobre “ser médico” uma vez que todos eles vincularam a medicina a sonhos/desejos infantis.
Já no que se refere ao reconhecimento explícito da função social da medicina, esse foi um ponto de vista compartilhado por um grupo considerável de agentes com diferentes origens: A3, A4, A5 e A6 (agentes cubanos); A8 (agente suíço); A10, A12 e A15 (agentes brasileiros). Assim, os agentes entrevistados, acima referidos, apontaram a medicina como uma profissão com alto valor e
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responsabilidade social, associando aos significados sobre “ser médico”, as concepções de “solidariedade”, “humanidade”, “sacerdócio”, “vocação”, “cuidar”, “salvar vidas” e “ajudar o próximo”. De maneira geral, verificou-se que em cada ponto de vista identificado situaram-se agentes das diversas nacionalidades, não havendo uma concentração de agentes com a mesma nacionalidade ou com trajetórias similares em nenhuma das categorias delineadas. Tanto os agentes cubanos cooperados, quanto os brasileiros e os estrangeiros intercambistas, apresentaram significados de cunho pessoal ou valores sociais relacionados aos significados sobre “ser médico”. Nas concepções sobre sobre o SUS e sobre a APS, quando foram perguntados sobre suas compreensões em relação ao SUS e à APS, a maioria dos agentes não fez distinção entre os dois temas em suas respostas. Ao contrário, de um modo geral, os entrevistados trataram o SUS e a APS com equivalência, dando uma única resposta para as duas temáticas. Ou seja, a maioria dos agentes médicos participantes dessa pesquisa fizeram uma redução da APS ao SUS, tratando apenas das concepções sobre o SUS. Desse modo, as respostas dos entrevistados, sobre SUS e APS, foram agrupadas em uma mesma temática. Alguns agentes entrevistados conceberam o SUS como um bom sistema, considerando que o Brasil é um país em desenvolvimento, porém ressaltaram a existência de alguns aspectos negativos, além dos positivos. Dentre esses posicionamentos, destacaram-se as falas de quatro agentes cubanos, a saber, A2, A3, A5 e A6. Em contrapartida, a maior parte dos entrevistados (A1, A4, A7, A9, A10, A12, A13, A14 e A15), incluindo-se aí brasileiros e estrangeiros (cooperados e intercambistas), expressaram pontos de vista com foco nos aspectos negativos do SUS, analisando-o como um sistema “fictício” uma vez que seus pontos de vista basearam-se em comparações entre o que está previsto “na teoria” e o que ocorre “na prática” ou, ainda, entre “o que o SUS poderia ser” e “o que é”. De um modo geral, esses agentes associaram as suas concepções de SUS aos problemas e dificuldades existentes, levantando questões relacionadas à organização e ao modelo de gestão do SUS, bem como às limitações da sua infraestrutura. Falta de insumos e materiais, falta de medicamentos, estrutura física inadequada, fragilidades na gestão dos serviços e dificuldades no encaminhamento de pacientes para outros especialistas ou outros serviços da rede foram alguns dos problemas descritos pelos referidos agentes. Também ressaltaram as carências sócio-econômicas da população atendida e a violência que existe no território das USFs. Dentre os agentes brasileiros, A11 foi o único entrevistado que avaliou positivamente o SUS, concebendo-o como um dos melhores programas de saúde do mundo, embora entenda que o processo de implementação do sistema ainda tenha um caminho longo e difícil a ser percorrido. De um modo geral, as evidências produzidas apontaram que a maior parte dos agentes cubanos conseguiu identificar pontos positivos e negativos sobre SUS e levaram em conta, em suas análises, o fato do Brasil ser um país em desenvolvimento. Quase todos os brasileiros, por outro lado, apresentaram concepções sobre o SUS embasadas nas dificuldades e aspectos negativos identificados. Apenas dois agentes, com nacionalidades e trajetórias distintas (um brasileiro e um estrangeiro), analisaram o SUS como um sistema grande, ousado e corajoso.
No que se refere às razões pelas quais os agentes investigados escolheram fazer medicina, foram apresentadas diferentes justificativas, pelos entrevistados, as quais foram agrupadas em seis categorias: desejo/realização pessoal; sonho infantil; função social da profissão; influências familiares (pais, irmãos, tios, cônjuge); influência de outro profissional médico; maior facilidade para cursar a graduação em comparação a outras áreas. Vale salientar que alguns agentes se encontram em mais de um grupo de respostas, por terem descrito diferentes razões para a suas escolhas. Foram localizados, no grupo que descreveu suas escolhas em relação à medicina como resultado de um desejo e/ou realização pessoal, os agentes A6 e A15. A15, agente médico brasileiro, que apresentou, também, motivação relacionada à satisfação pessoal e à admiração pela profissão, relatou o desejo de ser o primeiro da sua família a seguir a carreira médica, ressaltando a beleza da profissão médica.
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A10 e A14, agentes de origens brasileira e portuguesa, por outro lado, além da realização de um desejo infantil, associaram suas motivações para a escolha da medicina à função social da profissão. A10, por exemplo, relatou que, na infância, tinha o hábito de ir para comunidades carentes fazer curativos e descreveu a medicina como um sacerdócio, vinculada a valores cristãos de “ajuda ao próximo”. Já A14 associou seu sonho infantil de fazer medicina ao medo de adoecer, presente na infância, e à sua fantasia de criança de que médicos não ficavam doentes, além da possibilidade de ser útil socialmente, sem desconsiderar, entretanto, as questões financeiras. Essas justificativas voltadas à função social da medicina como razão principal da escolha, foram contempladas, também, nas falas de muitos entrevistados, de diferentes nacionalidades, a saber: A5, A7, A8, A12 e A13. Alguns desses agentes já tinham descrito, anteriormente, os significados de “ser médico”, nessa mesma perspectiva, voltada ao social, dentre eles, A5, A8 e A12. Assim, A5, agente de origem cubana, ressaltou a importância da medicina como uma profissão voltada ao coletivo, fazendo, inclusive, uma comparação entre a profissão médica em Cuba e no Brasil. Segundo essa agente, a formação médica em Cuba está vinculada a questões sociais e ao cuidado coletivo e a medicina no Brasil associa-se a questões econômicas. Outro agente médico cubano (A13) relacionou sua escolha pela medicina à importância dessa profissão diante dos problemas existentes na comunidade em que viveu, expressando um pensamento voltado ao coletivo e um desejo de servir à população. Entre os médicos brasileiros, A7 e A12, também, referiram-se à consciência sobre as desigualdades sociais e ao desejo de servir à sociedade como aspectos motivadores na escolha do curso de medicina.
No que diz respeito às influências familiares na escolha pela medicina, os agentes A1, A2, A4, A5, A8, A10 e A11 apresentaram evidências do quanto os pais, mães, tios, irmãs, etc, sendo ou não médicos, tiveram importância nas suas escolhas. Nesse sentido, encontram-se fragmentos das respostas dos agentes A4 e A8, agentes de origem cubana e suíça, que mencionaram o fato de ter médicos na família como um dos aspectos que contribuíram com suas escolhas pela medicina.
Em outra perspectiva, A9 mencionou a influência de outro profissional médico na sua escolha pela medicina, tendo em vista que ele tinha feito a graduação de Educação Física, e se aproximou da medicina a partir da área de medicina do esporte. Por fim, houve, ainda, outros dois agentes de origem cubana, que, diferenciando-se dos demais agentes médicos dessa nacionalidade, atribuíram a escolha da medicina ao fato da oferta desta graduação no país ser maior do que a de outras graduações. Nesse sentido, as duas entrevistadas – A2 e A3 – explicaram que desejavam fazer outros cursos da área da saúde, mas acabaram escolhendo medicina, portanto, por questões relacionadas ao contexto social cubano.
Observou-se que tanto nos grupos de agentes que apontaram motivações de cunho mais pessoal para a escolha pela medicina, quanto nos grupos que descreveram os valores sociais da profissão médica, tinham médicos com diferentes nacionalidades e trajetórias. Também as influências familiares foram identificadas nas falas dos agentes de diferentes origens, não sendo uma especificidade de um determinado grupo de profissionais. Somente alguns agentes investigados apontaram questões muito específicas como motivadoras para suas escolhas, como foi o caso de A9 que teve grande influência de outro profissional da área médica e a situação de duas agentes cubanas (A2 e A3) que foram induzidas por fatores característicos do contexto social cubano, os quais não existem no Brasil (facilidade para cursar medicina). Percebe-se, portanto, que essas diferentes escolhas dos agentes foram orientadas por distintas matrizes geradoras de percepções e ações. Ou seja, o conceito bourdieusiano de habitus possibilitou a reflexão acerca das condutas práticas dos agentes investigados, as quais estavam orientadas por uma matriz de referência resultante da incorporação processual de estruturas objetivas. Essa matriz geradora de percepções e ações permitiu que os agentes pudessem se adaptar, com flexibilidade, aos desafios enfrentados e fizessem escolhas que atenderam tanto às suas crenças e desejos como às pressões e influências externas (Bourdieu, 1996). Bourdieu (2009) trabalha com a noção de “senso prático”, que orienta as
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estratégias dos agentes para a vida em sociedade e para ação nos diferentes meios em que estão inseridos, sendo as práticas, portanto, resultantes da relação dialética entre estrutura e conjuntura. Desse modo, compreende-se que as trajetórias dos agentes participantes do presente estudo, ao mesmo tempo em que foram estruturadas a partir de matrizes geradoras, foram também estruturantes na composição dos habitus específicos.
3 Conclusões
Os achados desse estudo evidenciaram que o PMM em Salvador estava configurado por agentes médicos que ingressaram no primeiro ano do programa por diferentes motivações, relacionadas a disposição adquiridas ao longo da vida. Por ser um estudo qualitativo, com um número pequeno de agentes investigados, não cabe generalizações. No entanto, essa pequena amostra possibilitou uma análise de como o PMM está organizado, evidenciando as trajetórias e pontos de vista dos agentes participantes do programa. As trajetórias formativas dos agentes médicos do PMM tiveram grandes influências nas suas escolhas profissionais, tendo os agentes cubanos formação voltada à APS e os agentes brasileiros e estrangeiros (intercambistas individuais), de maneira geral, possuíam pouca ou nenhuma inserção na APS. Dessa maneira, os agentes cubanos que tiveram formações voltadas à APS ocuparam, prioritariamente, espaços profissionais nessa área e os agentes brasileiros e estrangeiros (intercambistas individuais), que não tiveram uma formação acadêmica com foco na APS, fizeram escolhas mais voltadas ao âmbito da clínica privada e do área hospitalar. As relações entre as pressões externas e os desejos dos agentes conformaram escolhas possíveis, dentro dos contextos específicos em que eles estavam inseridos e das condições de possibilidades históricas, sendo as trajetórias profissionais engendradas por disposições adquiridas ao longo da vida, por questões sociais e financeiras e, ainda, por imposição do Estado (no caso dos agentes cubanos).
As motivações para a escolha da medicina, apontadas pelos agentes, possibilitaram reflexões sobre o imaginário social em relação a essa profissão, que é vista, em diferentes culturas, a partir de um ponto de vista altruísta, de cuidado com o outro e a serviço da sociedade. No entanto, as trajetórias dos agentes revelaram as influências dos aspectos sociais e econômicos que atravessam o exercício de qualquer profissão e, neste caso específico, da profissão médica.
Os pontos de vista acerca do SUS, expressos pelos agentes, corresponderam a visões reproduzidas na sociedade brasileira que, de maneira geral, concebem o SUS como um sistema pobre voltado para pobres, havendo uma grande distância entre o projeto político do SUS e o que ocorre no cotidiano dos serviços de saúde. No entanto, tiveram alguns pontos de vista que apontaram para uma concepção de SUS democrático, conforme foi proposto pelo movimento da Reforma Sanitária Brasileira.
Vale reassaltar que houve uma limitação no desenvolvimento dessa pesquisa na medida em que não foi possível a análise dos currículos (lattes ou vitae) dos entrevistados, conforme previsto inicialmente na metodologia proposta. Essa inviabilidade justifica-se pelo fato de que a maioria dos médicos pesquisados informou não tê-los disponíveis. Outra limitação relaciona-se à impossibilidade de incluir, nessa pesquisa, todos os agentes do PMM em Salvador, devido ao tempo necessário à conclusão do trabalho.
Entretanto, considera-se que o referencial teórico-metodológico utilizado atendeu aos objetivos do estudo, ratificando a importância da pesquisa qualitativa para análise desse objeto de estudo escolhido e as contribuições trazidas pela teoria bourdieusiana, qual reconhece radicalmente a importância da história para o conhecimento do mundo social.
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Referências
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