Influência da idade na qualidade do ejaculado de
cães da raça Dogue Alemão
Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária
César da Ponte Soares de Pinho
Orientador:
Professora Doutora Ana Celeste Martins-Bessa
Influência da idade na qualidade do ejaculado de
cães da raça Dogue Alemão
Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária
César da Ponte Soares de Pinho
Orientador:
Professora Doutora Ana Celeste Martins-Bessa
Composição do Júri:
II
“Põe quanto és no mínimo que fazes.”
III
Quero agradecer à Professora Doutora Ana Celeste Bessa por aceitar orientar a minha dissertação. A sua colaboração e empenho permitiram ultrapassar uma série de obstáculos, motivando-me, sem me deixar desistir.
Ao Marcos Leite Brás, e à Dogalmar, um enorme obrigado pelo apoio, disponibilidade e conselhos que me deram desde o primeiro dia em que lhes solicitei ajuda neste projeto. Incansável é a palavra que me surge.
À Clínica Veterinária de Custoias, à Dra. Raquel e a toda a equipa, ao Dr. Luís Montenegro e a toda a equipa do Hospital Veterinário Montenegro, obrigado por todo o tempo dedicado à minha aprendizagem e evolução, por aceitarem o meu pedido de estágio e pela oportunidade de experiências que me proporcionaram. Um obrigado também a todos os meus colegas durante o estágio.
Um obrigado para todas as amizades que fui travando com quem me cruzei no meu percurso desde a Escola Básica, passando pela Escola Secundária até à Universidade. Aos da Universidade, um obrigado especial ao Tiago, ao Lé, ao Carlos e ao Jorginho. Às amizades da vida ao Fábio, ao Carlos e ao André!
À Ana, um obrigado gigante pela amizade, carinho, amor e diversão que me tem proporcionado, contribuindo para as fases boas e menos boas deste percurso, sempre com aquele empurrãozinho que nunca me deixa parar ou cair.
Aos meus pais, que me deram a oportunidade de aqui estar, que foram o meu suporte durante a vida, e que sem os quais nada disto seria possível. A eles, um obrigado é insuficiente, pois devo-lhes grande parte do que sou. Eternamente agradecido.
Ao meu irmão, o meu ponto de referência, sempre presente, para tudo e mais alguma coisa, o meu suporte, o meu maior obrigado.
Ao Aimar, à Amélie, à Ruca e à Nikita, e a todos os outros que passaram pela minha vida desde pequenino, agradeço todo o amor que me trouxeram, fazem com que o Curso não seja para procurar trabalho, mas para viver de uma paixão!
IV
A reprodução canina tem, cada vez mais, como finalidade apurar as características, quer morfológicas, quer comportamentais, de determinadas raças. Quer seja apenas para companhia ou para exposição, cada vez se procuram exemplares com as características mais próximas do standard. Desta forma, é essencial conhecer bem todos os aspetos dos progenitores. Aquando do cruzamento, é essencial conhecer o momento correto da beneficiação, mas também se o macho é fértil, isto é capaz de originar descendentes. Esta capacidade pode ser predita através da observação da qualidade do seu ejaculado, sendo que esta pode variar ao longo da idade.
O objetivo deste estudo é avaliar a influência da idade na qualidade do ejaculado em cães de raça Dogue Alemão, assim como acompanhar a variação de diferentes parâmetros espermáticos nas 3 recolhas realizadas em 3 dias consecutivos.
Dezoito machos inteiros fizeram parte deste estudo, sendo divididos em dois grupos, consoante a sua idade. Doze machos foram incluídos no grupo A, com idades compreendidas entre os 12 meses e os 5 anos e seis machos inseridos no grupo B, com idade igual ou superior a 5 anos. Foram realizados três espermogramas em três recolhas obtidas em dias consecutivos, a cada animal, de forma a avaliar a qualidade espermática conforme a idade, assim como a evolução dos diferentes parâmetros espermáticos em cada animal ao longo das 3 recolhas. Neste estudo, apenas a 2ª fração do ejaculado foi avaliada, ou seja, a fração espermática, por ser a porção com a maior concentração de espermatozoides. Foi registado o volume e o aspeto, e, com recurso a um microscópio ótico, em amostras de cada ejaculado foi avaliada a mobilidade, a concentração, a morfologia e a integridade funcional.
Em ambos os grupos, todos os animais eram aparentemente saudáveis, sem patologias conhecidas ou sinais clínicos de doença evidentes do foro reprodutor ou outro.
No que diz respeito à distribuição da concentração espermática (C) entre o grupo A, dos jovens e adultos, e o grupo B, dos machos seniores, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas em nenhuma das três recolhas (C1 – p=0,151; C2 – p=0,335; C3 - p=0,180). Quanto à concentração total, aceitou-se a hipótese nula, de que a distribuição da concentração é a mesma ao longo da categoria dos dias de recolha, uma vez que não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nas três recolhas distintas (C – p=0,727). Em relação ao número total de espermatozoides (NºSPZ) também não se apuraram diferenças estatisticamente significativas nas três recolhas efetuadas (NºSPZ 1 – p=0,102;
V
Quanto à evolução da mobilidade total (MT)e progressiva (MP) ao longo dos três dias de recolhas, não foram observadas diferenças significativas quando se compararam as médias gerais de MT (p=0,838) e MP (p=0,986) para as três recolhas de cada exemplar. Em relação à mobilidade total, não existem diferenças significativas entre o grupo A e o grupo B, para MT1 (p=0,082), para MT2 (p=0,051) e para a mobilidade MT3 (p=0,167). Quanto à mobilidade progressiva, verificaram-se diferenças significativas entre grupos para MP1 (p=0,039) e para MP2 (p=0,045), não havendo diferenças significativas para MP3, uma vez que p=0,093.
Através do coeficiente de correlação de Spearman (r), notou-se existir uma correlação muito forte e muito significativa (> 0,900) entre o número total de espermatozoides e o número de recolhas. Da mesma forma, pelo teste não paramétrico H de Kruskall-Walis não se verificaram diferenças significativas na concentração (p=0,727).
Palavras-chave: cão, macho, Dogue Alemão, idade, sémen, concentração espermática, mobilidade.
VI
characteristics of certain breeds. For pet animals or dog show people search specimens with characteristics close to the standard. Thus, it is important to know well all the progenitors features.
When planning the mating it is important to know the right breeding moment when the male is fertile, and capable of generating descendants. This ability can be predicted by the observation of the ejaculate, which can vary over age.
The aim of this study is evaluate the influence of age on the quality of the ejaculate in Great Dane, as also monitor the evolution of the different spermatic parameters in 3 samples collected in 3 consecutive days.
Eighteen intact males were used in this study, being divided by age in two groups. Twelve males were included in group A, with ages between 12 month and 5 years. Group B had 6 males with more than 5 years old. Three spermograms were done in three samples taken in consecutive days at each animal, to evaluate the spermatic quality according to age, as also the evolution of the different spermatic parameter in each animal along the three collections. In this study only the 2nd fraction of the ejaculate was evaluated, it means only the spermatic fraction, because this is the portion with the highest spermatozoids concentration. The volume and the general appearance were recorded and using an optic microscope, the samples of each ejaculate were evaluated such as mobility, concentration, morphology and the functional integrity.
In both groups all the animals were apparently healthy, without pathologies or evident clinical signs of reproductive or even other illness.
Concerning the sperm concentration (C) distribution, no statistically significant differences were observed between group A (young and adults) and group B (senior males), in none of the three collects (C1 – p=0,151; C2 – p=0,335; C3 - p=0,180). Relating to the total concentration, the null hypothesis was accepted, that the concentration distribution is the same along the collecting days category, since no statistically significant differences were found between the three different collects (C – p=0,727). Concerning the spermatozoids total number (NºSPZ) no statistically significant differences were observed between the three collects (NºSPZ 1 – p=0,102; NºSPZ 2 – p=0,291; NºSPZ 3 – p=0,180), which means that there wasn't a significant reduction on the total number of spermatozoids along the collects.
VII
comparing the general average of MT (p=0,838) and MP (p=0,986) from the three collects of each exemplar. Concerning to total mobility distribution, no statistically significant differences were observed between group A and group B, for MT1 (p = 0.082), MT2 (p = 0.051) and MT3 (p = 0.167). Relating to the progressive mobility, statistically significant differences were found between groups for MP1 (p = 0.039) and for MP2 (p = 0.045), but with no statistically significant differences for MP3, since p = 0.093.
Through the Spearman's rank correlation coefficient (r), it was noted that exist a strong correlation and truly significant between the total spermatozoids number and the number of collects. In a similar way, by the non-parametric H test of Kruskall-Wallis no statistically significant differences were verified on concentration (p=0,727).
VIII Este trabalho encontra-se publicado:
Pinho C., Cardoso, L., Martins-Bessa A. Influência da idade na qualidade do ejaculado de cães da raça Dogue Alemão (2018). Apresentação sob a forma de poster no XIV Congresso do Hospital Veterinário Montenegro.
IX
Abstract ... VI
1. Nota Introdutória ... 1
2. Revisão Bibliográfica ... 3
2.1. Fisiologia Sexual Canina – Macho ... 4
2.1.1. Particularidades Anatómicas e Fisiológicas ... 4
2.2. A Raça – Dogue Alemão ... 5
2.3. A Seleção do Macho ... 7
2.4. Controlo Genealógico ... 7
2.5. Efeito da idade na qualidade do ejaculado ... 7
2.6. Causas de Infertilidade ... 8
2.6.1. Azoospermia ... 9
2.6.2. Criptorquidismo ... 10
2.6.3. Problemas Prostáticos ... 11
2.6.4. Machos Inférteis com fraca qualidade espermática no ejaculado ... 16
2.7. Qualidade do Sémen ... 22 2.7.1. Espermatogénese ... 22 2.7.2. Colheita de sémen ... 25 2.7.3. Avaliação espermática ... 27 3. Estudo ... 35 3.1. Objetivos ... 35 3.2. Material e Métodos ... 35 3.2.1. Animais ... 35 3.2.2. Recolha de Amostras ... 36
3.2.3. Processamento das Amostras ... 37
X
3.3.2. Relações entre os diferentes Parâmetros Espermáticos e as Variáveis
Independentes ... 41
3.3.3. Correlações entre Diferentes Parâmetros Espermáticos ... 51
4. Discussão ... 55
5. Conclusão ... 60
XI
Tabela 2 - Variáveis independentes de cada exemplar. ... 41
Tabela 3- Valores gerais de MT (recolhas 1,2,3) dos grupos A e B (n=17) ... 41
Tabela 4- Valores gerais de MP (recolhas 1,2,3) dos grupos A e B (n=17) ... 41
Tabela 5 - Número de espermatozoides com morfologia anormal nas três recolhas. ... 48
Tabela 6 - Correlação entre MT – MP – IF da 1ª recolha (n=17). ... 51
Tabela 7 - Correlação entre MT – MP – IF da 2ª recolha (n=17). ... 51
Tabela 8 - Correlação entre MT – MP – IF da 3ª recolha (n=17). ... 51
Tabela 9 - Correlação entre % total spz normais - % total spz anormais - IF da 1ª recolha (n=17). ... 52
Tabela 10 - Correlação entre % total spz normais - % total spz anormais - IF da 2ª recolha. . 52
Tabela 11 - Correlação entre % total spz normais - % total spz anormais - IF da 3ª recolha (n=17). ... 52
Tabela 12 - Correlação entre o volume total e a concentração (n=18). ... 53
Tabela 13 - Correlação entre o volume total e nº total de espermatozoides (n=18). ... 53
Tabela 14 - Correlação entre o número total de espermatozoides ao longo das três recolhas (n=18). ... 54
XII
Gráfico 1 - Concentração espermática da 1ª recolha (n=18). ... 43
Gráfico 2 - Concentração espermática da 2ª recolha (n=18). ... 43
Gráfico 3 - Concentração espermática da 3ª recolha (n=18). ... 44
Gráfico 4 - Variação da concentração (spz/ml) versus idade (grupo A e do grupo B) na recolha 1. ... 44
Gráfico 5 - Variação da concentração (spz/ml) versus idade (grupo A e do grupo B) na recolha 2. ... 45
Gráfico 6 - Variação da concentração (spz/ml) versus idade (grupo A e do grupo B) na recolha 3. ... 45
Gráfico 7 - Número total de espermatozoides recolha (n=18) da 1ª recolha. ... 46
Gráfico 8 - Número total de espermatozoides recolha (n=18) da 2ª recolha. ... 46
Gráfico 9 - Número total de espermatozoides recolha (n=18) da 3ª recolha. ... 47
Gráfico 10: Relação entre a percentagem de espermatozoides morfologicamente normais (eixo vertical) e a idade do exemplar, nas três recolhas.. ... 48
Gráfico 11 - Variação da integridade funcional (%) ao longo dos 3 dias de recolhas (1, 2, 3). (n=17) ... 49
XIII
Figura 2 - Espermatogénese (adaptado de Encyclopӕdia Britânica, Inc. 2010). ... 24
Figura 3 - Esquema de uma câmara de Neubauer.. ... 30
Figura 4 - Diferentes graus de turgescência de espermatozoides depois de efetuado o HOST. (adaptado de WHO, 2010). ... 31
Figura 5: Classificação das anomalias morfológicas espermáticas. Defeitos primários e secundários (adaptado de Noakes et al., 2001). ... 33
Figura 6 - Figura 6 - Rotação do pénis no sentido caudal 180º. ... 36
Figura 7 - Material utilizado para processamento das amostras. ... 37
Figura 8 - Imagem da camâra de Neubauer vista ao microscópio ótico. ... 38
XIV
CASA – Computer assisted sperm analysis (análise espermática computorizada assistida) CPC – Clube Português de Canicultura
DHT – Dihidrotestosterona DP – Desvio-padrão FA – Fosfatase alcalina
FCI – Federation Cynologique International FP – Fertilidade prévia
FSH – Hormona folículo estimulante
GnRH – Hormona libertadora de gonadotrofina HBP – Hiperplasia benigna da próstata
hCG - Gonadotrofina coriônica humana HOST – Hypoosmotic swelling test
HRVM – Hospital Referência Veterinário Montenegro IF – Integridade Funcional
IQR – Intervalo inter-quartil LH – Hormona luteinizante
LOP – Livro de Origens Português MT – Mobilidade total MP – Mobilidade progressiva Morf - Morfologia PI – Peça intermédia PMN – Células polimorfonucleadas Q - Quartil SPZ – Espermatozoides
TAC – Tomografia Axial Computorizada
UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
WHO – World Health Organization (OMS - Organização Mundial de Saúde) % - Percentagem
ºC – Graus Celsius
1
1. Nota Introdutória
A elaboração da presente dissertação ocorreu no âmbito do estágio curricular do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária.
A primeira etapa do estágio curricular decorreu entre 1 de Setembro a 31 de Outubro do ano 2016, na Clínica Veterinária de Custóias. Durante este período, foi possível acompanhar consultas de âmbito geral e de especialidade, assim como adquirir prática clínica e cirúrgica. Dentro da área clínica da reprodução foi possível colaborar em 2 partos de cadelas Dogue Alemão, 2 recolhas e avaliação de sémen, 9 citologias vaginais e 2 medições de progesterona, sendo todos os procedimentos realizados na mesma raça. Foram ainda efetuadas 3 recolhas seminais em machos de raça Montanha dos Pirinéus.
O estágio prosseguiu no Hospital Referência Veterinária Montenegro, entre 1 de Dezembro e 31 de Março de 2017. Neste espaço temporal, a prática clínica teve lugar sobretudo no internamento. Quando necessário, a ajuda nas consultas e na cirurgia era solicitada. A principal cirurgia realizada neste estabelecimento é a resolução de hérnia discal, na qual foi possível colaborar em cerca de 30 operações. Estes eram os casos clinicamente mais interessantes, uma vez que era possível acompanhar o caso em todos os passos, desde o diagnóstico através de tomografia axial computorizada (TAC) ou ressonância magnética até à sua evolução a nível ambulatório, sendo um processo muito gratificante e com uma grande taxa de sucesso. Em relação à área de interesse, a reprodução, foi possível observar um parto distócico de uma cadela Leão da Rodésia, cujo feto era o último e já se encontrava morto. Realizou-se um controlo de gestação numa cadela São Bernardo, através de ecografia e radiografia. E por fim efetuou-se uma citologia vaginal a uma Bulldog Francês, uma recolha e avaliação seminal a um macho da mesma raça e consecutiva inseminação artificial (já havia sido efetuada uma no dia anterior), que teve como resultado o nascimento de 7 cachorros.
A parte prática da presente dissertação, altura em que se realizaram as recolhas, contou com a colaboração da Clínica Veterinária de Custóias, com a Drª Raquel Vilaça, e com o apoio da Dogalmar, casa de criação de Dogue Alemão. As recolhas foram executadas em Alvre, pertencente ao concelho de Paredes, em 10 cães machos, e na morada correspondente a 8 machos de proprietários distintos.
A amostra integrada neste estudo é constituída por 18 exemplares machos da raça Dogue alemão, com idades entre os 12 meses e os 8 anos, dividida em 2 grupos. O grupo
2 A (dos 12 meses aos 5 anos) e grupo B (idade igual ou superior a 5 anos). Foram efetuadas recolhas seminais a cada animal durante três dias consecutivos, de forma a avaliar os diferentes parâmetros de qualidade espermática e comparar os mesmos entre grupos.
Para a realização deste trabalho, foi efetuada uma pesquisa bibliográfica sobre estudos anteriores dentro do mesmo tema, que permitisse comparar resultados e também descrever, de forma científica, o conhecimento teórico acerca deste assunto.
Ainda há muita informação que pode ser acrescentada sobre este tema. Numa altura em que o mercado nacional e internacional de sémen tem aumentado, deixo em aberto futuros estudos, de forma a fornecer um maior conhecimento a criadores, para que estes possam, cada vez mais, desempenhar melhor a sua função e aumentar o seu sucesso.
3
2. Revisão Bibliográfica
O cão (Canis Lupus Familiaris), subespécie da espécie Canis Lupus, convive com o Homem desde há cerca de 14 000 anos, tendo sido primeiro animal domesticado por este. No início, o seu papel começou por ser a caça, proteger o gado e as casas (Paldusová et al., 2013). Nos últimos anos, e com tendência crescente, a sua maior função é a de companhia, contudo, também se lhes aplicam outras tarefas, como cães-guia, para pessoas com deficiência visual ou de mobilidade; cães-polícia, para deteção de explosivos, estupefacientes e até detenções; ou cães de resgate, usados em operações de salvamento (Paldusová et al., 2013).
Com estas variadas utilidades, aliadas ao gosto cada vez maior por esta espécie, quer por razões de companhia, quer por questões de beleza, o Homem procura o seu aperfeiçoamento, tanto em termos de temperamento como em termos de morfologia. Este apuramento é conseguido através da seleção dos exemplares de cada linha e do controlo da sua atividade reprodutiva. Em 2004, Vĕžník e colaboradores, estimaram que entre 20-25% dos cruzamentos efetuados intencionalmente não cumpriam os requisitos básicos para o sucesso reprodutivo. Desta forma, torna-se essencial controlar todos os parâmetros e conhecer cada vez mais a fisiologia canina.
O estudo da reprodução de animais de companhia e respetivo maneio tem como objetivo obteruma maior taxa de sucesso, de forma a conseguir uma gestação saudável e com um número médio de crias correspondente a cada raça (Linde-Forsberg et al., 1999).
Estima-se que a maioria dos casos em que não se verifica fertilidade, se deva a um incorreto maneio de beneficiação por parte dos criadores ou proprietários. O que acontece provavelmente devido a um desfasamento entre a altura em que ocorre a ovulação e a monta ou inseminação artificial (Kustritz, 2006).
De forma a aumentar as probabilidades de fecundação, um dos principais aspetos a ter em conta durante o maneio reprodutivo é verificar se a cadela se encontra saudável, conhecer a sua história reprodutiva e determinar o intervalo em que ocorrerá o pico de maior fertilidade, procedendo-se a uma monta/inseminação artificial mais precisa. Deste modo, torna-se também essencial avaliar a capacidade reprodutiva do macho. Esta análise pode ser efetuada através da realização de um espermograma, que fornece uma previsão acerca do poder fecundante dos espermatozoides, de forma a posteriormente incluir o exemplar no lote reprodutivo (Eilts, 2005).
4 2.1. Fisiologia Sexual Canina – Macho
2.1.1. Particularidades Anatómicas e Fisiológicas
A anatomia do aparelho reprodutor de um macho apresenta particularidades em relação a machos de outras espécies. O seu pénis apresenta um osso peniano que facilita a penetração. Em raças com um temperamento mais nervoso, como o caso do Boxer, este osso é suscetível a fraturas durante o acasalamento ou tentativas de separação abrupta (Grandjean et al., 2003). Apresenta uma estrutura responsável pelo aprisionamento entre macho e fêmea, bulbus glandis, que ingurgita durante o acasalamento, e funciona como estímulo, provocando contrações vaginais, que contribuem para a progressão dos espermatozoides ao longo do trato reprodutivo feminino. O músculo bulbocavernoso estende-se até ao períneo e a sua estimulação manual pode auxiliar a ejaculação (Grandjean et al., 2003).
As vias genitais e urinárias convergem num determinado ponto, o colliculus seminalis (convergência do ducto deferente e dos ductos prostáticos na uretra prostática), o que pode levar a uma diminuição na qualidade do sémen aquando da ocorrência de afeções na próstata ou na bexiga, bem como contaminações seminais com vestígios de urina (Grandjean et al., 2003, Dyce et al., 2010).
Os testículos dos cachorros devem migrar em direção ao escroto até aos 10 dias de idade (Hoskins e Taboada, 1992; Memon, 2007), devendo-se verificar de forma regular a sua presença na bolsa escrotal até à puberdade. Isto porque em raças gigantes, o crescimento pode provocar tração e consequente migração pelo anel inguinal, ficando o testículo subido (Grandjean et al., 2003).
O início da puberdade depende essencialmente do tamanho da raça quando adulta. As raças mais pequenas começam a produzir os primeiros espermatozoides entre os 5 e os 8 meses, enquanto que nas raças de grande porte esse processo pode acontecer até aos 18 meses. Nas raças gigantes, os machos podem mesmo só atingir a fertilidade completa entre os 15 e os 24 meses de idade. No sentido inverso, a fertilidade nestes cães de raças maiores diminui de forma mais abrupta. Estima-se que por volta dos 5 ou 6 anos de idade a concentração e a viabilidade já seja bem mais reduzida (Grandjean et al., 2003; Fontbonne, 2005).
A ejaculação do cão é constituída por 3 fases e pode ser algo longa, chegando por vezes aos 30 minutos. A primeira fração, pré-espermática, tem origem na próstata, é translúcida e funciona como lubrificante. A fração espermática, com um aspeto leitoso, é, como o nome indica, a que contém os espermatozoides. Finalmente, a fração mais volumosa,
5 a prostática, de aspeto translúcido, que tem como objetivo funcionar como diluidor e adaptar o volume do sémen ao comprimento do trato genital feminino (Grandjean et al., 2003; Yamashiro et al., 2009). O fluido prostático representa 97% do volume do ejaculado total e tem uma função fundamental na sobrevivência dos espermatozoides ao longo do trato reprodutor feminino (Yamashiro et al., 2009). Este fluido para além de constituir a 3ª fração, aparece numa pequena quantidade na 1ª fração (Esteve, 2009). O estímulo parassimpático durante a ereção leva a próstata a aumentar a taxa de produção de líquido; depois, o estímulo simpático faz com que a ejaculação ocorra (Francey, 2010).
Quanto ao número de espermatozoides, este é influenciado pelo tamanho da raça, pela idade, pela frequência dos cruzamentos, pela abstenção sexual e pelo equilíbrio hormonal. Estas células são bastante sensíveis a variações ambientais, como alteração da temperatura, do pH, contacto com substâncias espermicidas ou manipulações mais bruscas. Dentro do aparelho genital feminino podem sobreviver até 11 dias (Karre et al., 2012).
2.2. A Raça – Dogue Alemão ➢ HISTÓRIA
O país de origem do Dogue Alemão (Figura 1) é, como o nome indica, a Alemanha. É reconhecido como cão de guarda e proteção, sendo também um ótimo cão de companhia (FCI, 2012).
O antigo "Bullenbeisser" assim como os "Hatz und Saurüden” (cães de caça ao javali), são considerados os antepassados do atual Dogue Alemão. A sua morfologia era um misto do poderoso Mastim Inglês e de um lebreiro ágil e rápido. Como não pertenciam a uma raça particular, foi-lhes atribuído o termo "Dogue", por serem grandes e fortes. Posteriormente, foram utilizados nomes como "Dogue de Ulmer", "Dogue Inglês", "Grande Dinamarquês", "Hatzrüde" (cão de caça), "Saupacker" e "Grande Cão", classificando este tipo de cães de acordo com o tamanho e cor (FCI, 2012).
No ano de 1878, foi criada, em Berlim, uma comissão onde surgiu o conceito "Deutsche Doggen", Dogue Alemão. Em 1880, durante uma exposição em Berlim, foi estabelecido o primeiro estalão para o Dogue Alemão. Este estalão é controlado pelo "Deutsche Doggen Club 1888 e.V." e revisto ao longo dos anos. A versão atual define o
6 modelo da Federação Cinológica Internacional (Federation Cynologique International - FCI)
(FCI, 2012).
A classificação, segundo a FCI, insere esta raça no Grupo 2: Cães de tipo Pinscher e Schnauzer, Molossóides e Cães de Montanha e Boieiros Suíços. Dentro do grupo, pertence à Secção 2: Molossóides, ao Ponto 2.1: Tipo Dogue. Sem prova de trabalho (FCI, 2012).
➢ ESTALÃO
A sua aparência é descrita como sendo nobre, combinando uma estrutura grande e forte, com orgulho, força e elegância. A sua harmonia, as suas linhas bem proporcionadas assim como a sua cabeça bastante expressiva, impressiona o observador como uma estátua nobre. Não deve ser rude nem refinadamente elegante, mas sim perfeitamente equilibrado e com dimorfismo sexual bem definido (FCI, 2012).
Quanto ao seu temperamento, este deve ser amável, carinhoso e devoto com os seus donos, sendo um excelente cão de família. Com estranhos pode ser reservado, mas pretende-se que pretende-seja pretende-seguro de si mesmo. Deve resistir a provocações e não pretende-ser agressivo (FCI, 2012).
A sua estrutura deve ser quase quadrada, especialmente nos machos. As fêmeas podem ser um pouco mais alongadas. A sua altura ao garrote, o ponto mais alto do corpo, é de pelo menos 80 cm nos machos, não devendo exceder os 90 cm. As fêmeas devem ter pelo menos 72 cm e não devem exceder os 84 cm (FCI, 2012).
Os cruzamentos nesta raça são efetuados em três variações de cor de forma separada: Dourado e tigrado, arlequim e preto, e azul (FCI, 2012). Tal como outras raças, os machos devem apresentar os dois testículos completamente descidos e apenas devem ser utilizados para reprodução exemplares saudáveis e funcionais (FCI, 2012).
7 2.3. A Seleção do Macho
Quando se pretende perpetuar uma ou várias características de qualidade de um animal, quer seja pelo seu caráter, quer pelas suas características morfológicas, é necessário avaliar a sua fertilidade. Se um macho se encontra na puberdade ou nunca efetuou um cruzamento anteriormente, não tendo por isso um feedback sobre o seu poder reprodutivo, é aconselhado avaliar previamente a qualidade do sémen (Freshman, 2002).
2.4. Controlo Genealógico
A melhor prova, e a confirmação absoluta, da fertilidade de um macho continua a ser a sua descendência, além de que a análise desta permite também uma avaliação da sua qualidade genética. É importante verificar ainda a prolificidade das ninhadas anteriores (Filipčik et al., 2010).
Contudo, na altura de cada cruzamento, é recomendável realizar um novo espermograma. Além de verificar o potencial de fertilidade no momento, uma vez que existem causas de infertilidade adquirida, otimiza o sucesso reprodutivo de um canil (Saacke, 2006).
2.5. Efeito da idade na qualidade do ejaculado
No ser humano, o avançar da idade tem efeitos prejudiciais na função testicular. Com o avanço da idade associado à degenerescência do tecido testicular, a produção diária espermática é afetada (Rijsselaere et al., 2007). No homem, a diminuição da mobilidade espermática é um dos achados mais notáveis nos ejaculados de doadores seniores (Sloter et al., 2006). Além disso, observa-se uma maior taxa de degenerescência nuclear nos espermatozoides em indivíduos com mais de 41 anos (Silva et al., 2012).
No entanto, se no Homem se encontra bem estudado o efeito da idade na qualidade do ejaculado, nos cães poucos estudos foram publicados acerca deste tópico. Estima-se que a idade tenha relação com a qualidade espermática, uma vez que quando se utiliza um macho a partir dos 7 anos de idade se verifica uma redução na taxa de conceção e ninhadas com um número mais reduzido de crias (Johnston et al., 2001).
8 Com o aumento da idade, verifica-se uma tendência para a diminuição da percentagem de espermatozoides normais, quer em termos de mobilidade quer em termos morfológicos. Esta redução pode dever-se a uma incompleta espermatogénese ou a alterações durante este processo nos túbulos seminíferos, a degenerescência testicular ou à falta de espermátides maturas em número suficiente (Rijsselaere et al., 2007). Outras causam podem ser a diminuição da secreção de testosterona ou a ocorrência de tumores testiculares, que ocorrem sobretudo em machos mais velhos, a partir dos 7/8 anos (Rizzoto et al., 2016).
Sabe-se que machos de raças gigantes atingem a puberdade mais tardiamente do que raças pequenas ou médias. Por outro lado, envelhecem mais rápido, o que faz com que o tecido testicular também se degrade, ocorrendo uma redução mais precoce do volume do ejaculado e uma diminuição da qualidade dos parâmetros espermáticos ao longo da idade. Estima-se que cães de raça pertencentes ao grupo dos molossóides sofrem um decréscimo na fertilidade por volta dos 5 ou 6 anos de idade. (Fontbonne et al., 2005). Uma particularidade que pode induzir em erro um observador que avalie, pela primeira vez, sémen obtido de um cão de raça gigante, é que os espermatozoides de cães maiores são tendencialmente mais lentos que os de outras raças (Rijsselaere et al., 2007). À primeira observação pode pensar-se que é devido à idade ou a outro problema existente, mas é uma característica de machos desta envergadura. Existem várias hipóteses para explicar este fenómeno. A mais aceite é, tal como sugerido para bovinos, que um maior peso corporal pode afetar a termorregulação testicular, pela diminuição das perdas de calor, levando a um aumento da temperatura testicular, o que terá consequências negativas sobre a qualidade do sémen (Hoflack et al., 2006). Outra explicação passa pelo facto de os espermatozoides de raças grandes apresentarem maiores dimensões, levando a que se movam de forma menos coordenada, o que pode afetar a velocidade (Rizzoto et al., 2016).
2.6. Causas de Infertilidade
A infertilidade canina, em exemplares masculinos, é um problema, especialmente para criadores, podendo representar perdas financeiras tanto no aspeto da descendência do próprio canil, como no facto de impedir a comercialização do seu sémen ou de montas naturais (Memon, 2007).
Em machos suspeitos de infertilidade, a história reprodutiva, assim como a sanitária, deve ser recolhida, seguida de um exame físico completo. A história reprodutiva consiste nos
9 cruzamentos já efetuados, nas ninhadas obtidas, no número de cachorros de cada ninhada e no rácio entre nados vivos e nados mortos (Romagnoli, 2002; Memon, 2007).
A parte sanitária deve incluir todos os problemas apresentados anteriormente pelo animal, assim como o plano vacinal e a sua alimentação, se possível. Os testículos devem ser palpados com delicadeza e medidos, com recurso a um paquímetro, por exemplo (Memon, 2007).
Para avaliação da próstata recorre-se à palpação digital. O recurso à ecografia faz parte do plano de estudo destas duas estruturas, à qual se deve associar a colheita de sémen e proceder à sua avaliação. Se após os exames referidos não se conseguir chegar a um diagnóstico de doença prostática, podem ser realizados testes endócrinos (às hormonas masculinas ou da tiroide), analisar o cariótipo, fazer uma cultura do sémen ou uma biopsia testicular (Memon, 2007; Purswell et al., 2010; Romagnoli, 2012).
2.6.1. Azoospermia
Um ejaculado em que não se regista a presença de qualquer espermatozoide e onde apenas é recolhido líquido seminal denomina-se por azoospérmico (Romagnoli, 2006).
Estima-se que cerca de 35% dos machos na espécie canina sejam azoospérmicos (Romagnoli, 2006). Apesar deste número, se um macho ejacular fluido sem espermatozoides, não deve ser imediatamente atribuída azoospermia, uma vez que alguns exemplares, se não forem devidamente estimulados, estiverem ansiosos ou fora do seu ambiente, podem expelir apenas líquido seminal. Para confirmar esta anomalia, o cão deve sentir-se confortável e estimulado na presença de uma cadela em cio (Memon, 2007).
Alguns animais podem já ter originado descendência, mesmo que apresentem azoospermia. A idade avançada pode ser uma das explicações (Memon, 2007).
A azoospermia pode ocorrer devido a três tipos de causa: pré-testicular, testicular e pós-testicular. A causa pré-testicular, como consequência de distúrbios endócrinos, entre eles o hipotiroidismo e o síndrome de Cushing. A testicular, por neoplasias, traumas, lesões variadas, criptorquidismo bilateral ou ainda como resultado de um aumento de temperatura por hérnia escrotal ou febre prolongada, levando a degenerescência testicular. A azoospermia pós-testicular tem como causas mais frequentes obstruções primárias à libertação do sémen, como aplasia segmentária dos epidídimos, ejaculação retrograda, espermatocélio, granuloma espermático ou a ocorrência de uma ejaculação incompleta (Memon, 2007).
10 Assim, antes de afirmar a causa ou diagnosticar azoospermia, a concentração de fosfatase alcalina que é secretada pelo epidídimo deve ser mensurada no ejaculado. Um valor acima dos 5000 UI/l indica que o ejaculado foi expelido por completo, sendo este um valor normal (Olson et al., 1987; Romagnoli, 2002). Se associado a este valor não se encontram espermatozoides, poderá ser indicativo de ausência de produção de espermatozoides nos testículos ou um bloqueio entre os testículos e os epidídimos (Romagnoli, 2006). Caso os valores sejam baixos, pode ser uma situação de bloqueio epididimal ou ejaculação incompleta. Desta forma, deve proceder-se a uma nova recolha, com o macho sob um estímulo mais forte e num ambiente mais favorável. Outros recursos como a ecografia testicular e epididimária e a sua cuidadosa palpação devem ser utilizados (Kustritz, 2007).
2.6.2. Criptorquidismo
O termo “criptorquidia” tem origem na palavra grega “criptos” que significa oculto, e na palavra “orqui” que significa testículo. No saco escrotal devem estar presentes dois testículos normais. Caso não se encontre nenhum testículo, o animal é criptorquídeo bilateral. Se apenas se verifica a presença de um, designa-se por criporquidismo unilateral, o que representa a situação mais comum (Memon et al., 2001).
Em certos casos, acontece que os testículos descem, mas posteriormente verifica-se a ausência de um dos testículos no escroto. Isto acontece porque nos cachorros os testículos são pequenos, moles e podem-se mover através do canal inguinal, com maior frequência se o animal for exposto a stress ou se se sentir assustado (Romagnoli, 1991; Howard et al., 1989). A oclusão do canal inguinal dá-se por volta dos seis meses de idade, deste modo, apenas se pode afirmar que um macho é criptorquídeo a partir desta altura, uma vez que os testículos deixam de conseguir migrar através do canal (Johnston et al., 2001).
Esta anomalia é hereditária, condicionada por um gene autossómico recessivo ligado ao sexo (Johnston et al., 2001). Está associada com maior frequência a raças puras do que a cães sem raça definida e com maior incidência em raças pequenas do que em grandes, apresentando maior prevalência em Cocker Spaniels e Schnauzers miniatura (Cox et al., 1953; Memon et al., 2001). Os testículos retidos, na cavidade abdominal ou a nível subcutâneo na região inguinal, são normalmente mais pequenos e os túbulos seminíferos possuem um menor diâmetro (Kawakami et al., 1988). Há uma maior predisposição para o desenvolvimento de neoplasias em testículos retidos do que em testículos escrotais, estimando-se que esta percentagem seja 9 a 14 vezes mais elevada (Pendergrass et al., 1975;
11 Hays, et al. 1985; Liao et al., 2009). Os tumores mais comuns são os das células de Sertoli e os seminomas benignos (Reif et al., 1969; Liao et al., 2009).
Para a produção normal de sémen, os testículos devem estar na bolsa escrotal, onde a temperatura é cerca de 4 a 5ºC mais baixa comparativamente com a temperatura corporal. Contudo, um animal criptorquídeo unilateral pode apresentar sémen viável, mas usualmente com baixa qualidade. Por sua vez, os animais criptorquídeos bilaterais são estéreis na sua grande percentagem (Memon, 2007).
Esta patologia não afeta a produção de testosterona, pelo que animais criptorquídeos demonstram líbido e apresentam ereções (Badinand et al., 1972; Matheeuws et al., 1989; Kawakami et al., 1995).
O reconhecimento de um macho criptorquídeo pode ser feito através da visualização e palpação cuidadosa da bolsa escrotal e da área inguinal. No caso de testículos retidos na zona abdominal, a palpação é difícil e deve-se recorrer à ecografia, que também nem sempre é conclusiva. Como alternativa, para um teste mais fiável no diagnóstico de criptorquidismo é recomendado efetuar um teste de estimulação, que consiste na administração das hormonas hCG ou GnRH de forma a aumentar as concentrações sanguíneas de testosterona. Efetuam-se duas medições: uma medição imediatamente antes e uma outra 60 minutos após a administração (Purswell et al., 1993). Um aumento considerável dos valores de testosterona revela ciptorquidismo (Memon, 2007).
A castração bilateral é o tratamento de eleição. Esta é uma patologia hereditária e como tal os animais afetados devem ser excluídos da reprodução, assim como, idealmente, os seus progenitores (Memon, 2007).
A orquiopexia do testículo retido também pode ser uma solução, embora controversa. Em 1995, Kawakami e colaboradores, referiram no seu estudo uma melhoria na qualidade do sémen em animais sujeitos a este procedimento (Kawakami et al., 2005).
O tratamento médico mais comum, porém controverso segundo alguns estudos, por falta de controlo, é o recurso a hormonas, a hCG ou a GnRH, de forma a aumentar a libertação de LH (Memon, 2007).
2.6.3. Problemas Prostáticos
A próstata é uma glândula exócrina localizada caudalmente à bexiga, com forma semelhante a uma noz, composta por dois lobos simétricos que rodeiam a uretra e formam uma rafe mediana dorsal (Wallace, 2001).
12 O líquido seminal é aqui produzido e libertado na uretra durante a ejaculação, funcionando como diluidor do esperma. Outra função da próstata é converter, nas suas células epiteliais, a testosterona produzida pelas células de Leydig nos testículos em dihidrotestosterona (DHT). A enzima responsável por esta conversão é a 5-alpha redutase e transforma a testosterona numa forma muito mais ativa, que regula o desenvolvimento e função da próstata (Wallace, 2001).
2.6.3.1. Hiperplasia Benigna Prostática
A hiperplasia benigna prostática (HBP) é a patologia mais comum em machos inteiros relacionada com a idade (Lobetti, 2007; Nelson et al., 2009; Esteve, 2009). Define-se por uma hiperplasia e hipertrofia das células epiteliais, o que se traduz num aumento do número e do tamanho das células, respetivamente. Este desenvolvimento é influenciado pela alteração do rácio andrógenios/estrogénios (Verstegen, 2002; Barsanti, 2008). Em machos com mais de 5 anos está descrito que uma percentagem acima dos 80% apresenta sinais visíveis ou microscópicos de hiperplasia benigna prostática (Sirinarumitr et al., 2001). O volume prostático de cães afetados é de 2 a 6,5 vezes maior que o de outros animais com o mesmo peso corporal (Ruel et al., 1998).
Apesar da patogenia desta doença não estar totalmente compreendida, é aceite que a hormona DHT esteja envolvida (Smith, 2008).
Em termos de predisposição, não há nenhuma raça descrita como sendo mais frequentemente afetada (Memon, 2007).
O registo de corrimentos uretrais sanguinolentas pode ser o único sinal visível. A hematúria pode ser visível a olho nu ou detetada em análises feitas à urina. A hemospermia também pode ser observada em recolhas de sémen através de estimulação manual (Memon, 2007).
A história do animal, um correto exame físico, a avaliação do fluido e da imagem da próstata são passos importantes para a obtenção de um diagnóstico presuntivo de HBP (Memon, 2007).
O diagnóstico baseia-se na confirmação do aumento do volume prostático por palpação e ecografia e na exclusão de outras doenças prostáticas como neoplasias ou prostatite (Johnston et al., 2001).
O tamanho e a forma da próstata podem ser avaliados através de palpação retal, com o uso de uma luva e o dedo lubrificado. Hiperplasias com desenvolvimento mais cranial podem
13 ser difíceis de palpar. Nestes casos, é necessário fazer pressão abdominal no sentido caudal, de modo a empurrar a próstata para trás e auxiliar a palpação (Memon, 2007).
O recurso à radiografia abdominal não revela diretamente o desenvolvimento de uma hiperplasia prostática benigna, mas pode ser útil na medida em que se consegue verificar o deslocamento cranial da bexiga e o deslocamento caudal do cólon, caso exista (Johnston et al., 2001).
A ecografia revela um parênquima homogéneo em caso de HBP, embora com aumento de ecogenicidade, com ou sem lesão cavitária quística (Feeney et al., 1987; Memon, 2007). A HBP leva à presença de uma ecogenicidade ligeiramente aumentada. A forma da glândula pode mudar de bilobada para circular no plano transversal. O parênquima pode ter uma aparência estriada. Os quistos, preenchidos com fluidos, são observados como estruturas hipoecoicas dentro da próstata (Davidson et al., 2009).
A realização de culturas bacterianas de urina e de sémen apresentam um resultado normal, a não ser que a infeção se instale e sobreponha à patologia prostática (Johnston et al., 2001).
O diagnóstico definitivo (Gold standard) é efetuado através de uma biopsia transabdominal ecoguiada da próstata. Histopatologicamente, é comum encontrar ácinos dilatados rodeados por músculo liso e tecido conjuntivo fibroso, não sendo observadas células inflamatórias. Todavia a biopsia nem sempre é necessária para alcançar o diagnóstico de HBP. (Memon, 2007).
A castração é o tratamento recomendado na maioria dos casos (Nelson et al., 2009). O volume prostático pode reduzir até 50% nas primeiras 3 semanas e até 70-75% em 9 semanas. O corrimento diminui assim como as concentrações de DHT (Barsanti et al., 1995). Contudo, em machos de elevado valor reprodutivo, ou que não podem ser submetidos a cirurgia, o tratamento médico pode prevenir a progressão da hiperplasia e consequente subfertilidade (Johnston et al., 2001; Sirinarumitr et al., 2001; Barsanti, 2008; Romagnoli et al., 2012).
Nos casos em que se opta pelo tratamento médico, há várias soluções descritas. Na categoria dos antiandrogénios está a flutamida, o acetato de delmadinona, o acetato de ciproterona (Androcur®) e acetato de osaterona (Ypozane®). Este último é comummente
utilizado e é um produto com uma elevada atividade progestagénia e antiandrogénia, o que diminui a ação da testosterona no parênquima prostático. Possui um efeito relativamente rápido, uma vez que normalmente após duas semanas já se observa uma resposta clínica. Está descrito que não afeta a líbido nem altera o espermograma (Lévy et al., 2009). É necessário
14 ter em atenção que, como os fármacos deste grupo inibem a produção de androgénios, podem levar à inibição da espermatogénese e causar azoospermia ou oligospermia (Nelson et al., 2009; Francey, 2010).
Entre os inibidores da hormona luteinizante (LH) está o acetato de medroxiprogesterona e o acetato de megestrol. São progestágenios e, como inibidores da LH, fazem com que as concentrações de testosterona diminuam por feedback negativo sobre o hipotálamo (Smith, 2008).
Em desenvolvimento estão os análogos da hormona libertadora de gonadotrofina (GnRH). São compostos que, como o nome indica, sendo análogos à GnRH, ocupam os seus recetores na hipófise, e, por feedback negativo, suprimem a função do eixo hipotálamo-hipófiso-gonadal. Este processo diminui a libertação da LH e da FSH, o que conduz a uma diminuição das concentrações de testosterona e de progesterona (Esteve, 2009; Romagnoli et al., 2012).
No grupo dos inibidores da 5α-redutase destaca-se o esteroide finasteride (Proscar®), que tem sido o tratamento médico mais utilizado nos casos de HBP. Este fármaco provoca a diminuição do diâmetro e volume prostático, uma vez que bloqueia a via que converte a testosterona em DHT. No estudo de Francey (2010), é referido que a concentração sérica de DHT diminui em 20%, 43% e 58%, respetivamente, em 2 a 4 semanas. Este medicamento, segundo Sirinarumitr e colaboradores, pode ser usado sem provocar alterações na qualidade do sémen ou nas concentrações séricas de testosterona (Sirinarumitr et al., 2001).
2.6.3.2. Prostatite
Trata-se de uma inflamação da próstata, provocada frequentemente por uma infeção bacteriana. Esta anomalia é rara em cães castrados, devido à atrofia da glândula prostática (Wallace, 2001). Afeta maioritariamente machos em idade avançada e ocorre associada a hiperplasia prostática benigna (Memon, 2007).
Os sinais clínicos apresentados podem ser hematúria, hemospermia ou ambos. Através de uma urianálise pode ser observado piúria, bacteriúria, hematúria e um aumento das células epiteliais escamosas. A citologia realizada à 3ª fração do ejaculado pode conter um elevado número de leucócitos (Memon, 2007).
Gradil, em 2006, juntamente com os seus colaboradores, referiu que o tratamento pode ser realizado através de antibioterapia com enrofloxacina ou trimetropim-sulfametoxazol,
15 num período de 4 a 6 semanas. Em caso de prostatite associada a HPB é recomendada a castração, porque é provável que a situação se repita (Wallace, 2001).
2.6.3.3. Quistos Prostáticos
Os quistos prostáticos são frequentemente assintomáticos, por isso são maioritariamente achados acidentais durante a realização de uma ecografia prostática (Gradil et al., 2006).
Nos casos assintomáticos, o exame laboratorial do quisto é pouco comum, contudo, em casos sintomáticos, a sua avaliação pode fornecer bastante informação. Os sinais clínicos mais comuns são letargia, disúria, hematúria secundária à hemorragia quística e tenesmo (Memon, 2007).
Normalmente, estes quistos não interferem com a função prostática, mas caso se tornem demasiado grandes, o tratamento cirúrgico deve ser considerado. Este pode passar por drenagem quística por aspiração, marsupialização, resseção ou prostatectomia parcial (Memon, 2007).
2.6.3.4. Neoplasias
Entre os machos que apresentam doenças prostáticas, estima-se que 5 a 7% dos casos sejam neoplasias (Wallace, 2001). A neoplasia mais comum é o adenocarcinoma (Wallace, 2001; Gradil et al., 2006). Há também registos de leiomiossarcomas, hemangiossarcomas e carcinomas de células de transição. O adenocarcinoma afeta maioritariamente machos com idade avançada, atingindo tanto machos inteiros como castrados (Memon, 2007). Baseado num estudo retrospetivo, publicado em 2002, Teske e colaboradores, referiram que a castração pode ser um fator de risco para o desenvolvimento da neoplasia
Os sinais clínicos mais comuns são idênticos aos de outras doenças prostáticas, como hematúria, estrangúria, descarga uretral sanguinolenta e tenesmo. Em casos mais avançados também se pode denotar dor na zona abdominal caudal ou na zona lombar, perda de peso, fraqueza nos membros posteriores, falta de apetite ou caquexia (Memon, 2007).
À palpação retal, a próstata encontra-se com tamanho aumentado e de forma irregular, podendo estar aderida ao fundo da pélvis. À imagem ecográfica, a próstata aparece hiperecóica e na imagem radiográfica há a possibilidade de serem encontrados ossos com formações irregulares nas vértebras lombares e no íleo. As metástases mais frequentes
16 ocorrem nas vértebras lombares, na pélvis, nos pulmões e nos linfonodos regionais (Gradil et al., 2006).
O prognóstico é muito reservado, sendo a sobrevida entre 1 a 2 meses após diagnóstico (Memon, 2007).
A quimioterapia parece ser a melhor opção quanto ao tratamento. Apesar dos protocolos ainda não serem muito bem-sucedidos, é possível aumentar o tempo de vida do animal. A resseção cirúrgica não é uma solução muito indicada, uma vez que o animal se torna permanentemente incontinente urinário (Memon, 2007).
2.6.4. Machos Inférteis com fraca qualidade espermática no ejaculado
Nesta categoria, a infertilidade define-se pelas características do sémen, incluindo-se neste grupo apenas os machos com líbido suficiente para ejacular, capacidade para ejacular normalmente e espermatozoides no ejaculado (Meyers-Wallen, 1991).
Nestes casos, a história completa, doenças, medicação, vacinação, testes laboratoriais e mesmo a dieta têm que ser tidos em consideração. A história reprodutiva deve ser analisada, desde os cruzamentos efetuados até ao número de crias por ninhada (Meyers-Wallen, 1991).
A infertilidade pode ser congénita ou adquirida. Nos machos inférteis no presente, mas que já originaram descendência no passado, diz-se que a infertilidade é adquirida. Isto pode ser resultado de fatores ambientais, tais como hipertermia escrotal, efeitos secundários a medicamentos, infeções ou toxinas. Nos casos congénitos, os defeitos hereditários podem estar na origem de problemas na espermatogénese e a oligospermia tem tendência a evoluir para azoospermia (Meyers-Wallen, 1991).
2.6.4.1. Contagem de Espermatozoides e Fluido Seminal Normais
Os parâmetros espermáticos, nas recolhas dos animais inseridos nesta categoria, encontram-se normais ao longo de diferentes dias. Raramente machos inférteis estão inseridos neste grupo. Casos em que a cadela é infértil ou os cruzamentos são inadequados também devem ser excluídos desta classificação (Meyers-Wallen, 1991).
Todos os aspetos reprodutivos devem ser avaliados com atenção, incluindo resultados dos testes de Brucella canis em cadelas utilizadas nos cruzamentos, assim como o número de partos, a frequência de montas realizadas (todos os dias, dia sim/dia não, a cada dois dias, etc.), o método de inseminação (monta natural, inseminação artificial, etc.) e o método de
17 determinação do momento ideal da monta (comportamental, citologia vaginal, progesterona, etc.) (Meyers-Wallen, 1991).
O sémen deve ser avaliado várias vezes, sob as mesmas condições, em diferentes dias. Se todas as características são normais, mas a infertilidade continua presente, existem três situações possíveis:
➢ Machos com sémen normal e líbido normal, mas subférteis:
Geralmente, são machos com parâmetros reprodutivos normais, mas que originam pouca descendência. Pode ser resultado de fatores hereditários ou ambientais. A hipótese de existir uma funcionalidade anormal dos espermatozoides, não detetada nos testes clássicos de avaliação seminal, também deve ser tida em conta. O diagnóstico é obtido por exclusão (Meyers-Wallen, 1991). A fertilidade pode ser melhorada com um bom maneio reprodutivo ou tentativas com outra cadela (Memon, 2007).
➢ Machos com sémen normal, mas líbido reduzida:
É pouco comum um macho ter sémen normal e pouca libido. Se um macho apresenta concentrações periféricas de testosterona normais, a causa da líbido reduzida pode ser dor física como displasia, dor na coluna vertebral, doenças prostáticas ou problemas comportamentais ou neurológicos (Meyers-Wallen, 1991).
A ereção e ejaculação devem ser obtidas através de uma estimulação apropriada. Se tal não for conseguido, a concentração periférica de testosterona deve ser reavaliada, uma vez que certas medicações, como o cetaconazole (Willard et al., 1986), podem reduzir a secreção da testosterona. É recomendado realizar o teste de estimulação com GnRH e medição de FSH, LH e testosterona (Fadok et al., 1986).
A administração de testosterona exógena não é aconselhável, pois esta pode suprimir a produção de testosterona intratesticular ao longo do tempo, reduzindo assim a produção de espermatozoides (Freshman et al., 1987).
Se um cão demonstrar medo, mas fisicamente parecer normal, assim como apresentar respostas normais ao teste de estimulação de esteroides e gonadotropinas, deve ser alvo de uma avaliação comportamental, seguido de um protocolo terapêutico. Nestas situações, se o sémen recolhido for normal, a inseminação artificial também pode ser uma solução, gerando frequentemente descendência com sucesso (Meyers-Wallen, 1991).
18 ➢ Machos com sémen aparentemente normal, mas cuja contagem de espermatozoides
altera-se significativamente com ejaculação frequente:
O número de espermatozoides no ejaculado varia consoante diversos fatores, tais como a idade, a frequência de ejaculação e o tamanho testicular. Em machos normais, ejaculações frequentes não provocam diminuição da produção de espermatozoides nos testículos, mas levam à diminuição das reservas nos epidídimos, o que tem como consequência a diminuição de espermatozoides no ejaculadoapós um grande número de ejaculações(Amann, 1982; Olar et al., 1983).
Um bom método para avaliar a função testicular de forma não-invasiva é através da contagem de espermatozoides no ejaculado. Para calcular o número diário, são feitas recolhas durante sete dias consecutivos. Apenas as contagens da sexta e da sétima recolha podem ser consideradas como representação da produção diária de espermatozoides dos testículos (Olar et al., 1983).
Alguns cães, sobretudo os mais velhos, apresentam um número de espermatozoides no ejaculado perto do limite inferior do intervalo considerado normal (50 a 200 milhões de espermatozoides por mL) quando se realiza apenas uma recolha. Contudo, após a segunda ou terceira recolha, o número desce abaixo desse intervalo (Meyers-Wallen, 1991).
O recurso a fêmeas com fertilidade comprovada ajuda a perceber e a avaliar a fertilidade de um macho com sémen aparentemente normal, mas cujo número de espermatozoides se altera consoante as ejaculações. Um correto maneio reprodutivo aumenta as probabilidades de um macho, com baixa qualidade espermática, obter descendência. De forma a permitir a acumulação de reservas espermáticas, os animais inseridos nesta categoria não devem ejacular nos 4 dias antecedentes ao acasalamento. Os cruzamentos naturais ou recolhas para inseminações artificiais não devem ser realizados todos os dias. Os animais devem ter um intervalo de descanso de 48 horas entre cada tentativa de cruzamento (Meyers-Wallen, 1991).
2.6.4.2. Concentração, mobilidade e morfologia normais, com um dos seguintes parâmetros:
➢ Fluido seminal com aspeto anormal:
Um volume reduzido de fluído prostático (3ª fração) está descrito em animais com hiperplasia prostática quística avançada, o que pode levar a um reduzido volume seminal.
19 Contudo, é difícil definir se o volume é ou não realmente diminuto, a não ser que se tenham efetuado medições anteriormente, na ausência da patologia (Meyers-Wallen, 1991).
O fluido prostático normal é claro e sem células. No caso de ser amarelado, pode ser indicativo da presença de urina e é aconselhado realizar um exame urológico. Uma coloração esverdeada pode ser reveladora de um exsudado purulento, obtendo-se a confirmação através de uma citologia. A presença de hemoglobina ou glóbulos vermelhos pode conferir uma cor vermelha ou castanha ao fluído seminal. Neste último caso, atribui-se a designação de hemospermia ou hematospermia e, se não ocorreu nenhum trauma durante a recolha espermática, devem ser realizados exames adicionais de forma a excluir HBP, neoplasia ou prostatite bacteriana (Meyers-Wallen, 1991).
O pH normal do fluído prostático considerado normal situa-se entre 6,0 e 7,4, com uma média de 6,8 (Feldman et al., 2004). Devido a prostatites bacterianas o pH pode tornar-se ácido ou alcalino. Na avaliação citológica, há a possibilidade de observar glóbulos vermelhos, neutrófilos e células mononucleares em doenças prostáticas asséticas, como na hipertrofia quística. No caso de prostatites agudas ou crónicas, podem ser vistos neutrófilos degenerativos, glóbulos vermelhos e células mononucleares, assim como bactérias (Olson, 1989).
➢ Elevado número de glóbulos brancos:
O número médio de glóbulos brancos, avaliado através da 1ª e 2ª fração, é de ≤2000/µL. Um número acima destes valores deve ter em consideração a realização de uma avaliação citológica e cultura para bactérias aeróbias e anaeróbias, micoplasma e ureaplasma (Meyers-Wallen, 1991; Romagnoli, 2002).
➢ Cultura seminal positiva:
Várias espécies de bactérias aeróbias têm sido isoladas do prepúcio e uretra de cães na ausência de qualquer outra patologia. O isolamento de mais de um tipo de organismo no mesmo sítio não é incomum. A presença de microrganismos em culturas seminais deve ser relacionada com sinais clínicos existentes ou outros achados laboratoriais. A cultura de bactérias aeróbias em comunhão com sinais clínicos e uma história sugestiva, são indicativos de uma provável infeção do trato urinário. As bactérias que podem causar uma patologia, também podem fazer parte da flora normal do prepúcio. A flora normal pode conter
20 Escherichia coli, Pseudomonas spp., Staphylococcus spp., Streptococcus spp., Pasteurella spp., Klebsiella spp., and Mycoplasma spp. (Lopate, 2015).
Caso se verifique infeção, o tratamento deve ser feito com antibiótico baseado em testes de sensibilidade (Meyers-Wallen, 1991; Lopate, 2015).
➢ Aglutinação dos espermatozoides:
A aglutinação de espermatozoides ocorre, entre outras infeções que devem ser consideradas, após infeção com Brucella canis. Através de observação microscópica, denota-se uma aglutinação particularmente cabeça com cabeça, o que leva a que os espermatozoides apresentem mobilidade anormal. Acredita-se que a inflamação secundária à infeção com Brucela rompa a barreira que normalmente protege os espermatozoides das células do sistema imunitário, podendo ocorrer a produção de anticorpos anti-espermatozoide, levando à aglutinação. (George et al., 1984; Chin, 2000).
2.6.4.3. Teratozoospermia com concentração e mobilidade espermática normal Apesar da concentração e da mobilidade se apresentarem normais, uma percentagem superior a 30% dos espermatozoides não tem a morfologia correta (Rijnberk, 1996; Feldman et al., 2004).
Um ejaculado é considerado anormal se mais de 10% dos espermatozoides apresentarem uma anomalia primária ou se mais do que 20% tiver uma anomalia secundária (Feldman et al., 2004).
Um elevado número de anomalias primárias pode ser resultado problemas testiculares, como orquite, defeitos congénitos na espermatogénese, exposição a toxinas, agentes hormonais ou quimioterápicos ou temperatura escrotal elevada (Feldman et al., 2004).
Uma elevada percentagem de anomalias secundárias pode ser causada por doenças epididimárias ou por artefactos durante a análise seminal (Gobello et al., 2004; Feldman et al., 2004).
Quando o problema é apenas a morfologia numa percentagem de espermatozoides, mas há um número com morfologia normal e mobilidade normal, dentro do intervalo normal da concentração por ejaculado, estes podem originar descendência com a ajuda de um correto maneio reprodutivo (Feldman et al., 2004).
21 2.6.4.4. Astenozoospermia com contagem de espermatozoides normal
O número de espermatozoides no ejaculado é normal, mas apenas uma percentagem inferior a 30% possui mobilidade progressiva (Gobello et al., 2004).
A ocorrência desta anomalia pode ser devido à contaminação do material para o qual se efetua a recolha, anomalias nas glândulas acessórias, condições que levem à aglutinação espermática ou anomalias primárias nos espermatozoides (como defeitos na cauda ou na peça intermédia) (Feldman et al., 2004).
Quando a astenozoospermia é notória, porém há poucos espermatozoides com anomalias morfológicas, o sémen deve ser avaliado em diferentes dias. Deve ser dada especial atenção à forma como a recolha é efetuada e ao material que é utilizado (lubrificantes, lâminas, lamelas, diluentes, etc.), de modo a certificar que não contem substâncias espermicidas como urina, detergentes, água ou formalina. O material utilizado deve ser lavado com apenas com água e secar completamente ao ar (Feldman et al., 2004).
Uma diminuição na percentagem de espermatozoides progressivos pode ser a primeira resposta à infeção, inflamação ou a qualquer episódio febril. Se existir aglutinação entre espermatozoides ou agregação de espermatozoides a macrófagos, deve ser considerada a infeção por B. canis (Chin, 2000; Feldman et al., 2004; Gobello et al., 2004). A existência de um elevado número de glóbulos brancos no ejaculado pode ser indicativo de uma infeção do trato reprodutivo (Feldman et al., 2004; Gobello et al., 2004)
A ausência de mobilidade pode ser resultado de defeitos primários como disquinesia ciliar primária ou deficiência enzimática (Rijnberk, 1996; Feldman et al., 2004). Os espermatozoides adquirem mobilidade e capacidade de fertilização durante a passagem pelo epidídimo. Desta forma, uma anomalia que apenas afete o epidídimo pode alterar estas características, permanecendo outras totalmente normais (Gobello et al., 2004).
Se menos de 30% dos espermatozoides tiverem mobilidade progressiva, pode ser esperada uma baixa fertilidade. Um bom maneio reprodutivo pode aumentar as hipóteses de originar descendência (Feldman et al., 2004).
2.6.4.5. Oligozoospermia
A presença de um baixo número de espermatozoides no ejaculado de um animal designa-se por oligozoospermia. Num macho com mais de 4,5 Kg de peso corporal, um número inferior a 200 milhões de espermatozoides por ejaculado define esta condição. Apesar
22 de o número ser reduzido, cães com estes valores podem originar descendência (Rijnberk, 1996; Gobello et al., 2004).
Esta anomalia pode ser originada devido a causas como dor no momento do cruzamento (podendo ser nos membros posteriores ou na coluna vertebral), doença prostática, hipotiroidismo, doenças sistémicas, infeciosas ou ejaculação retrógrada. A ejaculação retrógrada ocorre quando o ejaculado segue para o interior da bexiga, em vez de seguir o caminho normal pela uretra. Este acontecimento pode ser devido a distúrbios neurológicos ou hipotiroidismo. O diagnóstico é feito através da recolha de líquido da bexiga imediatamente após estimulação manual e ejaculação por parte do macho. Procede-se à comparação do número de espermatozoides no ejaculado e no trato urinário, o que permitirá chegar a uma conclusão. O tratamento pode ser realizado com recurso à administração de pseudoefedrina antes do cruzamento ou da recolha manual (Romagnoli, 2002) ou com fenilpropanolamina (Beaufays et al., 2008).
2.7. Qualidade do Sémen 2.7.1. Espermatogénese
Os espermatozóides são originados através de um processo pelo qual as células germinativas entram em divisão, diferenciação e meiose, até se tornarem espermátides haploides (O’Donnel et al., 2001) (Figura 2).
A função da mitose, a 1ª fase da espermatogénese, é produzir um elevado número de células germinativas. As espermatogónias indiferenciadas, ou células germinativas, encontram-se na membrana basal dos túbulos seminíferos. Estas diferenciam-se em espermatogónias Tipo A e Tipo B (O’Donnel et al., 2001). Uma das células permanece inalterada, ficando no estado basal, e substitui a célula parental, a outra processa a mitose (Stanbenfeldt et al., 1996).
Cada espermatogónia que substitui a célula-mãe começa a dividir-se a intervalos de tempo que são característicos de cada espécie. (Johnson, 1991).
A 2ª fase passa pela redução do número de cromossomas da célula germinal para o estado haplóide (Stanbenfeldt et al., 1996). Depois da última mitose que forma a espermatogónia do tipo B, são formados espermatócitos no estágio preleptoteno primário. Estas células replicam o seu DNA e, posteriormente, iniciam a mitose (O’Donnel et al., 2001).