Jornalismo e Educação para a Cidadania
Dissertação de Mestrado
2ª Ciclo de Estudos em Ciências da Comunicação: Jornalismo
Rui Costa Moura Pinto
Aos meus pais, ao meu irmão, a Esmeralda Cortinhas, a Nuno Paula Santos, a Daniela Fonseca, à cidadania.
“Bien informés, les hommes sont des citoyens; mal informés ils deviennent des sujets1”. Alfred Sauvy
“L'école est la seule plate-forme où il y a un minimum d'égalité et dans laquelle on peut se sentir citoyen2”. Faïza Guène
“L' homme est pleinement homme dans le citoyen3”. Marcel Gauchet
1 Proposta de tradução: “Bem informados, os homens são cidadãos; mal informados tornam-se objectos”. 2 Proposta de tradução: “A escola é a única plataforma onde há um mínimo de igualdade e na qual
podemos sentir-nos cidadãos”.
Índice Geral
ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES ... 9 ÍNDICE DE TABELAS ... 11 AGRADECIMENTOS ... 12 RESUMO ... 13 ABSTRACT ... 14 PREÂMBULO ... 15 INTRODUÇÃO GERAL ... 15 MOTIVAÇÃO ... 15 OBJECTIVOS ... 16 ESTRUTURA ... 17 ENQUADRAMENTO TEÓRICO ... 17 JORNALISMO ... 17 Definições ... 18 Etimologia ... 19Código deontológico do jornalista ... 19
Estatuto do jornalista ... 20
Objectividade ... 21
Critérios de Noticiabilidade ... 22
Fontes de Informação ... 23
Identificação e anonimato das fontes ... 24
Imprensa, Rádio, Televisão e Internet ... 25
Ruidamos - Livro de estilo ... 25
O Projecto Ruidamos ... 25 Descrição ... 26 Objectivos ... 26 Eventos noticiáveis ... 27 Equipa ... 27 Condições especiais ... 27 Estatuto Editorial ... 27 Percurso de realização ... 28 A cacha ... 28 Equipa - funções ... 29 Equipamento ... 29 A investigação ... 30
Que perguntas fazer ao entrevistado? ... 30
Duração da reportagem ... 30
Escrita ... 30
Locução ... 31
Estrutura de uma "peça" ... 32
O Plano de Reportagem ... 33
Treino e simulação ... 36
Filmagem ... 36
Alguns aspectos importantes... 36
Enquadramento ... 37 Planos ... 37 Edição ... 39 Criação de um projecto ... 40 A área de trabalho ... 42 Importação de ficheiros ... 44
Paradigma da linha do tempo ... 44
Voz off ... 45 Transições ... 45 Títulos e créditos ... 47 Exportar ... 48 Publicação ... 50 Divulgação ... 50 CIDADANIA ... 51 Definições ... 52 Etimologia ... 52 Grécia ... 53 Roma ... 55 Idade Média ... 55 Magna Carta, 1215 ... 56 Bill of Rights, 1689 ... 57 Declaração de Virgínia, 1776 ... 58
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789 ... 59
Declaração Universal dos Direitos do Homem, 1948 ... 61
Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, 2000 ... 62
A Cidadania Hoje ... 64
EDUCAÇÃO PARA OS MEDIA ... 64
Definições ... 64
Etimologia ... 65
Paradigmas ... 66
A Abordagem Vacinatória ... 67
A Análise Crítica ... 67
A Descodificação dos Media ... 68
Grandes Questões da Educação para os Media ... 68
Educação para a Cidadania ... 70
JORNALISMO E EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA ... 71
PARTE PRÁTICA ... 73
METODOLOGIA ... 73
Abordagem à investigação - Investigação-acção ... 73
Investigação Qualitativa ... 77
Instrumentos de recolha de informação ... 77
Diário de bordo das actividades ... 77
Observação directa das actividades ... 78
Análise documental ... 78
Etapas ... 79
Introdução ... 79
Descrição do grupo de participantes ... 80
1º Ciclo de Investigação-acção ... 80
Diagnóstico ... 81
Plano ... 81
Execução do plano ... 82
Análise e interpretação dos dados ... 83
2º Ciclo de Investigação-acção ... 84
Plano ... 84
Execução do plano ... 84
Análise e interpretação dos dados ... 86
3º Ciclo de Investigação-acção ... 87
Plano ... 87
Execução do plano ... 87
Análise e interpretação dos dados ... 89
4º Ciclo de Investigação-acção ... 90
Plano ... 90
Execução do plano ... 90
Análise e interpretação dos dados ... 91
5º Ciclo de Investigação-acção ... 92
Plano ... 92
Execução do plano ... 93
Análise e interpretação dos dados ... 94
6º Ciclo de Investigação-acção ... 95
Plano ... 95
Análise e interpretação dos dados ... 97
7º Ciclo de Investigação-acção ... 98
Plano ... 98
Execução do plano ... 99
Análise e interpretação dos dados ... 100
8º Ciclo de Investigação-acção ... 101
Plano ... 101
Execução do plano ... 102
Análise e interpretação dos dados ... 103
9º Ciclo de Investigação-acção ... 104
Plano ... 104
Execução do plano ... 105
Análise e interpretação dos dados ... 106
10º Ciclo de Investigação-acção ... 107
Plano ... 107
Execução do plano ... 108
Análise e interpretação dos dados ... 109
11º Ciclo de Investigação-acção ... 110
Plano ... 110
Execução do plano ... 111
Análise e interpretação dos dados ... 112
12º Ciclo de Investigação-acção ... 113
Plano ... 113
Execução do plano ... 114
Análise e interpretação dos dados ... 115
13º Ciclo de Investigação-acção ... 116
Plano ... 116
Execução do plano ... 117
Análise e interpretação dos dados ... 118
14º Ciclo de Investigação-acção ... 119
Plano ... 119
Execução do plano ... 120
Análise e interpretação dos dados ... 121
DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS ... 122
CONCLUSÕES ... 128
BIBLIOGRAFIA ... 130
ANEXOS ... 138
ANEXO 1-PROJECTO DE BLOGUE ... 139
ANEXO 2-AUTORIZAÇÃO PARA A INVESTIGAÇÃO -DIRECTOR ... 142
Índice de Ilustrações
Ilustração 1 ... 40 Ilustração 2 ... 41 Ilustração 3 ... 42 Ilustração 4 ... 43 Ilustração 5 ... 44 Ilustração 6 ... 46 Ilustração 7 ... 47 Ilustração 8 ... 48 Ilustração 9 ... 49 Ilustração 10 ... 50Ilustração 11 - Abertura do Preâmbulo da Magna Carta de 1215 (AA.VV. 2010d). ... 57
Ilustração 12 - Carta de Direitos, 1689 (AA.VV. 2010h) ... 58
Ilustração 13 - Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789 (AA.VV. 2010b) .... 60
Ilustração 14 - Eleanor Roosevelt a segurar num cartaz da Declaração Universal dos Direitos do Homem (AA.VV. 2010f) ... 62
Ilustração 15 - Modelo de Investigação-acção (Cf. Given: 2008:4) ... 75
Ilustração 16 - Blogue ruidamos.wordpress.com ... 80
Ilustração 17 - Reportagem Reciclar não é demais publicada em ruidamos.wordpress.com .. 82
Ilustração 18 - Reportagem Serviço de Mesa e Bar no Museu da Escola Profissional e Tecnológica da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 85
Ilustração 19 - Reportagem Operadores de Máquinas Agrícolas na Escola Profissional e Tecnológica da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 88
Ilustração 20 - Reportagem Oficina das Emoções publicada em ruidamos.wordpress.com ... 91
Ilustração 21 - Reportagem Dia da Matemática na Escola Profissional e Tecnológica da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 94
Ilustração 22 - Reportagem Depois da Enxurrada, a Reconstrução na Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 97
Ilustração 23 - Reportagem Workshop Nós e os Nossos Filhos na Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 100
Ilustração 24 - Reportagem Dias das Ciências Sociais e Humanas na Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 103
Ilustração 25 - Reportagem Workshop Higiene e Segurança do Trabalho Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 106 Ilustração 26 - Reportagem Dia das Línguas na Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 109 Ilustração 27 - Reportagem Associação Equação Comércio Justo na Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com ... 112 Ilustração 28 - Reportagem Ministra da Juventude e da Presidência do Conselho de Ministros de Cabo Verde na Escola Profissional da Régua publicada em ruidamos.wordpress.com .. 115 Ilustração 29 - Reportagem Vinho do Porto Quinta do Rodo publicada em ruidamos.wordpress.com ... 118 Ilustração 30 - Reportagem Ruidamos: Balanço Final publicada em ruidamos.wordpress.com ... 121 Ilustração 31 - Contagem congelada no Youtube ... 123 Ilustração 32 - Número de visualizações em youtube.com/ruidamos em 25 -06-2010 à meia noite ... 125 Ilustração 33 - Número de visualizações em dailymotion.com/ruidamos em 25 -06-2010 à meia noite ... 125 Ilustração 34 - Número de visualizações em metacafe.com/ruidamos em 25 -06-2010 à meia noite ... 126 Ilustração 35 - Número de visualizações em ruidamos.wordpress.com em 25 -06-2010 à meia noite ... 127
Índice de Tabelas
Tabela 1 - Estrutura de uma "peça" ... 32 Tabela 2 - Plano de reportagem ... 36
Agradecimentos
Agradeço aos meus pais e ao meu irmão por todo o apoio.
Agradeço ao meu orientador por ter estado sempre disponível.
Agradeço ao Sr. Director Executivo da Escola Profissional e Tecnológica da Régua por ter autorizado a investigação e por todo o apoio.
Agradeço aos meus alunos por terem aceitado participar na investigação e pelo enorme empenho que nela depositaram.
Agradeço a todos aqueles que aceitaram participar e participaram com dedicação na investigação.
Resumo
A presente dissertação é um trabalho teórico-prático. As duas partes não são estanques. Relacionam-se uma com a outra. A primeira resulta de uma revisão crítica da literatura e também de procedimentos adquiridos durante a realização da prática, de um estilo próprio. É na prática que se consubstancia o trabalho com a aplicação de teorias de autores consagrados, com a adequação ao contexto e com um estilo próprio. É na prática que se aquilata e concretiza a investigação, se procuram respostas. Parte-se de uma questão inicial. Será que o jornalismo contribui para a educação para a cidadania? Na parte teórica apreendem-se os autores/obras/editoras de referência das áreas do jornalismo, da cidadania, e da educação para a cidadania no âmbito da educação para os media, com atitude crítica e constrói-se um estilo próprio. Abordam-se questões fulcrais para a prática do jornalismo de referência, o livro de estilo do Ruidamos. No capítulo da cidadania abordam-se os grandes momentos históricos da mesma. Os grandes momentos da educação para os media. A educação para a cidadania. E, por fim, a análise crítica da relação entre o jornalismo e a educação para a cidadania no âmbito da educação para os media. Na parte prática efectua-se uma investigação-acção. O grupo de participantes é constituído por um grupo de alunos do curso de Técnico de Comunicação da Escola Profissional e Tecnológica da Régua e pelo investigador. Constrói-se o blogue ruidamos.wordpress.com. Faz-se a descrição metodológica. Descrevem-se, discutem-se e analisam-se os vários ciclos de investigação-acção. Da análise e discussão dos resultados da investigação conclui-se que a mesma foi um sucesso. A prática do jornalismo de referência no Ruidamos contribuiu para a educação para a cidadania no âmbito da educação para os media. Concluímos genericamente que a prática do jornalismo de referência é um instrumento privilegiado para fazer educação para a cidadania no âmbito da educação para os media. E que esta investigação pode ser tomada como modelo de referência a ser aplicado noutras escolas.
Abstract
The present dissertation is a theoretical and practical work. Both parts are not tight. They relate with each other. The first part is a result of a critical review of the literature and also of acquired proceedings during the practical part realization, of a self-style. It is in praxis that work is consubstantiated with the application of acclaimed authors theories, with context adequation, and with a self-style. It is in praxis we assay and materialize investigation, we search for answers. We start with a beginning question. Does journalism contribute to citizenship education? In theoretical part we insight acclaimed authors/works/publishers in journalism, citizenship, citizenship education within media education scope areas, with a critical attitude and we build a self-style. We focus key questions to the practice of good journalism, the Ruidamos Styleguide. In citizenship chapter we focus the great moments in its history. The great moments of media education. Citizenship education. And, at last, the critical analysis of journalism and citizenship education within media education scope relation. In practical part we do an action research. The participants group is made of the investigator and of a group of students of Técnico de Comunicação course from Escola Profissional e Tecnológica da Régua. We build the blog ruidamos.wordpress.com. We make the methodological description. We describe, discuss and analyze the various action research cycles. From investigation analysis and discussion of results we conclude that the same was a success. The good journalism practice in Ruidamos contributed to the citizenship education within media education scope. We generically conclude that good journalism practice is a privileged instrument to make citizenship education in media education scope. And that this investigation may be taken as a reference model to be applied in other schools.
Preâmbulo
A presente dissertação é requisito necessário à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação – Jornalismo.
Introdução Geral
Com este trabalho pretende-se cruzar os campos do jornalismo e da educação para os media numa das suas vertentes: a educação para a cidadania.
Motivação
Os estudos em educação para os media debruçam-se sobre várias dimensões: educação para o consumo, ambiental, sexual, democracia, cidadania, intercultural. E o jornalismo? Será na prática aquilo que é na sua ideação? Imparcial? Neutro? Esclarecedor? Uma janela para o mundo? Informativo? Educativo? Ou não? Não será também necessário ensinar a ver jornalismo?
O indivíduo para se tornar cidadão tem de adquirir capacidade crítica, sendo esta o objectivo último da educação para os media.
Com o surgimento dos media modernos houve uma extensão da cidade para os media. Com este alargamento, surgiu a necessidade de educar para o novo meio. Ensinar a ser cidadão no novo espaço público.
Após terem sido efectuadas pesquisas aturadas no âmbito do tema escolhido para a presente dissertação, não foi encontrado nada de semelhante àquilo que é proposto realizar.
Optou-se por esta temática por várias razões. É uma área que fascina o autor. É importante também para ele, em termos profissionais, pois como docente, pode melhorar a sua prática, pode contribuir para que haja maior participação cívica, maior envolvimento. E quem sabe, descobrir novas práticas para melhorar a aprendizagem através do jornalismo e da cidadania.
Objectivos
Evidenciar a relação entre jornalismo e educação para a cidadania;
Observar se o jornalismo contribui para a educação para a cidadania;
Observar o grau de participação no blogue;
Observar a qualidade da participação no blogue;
Verificar o desenvolvimento de competências;
Estrutura
"Theoria sine praxi est currus sine axi; praxis sine theoria est caecus in via"4.
Esta dissertação divide-se em duas grandes partes.
Numa primeira procede-se à revisão crítica da literatura das áreas em estudo, focando os autores/obras/editoras mais relevantes.
Na segunda parte procede-se a um estudo prático.
Estas duas grandes partes, não são, no entanto, estanques. Os elementos da teoria não resultam exclusivamente do estudo de outros autores, mas também de práticas desenvolvidas no decorrer da investigação e de um estilo próprio adquirido.
Enquadramento Teórico
Jornalismo
4
Proposta de tradução: "A teoria sem a prática é um carro sem eixo; a prática sem a teoria é um cego na via".
Definições
Apresenta-se de seguida três definições de jornalismo. A primeira é do Dictionary of media studies, simples e directa. A segunda é já mais complexa, do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa. Por fim, o Dicionário de Ciências da Comunicação dá-nos uma visão geral sobre o jornalismo, desde a sua origem até aos dias de hoje.
“Journalism - the act of reporting, writing or editing for a newspaper or magazine or for television or radio”5
. (Anderson et al. 2006: 127)
Jornalismo (...) 1. Profissão, actividade da pessoa que trabalha no domínio da informação, quer em publicações periódicas, quer na rádio ou na televisão, e que redige artigos, faz entrevistas, modera debates, participa na elaboração dos jornais radiofónicos ou televisivos...; profissão, actividade de jornalista. (...) 2. Modo de expressão característico dos meios de comunicação social; estilo próprio da imprensa. (...) 3. Conjunto de todos os órgãos de comunicação social. 4. Conjunto dos jornalistas (...) (AA.VV. 2001: 2193).
Jornalismo - Colecção e divulgação periódica através de meios de comunicação social, de informações consideradas com interesse público. A origem do conceito tem sido alvo de controvérsia entre os teóricos, que se dividem entre aqueles que defendem a existência de modelos jornalísticos já na era clássica, com os editais romanos, e os que preferem apenas atribuir essa classificação a formas mais recentes de divulgação de informação com interesse público e que determinam essa origem no aparecimento de publicações de periodicidade regular no século XVIII.
A evolução recente da história do jornalismo revela a proliferação de escolas e valores diferenciados na concepção do produto informativo. Ao longo do século xx, o jornalismo acompanhou as várias fases de evolução do sistema mediático, contribuindo para salientar as suas etapas de massificação, desmassificação e individualização. O aparecimento dos meios audiovisuais, a rádio e a televisão, também contribuiu para as mudanças operadas no conceito de informação, obrigando os meios escritos a reformular a sua função (apostando mais no poder do fotojornalismo, numa primeira fase, e depois no jornalismo analítico).
O próprio conceito de investigação jornalística foi-se alterando e reflectindo as pressões internas e externas exercidas sobre o trabalho do jornalista.
Este foi-se adaptando aos sucessivos papéis de correia de transmissão entre as instituições e as audiências, vigilante do bom funcionamento dessas instituições e intérprete dos sinais da realidade. Alguns teóricos consideram que o jornalismo é uma espécie de quarto poder, que se acrescenta ao legislativo, judicial e executivo. Outros consideram que o jornalismo é um instrumento de fabrico de realidades que alimenta com informações os vários sistemas vigentes numa sociedade (Szymaniak et al. 2000: 138-139).
5 Proposta de tradução: “O acto de dizer, escrever ou editar para um jornal ou para uma revista ou para
Etimologia
A obra Word Origins, aborda a origem da palavra journalism, como sendo uma derivada de journey, cuja entrada se transcreve de seguida:
Journey [13] Etymologically, a journey is a „day‟s‟ travel. The word comes via Old
French jornee from Vulgar Latin *diurnāta. This in turn was derived from Latin diurnum „daily allowance or ration‟, a noun use of the adjective diurnus „daily‟, which was based on
diēs „day‟. The specific notion of a „day‟s‟ travel had died out by the mid-16th century,
leaving only the more general „travel‟. But before going altogether, „day‟ left its mark on another manifestation of the word journey: the word journeyman „qualified worker‟ [15]. This has no connection with „travelling‟; it originally denoted one who was qualified to do a „day‟s‟ work. Another Latin derivative of diurnus was the adjective diurnātis, which has given English diurnal [15], journal [14] (first cousin to diary), and journalism [19].
Sojourn belongs to the same language family6 (Ayto 2005: 295-296).
Código deontológico do jornalista
Os jornalistas portugueses orientam-se por um código deontológico. Transcreve-se de seguida, o texto, retirado do sítio do Sindicato dos Jornalistas Portugueses (AA.VV. 2010a):
Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses
Os jornalistas portugueses regem-se por um Código Deontológico que aprovaram em 4 de Maio de 1993, numa consulta que abrangeu todos os profissionais detentores de Carteira Profissional. O texto do projecto havia sido preliminarmente discutido e aprovado em Assembleia Geral realizada em 22 de Março de 1993.
6
Proposta de tradução:
Jornada [13] Etimologicamente, uma journey é um dia de viagem. A palavra vem via francês antigo jornee do Latin vulgar *diurnāta. Esta por sua vez derivou do Latin diurnum „daily allowance or ration‟, uma substantivação do adjectivo diurnus „daily‟, que era baseado em diēs „day‟. A noção específica de um dia de viagem soçobrou em meados do século XVI, deixando apenas a mais geral „travel‟. Mas antes de se fundirem, „day‟ deixou a sua marca numa outra manifestação da palavra
journey: a palavra journeyman „qualified worker‟ [15]. Isto não tem conexão com „travelling‟; esta
originalmente denotava aquele que estava qualificado para fazer um dia de trabalho. Um outro derivado latino de diurnus foi o adjectivo diurnātis, que deu o termo inglês diurnal [15], journal [14] (primo direito de diary), e journalism [19]. Sojourn pertence à mesma família linguística.
1.O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.
2.O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.
3.O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.
4.O jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.
5.O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas. O jornalista deve também recusar actos que violentem a sua consciência.
6.O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, excepto se o tentarem usar para canalizar informações falsas. As opiniões devem ser sempre atribuídas.
7.O jornalista deve salvaguardar a presunção da inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, directa ou indirectamente, as vítimas de crimes sexuais e os delinquentes menores de idade, assim como deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.
8.O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidade ou sexo.
9.O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas.
10.O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesvaler-ses.
Estatuto do jornalista
A profissão de jornalista encontra-se regulamentada em Portugal pela Lei n.º 1/99, de 13 de Janeiro, alterada pela Lei n.º 64/2007, de 6 de Novembro.
O estatuto do jornalista é constituído por quatro capítulos, contendo 21 artigos. Capítulo I - Dos jornalistas; Capítulo II - Direitos e deveres; Capítulo III - Dos directores de informação, correspondentes e colaboradores; Capítulo IV - Formas de responsabilidade.
Esta lei define jornalista, no seu artigo primeiro, nos números um, dois e três, da seguinte forma:
1 - São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.
2 - Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.
3 - São ainda considerados jornalistas os cidadãos que, independentemente do exercício efectivo da profissão, tenham desempenhado a actividade jornalística em regime de ocupação principal, permanente e remunerada durante 10 anos seguidos ou 15 interpolados, desde que solicitem e mantenham actualizado o respectivo título profissional.
Objectividade
Apresenta-se de seguida a definição de objectividade e também a de subjectividade do Dictionary of Media Studies:
"Objectivity - the idea that news can and should be reported without opinion or bias. Compare subjectivity"7 (Anderson et al. 2006: 161).
"Subjectivity - the practice of allowing personal opinion to affect news reporting, a situation which should be avoided, unless it is made obvious that this is the case. Compare objectivity8" (Anderson et al. 2006: 226).
7
Proposta de tradução: "Objectividade - a ideia de que as notícias podem e devem ser reportadas sem opinião ou enviesamento. Comparar com subjectividade".
8
Proposta de tradução: "Subjectividade - a prática de permitir que a opinião pessoal afecte o realização de notícias, situação que deve ser evitada, excepto se se assinalar devidamente que esse é o caso. Comparar com objectividade".
Gaye Tuchman (1972: 665-671), num artigo intitulado Objectivity as Strategic Ritual: An Examination of Newsmen's Notions of Objectivity, refere que para além de fazer a verificação dos factos, o jornalista pode socorrer-se de quatro procedimentos estratégicos para que lhe seja possível reclamar a objectividade. Eles são, segundo o autor: "1. Presentation of conflicting possibilities9"; "2. Presentation of supporting evidence10"; "3. The judicious use of quotation marks11"; "4. Structuring information in an appropriate sequence12".
No caso do ponto número três, uso judicioso das aspas, esta situação refere-se a um procedimento da escrita verbal, na imprensa escrita. No entanto, podemos encontrar um processo equivalente na sua essência nos outros meios. Assim, na rádio, o uso das aspas pode ser substituído pelas declarações das próprias fontes, em primeira pessoa, com a sua própria voz, o "som" da fonte. Na televisão usar-se-á o texto audiovisual da declaração da fonte, o "vivo" da fonte. Na Web, dadas as potencialidades multimédia desta plataforma, podem usar-se todos os métodos dos meios anteriormente apreusar-sentados, e outros decorrentes da sua idiossincrasia, como o hiperlink...
Critérios de Noticiabilidade
Jorge Pedro Sousa (2001: 39-40) refere que existem várias listagens e vários autores que abordam a temática dos critérios de noticiabilidade e dos valores-notícia. De entre os postulados por Galtung e Ruge, os primeiros a abordar o tema segundo Sousa (2001: 39). Este autor selecciona os seguintes: proximidade, momento do acontecimento, significância, proeminência social dos sujeitos envolvidos, proeminência das nações envolvidas nas notícias, consonância, imprevisibilidade, continuidade, composição, negatividade. Transcreve-se de seguida a listagem e subsequente explicação feita por Jorge Pedro Sousa (2001: 39-40).
9
Proposta de tradução: "Uso do contraditório".
10
Proposta de tradução: "Apresentação de provas auxiliares".
11
Proposta de tradução: "Uso judicioso das aspas".
12
Proximidade (Quanto mais próximo ocorrer um acontecimento, mais probabilidades tem de se tornar notícia. A proximidade pode assumir várias formas: geográfica, afectiva, cultural, etc.);
Momento do acontecimento (Quanto mais recente for um acontecimento, mais probabilidades tem de se tornar notícia.);
Significância (Quanto mais intenso ou relevante for um acontecimento, quantas mais pessoas estiverem envolvidas ou sofrerem consequências, quanto maior for a sua dimensão, mais probabilidades tem de se tornar notícia.; além disso, quanto menos ambíguo for um acontecimento, mais probabilidades tem de se tornar notícia.);
Proeminência social dos sujeitos envolvidos (Quanto mais proeminentes forem as pessoas envolvidas num acontecimento, mais hipóteses ele tem de se tornar notícia.);
Proeminência das nações envolvidas nas notícias (Quanto mais proeminentes forem as nações envolvidas num acontecimento internacional, mais probabilidades ele tem de se tornar notícia.);
Consonância (Quanto mais agendável for um acontecimento, quanto mais corresponder às expectativas e quanto mais o seu relato se adaptar ao medium, mais probabilidades tem de se tornar notícia.)
Imprevisibilidade (Quanto mais surpreendente for um acontecimento, mais hipóteses terá de se tornar notícia.);
Continuidade (Os desenvolvimentos de acontecimentos já noticiados têm grandes probabilidades de se tornar notícia.);
Composição (Quanto mais um acontecimento se enquadrar num noticiário tematicamente equilibrado, ou seja, num noticiário com espaço para diversos temas, mais probabilidades tem de se tornar notícia);
Negatividade (Quanto mais um acontecimento se desvia para a negatividade, mais probabilidades tem de se tornar notícia.)
Fontes de Informação
Um jornalista só existe se tiver fontes de informação. Vários autores definem o que é uma fonte de informação.
O Dictionary of Media Studies define fonte da seguinte forma: "Source - a person, organisation, book or other text that supplies information or evidence for someone such as a journalist13" (Anderson et al. 2006: 219).
"Toda e qualquer entidade que possua dados susceptíveis de ser usados pelo jornalista no seu exercício profissional pode ser considerada uma fonte de informação. Existem, assim, vários tipos de fontes: humanas, documentais, electrónicas, etc." (Sousa 2001:62).
Identificação e anonimato das fontes
Há diferentes níveis de identificação das fontes consoante os compromissos assumidos entre o jornalista e as fontes. Mencher citado por Sousa (2001: 67-68) propõe uma categorização em quatro níveis. On the record; On Background/not for attribution; On deep background; Off the record:
1. On the record - Identifica-se a fonte e pode-se tratar e divulgar as suas declarações. É o procedimento normal.
2. On Background/not for attribution - Não se identifica completamente a fonte. São caracterizados alguns aspectos do seu contexto. Pode-se tratar e divulgar as suas declarações.
3. On deep background - Não se identifica a fonte nem são caracterizados nenhuns aspectos do seu contexto. Pode-se tratar e divulgar as suas declarações.
4. Off the record - Não se identifica a fonte nem se difunde a informação por ela oferecida. Porém esta informação pode ser preciosa para o subsequente desempenho do jornalista. Este pode, por exemplo, conseguir confirmação por outra fonte.
13
Proposta de tradução: "Fonte - pessoa, organização, livro, ou outro texto que fornece informação ou prova a alguém tal como um jornalista".
Imprensa, Rádio, Televisão e Internet
"O jornal explica, a rádio conta, a televisão mostra." A internet explora-se.
Na contemporaneidade a tendência que se tem verificado é a de integração de vários órgãos de comunicação social, dos vários meios, de imprensa escrita, rádio, televisão, ou internet, em grandes grupos económicos. Por outro lado, com a abertura dos media das várias vertentes à internet, observa-se que estes tendencialmente começam a tirar partido das potencialidades multimédia da plataforma e começam a produzir conteúdos em formatos que não eram tradicionalmente os seus. Veja-se, por exemplo, os exemplos da Time ou da Newsweek que eram tradicionalmente revistas em papel antes do advento da internet e agora, nos seus sites incluem vídeos, podcasts, hiperlinks... Verifica-se também que as universidades, nos currículos dos cursos de ciências de comunicação integram as várias vertentes do jornalismo conjuntamente na mesma unidade curricular ou disciplina. A evolução aponta para a formação de jornalistas com competências multimédia. Na presente investigação temos em conta características dos quatro meios, incidindo mais no telejornalismo. A sua abordagem não está concentrada num capítulo estanque, encontra-se ao longo de várias secções da dissertação.
Ruidamos - Livro de estilo
Descrição
Este blogue seria realizado pelos alunos do curso de Técnico de Comunicação (e outros alunos interessados), sob a responsabilidade do docente Rui Moura Pinto, no âmbito da disciplina de Comunicação Gráfica e Audiovisual e da disciplina de Técnicas e Práticas de Comunicação e Relações Públicas (e outras interessadas). Teria como principal finalidade criar nos alunos rotinas, dinâmicas, experiências, competências, capacidades, exigidas pelo mercado de trabalho, num contexto inter-modular e inter-disciplinar. Seria também uma montra das actividades da escola.
Objectivos
Desenvolver competências no âmbito da disciplina de Comunicação Gráfica e Audiovisual e da disciplina de Técnicas e Práticas de Comunicação e Relações Públicas;
Criar Rotinas;
Desenvolver dinâmicas;
Adquirir experiência;
Preparar para o mercado de trabalho;
Dar visibilidade ao curso;
Dar visibilidade à escola;
Promover a participação na comunidade escolar;
Promover a educação para a cidadania;
Eventos noticiáveis
Actividades do plano anual de actividades da escola, no geral.
Dias festivos, quadras festivas, visitas de estudo, torneios desportivos, actividades da AE, trabalhos realizados pelos alunos.
Equipa
Equipa nuclear: alunos do curso de Técnico de Comunicação da Escola Profissional e Tecnológica da Régua.
Equipa alargada: todos os alunos da escola interessados em participar.
Condições especiais
Os alunos precisam de autorização para se ausentarem das aulas que coincidam com a realização dos eventos, dentro de limites razoáveis.
Ruidamos é um blogue da responsabilidade de Rui Moura Pinto onde são publicados trabalhos realizados pelos Técnicos de Comunicação da Escola Profissional e Tecnológica da Régua anteriormente designada por Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo.
Ruidamos é um medium multimédia na World Wide Web, em
ruidamos.wordpress.com.
Ruidamos assume-se como um medium de referência. Rejeita o sensacionalismo e o jornalismo de secretária.
Ruidamos cumpre o Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses.
Ruidamos rege-se pelos valores da cidadania e dos direitos humanos.
Ruidamos é um laboratório de comunicação, onde a informação é um produto pedagógico-científico.
Ruidamos noticia prioritariamente os acontecimentos mais directamente relacionados com a temática da cidadania.
Percurso de realização
Nesta secção aborda-se todo o percurso de realização telejornalística de uma reportagem.
A cacha
João Paulo Meneses (2003: 319) em Tudo o que se passa na TSF define cacha como sendo "o exclusivo noticioso de um jornalista ou de um órgão de comunicação social".
Equipa - funções
O projecto Ruidamos é um trabalho de equipa. Todos os elementos têm a mesma importância. Se um deles falhar, todo o trabalho fica comprometido. As funções na equipa são realizadas alternadamente. E não há estrelas. Ou melhor, há, mas estão no céu.
Repórter Câmara Tripé Sacos Editor Angariador de entrevistados Realizador Contactos
Equipamento
No Ruidamos usamos uma câmara de filmar Canon Legria HF200, um tripé Vanguard VT550 e um microfone unidireccional de mão Shure PG 58.
A investigação
O conceito de jornalista e de investigação são indissociáveis, pelo menos no jornalismo de referência.
No Ruidamos o jornalista investiga. É um elemento activo. Investiga para dominar os assuntos noticiados, para encontrar fontes, para contactar fontes, para conhecer fontes, para confirmar informação, para contar a sua própria história...
Que perguntas fazer ao entrevistado?
Saber o que perguntar ao entrevistado, consiste em dominar bem o tema.
Duração da reportagem
Notícia ou pequena reportagem: até 2 minutos.
Reportagem: 2-5 minutos.
Grande reportagem: mais de 5 minutos.
No telejornalismo, bem como no radiojornalismo, a escrita não é como a da imprensa escrita. O texto é feito para ser dito. Logo, escreve-se segundo as regras da oralidade e não segundo as regras da escrita. A escrita e a oralidade são duas linguagens diferentes.
Jorge Pedro Sousa (2003b: 115-128) postula um conjunto de regras para a redacção telejornalística. Apresenta-se de seguida algumas:
"Respeitar o primado da imagem";
"Deixar que as imagens e os sons associados falem por si, nomeadamente no início e no fim da peça";
Deve haver coerência entre o que se diz e o que se vê; Deve-se ler com a "voz pausada";
O texto em telejornalismo tem de "ser escrito para ser falado";
Tal como na rádio o texto telejornalístico "deve ser tematicamente redundante", mas não tanto;
"Dividir frases complexas em frases simples (...)";
"Utilizar os verbos na voz activa e se possível no presente do indicativo"; Não usar elementos estruturantes do texto;
Não usar siglas excepto se estas forem mais conhecidas do que o nome completo.
Locução
Chama-se na gíria jornalística, "cantada", à locução de um principiante, a uma locução mal feita. Parece que o locutor está a cantar.
Uma locução bem feita começa, antes de mais, na escrita. Esta deve ser realizada para ser dita, de acordo com as regras da oralidade e não com as regras da escrita. Deve ter-se uma postura corporal correcta. Uma atitude profissional. Respeitar a pontuação. Dar vida ao texto. Guardar uma distância de mais ou menos um palmo em relação ao microfone. O jornalista deve usar o sotaque padrão.
João Paulo Meneses (2003: 103-104) propõe uma lista de pressupostos para disfarçarmos a leitura, para nos aproximarmos da "naturalidade ou coloquialidade". Apresentam-se alguns de seguida:
"(...) falar de igual para igual(...)";
Deve-se gesticular durante a leitura. Essa é a atitude natural.
Usar "pausas de tensão". Meneses define-as como sendo "pequenas variações de ritmo". Tal como quando se fala normalmente, o discurso tem partes mais rápidas e partes mais lentas.
"Quem escreve lê!(...)" Não há nada como ler o próprio texto. Se o texto for de outro, deve-se reescrever, respeitando a essência do original.
"Não comer nos minutos anteriores ao directo/gravação(...)"
Estrutura de uma "peça"
Apresenta-se de seguida um esquema estrutural da "peça" padrão, incluindo as intervenções do editor e do repórter.
Editor - Lançamento
Repórter - voz off + imagens de pintura ou vivo do repórter ou montagem partida dos 2
Declarações 1
Declarações 2
Fecho - voz off + imagens de pintura ou vivo do repórter ou montagem partida dos dois
Editor - Rodapé
O Plano de Reportagem
É muito comum ouvir-se falar de improviso. Que um jornalista tem que, alguns dizem mesmo, como competência fundamental, saber improvisar. Pois, talvez numa perspectiva criacionista os jornalistas sejam jornalistas porque tinham como destino serem jornalistas. O Ruidamos insere-se no paradigma da ciência. Os jornalistas são jornalistas porque tiveram formação, estudaram, trabalharam para serem jornalistas. No Ruidamos o improviso começa e acaba na preparação. Antes da produção das reportagens faz-se um plano. Aquilo a que se chama improviso poderá surgir com a experiência, com a repetição de um conjunto de procedimentos que ao fim de algum tempo acabam por surgir de forma natural e automática. Portanto, a palavra-chave para o sucesso como jornalista, e mais ainda na fase de aprendizagem, não é improviso, mas sim preparação.
O plano de reportagem consiste numa lista detalhada daquilo que se vai fazer. Deve conter os nomes de quem vai desempenhar as funções na equipa; um espaço para a resposta às seis perguntas (quem, o quê, onde, quando, como, porquê); os nomes dos entrevistados, as perguntas que se lhes vai fazer, um espaço para anotar os seus contactos; os planos que vão ser filmados.
Plano de Reportagem Modelo (Evento) Nome da Peça
Equipa Repórter
Tripé Contactos Angariador de entrevistados Sacos Editor Realizador As 6 perguntas Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Porquê?
Entrevistas (ouvir todas as partes) Organizador
Perguntas
Nome
Telemóvel
Público Perguntas Nome Telemóvel E-mail Orador Perguntas Nome Telemóvel E-mail Participante Perguntas Nome Telemóvel E-mail
Imagem (filmar com diversidade) Luz
Pontos de interesse Ângulos Enquadramento Planos Grandes planos Planos de corte
Tabela 2 - Plano de reportagem
Treino e simulação
Antes de partir para a produção da reportagem e depois de o plano estar feito, deve-se treinar o número de vezes necessário até sair bem. Bem como posteriormente, quando se fizer o texto, a voz off e/ou os vivos do repórter.
Filmagem
Alguns aspectos importantes
Joseph V. Mascelli, citado por Tom Ang (2005: 210), afirma que "os close-ups são dos recursos mais poderosos de que o realizador dispõe para narrar uma história".
Não se deve utilizar o motivo centrado no enquadramento. É pouco dinâmico. Deve deixar-se uma "janela" para o plano poder "respirar" (cf. Sousa 2003b:91).
Não se deve utilizar o plano de perfil, também designado por alguns autores como plano egípcio. Para Sousa (2003b: 91) este plano tem pouco valor informativo. Em vez desta situação deve utilizar-se o campo/contra-campo.
O microfone de mão deve ser colocado mais ao menos a um palmo a baixo do rosto.
Deve evitar-se filmar contra uma fonte de luz.
Quando se filmar no exterior deve procurar-se ter o sol atrás das costas.
A duração de um plano deve corresponder ao tempo que demora a ser lido.
O jornalista deve usar vestuário sóbrio e adequado à situação.
Enquadramento
Para Jorge Pedro Sousa (2003b: 89) "O enquadramento corresponde ao campo visual da imagem seleccionado por quem opera a câmara. O enquadramento materializa-se no plano".
"Quando o motivo surge descentrado, o enquadramento convida mais à interpretação e é mais dinâmico"(Sousa 2003b: 89).
Planos
Não há uma uniformização relativamente aos nomes dos planos. Vários autores utilizam diferentes nomenclaturas para designar os planos. No Ruidamos utilizamos a nomenclatura usada por Jorge Pedro Sousa (2003b), completada com elementos de outros autores.
Um plano corresponde a uma porção de imagem.
Podem dividir-se em fixos e de movimento.
No Ruidamos, privilegia-se a utilização de planos fixos:
Plano geral: Serve para fazer a localização, para situar. Não foca nada em concreto;
Plano de conjunto: Não é tão aberto como um plano geral. Diferencia-se deste por ser possível identificar o objecto de reportagem no "quadro";
Plano de corpo inteiro: Mostra o corpo inteiro de uma pessoa ou de um objecto;
Plano americano: Filma uma pessoa do joelho para cima;
Plano Médio: Corta a pessoa da cintura para cima ou da cintura para baixo; Plano Próximo: É cortado da extremidade inferior do externo para cima.
Grande Plano. É um plano muito fechado. Quando aparece a cabeça no enquadramento, por exemplo.
Plano de pormenor. É um plano ainda mais fechado do que o grande plano. Quando mostra um pormenor. Um olho, os lábios...
Zoom: Chama-se ao encerramento ou à abertura de um plano. Zoom in: fechamento; Zoom out: abertura.
Planos de movimento:
Panorâmica: Consiste em "rotações da câmara em torno do seu eixo vertical ou do seu eixo horizontal. Em telejornalismo serve, essencialmente, para descrever espaços e acompanhar movimentos" (Sousa 2003b: 104)
Travelling: Para Sousa (2003b:105) consubstancia-se num movimento da câmara "durante o qual permanece constante o ângulo entre o eixo óptico e a trajectória do deslocamento".
Tracking: Perseguição do objecto de reportagem. Tom Ang (2005:251) define-o da seguinte fdefine-orma: "Seguir a acçãdefine-o, mantenddefine-o a câmara a uma distância constante da acção num movimento em ângulo recto em relação ao eixo da objectiva da câmara".
Os Planos podem ainda classificar-se relativamente ao ângulo que a câmara faz com o sujeito:
Neutro, se estiver colocada ao mesmo nível - é este que se deve usar em jornalismo;
Contra-picado ou contre-plongée, quando à inclinação de baixo para cima."(...) Este efeito provocará, consequentemente, o aumento de estatura e importância de um personagem, de forma a colocá-la numa posição dominante" (Marner 2007: 155);
Picado ou plongée, quando a inclinação é de cima para baixo. "(...) O plano em picado enquadra um personagem visto de cima e pretende diminuir a sua força ou importância fazendo-o parecer débil ou vulnerável" (Marner 2007: 155).
Edição
"Só existe uma maneira de aprender a editar, que é fazendo-o - com o seu próprio material ou em tutoriais" (Ang 2005: 211).
Existem diversos programas de edição de vídeo de nível profissional. Final Cut Pro, Sony Vegas, Adobe Premiere Pro, etc. No Ruidamos utilizamos o Adobe Premiere Pro CS4.
Criação de um projecto
Para iniciarmos a edição no Adobe Premiere Pro CS4, iniciamos o programa e vai aparecer-nos o ecrã de boas vindas que vemos na Ilustração 1. Clicamos em New Project.
Ilustração 1
No ecrã que nos surge de seguida (Ilustração 2) devemos escolher em browse uma localização para o projecto. No Ruidamos criamos uma nova pasta para colocar todos os ficheiros relativos ao projecto. Se não se escolher uma pasta específica, os ficheiros vão ficar todos espalhados. E depois não se deve mudar a pasta de localização, caso contrário o programa não vai reconhecer automaticamente o novo caminho. Em name escolhe-se um nome para o projecto. Clica-se em ok.
Ilustração 2
De seguida surge a janela New Sequence. Damos um nome à sequência. Escolhemos a opção AVCHD 1080i25 (50i) (Ilustração 3). Clicamos em ok.
Ilustração 3
A área de trabalho
Surge agora a área de trabalho (Ilustração 4). Esta é constituída por módulos cujo tamanho pode ser ajustado conforme as necessidades de edição.
Ilustração 4
De seguida apresenta-se a área de trabalho, com o projecto da reportagem Ruidamos - Balanço Final concluído (Ilustração 5). Usar-se-á este projecto para exemplificar as etapas seguintes do processo de realização de uma reportagem.
Ilustração 5
Importação de ficheiros
Para importarmos os ficheiros da máquina de filmar para o computador usamos o cabo USB, ou tiramos o cartão de memória da máquina e introduzimo-lo no leitor de cartões do computador. Depois seleccionamo-los e transferimo-los para a pasta do nosso projecto. De seguida arrastamo-los para o módulo do projecto na área de trabalho do Premiere Pro CS4.
De seguida arrastamos os ficheiros do módulo do projecto para o módulo da linha do tempo. Aqui ordenamos os clips. Damos-lhes a sequência que desejarmos. No final, a sequência pode ficar completamente diferente da ordem pela qual as filmagens foram feitas.
Na linha do tempo montamos a reportagem. Fazemos as várias operações necessárias. Cortar clips, mudá-los de posição, encurtá-los, eliminar clips, normalizar o som, etc.
Voz off
Para gravarmos a voz off podemos usar o microfone unidireccional com que fazemos as entrevistas e os vivos do repórter e depois transferi-los para o computador tal como fazemos com as outras filmagens. Na linha do tempo separamos o som da imagem.
Transições
Para passarmos de um clip para outro por vezes usamos transições. Há muitas transições disponíveis no Premiere. Para as utilizarmos basta seleccionar uma no módulo de efeitos (Ilustração 6 e Ilustração 7) e arrastá-la para a linha do tempo para o local desejado.
No que diz respeito às transições de vídeo (Ilustração 6), as que usamos mais no Ruidamos são o cross dissolve, o dip to black, o fade in/fade out.
Ilustração 6
Quanto às transições de áudio (Ilustração 7), as que usamos mais são o fade in/fade out e o constant power.
Ilustração 7
Títulos e créditos
Para criar títulos clicamos no menu Title, New Title, Default Still, depois abre-se a ferramenta de realização de títulos (Ilustração 8). Podemos então fazer o nosso título. No caso particular dos títulos de identificação dos entrevistados devemos colocar no canto inferior esquerdo: nome - função na qual intervém na reportagem.
Ilustração 8
Exportar
Para exportar o projecto, vamos a File, Export, Media, e abre-se a ferramenta de exportação (Ilustração 9).
Ilustração 9
Escolhemos MPEG2, HDTV 1080p 25 High Quality e seleccionamos a localização do ficheiro. Depois clicamos em Ok. Abre-se o Adobe Media Encoder CS4 (Ilustração 10). Clicamos em Start Queue e começa o processo de renderização. Quando terminar teremos um ficheiro com a nossa reportagem.
Ilustração 10
Publicação
A publicação das nossas reportagens é feita no blogue www.ruidamos.wordpress.com. O alojamento dos vídeos é feito nos canais www.youtube.com/ruidamos, www.dailymotion.com/ruidamos, www.metacafe.com/ruidamos, conforme as características de cada vídeo e as capacidades oferecidas por cada servidor, e depois embutido no blogue www.ruidamos.wordpress.com.
Depois de a reportagem estar publicada, faz-se a divulgação, enviando, cada um dos membros da equipa, um e-mail para os seus contactos a anunciar o novo post.
Cidadania
O conceito de cidadania surgiu da Grécia Antiga. Desde então até aos dias de hoje teve um percurso de evoluções e de regressões. No final da Antiguidade Clássica, apagou-se na escuridão da Idade Média. O cidadão fora então substituído pelo súbdito.
No início da Idade Contemporânea assiste-se a um conjunto de revoluções e de declarações de direitos que marcam o início desta era, inflamadas pelos ideais iluministas que começaram a raiar no final da Idade Média e iluminaram as suas trevas. As ideias dos filósofos iluministas, Descartes, Montesquieu, Rousseau, Diderot, d'Alembert, Locke... Germinaram durante a Idade Moderna e explodiram nas Revoluções Americana e Francesa e nas declarações de Virgínia e dos Direitos do Homem e do Cidadão. Estavam então declarados os direitos de primeira geração, ou direitos individuais.
No final da Segunda Guerra Mundial as atrocidades perpetradas pelos nazis precipitaram o emergir da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Esta incluía agora direitos sociais ou de segunda geração.
As mudanças sociais, os avanços da ciência e da tecnologia ocorridos durante a pax americana, ditaram a necessidade de um novo tipo de direitos, os chamados direitos de terceira geração. Eles são por exemplo direitos que dizem respeito ao património genético e à protecção de dados informáticos. Surgiu no ano dois mil a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
Definições
Pode ler-se no Dictionary of Media Studies: “Citizenship - the idea of being a participating, aware member of a community such as a state”14
(Anderson et Al. 2006: 40).
Para o Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa (AA.VV. 2001: 812), cidadania é “condição ou qualidade de cidadão, membro de um estado, de uma nação…, no pleno gozo dos seus direitos políticos, cívicos e deveres para com esse estado ou essa nação”.
Etimologia
Para o dicionário etimológico Word Origins, a palavra cidadania deriva de cidadão, entrada que se transcreve de seguida:
Citizen [14] The Latin word for „citizen‟ was cīvis. From it was formed the
derivative cīvitās „citizenship, city state‟, from which English gets city. From this in turn a new derivative was formed in Vulgar Latin, *cīvitātānus „citizen‟, replacing the original
cīvis. This found its way, much changed, into Old French as citeain (whence modern
French citoyen). Anglo-Norman altered the Old French form to citezein, possibly on analogy with Anglo-Norman deinzein „denizen‟15. (Ayto 2005: 111)
14
Proposta de tradução: “A noção de se ser um membro participativo e responsável de uma comunidade como por exemplo um estado”.
15
Proposta de tradução:
A palavra latina para cidadão era cīvis. Desta derivou cīvitās “cidadania, cidade-estado”, a partir da qual se forma a palavra inglesa city. A partir daquela, por outro lado, foi formada uma nova derivação em Latim Vulgar, *cīvitātānus, “cidadão”, substituindo o original cīvis. Esta encontra o seu caminho, muito modificada, até ao francês antigo como citeain (fonte do Francês Moderno citoyen). O Anglo-Normando alterou a forma do Francês Antigo para citezein, possivelmente em analogia com o Anglo-Normando deinzein “denizen”.
Grécia
O conceito de cidadania surge pela primeira vez na Grécia Antiga em algumas cidades estado democráticas e está relacionado com um grupo restrito de pessoas, uma classe constituída em regra por proprietários de terras. Tinham o direito de votar, de eleger e de serem eleitos para cargos públicos; eram susceptíveis de pagar impostos e de cumprir serviço militar. As mulheres, os escravos e as camadas mais pobres da população não tinham acesso à cidadania.
Richard Bellamy (2008:31) refere que aquilo que se conhece da cidadania grega nos é dado maioritariamente por Aristóteles, particularmente na sua obra A Política, escrita por volta dos anos 335 A.C. e 323 A.C. Este autor considera que Aristóteles concebia os seres humanos como “animais políticos” porque é da natureza deles viver em comunidades políticas, na verdade o filósofo asseverava que “only within a polis, or city state, could human potential be fully realized”16.
However, people played the roles appropriate to what Aristotle believed was their natural station in life, with only some qualifying as polites, or citizens. Though neither the qualifications Aristotle deemed appropriate for membership of this select group nor the duties he expected of them are regarded as entirely suitable today, they have cast a long shadow over the history of citizenship and their fundamental rationale still underlies much contemporary thinking17. (Bellamy 2008: 31)
Bellamy (2008: 31-32) debruça-se, no excerto que se segue, sobre algumas idiossincrasias do cidadão ateniense.
To be a citizen it was necessary to be a male aged 20 or over, of known genealogy as being born to an Athenian citizen family, to be a patriarch of a household, a warrior – possessing the arms and ability to fight – and a master of the labour of others, notably slaves. So gender, race, and class defined citizenship, and as we shall see in the next chapter, many of the main contemporary debates turn on how far they continue to do so. As a result, large numbers were excluded: women (though married Athenian women were citizens for genealogical purposes); children; immigrants, or „metics‟ – including those whose families had been settled in Athens for several generations (although they were legally free, liable to taxation, and had military duties); and above all, slaves. It is reckoned
16
Proposta de tradução: “Apenas numa polis, ou numa cidade-estado, o potencial humano podia ser cabalmente realizado”.
17
Proposta de tradução:
Contudo, as pessoas desempenhavam os papéis adequados àquilo que Aristóteles acreditava ser a sua posição natural na vida, com apenas alguns indivíduos qualificados como cidadãos. Embora nem as qualificações que Aristóteles considerava apropriadas para ser membro deste grupo seleccionado, nem os deveres que ele esperava deles sejam olhados como inteiramente adequados hoje em dia, estas qualificações e estes deveres lançaram uma longa sombra sobre a história da cidadania e o seu fundamento racional ainda está na base de muito pensamento contemporâneo.
that the number of citizens in Athens fluctuated between 30,000 and 50,000, while the number of slaves was of the order of 80,000 to 100,000. Therefore, citizenship was enjoyed by a minority, though a substantial one. Yet, this was inevitable given the high expectations of citizens. For their capacity to perform their not inconsiderable citizenly duties rested on their everyday needs being looked after by the majority of the population, particularly women and slaves18 (Bellamy 2008: 31-32).
Richard Bellamy (2008: 33) afirma que a cidade de Atenas era de entre todas as cidades gregas antigas a mais democrática. “Athens was unusual among Greek city states in being so democratic”.
Em oposição a Atenas, onde as artes, a filosofia, e o culto do lazer eram muito admirados, Esparta enfatizava o serviço militar em detrimento de todo o resto. As crianças eram retiradas às suas famílias aos sete anos de idade e sujeitas a um rigoroso treino, subsequentemente eram integrados numa “messe” (cf. Bellamy 2008: 33). “Given that they still had to attend the Assembly, Spartan citizens became even more permanent public servants than their Athenian counterparts”19 (Bellamy 2008: 33).
“Although the Athenians probably invented the idea of taking a vote to settle disagreements, unanimity was the ideal, and it appears likely that most issues were settled by consensus”20 (…) (Bellamy 2008: 34).
« (…) a citizen must not belong “just to himself” but also to “the polis”»21. (Bellamy 2008: 34)
“Though in the Greek model citizenship was the privilege of a minority, it provided a considerable degree of popular control over government”22 (Bellamy 2008: 34).
18
Proposta de tradução:
Para ser cidadão era necessário ser do sexo masculino com 20 anos ou mais, com uma genealogia conhecida como sendo nascido de uma família de cidadãos atenienses, ser o patriarca de uma família, guerreiro – possuindo armas e capacidade para combater – e mestre de trabalho de outros, particularmente escravos. Então, género, raça e classe definiam cidadania, e como vamos ver no próximo capítulo, muitos dos principais debates contemporâneos discutem o quanto estes continuam válidos. Consequentemente, um largo número de pessoas era excluído: mulheres (embora as mulheres atenienses casadas fossem cidadãs para efeitos de genealogia); crianças, emigrantes ou metecos – incluindo aqueles cujas famílias se haviam instalado em Atenas há várias gerações (se bem que eles fossem legalmente livres, susceptíveis de pagar impostos, e tinham deverem militares); e acima de tudo, escravos. Calcula-se que o número de cidadãos em Atenas flutuava entre os 30000 e os 50000, enquanto que o número de escravos era da ordem de 80000 a 100000. Assim a cidadania era gozada por uma minoria, embora substancial. Isto era inevitável, dadas as altas expectativas dos cidadãos. Para terem capacidade para cumprir os seus muitos deveres de cidadãos, ficavam delegadas as suas necessidades quotidianas na maioria da população, particularmente mulheres e escravos.
19
Proposta de tradução: “Dado que ainda tinham de estar ao serviço da assembleia, os cidadãos espartanos tornavam-se servidores públicos de forma ainda mais permanente do que os seus homólogos atenienses”.
20
Proposta de tradução: “Apesar de os atenienses provavelmente terem inventado o voto para resolver desentendimentos, a unanimidade era o ideal, e parece provável que a maior parte das situações era resolvida por consenso”.
21
Para muitos pensadores a cidadania grega apresenta-se como o paradigma de igualdade política no qual os cidadãos têm iguais poderes políticos e agem uns para com os outros com responsabilidade e respeito. Em oposição, os críticos deste modelo de cidadania argumentam que este não é assim tão ideal, mas sim duplamente opressivo. Por um lado oprimiam-se os escravos, as mulheres e os não cidadãos. Por outro lado era opressivo para os cidadãos na medida em que estes sacrificavam a sua vida privada e os seus interesses para servir o estado. (cf. Bellamy 2008: 34-35)
Roma
Os romanos começaram por usar a cidadania como mecanismo para distinguir os residentes da cidade de Roma dos povos cujos territórios foram conquistados e incorporados. À medida que o seu império continuava a crescer, os romanos concederam a cidadania aos seus aliados em Itália e posteriormente a povos noutras províncias romanas (Cf. AA.VV. 2009). "In AD 212 citizenship was extended to all free inhabitants of the empire. Roman citizenship conferred important legal privileges within the empire"23 (AA.VV. 2009).
Idade Média
22
Proposta de tradução: “Apesar de no modelo grego a cidadania ser o privilégio de uma minoria, proporcionava um grau considerável de controlo popular sobre o governo”.
23
Proposta de tradução: "Em 212 DC a cidadania foi estendida a todos os habitantes livres do império. A cidadania romana conferia importantes privilégios legais dentro do império".
"The concept of national citizenship virtually disappeared in Europe during the Middle Ages, replaced as it was by a system of feudal rights and obligations"24 (AA.VV. 2009). "Modern concepts of citizenship crystallized in the 18th century during the American and French Revolutions, when the term citizen came to suggest the possession of certain liberties in the face of the coercive powers of absolutist monarchs" (AA.VV. 2009).
Magna Carta, 1215
A Magna Carta é considerada como sendo o primeiro texto de toda uma subsequente luta contra a tirania e a opressão. Foi imposta pelos barões ingleses e assinada a 19 de Junho de 1215 pelo Rei João. Limita os poderes absolutos do monarca. É constituída por um preâmbulo e 63 cláusulas (cf. AA.VV. 2010c).
Surgiu num contexto histórico de crise. Falta de dinheiro e de bens essenciais, que eram desviados para suportar as tropas envolvidas na terceira cruzada, e mais tarde para pagar o resgate do rei Ricardo I. Com a morte deste, para além da frágil situação económica herdada, o Rei João viu-se ainda a braços com a aclamação de um rival ao trono, guerra com a França na Normandia e perda da região, e mais tarde uma querela com o Vaticano (cf. AA.VV. 2010c).
24
Proposta de tradução: "O conceito de cidadania nacional desapareceu virtualmente na Europa durante a Idade Média, substituído como foi por um sistema de direitos e obrigações feudais".