Prof. Dr. Ricardo Miranda Martins
Sistemas Lineares - Exponencial de Matrizes
(Este texto ´e um rascunho, pode conter pequenos erros.)
1. Exponencial matricial
Seja f(x) =ex a fun¸c˜ao exponencial. Lembre que f ´e uma fun¸c˜ao anal´ıtica em toda a reta, ou seja, sua s´erie de Taylor ao longo de x= 0
(1) f(x) =
∞
X
n=0
f(n)(0) n! xn=
∞
X
n=0
1 n!xn representa a fun¸c˜ao para todo x∈R.
Vamos utilizar a express˜ao do lado direito de (1) para definir o que entenderemos por exponencial matricial.
SeA ´e uma matriz n×n qualquer, definimos
(2) exp(A) = eA=
∞
X
n=0
1 n!An.
Sempre que definimos alguma coisa por uma soma infinita, devemos nos preocupar se este objeto
“existe”: no caso, se a s´erie em (2) converge. N˜ao apresentaremos a demonstra¸c˜ao do teorema abaixo, que garante esta convergˆencia.
Teorema 1. Dada uma matrizn×n qualquer, a soma em (2) converge para uma matriz n×n.
De uma certa forma, exponenciar “melhora” a qualidade de matriz. ´E o que veremos na pr´oxima proposi¸c˜ao, que tamb´em fornece outras propriedades deeA.
Proposi¸c˜ao 2. Seja A uma matriz n×n. Ent˜ao:
a) Se existem matrizes M, B tais que A = M BM−1 ent˜ao An = M BnM−1, para todo n ∈ N. Al´em disto, eA=M eBM−1.
b) A matrix eA ´e invert´ıvel, e sua inversa ´e a matriz e−A, ou seja, eAe−A=I =e−AeA. c) Se AB =BA ent˜ao eA+B=eAeB.
Observe que o item (c) da proposi¸c˜ao anterior n˜ao ´e ´obvio: o produto de matrizes n˜ao ´e, em geral, comutativo. Vocˆe consegue dar exemplos de matrizesA, B n×n tais que AB6=BA?
Todas as propriedades acima podem ser enunciadas com At, para t ∈ R, ao inv´es de A. Por exemplo, se A=M BM−1 ent˜aoeAt =M eBtM−1.
O teorema abaixo relaciona exponencial de matrizes e equa¸c˜oes diferenciais.
Teorema 3. Seja A uma matriz n×n e considere F(t) =eAt. Ent˜ao F0(t) =AeAt. O Teorema (3) nos diz que eAtx0 ´e uma solu¸c˜ao do sistema de equa¸c˜oes diferenciais
x0 =Ax, x(0) =x0.
Ou seja, para resolver um sistema linear homogˆeneo com coeficientes constantes x0 =Ax, onde A ´e uma matriz n×n e x ∈ Rn, com condi¸c˜ao inicial x(0) = x0 ∈ R, basta fazer x(t) = eAtx0. Precisaremos ent˜ao saber como calcular explicitamente exponenciais de matrizes.
Exemplo 4. Seja
A=
a 0 0 b
. Ent˜ao
eA = I +A+ 1
2!A2+ 1
3!A3 +. . .
=
1 0 0 0
+
a 0 0 b
+ 1
2
a2 0 0 b2
+ 1
6
a3 0 0 b3
+. . .
=
1 +a+ 1 2a2+ 1
6a3+. . . 0
0 1 +b+1
2b2+ 1
6b3+. . .
=
ea 0 0 eb
,
onde para ver a ´ultima igualdade, basta lembrar da equa¸c˜ao (1).
Exemplo 5. Seja
A=
a −b b a
.
Observe que
A=
a 0 0 a
+
0 −b b 0
.
J´a sabemos como exponenciar a matriz diagonal. Para a outra matriz, observe que se B =
0 −b b 0
ent˜ao
B2 =
−b2 0 0 −b2
B3 =
0 b3
−b3 0
B4 =
b4 0 0 b4
B5 =
0 −b5 b5 0
E poss´ıvel estabelecer regras gerais para´ Bn conforme seja o valor de n. Lembrando das s´eries de Taylor de cos(t) e sin(t), obtemos
eB=
cos(b) −sin(b) sin(b) cos(b)
.
Utilizando o item (c) da Proposi¸c˜ao 2, segue que eA =
ea 0 0 ea
cos(b) −sin(b) sin(b) cos(b)
=
eacos(b) −easin(b) easin(b) eacos(b)
.
Exemplo 6. Resolva o sistema de equa¸c˜oes diferenciais x0 = 3x−y,
y0 = x+ 3y.
Solu¸c˜ao: Observe que a matriz do sistema ´e A=
3 −1 1 3
.
Portanto, a solu¸c˜ao do sistema de EDO’s ´e z(t) = (x(t), y(t) =
e3tcos(t) −e3tsin(t) e3tsin(t) e3tcos(t)
c1
c2
,
ou seja, z(t) = (c1e3tcos(t)−c2e3tsin(t), c1e3tsin(t) +c2e3tsin(t)), onde c1, c2 s˜ao constantes reais.
Exemplo 7. ***Seja
A=
at t 0 at
.
Use constru¸c˜oes parecidas com os exemplos anteriores para provar que eA=
ea tea 0 ea
Os exemplos anteriores esgotam as possibilidade de matrizes 2×2 em forma de Jordan. Uti- lizando o item (a) da Proposi¸c˜ao 2, conseguimos exponenciar qualquer matriz 2×2. Para matrizes de dimens˜oes maiores, uma boa estrat´egia ´e utilizar a proposi¸c˜ao abaixo:
Proposi¸c˜ao 8. Suponha que A ´e uma matriz n×n em blocos, com estrutura de blocos dada por A= (A1, A2, . . . , Ak). Ent˜ao eA tamb´em ´e uma matriz em blocos, com eA= (eA1, eA2, . . . , eAk).
Exemplo 9. Seja
A=
7
2 −3 3 2
5 1 0 5
Ent˜ao, utilizando os resultados anteriores, obtemos que
eA=
e7
e2cos(3) −e2sin(3) e2sin(3) e2cos(3)
e5 e5 0 e5
(Os espa¸cos vazios das matrizes s˜ao todos iguais a zero.)
Exemplo 10. Encontre a solu¸c˜ao geral do sistema de equa¸c˜oes diferenciais
˙
x1 = 7x1
˙
x2 = 2x2−3x3
˙
x3 = 3x2+ 2x3
˙
x4 = 5x4+x6
˙
x5 = 5x6
Solu¸c˜ao: Observe que a matriz deste sistema ´e a mesma matriz A do Exemplo 9, portanto, j´a calculamos eA. A solu¸c˜ao geral do sistema de EDO’s anterior ´e dada por x(t) = eAtx0, onde x0 = (c1, c2, c3, c4, c5) s˜ao constantes (condi¸c˜oes iniciais). Desta forma
x(t) = eAtx0 =
e7t
e2tcos(3t) −e2tsin(3t) e2tsin(3t) e2tcos(3t)
e5t te5t 0 e5t
c1 c2 c3 c4 c5
2. Autovalores e autovetores
At´e agora sabemos resolver sistemas de EDO’s lineares homogˆeneas cuja matriz dos coeficientes seja dada em blocos, onde os blocos s˜ao matrizes como as dos Exemplos (4), (5) e (7).
Veremos agora uma forma de resolver qualquer sistema, utilizando autovalores/autovetores e a Proposi¸c˜ao 2.
Lembre que o item (a) da Proposi¸c˜ao (2) nos diz que, dada uma matriz A, se for poss´ıvel encontrar matrizes B e M tais que A=M BM−1 ent˜aoeAt =M eBtM−1.
Exemplo 11. Resolva o sistema de equa¸c˜oes diferenciais x01 = x1+x2,
x02 = 4x1+x2. Seja
A=
1 1 4 1
a matriz do sistema. Note que esta matriz n˜ao ´e como as dos Exemplos 4, 5 ou 7. Por´em, temos que (verifique!!) se
M =
−1 1 2 2
ent˜ao
M−1AM =
−1 0 0 3
Logo, seB ´e a matriz da direita na ´ultima equa¸c˜ao, temosM−1AM =B, ou seja,A=M BM−1. Portanto, eAt =M eBtM−1. Assim, a solu¸c˜ao da EDO ´e dada por x(t) = (M eBtM−1)x0, onde x0 = (c1, c2)´e um vetor de condi¸c˜oes iniciais. Explicitamente, temos
x(t) = 1
2e−t+1 2e3t
c1 +
1
4e3t− 1 4e−t
c2, e3t−e−t c1+
1
2e−t+ 1/2e3t
c2
. Vocˆe deve estar se perguntando: De onde sa´ıram as matrizes B e M? A matriz B ´e a matriz dos autovalores de A, e a matriz M ´e uma matriz com autovalores de A em suas colunas.
Faremos agora um exemplo em dimens˜ao 3.
Exemplo 12. Resolva o sistema de EDO’s
x01 = −x1+x3, x02 = 3x2+x3, x03 = 2x2+ 2x3.
Solu¸c˜ao: Seja
A =
−1 0 1 0 3 1 0 2 2
Precisamos calcular eAt. Como a matriz A n˜ao est´a dada em blocos, n˜ao sabemos calcular rap- idamente sua exponencial. Vamos calcular os autovalores de A, construir a matriz M com seus autovetores e ent˜ao a matriz M−1AM ser´a mais simples.
O polinˆomio caracter´ıstico de A ´e pA(λ) = λ3−4λ2−λ+ 4. Suas ra´ızes s˜ao −1, 1 e 4. Vamos determinar um autovetor associado a cada um dos autovalores.
autovetores associados a λ=−1: v1 = (1,0,0) autovetores associados a λ= 1: v1 = (1,−1,2) autovetores associados a λ= 4: v1 = (1,5,5)
Seja
M =
1 1 1
0 −1 5
0 2 5
.
Note que as colunas de M s˜ao os autovetores de A, na ordem crescente de seus autovalores.
Al´em disto, A=M BM−1, onde
B =
−1 0 0 0 1 0 0 0 4
.
Portanto, a solu¸c˜ao da EDO ´e dada por x(t) = eAtx0 = (M eBtM−1)x0, onde x0 ´e um vetor de constantes. Explicitamente, temos
x(t) =
e−tc1 + 152 e4t+15e−t− 13et
c2+ 115e4t− 25e−t+ 13et c3 1
3et+ 23e4t
c2+ 13e4t− 13et c3
−23et+ 23e4t
c2+ 23et+13e4t c3
T
Exemplo 13. Resolva o sistema de EDO’s
x01 = −x1+x3+x4, x02 = x2+x4,
x03 = x1+x2+ 2x3, x04 = x1−x2+ 2x4. Solu¸c˜ao: Seja
A=
−1 0 1 1
0 1 0 1
1 1 2 0
1 −1 0 2
Assim como no exemplo anterior, n˜ao sabemos calcular diretamente eAt. O polinˆomio caracter´ıstico da matriz A ´e
p(λ) =λ4−4λ3+ 2λ2+ 9λ−12 = λ2−3λ+ 3
λ2−λ−4
Portanto, os autovalores de A s˜ao 1 2 ± 1
2
√17 e 3 2 ± i
2
√3. Vamos calcular os autovetores.
autovetores associados a λ= 1 2 +1
2
√17: v1 = −11 8 + 5
8
√17, 2
−1 +√ 17,1
2
−5 + 3√ 17
−3 +√ 17
! ,1
!
autovetores associados a λ= 1 2 − 1
2
√17: v2 = −11 8 −5
8
√17,− 2 1 +√
17,1 2
5 + 3√ 17 3 +√
17
! ,1
!
autovetores associados a λ= 3 2 + i
2
√3: v3 =
0, 2 1 +i√
3,−1,1
autovetores associados a λ= 3 2 − i
2
√3: v4 =
0, 2 i√
3−1,−1,1
Se constru´ırmos a matriz M como antes, colocando os autovetores v1, v2, v3, v4 nas colunas, obteremos uma matriz diagonal, por´em uma matriz complexa. Construiremos a matriz M de uma forma um pouco diferente.
As duas primeiras colunas, como ser˜ao relativas aos autovalores reais, ser˜ao preenchidas com os autovalores.
As duas ´ultimas colunas, por´em, sejam preenchidas de outra forma: sejaµo autovalor complexo que tem parte imagin´aria positiva, no nosso caso µ = 3
2 + i 2
√3. O autovetor associado a este autovalor ´e v3. Seja u a parte real de v3 e w a parte imagin´aria de v3, ou seja:
u =
0,1 2,−1,1
w =
0,−1 2
√3,0,0
Vamos construir uma matriz M que tem como colunas v1, v2, u, w:
M =
1/2 −11/2+5/2
√ 17
(−3/2+1/2√17)(3/2+1/2√17) 1/2 −11/2−5/2
√ 17
(−3/2−1/2√17)(3/2−1/2√17) 0 0
−1/2 + 1/2√ 17−1
−1/2−1/2√ 17−1
1/2 −1/2√ 3 1/2−5/2+3/2
√ 17
−3/2+1/2√
17 1/2−5/2−3/2
√ 17
−3/2−1/2√
17 −1 0
1 1 1 0
Esta matriz satisfaz (verifique!!)
M−1AM =
−877+219√ 17
(−59+13√17)(−6+√17) 0 0 0
0 174
√
17(−1513+363√17)
(−59+13√17)(−6+√17) 0 0
0 0 3/2 1/2√
3
0 0 −1/2√
3 3/2
Agora basta exponenciar cada bloco e pronto! A solu¸c˜ao da EDO ser´a da forma eAt = (M eBtM−1)x0,
onde x0 ´e um vetor de constantes.
3. Sistemas n˜ao-homogˆeneos
Veremos como aplicar a teoria anterior para os sistemas n˜ao-homogˆeneos, ou seja, sistema de EDO’s da forma
(3) x˙ =Ax+b(t),
onde b(t) ´e uma fun¸c˜ao vetorial.
Assim como no caso 1-dimensional, tentaremos encontrar um fator integrante, s´o que agora utilizando a exponencial de matrizes.
Come¸camos reescrevendo o sistema (3) como
˙
x−Ax =b(t).
Agora multiplicamos a equa¸c˜ao por e−At (`a direita):
e−Atx˙ −e−AtAx=e−Atb(t).
Agora, o lado esquerdo da equa¸c˜ao coincide com d
dt e−Atx(t)
. Logo, podemos reescrever a equa¸c˜ao anterior como
d
dt e−Atx(t)
=e−Atb(t).
Integrando obtemos
e−Atx(t) = Z
e−Atb(t)dt
Resolvendo esta integral indefinida obtemosg(t) +c (g ´e uma fun¸c˜ao vetorial e c´e um vetor de constantes). Multiplicando a equa¸c˜ao anterior por etA, obtemos finalmente
x(t) =eAtg(t) +eAtc, que ´e a solu¸c˜ao geral da EDO (3).
Claro que o passo fundamental deste processo ´e encontrar a integral indefinida de e−Atb(t).
Veremos num exemplo como o procedimento funciona na pr´atica.
Exemplo 14. Considere a equa¸c˜ao diferencial
x˙1 = −2x1+x2+ 2et,
˙
x2 = x1 −2x2+ 3t.
Assim, considere
A=
−2 1 1 −2
, b(t) =
2e−t 3t
. Desta forma,
eAt =
1
2e−3t+1
2e−t 1
2e−t− 1 2e−3t 1
2e−t− 1
2e−3t 1
2e−3t+1 2e−t
e da´ı
e−Atb(t) =
1 + e2t− 3
2te3t+ 3 2tet
−e2t+ 1 + 3
2tet+3 2te3t
Agora integramos cada fun¸c˜ao coordenada de e−Atb(t), obtendo
g(t) =
t+ 1
2e2t− 1
2te3t+ 1
6e3t+3
2tet− 3 2et
−1
2e2t+t+3
2tet− 3 2et+1
2te3t−1 6e3t
Desta forma, a solu¸c˜ao geral da EDO ´e
x(t) = etAg(t) +etA(c1, c2)T.
Note que para calculareAt ´e preciso colocar a matrizAna forma padr˜ao, calculando seus autoval- ores e autovetores. Al´em disto, quando calculamos g(t)´e preciso recorrer a t´ecnicas de integra¸c˜ao aprendidas no C´alculo I, como por exemplo integra¸c˜ao por partes.