A HISTÓRIA
NO LABIRINTO DO PRESENTE
Ensaios (in)disciplinados sobre teoria da história,
história da historiografia e usos políticos do passado
ARTHUR LIMA DE AVILA
EDITORA MILFONTES
A História no
labirinto do presente
Copyright © 2021, Arthur Lima de Avila.
Copyright © 2021, Editora Milfontes.
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Arthur Lima de Avila
A História no
labirinto do presente
Ensaios (in)disciplinados sobre teoria da história, história da historiografia e usos políticos do passado
Editora Milfontes Vitória, 2021
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
A958h Avila, Arthur de Lima.
A História no labirinto do presente: ensaios (in)diciplinados sobre teoria da história, história da historiografia e usos políticos do passado/ Arthur de Lima Avila.
Vitória: Editora Milfontes, 2021.
202 p.: 23 cm.
ISBN: 978-65-86207-76-7
1. História da Historiografia 2. Teoria da História 3. Política I. Avila, Arthur de Lima II. Título.
CDD 901.02
Sumário
Introdução...11 Capítulo I
A História no Labirinto do Presente: notas sobre a crise de produção, reprodução e legitimação da historiografia disciplinada contemporânea ... 19 Capítulo II
Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica ... 59 Capítulo III
O fim da história e o fardo da temporalidade ... 79 Capítulo IV
“Povoando o Presente de Fantasmas”: feridas históricas, passados presentes e as políticas do tempo de uma disciplina ...101 Capítulo V
O Passado Norte-Americano na Era da Fratura: episódios das guerras de história nos Estados Unidos da década de 1990 ...123 Capítulo VI
O desejo e a impossibilidade de reparação: o 1619 Project e os usos do passado nos Estados Unidos contemporâneos ... 147 Referências ...181
Nos quebraron, hija, nos quiebran en plena vida. Y sin embargo arde, dentro de todos nosostros, de los que estamos vivos y de los que vamos a morir, dentro de nosotros arde el deseo de la vida. Plena y compleja y contradictoria como debe ser la vida.
Déjala que arda, hija, entre los intersticios del horror y contra los servidores de la muerte.
Liliana Heker
“History,” says Joyce, “is a nightmare from which I am struggling to awaken.”
We have all heard what happened to those who slept too long.
James Baldwin
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Introdução
Em um de seus contos, Liliana Heker conta a odisseia de um número de amigos e amigas que perambulam pela cidade de Buenos Aires, numa noite fria de inverno, procurando um lugar para ver o cometa (provavelmente o Halley) que, diziam os astrônomos, passaria pelo Hemisfério Sul naquele dia. O grupo anda de rua em rua, praça em praça, até chegar num descampado na periferia da cidade. Ali se deitam e tentam, ao máximo de suas habilidades, observar o corpo celeste no céu escuro. Contudo, nenhum deles consegue, de fato, vê-lo. Juntamente com a pequena multidão que se formou naquele arrabalde, tudo o que têm é a sensação de que algo está lá, acima deles e delas, mas que não pode ser precisamente delineado: “cada um”, escreve Heker, “buscava entre essas estrelas uma única luz indefinível”. Lhes restou uma oportunidade perdida somente, pois eles e elas não estariam vivos na próxima passagem do cometa. “Nenhum deles agitaria a suave bruma para persegui- lo” quando retornasse ao nosso planeta. Nem tudo foi em vão, porém: no seu vagar, os amigos e amigas encontraram propósito, comunidade e imaginação, impermanência, sentido e conforto;
encontraram, ao perceberem sua perda, o tempo. Deitados na relva, descobriram que, no fim, tudo, inclusive nosso mundo com seu
“último brilhinho”, passará.1
À sua maneira, Heker descreve, parece-me, algo análogo ao trabalho dos historiadores e historiadoras. Não seriam as andanças do bando similares às investigações da guilda? Não seriam as impressões sobre o cometa comparáveis às conclusões de seus trabalhos? Não seria o fugidio Halley uma figura próxima do passado, igualmente elusivo e incerto? E não seria a descoberta
1 HEKER, Liliana. La noche del cometa. In: Idem. La Crueldad de la Vida. Buenos Aires:
Alfaguara, 2001, p. 11-23.
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de que tudo passa o desvelar da historicidade inerente aos seres e às coisas? Posso estar lendo em excesso, obviamente. Talvez a escritora argentina tenha querido apenas contar uma história sem maiores pretensões. Ainda assim, ao ler e reler suas linhas, não deixo de me surpreender com a semelhança daquela perambulação com nossos afazeres, com uma única exceção: se aquelas pessoas se confrontaram com seu passamento final, o prospecto de sua inexistência futura, a disciplina continua acalentando sonhos de imortalidade. Não podemos deixar de notar a ironia: enquanto historiciza tudo e todos, ela raramente volta esse gesto a si mesma.
É como se estivesse salva, para parafrasear Halperin Donghi, das
“tormentas do mundo”, livre das mudanças que ela identifica nos outros.2 Não o está, obviamente, e o atual contexto, profuso em maus prenúncios e indefinições, deixa isso explícito. No entanto, sua relativa indiferença frente ao que se configura como a maior ameaça à sua existência desde seu nascimento no século XIX não deixa de ser inquietante.
Dessa inquietação nasceram esses ensaios.
*
Explicar textos próprios é, penso, um exercício um tanto fútil. Um texto deve ser capaz de explicar a si mesmo, porque, sem isso, de que serviria? Ademais, explanar, nesses termos, é sempre
“constranger o leitor a um sentido ou uma saída”,3 dando-lhe uma determinação apriorística de como o material deve ser lido. De minha parte, creio que mal-entendidos, quando não resultantes de má-fé, são tão importantes para a leitura quanto os entendimentos (pretensamente) precisos sobre que escrevemos. Por outro lado, e afinal de contas estamos numa introdução, penso ser importante oferecer aos e às que aqui transitam (acidente de percurso?) um pequeno guia sobre o mote geral do livro, sua problemática, na acepção que Fredric Jameson dá ao termo, aludida nas linhas acima.4
2 Cf. HALPERIN DONGHI, Tulio. Las Tormentas del Mundo en el Rio de la Plata: cómo pensaron su época los intelectuales del siglo XX. Buenos Aires: Siglo XXI, 2015.
3 BARTHES, Roland. Da ciência à literatura. In: Idem. O Rumor da Língua. São Paulo:
Martins Fontes, 2004, p. 28.
4 JAMESON, Fredric. Ideologies of Theory. London: Verso Books, 2009, p. 6-7.
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13 Iniciemos com a questão da disciplina. Isso significa indagar sobre o que significa (e significou) a disciplinarização das nossas imaginações sobre o pretérito e, consequentemente, seus efeitos políticos e teóricos maiores. Não tenho a pretensão de escrever uma história da história nem sequer de delinear ambiciosos planos de ação, porque não teria nem competência para fazê-lo.
O que me interessa é a reflexão sobre os limites dessa imaginação disciplinada em lidar com o passado, sobretudo numa situação que, independentemente dos diagnósticos otimistas sobre sua “diversidade”, expôs sua fragilidade teórica, política e institucional. Teórica, porque seus fundamentos epistêmicos não são mais auto evidentes, particularmente o “realismo ontológico”, o “tempo vazio e homogêneo” e o “discurso de separação” que lhe foram tradicionalmente característicos; política, pois, depois de seu divórcio da nação, não há mais o consenso de que a história ensine algo (ou de que deva ser ensinada), muito menos sobre suas funções sociais, o que resulta numa perceptível erosão de suas instâncias de legitimação pública; e institucionais, porque não temos garantia alguma de que seus lugares de produção, vitimados por ataques coordenados por setores neoliberais e neorreacionários, continuarão existindo no médio prazo. Em suma, as condições de produção, reprodução e legitimação de nosso métier alteraram-se substancialmente, sendo imprescindível que tenhamos em conta suas consequências para o que fazemos.
Nessa situação, e ecoo as ponderações de David Scott apresentadas no primeiro texto do livro, é crucial inquirir sobre o que vale a pena ser inquirido num dado momento, para que tenhamos, ao menos, uma noção da via a ser seguida (não importa quão tortuosa seja).
O “inquestionado e o inquestionável”, na expressão de Maria da Glória de Oliveira, devem deixar de sê-lo, para que nossos hábitos e disposições naturalizados sejam desfeitos e refeitos.5
Essa disposição crítica é crucial para que consigamos delinear o processo de decadência disciplinar, nosso segundo ponto, que ameaça a historiografia disciplinada atualmente. Decadência, aqui,
5 OLIVEIRA, Maria da Glória de. A história disciplinada e seus outros: reflexões sobre a (in)utilidade de uma categoria. In: AVILA, Arthur Lima de; NICOLAZZI, Fernando;
TURIN, Rodrigo (org.). A História (In)Disciplinada. Vitória: Milfontes, 2019, p. 68.
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não se refere exclusivamente a uma imaginação aritmética que reduz a saúde disciplinar a números. Se fosse assim, bastaria olhar para a quantidade de artigos publicados, alunas/os formadas/os e diplomas concedidos para (tentar) refutar esse suposto declínio. Porém, não se trata disso, como nos ensina Lewis Gordon. “Decadência disciplinar” refere-se ao processo de ontologização ou reificação de uma disciplina, pelo qual seus protocolos, métodos e burocracias tornam-se fins, não meios. Ao invés de se historicizar devidamente, uma área apresenta-se enquanto “uma instância da criação humana que não pode nunca morrer”, recalcando questionamentos sobre seu possível passamento e se estabelecendo como o zênite de um processo evolutivo - a disciplina sai do mundo para virar o mundo.6 As tradicionais leituras teleológicas da história da história, em que estágios posteriores superam “cientificamente” os anteriores rumo a uma história-ciência indiscutível, e a tendência, percebida há tempos por Arif Dirlik,7 à resiliência disciplinar solipsista (o business as usual que se recusa a encarar transformações dramáticas) são, na historiografia disciplinada, dois dos signos mais pronunciados da fetichização nomeada por Gordon. Em circunstâncias extremas, ela pode, inclusive, levar a um apartheid epistêmico que rejeita aprioristicamente contribuições, análises e escrutínios vindo de outras áreas, estigmatizados como “ilegítimos” simplesmente por serem “estrangeiros”.8 Vimos isso, por exemplo, nas tediosas e profusas “defesas da história” das décadas de 1980 e 1990, onde a manutenção de limites normativos rígidos era mais importante do que os argumentos em disputa ou do que o confronto com a crise cultural subjacente a essas discussões.9 O resultado foi uma vitória de Pirro da ortodoxia disciplinar porque, décadas depois, os mesmos problemas, agora somados a outros, voltaram a assombrar as oficinas de Clio. Nesse momento, temos dois duas opções a nossa frente: a recriação da disciplina, resultante do reconhecimento dos males que
6 GORDON, Lewis. Disciplinary Decadence: living thought in trying times. London:
Routledge, 2006, p. 5.
7 Cf. DIRLIK, Arif. Whither history? Encounters with historicism, postmodernism, postcolonialism. Futures, Amsterdam, v. 34, p. 75-90, 2002.
8 RABAKA, Reiland. Against Epistemic Apartheid: W. E. B. DuBois and the disciplinary decadence of sociology. Boulder: Lexington Books, 2010, p. 12-13.
9 DIRLIK, Arif. Whither history... Op. cit., p. 76-80.
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15 a assolam e de sua abertura ao mundo ou o precipício dos teimosos que, mesmo tendo feito a curva errada em alguma encruzilhada, acreditam estar certos enquanto rumam para o desastre. Encarar a morte para a reinventar a vida: eis, penso, a razão para que levemos a sério o possível, mas não necessário, passamento futuro da disciplina, ao menos na forma em que ela existe hoje.
Chegamos, então, a um terceiro problema central desse livro:
a teoria da história. Pensar teoricamente (existe outra maneira?) não deixa de ser, diante do avanço da razão neoliberal (e cínica) que toma tudo por sua utilidade imediata, uma (ínfima, frágil, delicada) operação de resistência. Minha preocupação com teoria da história é, sob esse ângulo, eminentemente política (todo argumento teórico é um argumento político, já dizia Stuart Hall),10 no sentido de que refletir sobre as condições de produção do conhecimento histórico no século XXI é refletir sobre sua viabilidade (e desejabilidade) num contexto de desdemocratização, crise climática-sanitária-social, desigualdade econômica rampante, destruição da possibilidade de reprodução da vida humana e falência das imaginações modernas que, bem ou mal, nos levaram até aqui. Nesse quadro, as perguntas teóricas feitas à história (e, por extensão, aos e às suas praticantes) se alteram: não se trata somente de, por exemplo, revisitarmos as (importantes, admito) indagações sobre sua cientificidade ou as exegeses infindáveis sobre sua “objetividade” e “factualidade”, mas de inquirir, dentre outras coisas e como diversos trabalhos vêm demonstrando (basta olharmos os índices recentes de revistas como História da Historiografia, History and Theory e Rethinking History), acerca dos limites de suas representações, suas relações com a pólis, suas políticas de temporalização, o pós-humano, o
“poder e autoridade do arquivo”,11 seu lugar epistêmico e seus usos (e abusos) coletivos.12 A intenção não é, obviamente, sacrificar
10 HALL, Stuart. In defense of theory. In: SAMUEL, Raphael (org.). People’s History and Socialist Theory. London: Routledge, 2016, p. 384.
11 HARTMAN, Saidiya. Wayward Lives, Beautiful Experiments: intimate histories of riotous black girls, troublesome women and queer radicals. New York: W. W. Norton, 2019, p. XIII.
12 A noção de lugar epistêmico é de Ana Carolina Barbosa Pereira. Cf. PEREIRA, Ana Carolina Barbosa. Precisamos falar sobre o lugar epistêmico da Teoria da História.
Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 10, n. 24, abr/jun. 2018.
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a história à teoria, mas insistir na importância de uma “história teoricamente orientada”,13 que não rejeita a autorreflexão, a auto-historicização e auto-problematização constantes. Sem isso, temos, penso, somente uma contemplação passiva do passado e da disciplina (e do passado da disciplina). Contudo, talvez o crucial desse gesto seja sua insurgência contra a “censura positivista” (a renúncia ao pensamento), nas palavras de Jameson, que acompanha o encolhimento do espaço crítico, o regime do fato reificado característico do neoliberalismo e o reforço de protocolos e tabus que visam, em última instância, eliminar o negativo de vez de nossas sociedades.14 A hostilidade anti-teórica, venha de quem venha, é sempre reacionária.15 A teoria da história, nessa perspectiva, pode auxiliar, para citar três colegas brasileiros, a “flagrar nosso tempo”,16 sem, entretanto, homogeneizá-lo ou toma-lo como um dado. Se, na discutível acepção de Zoltan Simon, a “teoria é o que fazemos dela”,17 então que ao menos a usemos contra a rapacidade dos servidores da morte que nos acercam cotidianamente.
Finalmente, eis o quarto e último (ou o que eu imagino ser o último) problema dessas páginas: os usos políticos do passado na contemporaneidade, considerados sob o prisma da velha pergunta sartreana sobre o “que fazer com o que foi feito de nós/dos outros/
de vocês?”, algo especialmente premente para aqueles e aquelas que vivem depois das (durante as) catástrofes da modernidade. Em meio a essa desorientação generalizada, nota Jameson, a busca ávida por
“narrativas históricas e reinterpretações de todos os tipos” é uma espécie de “compensação simbólica” pela míngua da historicidade que afeta nossos dias.18 O passado, mais do que a história, torna- se um objeto de atração (política, afetiva, erótica, escapista),
13 WILD ON COLLECTIVE. Theses on theory and history, 2018. Disponível em: http://
theoryrevolt.com/.
14 JAMESON, Fredric. Ideologies of Theory... Op. cit., p. 293.
15 HALL, Stuart. In defense of theory... Op. cit., p. 385.
16 Cf. SOUZA, Francisco Gouveia de; GAIO, Gessica Guimarães; NICODEMO, Thiago Lima. Uma lágrima sobre a cicatriz: o desmonte da universidade pública como desafio à reflexão histórica (#UERJresiste). Revista Maracanan, Rio de Janeiro, v. 17, p. 71- 87, jul./dez. 2017.
17 Cf. SIMON, Zoltan B. Os teóricos da História têm uma teoria da história? Reflexões sobre uma não-disciplina. Serra: Milfontes, 2018.
18 JAMESON, Fredric. The Antinomies of Realism. London: Verso Books, 2013, p. 259.
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17 quando não uma obsessão, para uma diversidade de sujeitos, interessados em chegar a um acordo com ele (ou em impedir que exista esse acordo). Da mesma maneira, são construções públicas da(s) temporalidade(s) das coletividades querelantes. Não é gratuita, assim, a virulência das contendas contemporâneas sobre o passado (das quais historiadores e historiadoras são apenas alguns dos participantes), exatamente porque são disputas em torno do que deve ser feito com determinados eventos-processos que, aos olhos de vários grupos, continuam a perturbá-los. Nessas discussões, a dúvida sobre “qual passado queremos?” anda pari passu com a inquirição acerca do “tempo em que vivemos”. Elas, em resumo, ajudam na definição do que é (e o que poderia ser) um presente tanto do que foi (ou poderia ter sido) o passado. A profusão de usos políticos do pretérito, assim como a transformação de seu estudo num campo, um tanto inflacionado, da historiografia disciplinada, é, assim, um sintoma dessa virada do passado histórico ao passado prático que identifico em alguns dos textos que seguem. Essa volta parece confirmar o vaticínio de Kerwin Klein sobre como, a despeito de seus inúmeros obituários, continuamos assombrados pela história, retornando a ela continuamente nem que seja para reafirmar sua instabilidade e vacuidade – o homo historia ainda perambula entre nós (possivelmente confuso, admito).19
Esse, acho, é o mote geral do livro. Ele não é uma injunção da disciplina, uma espécie de crítica insensata que faz tábula rasa do que veio antes de nós, porque tenho enorme admiração por seu papel na elucidação daqueles três mistérios que um dia desconcertaram a Sra. Ramsay de Virginia Woolf; sem ela, “a morte, o sofrimento e a pobreza” seriam ainda mais perturbadores do que já são. A historiografia disciplinada é (foi?) um bem inestimável. Contudo, notou Jacques Derrida, uma “herança é uma reafirmação de um débito” que também é “crítica e seletiva”.20 Escolher é também
19 KLEIN, Kerwin Lee. From History to Theory. Berkeley: University of California Press, 2014, p. 86. O termo “homo historia” é de Amin Samman. Ver: SAMMAN, Amin.
History in Financial Times. Stanford: Stanford University Press, 2019, p. 16.
20 DERRIDA, Jacques. The Specters of Marx. New York: Routledge Classics, 2006, p.
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“saber o que se pode fazer” com essa tradição,21 reconhecendo que, se ela se tornou demasiadamente estática, talvez tenha chegado a hora de criarmos alternativas que responderão à “construção da inteligência de nosso tempo”, não de outros.22 Adaptando a conhecida formulação de Theodor Adorno a essa lógica, é justamente quando perdeu o momento de sua realização que a história talvez seja mais importante do que nunca.23
*
Por último, um esclarecimento sobre a origem dos textos.
Dos seis capítulos que o compõem, quatro já foram publicados e dois são inéditos. Há, como seria de se esperar, repetições de temas, semelhanças argumentativas e tensões entre eles, quiçá até contradições. Faz parte. Para respeitar a integridade dos originais, não mudei seus argumentos, porque isso seria uma trapaça com a leitora (faria deles algo que não são), e apenas revisei sua forma, algumas notas e informações desatualizadas/equivocadas. De resto, eles estão como vieram ao mundo e podem ser lidos em sequência, livremente ou nem lidos, como acharem melhor. Cabe à leitora, se eu tiver alguma, abri-los para seus horizontes, libertando-os de seus contextos de origem e colocando-os em diálogos impensados, inimaginados e instigantes - fazê-los diferentes.
Ou não. Como eu disse, não quero constranger ninguém. A vida já é pesada o suficiente (os servidores da morte não nos dão sossego). Que a leitura seja leve, então (uma boa cerveja ou um bom café ajudam, se querem uma dica).
O cometa, aquela luz indefinível, está passando.
Sigamo-lo.
21 BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 187.
22 Grifo meu. ARTHES, Roland. Crítica e Verdade... Op. cit., p. 163.
23 ADORNO, Theodor. Negative Dialectics. New York/London: Continuum, 1983, p. 3