ARMAZENAMENTO DO SUCO DE ACEROLA MICROENCAPSULADO

Texto

(1)

Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.3, n.1, p.1-6, 2001 1 ARMAZENAMENTO DO SUCO DE ACEROLA MICROENCAPSULADO

Rossana Maria Feitosa de Figueirêdo1, Angela Grandin2, Enny Therezinha Martucci3

RESUMO

Este trabalho teve como objetivo estudar o armazenamento do suco de acerola (Malpighia punicifolia, L.) microencapsulado, em embalagens flexíveis laminadas. As amostras foram armazenadas durante 360 dias a temperatura ambiente e analisadas periodicamente quanto ao teor de ácido ascórbico e umidade. Verificou-se que a amostra com maior concentração de maltodextrina e goma arábica, em sua formulação, apresentou a menor perda de ácido ascórbico no final do período de armazenamento. O teor de umidade das amostras apresentou variações em seus valores, mas não se evidenciou tendência de acréscimo ou decréscimo com o tempo de armazenamento. Diante dos resultados obtidos pode-se concluir que a combinação da microencapsulação com o tipo de embalagem utilizada manteve as características das amostras adequadamente durante um ano.

Palavras-chave: conservação, cereja das antilhas, ácido ascórbico .

STORAGE OF THE WEST INDIAN CHERRY JUICE MICROENCAPSULATED

ABSTRACT

This work had as objective to study the storage of the West Indian cherry (Malpighia punicifolia, L.) juice microencapsulated, packed with laminated plastic. The samples were stored for 360 days to room temperature and analyzed periodically as for the of ascorbic acid and moisture. It was verified that the sample with larger maltodextrin concentration and Arabic gum, in its formulation, presented to smallest loss of ascorbic acid in the end of the storage period. The moisture of the samples presented variations in its values, but it was not evidenced increase tendency or decrease with the time of storage. Due to the obtained results it can be concluded that the combination of the microencapsulation with the type of used packing maintained the characteristics of the samples appropriately during one year.

Keywords: conservation, West Indian cherry, ascorbic acid

INTRODUÇÃO

A acerola (Malpighia punicifolia, L.) nas diversas formas em que é colocada no mercado tem como um de seus maiores atrativos o alto teor de ácido ascórbico. No entanto, a alta perecibilidade deste fruto traz problemas de conservação à maioria das apresentações em que o produto é encontrado. Nos casos em que o material é desidratado e pulverizado a mais importante alteração física que ocorre devido ao ganho de umidade é a aglomeração ou perda do fluxo livre, o

(2)

2

Outra forma de se obter ganhos na preservação de produtos alimentícios é através do tipo de embalagem. Das inúmeras alternativas de embalagens disponíveis no mercado as flexíveis têm-se destacado, por apresentar as seguintes vantagens: compacidade, conveniência na estocagem, no transporte e na exposição ao consumidor. Além disso, não necessitam de refrigeração e são fabricados com baixo gasto de energia (Gava, 1985).

Diante destes fatos o objetivo deste trabalho foi avaliar o comportamento do suco de acerola microencapsulado armazenado em embalagens flexíveis laminada submetido às condições ambientais de Campinas, SP, através dos parâmetros umidade e ácido ascórbico.

MATERIAL E MÉTODOS

Neste trabalho foram utilizadas, como matéria-prima, as amostras da acerola microencapsulada elaboradas de acordo com as Formulações 1 e 2 (Tabela 1).

Tabela 1. Formulações utilizadas para a produção da acerola em pó Concentração (%) Formulação o Suco de acerola Maltodextrina Goma arábica 1 80,0 15,0 5,0 2 82,5 15,0 2,5 Secagem

As secagens das formulações foram realizadas usando-se o secador por atomização (Niro-Atomizer) esquematizado na Figura 1. Este secador consiste de uma parte superior cilíndrica, com diâmetro de 1.320mm e altura de 1.000mm; uma parte inferior tronco cônica com altura de 820mm, diâmetro inferior de 300mm e ângulo de 60o. Foi utilizado disco rotativo a uma rotação de 20.000rpm e temperaturas do ar de secagem de 220oC e 90oC, na entrada e na saída do equipamento, respectivamente. aquecedor de ar filtro ventilador atomizador dispersor de ar

tanque alimentador filtro bomba ciclone exaustor de ar produto obtido

(3)

3

Embalagem

Foram confeccionadas manualmente, com o auxílio de uma termoseladora, embalagens flexíveis laminada, com quatro soldagens laterais, de 7,5 x 8,0cm, e adicionados cerca de 10g das amostras em cada uma. A seguir foi feita uma inspeção visual das embalagens, descartando-se as que apresentavam defeito.

O laminado foi caracterizado em termos dos componentes da estrutura, determinação das espessuras total e parciais e taxa de permeabilidade ao oxigênio, pelo Centro de Tecnologia de Embalagem (CETEA) do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL - Campinas). Os resultados obtidos e fornecidos pelo CETEA são mostrados na Tabela 2.

O laminado era composto de quatro camadas plásticas: camada externa (Polietileno Tereftalato - PET), camada 2 (Polietileno - PE), camada 3 (Alumínio - AL) e camada interna (Polietileno - PE).

Tabela 2. Espessuras total e parciais do laminado utilizado na embalagem do suco de acerola microencapsulado Espessura ( m) Total Camada externa Camada 2 Camada 3 Camada interna 75 12 11 12 40

Taxa de permeabilidade ao oxigênio = 0,45 cm3 (CNTP)/m2/dia, a 25oC, a seco e 1 atmosfera de gradiente de pressão parcial de gás permeante

Armazenamento

As amostras embaladas do suco de acerola microencapsulado, das duas formulações, foram deixadas sob as condições ambientais de laboratório, na cidade de Campinas, e a cada 60 dias foi feito o acompanhamento através dos parâmetros umidade e ácido ascórbico, num tempo total de 360 dias.

Ácido ascórbico

A determinação do ácido ascórbico foi realizada em triplicata, na amostra reconstituída com água destilada, utilizando-se o método titulométrico no 43.056 (A.O.A.C., 1984) modifi-cado por Benassi (1990) no qual se substituiu o solvente extrator ácido metafosfórico por ácido oxálico.

Umidade

em triplicata, utilizando-se cerca de 1 a 2g da amostra e submetendo-as a secagem em estufa a vácuo, a 70 1oC, até peso constante.

Análise estatística

A análise estatística dos dados de umidade e ácido ascórbico foi feita utilizando-se o delineamento inteiramente casualizado, com três repetições e as análises de variância usando-se o programa computacional ASSISTAT 6.1 (Silva, 1996).

A comparação entre médias foi feita pelo teste de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade (Gomes, 1987).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados das análises estatísticas referentes à umidade e ácido ascórbico dos sucos de acerola microencapsulados em função dos períodos de armazenamento e formulações encontram-se nas Tabelas 3, 4, 5 e 6.

Ácido ascórbico

A análise de variância dos resultados observados para o valor médio do ácido ascórbico da Formulação 1, encontra-se na Tabela 3; verificou-se que, para o período de armazenagem, houve efeito significativo ao nível de 1% de probabilidade pelo teste de F.

Tabela 3. Análise de variância dos valores médios do ácido ascórbico da Formulação 1 Fonte de variação G.L S.Q Q.M F Período 6 7.386,67 1.231,11 7,76** Resíduo 14 2.221,33 158,67 Total 20 9.608,00 **

Significativo a nível de 1% de probabilidade G.L - Grau de liberdade; S.Q - Soma dos quadrados e Q.M - Quadrado médio dos desvios

Na Tabela 4 encontram-se os valores médios do ácido ascórbico da Formulação 1, para os diferentes períodos de armazenamento e se constata que o suco de acerola microencapsulado da Formulação 1, na embalagem utilizada, permitiu a conservação do ácido ascórbico em todos os períodos de armazenagem, não havendo diferenças significativas entre as médias observadas do período P0 até o período P5. Os períodos P3, P4 e P6

(4)

4

de embalagem e formulação utilizada na microencapsulação do suco de acerola armazenado nas condições ambientais de Campinas durante o período de um ano conservou o produto muito bem, ocorrendo perdas no conteúdo de ácido ascórbico, em torno de 2%.

Tabela 4. Valores médios do ácido ascórbico da Formulação 1 para os diferentes períodos de armazenamento

Período Ácido ascórbico (mg/100 g de pó) P0 2.207 a P1 2.226 a P2 2.225 a P3 2.200 ab P4 2.194 ab P5 2.207 a P6 2.167 b MG=2.204; CV(%)=0,57; DMS=35,13

MG - Média geral; CV - Coeficiente de variação e DMS - Desvio mínimo significativo

Obs.: as médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey, a nível de 5% de probabilidade

Na Tabela 5 é apresentada a análise de variância do ácido ascórbico da Formulação 2, verificando-se que, para o fator estudado, houve efeito significativo a nível de 1% de probabilidade, pelo Teste de F.

Tabela 5. Análise de variância dos dados médios de ácido ascórbico da Formulação 2 Fonte de variação G.L S.Q Q.M F Período 6 14.864 2.477,33 12,18** Resíduo 14 2.848 203,43 Total 20 17.712,0 **

Significativo ao nível de 1% de probabilidade G.L - Grau de liberdade; S.Q - Soma dos quadrados e Q.M - Quadrado médio dos desvios

Analisando-se a Tabela 5, nota-se que existe tendência à redução do ácido ascórbico, com o decorrer do tempo; esta tendência fica mais pronunciada observando-se os períodos P3, P4 e P6,

os quais não diferem estatisticamente, fato já observado na Formulação 1. No final do período de um ano, verificou-se perda do ácido ascórbico para a Formulação 2, em torno de 3%, quando armazenado nas condições ambientais de Campinas, na embalagem utilizada.

Tabela 6. Valores médios do ácido ascórbico da Formulação 2 para os diferentes períodos de armazenamento

Período Ácido ascórbico (mg/100 g de pó) P0 2.480 a P1 2.469 ab P2 2.445 abc P3 2.437 bcd P4 2.409 cd P5 2.447 abc P6 2.401 d MG=2.441; CV(%)=0,58; DMS=39,77

MG - Média geral; CV - Coeficiente de variação e DMS - Desvio mínimo significativo

Obs.: as médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey, a nível de 5% de probabilidade

Na Figura 2 estão representados, graficamente, os valores experimentais do ácido ascórbico das formulações durante 360 dias de armazenamento, com os pontos experimentais ajustados linearmente. Aplicando a equação de ajuste para o tempo de 360 dias obtém-se uma diminuição de 1,82% no teor de ácido ascórbico para a Formulação 1 e de 2,74% para a Formulação 2. Apesar do pequeno percentual representado por estes valores, o ajuste confirma a tendência de decréscimo no teor de ácido ascórbico ao longo do tempo.

Umidade

Na Tabela 7 encontra-se a análise de variância dos dados médios da umidade da Formulação 1 e observa-se que, para o fator estudado (período de armazenagem) houve efeito significativo ao nível de 1% de probabilidade pelo teste de F.

Tabela 7. Análise de variância dos dados médios de umidade da Formulação 1 Fonte de variação G.L S.Q Q.M F Período 6 1,48 0,2458 89,65** Resíduo 14 0,04 0,0027 Total 20 1,51 **

(5)

5 0 60 120 180 240 300 360 2000 2100 2200 2300 2400 2500 2600

Formulação 1 A=2.223,9643-0,1125t Formulação 2 A=2.475,1071-0,1887t Á ci d o a sc ó rb ic o ( m g a .a ./ 1 0 0 g d e p ó ) Tempo (dias)

Figura 2. Valores do ácido ascórbico experimental e estimado em função do tempo de armazenagem, para as duas formulações estudadas.

Na Tabela 8 são apresentados os valores médios da umidade da Formulação 1 acondicionada em filme laminado, submetidos às condições ambientais de Campinas, pelo período de um ano. Apesar da variabilidade percentual dos dados, atingindo até 32,6% entre os valores P0 e P3,

não se detecta tendência crescente ou decrescente de umidade no período total estudado, podendo-se observar que os três últimos valores medidos são semelhantes aos dois primeiros, chegando praticamente a coincidir na primeira determinação e na penúltima (P0 e P5), apesar da alta

higroscopicidade do material.

Tabela 8. Valores médios da umidade da Formu-lação 1 para os diferentes períodos de armazenagem Período Umidade (% B.S.) P0 2,57 d P1 2,75 c P2 2,96 b P3 3,41 a P4 2,75 c P5 2,60 d P6 2,77 c MG=2,83; CV(%)=1,85; DMS=0,15

MG - Média geral; CV - Coeficiente de variação e DMS - Desvio mínimo significativo

Obs.: as médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey, a nível de 5% de

A análise de variância dos dados médios de umidade da Formulação 2 encontra-se na Tabela 9. Para o fator estudado houve efeito significativo ao nível de 1% de probabilidade, pelo teste de F.

Tabela 9. Análise de variância dos dados médios de umidade da Formulação 2 Fonte de variação G.L S.Q Q.M F Período 6 0,86 0,1437 16,55** Resíduo 14 0,12 0,0087 Total 20 0,98 **

Significativo a nível de 1% de probabilidade

G.L - Grau de liberdade; S.Q - Soma dos quadrados e Q.M - Quadrado médio dos desvios

Na Tabela 9, de forma semelhante ao observado na Formulação 1 não é detectada tendência de acréscimo ou decréscimo nos teores de umidade ao longo do período de armazenamento. Embora a variabilidade entre o maior e o menor valor atinja cerca de 23%, da mesma forma que na Formulação 1, esta variação ocorreu isoladamente não configurando um comportamento dependente do tempo.

(6)

6

condições ambientais e possivelmente absorveu umidade.

Tabela 10. Valores médios da umidade da Formulação 2 para os diferentes períodos de armazenagem Período Umidade (% B.S.) P0 3,23 c P1 3,65 b P2 3,98 a P3 3,62 b P4 3,66 b P5 3,61 b P6 3,57 b MG=3,62; CV(%)=2,58; DMS=0,26

MG – Média geral; CV – Coeficiente de variação e DMS – Desvio mínimo significativo

Obs.: as médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey, a nível de 5% de probabilidade

Na Figura 3 estão representados, grafica-mente, os valores de umidade das formulações durante o armazenamento. 0 60 120 180 240 300 360 0,0 2,5 5,0 7,5 10,0 Formulação 1 Formulação 2 U m id ad e (% B .S .) Tempo (dia)

Figura 3. Dados experimentais dos valores de umidade em função do tempo de armazenagem, para as duas formu-lações estudadas

CONCLUSÕES

O produto sofreu pequena diminuição no

teor de ácido ascórbico ao longo do período de armazenagem e esta perda no final do período foi de 2% e 3% para as Formulações 1 e 2, respectivamente;

Não se evidenciou tendência de acréscimo ou decréscimo no teor de umidade das amostras com o tempo de armazenamento;

Na embalagem utilizada para se armazenar o suco de acerola microencapsulado para as duas formulações, conservou o produto adequadamente.

AGRADECIMENTOS

À pesquisadora Sra. Claire I. G. L. Sarantópoulus, do Centro de Tecnologia de Embalagens (CETEA) do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL-Campinas) pela caracteriza-ção da embalagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A.O.A.C (Associaton of Official Analytical Chemists). Official methods of analysis. WILLIAMS, S. (Ed.) 14. ed. Arlington, 1984. 1141 p.

Benassi, M.T. Análise dos efeitos de diferentes parâmetros na estabilidade de vitamina C em vegetais processados. 1990. 159 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia de Alimentos) – Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

Gava, A. Processamento asséptico de suco de frutas. Alimentação, n. 76, p. 32-37, 1985. Gomes, F.P. Curso de estatística experimental.

12. ed. São Paulo: ESALQ/USP, 1987. 467 p. Leme Jr., J.; Fonseca, H.; Nogueira, J.N. Variação

do teor de ácido ascórbico e beta-caroteno em cerejas das Antilhas (Malpighia punicifolia L.) liofilizada. Archivos Latinoamericanos de Nutricion. v. 23, n. 2, p. 207-215, 1973. Silva, F. de A. S. The ASSISTAT software:

(7)

Imagem

temas relacionados :