• Nenhum resultado encontrado

PROGRAMA LUGARES DA MEMÓRIA

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "PROGRAMA LUGARES DA MEMÓRIA"

Copied!
15
0
0

Texto

(1)

1

Convento Santo Alberto Magno – Convento dos Dominicanos

Endereço: Rua Caiubi, 164 Perdizes, SP Classificação: Espaço Religioso.

Identificação numérica: 134-10.001

A Ordem dos Dominicanos, de origem europeia, funda em 1938 o Convento Santo Alberto Magno, em Perdizes. A trajetória progressista deste grupo religioso o aproximou da realidade social e política brasileira. Durante o período ditatorial (1964- 1985), os dominicanos do Convento Santo Alberto Magno demonstraram, para além de uma sensibilidade às causas sociais, um verdadeiro enfrentamento às violações aos direitos humanos cometidas pelo regime militar.

A Ordem dos Pregadores, mais conhecida como dominicana, foi fundada em 1216, no sul da França, pelo padre espanhol Domingos de Gusmão, tendo como princípios: o voto de pobreza, a vida intelectual, a formação teológica de seus membros e a fundação de conventos que prezavam pela vida comunitária, com regras democráticas de funcionamento. Fé e razão, a prática do bem evitando o mal, e o dever do cristão de se colocar em defesa dos oprimidos, como expôs o teólogo e filósofo São Tomás de Aquino, foram os princípios fundamentais da vida religiosa dos dominicanos.

No Brasil, onde a Ordem se estabelece no final do século XIX, os frades realizam primeiramente trabalhos relacionados ao mundo indígena e, a partir do século XX, se voltam para o mundo estudantil, movimentos sociais e defesa dos direitos humanos.

AS NOVAS BASES DO CATOLICISMO NA AMÉRICA LATINA Memorial da Resistência de São Paulo

PROGRAMA

LUGARES DA MEMÓRIA

(2)

2 Na segunda metade do século XX, o cenário político que se tecia na América Latina comportava elementos transpostos do final da Segunda Guerra Mundial, em que o mundo se polarizava entre os eixos capitalista e comunista. Movimentos revolucionários emergiam de alguns países periféricos, como no caso de Cuba, em que a revolução assumiu caráter popular buscando a independência econômica e política do sistema imposto aos países da América Latina. A Igreja Católica, com forte atuação nessa região, acompanhava de perto essas transformações, sobretudo o setor mais conservador da instituição, que procurou se inteirar mais profundamente em relação aos problemas sociais do continente, empreendendo ações que minassem outras tentativas de revoluções.

No Brasil, a mobilização católica permitiu uma maior compreensão por parte da Igreja quanto aos problemas sociais enfrentados em decorrência do sistema capitalista, e suas possíveis soluções. Nesse sentido, como aponta Pablo Richard,

A conscientização e prática político-social católica decorridas desse momento devem ser compreendidas dentro de uma nova concepção de cristandade, que seria desenvolvimentista. Pois, na tentativa de minimizar as injustiças e evitar uma mudança brusca no sistema, a instituição passou a estimular reformas sociais junto ao Estado1. Contudo, o estímulo dessas reformas sociais empreendidas pela Igreja junto ao Estado não visava o rompimento com o capitalismo, tornando-se, de acordo com alguns religiosos, um projeto limitado. Desse modo, na medida em que os debates se acirravam dentro da instituição, os membros da base da Igreja se afastavam da alta hierarquia eclesiástica conservadora, buscando novos caminhos para a atuação do catolicismo nacional.

Esses religiosos encontraram amparo nas resoluções do Concílio do Vaticano II, convocado em 1961 pelo Papa João XXIII, a partir do qual a Igreja Católica empreendeu uma renovação em sua doutrina. A divulgação da Carta Encíclica em 1962 trazia como exigências “a Verdade como fundamento, a Justiça como norma, o Amor como motor e a Liberdade como clima”2. Com as proposições do Concílio Vaticano II, o processo de conscientização e mobilização social dessa base católica ganhou novas dimensões, alinhando os ideais de renovação e interação da Igreja com o mundo moderno e pregando a unidade cristã entre as religiões em diálogo direto com a humanidade e seus problemas. Sendo assim, diversos grupos e movimentos

1 Ibidem, p.155.

2 SOUZA, Admar Mendes de. Estado e Igreja católica. O movimento social do cristianismo de libertação sob a vigilância do Deops/SP (1954-1974). 2009. Tese (Doutorado em História). FFLCH. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2009, p.158.

(3)

3 católicos de base passaram a reivindicar melhores condições de vida para todos os homens, a libertação de todas as formas de opressão e a salvaguarda dos valores e direitos humanos. A abertura promovida pelo Concílio Vaticano II possibilitou a contínua mudança no modo de pensar e agir de alguns setores religiosos.

O CONVENTO DOS DOMINICANOS EM PERDIZES

Os dominicanos já possuíam uma tradição de militância política desde a Segunda Guerra Mundial, quando ajudaram refugiados a se esconderem dos nazistas.

Desde sua chegada ao Brasil, no final do século XIX, esses religiosos apresentam uma preocupação com os problemas do seu contexto histórico. Fundam em 1938 o Convento Santo Alberto Magno, em Perdizes, que passa a ser um espaço em que se aglutinavam estudantes e intelectuais paulistas interessados na ala progressista da Igreja Católica. De acordo com Frei Betto, durante a ditadura civil-militar no país,

(...) impelidos pela renovação da Igreja no Concílio Vaticano II, alguns frades se engajaram na luta por democracia e padeceram anos nos cárceres, enquanto outros abraçaram a “opção pelos pobres”, de modo a fazer das classes populares protagonistas na implantação do direito à justiça e das condições de paz3.

As ações de luta contra o regime ultrapassaram os muros do Convento, pois havia elementos que faziam com que os freis dominicanos participassem e se envolvessem organicamente com os problemas da sociedade.

Até 1967 não havia grupos organizados de frades que pertenciam a esta ou aquela organização. Acho que o ano de 1967 foi o ano divisor de águas. 1967/1968 foram os anos em que começaram a abertura para que os estudantes e os sacerdotes mais jovens saíssem do convento e fossem viver em pequenas comunidades em casa e apartamentos em vários bairros de São Paulo4.

Com essa abertura, os dominicanos poderiam usar trajes civis e o uso das batinas passava a ser obrigatório somente dentro do convento. Poderiam trabalhar fora e fazer seus estudos em instituições laicas, o que possibilitou a muitos freis uma participação ativa na vida social num contexto de intensa repressão política. Essa

3 BETTO, Frei. Frades dominicanos: 800 anos. O Globo, 20/08/2016. Disponível em: <

https://oglobo.globo.com/sociedade/frades-dominicanos-800-anos-19951798>. Acesso em 01/07/2017.

4 VALENÇA, João. Uma história do tempo da ditadura. Revista Revés do Avesso. Centro Ecumênico de Publicações e Estudos Frei Tito de Alencar de Lima (CEPE); São Paulo, 2004, p.37.

(4)

4 relativa liberdade permitiu que alguns religiosos ingressassem em organizações civis de combate à ditadura, inclusive aquelas relacionadas à resistência armada, como a Ação Libertadora Nacional (ALN)5. “Os primeiros a entrarem na ALN foram o frei Osvaldo e frei Betto, logo outros foram aderindo a este projeto de luta contra a ditadura militar. Dado o conhecimento que tinham de pessoas em todas as camadas sociais, a coordenação logística ficou com os frades”6. Essa posição de entrar em contato com várias pessoas usando seus nomes verdadeiros causava certa vulnerabilidade aos freis. Com o passar do tempo, os religiosos também passaram a realizar ações secundárias de apoio ao grupo armado, como a guarda de pessoas e o acompanhamento de pessoas feridas durante o processo de recuperação.

Os outros freis do convento dominicano que fizeram parte da ALN foram: frei Maurício (João Valença), frei Fernando, frei Ivo Lesbaupin, frei Magno Vilela, frei Luis Felipe Ratton Mascarenhas, frei Giorgio Callegari e frei Tito de Alencar. Alguns desses religiosos, estudantes do curso de filosofia da Universidade de São Paulo, se envolveram diretamente com o movimento estudantil, colaborando inclusive com a organização do Congresso da UNE em Ibiúna. Dentre eles estavam: frei Luiz Felipe Ratton, frei Domingos Guimarães e frei Tito de Alencar Lima, todos posteriormente presos com os demais estudantes do Congresso.

A reflexão proporcionada pela vida na universidade, aliada à leitura da Encíclica, motivou o abandono do comportamento puramente contemplativo. A Igreja deixava ser o espaço de subserviência do homem para ser o espaço que serve ao homem nas questões sociais.

Pio XI denunciara que os males, os crimes, e as injustiças do mundo não se originavam de forças demoníacas, mas sim da estrutura do capitalismo e que a “Populorum Progressio” não condena os “abusos do capitalismo”, mas esse abuso que é o capitalismo7.

5 “Organização revolucionária criada em 1968 por Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira e Virgílio Gomes da Silva, dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Defendendo a necessidade da luta armada para derrubar o regime militar instaurado no Brasil em abril de 1964 e para instalar um governo popular revolucionário, a ALN, ao lado do Movimento

Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), foi um dos principais grupos que, entre as décadas de 1960 e 1970, se dedicaram à guerrilha no país”. In: Verbete Ação Libertadora Nacional (ALN), produzida pelo CPDOC/FGV.

Disponível em: < http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/acao-libertadora- nacional-aln>. Acesso em 01/07/2017.

6 Ibidem, p.39.

7 DE SANCTIS, Frei Antônio. Encíclicas e documentos sociais. Da “Rerum Novarum” à Octogésima Advenies. São Paulo: Edições LTR, 1972, p.391.

(5)

5 A participação dos frades dominicanos na luta contra a ditadura colaborou com o processo de radicalização da esquerda cristã, quando alguns membros da Ordem passam a apoiar a resistência armada. Naquela conjuntura de repressão, os conventos da Ordem Dominicana serviram como abrigo aos perseguidos políticos, verdadeiros espaços em que a prática do cristianismo voltava-se à materialização da fé através da práxis política da libertação. Essa prática fez crescer a vigilância da Ordem, tanto por parte do aparato repressor, como por cidadãos comuns que colaboravam com o trabalho da polícia enviando cartas de denúncias com as atividades ocorridas naquele espaço.

O JORNAL “BRASIL, URGENTE”

Em 1961, as palestras do frade Carlos Josaphat sobre os problemas sociais, proferidas no Convento de Perdizes, foram a base para o surgimento de um importante veículo que buscava construir uma nova consciência política cristã. O jornal

“Brasil, Urgente”, lançado em 1963, assumiria um importante papel quanto à constituição de um projeto de mobilização social. Seus idealizadores buscavam meios de torná-lo um jornal diário em que semanalmente se publicasse edições culturais e políticas mais densas, com intuito de formar uma opinião pública que abarcasse os diversos setores da sociedade. No seu curto período de existência, as publicações do jornal defendiam as reformas de base e a revolução social, elementos que atraíram público dos setores operários e estudantis. Por outro lado, os religiosos passaram a ser alvo de críticas e o Convento dos Dominicanos sofreu atos de vandalismo (como o representado na imagem abaixo). No dia posterior ao golpe de 1964, o Convento foi Imagem 01:

Convento dos Dominicanos no ano de 1969. Foto:

Jorge Butsuem.

Fonte: Revista Veja.

(6)

6 invadido, os documentos do jornal foram confiscados, todo material censurado e o jornal foi fechado por ordem militar.

APROXIMAÇÃO COM A AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL - ALN

Com o Ato Institucional n° 5 (AI-5), os setores progressistas da Igreja Católica voltam ainda mais suas atenções aos pobres, oprimidos e perseguidos políticos, se posicionando em defesa daqueles que não possuíam voz e daqueles que foram silenciados pela ditadura. A Ordem dos Dominicanos foi uma das primeiras a se colocar em oposição ao governo e atuar de modo a dar refúgio aos companheiros da juventude católica perseguidos pela polícia. Deste modo, uma rede interna de auxílio aos perseguidos foi sendo criada pela Ordem. A atuação dos dominicanos se fortificou em 1968, assumindo assim um importante papel de defesa dos direitos humanos e sociais, através de uma nova visão cristã de mundo em que,

Cristo é Deus encarnado na história e, portanto, os homens reconciliados com o tempo. Cada vida individual deve contribuir para o progresso coletivo da história, dando uma propensão ao engajamento. A atitude fundamental do divino não é marcada pela deferência, devoção, respeito, mas pelo entusiasmo, o fervor e a Imagem 02: Catedral da Igreja dos Dominicanos pichada com frases: “Fora padre comuna” e “Morte aos Padres vendidos comunistas”. Foto: Autor desconhecido. Fonte:

Acervo Dominicanos.

(7)

7 identificação que torna possível pela aparência humana da divindade8.

Nesse contexto histórico, os freis dominicanos vivenciaram através da prática política a experiência apostólica. No final da década de 1960, um grupo de frades que compartilhava dos ideais de transformação política e social se vinculou à Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. O líder revolucionário acreditava que para derrubar o regime era preciso aliar-se à esquerda católica9 pois, por estarem muito mais próximos do povo, os religiosos facilitariam a articulação da revolução.

Frei Osvaldo Resende organizou em 1967 o primeiro encontro de Marighella (sob a alcunha de Professor Menezes) com o grupo de dominicanos no Convento Santo Alberto Magno. O assunto se deu em torno da questão referente à renovação do catolicismo, tendo em vista as diretrizes do Concílio Vaticano II. Nesse sentido, a Ação Libertadora Nacional pretendia contar com o apoio dos dominicanos ao movimento que visava derrubar o regime através da luta armada e formar um governo popular revolucionário. Segundo o relato de frei Fernando de Brito,

O trabalho dos frades junto a ALN consistia em fazer desabrochar a luta armada. Foram, portanto, uma base de apoio a militantes envolvidos em expropriação bancária, sequestros, bombas, etc.

Acolhiam os feridos e perseguidos políticos, dando lhes asilo e possibilitando a fuga do país; escondiam armas e material subversivos, além de levantamentos de áreas adequadas para o desenvolvimento da guerrilha rural10.

Frente ao engajamento dos religiosos no combate à ditadura militar, o Convento dos Dominicanos em Perdizes passou a sofrer um monitoramento intenso, através de escutas telefônicas e de agentes infiltrados nas missas para buscar indícios de teor subversivo nas pregações. A perseguição culminou na descoberta da ligação de Marighella com os dominicanos.

João Valença afirma que a sala do delegado Cintra Bueno, no Deops/SP, era o

“epicentro da comunidade de informação ligada à igreja”. Durante sua prisão na mesma delegacia, frei Valença relata ter visto vários religiosos e religiosas adentrarem

8 BEZERRA, Emanuela Antunes; DELGADO, Lucília de Almeida Neves; e OLIVEIRA JR, V. C.

Do Humanismo Cristão a Práxis Política da Oposição a Ditadura Militar: Memórias de Uma Experiência Dominicana. VII Encontro Regional Sudeste de História Oral: Memória e Política, Rio de Janeiro, 2007.

9 BETTO, Frei. Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighela. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982, p.23.

10 FERNANDO, Frei. Diário de Fernando. Nos cárceres da ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.32.

(8)

8 a sala do delegado para levar informações, com rabiscos de pregação dos padres das igrejas de São Paulo, gravações das discussões nas reuniões assembleias da CNBB em Itaici, e outros11.

SOB O OLHAR DO DEOPS/SP

O Convento Santo Alberto Magno estava na rota da vigilância e da repressão militar do Departamento de Ordem Política e Social - Deops/SP. Além de realizar invasões ao Convento, como na ocasião do fechamento do jornal “Brasil, Urgente”, os agentes da repressão vigiavam/visitavam constantemente o local. Admar Mendes de Souza afirma que desde a década de 1950 o Deops se ocupou de observar tanto os comportamentos individuais dos membros da Ordem, como da comunidade leiga que se reunia no Convento para conferências e cursos cujos temas estavam ligados à resistência ao regime12. João Valença apresenta um relato sobre a visita de um delegado do Deops ao Convento:

Ele estava revoltado com a atitude de um padre que tinha agido como homem, mas que seus atos tinham repercussão social. E que ele, não admitia isso e que achava, o padre era homem como qualquer outro na sociedade brasileira. Estava ali para poder discutir sobre a posição daquele sacerdote na sociedade, não podendo se eximir da responsabilidade de sua cidadania logo, dos seus atos.

Gostaria de me ouvir como sacerdote. Respondi que todos os sacerdotes antes de tudo são cidadãos com todos os direitos e responsabilidades. Se o padre pelos seus atos tivesse de ser preso, ele teria de responder pelo que fez diante de toda a sociedade. Eu achei muito estranho na época à presença desse delegado e a sua teatralidade embora tivesse algum problema de consciência. Mas a necessidade dele em afirmar que qualquer sacerdote, qualquer que seja, responder pelos seus atos, principalmente pelos seus atos políticos à sociedade brasileira muito estranho. Dois anos depois encontramo-nos na sala de tortura no DOPS13.

Em 1965, a Campanha de Solidariedade ao Desempregado realizada no Convento dos Dominicanos foi observada por agentes do Deops por estar articulada diretamente às questões dos trabalhadores, o que era tido pelo órgão de segurança como uma afronta ao regime instaurado no país.

Nesse sentido, a Ordem dos Dominicanos passou a ser acusada de estar traindo a pátria por não aderir à posição de uma parte considerável da Igreja Católica

11 VALENÇA, op. cit, p.62.

12 SOUZA, op, cit., p.226.

13 VALENÇA, op. cit. p.36.

(9)

9 que se posicionou a favor do golpe contra João Goulart e, além disso, saiu às ruas com as passeatas em defesa da “Tradição, Família e Propriedade”.

Não esqueçamos que os padres têm muito mais contato com o povo, particularmente com o povo pobre [...] Eles podem nos fazer muito mal. Para mim, prezados camaradas, mesmo católicos, esses indivíduos traíram a Revolução, e estão traindo. Eles hoje estão trabalhando para oposição, não tanto para essa que fala no Congresso e na imprensa, mas para os que queriam em 64 comunizar o Brasil, para os cassados, os corruptos e os revanchistas [...] Os mandões comunistas, russos, chineses ou cubanos estão batendo palmas porque a Igreja, no Brasil, trabalhou para eles14. Em 1968, o Convento Santo Alberto Magno promoveu na Semana Santa a encenação da peça “A Paixão Segundo Cristino”. Escrita por Geraldo Vandré e com assessoramento dos freis dominicanos, a peça representa a perseguição, calúnia, exílio, agonia, paixão e morte de Cristo transpostos aos homens e mulheres que, a partir do golpe de 1964, viveram na própria carne essa realidade.

Os dominicanos tiveram, portanto, uma posição de vanguarda quanto à resistência ao regime. As missas dominicais em Perdizes eram frequentadas por cerca de mil pessoas. Nelas, os frades não se furtavam de fazer discursos contra o regime, o que atraiu diversos intelectuais e estudantes que se identificaram com essa ala progressista da Igreja. Os órgãos repressores visaram o Convento principalmente por sua prática de denúncia da aliança entre parte da Igreja Católica e o regime imposto pelo golpe de 1964.

DO SEQUESTRO DE FREIS À MORTE DE MARIGHELLA – A OPERAÇÃO BATINA BRANCA

O General Castelo Branco, presidente do país entre 1964 e 1967, corroborava uma perseguição mais efetiva aos religiosos e cogitava a possibilidade de expulsão da Ordem Dominicana no Brasil devido ao seu caráter progressista e seu envolvimento com os setores de esquerda. Deste modo, desencadeou-se a Operação Batina Branca que buscava desmoralizar a Ordem perante a sociedade, bem como abalar as relações dos religiosos com as alas de esquerda, enfraquecendo o movimento revolucionário.

14 SERBIN, Kenneth P. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura. Documento da 1ª Região Militar, Boletim Reservado nº 6, 2 de dezembro de 1967, FGV/CPDOC, ACM, rolo 1, doc. nº 783, p.107.

(10)

10 A Operação Batina Branca consistia em uma força tarefa planejada ao longo de meses e executada no prazo de uma semana. Na primeira fase desta operação, a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury montou campana em frente ao Convento Santo Alberto Magno e na Livraria Duas Cidades para investigar o envolvimento dos dominicanos com a organização de Carlos Marighella. A operação resultou no sequestro dos freis Fernando e Yvo, colaboradores da ALN. Alguns relatos afirmam que os freis, submetidos a intensas torturas, acabaram por dar algumas pistas sobre o paradeiro de Marighella.

A equipe do delegado Fleury se encarregou de levar frei Fernando até a Livraria Duas Cidades, onde ele trabalhava, pois era sabido que dali eram feitos os contatos via telefone com Marighella. A Livraria e Editora Duas Cidades foi criada em 1954 por iniciativa do frei Benevuto, membro da Ordem Dominicana, e localizava-se desde 1967 na Rua Bento Freitas, na região central de São Paulo. Este espaço foi duplamente importante para a resistência, pois para além dos contatos com Marighella, a livraria era especializada na área de ciências humanas, editando obras de autores brasileiros, muitas de teor marxista, e tornando-se um verdadeiro polo para a intelectualidade de esquerda15.

Sob a mira do revólver, frei Fernando esperava a ligação na qual seria marcado o encontro com Marighella naquele dia. Com essas informações, os agentes do Deops armaram uma emboscada que deu fim à vida do líder da ALN. O fato, amplamente divulgado na imprensa, deu início à segunda fase da Operação Batina Branca, que consistia em culpabilizar os dominicanos pela queda de Marighella. Essa estratégia visava gerar uma hostilização por parte da esquerda em relação aos freis, bem como arranhar a imagem da Ordem perante a sociedade, invertendo a lógica da luta em defesa da justiça.

Isolar os dominicanos do conjunto da Igreja seria a fase final desta operação, pois o alinhamento dos militares com a Igreja era algo primordial, já que a religião exercia grande influência na sociedade. Nesse sentido: “os militares pretenderam integrar o conjunto da Igreja Católica no Estado de Segurança Nacional, buscaram, portanto evitar conflitos com a instituição e minar ou suprimir os setores engajados que lutavam contra o regime”16.

15 Para saber mais sobre a Livraria Duas Cidades consultar o documento produzido pelo Programa Lugares da Memória do Memorial da Resistência de São Paulo. Disponível em: <

http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx?c=bancodedados&idlugar=1 46&mn=59>.

16 SOUZA, op. cit., p.140.

(11)

11 A ditadura, juntamente com os seus aliados, usou os desdobramentos dessa luta para desmoralizar a Ordem dos Dominicanos e os outros segmentos da ala progressista da Igreja brasileira. A polícia, a justiça militar e católicos conservadores atacaram os dominicanos, acusando-os de traidores dos preceitos da religião católica e defendendo sua expulsão do país e da Igreja. Nesse sentido, criou-se no imaginário coletivo a ideia de que a Ordem dos Dominicanos seria traidora da pátria e alinhada a um projeto comunista de subversão do país. A atuação de resistência à ditadura empreendida pelos freis dominicanos e a Operação Batina Branca marcaram a história do Convento Santo Alberto Magno. Uma matéria da Revista IstoÉ, em abril de 2014, destacou o que estão fazendo hoje os religiosos presos nesta operação do Deops/SP.

Preservar a história dos atos de repressão e de resistência no Convento Santo Alberto Magno significa não apenas reconhecer a importância dos religiosos dominicanos na luta contra a ditatura civil-militar, mas desconstruir a versão da história oficial. Atualmente (re) conhecido por grande parte da sociedade como lugar de Imagem 03: Revista IstoÉ investiga o que estão fazendo hoje os religiosos presos na Operação Batina Branca. Arte: Camila Brandalise. Fonte: Revista IstoÉ.

(12)

12 resistência e solidariedade, o Convento é percebido como um lugar de memória que deve ser preservado dada sua importância para a história nacional.

ATUALMENTE E/OU ACONTECIMENTOS RECENTES

Uma série de atos de memórias, missa, palestras e testemunhos de pessoas que viveram com frei Tito marcaram os 40 anos de sua morte. Homenageado por sua coragem de lutar contra a ditadura, por ela marcado até sua morte, a memória do frei sempre é celebrada por parentes, amigos, religiosos e conhecedores do martírio do religioso.

ENTREVISTAS RELACIONADAS AO TEMA

ROSSI, Waldemar; JOSAPHAT, Frei Carlos; CUNHA, Magali do Nascimento;

KLEINAS, Alberto. Coleta Pública de Testemunhos: O Papel das Igrejas na ditadura. Memorial da Resistência de São Paulo, entrevista concedida a Anivaldo Padilha em 25/10/2014.

OLIVEIRA, Antônio M. Entrevista sobre militância, resistência e repressão durante a ditadura civil-militar. Memorial da Resistência de São Paulo, entrevista concedida a Karina Alves e Marcela Boni em 23/10/2013.

Imagem 04: Cartaz das atividades em memória do frei Tito. Foto: Autor desconhecido. Fonte: Memorial Virtual Frei Tito.

(13)

13 SIPAHI, Rita Maria de Miranda. Entrevista sobre militância, resistência e repressão durante a ditadura civil-militar. Memorial da Resistência de São Paulo, entrevista concedida a Kátia Felipini em 19/03/2013.

SOUSA, Neusa Ferreira de. Entrevista sobre o Sítio de Ibiúna no contexto da ditadura civil-militar. Memorial da Resistência de São Paulo, entrevista concedida a Karina Alves e Ana Paula Brito em 22/07/2014.

FILMES E/OU DOCUMENTÁRIOS

Documentário: Ato de Fé. Direção de Alexandre Rampazzo. 2004. Sinopse: O documentário investiga a relação entre setores da Igreja e a resistência à ditadura civil-militar vigente entre 1964 e 1985 no Brasil contada a partir de perspectiva dos frades dominicanos, adversários do regime.

Filme: Batismo de Sangue. Direção de Helvécio Ratton. 2007. Sinopse: Ambientado no fim dos anos 1960, o filme é baseado no livro homônimo de Frei Beto. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis: Tito, Betto, Oswaldo, Fernando e Ivo passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella. Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por torturas que culminam em uma emboscada organizada pela polícia para assassinar Marighella.

REMISSIVAS

Praça da Sé; Sítio de Ibiúna; Rua Maria Antônia; Livraria Duas Cidades; Alameda Casa Branca; Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP); Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Assunção de São Paulo - Catedral da Sé.

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS

BETTO, Frei. Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighela.

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

BETTO, Frei. Frades dominicanos: 800 anos. O Globo, 20/08/2016. Disponível em: <

https://oglobo.globo.com/sociedade/frades-dominicanos-800-anos-19951798>. Acesso em 01/07/2017.

(14)

14 BEZERRA, Emanuela Antunes; DELGADO, Lucília de Almeida Neves; e OLIVEIRA, Virgílio Coelho Jr. Do Humanismo Cristão à Práxis Política de Oposição a Ditadura Militar: Memórias de uma experiência dominicana. Comunicação apresentada no VII Encontro Regional Sudeste de História Oral. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 7 a 09 de novembro de 2007.

DE SANCTIS, Frei Antônio. Encíclicas e documentos sociais. Da “Rerum Novarum”

à Octogésima Advenies. São Paulo: Edições LTR, 1972.

FEIJÓ, Sara Carolina Duarte. Memória da resistência à ditadura: uma análise do filme Batismo de Sangue. 2011. Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2011.

FEIJÓ, Sara Carolina Duarte. Frades Dominicanos de Perdizes: movimento de prática política nos anos de 1960 no Brasil. 2003. Dissertação (Mestrado em História). FFLCH. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2011.

FERNANDO, Frei. Diário de Fernando – Nos cárceres da ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas – A Esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Editora Ática, 1998.

JUNGES, Adriana. Batismo de Sangue: As representações do período ditatorial no Brasil na década de 60. Monografia. (Monografia em Jornalismo). Departamento das Ciências Sociais. Centro Universitário Franciscano (UNIFRA): Santa Maria/RS, 2011. Disponível em <http://lapecjor.files.wordpress.com/2011/08/adriana-junges.pdf>

SANTOS, Priscila Farias dos. A participação dos freis dominicanos no regime militar Brasileiro. Revista Historiador. Porto Alegre, n.2, dezembro de 2009. Disponível em

<http://www.historialivre.com/revistahistoriador/dois/priscila.pdf>.

SERBIN, Kenneth P. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

SILVEIRA, Dalva. A imprensa brasileira e a representação de Geraldo Vandré como símbolo de protesto contra a ditadura militar. Revista Ponto e Vírgula. Programa de Estudos Pós Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, São Paulo, n.9, jan./jun. de 2011.

(15)

15 SILVA, Wellington Teodoro da. O Jornal Brasil, Urgente e a revolução brasileira. Anais do X Simpósio ABHR/UNESP. Associação Brasileira de História das Religiões, Assis/SP, 12 a 15 de maio de 2008. Disponível em < http://www.abhr.org.br/wp- content/uploads/2008/12/teodoro-wellington.pdf>.

SOUZA, Admar Mendes de. Estado e Igreja católica. O movimento social do cristianismo de libertação sob a vigilância do Deops/SP (1954-1974). 2009. Tese (Doutorado em História). FFLCH. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2009.

VALENÇA, João. Uma história do tempo da ditadura. Revista Revés do Avesso.

Centro Ecumênico de Publicações e Estudos Frei Tito de Alencar de Lima (CEPE);

São Paulo, 2004.

DADOS DA PRODUÇÃO

Produção do Texto: Vanessa do Amaral; Ano: 2011 Atualização de Conteúdo: Ana Paula Brito; Ano: 2014 Revisão: Camila Djurovic; Ano: 2017

COMO CITAR ESTE DOCUMENTO: Programa Lugares da Memória. Convento Santo Alberto Magno – Convento dos Dominicanos. Memorial da Resistência de São Paulo, São Paulo, 2014.

Referências

Documentos relacionados

Declaro que fiz a correção linguística de Português da dissertação de Romualdo Portella Neto, intitulada A Percepção dos Gestores sobre a Gestão de Resíduos da Suinocultura:

3.1. Políticas Públicas ... Erro! Indicador não definido. Ciclo de Políticas Públicas ... Erro! Indicador não definido. Avaliação de Política Pública ... Erro! Indicador

Com o presente projeto de investimento denominado &#34;Nexxpro Speed (Qualificação) - Reforço do Posicionamento Competitivo Internacional&#34;, a empresa pretende

Para tanto, é necessário que a Atenção Básica tenha alta resolutividade, com capacidade clínica e de cuidado e incorporação de tecnologias leves, leve duras e duras (diagnósticas

Em que pese ausência de perícia médica judicial, cabe frisar que o julgador não está adstrito apenas à prova técnica para formar a sua convicção, podendo

Haverá apenas 01 encontro presencial no final do curso na cidade onde o aluno residir (mesmo que tenha apenas um aluno matriculado), onde o mesmo será

desenvolvimento de ações voltadas para o bom desempenho escolar dos alunos. - Refletir junto à equipe gestora quanto aos recursos pedagógicos disponíveis e a efetiva

Neste trabalho apresenta-se a implementação de um sistema não invasivo de monitoramento de consumo de energia elétrica baseado em conjuntos nebulosos, capaz de