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ID E N TID A D E E D IFE R E N Ç A N A C ID A D E D O G R A FITE
IDENTITY AND DIFFERENCE IN THE C/TY OF GRAPHITE
Aleksandra Previtalli Furqim Pereira
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Bacharel em Ciências Sociais pela (UECE ,2004); Especialização em Arte/ Educação (lFCE, 2008); Mestranda em Educação (UFC).
José Cerardo Vasconcelos
Professor Associado
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111,do Departamento de Fundamentos da Educação, da Universidade Federal do Ceará. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Filo-sofia Política, Especialista em FiloFilo-sofia Política, Mestre e Doutor em Socio-logia e Pós-Doutor em Artes Cênicas. Tutor do PET Pedagogia UFC. Coorde-na a linha de pesquisa de História e Memória da Educação- NHIME e, ao mesmo tempo, évice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Edu-cação Brasileira, da Universidade Federal do Ceará. Edita a Coleção Diálo-gos Intempestivos e a Revista Educação em Debate da FACED/UFC. E-mail: [email protected]MSN: [email protected]
R esum o
A vida moderna se inscreve e se manifesta a partir de conexões múltiplas. Os sentidos da vida humana trafegam em grande velocidade. As cidades se multiplicam em muitas cidades e as manifestações e estados da arte buscam visíveis modos de expressão. O grafite é uma dessas formas artísticas de ocupar a cidade e produzir inúmeras práticas educativas e ações da diferen-ça.
Palavras-chave: Identidade; Diferença; Educação; grafite
Abstract
Modern life is part and manifests from multiple connections. The Meanings of Life travels at warp speed. The cities are mushrooming in many cities and states and manifestations of art visible seekways of expression. Graphite is one of those art forms to occupy thecity and produce numerous educational practices and actions of the difference.
Key-words: Difference; Identity; Education; Grafithe
Id en tid ad e e d iferen ça n o cid ad e d o g rafite
N o c o tid ia n o d a v id a m o d e rn a re la ç õ e s p lu ra is c o n e c ta m -s e u m a s a s o u tra s e fo rm a m g ra n d e s te ia s d e s ig n ific a d o s . O d e s lo c a m e n to d e s s a s c o n e x õ e s q u e s e v ã o fo rm a n d o , a c e le ra m n o s s o s s e n tid o s c o m o p a rtíc ip e s q u e s e fu n d e m e m m o v im e n to s d e g ra n d e v e lo c id a d e . N ã o s e p o d e p e n -s a r a v id a h o d ie rn a s e m v is lu m b ra r a s p o d e ro s a s re d e s d e c o n tro le . Is s o a fe ta a o rg a n iz a ç ã o d a s c id a d e s , c u ja m a rc a s e fu n d e n o â m a g o d e in s ó
-lita s c u ltu ra s q u e s e d e s lo c a m e p ro c u ra m e s c a p a r a o v io le n to c o n tro le
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d o p o d e r. N o e n ta n to , e s s a s re d e s d e c u ltu ra s s u b te rrâ n e a s s o fre m c a d a v e z m a is in te rfe rê n c ia d e c is iv a d a te c n o lo g ia , d a p ro d u ç ã o in d u s tria l, d a in d ú s tria d a c o m u n ic a ç ã o , d a s m íd ia s e le trô n ic a s , d a s c o n s ta n te s m ig ra
-ç õ e s d e c o n c e ito s e d o s p ro c e s s o s d e a c e le ra -ç ã o d a v id a .
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Foto: José Gerardo Vasconcelos
Grafite fotografado na Lapa - Rio de Janeiro em outubro de 2010.
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A lek san d ra P rev italli F u rq im P ereira / Jo sé G erard o V asco n celo s
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Esse conjunto de forças combinadas à ação isolada de grupos de culturas subterrâneas, gera outras praticas e formas de (re) significar o espaço urbano. O contato com as diferenças culturais urbanas se transfor-ma em ações de grande multiplicidade dentro do processo de apropria-ção de valores, num movimento dinâmico de desconstruir, reconstruir, construir ou mesmo destruir. Em função dessa dinâmica o cenário urbano atual não consegue gerar uma identidade e cruzam, a todo tempo seus próprios territórios e frontei raso
P o rta n to , q u a n d o p a s s a m o s p a ra o â m b ito d a s re a lid a d e s s ó c io -c u ltu ra is - u m p o v o , u m a n a ç ã o , u m a e tn ia , u m a re g iã o , e te . - q u e s e c o n s tro e m e s e re c o n s tro e m in c e s s a n te m e n te n u m in e lu tá v e l p ro c e s s o d e m u ta ç ã o h is tó ric a , a í p a re c e p e rfe ita m e n te e q u iv o c a -d o p ro p o r a p ro b le m á tic a d e s u a in te rp re ta ç ã o e m te rm o s d e id e n -tid a d e c u ltu ra l o u n a c io n a l. (M E N E S E S , 2 0 0 0 . p . 1 4 )
Falando de realidades sócio-culturais no cenário urbano, encontra-mos a idéia cristalizada de "identidade cultural" dentro de um conjunto vivo de relações sociais e patrimônios simbólicos historicamente com-partilhados que estabelece a comunhão de determinados valores entre os membros de uma sociedade. Nesse âmbito, defende-se a preservação de certas praticas e tradições. Naturalmente caem num grande abismo por ser um conceito de trânsito intenso e de tamanha complexidade. No mundo contemporâneo não se pode falar de "identidades" quando envolvidas num amplo número de situações e culturas que não cristaliza no tempo e
espaço.
Durante muito tempo, essa ideia de uma "identidade cultural" não
foi devidamente problematizada no campo das ciências humanas. Com o desenvolvimento das sociedades modernas, muitos teóricos tiveram
preocupação em apontar o enorme "perigo" que o avanço das transfor-mações tecnológicas, econômicas e políticas poderiam oferecer a deter-minados grupos sociais. Essa inquietação é observada na fala de Meneses:
C o m e fe ito , a té m a is o u m e n o s u n s v in te a n o s a trá s a s C iê n c ia s S o c ia is d e s c o n h e c ia m o u s o c o rre n te d e s s e c o n c e ito d e " id e n tid a -d e " , q u e s e to rn o u u m m o d is m o in s id io s o e q u a s e le v ia n o n a s n o s
-s a -s p rá tic a -s d is c u rs iv a s d e u n s 1 0 o u 1 5 a n o s p a ra c á . Q u e p ro b le -m á tic a s s ã o d is s im u la d a s n o u s o d o m in a n te d e s s a in d ig ê n c ia c o n c e p tu a l? A n o ç ã o d e id e n tid a d e , q u e p o s s u i u m a v ig ê n c ia fo
mal relativamente aceita no campo da lógica e as
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ffiê lte 1 r.lá lO C a s .tem sido alvo no entanto de críticas severas de p e n s a d o re s Wittgenstein, Meyerson, Heidegger, Deleuze, Ricceu e c. mo de nossos pares, como se infere do seminário multidisc p dirigido por Lévi-Strauss, no College de France. Assim, transp a tar este conceito, que implica mesmidade, para o território das realidades in fieri, dos processos culturais radicalmente mergulha-dos na incessante transformação histórica, é no mínimo problemá-tico, e distorce a perspectiva epistemológica própria de nossos es-tudos. (MENESES, 2000. p.Ol)
A um modismo intelectual quando, em cada período de vigência, um termo começa a tornar-se recorrente e de emprego obrigatório, "eu inicio minha operação de desconfiança e tento escarafunchar o que lhe vai por trás ou por baixo, bem como verificar se possui um fundamento seguro" (MENESES, 2000. p. 02). Éassim que, repetida sem maior critério, uma dessas noções que nos vêm sendo reproduzida nos últimos anos que se intitula "identidade cultural" e suas congêneres tais como "identidade nacional" e outras, passou-se a repetir, com ou sem propósito, que
preci-samos "resgatar nossa identidade cultural", ou expressões assemelhadas.JIHGFEDCBA
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Ainda sobre isso Meneses nos alerta:Além disso, esse termo identidade é o clichê ou rótulo mais lábil e fluido que as Ciências Sociais jamais adotaram. Tudo quanto antes era conhecido como filiação, fidelidade, laços, vínculos, pertenças, lealdades, padrões, tradições culturais, status, papéis, atitude, crença, mentalidade, condição, aspecto, traço, caráter, etc., tudo hoje recebe levianamente o nome de identidade. Ora, uma noção que serve para definir tudo, não define nada. Como qualquer outro lugar-comum, esse termo retira sua força e prestí-gio do fato de dispensar a análise crítica e a reflexão sistemática. O que é mais grave, ele vem quase sempre acompanhado de uma constelação de outros termos abstrusos que compõem uma semântica indigente, num confusionismo conceptual de eviden-te inconsistência teórica.
Compreender, porém, o grafite dentro do contexto identitário não esgota a explicação e o faz avançar muito pouco. Mas se faz necessário refletir sobre suas influencias. Não cabe por certo discutir aqui todas as dimensões que a questão comporta. Prefiro, mais adiante, indagar da le-gitimidade e da validade do uso dessa noção de "identidade" no terreno
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dos processos de seu reconhecimento histórico, onde, segundo tudo indi-ca, ele é amplamente polêmico.
Sobre essa discussão, recortamos o grafite no presente tra b a lh o " , com um papel inovador de questionar o próprio conceito de "identidade cultural". Percebemos a complexibilidade quando fazemos uma leitura sobre suas influencias, sobretudo nas interferências no percurso de sua história. Nesse sentido, o grafite não pode ser visto num conjunto de valo-res fixos e imutáveis que define o indivíduo e a coletividade a qual ele faz parte.
Como vimos ao contrário de algumas teses, o grafite, como em outras manifestações urbanas, não possui "identidade". Isso valeria dizer que sua produção cultural seja estanque e cristalizada. Ao contrario, sua produção é algo dinâmico com influencias imprevisível e inesgotável. Lazzarim pesquisador sobre o assunto acredita que o grafite possua iden-tidade a partir de sua linguagem: lia identidade dos grafiteiros sofre a mes-ma oscilação que a linguagem, entre a fixação e a indeterminação de significados" (LAZZARIM, 2008. p.04). Partindo dessa desconstrução, de
qualquer modo, pareceu-me aconselhável, para um melhor dialogo, aJIHGFEDCBA
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seguir pontuar algumas informações histórica sobre o tema.Quando introduzido no Brasil aproximadamente nas décadas de 60 e 70, o grafite se instala em territórios urbanos com discurso próprios de reivindicação diante a sociedade. Nesse contexto o grafite ganha facil-mente espaço na cultura hip-hop- e passa ser um dos seus elementos. Posteriormente, o terceiro setor! vendo nessa linguagem uma possibilida-de possibilida-de aproximação das questões que aflige as periferias, se apropria dessa pratica trabalhando o grafite em oficinas arte-educativas na tentativa de socializar jovens infratores em conflito com a lei. Essa aparição é percebi-da nos discursos das ONGs e projetos sociais, cruzando o território do marginal em direção à institucionalidade.
Essas como outras influencias são rememoradas e reproduzidas nas ruas de Fortaleza em conjunto a outras manifestações urbanas. Nesse cenário imprevisível tudo se transforma a todo tempo. O grafite revela a cidade e ocupa uma fatia nesse espaço "flutuante",
A s c id a d e s , c o m o n o s s o n h o s , s ã o c o n s tru íd a s p o r d e s e jo s e m e
-d o s , a in d a q u e o fio c o n d u to r d e s e u d is c u rs o s e ja s e c re to , q u e s u a s re g ra s s e ja m a b s u rd a s , a s s u a s p e rs p e c tiv a s e n g a n o s a s , e q u e to d a s a s c o is a s e s c o n d a m u m a o u tra c o is a . (C A L V IN O , 1 9 7 2 . p .1 1 )
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Dialogando com a cidade, o grafite consolida-se rapidamente como símbolo urbano. Variando no tempo e espaço, sua reflexão revela temáticas pertinentes às sociedades modernas Torna-se paisagem obriga-tória e facilmente reproduzida nos centros urbanos "uma cidade vai se tornando parecida com todas as cidades, os lugares alternam formas or-dens distancias, uma poeira informe invade os continentes" (CALVINO,1972. p.S8).
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Foto: José Gerardo Vasconcelos
Imagem produzida em João Pessoaem outubro de 2010.
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grafite vem ocupando espaço significativo nos centros urbanos e ao se aproximar dos anos 2000 chama atenção para o transbordamento da sua prática "Valoriza-se mais o processo do que a obra perfeita acaba-da, mais a experiência do que a produção" (MAE, 2005. p. 39). Hoje vive para além da sua estética, passando ser artefato aberto e flexível.Como vimos, o grafite viveu sob a imposição dos discursos prontos e acabados. Atualmente é envolvido por inúmeras influências advindas dos moldes da globalização. Diante desse contexto plural, o ato de grafitar é motivado por inúmeras afetações. Os sentimentos de paixão e desprezo nascem a partir de tendências particulares que cada um defende.
Esserompimento influenciou e influencia sobremaneira na sua com-posição cultural atual que acelerou a partir dos anos 2000. Essase influ-encias faz com que o grafite perca características do grafite norte ameri-cano, onde primeiramente surgiu.
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Atualmente, negando a antiga lógica na qual se encontrava, o gra-fite vem rompendo com as ideologias do movimento hip-hop e de insti-tuições. Lança-se aos inúmeros sentidos e possibilidades, mistura-se a outras técnicas como coragens,
auto-relevo,
gravuras etc.Nessa última
tendência, o grafite é rotulado como "grafite acadêmico" por utilizarem técnicas das artes plásticas.A formação cultural dos grafiteiros é algo cambiante e depende da legitimação de cada território. Assim o grafite surge como produto do caos devido à diversidade de discursos. Sua lógica gera divisões no que se diz respeito aos interesses comuns. Nesses interesses surgem outros grupos de grafiteiros apegados a muitos discursos e questionadores de suas praticas. Com densidade cultural, o grafite ganha formas e cores incrementado com toque brasileiro, que no nosso caso ganha traços da cu Itu ra nordesti na cearense.
A complexibilidade de compreendermos a formação cultural do grafite deve-se às múltiplas motivações encontradas em espaços urbanos. Não há uma determinação fixa que construa "identidades" urbanas. São
fragmentos num contexto dinâmico que se repete e mistura-se as outrasJIHGFEDCBA
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manifestações. Seus atores, os artistas de rua, hippies, poetas, músicosetc, convivem harmoniosamente num espaço caótico cheio de particula-ridades. A cidade a partir dos seus autores e símbolos produz suas parti-cularidades. " 0 caos "repete os símbolos para que a cidade comece a existir" (CALVINO, 1972. p .T l )é vitrine para faixas, cartazes políticos ou publicitários,
outdoors,
grafites, p ic h a ç õ e s " , As cidades possuem especificidades comuns "é redundante: repete-se para fixar alguma ima-gem na mente" (CALVINO, 1972. p .I l) dentre outros signos, nos suportes urbanos correspondendo a uma característica atual da cidade "represen-tando finalidades e explicações diversas circundada por desejos que se despertam simultaneamente." (CALVINO, 1972. p.08).A rua é território do desejo e do gozo "permitido". Lá o grafite interage com seus atores. Vivencia e socializa-se com eles. Nesse espaço nos en-contramos e compartilhamos desejos. Étambém espaço da arte em detri-mento a cultura de massa influenciada pelas mídias com ânsia a estetização geral da vida. Acreditam que a rua é o espaço de democracia e onde tudo se aproveita. Indaga Calvino:
A c id a d e a p a re c e c o m o u m to d o n o q u a l n e n h u m d e s e jo é d e s p e r-d iç a r-d o e d o q u a l v o c ê fa z p a rte , e , u m a v e z q u e a q u i n ã o s e g o z a
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tudo O que não se goza em outros lugares, não resta nada além de
residir
nessedesejo
e se satisfazer. (CALVINO,1972. p.08)A cidade como cenário particular e coletivo, comporta e aglutina
seus atores. Nessa perspectiva, o homem não produz isoladamente seus pensamentos, mas opera seguindo crenças, valores e, sobretudo
categori-as que se formaram historicamente na vida social cotidiana.JIHGFEDCBA
G rafite: van d alism o o u arte co n tem p o rân ea?
A compreensão do grafite em torno da discussão sobre "identidade" pode nos remeter a interrogação: grafite é vandalismo ou arte? Não é a ideia cristalizada que naturalmente nos proporcionará essa reflexão.
Muitas polêmicas giram em torno do tema, a sociedade indireta-mente é quem denuncia essa questão ao agregar a imagem do grafite sob sua ótica a partir da sua compreensão. Para muitos o grafite é desempe-nhado com qualidade artística, e para outros não passa de poluição visu-al e vandvisu-alismo. Há também aqueles que se agarram as normas e separa
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o grafite da pichação vendo um permitido por leis e outro proibido" porela. Mas não reflito aqui essa discussão que me valeria fazer em outro trabalho. A questão pertinente é compreender o grafite a partir da sua construção e descrevermos o grafite com um papel inovador de questio-nar o próprio conceito de "identidade cultural".
Para muitos, o grafite não é considerado arte. Para discutirmos so-bre esse tema é preciso que haja uma reflexão sobre a relação entre "arte de rua" e a "visão musicológica sobre a arte". Enquanto visão musicológica apenas um grupo do circulo elitista de apreciadores se denominam como os únicos capazes de compreender a fruição e a profundidade da experi-ência contemplativa. Esse pensamento se de e também à
institucionalização compartimentada que as belas-artes impuseram e ofi-cializaram a si próprias, incorporando os valores da alta cultura capitalis-ta, que coleciona obras de arte, da mesma forma que acumula ações da bolsa de valores, Como assim nos de cre 'e Lazzarim num artigo:
As obras de arte, cuja coleção é consagrada e representada no museu, servem de sinais de gosto e certificado de uma cultura es-pecial. Contudo, a determinação daquilo que pode ou não ser aceito como arte passa, a meu ver, mais do que por uma questão de
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ções de classe social, por sistemas simbólicos, que associam, por exemplo, qualidade artística a refinamento intelectual, sensibili-dade desenvolvida e boas maneiras. Entram em jogo alguns valo-res românticos burgueses, como a figura do talento genial, único capaz de dar expressão perfeita ao sentimento individual e
coleti-vo, e sobre o qual se constitui o gosto. (LAZZARIM, 2008. p. 03)JIHGFEDCBA
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Assim, esta fronteira entre "arte de rua" e "arte de museu" torna-se fluida. Seria como deslocar a pergunta: "grafiteiros são artistas?" para "quais são as condições de grafiteiros tornarem-se artistas ou serem considera-dos como tal?". O fato é que herdamos uma visão de arte que cristalizou e consagrou alguns padrões que, mesmo com a velocidade das transfor-mações sociais que vivemos, parecem persistir em manterem-se fixos e determinar o que deve ser considerado artístico.
O grafite, em sua origem, só ganha sentido na rua. Mas, aos pou-cos, a arte de rua deixa de ser marginal e ganha espaço nos museus, nas galerias e espaços culturais, em um processo de reconhecimento e legitimação que expõe uma identidade deslizante dos artistas de rua. Esse movimento da rua para o museu pode ser observado em diversos exem-plos como: a exposição do grupo de grafiteiros
"Acidutri"
no Centro Cul-tural Dragão do Mar de Arte e Cultura entre os meses de fevereiro e mar-ço de 2008; com a exposição "Entregue as Moscas" e também do grupode grafiteiros "Grafiticidade'" junto ao Banco do Nordeste na exposição
"Craphéin na Cidade",
numa exposição de seus trabalhos em grafite entre os meses de abriI
e maio do mesmo ano.Ao entrar no museu, o grafite passa a fazer parte de outro universo discursivo. Mas o que significa o grafite entrar no museu? No contexto aqui citado, significa transformar a representação comum do museu como depósito de coisas antigas, ou como lugar da arte consagrada. Pretende-se aproximar comunidade e espaço museal, explorando suas potencial idades formativas e pedagógicas. No confronto de técnicas e linguagens, o espaço do museu, na maioria das vezes identificado com guardião dos acervos das elites, deixa-se infiltrar pela arte das ruas, dos "meninos distantes", (re)significando os sentidos da vida e das relações sociais.
Como local de visibilidade de diferentes manifestações culturais, o museu cumpre uma importante função na mudança de certas representa-ções reiteradas pelos discursos dominantes. lIA leitura da obra de arte (que recentemente tem sido chamada de apreciação) propõe uma leitura do
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mundo e de nós neste mundo, uma leitura que é, na verdade, uma inter-pretação cultural". (MA E, 2005. p.40). Não significa que o grafite precise da legitimação dada pelo museu. Pelo contrário, através do exemplo do grafite, é possível considerar que o discurso musicológico, enquanto pro-dução linguística pode ser mudado e sincronizado com a dinâmica do contexto cultural circundante.
R eferências
bibliográficos
BARBOSA, Ana Mae. Arte/Educação Contemporânea: Consonâncias Internacionais. São Paulo: Ed. Cortez, 2005.
CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Le-tras, 1990.
GITAHY, Celso.
°
que é graffiti. São Paulo: Brasiliense, 1999. (Coleção Primeiros Passos).LAZZARIM, Luis Fernando. Grafite e o Ensino da Arte. Educação e realidade, 2007.
_ _ o Luis Fernando. Identidade e Arte da Rua: Contribuições do
Mo-vimento Grafite para a Educação, 2008.
MENEZES, Eduardo Diatahy Bezerra de. Crítica da Noção de Identida-de Cultural- XXII reunião brasileira de antropologia. Brasília, 15 a 19 de Julho de 2000.
SANTIAGO, Naigleison Ferreira. Memórias de um Pichador. In projeto de pesquisa de Mestrado em Educação Brasileira da UFC, aprovado em 04.11.2010 .. PP.
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N otas
1 Trata-se de um dos capítulos de minha pesquisa de mestrado em
Edu-cação na UFC, intitulada Memórias e Práticas educativas dos Grafiteiros na cidade de Fortaleza a partir dos anos 2000, sob orientação do Pro-fessor Dr. José Gerardo Vasconcelos.
2
°
movimento Hip-hop emergiu no final da década de 60, nossubúr-bios negros de ova lorque. Estessubúrbios, verdadeiros guetos, en-frentaram todo tipo de problemas: pobreza, violência, racismo, tráfi-co, carências de infra-estrutura, de educação, ete. Os jovens
ek so n d ra P rev ilalli F u rq im P ereira IJo sé G erard o V asco n celo s
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vam na rua o único espaço de lazer, e geralmente entravam num siste-ma de gangues (quem fazia parte de algusiste-ma das gangues, ou quem estava de fora, sempre conhecia os territórios e as regras impostas por elas), as quais se confrontavam de maneira violenta na luta pelo domí-n io territorial.
No Terceiro Setor encontram-se os mais diversos tipos de instituições sem fins lucrativos e os investimentos em projetos sociais desenvolvi-dos pela iniciativa privada. Este setor, que movimenta bilhões de dóla-res mundialmente e gera empregos, tem como objetivo tornar a socie-dade mais justa economicamente e mais igualitária socialmente.
4 A palavra pichar teve origem do piche. Era um material difícil de ser
renovado e muito utilizado na idade média por padres que o utiliza-vam para pichar as paredes dos conventos de outras ordens que não Ihes eram simpáticas. Daí o termo pichação (GITAHY, 1999). "É co-mum os pichadores escreverem pichar com "x", muitas vezes pra eco-nomizar o spray, agilizar o tempo da ação e firmar também uma lin-guagem que está para além das normas ortográficas" (SANTIAGO, 2009).
200
5 Os grafiteiros querendo diferenciar sua pratica das pichações, teve oreconhecimento e apoio do Projeto de Lei 138/2008, de autoria do então presidente da época da Frente Parlamentar da Cultura, Deputa-do Federal GeralDeputa-do Magela (PT-DF). O projeto faz a distinção entre as duas formas de manifestação gráfica. Ele regulamenta, entre outras coisas, o grafite como uma manifestação artística que promove a in-clusão social e prevê pena de prisão para o pichador. Com a
regula-mentação, o grafite pode ser exposto em qualquer lugar desde que autorizado pelo proprietário do imóvel que vai recebê-Io.
6 Artigo 65 - Pichar, ou grafitar por outro meio, conspurcar edificação
ou monumento urbano. Pena: Detenção de 3 meses a 1 ano, e multa. Parágrafo único: se o ato for realizado em monumento ou coisa tom-bada em virtude do seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 meses a 1 ano de detenção, e multa. (Legislação de direito ambiental, lei 9605, de 12 de setembro de 1998. Direito Arnbiental),
7 O Grupo Acidum é formado por ex-alunos do Centro Federal de
Edu-cação Tecnológica do Ceará (CEFET), que se uniram no intuito de mesclar manifestações gráficas como xilogravura, design, grafite, litogravura e desenhos, dentre outras. A proposta do Grupo Acidum é
reunir diversas linguagens gráficas e expressar sensações e movimen-tos de Fortaleza, sobretudo do Centro da cidade.
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O grupo Grafiticidade de iniciativa do Arteducador Leandro Alves temcomo objetivo levar para dentro das galerias a importância da inter-venção dos muros da cidade como o grafite artístico respeitando a sua verdadeira essência que são as ruas.JIHGFEDCBA
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