Mônica Correia DANIELS*
Corpo e Urbanidade em Foucault
Resumo
Este trabalho busca focalizar alguns aspectos da análise foucaultiana relativos ao desenvolvimen- to dos mecanismos de poder disciplinar e de regu- lamentação, tendo em vista abordar as transfor- mações exercidas por esses dispositivos no modo de percepção do corpo no espaço com o desen- volvimento da vida urbana modema, destacan- do-se, nesse processo, a construção de formas de alteridade social.
Abstract
This work mtends focusing some aspects of the Foucault's analysis related to the power disciplinai and regulation mechanisms, zn arder to atJproach the transformations exerted by these devices m the way as the corps is perceived alung the space because the modem urban life development, by emphasizing, in this process, the social altering forms.
Corpo, espaço e poder moderno
O desenvolvimento do capitalismo moderno, que marca o processo de predominância da so- ciedade urbana sobre a rural, encontra como um importante elemento propulsor o "desenvolvimen- to de uma moral, uma certa maneira de viver, uma certa maneira de ser."' A genealogia foucaultiana do poder remete ao processo de urbanização. À medida que o poder moderno se espacializa e se apropria dos corp-os em sua plenitude, as mu- danças na experiência de vida daí advindas dizem respeito às formas de articulação entre corpo e es- paço urbano. Estes constituem-se, portanto, de categorias fundamentais para se pensar a fabri-
cação de identidades e tipos de alteridade que vão se desenvolvendo com o urbanismo, confi- gurando novas posições e contraposições no teci- do social. Destacam-se, assim, os novos modos de ver que são revelados através de relações entre corpo e espaço redesenhadas pelo novo tipo de poder. Nesse sentido, Foucault possibilita pensar a cidade como instância de produção de sensibi- lidades, impressões, disposições estéticas refe- rentes às transformações nas formas dos indiví- duos representarem a si mesmos e aos outros.
O poder que caracterizava a Idade Média- ver- ticalizado, apoiado numa relação de forças dis- simétricas e centralizado no corpo do soberano - tomou-se ineficaz e incompatível com as carac- terísticas de uma sociedade que se transformava rapidamente. Em função do crescimento de- mográfico e da industrialização, emergiam dois im- perativos fundamentais para as relações de poder:
dar conta do conjunto da sociedade que se forma- va e penetrá-la em seus aspectos mais ínfimos.
A articulação entre corpo e espaço tomava-se, portanto, uma questão central, tendo em vista as necessidades de ordenar espacialmente e tomar produtiva a massa disforme e confusa que se formava com a explosão demográfica do século XVIII. Era necessário fixar os corpos no espaço so- cial, canalizando racionalmente suas energias para os objetivos do sistema, através da inserção de sua força no aparelho de produção por meio de ajustes individuais e populacionais. Tratava-se, as- sim, de uma transformação no modo de conceber o corpo, passando-se a valorizar sua utilidade cres- cente, o que implica, por sua vez, um olhar sobre o mesmo muito mais próximo, uma vigilância e controle intenso e permanente, visando orientar seus movimentos no espaço em que se insere.
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Doutoranda em Sociologia - USP. Mestre em Sociologia - UNICAMP. Professora do curso de Pedagogia das Faculdades In- tegradas "Campos Salles".1 FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 281.
Os mecanismos do poder difundem-se, então, pelo tecido social, esquadrinhando o espaço por micropoderes, numa sociedade que se subtraía de um eixo central de emanação de força, passando a se configurar sob um modelo geométrico qua- drangular. Dispersando-se pela sociedade, o poder passa a circular por canais cada vez mais tênues, adquirindo uma tessitura microfísica, tornando-se anónimo e onipresente. Nesse processo, as rela- ções entre corpo e espaço tornam-se intimamente controladas, direcionadas, administradas à medi- da em que essas forças dispersam-se na sociedade, penetrando em seus níveis mais elementares, suas microesferas, seus elementos individuais. Os corpos são, no seu conjunto e na sua individua- lidade, orientados no espaço, envolvidos como organismos e como redes, como indivíduos e como massa, para que o poder, "mesmo tendo uma multiplicidade de homens a gerir seja tão eficaz quan- to se exercesse sobre um só. "2
Portanto, a energia do indivíduo passa a se constituir substância de valor para a sociedade capitalista. O corpo, até então, não era pensado como elemento criador e poderia ser destruído. O poder era, antes de tudo, direito de apropriação das coisas, da vida, exercendo-se e ostentando-se como poder de morte. A modernidade marca a passagem para um poder cujas forças se voltam para as forças dos corpos, para sua vitalidade - um poder que se alimenta da vida. Ao invés de buscar a sujeição dos indivíduos atuando negati- vamente, reprimindo-os, supliciando-os, elimi- nando-os, orienta-se por uma ação positiva, de modo a incitá-los, ordená-los, fabricá-los, uti- lizando-se menos da violência do que de saberes e controle de suas forças, que Foucault chama de tecnologia política do corpo.
Nesse processo de sutilização do poder, a constituição do homem como objeto do saber tem papel crucial. O poder que, para Foucault, tem como substância fundamental regimes de verdades3, articula-se na modernidade a um saber científico sobre o indivíduo e seu corpo que assume caráter de neutralidade e que cons- titui um importante elemento propulsor para o desenvolvimento da sociedade moderna, na qual se destacam os saberes relativos aos processos vitais da espécie humana. A edificação do capi- talismo contou com esse fator capital que foi "a entrada da vida na história - isto é, de fenômenos próprios à vida da espécie humana na ordem do saber poder - no campo das técnicas políticas. "4 Através de saberes e mecanismos de controle, o poder toma conta de seu corpo num primeiro momento e, mais adiante, da plenitude de seus processos biológicos e vitais produzindo assim formas de assujeitamento.
A medicina é componente estrutural desta dis- posição de poder atrelado a regimes de saber, pro- duzindo uma concepção de vida que dá suporte aos dispositivos do poder moderno.5 Ela é um saber-poder que incide ao mesmo tempo sobre o corpo do indivíduo e da população. Seus aspectos físicos e biológicos tornam-se elementos cruciais e estratégicos para uma gestão política e económica que, apoiada na suposição da neutralidade de um discurso reconhecido como científico, administra e normaliza a existência dos indivíduos. "Foi no biológico, no somático, no indivíduo, que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio-política, a medicina é uma estratégia bio-política".6 Portanto, este poder-saber desloca a materialidade dos processos vitais para o âmbito da cultura humana,
z Id. Microfísica do poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 212.
3 "O poder produz verdades, conduz a verdades, e essas, por sua vez, reconduzem o poder". ln. Em defesa da sociedade.l.ed. São Paulo, Martins Fontes, 2002. p.28.
4 Id. História da sexualidade: a vontade de saber. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999 v 1, p. 133. Com este argumento, Fou- cault relativiza o papel da moral ascética no desenvolvimento do capitalismo.
5 Foucault inverte a tese de que a medicina moderna que se desenvolve com o capitalismo remete apenas a relações privadas entre médicos e clientes, compreendendo que se trata, primeiramente, de uma medicina voltada para questões sociais. Ver O Nascimento da medicina social, em Microfísica do poder.
6 Id. Microfísica do poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 80.
modificando-a, controlando-a, administrando-a.
O "biológico reflete-se no político". 7
O bio-poder, apoiado na idéia de vida, reorga- niza a relação entre corpo e espaço, regulamen- tando as pessoas nas cidades emergentes em sua multiplicidade e individualidade. Foucault destaca dois mecanismos de controle desenvolvidos pelo poder-saber, a partir do século XVIII, "em duas for- mas principais, que não são antiéticas e constituem, ao contrário, dois pólos de desenvolvimento interligados por todo um feixe intermediário de relações"8• Um dos pólos, desenvolvido num primeiro momento, volta- se para o indivíduo como organismo visando seu treinamento, seu adestramento, modelando-lhe gestos, formas, ritmos, extraindo-lhe o tempo, tor- nando-o força útil à industrialização e ao capital- é o dispositivo de poder que edifica em carne e concreto as instituições urbanas. O segundo, que se formou um pouco mais tarde, por volta da metade do século XVIII, centrou-se no corpo população, no corpo enquanto teia de corpos. Organiza-se, en- tão, uma gestão política e económica em tomo de traços biológicos da população, visando equilíbrio, regulamentação e administração intensiva da vida, melhoria de suas performances, aperfeiçoamento da raça. Criam-se, assim, idéias de espaço-popu- lações.
Através desses dois mecanismos articulados, a sociedade, suas células, seus níveis mais ele- mentares são perpassados por múltiplos micropo- deres que fabricam indivíduo, corpo, vida, de mo- do global e individualizado.
Trata-se da instalação durante a época clássica desta grande tecnologia de duas faces- anatômica e biológica, individualizante, voltada para os desem- penhos do corpo e encarnando os processos da vida. 9
Por se tratarerrl" de mecanismos que se ins- crevem em níveis diferentes, tendem a não se excluir, mas a se imbricar.
7 Ibid.
Pode-se mesmo dizer que, na maioria dos casos, os mecanismos disciplinares de poder e os mecanismos regulamentadores de poder, os mecanismos disci- plinadores do corpo e os mecanismos regulamentadores da população, são articulados uns com os outros.10
Em Em defesa da sociedade, Foucault exempli- fica essas interligações, destacando duas ins- tâncias - que mantêm certa articulação entre si - que entrelaçam esses dispositivos: a cidade e a sexualidade.
Através de uma série de controles infinitesimais - orientados em torno da divisão entre normal e anormal que estrutura o pensamento médico moderno - a disciplina e o biopoder esquadrinham o corpo do indivíduo e da população em múltiplos sentidos, restringindo as forças do sis- tema jurídico da lei, configurando uma tessitura social composta principalmente pelo poder norma- tivo. A norma circula entre disciplina e biopoder, constituindo-se a matéria-prima para a fabricação do sujeito moderno. É a instância a partir da qual se fabricam discursos sobre o homem apoiados na relação entre normalidade/anormalidade.
Isso significa que vão se configurando, diver- sificando e multiplicando uma série de prescrições e constrangimentos a respeito de diversas questões da existência humana em função das quais os comportamentos são direcionados, mo- delados, distinguidos, classificados, fiscalizados por medidas comparativas que têm a norma co- mo referência; os indivíduos são convocados a se pôr em vigilância contínua em função dessas di- retrizes, o que viabiliza, assim, a constituição de uma unicidade social.
Temos, pois, nas sociedades modernas, a partir do século
XIX
até os nossos dias, de um lado uma legis- lação, um discurso, uma organização do direito públi-co articulados em tomo do princípio da soberania do corpo social e da delegação, por cada qual, de sua
8 Id. História da sexualidade: a vontade de saber. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999 v 1, p. 131.
9 Ibid., p.131.
10 Id. Em defesa da sociedade. l.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 299.
soberania ao Estado; e depois temos, ao mesmo tem- po, uma trama cerrada de coerções disciplinares que garante de fato, a coesão desse mesmo corpo social.11 Esta normatividade apresenta-se cada vez mais determinante à medida que adentra a existência do indivíduo, organizando a percepção de si mesmo e do outro, do corpo e do espaço. Trata-se, portan- to, de um componente essencial na concepção e edificação das cidades modernas, que, em sua paisa- gem concreta e através de derivas contínuas entre corpo e espaço, reenvia a referenciais de normali- dade e anormalidade, inclusão e exclusão.
Corpo e vivência urbana
Foucault destaca a cidade como uma instância de articulação dos mecanismos de poder sobre corpos e populações12• O poder, construindo a es- trutura e paisagem urbana, edificando suas insti- tuições desenvolve e vai se desenvolvendo através de todo um modo de vida e de um conjunto de discursos sobre o homem, por meio de escolas, quartéis, ateliês, hospitais, penitenciárias, ou, ain- da, através dos projetos populacionais: cálculos de natalidade, mortalidade, longevidade, quali- dade de vida, conjugando no espaço citadino as tecnologias disciplinares e regulamentadoras.
Para Foucault, o modo de inscrição do poder no espaço é fundamental: seria preciso fazer uma história dos espaços que seria ao mesmo tempo uma
"história dos poderes" - que estudasse desde as grandes estratégias da geopolítica até as pequenas táticas do habitat, da arquitetura institucional, da sala de aula ou da organização hospitalar, passando pelas implantações ecônomico-políticas ( ... ) A fixação espacial é uma forma econômica-política que deve ser
11 Ibid., p.44.
detalhadamente estudada. 13
A cidade pode ser compreendida como uma categoria heurística para se focalizar a configu- ração espacial do poder e seu apropriamento dos corpos, transformando a existência dos indivíduos.
À medida que constrói o tecido urbano através de sua circulação capilar, o poder moderno confere uma mudança na vida cotidiana, na percepção de pessoas e lugares, produzindo uma nova sensibi- lidade que envolve a família, vizinhança, as esferas mais ínfimas e elementares da sociedade.
A
urbanização modema engendra-se através de uma transformação espacial e corporal relativa a transição de um poder centrado na punição para outro que se organiza em tomo da vigilância. As cidades são recortadas e esquadrinhadas por locais de confinamento que marcam sua fisionomia, onde as pessoas vivenciam uma nova relação com o am- biente ao seu redor, um ambiente impregnado de controle, em que são expostas a um olhar intenso e permanente, exercido por um poder que se reve- la no ocultamento. Ergue-se um cotidiano mapea- do por dispositivos de controle, que direcionam ritmos e fluxos das pessoas, distribuindo-as espa- cialmente, apropriando-se de seus corpos, mode- lando movimentos, gestos, formatando seu tempo pelo trabalho, construindo nesse intercâmbio, entre corpo e espaço, os lugares e indivíduos urbanos, componentes essenciais para a susten- tação do capitalismo moderno.Nesse processo, destaca-se a edificação de es- paços de visibilidade, marcando a passagem de uma arquitetura de espetáculo para uma arquitetura de vigilância14• ( ... ) O problema da visibilidade total dos corpos, dos indivíduos, das coisas para um olhar cen- tralizado havia sido um dos princípios diretores mais constantes15• Os lugares são replanejados em função do corpo, numa busca de visibilidade plena.
12 Foucault mostra como as cidades, e de modo mais exemplar, as cidades operárias articulam os mecanismos disciplinares e regulamentadores. Ver Em defesa da sociedade, p.299.
13 Id. Microfísica do poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 212.
14 MUCHAIL, S.T O lugar das instituições na sociedade disciplinar. In: RIBEIRO, R.]. Recordar Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1985.
15 Ibid., p. 210.
A vigilância pressupõe, portanto, a construção do olhar e do objeto a ser visto. Os dispositivos modernos produzem novos esquemas perceptivos através da reorganização espacial. Incorpora-se e fabrica-se a ordem social no olhar, que, conju- gando corpo e espaço, engendra formas de dis- tinção e contraposição social. Assim, a norma- tividade crescente da vida moderna estrutura a cidade, edifica-lhe a paisagem e incide na vivên- cia dos indivíduos, desenvolvendo impressões, sensibilidades e novos valores.
As instituições urbanas solicitam o olhar a todo momento na vida cotidiana, criando-se uma maneira particular de conhecimento de si e do ou- tro e de apreensão da cidade. A arquitetura passou a se funcionalizar e a se especializar em função dos imperativos e interesses políticos e económicos, 16 demarcando corpos, identificando sua população. O poder moderno fabrica, assim, individualidades e, portanto, corpos específicos, através da constituição de lugares que determinam suas identidades - encerradas no hospício, hospital, prisão, fábrica, es- cola, desenvolvendo uma racionalidade elaborada do que deve ser visto e como deve ser visto, que se orienta articulando estreitamente corpo c espaço.
Esse urbanismo edifica corpo e alma modernos, caracterizados por uma sensibilidade estruturada e fomentada pelo crescimento dos patamares de in- tolerância ao outro. A consciência de si e da dife- renciação crescente da sociedade passa pela trans- formação da representação corporal, juntamente a uma reorganização do espaço físico. Os rearranjos corporais e espaciais na cidade articulam-se, ain- da, a novas formas de representação das hierar- quias no espaço urbano, onde a fabricação da sexualidade pelo poder exerce um papel essencial.
Sexualidades e urbanidade
Foucault mostra-nos que a sexualidade é ins-
tância capital deste poder que se apropria da vida, integrando tecnologias disciplinares e regula- mentadoras, intersectando corpo do indivíduo e população, organismo e espécie17• Desempenhando um papel estratégico no século XIX, é o âmbito que se apresenta como elemento fundamental da modernidade para se estabelecer distinções de classe e construir tipos de alteridade social.
Para Foucault, "uma das formas primordiais da consciência de classe é a afirmação do corpo; pelo menos foi esse o caso da burguesia no decorrer
do
sé- culo XVIII; ela converteu o sangue azul dos nobres em um organismo são e uma sexualidade sadia (. . .)". 18 opondo "ao sangue valoroso dos nobres, seu próprio corpo e sua sexualidade preciosa" .19 O desenvolvi- mento da modernidade marca a passagem de uma civilização simbólica do sangue para uma civi- lização analítica da sexualidade.A aristocracia nobiliárquica também afirmara a especificidade de seu próprio corpo. Mas era na for- ma do sangue, isto é, da antiguidade das ascendên- cias e do valor das alianças; a burguesia para assumir um corpo olhou para o lado de sua descendência e da saúde de seu organismo. Uma forma de transposição:
o sangue da burguesia foi seu próprio sexo. 20
A burguesia busca assumir uma sexualidade, um corpo específico, condizente com sua posição social,
"um corpo de classe". Ela desenvolve um conjunto de cuidados com seu corpo e sua imagem corporal, preservando-se dos riscos, dos contatos, dos con- tágios, fabricando, assim, uma sexualidade própria e uma tecnologia do sexo. Foucault destaca na história a origem burguesa da sexualidade. Esta apresenta-se como uma invenção histórica, uma ficção construída pela burguesia através da qual é possível unir as ciências da vida às práticas norma- tivas do poder tornando-o eixo capital de suas micro-práticas.
16 Foucault mostra que, já no final do século XVIII, a arquitetura começa a se articular aos problemas do urbanismo - como as questões de saúde, população, sexualidade.
17 Ver especialmente Em defesa da sociedade e A vontade de saber.
18 FOUCAULT, M. História da sexualidade: a vontade de saber. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999 v 1, p. 119.
19 lbid., p. 120.
20 lbid., p. 117.
( ... ) é preciso voltar a formulações há muito tem~
po desacreditadas: deve~se dizer que existe uma se~
xualidade burguesa, que existem sexualidades de classes. Ou, antes, que a sexualidade é originária e historicamente burguesa e que induz, em seus deslo~
camentos sucessivos e em suas transposições, efeitos de classe específicos. 21
Essa valorização burguesa do próprio sexd2 compõe a dimensão política de seu corpo, suas práticas e sensações corporais que adquirem um valor alto e diferencial. Os mecanismos de dis~
tinção de classe aliam~se à construção de um no~
vo olhar. A burguesia produz "sexualidades de classes" e olhares de classe sobre as mesmas, as~
sumindo a imagem de uma conduta sexual lo~
quaz em relação às outras.
Destaca~se, aqui, como corpo e cidade se con~
jugam na transformação desse olhar. O cuidado ostensivo com o corpo e comportamento sexual somados às preocupações trazidas pelas transfor~
mações urbanas forçam o direcionamento da atenção burguesa à sexualidade do pobre, até en~
tão negligenciada.
Para que o proletariado fosse dotado de um cor~
po e de uma sexualidade, para que sua saúde, seu sexo e sua reprodução constituíssem problema, foram necessários conflitos (especialmente com respeito ao espaço urbano: coabitação, proximidade, contami~
nação, epidemias, como a cólera de 1832 ou, ainda, a prostituição e as doenças venéreas) ( ... )23
A urbanização moderna reenvia, assim, a uma reconfiguração do olhar sobre o sexo e ao desen~
volvimento de distinções e discriminações daí provenientes. O corpo do pobre passa, então, a ser percebido e definido negativamente24• Con~
siderando~se q~e as práticas sexuais inadequadas repercutem maleficamente à saúde e bem~estar
li lbid., p. 120.
dos indivíduos e população, as políticas de salu~
bridade colocam a necessidade de normalizar a sexualidade das massas. A burguesia encontra na vida da cidade um foco de perigo para seu corpo, sua sexualidade, suas gerações. O desenvolvi~
menta das cidades modernas, marcado pelo au~
menta populacional e pela constituição da classe operária, passa a identificar as cidades como o espaço de perigo, caracterizando a entrada de um maior fluxo na cidade de elementos suspeitos. A administração da cidade, em função dos impera~
tivos económicos e políticos, exerce pressões so~
bre a conduta sexual que se inscrevem tanto na arquitetura, organizando, por exemplo, a especi~
ficação dos cómodos da casa, o interior dos pré~
dias escolares, como no recorte da cidade, no remapeamento das zonas de prostituição, na di~
visão urbana por regiões.
Desenvolve~se todo um conjunto de "projetas médico e político de organizar uma gestão estatal dos casamentos, nascimentos e sobrevivências; o sexo e sua fecundidade devem ser administrados". 25 A racionalidade médica normatiza a sexualidade e produz formas de normalização das condutas. Daí uma série de múltiplos e diversificados controles visando a uma sexualidade saudável, "normaliza~
da" situando os indivíduos e suas práticas numa escala das classificações patológicas. A idéia de normalidade e anormalidade que, como mostra Foucault, estrutura o pensamento médico, se ins~
creve, então, em toda a vida social das cidades.
Os indivíduos são incitados a se vigiarem, se elas~
sificarem e se enquadrarem aos padrões médicos normativos em diversos aspectos de seus corpos, suas práticas, suas vidas.
Através da pedagogia, da medicina e da economia, nasceu uma tecnologia do sexo que fazia do sexo não somente uma questão leiga, mas negócio de Estado, ainda melhor, uma questão em que todo o corpo so~
22 Destaca-se aqui a contraposição de Foucault à tese de que o advento da burguesia estaria ligado à repressão sexual.
ll lbid., p. 119.
24 lbid., p. 119.
25 lb. p. 112.
cial e quase cada um de seus indivíduos eram con- vocados a se pôr em vigilância. 26
Riscos urbanos
Foucault mostra que a história da medicina é em parte uma história da transformação do olhar, uma transformação que não ficou restrita ao cam- po científico. A fabricação médica da vida desen- volve novas sensibilidades, penetra na vivência urbana, na percepção de corpos e lugares. Mas, como mostra Foucault em O nascimento da clíni- ca, trata-se de uma concepção de vida problema- tizada, pela noção de morte, que se encarna nos corpos. "Foi quando a morte se integrou epistemo- logicamente à experiência médica que a doença pode se desprender da contra-natureza e tomar corpo no corpo vivo dos indivíduos".27 O discurso médico lança um novo olhar sobre o corpo fabricando uma relação entre vida e morte, corpo e doença.
A ordem da doença "é apenas um decalque do mun- do da vida: nos dois casos, reinam as mesmas estru- turas, as mesmas formas de repartição, a mesma or- denação. A racionalidade da vida é idêntica à racionalidade daquilo que a ameaça. Elas não estão, uma em relação à outra, como a natureza está para a contra-natureza; mas se ajustam e se superpõem em uma ordem natural que lhes é comum. Reconhece-se a vida na doença, visto que é a lei da vida que, além disso, funda o conhecimento da doença". 28
Através de Foucault, podemos perceber como o desenvolvimento de formas de alteridade social, desenvolvidas pela modernidade, podem ser com- preendidas em parte pelas articulações estabeleci- das entre corpo e espaço em função da transfor- mação do olhar. Um olhar que reestrutura a re- lação entre visível e invisível, construindo, a par- tir daí, uma linguag_t:.m racional apoiada na divisão
26 Ib. p. 110.
entre normal e anormal. Trata-se, assim, de um novo modo de ver que, trazendo à luz os males ocultos nas superfícies visíveis, produz formas específicas de trânsito entre corpo e espaço, incidindo, então, na forma de apreensão da cidade.
É
assim que, por exemplo, tendo em vista os fato- res de doença, revelam-se as interferências negativas de um âmbito sobre o outro. Os espaços urbanos são tratados no sentido de evitar focos de riscos aos corpos, estes, por sua vez, são higieni- zados para evitar a insalubridade do meio. Daí as expressões que enfatizam esses intercâmbios contí- nuos: "medicalização da cidade, desinfecção da cidade, higienizaçãodas
ruas,das
casas, dos costumes".Em função desse modo integração ela dimen- são corporal ao espaço urbano, não é de estra- nhar o papel fundamental que os médicos tive- ram no processo de urbanização, destacados por Foucault entre os primeiros urbanistas do século XVIII. "Os médicos do século XVIII eram de certa forma especialistas do espaço ( ... ) "29 Eles foram, jun- to aos militares, os primeiros administradores do espaço coletivo, sendo que os médicos voltavam- se mais para o espaço das moradias e das cidades, onde destacaram o problema da habitação, da lo- calização das coexistências e deslocamentos.30
Na história das cidades na civilização ocidental, a medicina sociaP', como observa Foucault, antes de se voltar propriamente para os indivíduos, con- figura-se como uma medicina dos espaços uma medicina"( ... ) do ar, água, decomposições, fermentos;
uma medicina
das
condições de vida e do meio de exis- tência. ( ... ) "32 O desenvolvimento dos hospitais modernos marca esse novo modo de ver corpo e es- paço, onde, em sua estrutura espacial, o ambiente hospitalar deve ser adequado à promoção da saúde do doente. "A arquitetura hospitalar é um instru- mento de cura do mesmo estatuto que um regime ali-21 ld. O nascimento da clínica. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1977.
28 lbid., p. 6.
29 ld. Microftsica do poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 213.
]() lbid., p. 214.
31 Foucault destaca três momentos na constituição da medicina social: medicina de Estado, medicina urbana e medicina da força de trabalho em O nascimento da medicina social, em Microftsica do poder, pp. 79 - 111.
32 Ibid., p. 92.
mentar, uma sangria ou um gesto médico. O espaço hospitalar é medicalizado em sua função e em seus efeitos".33 A reordenação urbana e a construção de subjetividades moralmente civilizadas se atrelam a uma nova representação corporal e espacial, o funcionamento dos esgotos, a limpeza das ruas e habitações, a inculcação de novos hábitos aos comportamentos mais íntimos, disciplinamento dos contatos, desenvolvimento de etiquetas de contatos nas ruas.
Esse replanejamento dos espaços em função das ameaças à saúde, assume um caráter funda- mental nos projetas políticos, à medida em que o poder encontra como um de seus problemas essenciais os fatos de população. A cidade, com sua população crescente, torna-se alvo de policia- mento político-patológico. Urge, portanto, admi- nistrar o espaço urbano de forma a evitar focos de perigo: as doenças, as revoltas populares, a vadia- gem, a criminalidade. A medicina ocupa um pa- pel político administrativo essencial no ordena- mento desta população, tornando-se denomi- nador comum. Era em nome da medicina que se catalogava um louco, um doente, um criminoso34•
O contato entre os corpos c entre corpos c lu- gares apresenta-se problematizado à luz dos peri- gos invisíveis que habitam as superfícies da cidade.
A proximidade entre pobres e ricos foi considera- da um perigo sanitário e político. A ameaça dos males sempre possíveis de irromper, de produzir desvios e anormalidades impregnam a vivência urbana. Daí a importância de se recortar a cidade, de seccioná-la em bairros em função das classes sociais, de se especializar e funcionalizar os lu- gares e remapear os hospitais, os presídios, cemitérios, zonas de prostituições de forma ade- quada a um esquadrinhamento sanitário.
Os corpos são segregados, selecionados, dis- tribuídos orde~adamente no espaço. A cidade passa a ser preenchida por lugares de identificação
33 Ibid., p. 219.
34 Ibid.
e demarcação dos diferentes tipos de desvio, pro- duzindo alteridades específicas - o louco, o pri- sioneiro, o doente - propiciando diversos tipos de receios e aversões, à medida que produz e expõe o corpo urbano desviante - ou anormal. Um processo que disciplina nosso universo visual.
Tratam-se de lugares de visibilidades construídos em função de mecanismos de fabricação de cor- pos e determinados modos de vê-los.
Conforme destaca Rabinow, Foucault nos mostra uma reestruturação profunda da sensibili- dade sociaP5• Corpo e espaço articulam-se a uma vida urbana configurada pela diversificação de formas de intolerância ao outro que se expressa por uma fobia demarcatória. A paisagem urbana exercita o olhar a ver tipos específicos de perigos, produzindo uma vigilância permanentemente aberta para qualquer sinal de perigo. Os desvios adquirem estatuto de algo a ser visto. No entan- to, as pessoas não contemplam os diversos peri- gos sem deixarem de contemplar a si mesmas.
Como afirma Frayze-Pereira,
( ... ) a nova luz pela qual Foucault viu o que se realizava em sua obra foi a luz da 'problematizaço'.
Analisar a história da loucura, da doença, do crime é ver tipos específicos de perigos ou problemas que evidenciam um modo novo e particular de concebê- los e de lidar com eles. Então, segundo Foucault, o que ele mesmo evidenciou em sua obra prévia é co- mo as pessoas viram o perigo de se tornarem loucos, doentes, criminosos, como elas lidavam com esses perigos e como eram tornados visíveis ou espaciali- zados no conhecimento e na ação. 36
As instituições permitem a passagem do louco à loucura, do criminoso ao crime, do doente à doença e conferem a esses indivíduos o modelo de desvio, que as pessoas reconhecem potencial- mente em si mesmas. A instituição revela não só
35 DREYFUS, H ; RABINOW, P. Michel Foucault, un parcours philosophique: au delà de 1 'objetivité et de la subjetivité. Paris:
Gallimard, 1984.
36 FRAYZE-PEREIRA, A. Do império do olhar à arte de ver. ln: Tempo Social. Revista de Sociologia da USP.
os portadores de anormalidades, mas a essência invisível do mal que eles portam. As edificações de concreto se relacionam, pois, intrinsecamente, não apenas com os corpos dos desviantes, mas com os dos demais indivíduos da cidade.
Analisando a construção dos asilos, Foucault sublinha como a própria arquitetura das cidades afirma nossa nova relação com o perigo. "( ... ) a alta silueta que ele erguia no umbral das cidades, diante das prisões manifestava a onipresença dos perigos da loucura" .37 A construção dos asilos psi- quiátricos modificando a superfície urbana é uma das indicações modernas de que todos os indivíduos se tornam "psiquiatrizáveis", que todos
"têm com a loucura uma relação profunda ( ... )38•
( ... ) A
loucura faz parte doravante de nossas relações com os outros e conosco mesmos assim como a ordem psiquiátrica atravessa nossas condições de existência cotidiana".39 As edificações protegem as pessoas, mas também as ameaçam, lembrando-lhes do mal imanente que se encontra nelas e nos outros.Numa cidade que se edifica confinando indi- víduos, construindo, segregando e expondo desvios, não é de estranhar que seu desenvolvi- mento seja acompanhado por novas impressões, receios, angústias. Medos construídos por uma nova paisagem que vai se desenhando nas cidades, medo que conjuga corpo e espaço, cor- po e lugares, como destaca Foucault a respeito dos pânicos urbanos no século XVIII que permea- vam a vida nas grandes cidades.
( ... ) Nasce o que chamarei de medo urbano, me- do da cidade, angústia diante da cidade que vai se caracterizar por vários elementos: medo das fábricas e casas que vão se construindo, do amontoamento
da
população, das casas altas demais, população alta demais, medo também das epidemias urbanas, doscemitérios que se tornam cada vez mais numerosos e invadem pouco a pouco a cidade; medo dos esgotos, das cavas sobre as quais são construídas as casas que estão sempre correndo o perigo de desmoronar. 40
É que o domínio racional dos corpos, lugares, pessoas, coisas, remete, entre outros aspectos, a uma impressão estética da cidade e dos corpos urbanos. Foucault revela o intercâmbio entre controle, visibilidade, racionalidade e olhar, desta- cando o medo, que se desenvolveu na segunda metade do século XVIII, com respeito aos espaços escuros. "( ... ) o anteparo de escuridão que impede a total visibilidade das coisas, das pessoas, das ver- dades".41 A escuridão, que entrelaça intimamente corpo e espaço nas impressões urbanas, constitui- se "o contraponto da transparência, controle e visibili- dade que se buscava conquistar."42
É,
pois, o olhar que possibilita iluminação dos lugares.No final do século XVIII, ver consiste em deixar a experiência em sua maior opacidade corpórea; o sólido, o obscuro, a densidade das coisas encerradas em si próprias têm poderes de verdade que não provêm da luz, mas da lentidão do olhar que os per- corre, contorna e pouco a pouco os penetra, con- ferindo-lhes apenas sua própria clareza. A per- manência da verdade no núcleo sombrio das coisas está, paradoxalmente, ligada a este poder soberano do olhar empírico que transforma sua noite em dia. To- da luz passou para o lado delgado do facho do olho que agora gira em tomo dos volumes e diz, neste per- curso, seu lugar e sua forma. ( .. .) 43
Em O nascimento da clínica, Foucault evidencia o papel capital que teve a noção de morte na cul- tura moderna, no desenvolvimento de um novo modo de ver. A racionalidade médica, inscrita no
37 FOUCAULT, apud MOITA, Manuel Barros da (Org.) A problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise.
1. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1999, p. 296. (Coleção Ditos e Escritos I).
38 lbid.
39 lbid.
40 FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986, p. 87.
41 lbid., 216.
42 lbid.
43 Id. O nascimento da clínica. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1977.
espaço social, redimensionou a existência dos indi- víduos e sua relação com o que a põe em risco.
Fabricam-se conflitos a partir de uma concepção e construção de vida problematizada pela noção de morte; conflitos que intersectam essa oposição vi- da/morte a um outro par de oposto que daí se des- dobra- normalidade/anormalidade. Tratam-se de problematizações que nos conferem formas muito próprias de lidar com o corpo e com o outro e de representar o mundo social.
O poder se inscreve no corpo em sua realidade paradoxal de vida e morte, de prazer e riscos. Cria, recria e intensifica essas polarizações: aumenta as possibilidades de vida e prazer, ao mesmo tempo em que descobre novos inimigos internos, focos de perigos, zonas sombrias. Um processo contínuo de previsões de riscos, de remapeamento das ameaças.
Os mecanismos do bio-poder instauram e passam a mediar a relação do homem com o domínio da natureza através da luta contra o envelhecimento, doenças, incapacidades biológicas, anomalias di- versas, numa tentativa contínua de distanciamen- to e diminuição dos imperativos naturais.
As cidades também caracterizam modificações na relação do homem com o mundo natural. O apropriamento dos processos vitais do corpo pe- lo poder conjuga-se a uma nova forma de orga- nização social no espaço que também marca o distanciamento do indivíduo com relação aos processos orgânicos da vida "na medida em que não é um meio natural e em que repercute na popu- lação; um meio que foi criado por ela" .44 Torna-se, nesse sentido, um dos domínios da bio-política:
"a preocupação com as relações entre a espécie hu- mana, os seres humanos enquanto espécie, enquanto seres vivos, e seu meio, seu meio de existência" ( ... )45 Mas o conflito entre natureza e cultura, vida e morte, prazer e risco não se abstrai e se isola no embate do corpo contra ele mesmo através do in- tenso desenvolvimento científico na sua luta con- tra a limitação humana a sua instância carnal de
degeneração e morte; nem no processo de sofisti- cação contínua do meio de existência humana.
Ele se inscreve na nossa relação com o outro, nos espaços de contato entre as pessoas, por mais ligeiros e superficiais que sejam.
A dimensão corporal integra-se à vida urbana, nesse eixo de conflito entre cultura e natureza, mas que se conjuga na sua relação com o outro, marcada pela oposição normalidade/anormali- dade. A cidade inscreve os corpos nessas polari- zações à medida que dela brotam continuamente novos focos a serem controlados, novas zonas sombrias a serem iluminadas - pobreza, loucura, doença, criminalidade.
Para Foucault, a trama social é sempre tecida por conflitos contínuos; é sempre tensa. Da ex- pressão luta de classes, por exemplo, ele privilegia a idéia de luta46• Não há também, para Foucault, um poder vencedor e nem mesmo unívoco.
"Trata-se, antes, da demarcação de pontos de lutas, de jogo de forças, focos de instabilidade, as posições e os modos de ação de cada um, as possibilidades de resistência e de contra-ataque de uns e de outros".47
As cidades modernas sempre se constituíram fundamentalmente como lugar de jogo, de posições e contraposições, de controle e de inquie- tude, engendrando e abrigando males invisíveis.
Desde os primórdios do desenvolvimento das cidades modernas, as elites buscavam proteção às ameaças patológicas e aos indivíduos perigosos.
O desejo burguês de segurança, resguardo e ordem nunca se realizou plenamente. Daí o constante mal-estar que o acompanha desde o início da modernidade- mal-estar em seu corpo e ao seu redor - devido aos riscos na administração inten- siva da vida orgânica e social.
A normatização intensa da vida moderna mar- cou o crescimento dos patamares de intolerância ao outro, como também uma modificação no con- teúdo de inquietude, um remapeamento dos riscos e das impressões desagradáveis. A sofisticação do
44 Id. Em defesa da sociedade. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 292.
45 Ib.
46 Id. Microfísica do poder. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
47 Ib. p. 226.
controle dos perigos leva a novas formas de sofri- mento e redesenha o universo do incontrolável. A racionalização da vida urbana moderna desen- volve-se paralelamente àquilo que a ameaça, num espelho crescente de oposições sociais.
As sensibilidades e valores que se colocam em jogo na vivência urbana dos contrastes sociais parecem incorporar progressivamente, em função do processo de sofisticação do mundo moderno, formas refinadas e inéditas de intolerância e hos- tilização do outro. O corpo desempenha aqui um papel capital, uma vez que ele é o lugar das
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
oposições entre o mundo orgânico e cultural, en- tre normalidade e anormalidade.
Paradoxalmente a toda sofisticação que carac- teriza a modernidade, o corpo urbano desviante parece ter se tornado uma forma onipresente de alteridade, paralelamente ao processo de refina- mento da vida moderna. Esse corpo só adquire suas conotações negativas no intercâmbio com o espaço em que se insere. Foucault revela-nos co- mo corpo e espaço se apresentam ao olhar das pes- soas através de uma luta cúmplice, até agora sem vencedor, entre universos sociais contrastantes.
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