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PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA PUC-SP SÃO PAULO 2006

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VERA HELENA SAAD ROSSI

“DIÁLOGOS POSSÍVEIS COM CLARICE LISPECTOR”: AS ENTREVISTAS DE UMA ESCRITORA JORNALISTA

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA

PUC-SP

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VERA HELENA SAAD ROSSI

Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do grau de Mestre em Literatura e Crítica Literária à Comissão Julgadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação da Profª. Drª. Olga de Sá

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Banca Examinadora:

...

...

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AGRADECIMENTOS

À Profª Drª Olga de Sá, pelas sábias orientações e pelo carinho e dedicação.

À Profª Drª Aparecida Nunes, pelos significativos conselhos, pela ajuda e pelo desvelo

com que sempre me atendeu.

À Banca Examinadora, pelos apontamentos tão proveitosos.

Aos Professores do Programa, pelos ensinamentos tão profícuos.

Ao Prof. Dr. Osvando de Moraes, pela grande ajuda no início do projeto

Aos meus pais, carinhosamente, pelo apoio e amor incondicionais.

Às minhas irmãs, Marina e Lygia, pela amizade sincera e inexaurível.

Ao Paulo André, companheiro de todas as horas, pelo amor e compreensão, mesmo

nos momentos mais difíceis.

Aos amigos e familiares, pela torcida.

E, por fim, a todos que me auxiliaram, direta ou indiretamente, na pesquisa, e, de uma

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RESUMO

Este trabalho pretende analisar a linguagem erigida nas entrevistas realizadas por Clarice Lispector para as revistas Manchete e Fatos e Fotos/Gente, de modo a investigar possíveis oportunidades de ficção dentro dos textos jornalísticos, e, assim, avaliar a singularidade dessas entrevistas.

Para tanto, estudamos conceitos teóricos do gênero entrevista e da linguagem jornalística. Também apontamos as principais diferenças entre o discurso jornalístico e literário antes de analisarmos efetivamente as entrevistas de Clarice Lispector.

Pelo fato de o ofício como jornalista corresponder a uma faceta de Clarice Lispector pouco conhecida, traçamos a trajetória da escritora na imprensa, com base no trabalho realizado pela pesquisadora Aparecida Maria Nunes, e o percurso que a conduziu à Bloch Editores.

Foram selecionadas 15 entrevistas da Revista Manchete e 16 da Fatos e Fotos/Gente. Por se tratar de trabalhos realizados para periódicos jornalísticos, há uma preocupação em contextualizar a entrevistadora e os entrevistados no tempo e no espaço de suas vozes.

Pela leitura analítica dos textos, ressaltamos a linguagem especificamente clariciana, que, comumente, dialoga com a obra literária de Clarice Lispector.

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ABSTRACT

This research purposes to analyze the language built in the Clarice Lispector interviews accomplished to Manchete e Fatos e Fotos/Gente magazines, in order to investigate possible opportunities of fiction inside the journalistic texts, and, thereby, to evaluate the singularity of this interviews.

Therefor, we studied theoretical concepts about the interview genre and the journalistic language. We also pointed out the main differences between journalistic speech and literary speech before analyzing the Clarice Lispector interviews.

Due to the fact that the Clarice Lispector profession as a journalist is not too much known, we trace the press trajectory of the writer, based on the Aparecida Maria Nunes research, and the course which leads Clarice to Bloch Editores.

Fifteen interviews from Manchete and sixteen from Fatos e Fotos/Gente were selected. Since these texts are from magazines, there is a concerning in studying the interviewer and interviewed voices in a contextual time and space.

By the analytic lecture of the interviews, we emphasized the peculiar “clarician” language, that, usually, dialogues with the Clarice Lispector literature work.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

CAPÍTULO I — CLARICE ENTREVISTADORA 1-1 A ENTREVISTA ... 11

1-2 “SOU UMA PERGUNTA” ... 20

1-3 CLARICE LISPECTOR DO OUTRO LADO DO GRAVADOR ... 26

CAPÍTULO II — NA MANCHETE, DIÁLOGOS COM CLARICE LISPECTOR 2-1 ACONTECEU, VIROU MANCHETE ... 37

2-2 CLARICE NA MANCHETE ... 39

2-3 TEXTOS INTRODUTÓRIOS ... 41

2-4 DIÁLOGOS POSSÍVEIS ... 51

2-5 ARMADILHAS DO DISCURSO ...59

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3-1 CLARICE LISPECTOR NOVAMENTE NA BLOCH EDITORES ... 68

3-2 ANTIGOS E NOVOS ENTREVISTADOS ... 69

3-3 REVISTA MANCHETE: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ... 74

3-4 MOMENTOS EPIFÂNICOS ... 83

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 89

ANEXOS ... 91

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 97

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INTRODUÇÃO

Clarice Lispector ainda é uma pergunta? A considerar pela inesgotável fonte de signos suscitada em sua obra e vida, a resposta a tal questão se perpetua afirmativa. Apesar de representar uma das escritoras brasileiras mais estudadas, ainda há muito que se descobrir do universo clariciano.

Sua carreira como jornalista, pouco conhecida, mas que, entretanto, se inicia antes do lançamento de seu primeiro livro, compactua com o mistério erigido no que concerne Clarice Lispector.

Com cerca de 20 anos, enquanto cursava a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, Clarice Lispector iniciou sua carreira jornalística como repórter da Agência Nacional. No jornal A Noite, em 1943, obteve seu primeiro registro. Inclusive, os originais de seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, foram publicados no mesmo periódico em que trabalhava, em 1944.

A partir de então, sua produção jornalística é vasta. A autora elaborou colunas femininas com pseudônimos para Comício em 1952 e Correio da Manhã em 1958 e 1959; foi ghost writer da atriz manequim Ilka Soares em uma coluna feminina para o Diário da Noite em 1960 e 1961, produziu crônicas para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, além de outras tantas atividades jornalísticas1 (cf. NUNES. 1991. p 6 e7).

Entre suas inúmeras publicações em jornais e revistas, é possível encontrarmos, nas 83 entrevistas realizadas para as revistas Manchete, na seção Diálogos Possíveis com Clarice Lispector (59 entrevistas compreendidas no período de maio 1968 a outubro1969) e Fatos e Fotos/Gente (24 entrevistas realizadas entre dezembro de 1976 e outubro de 1977), um material repleto de questões ontológicas peculiares a uma autora essencialmente voltada para a introspecção interior.

1 As colunas femininas produzidas por Clarice Lispector são analisadas com maior profundidade por Nunes em sua tese de

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Seus entrevistados variam desde músicos, como Chico Buarque e Tom Jobim, poetas, como Ferreira Gullar e Vinícius de Morais, escritores, como Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles até personalidades inusitadas como Padre Quevedo e o “primeiro figurino do país”, Teresa Souza Campos.

Instigada por essa quase nova e desconhecida Clarice Lispector, cujas entrevistas obtiveram pouca atenção da crítica literária, pretendo, no presente trabalho, resgatar e investigar sua produção jornalística elaborada para as revistas Manchete e Fatos e Fotos/Gente, sobretudo a tessitura da linguagem engendrada ao longo das entrevistas, uma vez que parece antecipar questões literárias relevantes além de revelar uma escritura especificamente clariciana, malgrado seja realizada em um veículo jornalístico e direcionada para um público específico.

Para tanto, no primeiro capítulo serão analisadas definições acerca da linguagem jornalística e do gênero entrevista, além da trajetória da escritora Clarice Lispector no jornalismo e na literatura que a conduzem às entrevistas para as revistas Manchete e Fatos e Fotos/Gente.

No segundo capítulo, iniciado com uma breve introdução sobre a revista Manchete e sobre a Bloch Editores além da contextualização da época em que foram realizadas as entrevista, serão estudadas 15 entrevistas previamente selecionadas do Diálogos Possíveis com Clarice Lispector2 que reúnem elementos cruciais para a ponderação da linguagem clariciana nestas entrevistas.

No terceiro e último capítulo, em que também é contextualizada a época em que foram realizadas as entrevistas, os diálogos3 serão confrontados com os realizados para a

Manchete, a serem pontuadas as semelhanças e diferenças entre ambos, como também aspectos novos igualmente importantes na análise da linguagem peculiar erigida a partir das entrevistas.

2 As entrevistas a serem analisadas são: com Nelson Rodrigues (11/05/68); com Djanira (25/05/68); com Chico Buarque

(14/09/68); com José Carlos de Oliveira (05/ 10/68); com Vinícius de Morais (12/10/68); com Roberto Burle-Marx

(26/10/68); com Millôr Fernandes (02/11/68); com Marque Rebêlo (02/11/68); com Tereza Souza Campos (14/12/68); com Maria Martins (21/12/68); com Fernando Sabino (25/01/69); com Austregésilo de Ataíde (15/02/69); com Clóvis Bornay (22/02/69); com Glória Magadan (03/05/69) e com Carybé (28/06/69)

3 Foram selecionadas 16 entrevistas: Elke Maravilha (26/12/76); Mário Soares (02/01/77); Antônio Callado (30/01/77),

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CAPÍTULO I — CLARICE ENTREVISTADORA

1- 1 A ENTREVISTA

“A entrevista transforma o cidadão comum em líder, dono da palavra, professor, uma pessoa incomum..” (Fábio Altman)

Em resposta à jornalista Isa Cambará, da revista Veja, sobre a necessidade de se publicar De Corpo Inteiro4, uma coletânea com algumas de suas entrevistas realizadas para a revista Manchete, Clarice Lispector revela:

Eu me expus nessas entrevistas e consegui assim captar a confiança de meus entrevistados a ponto de eles próprios se exporem. As entrevistas são interessantes porque revelam o inesperado das personalidades entrevistadas. Há muita conversa e não as clássicas perguntas.5 (NUNES. 1991. p.46)

Está claro que Clarice evidencia a distinção entre as entrevistas jornalísticas e as suas, ao constatar que há muita conversa nestas e não o que ela denomina de “clássicas perguntas”. A autora chega a afirmar ainda em outra ocasião: “Gosto de pedir entrevista — sou curiosa. E detesto dar entrevistas, elas me deformam”. Sob este prisma, as “clássicas perguntas” deformam, não estabelecem a confiança entre os entrevistados e a entrevistadora, impossibilitando a revelação do inesperado das personalidades entrevistadas.

(27/06/77); Lygia Fagundes Telles (29/08/77); Vinícius de Morais (12/ 09/77); Fayga Ortrower (26/09/77) e Flora Morgan Snell (17/10/77)

4 1ª edição de 1975, editora Artenova

5 Este trecho foi extraído originalmente do artigo Uma escritora no escuro – Clarice Lispector publicado na revista

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Com efeito, a entrevista jornalística pré-pautada por um questionário, cujo intento se restringe à obtenção de respostas anteriormente decididas pela redação de determinado veículo, não atingirá o estágio de intimidade e confiança almejado por Clarice Lispector. Contudo, faz-se necessário avaliar outras possibilidades de entrevista, em que há a inter-relação humana, e, por conseguinte, prima-se pelo diálogo entre entrevistador e entrevistado e não pelas respostas, exclusivamente.

A entrevista, segundo observa Annette Garrett (GARRETT, 1964, p. 16), “se processa entre seres humanos, os quais, sendo marcadamente individualizados, não podem ser reduzidos a uma fórmula ou padrão comum”, de tal forma, que, de acordo com ele, a entrevista envolve uma relação mais íntima e sutil entre os seres humanos do que pode parecer à primeira vista.

Uma análise cerceada por conceitos previamente instituídos, sem um questionamento mais aprofundado, portanto, pode desencadear uma série de equívocos quanto à estereotipização da entrevista jornalística, fundamentada tão somente na objetividade do repórter em lograr de seu entrevistado as respostas desejadas por intermédio das “clássicas perguntas”.

O grau de complexidade inerente a uma entrevista jornalística, constatado por Garrett, engloba mais do que “clássicas perguntas” e, limitá-la a tais interrogativas significa, a priori, não levar em conta a subjetividade intrínseca ao entrevistador e ao entrevistado. Para que seja efetivamente realizado um estudo sobre a entrevista, como concretização da comunicação humana, é necessária uma reavaliação sobre a dicotomia objetividade/subjetividade.

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De fato, a captação dos acontecimentos se realiza por intermédio de um filtro, a partir das idiossincrasias do jornalista. Cremilda Medina vislumbra esta problemática em seu segundo livro, Notícia: um produto à venda (cf. MEDINA, 1978, p. 104), quando afirma que a relação entre repórter e realidade a captar nunca é objetiva como se pretende, pois está sujeita às contingências da percepção e às insuficiências técnicas do método de trabalho.

Porém, é impossível simplesmente ignorarmos a objetividade no trabalho jornalístico, até porque este depende da objetividade no relato dos fatos, sobretudo, como ferramenta no trabalho com a subjetividade, ou, do contrário, nos deparamos com a notícia já direcionada e comprometida, desencadeando, por conseguinte, a crise da democracia, conforme pontua Felipe Pena (cf. PENA, 2005, p. 51).

Para Pena, o problema do conceito da objetividade reside na interpretação, haja vista que a subjetividade surge não para negar a objetividade, mas sim, “por reconhecer a sua inevitabilidade”. Isto porque os fatos são subjetivos, ou seja, construídos a partir da mediação de um indivíduo que tem “preconceitos, ideologias, carências, interesses pessoais ou organizacionais”. Pena propõe, então, a criação de uma metodologia de trabalho que assegure algum rigor científico ao reportar esses fatos, assim, o método é objetivo e não o jornalista o é.

Na comunicação engendrada pela entrevista, o caso é ainda mais delicado, pois trata-se de duas pessoas em função de um objetivo em comum, a informação, e, concomitantemente, trata-se de alguém que, na tentativa de tentar se comunicar, o faz a partir da ficção que cria de si mesmo atingindo a ficção do outro. (cf. BRUNO, 2002, p. 30).

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Não por acaso, ao qualificar a entrevista como “entrevista-rito”, “entrevista anedótica”, “entrevista-diálogo” e “neoconfissões”, Morin, enquanto despreza as entrevistas rito e anedótica, tidas por ele como meras tentativas de obter uma palavra ou conversações frívolas e ineptas, valoriza os dois últimos tipos de classificação por justamente se definirem pelo diálogo. Ele chega a chamá-las de “casos felizes”, em que há mais do que uma conversação mundana, há uma busca em comum.

Nas neoconfissões, Morin salienta ainda que se é alcançada a entrevista em profundidade da psicologia social, em que o entrevistador se apaga diante do entrevistado, que não continua na superfície de si mesmo, mas efetua, deliberadamente ou não, o mergulho interior.

Para ele, tal entrevista traz em si sua ambivalência, pois “toda confissão pode ser considerada como um strip-tease da alma, feita para atrair a libido psicológica de espectador, quer dizer, pode ser objeto de uma manipulação sensacionalista, mas também toda a confissão vai muito mais longe, muito mais profundamente que todas as relações humanas superficiais e pobres da vida cotidiana.”(1973, p.128).

Cremilda Medina também defende o comportamento dialógico na entrevista jornalística como imperativo da convivência democrática em detrimento do monólogo autoritário. A autora aprofunda ainda mais o grau de complexidade da entrevista ao agrupá-la as em duas tendências: a de espetacularização e a de compreensão, além de subdividi-las em subgêneros.

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Quanto aos subgêneros da espetacularização, estes se dividem em quatro: o perfil do pitoresco, do inusitado, da condenação e da ironia intelectualizada. Em todos os casos, as possibilidades humanas do entrevistado são caricaturadas pela superficialidade que se mantém a entrevista, remetendo-a ao nível do espetáculo. Para Medina, à medida que o jornalismo e a comunicação coletiva desenvolvem estilos de abordagem e aproveitamentos dinâmicos da entrevista, teríamos invariavelmente o desdobramento dessas duas chaves.

A partir das classificações instituídas por Medina, a entrevista jornalística não pode ser simplificada a “clássicas perguntas”, uma vez que permite a existência de um diálogo democrático, de um “plurálogo”, nas palavras de Medina, na tendência da compreensão. Diante desta possibilidade do plurálogo e do grau de complexidade a que a entrevista atinge, fica-nos a pergunta: ora, se a entrevista jornalística não se diferencia das “conversações” realizadas por Clarice Lispector nas revistas Manchete e Fatos e Fotos Gente pelas clássicas perguntas, uma vez que, como vimos, ocorre o diálogo na entrevista fecunda, o que torna as entrevistas da escritora singulares?

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O encaminhamento técnico do questionário nos processos extensivos e as rigorosas atitudes do entrevistador nos processos intensivos (psicanalísticos, por exemplo) exigem uma competência distinta do jornalista. Este se orienta, numa técnica não-diretiva, num diálogo aberto e fluido, pela arte de construir a entrevista dentro de balizas, ou leis (para o alemão Otto Groth), que configuram o jornalismo:

atualidade, universalidade, periodicidade e difusão. Por mais ambição de historiador que tenha o entrevistador, ele estará implicado em tocar o presente (atualidade); por mais psicólogo que queira ser diante de um interlocutor confessional, ele terá de se ater a traços significativos para muitas outras pessoas que, na comunicação anônima,

se identifiquem com o entrevistado (universalidade); por mais profundo que queira ser no tempo e no espaço, tal qual um artista ao pintar seu modelo, não poderá se desvincular do timing “24 horas ou menos” (periodicidade);e por mais vanguardista que seja, seus ímpetos de ruptura artística não poderão colidir com a legibilidade da comunicação coletiva (difusão). No âmbito destas determinações há, no entanto, espaço para a criação artística de um diálogo. (1995, p.19)

À luz da análise de Medina, pode-se concluir que o comprometimento do jornalista habita não apenas no que tange à criação artística, apesar de esta ser ratificada no diálogo, mas também nas leis que definem o jornalismo.

Tal comprometimento serve igualmente de parâmetro para a distinção entre a linguagem literária e a jornalística na entrevista, uma vez que, diferentemente do jornalismo, o literário possibilita a total liberdade de criação, principalmente, no que diz respeito à ruptura artística.

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A própria Clarice Lispector em suas crônicas para o Jornal do Brasil6 também analisa

a linguagem jornalística e esta legibilidade necessária, como se pode observar na crônica intitulada Escrever para jornal e escrever livro, publicada posteriormente no livro A Descoberta do Mundo7.

Hemingway e Camus foram bons jornalistas, sem prejuízo de sua literatura. Guardadíssimas as devidas e significativas proporções, era isto o que eu ambicionaria para mim também, se tivesse fôlego.

Mas tenho medo: escrever muito e sempre pode corromper a palavra. Seria para ela mais protetor vender ou fabricar sapatos: a palavra ficaria intacta. Pena que não sei fazer sapatos.

Outro problema: num jornal nunca se pode esquecer o leitor, ao passo que no livro fala-se com maior liberdade, sem compromisso imediato com ninguém. Ou mesmo sem compromisso nenhum.

Um jornalista de Belo Horizonte disse-me que fizera uma constatação curiosa: certas pessoas achavam meus livros difíceis e no entanto achavam perfeitamente fácil entender-me no jornal, mesmo quando publico textos mais complicados. Há um texto meu sobre o estado de graça que, pelo próprio assunto não seria tão comunicável e no entanto soube para meu espanto que foi parar até dentro de missal. Que coisa!

Respondi ao jornalista que a compreensão do leitor depende muito de sua atitude na abordagem do texto, de sua predisposição, de sua isenção de idéias preconcebidas. E o leitor de jornal, habituado a ler sem dificuldade o jornal, está predisposto a entender tudo. E isto simplesmente porque “jornal é para ser entendido”. Não há dúvida, porém, de que eu valorizo muito mais o que escrevo em livros do que o que escrevo para jornais — isso sem no entanto, deixar de escrever com gosto para o leitor de jornal e sem deixar de amá-lo. (A DESCOBERTA DO MUNDO, 1998, p. 421)

Nota-se, no texto, que Clarice Lispector controverte seu ofício como jornalista em dois momentos. Primeiramente, quando pondera que seria mais seguro vender sapatos a ser “jornalista e escritora”, uma vez que “escrever muito e sempre pode corromper a palavra”.

6 órgão de imprensa para o qual a autora trabalhou como cronista de 1967 a 1973

7A Descoberta do Mundo é uma publicação póstuma editada pela primeira vez pela Nova Fronteira em 1984 que reúne, em

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O verbo vender utilizado logo após o termo “escrever muito e sempre” sugere ao leitor uma escritura intrinsecamente ligada ao dinheiro. Em outras palavras, muito provavelmente, para a escritora, “escrever muito e sempre” mantinha, sim, a palavra intacta, esta somente era corrompida quando vendida.

De fato, conforme informações de Nádia Batella Gotlib, durante a época em que trabalha para o Jornal do Brasil que coincide com o período em que faz entrevistas para a Revista Manchete, a autora é pressionada ao trabalho jornalístico por questões de ordem financeira.8 (GOTLIB, 1995, p. 373)

Clarice Lispector também admite escrever para o jornal por dinheiro, na crônica Anonimato, de 19 de fevereiro de 1968: “(...) escrevo agora porque estou precisando de dinheiro.” E, ainda, na entrevista realizada para a Revista Manchete, no dia 5 de outubro de 1968, com o José Carlos de Oliveira, tal fato é enfatizado pelo entrevistado com a insinuação: “(..) uma escritora como Clarice Lispector, em vez de comer e beber comigo, tem que pensar em entrevistas para poder sobreviver.”

Outro obstáculo: o jornal é para ser entendido e, por conseguinte, o leitor do jornal está predisposto a entender tudo, ou seja, Clarice reclama justamente deste compromisso imediato com o leitor e da legibilidade necessária do texto jornalístico, em oposição à linguagem literária, que se define por seu caráter transgressor.

Parafraseando Eduardo Portella, a literatura cria a mensagem em vez de apenas transmiti-la. A propósito, a diferença entre a comunicação e a literatura desenvolvida por Portella vem a ratificar a “desobediência” literária ao que é regido por regras e normas já instituídas:

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As palavras se singularizam no universo literário, tornam-se úteis, enquanto células modificadoras, e não mais utilitárias. Como enunciou Roland Barthes, na Aula Inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio de França Roland Barthes, a língua é fascista, pois obriga a dizer, ao passo que, na literatura, a língua é desviada e, conseqüentemente, se é permitido ouvir a língua fora do poder, no “esplendor de uma revolução permanente da linguagem” (BARTHES, 1992, p.16).

Pelo “desvio” da linguagem há o transporte de seu sentido comum para o figurado. Já na Antigüidade tal recurso é recorrente. As figuras concebidas pela retórica com a finalidade de ornar o discurso, em sua parte elocutória, causavam o aspecto de estranheza que o diferenciava das locuções comuns.

Interessante observar que Barthes defende em seu livro “Crítica e Verdade” que a tarefa do escritor é “inexprimir o exprimível” (BARTHES, 2003, p.22), sendo um dos recursos para tal tarefa o uso das figuras, que, para ele, corresponde a uma “técnica de ilusão”, pois estas redistribuem as coisas, fazem “com que pareçam outras diferentes do que são, ou como são, mas de um modo impressivo”. (2003, p.87)

No que concerne à polissemia decorrente do uso de figuras, Paul de Man em “Alegorias da Leitura” vai mais longe. O autor reitera a ilegibilidade final dos textos ao ponderar obras de grandes autores como Proust e Yeats em meio à exorbitante quantidade de signos. E, aqui, ele lança mão de outra ferramenta literária: a retórica.

Ao distinguir a retórica da gramática, De Man se vale da pergunta retórica a fim de explanar as inúmeras possibilidades de interpretação da escritura literária. O poema de Yeats “Among School Children” [Entre Escolas de Crianças] constitui um exemplo significativo para tal elucidação.

8 Segundo consta no livro, Clarice era pressionada ao jornalismo antes do Jornal do Brasil. Mais especificamente, após o seu

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O verso final do famoso poema de Yeats: “How can we know the dancer from the dance?” (como distinguir da dança o dançarino?) engendra duas diferentes leituras: a primeira, como uma pergunta retórica, em que não há como distinguir a dança do dançarino; já na segunda, o verso é mantido de modo literal, e, portanto, se afirma que há diferença entre dança e dançarino, e se quer saber qual. As duas interpretações norteiam o poema a sentidos opostos.

Tal como na literatura, parece que nas entrevistas realizadas por Clarice Lispector manifesta-se o caráter transgressor e polissêmico da língua em perguntas como “o que é o amor?”, “qual é a coisa mais importante do mundo para uma pessoa como indivíduo?”, etc.. Inclusive, tais interrogativas muito se aproximam das indagações evidentes na obra literária de Clarice Lispector, que restituem questões metafísicas e ontológicas conforme veremos a seguir.

1 - 2 “SOU UMA PERGUNTA”

“Escrever” existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de uma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo sem saber como e por quê — é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação.” (Clarice Lispector - Um sopro de vida)

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. “ (Clarice Lispector - A hora da estrela)

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No caso da literatura, as perguntas, apesar de muitas vezes não se constituírem como retóricas, igualmente podem ser propositais, no intento de engendrar um efeito estético na leitura, dado seu caráter provocativo.

Outrossim, a obra clariciana pode incitar tal efeito, uma vez que ler Clarice Lispector também é deixar-se envolver por questões acerca do homem e do mundo. As interrogações, as dúvidas e a curiosidade delineiam a tessitura do texto abrindo-o a inesgotáveis reflexões ontológicas.

Não seria exagerado afirmar que a obra clariciana nos remete ao tí estin, ou seja, ao perguntar originalmente grego, ao qual se refere Heidegger quando tenta responder à pergunta “o que é isto — filosofia?”. O filósofo discorre sobre o próprio questionamento, uma vez que, para ele, não somente a filosofia é grega em sua origem, mas também o modo como se pergunta, mesmo que à sua maneira de questionar, ainda é grego. Se perguntamos: “que é isto ...?” em grego é: “tí estin”, o que mantém a questão, ao que algo seja, multívoca.

Heidegger cita como exemplo a interrogativa: “que é aquilo lá longe?” e a resposta imediata, “uma árvore”, que, para ele, consiste na nomeação de uma coisa que não se conhece direito, logo, pode-se questionar mais: “o que é aquilo que designamos ‘árvore’?” Com a questão posta se avança para a proximidade do tí estin grego, forma de questionar desenvolvida Sócrates, Platão e Aristóteles.

O filósofo se adianta um pouco mais nas interrogações — “Que é isto - o belo? Que é isto - o conhecimento? Que é isto - a natureza? Que é isto - o movimento?” — em que não se procura apenas uma delimitação mais exata do que é natureza, movimento, beleza; mas se toma cuidado para que ao mesmo tempo se dê uma explicação sobre o que significa o “que”, em que sentido se deve compreender o tí.

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Visto isto, Heidegger ressalta que sempre se deve determinar novamente aquilo que é questionado, através de um fio condutor que representa o tí , o quid, o “quê”; porém, em todo caso, referindo-se à filosofia, a pergunta “que é isto?” levanta uma questão originariamente grega.

No tocante ao tí estin, Clarice Lispector também indaga “que é isto?”, a levantar a questão originariamente grega. Tomemos como exemplo a crônica escrita para o Jornal do Brasil, cujo próprio título O que é que é? vem a concretizar a pergunta, enquanto questão da essência, que se mantém sempre viva por intermédio da essência que se interroga.

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de que não gosto — como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? E este é o nome. (A DESCOBERTA DO MUNDO, 1999, p.199)

Primeiramente, Clarice formula a pergunta “como se chama o que sinto?”, para depois concluir que o único modo de chamar é perguntar como se chama, uma vez que até aquele momento, conseguiu nomear com a própria pergunta.

Nota-se que a autora não perguntou primeiramente “o que é aquilo lá longe” e sim, aproximou-se de pronto da pergunta “o que é aquilo que designamos...?”, e, por conseguinte, do tí estin. No que concerne à nomeação de uma coisa que não se conhece direito, há o interesse pela coisa que não se conhece direito, pelo “que”, e não pela nomeação.

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Os “por quês?” suscitam dúvidas até sobre o próprio ato de escrever, o que se evidencia nas perguntas “Por que se lê?”, “Por que quem me lê está perplexo?”, “Por que quem me lê está vivo?”, “Por que escrevo?”

Este texto também pode ser observado enquanto texto que olha para o texto, conforme análise feita por Carlos Mendes de Sousa em Clarice Lispector: figuras da escrita, uma vez que “a especificidade da disposição das frases (como se fosse um poema) torna mais incisivas as perguntas sobre as questões colocadas no metatexto clariciano que repõem a primeira interrogação, a infinita pergunta: “Por que poderia perguntar indefinidamente por quê?” (2000, p.120)

No entanto, convém aqui ressaltar outro aspecto da crônica. Em um dado momento, já ao final, a questão “Por quê?” é respondida com “É porque.” Tal qual em O que é o que é?, em que à pergunta “Qual é o nome?” se responde “E este é o nome.”, Clarice igualmente responde à interrogativa com a própria pergunta, como se tentasse também explicar o “quê” por intermédio da indagação.

Há, por certo, uma exaltação da pergunta na escritura clariciana. Inclusive, existem algumas obras da fortuna crítica que apontam tal tendência, como o próprio Clarice Lispector: figuras da escrita de Mendes de Sousa, que assinala esta pose interrogante como incisiva no modo como Clarice Lispector se aproxima da literatura. De acordo o autor, a atitude da escritora perante a vida, a permanente colocação da dúvida, irá marcar seu modo de estar diante da escrita.

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Sobre as origens cai a interrogação, de que dá conta a própria matéria que delas trata. Assim, uma escrita/matéria interrogante. Colocar a interrogação é introduzir a dúvida, é descentrar ... Era inevitável que as dúvidas, as interrogações recaíssem sobre a sua própria literatura e a literatura em geral. Como nasceu a escrita? Como nasce esta escrita? A questão que, no trânsito interpretativo, o hermeneuta devolve como se projectasse na pergunta fundadora: de onde vem o mundo? Deparamos com uma indissociabilidade, uma convergência entre as indagações sobre a origem (em termos metafísicos e ontológicos) e sobre sua origem como escritora: como e por que sou escritora? As figuras fundadoras tentam dar corpo a essa pergunta. (SOUSA, 2000, p.120)

O autor também observa que esse insaciável desejo de conhecer, esse participar na interrogação do futuro é corroborado sobretudo na fase final, através da consulta de cartomantes ou através da prática corrente de consulta das cartas, como é o caso do I-Ching, que deixa vestígios em muitos dos manuscritos dessa última fase.

Além disso, no interior dos textos, segundo ele, “os contornos da interrogação configuram um dos modos do desconcerto, do estranhamento que impõem a singular afirmação da escrita lispectoriana. Proliferam estranhas interrogações contaminando, apoderando-se de todo o tecido discursivo.” (SOUSA, 2000, p.121)

O autor cita como exemplo o final do quinto capítulo da primeira parte de A Maçã no Escuro, em que a cena “é ferida por perguntas que caem cheias de ironia e do distanciamento com que, na autora, é costume recortar-se esse tipo de quadros.” (SOUSA, 2000, p.121)

Como a interrogação impõe a singular afirmação da escrita lispectoriana, é de se questionar se houve uma tentativa por parte da escritora em responder às indagações, ou melhor, em interpretar o “que”, como assim o fez Platão e os outros filósofos.

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Malgrado Sousa caracterize A Maçã no Escuro como uma tentativa de resposta, há outros estudos que evidenciam na obra clariciana o reconhecimento da impossibilidade de resposta, como é o caso da obra A reta artística de Clarice Lispector de Zizi Trevizan. Segundo esta, “o conflito existencial configurado nos textos de Clarice Lispector acentua-se no reconhecimento da impossibilidade de encontrar ‘a grande resposta’ a todas as indagações filosóficas.” (TREVIZAN, 1987, p.21)

Em outras palavras, o próprio texto clariciano surge como solução romanesca para o conflito decorrente da ausência da “grande resposta”, como desabafo íntimo até, pois “o que salva é escrever distraidamente.”(LISPECTOR apud TREVIZAN, 1987. p. 21)

Apesar de parecerem opostas, tanto a assertiva de Sousa quanto de Trevizan conduzem-nos a caminhos muito próximos, cujo destino se encontra nas palavras da própria escritora: “Por quê? É porquê.” ; “Qual é o nome? E este é o nome.”

Se abstrairmos o “que” teremos a pergunta. A própria interrogação explica o ti, pois o “único modo de chamar é perguntar”. Ora, se a resposta ao por quê é porquê intransitivamente, o próprio “por quê?” se responde pela pergunta. Outrossim, ao se indagar qual é o nome se responde que este, este se referindo ao questionamento “qual é o nome?”, é o nome. O nome é o questionamento.

Voltando às duas análises, que, em um primeiro momento transparecessem-se incompatíveis, pelos questionamentos se aproximam, pois a impossibilidade da grande resposta reside na pergunta, que por sua vez corresponde à tentativa de resposta, por intermédio da interrogação, e assim, infinitamente.

É possível, ainda, estabelecer uma relação entre o tí e o próprio ato de escrever. Em Um Sopro de Vida, o narrador enuncia que escrever é apenas o reflexo de uma coisa que se pergunta, e ainda que “escrever é uma indagação” (1999, p.16).

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A literatura clariciana, enquanto uma tentativa de interpretar o ti pela própria pergunta, não pretende estabelecer respostas assertivas às indagações filosóficas, e sim perguntar. Ante o mistério do mundo, a tessitura dos textos se forma e se delineia pelas próprias interrogações, enquanto tentativa de chegar o mais perto possível da essência, da matéria ainda bruta, da “primeira pergunta”.

Como é possível constatar, portanto, a escritura clariciana se assinala por interrogativas metafísicas, semelhantes ao perguntar grego, ao ti estin, cujo tí corresponde à própria interrogação. O tí estin, igualmente, pode se relacionar com o próprio ato de escrever, erigindo, dessa forma, questões metalingüísticas enquanto respostas à pergunta “Por que escrevo?”.

A escrita de Clarice Lispector não somente apresenta interrogações como também é mobilizada por elas, escrita esta que ecoa no roteiro das entrevistas realizadas pela Clarice entrevistadora para as revistas Manchete e Fatos e Fotos/Gente; um vez que suas entrevistas, elaboradas no formato de perguntas e respostas, se valem da pergunta como desencadeadora do diálogo.

Ao conhecer a produção literária da escritora é inevitável a indagação: o que baliza a escolha das perguntas elaboradas por uma escritora cuja obra literária se conduz por questões metafísicas e metalingüísticas?

Ao mesmo tempo, ao conhecer suas entrevistas jornalísticas, é inevitável o estranhamento diante de perguntas não usuais, tais como “você é feliz?”, entre outras, a provocarem o efeito estético no ato da leitura, que, conforme Iser, representa o elemento crucial para a existência da literatura.(1996, p.52)

No intento de esclarecer como ocorre o efeito estético suscitado pela leitura destas entrevistas e os elementos que as caracterizam como tipicamente claricianas, faremos antes um estudo sobre o percurso de Clarice Lispector entrevistadora, desde sua primeira entrevista feita com Tasso de Oliveira em 1940 até seus últimos trabalhos para revista Fatos e Fotos/ Gente em 1977, ano de sua morte, a fim de encontrarmos elementos comuns que caracterizem suas entrevistas.

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“Avisei a Nélson Rodrigues que desejava uma entrevista diferente. É um homem tão cheio de facetas que lhe pedi apenas uma: a da verdade. Ele aceitou e cumpriu”

(Clarice Lispector – Diálogos possíveis com Clarice Lispector)

Quando Clarice Lispector entrou para a Agência Nacional, por volta de 1940, seu escopo era diferente da carreira que iria efetivamente seguir. A escritora ofereceu seus trabalhos como tradutora para empresa, mas, como o quadro estava completo, passou para a reportagem9. Segundo consta na pesquisa elaborada por Aparecida Maria Nunes, o caráter imprevisto das reportagens agrada Clarice, que passa a ter contato com diferentes personalidades, o que “lhe permite ampliar horizontes, enquanto cursa a Faculdade de Direito e escreve seus contos”. (NUNES, 1991, p. 17).

No mesmo ano, Clarice também manteve vínculo de trabalho com a empresa A Noite, que lhe daria no dia 02 de março de 1942 seu primeiro registro na Carteira Profissional como repórter do jornal A Noite. Nesta empresa, Clarice fazia de tudo, “menos reportagens de polícia ou de sociedade” (NUNES, 1991, p. 20).

Em Vamos Ler!, revista semanal da empresa A Noite, Clarice foi contista em “Eu e Jimmy” e “Trecho”, tradutora do conto “O missionário”, de Claude Ferrère, e também repórter, com os trabalhos “Uma hora com Tasso de Silveira” e “Uma visita à Casa dos Expostos”.

Importante observar que, na época, Clarice Lispector ainda não era consagrada como escritora, pois o período antecede à publicação de seu primeiro romance Perto do coração selvagem, que viria a ser editado pela primeira vez no jornal A Noite, na base de aventura, em 1944. Sem pagar nada pelo lançamento e sequer receber pelos lucros obtidos, a autora presenciaria a primeira edição de seu livro esgotar-se rapidamente.

9 Todas informações sobre a trajetória de Clarice Lispector como jornalista estão embasadas na dissertação de mestrado da

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“Um hora com Tasso de Silveira” foi a primeira entrevista de Clarice Lispector, publicada no dia no dia 19 de dezembro de 1940 na revista Vamos Ler!. Esta antecipa o que viria a caracterizar suas entrevistas futuramente. Analisemos, assim, alguns trechos extraídos da entrevista, entre eles a introdução, algumas perguntas de Clarice, seus comentários ao longo do texto e o final:

Para mim, entrevistar Tasso de Silveira era continuar uma daquelas palestras tão profundas, nas quais eu assistia atenta o(sic) poeta revolver os grandes problemas do pensamento. [...] Depois quando eu descia a comprida rua Camerino , ia imaginando uma frase, uma idéia que contivesse aquela alma tão complexa, tão jovem, mas tão serena. [...] E ele é um homem que luta realmente, sua atitude diária não é de contemplação estática, não é daqueles poetas “fim de século”. [...] E é sua grande unidade interior, invulnerável até diante da verdade contemporânea que provoca sem dúvida os ritmos eternos de sua poesia.

— Vim lhe fazer algumas perguntas indiscretas: alguns “comos” e “porques”, digo-lhe.

[...]

— E, perguntei eu, sentindo que chegava um momento importante da entrevista [...]

Fazemos uma pequena pausa, durante a qual a esposa do poeta, com sua presença simpática e serena, vem nos chamar para o chá.

— E novas produções? Pergunto eu ainda. [...]

Sorrio, porque me lembro de que eu também, quando lhe escrevi minha opinião sobre “Canto Absoluto”, empreguei termos poéticos, falei em “manhãs ingênuas”, num “fortíssimo instinto de conservação da alma”, e sei lá mais o que...A razão disto é que a força poética do livro contagia...

Evidentemente ele é um homem raro, porque justamente, não é triste. Um dia, num momento de desânimo, perguntei-lhe: “Afinal, “isso” vale a pena?”. “Vale a peníssima”, riu ele. Nada melhor explica a poesia e sua obra10.

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No que se refere ao formato do texto, este é muito semelhante ao das entrevistas posteriores publicadas na Manchete e Fatos e Fotos/Gente. Na forma de perguntas e respostas, no estilo “pingue-pongue”, a entrevista, tal qual as demais, é precedida por uma introdução que apresenta o entrevistado. Conforme enfatiza Aparecida Nunes, o estilo “pingue-pongue” é uma maneira mais simples de se construir o texto de uma entrevista, mas, por outro lado, propicia que as idéias do entrevistado sejam reproduzidas com mais fidelidade, apesar de, conforme veremos posteriormente, o processo de retextualização da fala para a escrita dificultar a obtenção desta fidelidade ambicionada pelo repórter.

A disposição do texto somente irá se diferenciar das entrevistas ulteriores quanto aos intertítulos, tais como “’Um homem triste’, auto análise que demonstrará um homem alegre”, “A França se salvará”, “Livros a publicar — ‘o poeta cristão do Brasil’ — ‘não se pode fazer auto crítica em literatura’”, que dividem a entrevista conforme o assunto a ser discutido.

Com relação ao conteúdo, já na introdução da entrevista, notamos uma Clarice Lispector que se revela na primeira pessoa do singular, “para mim entrevistar Tasso de Silveira [...]”, acentua uma certa intimidade com o entrevistado, quando relata que a entrevista nada mais seria do que uma continuação daquelas “palestras profundas” debatidas entre os dois na redação de Pan, antecipa as questões metafísicas a serem discutidas, e revela suas próprias impressões sobre o Tasso de Silveira, alguém com “alma tão complexa, tão jovem, mas tão serena”, “um homem que luta realmente”.

A primeira pergunta da entrevista é peculiar: “Vim lhe fazer algumas perguntas indiscretas: alguns “comos” e “porquês”, digo-lhe.”. Isto porque não se trata de uma interrogação propriamente dita, mas de uma análise sobre o seu próprio ato de entrevistar, que ela chama de “perguntas indiscretas”, de “alguns ‘comos’ e ‘porquês’”.

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Em contrapartida, nota-se que, no desenrolar da entrevista, é estabelecido o diálogo efetivo almejado por Morin e Medina em uma entrevista jornalística. Os mais diversos temas, que englobam desde literatura até religião e guerra, são abordados em uma comunicação bilateral em que o entrevistador presta atenção ao que o entrevistado afirma, para a partir daí formular a próxima pergunta.

O diálogo, contudo, já se diferencia do caracteristicamente jornalístico, pelas intervenções de Clarice Lispector ao longo da entrevista. Por exemplo, quando, entre uma pergunta e outra, a entrevistadora revela: “fazemos uma pequena pausa, durante a qual a esposa do poeta, com sua presença simpática e serena, vem nos chamar para o chá.”, ou ainda, mais adiante, quando Clarice enuncia: “Sorrio, porque me lembro de que eu também, quando lhe escrevi minha opinião sobre “Canto Absoluto”, empreguei termos poéticos, falei em “manhãs ingênuas”, num “fortíssimo instinto de conservação da alma”, e sei lá mais o que...A razão disto é que a força poética do livro contagia...”.

Aliás, nesta última passagem citada, é possível constatar que, mesmo não sendo ainda escritora consagrada, Clarice Lispector discorre sobre sua própria escritura, e os “termos poéticos” que utilizou para elaborar a opinião sobre uma obra do escritor. A partir de tais marcas, o diálogo com Tasso de Oliveira erige o estilo único da futura entrevistadora das décadas de 60 e 70.

Nos anos seguintes a esta entrevista, Clarice Lispector casa-se com Maury Gurgel Valente, em 1943, torna-se conhecida com seu livro Perto do Coração Selvagem publicado no ano seguinte, continua seu trabalho na imprensa, e parte com seu marido, então diplomata, para Nápoles ainda em 1944. Clarice viveu no exterior em um período de 15 anos.

Longe do Brasil, ainda assim, não interrompe seu ofício como jornalista, e, mantém uma intensa produção literária com o lançamento dos romances O lustre, em 1946, A cidade sitiada em 1949 e a elaboração de A maçã no escuro.

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A partir de 1967, a escritora passa a produzir intensamente para a imprensa. Escreve crônicas para o Jornal do Brasil (1967 a 1973) do Rio de Janeiro e Correio do povo (1968 a 1973) de Porto Alegre. E em 1968, retoma às entrevistas com personalidades, na seção Diálogos Possíveis com Clarice Lispector, da revista Manchete. O título da coluna foi criado em referência a outra seção, Diálogos Impossíveis que, publicada pela mesma revista, unia pessoas de diferentes ofícios. (cf. NUNES, 1991. p. 40)

Segundo observa Aparecida Maria Nunes, antes da publicação dessa seção houve uma troca de correspondências entre a escritora e Fernando Sabino, em 1953, quando a escritora morava nos Estados Unidos, sobre a possibilidade de Clarice colaborar para a revista Manchete, com a coluna que seria denominada como algo semelhante a Bilhete americano ou Carta da América, e que “deveria ser escrita sem muitas preocupações literárias” (1991, p.236). Clarice aceitou o convite com a condição de que assinasse a coluna com um pseudônimo. Após algumas correspondências, ficou determinado que a seção seria assinada com as iniciais C.L, no lugar do nome ou do pseudônimo, porém a coluna acabou não sendo publicada.

A seção “Diálogos possíveis com Clarice Lispector”, por sua vez, foi inaugurada no dia 11 de maio de 1968, com a entrevista com o escritor Nélson Rodrigues. Notamos uma entrevista semelhante à sua primeira realizada em 1940 com Tasso de Oliveira, tanto no formato, quanto no conteúdo.

No estilo “pingue-pongue”, Clarice se aproxima de seu entrevistado com indagações como “O que é o amor?”, “Qual a coisa mais importante do mundo?”, “Qual a coisa mais importante do mundo para você como indivíduo?”, as quais o induz a “olhar para dentro”, a aprofundar-se no próprio ser, exigindo um maior contato consigo mesmos, como que a fim de “partejar o espírito” 11 (SÁ, 2004, p. 234), nas palavras de Olga de Sá.

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Em termos comparativos, a entrevista se assemelha em parte à neoconfissão proposta de Morin, visto que o entrevistado não continua na superfície de si mesmo, mas efetua o mergulho interior. Digo em parte, pois não é possível enquadrá-la totalmente nesta classificação, uma vez que a entrevistadora não se apaga diante do entrevistado, pelo contrário, se mostra, como na fala a seguir produzida após a assertiva de Nélson Rodrigues “o amigo não existe”:

— Nélson, como conseqüência de meu incêndio, passei três meses no hospital. E recebia visitas até de estranhos. Eu não sou simpática. Mas o que é que eu dei aos outros para que viessem me fazer companhia? Não acredito que se tenha amigos. É que são raros.

Nas entrevistas conseguintes, Clarice mantém suas indagações sobre o amor, o indivíduo, a felicidade, etc, e, ainda, se revela na primeira pessoa do singular tal qual o fez com Tasso de Silveira.

Se na maiêutica socrática, a meta é atingir a verdade inata ao ser, as perguntas formuladas por Clarice, por sua vez, conduzem o entrevistado à sua própria subjetividade, exigindo dele uma reflexão mais profunda sobre si próprio, enquanto indivíduo que ama, que tem prioridades, que está feliz, que não está, que chora, que ri. Por meio do diálogo, alcança-se a “a terceira perna”.

Conforme Olga de Sá, para Clarice, escrever é uma forma de compreender a própria vida (2004, p.235). A partir desta observação, constata-se, igualmente, que, para Clarice jornalista, as entrevistas correspondem a uma forma de compreensão da Vida, uma vez que é clara sua preocupação com o entrevistado não enquanto celebridade, porém, enquanto ser humano, misterioso para consigo mesmo.

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Desta forma, por meio da fantasia de carnaval, por exemplo, Clarice Lispector extrai de seu entrevistado, Clóvis Bornay, considerações a respeito da personalidade humana, subentendidas na explanação sobre a necessidade daquele que interpreta modelos carnavalescos em ser “bom ator”, capaz de possuir “a inteligência de um gênio, a força de Hércules, a bondade de Cristo, as alegrias de uma criança, a ternura de uma mulher e as artimanhas de um demônio”. (LISPECTOR, C. Diálogos Possíveis com Clarice Lispector. Revista Manchete, Rio de Janeiro, ano16, n. 879, p.48-49, 22 fev. 1969).

Ou ainda, ao entrevistar “o primeiro figurino do país”, Tereza Souza Campos, pelo simples fato de “não simpatizar com ela”, Clarice revela em sua entrevistada uma mulher, que, muito além de ser a mais elegante, também é “inteligente”, que, com os “olhos virados para dentro”, reflete sobre o que é, capaz de despertar a simpatia de alguém que, mesmo sem lhe ter empatia, em um primeiro momento, chama-a de “une femme d’esprit”.

Outrossim, como na sua primeira entrevista de 1940, há intervenções literárias nos textos, a fim de narrar situações capazes de desvelar características peculiares dos entrevistados. Por exemplo, quando Tom Jobim interrompe a conversa para relatar que não quer mais beber uísque, e sim cerveja, porque esta “locupleta os grandes vazios da alma”, ou então, quando Ivo Pitanguy pára momentaneamente a entrevista para “atender ao telefone de Roma e outro daqui, que lhe provocou gargalhadas: estas são de um homem sadio e eu quase ri sem saber de quê.”

Além disso, as entrevistas de Clarice Lispector também apresentam-se carregadas de signos em que se transporta o verossímil ao universo imaginativo, como quando Clarice Lispector divagou a respeito do nome Bibi Ferreira, na entrevista realizada dia 8 de fevereiro

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Mas é claro, pensei, como é que não tinha me ocorrido antes? Bibi é substantivo, é adjetivo, é tudo menos nome próprio. Com minha descoberta fiquei tão contente, que esqueci de perguntar-lhe o nome próprio. Bibi se escreve com letra minúscula. Por exemplo: “Fulana estava hoje um amor de bibi, mas bibi mesmo é mulher de delegado.” “Sicrana estava tão antipática que perdeu sua única oportunidade de ser bibi.” “Aquelas rosas fazem o bibi encantatório de meu dia de hoje.” E é interminável a aplicação dêsse12 nome cuja dona o tornou uma palavra perfeita para mim” (LISPECTOR, C. Discursos Possíveis com Clarice Lispector.

Revista Manchete, Rio de Janeiro, ano 16, n. 877, p.40-41, 08 fev. 1969)

Bibi transforma-se então em “um amor de bibi”, ou em “bibi encantatório”, ou até mesmo “em tudo menos nome próprio”, tornando o impossível plausível, o que, para Aristóteles, na poética, é “preferível a um possível que não convença”.(Poética, XXIV)

Clarice realiza um total de 59 entrevistas para a Manchete. Segundo consta, os entrevistados, que variam desde músicos e escritores até arquitetos, artistas plásticos e políticos, são, em sua maioria amigos da escritora, o que reafirma o grau de intimidade com o entrevistado presenciado na entrevista com Tasso de Oliveira.

Um dado curioso, bem observado por Aparecida Nunes, revela que os entrevistados eram atendidos na casa de Clarice Lispector, ou, caso não fosse possível o encontro na residência da entrevistadora, era marcado um encontro em algum restaurante ou em outro local de comum acordo. A jornalista preparava algumas perguntas de antemão. Mas, conforme o grau de intimidade entre a escritora e os entrevistados, eles se ofereciam para responder as questões em casa ou, mesmo, estas eram respondidas por correspondência. Sua última entrevista para a Manchete ocorre no dia 25 de outubro de 1969 com o campeão de caça submarina Bruno Hermani. Em 1973, Clarice tem sua atividade jornalística interrompida ao ser demitida do Jornal do Brasil. No ano seguinte publica A via crucis do corpo,um livro com 13 histórias feitas sob encomenda, Onde estivestes de noite, uma coletânea de contos inéditos acrescidos de outros publicados para o Jornal do Brasil e trechos de seu romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, além da publicação infantil Vida íntima de Laura.

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Após a demissão do Jornal do Brasil, Clarice passa a traduzir com mais freqüência, chegando a traduzir até três livros por ano. Em 1975, são publicados dois livros que reúnem trabalhos seus realizados para a imprensa. Visão do Esplendor, coletânea de crônicas publicadas na revista Senhor e no Jornal do Brasil, e De Corpo Inteiro, uma seleção das entrevistas feitas para a Manchete.13

Em 1976, enquanto escreve o romance A hora da estrela, volta a trabalhar nas Empresas Bloch, desta vez, para a revista Fatos e Fotos/Gente. Nesta, ela realiza entrevistas nos moldes das feitas para Diálogos possíveis com Clarice Lispector.Além disso, passa a escrever crônicas semanais para o Jornal Última Hora,em fevereiro de 1977.

É para Fatos e Fotos/Gente que Clarice entrevista com exclusividade, segundo informa Nunes, o primeiro-ministro de Portugal, Mário Soares, quando vem ao Brasil, em janeiro de 1977. Conforme pontua, a escritora preparou suas perguntas, como de costume. Ao se comparar as anotações de Clarice com o que foi publicado, nota-se praticamente não houve alterações.

Importante ressaltar que a escritora já estava na fase final de sua vida, o que é evidenciado em sua primeira entrevista com Elke Maravilha, em dezembro de 1976, nas perguntas: “Você já pensou na morte?” e “Você tem medo de envelhecer?”

Fora isso, as perguntas se assemelham e muito das formuladas para a Manchete. Há algumas, inclusive, que foram reaproveitadas com algumas modificações, como as feitas com Hélio Pellegrini e Iberê Camargo, publicadas respectivamente nos dias 14 de fevereiro e 18 de abril de 1977.

As semelhanças e diferenças entre as entrevistas realizadas para as duas revistas serão aprofundadas nos capítulos a seguir. Vale ressaltar aqui a importância destes textos enquanto registro de uma faceta diferente da entrevistadora e do entrevistado, em uma linguagem particularmente clariciana.

Diante desta intensa produção para as revistas das Empresas Bloch, Nunes exalta:

gramática.

13 Informações obtidas do livro

Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector, de Teresa Cristina Monteiro

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[...] tais textos registram particularidades dessas personagens entrevistadas, que, um outro repórter, talvez, não conseguisse fazer com que viessem à tona. Essas informações só poderiam ser captadas pela sensibilidade de escritora, preocupada com reflexões mais profundas. Não sendo jamais, linear. (NUNES, 1991, p. 245)

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CAPÍTULO II — NA MANCHETE, DIÁLOGOS COM CLARICE LISPECTOR

2

-

1 ACONTECEU, VIROU MANCHETE

“O importante não é ser, ter ou parecer. O importante é construir desenvolver.” (Adolpho Bloch)

É muito difícil debruçar-se sobre a história da revista Manchete sem antes conhecer a história de Adolpho Bloch, dono da empresa. Sua família chegou ao Brasil em 1922, ano em que o país, presidido por Epitácio Pessoa, comemorava o Primeiro Centenário da Independência.

Formada por gráficos e editores russos, a família Bloch instalou sua primeira gráfica na rua Vieira Fazenda, 24, no Rio de Janeiro, com “duas máquinas impressoras movidas a manivela”14. Os negócios melhoraram, o que os levou a construir um prédio na Rua Frei Caneca, 511, a comprar uma rotativa off-set, e a montar uma editora, conforme lembra Bloch:.

Cansado da lupa, cansado de ser apenas impressor para os outros, eu tinha a vontade de ser editor. Julgava que conhecia todos os segredos de uma empresa jornalística. Conhecia bem o meu trabalho, desde a fabricação do papel até seu uso e impressão.15

A Manchete começou a circular no dia 26 de abril de 1952, um ano depois de Adolpho Bloch ter apresentado o projeto de criação de uma revista a Henrique Pongetti e Raimundo Magalhães Júnior, amigos intelectuais, e a Pedro Bloch, seu primo. Não obstante o temor de seus amigos, Bloch acreditava na revista, enquanto concorrente da O Cruzeiro.

14 BLOCH, Adolph,

Duas Mil Semanas de Manchete. Manchete –edição histórica, agosto de 1990, p. XII

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O Cruzeiro estava no auge. A sua tiragem chegava aos 750 mil exemplares e se esgotava nas bancas [...] Conhecia a tenacidade de seu chefe Assis Chateaubriand. O esquema estava todo no meu computador. E assim comecei a minha nova vida. Imprimíamos revistas infantis para a Editora Brasil-América e para a Rio Gráfica. Com os recursos ganhos e aproveitando os dois dias por semana que me sobravam (sábado e domingo), realizei meu sonho em concreto.16

Interessante o conteúdo do editorial da Manchete nº 1, que inicia-se com uma espécie de justificativa sobre a escolha do título da revista, uma palavra estrangeira, mais especificamente uma palavra francesa, com a terminação ette. Conforme o texto, a revista não somente decidiu incorporar a palavra manchette à língua portuguesa como também resolveu “dispensá-la de carregar um t redundante que a fonética eliminou”17, a fim de que tal palavra, agora com um só t, passe a ser sinônimo de primeiro plano, de grito gráfico, de valorização visual dos assuntos pela escolha do tamanho e da família dos tipos, o que já denuncia o apelo visual de que a revista iria lançar mão em seus anos de vida.

O investimento inicial foi pequeno e o custo de produção, baixo, uma vez que as máquinas da tipografia da família, ociosas três dias na semana, podiam imprimir edições semanais da Manchete de 200 mil exemplares. Entretanto, a revista custava o mesmo preço da principal concorrente o que ocasionou grande lucratividade para a empresa, que em poucos anos, adquiriu máquinas para imprimir 800 mil exemplares semanais e um terreno no subúrbio de Parada de Lucas, onde se construiu o parque gráfico. Além disso, em 1956, a política editorial da revista foi reformulada. A paginação foi modificada e o texto atualizado de modo a transmitir ao leitor elementos acessíveis à compreensão dos acontecimentos18.

16 Idem, ibdem 17

Um momento leitor.Manchete- edição histórica, agosto de 1990, p. 10.

18 ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de and CARDOSO, José Leandro Rocha. Aconteceu, virou manchete

.Rev. bras. Hist.

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A equipe de redação também foi reforçada, e passou a ser composta por importantes intelectuais da época como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Joel Silveira, Orígenes Lessa, Raimundo Magalhães Júnior, Guilherme Figueiredo, Otto Maria Carpeaux, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Antônio Maria, Nelson Rodrigues, Marques Rebello, Paulo Mendes Campos, Lygia Fagundes Telles, Antônio Callado, Sérgio Porto, Ciro dos Anjos, Olegário Mariano, Jânio de Freitas e muitos outros. Jean Manzon, que trabalhou para a Paris Match e O Cruzeiro, foi o principal fotógrafo. Ao seu lado, estiveram Darwin Brandão, Gil Pinheiro, Gervásio Baptista, Fúlvio Roiter, Jader Neves etc.

O apogeu da Manchete foi concomitante com o declínio de O Cruzeiro e com a transferência de dezessete jornalistas deste periódico para a Manchete, em 1958, por divergirem da postura ética do proprietário. Politicamente, a revista se identificava com a corrente desenvolvimentista antiliberal e industrializante do pensamento econômico. Adolpho Bloch simpatizava com as idéias políticas do governo Juscelino Kubitschek, desde a campanha eleitoral.

2 - 2 CLARICE LISPECTOR NA MANCHETE

“As entrevistas são interessantes. Todas as pessoas têm sempre alguma coisa de bom para contar, das mais catedráticas às mais fúteis [...]” (Clarice Lispector)

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Os anos de 1968 e 1969 foram marcados importantes, alguns tristes, acontecimentos no Brasil e no mundo. No dia 6 de julho de 1968, o senador Robert Kennedy, irmão de John Kennedy — assassinado anos antes —, foi morto a tiros no hall do Hotel Ambassador, em Los Angeles, quando se preparava para comemorar a vitória nas eleições primárias da Califórnia. Nesse ano, também, Nixon toma posse de seu primeiro mandato presidencial dos Estados Unidos.

A Europa contribuiu com a Primavera de Praga, quando tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia Em Paris, outra primavera violenta, com a rebelião estudantil.

Houve violência também no México, onde, dias antes de começar as Olimpíadas, centenas de estudantes foram literalmente bombardeados com bazucas do exército, durante rebelião no campus da Universidade Federal.

No Brasil, dia 13 de dezembro, foi decretado o Ato Institucional nº 5, que instituiu a censura, e resultou em cassações, perseguições, prisões e torturas. O país também perdeu com a morte de duas grandes personalidades: os jornalistas Sérgio Porto (Stanislau Ponte Preta) e Assis Chateaubriand. Ainda em 1968, Brasil recebeu a visita da Rainha Elizabeth II.

O ano foi igualmente relevante para a revista Manchete. Em novembro de 1968, as redações da revista foram transferidas da rua Frei Caneca para a Rua de Russel, em um edifício idealizado por Bloch, projetado por Niemeyer e construído pelo departamento de engenharia da empresa.

O ano de 1969 significou novas mudanças para o mundo. O homem chegou à Lua. Devido à doença do marechal Costa e Silva, Brasil passou a ser comandado pela junta militar integrada pelo Almirante Augusto Rademaker, General Lira Taveres e Brigadeiro Márcio de Souza e Melo, no período entre 30 de agosto e 30 de outubro.

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No que concerne a sua produção literária, em 1968 é publicado seu segundo livro infantil: A mulher que matou os peixes, e, em 1969, é publicada a obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, livro que, segundo a própria autora, foi trabalhado por durante nove dias. Vale lembrar que, nessa época, Clarice já havia se divorciado e sofrido um acidente19 que a deixara gravemente ferida, principalmente na mão direita, a que usava para escrever.

Voltando às entrevistas, iremos, primeiramente, estudar o texto de apresentação dos entrevistados, recorrente em quase todas as entrevistas, para, posteriormente, analisarmos o diálogo propriamente dito, a fim de reconhecermos a autenticidade da Clarice Lispector ficcionista nestas produções jornalísticas, ou, melhor, das várias Clarices de todos os tempos, nas palavras de Gotlib.

2 - 3 TEXTOS INTRODUTÓRIOS

“Não vou apresentar Millôr: quem o conhece sabe que eu teria que escrever várias páginas para apresentar uma figura tão variada em atividades e talento” . (Clarice Lispector - Diálogos Possíveis com Clarice Lispector)

Quase todas as entrevistas realizadas por Clarice Lispector são iniciadas com uma pequena introdução sobre o entrevistado e sobre a própria entrevista a ser realizada. Tais textos introdutórios merecem um olhar mais apurado pois, malgrado sejam, na maioria das vezes, breves e sucintos, além de anteciparem o entrevistado e, em alguns casos, a maneira como a entrevista foi realizada, também contêm alguns elementos essenciais para análise dos discursos claricianos nessa produção jornalística específica, uma vez que denotam, em vários momentos, uma linguagem experimental, como se Clarice fizesse de seu trabalho na imprensa uma espécie de laboratório para suas futuras produções literárias. Vamos a eles.

19 Na madrugada do dia 14 de setembro de 1967, Clarice adormecera fumando, e, acordou sob um incêndio em seu

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O primeiro texto introdutório relevante para nosso estudo discorre a respeito de Djanira20 em entrevista realizada dia 25 de maio de 1968:

Como não amar Djanira, mesmo sem conhecê-la pessoalmente? Eu já amava seu trabalho, e quanto — e quanto. Mas quando se abriu a porta e eu a vi — parei e disse:

— Espere um pouco, quero ver você.

E vi — eu vi mesmo — que ela ia ser minha amiga. Ela tem qualquer coisa nos olhos que dá a idéia de que o mistério é simples. Não estranhou o fato de eu ficar olhando para ela, até eu dizer:

— Pronto, agora já conheço você e posso entrar.

Djanira tem a bondade no sorriso e no rosto, mas não uma bondade morna. Nem é uma bondade agressiva. Djanira tem em si o que ela dá no seu trabalho. É pouco isso. Nunca, isso é tudo. Isso é a veracidade do ser humano dignificado pela simplicidade profunda que existe em trabalhar.

Sentamo-nos, eu sem tirar os olhos do rosto dela, ela me examinando com bondade, sem me estranhar nem um pouco.

Não se deve escrever Djanira e sim DJANIRA.

Nota-se no trecho em destaque, que Clarice já lança mão de elementos do diálogo para a descrição da entrevistada. Os discursos diretos são anunciados pelos verbos dicendi e assinalados pelos indicadores grafêmicos dois pontos e travessão. No entanto, distanciam-se da forma convencional, pois mesclam-distanciam-se com o monólogo interior da entrevistadora, como se as falas fossem artifícios para corroborar o pensamento da entrevistadora.

20 Djanira da Motta e Silva, mais conhecida no meio artísticos simplesmente como Djanira, nasceu na cidade de Avaré,

Referências

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