Antônio Miranda .. A REALIDADE DA PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL
A Duquesa de Windsor, sabidamente, gostava de "naturezas mortas", de arranjos florais (chamados ..
bode-17
o
pintor Cândido Portinari, no final da década de 40, fez uma exposição de seus quadros em Londres e uma das visitantes dessa exposição foi a duquesa de Windsor, que tinha uma expectativa com relação a exposição de um ar-tista vindo dos trópicos. Ela esperava encontrar araras e tucanos, em paisagens paradisíacas e índios; algo que lhe desse um pouco daquele mundo p'erdido, ou aquele mundo sonhado pelos europeus mas, ao contrário, ela se depara com a dura realidade dos quadros dos retirantes, com aquelas imagens um tanto cubistas (à la Picasso) em que Portinari revela toda a desgraça e a miséria do êxo-do e êxo-do problema rural brasileiro. A duquesa perguntou ao Cândido Portinari por que ele trazia uma visão tão tris-te, tão degradante de seu próprio país ao exterior. Ele respondeu que a realidade pode ser vista de várias manei-r?s e era daquela que ele via o nosso país, e ele queria denunciá-lo daquela forma.A realidade da pós-graduação também pode ser vista de várias maneiras.
* Professor do Departamento de Biblioteconomia da UnE
Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
gones", muito ao gosto da classe média e, principalmente, da classe alta, que era o caso dela), para decorar as pare-des, sem nenhum apelo crítico ou evocativo de problemas sociais.
A pós-graduação pode ser apresentada também co-mo uma "natureza co-morta" ou coco-mo um raco-mo de flores e, de alguma maneira, ela foi-nos vendida desta forma du-rante todos estes anos.
A pós-graduação é um fenômeno novo em nossa so-ciedade. Lógico que, se se for traçar a história da univer-sidade brasileira, de origem muito recente, alguns cursos aparecerão como pioneiros. Quando houve a proliferação dos cursos de pós-graduação nos anos 70, o país já con-tava, aproximadamente, com 80 deles dentro da velha es-trutura da universidade brasileira. Mas. na década de 70, essa proliferação foi tão espantosa que atingiu a cifra de aproximadamente 1.000 cursos. Hoje serão quase 1.100. Tudo isso no transcurso de 10 anos. E, lógico, ninguém cresce nessa proporção sem problemas muito sérios de infra-estrutura, de nível docente, de objetivação, etc, e os cursos da área de biblioteconomia não poderiam escapar dessa problemática. Eu estou dando uma de Carlos Heitor Cony que, no início da "revolução" de 64, assinou uma co-luna famosa, depois caçada e censurada pelo Governo, que se chamava "A arte de falar mal". Eu vou fazer um pouco desse exercício de crítica. O Briquet começou isso pela manhã de uma maneira muito brilhante. Não preten-do ser mais brilhante de que ele. Provavelmente, nem conseguiria, mas a minha linha de raciocínio é a mesma. Não creio que sejamos, Briquet e eu, nem mais nem me-nos pessimistas. Nós somos aquilo que se chama de rea-listas convictos. ou se preferirem uma forma um pouco mais filosófica, "pessimistas ativos" porquanto existem os pessimistas passivos, os derrotistas, os conformistas.
19 Cad. Bibliotecon., Recife (10): 17-36, dez. 1988
Curiosamente, enquanto se falava, no discurso, que a reforma universitária pretendia ser ecumênica, eclé-tíca, interdisciplinar e sistêmica. de superação de com-partimentos estanques, a pós-graduação teve um cunho eminentemente na escola e na faculdade, até mesmo no curso. Ela era, em função de sua origem, muito mais à antiga do que de acordo com a nova proposta de univer-sidade brasileira. Ela se sedimentou a nível de curso, e até à revelia e contra o próprio modelo universitário; foi uma espécie de trincheira das velhas faculdades. Os cha-mados "lentes" de determinadas elites, mancomunados com o governo central através de suas agências de fo-mento ao desenvolvifo-mento da pós-graduação, encontraram um terreno para se manter dentro dessas instituições iso-ladas (é justo reconhecer que órgãos como a CAPES e o CNPq propiciaram o surgimento das pró-reitorias de pes-quisa e pós-graduação mas é também justo registrar que a pós-graduação esteve sempre ligada aos cursos, com tramitação direta com o governo central e quase nenhuma vinculação com a própria universidade). Lógico, existem exceções extraordinárias. pessoas bem intencionadas, etc. Mas, via de regra, o governo se serviu dessa experiência
De fato, a pós-graduação foi instaurada na univer-sidade. no momento da chamada Reforma Universitária, a qual. analisada de uma perspectiva histórica, foi em ver-dade uma contra-reforma universitária. Quando irrompeu o movimento militar de 1964 já se discutia, no seio da so-ciedade brasileira. de suas elites intelectuais e acadêmi-cas, um projeto de universidade para o Brasil e esse jeto foi abortado. Em lugar dele se colocou um novo pro-jeto, dando espaço, logicamente, aos int8resses e às es-tratégias de um novo regime que se instaurava no nossO país. Então. com a Reforma Universitária se instaurou um tipo de universidade que servia ao regime triunfante. E a pós-graduação estava dentro dessa mesma estratégia.
~~-~._-Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 198818
I
I
I I
I
I
I I
Esses cursos de pós-graduação não se basearam nos recursos do setor privado, na busca de um entrosa-mento com a indústria ou com as chamadas atividades
Ii-para ter os seus interlocutores dentro das instituições de ensino. A autonomia universitária não era respeitada. Os coordenadores dos cursos e os pró-reitores da pós-gra-duação eram uma espécie de pró-cônsules ou embaixado-res do governo, tinham às vezes tanto poder ou até mais poder que os próprios reitores. Eu me lembro, nessa mes-ma universidade em que estou agora nesse momento, na época em que fiz visitas na condição de assessor do Mi-nistério da Educação, o reitor me colocar o que ele cha-mava de "fenômeno das duas universidades". Aquela que era a dele, como reitor de uma comunidade e, aquela ou-tra, dos chamados embaixadores do governo central, que tinham mais autoridade do que ele próprio.A pós-graduação se formou, também, muito em re-lação a estas fontes externas nacionais e internacionais.
Houve uma busca de know-how estrangeiro, de as-sessores estrangeiros, de experiências estrangeiras in-clusive com o apelativo de mandar os nossos quadros ao exterior, que era a única saída para apressar a chamada necessidade de queimar etapas e de formar uma elite den-tro da universidade. Não havendo condições no país pa-ra isso, se apelou papa-ra o exterior. Era um mal necessá-rio mas que trouxe, lógico, também, a sua seqüela e as suas dificuldades, que estamos ainda tentando superar. Era aquela figura que se chamou, na época, de forma de-preciativa, como um OVNI, ou objeto voador não identifi-cado. Aquele professor que não estava bem informado (ou deformado), que levava muito tempo para sentar-se na realidade sobre a qual ele tinha que elaborar um plano de trabalho realmente sério, para desenvolver uma atividade diferente.
UfPR. BC!SA
BIBLIOTECA 21
Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
berais. Eles foram buscar "status". Muitos deles, inclu-sive, pretensamente de esquerda, mas muito desejosos de colaborar com o Estado, queriam uma postura "indepen-dente" mas com os recursos do Estado. Era ou é uma po-sição utópica que na prática se sabe que tem as suas res-trições e as suas limitações.
Foram muito poucas as experiências da pós-gra-duação no Brasil e a biblioteconomia não escapa a esta re-gra, de uma vinculação estreita com o setor privado, com o setor produtivo do país. Eu estou falando, principal-mente, da chamada pós-graduação "stricto-sensu". Não haveria tempo de entrar na de "Iato-sensu" e dos cursos de reciclagem, aperfeiçoamento, especialização, etc ... Essa pós-graduação dependeu muito, e ainda depende, embora que em escala bem menor, de um professorado estrangeiro, e através desses programas nós tivemos al-gumas aportações, alguma ajuda em termos humanos va-liosos, mas recebemos, também, o refugo de elementos, até perniciosos, que foram rejeitados nas nossas escolas. Na época, em que eu era assessor do MEC, me chegaram aos ouvidos problemas de professores que nos vieram re-comendados do Exterior pelas agências governamentais estrangeiras, mas que tivemos que devolver pois não cor-responderam às nossas expectativas. Eles não eram me-lhores nem piores que os nossos, mas nós tínhamos a ex-pectativa de que os que viessem de fora, fossem necessa-riamente melhores do que os que estavam aqui dentro, mas nem sempre foi assim. Não falo dos que vieram em caráter definitivo. Falo daqueles que vieram em caráter temporário, que vieram em plano de férias, que vieram num plano de turismo pessoal. Não daqueles que toma-ram o Brasil como sua pátria de residência.
Houve uma grande ênfase na forma e não no con-teúdo dos programas, nós ficamos muito na imitação dos
~. Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
modelos e da estrutura de outros cursos que, aparente-mente, deram certo lá fora; mais nos rótulos do que no conteúdo daqueles cursos. Era mais uma preocupação com o processo, com o método e nem sempre com o con-teúdo propriamente substantivo dos programas. Os coor-denadores, muitos deles inclusive estrangeiros (até na bi-blioteconomia isso aconteceu num determinado período), nunca foram preliminarmente hierarquizados dentro da própria estrutura da universidade. A pós-graduação ficou um tanto quanto clandestina na própria universidade bra-sileira, e era intenção do governo que fosse dessa manei-ra. Havia um conflito de autoridade com as próprias che-fias dos departamentos, porque, e é lógico, quem tem o recurso e tem o apoio externo, não vê com muito interes-se a hierarquia interna. O chefe do departamento bainteres-sea- basea-va suas forças na infra-estrutura interna enquanto que o coordenador da pós-graduação em recursos externos e ha-via sempre essa dicotomia entre a pós-graduação e a gra-duação. Duas coisas que foram criadas para se comple-mentarem e, na verdade, se competiam. Há casos, inclu-sive, de aberrações em que o professor da pós-graduação julgava-se desmerecedor da sua função de dar aula, tam-bém, na graduação. Achava que isso era um rebaixamen-to de .. status" . Havia um "status" especial para aquele que estava na pós-graduação e isso se via, inclusive, na própria diferença salarial. Muitos professores da pós-graduação entravam com recursos, mediante convênios, para melhorar a sua remuneração pessoal, enquanto que ficavam os demais professores marginalizados do proces-so. E, ter ou não ter a pós-graduação, era uma questão de sobrevivência para as escolas, não só as de bibliote-conomia, como para todas. Aquelas universidades que não tivessem vocação para a pós-graduação na década de 70 eram instituições, a médio e longo prazos, fadadas ao insucesso e à miséria. Então, havia uma busca desespe-rada de criar cursos de pós-graduação para poder fazer jús
Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
23
a estas ajudas externas, esses programas internacionais, a essas infra-estruturas e mordomias que a pós-graduação causava e oferecia. Mas não era uma infra-estrutura de-finitiva, nem era uma infra-estrutura completa, era uma intra-estrutura formal que dependia de programa de curta duração e sem nenhuma garantia de continuidade. Sem apoio fixo, dependente de recursoS externos ou direta-mente do governo. Dependendo do CNPq, da CAPES, da FAPESP e de outros programas de financiamento.Eu não vou ter tempo de falar de todos os tópicos em detalhe, até porque nós vamos ter bastante tempo pa-ra discussões desse tipo. Por exemplo, uma área que va-leria a pena estudar é a questão dos programas, dos con-teúdos desses cursoS, para ver até que ponto eles foram cópias de programas estrangeiros, até que ponto eles fo-ram muito fiéis àquela assessoria externa, sem uma devi-da aclimatação e nem sempre relacionadevi-da com a vocação institucional. Eu me lembro de um caso bastante especí-fico de uma discussão que tive com o professor linaldo Cavalcanti de Albuquerque, quando ele era ainda reitor da UFPb. Ele disse: nós temos que negar as leis da Física, as leis da Natureza. Se nós formos esperar que o Nordes-te Nordes-tenha a intra-estrutura, o meio ambienNordes-te e todas as con-dições ambientais para ter um curso de pós-graduação, nós não o teremos nunca. Então, eu tenho que pri mei1'0 criar o curso para depois inventar as condições. E era mais ou menos nesta pouca louquice que se fizeram mui-tos dos cursoS de pós-graduação, neste país. Primeiro a gente faz; depois, vamos ver se ele é viável. Porque do contrário é mais inviável ainda, porque você não pode atrair recursos para levá-lo avante através de um proces-so gradual.
Eu vou deixar de lado alguns tópicos. Vou falar ra-pidamente sobre a questão salarial (questão muito do
mo-Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
.
_~r
~._~
22
I
.__..-.'.2...
~_
_.
No tocante ao salário, o achatamento salarial trou-xe para toda a sociedade um problema muito sério, mas, em particular, para os cursos de pós-graduação, porque em determinado momento desapareceram as esperanças de uma remuneração mais elevada para atrair as melho-res inteligências do país. Nutrimos durante os anos 70, e até o início dos anos 80, a esperança de que a pós-gradua-ção podia constituir-se numa verdadeira elite, uma" massa crítica", uma massa pensante com efeitos reprodutivos, multiplicadores no país.
l
25
ll'
Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
Se a gente aceitar a colocação da Cléa Dubeux de que a reforma tem que ser feita fundamentalmente atra-vés das pessoas, então o professor é ainda o instrumento, a alavanca de mudanças, dentro do processo educacional brasileiro. Não creio que isso mude muito radicalmente. A medida que você tenha menos condições de atrair e manter pessoal de alto nível nos cursos de pós-graduação, os cursos não vão ter condições de sobrevivência real. Os professores contratados precisam ter algum tempo de tra-balho externo, atualmente, para completar o seu orçamen-to pessoal. Mesmo os de dedicação exclusiva dão con-sultoria, projetos, têm 2 ou 3 empregos, em detrimento da qualidade de seu trabalho como docente, de seu aper-feiçoamento pessoal e até de sua saúde e de sua segu-rança. Vocês podem verificar a indisponibilidade dos pro-fessores de pós-graduação para o seu trabalho docente, na própria instituição em que eles estão sediados. Eles têm muito mais vínculos externos para reforçar o seu cai-xa e resistem a mais e mais compromissos com a sua
Isso vem acontecendo no sentido decrescente des-sa realidade. Hoje se exige o máximo nível possível de titulação para o professor do curso de pós-graduação. Ele deve ser, no mínimo, doutor e sob suspeita ou desconfian-ça, um mestre (mas este último é sempre mal visto den-tro da estrutura da pós-graduação, haja visto o problema da UnS, onde os que ainda não concluiram o doutorado não têm o privilégio de orientar uma tese de mestrado). Ao exigir-se o máximo nível acadêmico, se lhe paga o mí-nimo possível. Hoje, é extremamente difícil, para qual-quer curso que pretenda ser sério e ter uma sobrevivência a médio e longo prazos, manter os seus melhores qua-dros, porque não há como pagá-los efetivamente. Resulta quase impossível recrutar professores para os cursos, porque o candidato pode ganhar mais fora do que no âm-bito acadêmico.
Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988 mento que nós estamos vivendo), a questão dos candida-tos dos nossos mestrados e por último, a questão da pes-quisa (de passagem, pois a professora Neusa Dias de Ma-cedo vai falar mais especificamente sobre isso).
No quadro atual, a pós-graduação está vivendo uma crise de difícil solução. Porque ela não pode acompanhar as suas próprias pretensões, já que não existem no mo-mento condições para que se mantenha o nível alcançado na década de 70. Então, à medida em que os recursos co-meçam a escassear, o governo começou a criar limita-ções. Primeiro, para impedir que surgissem novos cur-sos, para tentar desestabilizar ou descontinuar cursos considerados incipientes, incapacitados ou sem uma in-fra-estrutura mínima para o seu funcionamento. É lógico que existem aqueles problemas estruturais da universida-de; dela não ter autonomia e condições préprias para man-ter esses cursos de pós-graduação. Então, como os cursos de pós-graduação dependiam fundamentalmente do gover-no central, desses programas extergover-nos, à medida que eles passaram a ser ainda mais escassos, a pós-graduação en-trou num período de crise ainda mais aguda, da qual nós ainda não demos perspectivas de sobrevivência coletiva, mas apenas de alguns destes cursos.
I
I
1"
1 Agora vamos falar um pouquinho dos candidatosneste processo. O número de candidatos, malgrado as eventuais diferenças regionais (aqui um pouco mais, ali um pouco menos, ou de um ano para o outro, pois há anos de pique e anos de recessão em termos de maior deman-da ou menor demandeman-da), ele tem sido, até um certo ponto, satisfatório. Eu fui Chefe do Departamento de Ensino e Pesquisa, do IBICT. Agora, estou chefiando, na UnB, e sinto que o panorama, em termos de número de candidato é mais ou menos satisfatório, o que vem permitindo até um razoável processo de seleção. Você pode excluir al-guns indivíduos efetivamente menos capacitados que ou-tros. É lógico, quanto maior o número, maior a possibili-dade de uma seleção mais criteriosa. Não existe uma definição clara quanto ao pérfil do candidato que nós es-peramos para esta seleção; nenhuma escola tem, até o presente, muito claro o tipo de profissional que vai formar
própria instituição. É lógico que os contatos externos, mesmo remunerados, favorecem a capacitação do profes-sor e dão chance de uma maior difusão de seus conheci-mentos para um público que não tem privilégio de um con-tato pessoal permanente desse nível, mas isso deve ser a exceção e não a regra na vida desse profissional. Lamen-tavelmente, começa a ser mais e mais a regra e não a exceção. Apenas entra na sala, não participa dos cole-giados, não discute uma proposta curricular, não participa de pesquisa e está proibido pela legislação de registrar pesquisas, pois a ênfase é para a docência. Se espera le apenas carga horária como professor; essa é uma de-formação que acontece na maioria das escolas. Se é di-fícil para o professor de dedicação exclusiva dedicar-se à
pesquisa, é quase impossível para o professor chamado de tempo parcial. Ele só vem para dar aula e só por ex-ceção ele faz alguma pesquisa ou entra em algum traba-lho de equipe com o seu colegiado.
e o tipo de aluno que vai atrair para essas escolas. Nós, do Departamento de Biblioteconomia da UnB, chegamos a fazer um estudo de mercado, tentando mapear e dimen-sionar e de certa maneira visibilizar esse tipo de profis-sional mas reconheço que não temos uma pol ítica nem um perfil estruturado, mas apenas intuitivo.
À primeira vista, o modelo de pós-graduação brasi-leira pareceria voltado para o candidato adulto, com o mínimo de 3 ou 5 anos de experiência de trabalho, inclu-sive de pesquisa. Já deve ter feito alguma pesquisa e muitos trabalhos publicados (que é, de certa maneira, aquele tradicional modelo alemão que, em princípio, ins-pirou o modelo norte-americano, e que ainda hoje inspira o modelo brasileiro). Mas o sistema americano, hoje, está noutra. Eles estão dando mais preferência às pes-soas muito jovens, muito talentosas, com um alto poten-ciai intelectual e que vão ter uma vida ativa mais longa na profissão. Estamos quebrando esse tabu, hoje, no Brasil. No nosso Departamento, o da UnB, nos últimos dois ou três semestres, começamos a aceitar ex-alunos que se graduaram há pouco tempo, sem muita experiên-cia profissional, e isso nos trouxe uma grande surpresa: eles tiveram um rendimento escolar tão bom e, às vezes melhor, que os alunos mais experientes.
De uma maneira discriminada, os ingleses têm a liberdade de ter cursos estritamente por pesquisa; de ter cursos parte por pesquisa e parte direcionados para a aula; e têm outros, inclusive, que nem exigem o trabalho final, porque o aluno não precisa disso realmente para sua fun-ção futura. E esta flexibilidade nós ainda não temos no nosso modelo de pós-graduação no Brasil. E acho que a
colocação do Briquet pela manhã, de que as escolas de graduação deveriam ter perfis regionais e formar de acordo com a natureza do seu próprio mercado, é válida também para a pós-graduação no Brasil, partindo para a
diferencia-Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988 27
íIIIIIIiIIi...
O mestrando deveria trabalhar em regime de dedi-cação exclusiva, mas, na realidade, a quase totalidade é enquanto a pessoa espera por um emprego definitivo. A pós-graduação dá para a pessoa uma perspectiva de uma alforia de buscar um cargo melhor remunerado no futuro e, lógico, como o curso do IBICT era do CNPq, o fato de ser uma bolsa do CNPq, criava a ilusão nestas pessoas futu-ras .. ex-bolsistas do CNPq" de virem a conseguir um em-prego no mercado profissional.
Temos ilustres desempregados em nosso país. A pós-graduação é um tipo de sub-emprego por um lado, e de recheio de currículo, por outro. As pessoas saem desesperadas em busca de um curso de pós-graduação não porque seja uma necessidade, uma questão de voca· ção, mas porque é um requisito formal, é uma obrigato-riedade do carreirismo, exclusivamente. Não importa o conteúdo, realmente; a pessoa é até cínica ao ponto de dizer que depois de recebido o título, ela vai seriamente tentar especializar-se em alguma coisa. Reconhece não existir um caráter de especialização na pós-graduação bra-sileira. Até hoje não estão bem definidas quais são as diferenças entre um curso de especialização e um curso de mestrado, no Brasil. Se você vai para áreas de ciências exatas, eles parecem ter um conceito de especialização e de mestrado, muito diferente da área de biblioteconomia. Isto nos leva à hipótese de que a pós-graduação na área de biblioteconomia e ciência da informação tem pouco a ver com a especialização, tem mas a ver com a reciclagem (assim a pós-graduação seria uma reciclagem de uma má graduação) mas também seria, em tese, para outros, uma abertura interdisciplinar para outras áreas além de nossa área substantiva, para a aquisição de métodos e teorias mais do que técnicas e procedimentos, o que mereceria
maiores reflexões.
29 Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36, dez. 1988
...
ção e a multiplicação de modelos, dentro da realidade de cada escola. A partir de sua própria proposta de perfil de profissional que elas quisessem lançar no mercado, o que na perspectiva atual não é totalmente impossível ensaiar, embora o modelo proposto pelo CFE deixa poucas perspectivas de experimentação. O nosso modelo é, como eu digo, muito rígido. Ele, em tese, sonha com aluno muito maduro e com muito mais experiência.
Outro problema é que as p'Ortas das nossas escolas estão, em tese, abertas aos chamados não-bibliotecários, mas os conselhos e as associações quase sempre são hostis aos mestres sem títulos de graduação na área. Então nós aceitamos estes elementos nas escolas mas nós não garantimos que a profissão esteja aberta para eles. O título de mestre, no Brasil, é um título acadêmico, não é um título profissional. O Briquet falou pela manhã da pos-sibilidade da próxima reforma universitária considerar também os títulos de pós-graduação como títulos profis-sionais, o que ainda não é verdade na atual situação de ensino, no Brasil.
Quando eu estava como chefe no DEP/IBICT, no Rio de Janeiro, em um determinado ano (em 1983), tivemos um pique fantástico. Nós tivemos aproximadamente 70 candidatos e o número de alunos não-bibliotecários era extraordinariamente maior que o número de bibliotecários e com Aldo Barreto, com a Hagar Espanha, e com a Maria de Nazaré Freitas Pereira, com o grupo da escola, decidi-mos fazer uma análise de perfil destes candidatos e des-cobrimos uma coisa muito curiosa: que muitos deles vinham atraídos, exclusivamente, pelas bolsas-de-estudos, porque eram desempregados de outras áreas. Isto de-monstra que a pós-graduação no Brasil, como em outros países em desenvolvimento (mas principalmente em países desenvolvidos), é uma maneira de um novo emprego,
mesmo de regime de dedicação parcial. O aluno entra no regime de dedicação exclusiva, mas, em seguida, ele se dedica apenas parcialmente, salvo exceções daqueles que vêm de outros estados. As bolsas cobrem o período de
aula e os alunos que atingem a etapa da chamada pesquisa para elaboração da sua dissertação, têm dificuldades muito sérias porque eles retornam aos seus trabalhos, onde nem sempre eles contam com o tempo e o incentivo para con-cluir a dissertação. A UnB, reconhecendo os problemas ou os interesses dos que não puderam concluir a disserta-ção, permite requerer um certificado de especialização (especialização que nós não sabemos, a rigor, se é uma especialização em generalidades profissionais e inter-disciplinares) .
Falarei agora rapidamente sobre a pesquisa. A pesquisa, no âmbito da pós-graduação, é um mito, quase uma figura de retórica, uma espécie de pano de boca de teatro italiano. É só pelo lado de fora. Não é do lado de dentro. Não apenas em biblioteconomia mas, na pós-graduação em geral. As linhas de concentração, em tese, viabilizam as grandes tendências investigativas dos cursos. São, quando muito, denominações ou rótulos burocráticos para constarem de relatórios de avaliações dos cursos.
Não há pesquisa institucional, porque a pesquisa não está institucionalizada. Nenhuma universidade parece estar interessada nela. Ao contrário, obstaculiza-se. Via de regra, isso é a realidade na universidade brasileira e a coisa
vem de longe, dos tempos da implantação da Reforma
Universitária, que colocou o funcionamento da chamada pesquisa fora da competência do domínio da universidade. Para vocês terem uma idéia, a UnB neste momento está
tentando criar um grupo de pesquisa na universidade e vai
redescobrir a pesquisa interdisciplinar. A pesquisa que existe, quando existe, está, ainda, quase sempre dentro de cursos, com muita dificuldade de trabalhar com outr.os
de-31 ,.t:»tecon., Recife (10): 17-36, dez. 1988
"amentos, ainda dentro da velha estrut\Jra da universi-'de antes da "reforma".
As chamadas pró-reitorias de pesquisa e
pós-gra-, lçãO surgiram da necessidade de oficializar a p'esquisa
J;ittpós-graduação na universidade, porque sempre foram ""-'ades desenvolvidas sem a influência da universidade,
'JCX)ntra os interesses da universidade e desligada dos iVos da universidade, e até contra a vontade dela.
I~iversidades, em geral, nunca tiveram, pelo menos nos
.s 20 anos de sua curta história, autonomia
univer-.ta;
inclusive para decidir sobre aspectos deste tipo.tado controlou a pesquisa e a pós-graduação através
US órgãos centr-ais do Governo Federal e das
Secre-dos EstaSecre-dos mais ricos. É possível até reconhecer autoridades tenham sido liberais e até mesmo bem '.. ionadas, mas o Governo mesmo não. Eu não
acre-"8
sinceridade dos governos, nem nesse nem noan-, '
'e o Ministério da Educação é um exemplo maravilho-. Toda vez que há um governo muito conservador,
'1 um Ministro de educação de esquerda. Quando
governo de Figueiredo, você teve o Portella ... o que
mas não era" ministro. Agora encontramos um
conservador porque o governo pretende ser de
, É muito estranho. Essa é a trajetória dos cha-oonflitos de identidade da nossa universidade, do Ministério da Educação. O CNPq, a CAPES, a lsempre foram democráticos, sempre tiveram
con-om pessoas vindas das instituições, talvez porque
o sabia que aquilo era uma encenação, não era
'~vada muito a sério. Em um dos estudos feitos
(para analisar a contribuição da COPPE, que esta-làósetor produti,vo nacional, à indústria, chegou-se
"são que durante os 10 anos de pesquisa naquela
e nada foi transportado para a realidade do mer-ilo era o .. real maravilhoso" do escritor Gabriel
32
I I I I
I
I
Garcia Marques. Era a viagem de Erêndira pelo deserto da Guajira.
o
setor de pesquisa sempre serviu para premiar, para manter uma elite entretida com alguns recursos, sem a garantia de que seus resultados de pesquisa seriam ne-cessariamente levados a sério ou utilizados. O professor Rattner fala que é um biombo que o governo utiliza para manter as elites acadêmicas entretidas e premiadas com viagens ao exterior, prêmios, títulos, etc., enquanto o go-verno faz outra coisa. Alguns órgãos de financiamento nem sempre guardam os relatórios das pesquisas, nem sempre os avaliam e o controle é burocrático e não qua-litativo. Por exemplo, muitos dos relatórios das pesquisas do DNEPEA, que foram produtos de acordos bilaterais, de-sapareceram da noite para o dia quando foi criada a EMSRAPA, em 1973, e nunca se sentiu falta daquilo, nun-ca se sentiu falta daquele material.Lógico, não há pesquisa fora da universidade. Também, se não dentro da universidade, nas faculdades privadas, muito menos. As exceções são frutos de teimo-sia e da obstinação. Élógico constatar que não existe, nem existiram grandes projetos de pesquisa na área de biblio-teconomia e uma das razões que se alegava é que não haviam doutores. Então, quando você entrava com um projeto na FAFESP, era rejeitado porque precisava de um doutor à frente. Só agora você os tem para poder apre-sentar um projeto. Não valia a qualificação, trajetória, experiência prévia do grupo, o que valia era um doutor para assinar o pedido de financiamento; e não existe pesquisa sem equipe e, lógico, não existem essas equipes de pes-quisa porque elas não estão estruturadas na universidade e não existe pesquisa sem infra-estrutura de apoio (e a universidade nunca cogitou de mantê-Ia). O pesquisador existe como um verbalizador na sala de aula; ele está sob
Cad. Bibliotecon., Recife (10): 17-36, dez. 1988
~"~ : ,~,1.,'
~~
suspeita quando se dedica à pesquisa. Conseguir libera-ção para uma pesquisa, era uma tarefa, portanto, bastante difícil e para o professor de tempo parcial, mais ainda.
Outro problema muito sério é que os mestrandos, quando entram nos cursos de pós-graduação, não encon-trando uma estrutura de pesquisa, eles ficam atônitos e perdidos durante os dois ou três semestres que eles pas-sam nas escolas. As pesquisas elaboradas nas universi-dades brasileiras são pessoais, quase sempre são projetos individuais, quase sempre ligados a projetos externos de pós-graduação dos professores. Raram8nte as linhas de pesquisa do departamento representam os interesses ins-titucionais. Elas são inventadas a partir de pesquisas in-dividuais e transitórias, ou, no pior dos casos, são meras intenções. Não raro o professor que ministra a disciplina Metodologia da Pesquisa não
é
pesquisador, não tem ex-periência de pesquisa. Não-pesquisadores orientam os chamados futuros pesquisadores. E um dos objetivos da pós-graduação é formar pesquisadores, docentes e pessoal de alto nível. Mas para não dizer que não falei de f\:ores, já que a Duquesa de Windsor assim o desejava, nas minhas conclusões vamos ver se se salva alguma coisa. A pós-graduação em biblioteconomia no Brasil, de alguma ma-neira, formou uma elite, graças aos esforços do IBBD e dos novos cursos. Você, hoje, tem uma elite pensante que, de alguma maneira, viabiliza uma determinada esfera de poder dentro da biblioteconomia; e esse pessoal, junto com aqueles que não têm titulação mas têm experiência, está animando o cenário profissional brasileiro. Sem ele, provavelmente, não estaríamos na mesma situação em que estamos hoje, certamente estaríamos numa pior.Mesmo artificialmente, e precariamente, abriu-se um processo de investigação científica e uma perspectiva crít:ca. Trouxe um certo espírito de questionamento que
Cad. Bibliotecon., Recife (10) : 17-36 d, ez. 1988 33
Na proposição de exorcizar este processo, de des-mistificar os nossos nebulosos processos técnicos e avançarmos em novas técnicas de processamento eletrô-mo subprodutos, nas próprias revistas profissionais da área. No entanto, é bom lembrar que, na maioria dos ca-sos, tais obras ainda não se impuseram como literatura imprescindível na formação dos novos bibliotecários. O pessoal não leva a sério esta literatura e usa muito pouco, nem foram utilizados amplamente no campo prático das qibliotecas . O Briquet estava me colocando, alí no cor-redor, que na própria biblioteca do IBICT, apesar do esfor-ço e da seriedade de seus profissionais, não se apli-cam muitas das teorias que foram desenvolvidas dentro do próprio curso e da própria instituição. E isso, vale di-zer. também dentro das próprias escolas, onde as pessoas desenvolvem determinados estudos e cursos mas as pró-prias escolas não assimilam isto, porque parece que é para inglês ver, não é para brasileiro levar a sério.
35
Cad. Bibnotecon., Recife (10): 17-36, dez. 1988
A pós-graduação parece ter dado à biblioteconomia e à ciência da informação a chance de se mostrarem co-mo ciência pela primeira vez no Brasil; apenas se co- mostra-rem, pois ainda não conseguiram sedimentar um corpo teórico claro, próprio, plenamente reconhecível e autôno-mo. Suas ligações com a lingüistica, administração, a so-ciologia, a comunicação e a informática, cada vez mais peremptórias, vão exigir um exercício de delimitação de fronteiras ou de propriedades. de resultados, que são im-previsíveis para nós. Eu, sinceramente, quando me sento para discutir estas questões, não sei onde a gente começa e onde começa a área dos outros; da mesma maneira que nós queremos invadir e fazer os processos de apropria-ção destas áreas limítrofes, eles têm os mesmos direitos de avançar na nossa. Vamos ver quem é que tem mais cintura prá avançar n3 área do outro ...
-precisa ser aprofundado, como foi colocado aqui, e redi-mensionado através de Sua institucionalização, qUe acredi-tamos ter que acontecer em algum momento prá valer.
A pós-graduação instalou a pmblemática da inter-disciplinariedade na nossa profissão, que sempre esteve presente nas aspirações de bibliotecários, não de agora, mas de várias décadas, o que se pode constatar lendo o trabalho de Rubens Borba de Morais e do professor Edson Nery da Fonseca, e das grandes inteligências que pas-saram pela Biblioteconomia ou que ainda estão ativas. A idéia da interdisciplinariedade não é nova na nossa pro-fissão, mas agora começa a haver a Possibilidade de que realmente aconteça. Ainda é uma promessa. Não é uma realidade.
~---_
...
A Pós-graduação trouxe um certo .. status" à pro-fissão, nUma primeira fase, e poderá consolidá-Ia e a Con-tribuição social desta elite se justifica, plenamente, no
contexto político e cultural em que a profissão se desen-volve, na medida em que foram criados, nos anos 70, os grandes sistemas. Eles podem ter serviços que a socie-dade reconheça como úteis e imprescindíveis. É provável que nós venhamos a ter uma profissão mais séria e mais reconhecida pela própria sociedade, e a referiàa elite vem
dando sua contribuição para que isso aconteça. A pós-graduação parece ter beneficiado os cursos de pós-graduação embora muito pouco, ao favorecer a qualificação dos qua-dros docentes das escolas, ainda que, de forma às vezes artificial e burocrática. O título pelo título e não pelo mé-rito. Houve muitos problemas para se escolher quem
de-via e quem não podia fazer os cursos e todas essas coisas que a gente conhece e que não vale a pena chorar, aqui, diante do muro das lamentações. A Pós-graduação favo-receu o surgimento ou a ampliação de nossa literatura profissional, com novos títulos de livros e Com artigos
co-34 Cad. Bibliotecon., ReCife (10): 17-36, dez. 1988
I
,
I
I I
--~----EJIIIlS---nico de dados, se impõe Uma nova realidade para nós.
An-tes, a biblioteconomia era algo muito místico, muito
fe-chado, algo que era próprio de iniciados, próprio de um grupo cabalístico. Isto não é mais assim, isto mudou, nos leva a abandonar o "how to do" que sempre foi o nosso privilégio, garantido por lei, pelo "what is it", que ainda não dominamos e exige de nós uma capacitação para a
qual não estamos sendo capacitados. Vou terminar com
duas hipóteses, uma positiva e outra negativa. Vocês es-colham à sua maneira. Há uma hipótese positiva: a gente
consegue dominar os processos. Vamos desenvolver
técnicas novas, manter a exclusividade do exercício pro-fissional que a lei já nos garante e até sermos capazes de definir um campo teórico exclusivo, e sobreviver dentro dele nos próximos anos. Vamos pensar também numa
hi-pótese negativa: os profissionais de outras áreas
domi-nam o nosso "know-how" (e eles estão estudando isto,
trabalhando nesse sentido), conseguem resolver
proble-mas de informação ligados às suas áreas de conhecimen-to (e eles estão interessados em resolver estes proble-mas que nós não estamos resolvendo para eles), e nos restam, aos bibliotecários, apenas as bibliotecas conven-cionais e as rotinas técnicas, porque eles acham que sem-pre fomos contratados exatamente para fazer isso (que é, aliás, justo reconhecer, é mesmo o que a maioria dos bi-bliotecários continuam fazendo no seu dia-a-dia).
36
Cad. Bibliotecon., Recife (10): 17-36, dez. 1988