Mestranda em História do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora. Contato:

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Entre Representações e Requerimentos: O Poder Político Provincial de Minas Gerais e a construção dos cemitérios extramuros

PÂMELA CAMPOS FERREIRA

“Quanto é indecente revolver-se á terras muitas vezes fétidas dentro dos templos dedicados ao Culto Divino [...], [uma vez que] já se conhece os males que se originam do ar mefítico exalado nos Templos fechados em grande parte do dia e toda a noite e abertos ao ato de entrada das pessoas”. 1

“... é contra a decência que os Templos sejam depósitos de cadáveres, é repugnante entrar em uma Igreja para fazer oração ou cumprir outros deveres da nossa religião, e ter de sofrer os efeitos da podridão, ou de sair dali para não se expor á um contágio”.2

A cultura funerária que se desenvolveu na América Portuguesa, é tributária da tradição secular dos enterros intramuros, no entanto, com o alvorecer do século XIX, um lento processo de dessacralização da morte passa a vigorar, num contexto em que a criação dos cemitérios públicos3 extramuros (Lei de 1° de Outubro de 1828) entra para a pauta das discussões políticas em Instituições como o Conselho Geral de Província, Câmara Municipal, Assembleia Legislativa Provincial, entre outras Instituições.

A relação entre o indivíduo e a morte passou por significativas mudanças ao longo dos séculos. Um fator preponderante para alavancar essas transformações, foi o surgimento de um saber médico nas sociedades oitocentistas (MACHADO, 1978:180). De posse de um discurso higienista e normatizador, esses médicos engendraram alterações entre vivos e mortos.

Mestranda em História do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora. Contato: pamelacamposf@hotmail.com

1 Fala do Conselheiro Manuel Ignácio de Melo e Souza, em Sessão do Conselho no ano de 1830.

2 Fala do Presidente da Província de Minas Gerais, Francisco José de Souza Soares Andreia, no ano de 1844 na Assembleia Legislativa Provincial.

3 O termo “público” aparece nas fontes como uma forma de diferenciação em relação aos cemitérios particulares, pertencentes ás Irmandades.

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2 Os enterros intramuros remontam á Antiguidade Clássica, mais especificamente ao Imperador Constantino, responsável pela transformação do cristianismo em religião oficial de Roma, foi sepultado na Basílica dos Santos Apóstolos, sendo seguido pelo Clero, pelas pessoas de grande distinção social, e, por conseguinte por todas as pessoas que podiam pagar pelo enterro nos templos ou capelas que frequentavam.

Ao longo da segunda metade do século XVIII a elite médica europeia, influenciada pela Ilustração, passa a questionar o hábito e a localização dos cemitérios nas cidades. Com a transferência da Corte portuguesa para a América em 1808, onde a sociedade estava acostumada a conviver com a presença das sepulturas nas povoações, os médicos que formavam o séquito real alertaram na Colônia ao debate relativo aos enterros intramuros, que na Europa já vinha sendo travado há décadas.

Em 1812 a Imprensa Régia editou uma obra do médico italiano Scipião Piatoli, com o título de: “Ensaio sobre os perigos das Sepulturas dentro das cidades e nos seus contornos”, que se tornou uma referência ao se abordar o assunto. Poucos anos depois, em 1818 José Pinheiro de Freitas Soares insistiu que os sepultamentos deveriam ser “estabelecidos fora das Igrejas e dos cemitérios dentro das cidades e vilas”, pois essa prática “tem sido origem de muitas epidemias e de muitas mortes repentinas”, ocasionadas pelos miasmas da putrefação dos corpos.4

Como esses argumentos reapareciam com certa frequência, o governo imperial impõe em novembro de 1825, uma portaria que legisla sobre o fim dos sepultamentos em Igrejas e o deslocamento deles para cemitérios fora do meio populacional, alegando em conformidade com a elite médica, que assim seriam eliminadas as “desagradáveis consequências de tão danoso costume, produzido e conservado pela ignorância e superstição” (REIS, 1995:275).

Mesmo diante da Portaria de 1825, não se verificam grandes mudanças, de modo que, três anos após a dita Portaria, o governo lança um conjunto de artigos da Lei (Lei de 1° de Outubro de 1828) que regulamenta as Câmaras Municipais, e versa sobre a construção de cemitérios extramuros, pensando-se num contexto em que há uma crescente preocupação com a salubridade na Província.

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3 A dita Lei de 1° de Outubro de 1828, consta no Título III das Posturas Policiais, no Artigo 66, parágrafo II, que versa “Sobre o estabelecimento de cemitérios fora do Recinto dos Templos, conferindo á esse fim com a principal Autoridade Eclesiástica do lugar [...]” 5.

Salientamos que essa Lei que regula as Câmaras Municipais, se preocupa não somente com a criação de cemitérios extramuros, pois no mesmo parágrafo citado acima, ela fala “sobre o esgotamento de pântanos, e qualquer estagnação de águas infectas, sobre a economia e asseio dos curraes, e matadouros públicos, sobre a collocação de cortumes, sobre os depósitos de imundices e quanto possa alterar e corromper a salubridade da atmosfera” 6.

A proposição do presente trabalho é partir da discussão acerca da Lei de 1° de Outubro de 1828, em algumas instituições províncias e municipais, sendo elas: O Conselho Geral de Província, Assembleia Legislativa Provincial e a Câmara Municipal de Ouro Preto, capital da Província mineira.

Enfatizamos a necessidade de falar sobre essas instituições. O Conselho Geral de Província foi estabelecido pela Constituição do Império do Brasil de 1824 “representa um espaço privilegiado para a análise das disputas entre interesses e projetos políticos que mobilizaram diferentes setores sociais” (FERNANDES, 2014). Como previa a Constituição no que tange ao estabelecimento do Conselho Geral, todo cidadão tem direito de intervir, nos negócios relativos á sua Província, e á seus interesses, tendo como meio para tal propósito as Câmaras e Conselhos Gerais. Os objetivos do Conselho seriam “propor, discutir e deliberar sobre os negócios mais interessantes das suas Províncias, formando projetos peculiares, e acomodados ás suas localidades e urgências” (FERNANDES, 2014:113). As Câmaras Municipais deveriam prestar contas ao Conselho Geral que passaria á fiscalizar a sua atuação, e a partir de 1834, as municipalidades responderiam á Assembleia Legislativa Provincial.

Outra instituição política, que se apresenta enquanto um espaço para embates de projetos políticos é a Assembleia Legislativa Provincial. A dita instituição é estabelecida através da Lei de 12 de Agosto de 1834, tendo como atribuição a formulação de Leis, guardando em seu bojo um principio de autonomia regional, de modo que todas as

5 BRASIL, Constituição Política do Império do Brasil de 1824. Coleção das Leis do Império do Brasil de 1824, Typografia Nacional, 1874.

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4 Resoluções que devessem ser tomadas no interior da Província eram efetivamente realizadas pela Assembleia, ou seja, ela encerrava o processo em si mesmo, não mais havendo toda uma burocracia para que se efetivasse a Lei (DOLHNIKOFF, 1990:77).

A proposta do presente trabalho é a análise da discussão em virtude da Lei de 1° de Outubro de 1828, as Representações e Requerimentos remetidos ao Conselho Geral e á Assembleia Legislativa, e a própria discussão e oposição de opiniões dos homens que formavam essas instituições em relação ao gasto com os funerais, e em relação á contínua prorrogação da construção dos cemitérios. O que se apresenta é um problema de ordem política administrativa, as discussões entre Conselho e Câmara, e mais tarde essa discussão na Assembleia Legislativa Provincial.

A Lei suscitou diversas interpretações sobre a construção do cemitério geral extramuro, bem como a permanência ou não dos cemitérios particulares (pertencente ás Irmandades e Ordens). Para exemplificar o caso específico da discussão acerca dos cemitérios particulares segue a seguinte sessão do Conselho Geral datada em 14 de Fevereiro de 1831:

A Câmara Municipal da cidade de Ouro Preto representa que por ocorrerem obstáculos para a execução dos art. 66 e 67 das posturas, recorreu ao meio determinado no art. 630. Comprovando os obstáculos com os documentos, colige que a Fábrica das [Inq.] Paroquiais nega a feitura do cemitério geral pela falta de rendimentos e as irmandades e ordens alegam querer cemitérios particulares, não compreendendo neste negócio a Ordem Terceira do Carmo, que iniciou a feitura da catacumbapor “autoridade e aprovação da Câmara” concedida antes da reforma das posturas. Também consta a “diligência e louvável [utilidade] da Câmara, para desempenhar os seus deveres neste objeto, fazendo medir o terreno”, e fazer o orçamento da obra. A Comissão ponderando as razões expedidas pela Câmara e pelas Irmandades e Ordens Terceiras é de parecer que a Câmara deve prosseguir para a feitura do cemitério, recorrendo ao artigo 63 das Posturas como tem praticado e declarar ás Irmandades e fabriqueiros só podem fazer seus cemitérios nos lugares determinados pela Câmara, pois “seria contrário ao fim da Lei e comodidade da saúde pública o multiplicarem cemitérios dentro de uma população e que tendo de o fazer no mesmo lugar, melhor e mais conveniente será cooperarem para o geral onde poderão ter separadas sepulturas ou carneiros (...) bem como os particulares que o quiserem fazer para jazigo de sua família deveram concorrer

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5 com a cota correspondente para o dispendioso trabalho de fechar o lugar e o preparar(...).” 7

No documento exposto acima, a Comissão de Posturas do Conselho Geral indica á Câmara de Ouro Preto para que prossiga na feitura do cemitério geral extramuro, bem como aprova que sejam feitos os cemitérios particulares das Irmandades e Ordens, desde que o façam nos lugares determinados pela Câmara, mas o ideal seria que tais Irmandades cooperassem com a Câmara para a feitura do cemitério geral, podendo ter seus jazigos separados dos demais.

É possível problematizar os diferenciados interesses que moviam os segmentos (Irmandades, clérigos, indivíduos residentes na Província) que enviavam representações e requerimentos á essas instituições. Quais motivos os impulsionavam a dirigir representações questionando a implementação do que determinava a Lei de 1828? Seria o peso da tradição cultural do sepultamento intramuro? Ou é uma questão financeira em que as Câmaras não puderam arcar com as despesas, mesmo que o fizessem junto á Autoridade Eclesiástica local? São questionamentos que precisam de um maior aprofundamento.

Procuramos tratar da complexidade dos diferentes interesses que representam ás instituições já faladas, procurando compreender como a administração provincial negociou com os segmentos socias, a fim de solucionar essa pauta.

Alguns questionamentos podem ser levantados a partir da historiografia que estuda o tema, como por exemplo, o caso da Bahia que João José Reis analisa, o chamado levante conhecido como “A Cemiterada” da população que destruiu o cemitério recém-inaugurado; no caso da Província Mineira, não verificamos um levante como o que ocorreu em Salvador, mas por não ter havido uma revolta popular, a resistência á construção dos cemitérios não teria ocorrido? O que suscita a questão sobre qual seria o caráter da resistência á construção dos cemitérios em Minas Gerais, uma vez que não verificamos uma mobilização social como a que aconteceu na Bahia, e, no entanto, isso não significa que não tenha ocorrido resistências aos cemitérios extramuros.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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7 REZENDE, Irene Nogueira de. O Universal: Um Jornal Mineiro no Tempo da Regência (1825-1842).

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