PSICOLOGIA E DIREITOS HUMANOS: Formação, Atuação e Compromisso Social
SER MULHER: UMA REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA DE MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA
Jeicy Santos* (Centro Universitário do Norte - Uninorte, Manaus-AM, Brasil).
contato: [email protected] Palavras-chave: Mutilação genital feminina. Direitos humanos. Cultura.
Em meio as constantes denúncias sobre atos de violência contra mulheres ao redor do mundo, uma prática específica tem chamado atenção das organizações de proteção dos direitos da mulher.
Denominada de mutilação genital feminina (MGF) - também conhecida como incisão genital feminina (IGF) - a extirpação parcial ou total da genitália externa feminina (clitóris, pequenos e grandes lábios) corresponde a uma prática cultural de iniciação de meninas a vida adulta que ocorre em 29 países do continente africano, em algumas cidades do Oriente Médio, e “em comunidades de imigrantes em regiões da Ásia (Indonésia, Sri Lanka, Índia e Malásia), Pacífico (Austrália), Europa (Inglaterra, Holanda, Suécia, França e Itália) e América (Canadá e Estados Unidos)” (PIACENTINI, 2007, p. 121).
Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS) “entre 100 e 140 milhões de meninas e mulheres em todo o mundo tenham sido submetidas a esse processo e que, anualmente, três milhões de meninas corram o risco de sofrer uma mutilação genital” (CAMPOS, 2010, p. 8).
De acordo com Campos, “essa prática é discriminatória e extremamente perigosa, uma vez que, em muitos casos, não envolve quaisquer cuidados antissépticos na sua realização e muitas mulheres e/ou meninas morrem devido à infecção ou hemorragia” (2010, p. 8). Piacentini ressalta que as consequências físicas oriundas dessa prática envolvem:
Dor e hemorragia, infecções crônicas do aparelho urinário, pedras na bexiga e na uretra, transtornos renais, infecções no aparelho genital (como consequência da obstrução do fluxo menstrual), infertilidade, formação excessiva de tecido cicatrizante, queloides, dor durante o ato sexual, aumento da dor na hora do parto, entre outros (2007, p. 119).
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Jacquemin afirma que “a lei internacional e as leis de muitos países consideram a mutilação da genitália feminina uma violação dos direitos humanos” (2010, p. 23). No entanto, o embate com o contexto cultural que permeia essa prática tem sido um dificultador para a efetivação das intervenções.
Nesse sentido, o objetivo deste artigo consiste em promover uma reflexão sobre os aspectos socioculturais que embasam a prática de mutilação da genitália feminina e os percursos para elaboração de mecanismos de garantia dos direitos humanos as mulheres envolvidas nesse contexto cultural. Para tanto, buscou-se por meio de pesquisa bibliográfica, examinar as questões correspondentes à imposição social e violência contra mulher, e a concepção sobre identidade cultural e de gênero.
Segundo Vygotsky, “o ser humano constitui-se enquanto tal na sua relação com o outro social” (OLIVEIRA, 1992, p.24). Através desse processo de socialização, os indivíduos adquirem “os padrões de comportamento que são habituais e aceitáveis em seus grupos sociais” (BRAGHIROLLI, 2014, p.69).
Entende-se, portanto, que esse conjunto de valores correspondente ao sistema cultural e que se encontra vinculado ao cotidiano das pessoas. Assim, o modo como uma determinada pessoa enxerga a si própria e o mundo a sua volta é resultado das influencias culturais da sociedade em que vive (BRAGHIROLLI, 2014).
Para as comunidades praticantes, a mutilação genital é compreendida como um componente de sua identidade cultural. Esta é “socialmente percebida como um ritual de passagem para a idade adulta que permite a integração social das meninas, bem como, fortalece a coesão social do grupo a que pertencem” (PIEDADE, 2008, p.05).
De acordo com Jacquemin, “a MGF permite que as mulheres retenham um papel dentro das suas sociedades tradicionais, onde as mulheres só podem se casar se tiverem sido circuncidadas” (2010, p.24).
Nessa perspectiva, “a concretização desta prática garante a manutenção da honra da família da rapariga, pois a sua virgindade, bem como a legitimidade dos herdeiros está assegurada, tornando-a uma esposa em potencial” (PIEDADE, 2008, p.05).
Todavia, as mulheres que não são “circuncisadas” tendem a enfrentar discriminações dentro de suas comunidades. “É uma crença comum de que raparigas que não são excisadas têm um desejo sexual incontrolável e, neste sentido, uma maior probabilidade de perder a
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virgindade prematuramente e consequentemente não poderão casar” (OLIVEIRA, 2012, p. 03).
Desta forma, a cerimônia de excisão pode ser compreendida como um mecanismo de garantia para que todas as famílias sigam os regulamentos sociais. Assim, “os pais que não submetem suas filhas a este ritual acabam descobrindo que ninguém da comunidade vai querer casar-se com elas. Em alguns casos, toda a família é rejeitada” (JACQUEMIN, 2010, p. 24).
Acuadas frente à pressão social a que estão sujeitas, várias meninas e/ou mulheres acabam se submetendo à MGF por medo de serem estigmatizadas e rejeitadas por sua comunidade (OLIVEIRA, 2012). Para essas mulheres, “os efeitos psicológicos de não ser mutilada podem ser mais graves do que aqueles provocados pela mutilação” (PIEDADE, 2008, p.06).
Entretanto, os opositores da incisão genital, consideram esta prática uma ofensa à integridade física e emocional das mulheres, pois além de desencadear consequências drásticas a saúde, a excisão funcionaria como um mecanismo de opressão à sexualidade feminina que assegura a dominação do gênero masculino sobre o feminino. Ou seja:
A MGF representa uma das partes do grupo de regulamentos e tradições mundiais que oprimem as mulheres, ao dar-lhes imagens negativas de si próprias como serem impuros e incompletos; estas regras servem para controlar sua sexualidade, e para restringir seu prazer mesmo depois de casadas. Enquanto que a prática da mutilação genital feminina supostamente assegura a virgindade e a fidelidade, ela promove a dor durante o ato sexual e aumenta a mortalidade. (JACQUEMIN, 2010, p. 25).
Para os órgãos internacionais o problema da MGF é enquadrado como um ato de tortura e de injustiça social (SAUERESSING, 2010). Segundo a OMS a mutilação da genitália feminina infringe um serie de princípios, normas e padrões de direitos que asseguram os princípios da igualdade, da não discriminação com base no sexo, o direito a vida e o direito de estar livre de tortura e/ou punição (CAMPOS, 2010).
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Nesse sentido, “a alteração de um tecido genital saudável, sem necessidade médica, que pode gerar consequências graves na saúde física e mental da menina ou mulher, configura-se em uma violação do direito da pessoa à saúde” (CAMPOS, 2010, p. 17).
Baseados nisso, campanhas educativas e vários tratados internacionais começaram a ser elaborados com o objetivo de erradicar a MGF (BONGIANINO, 2010). Inclusive, países como Portugal, Noruega, Bélgica, Dinamarca, França, Egito, Guiné, Togo entre outros, passaram a criminalizar a prática da mutilação genital. No entanto, a inexistência de uma legislação específica, tem deixado margem para que outras formas de mutilações (reconstruções do hímen, vagina e vulva) consideradas estéticas estejam se tornando comuns (S JOHNSDOTTER; B ESSEN, 2011).
Segundo, Otoo-Oyortey “para se obter um progresso sustentável no combate à MGF/CGF, é necessário o uso de múltiplas estratégias e ações a muitos níveis” (2007, p. 14). Conforme a autora, as leis auxiliam como medidas de proteção que apoiam o trabalho de ativistas, voluntários e profissionais da erradicação. Da mesma forma que o envolvimento e o comprometimento da comunidade em empoderar as mulheres, incentivando-as a procurar ajuda caso sejam obrigadas a se submeter à incisão, e a inclusão de rituais alternativos sem o corte físico, funcionam como intervenções que fortalecem o combate a MGF (OTOO-OYORTEY, 2007).
Aliás, essas ações interventivas precisam ser sensíveis à cultura e a religiosidade local, visto que os “direitos humanos e a diversidade cultural não são categorias contrapostas, mas complementares” (PIACENTINI, 2007, p.159).
Compreende-se, portanto, que o diálogo intercultural faz-se indispensável para a manutenção e a efetivação dos direitos básicos do ser humano. E “para findar com a prática, as nações devem abordar a mutilação genital, não só através da educação, mas também como parte de um trabalho de desenvolvimento global, econômico e social” (CAMPOS, 2010, p.20).
Deste modo, conclui-se que a prática de mutilação genital feminina não está atrelada apenas em uma questão de consentimento ou proibição, mas sim em um campo mais amplo onde valores que resguardam a proteção, a integridade, a igualdade e a autonomia das pessoas precisam ser preservados.
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Referências
Braghirolli, E. M. (2014). Psicologia Geral. 34. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes.
Bongianino, C. F. (2010). Entre normativas e vidas: As intervenções genitais femininas na Itália. In Reunião Brasileira de Antropologia, 27. Belém, Pará, Brasil.
Campos, C. C. (2010). Mutilação genital feminina: Uma revisão integrativa. Monografia (Bacharelado em Enfermagem). Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Escola de Enfermagem, Porto Alegre.
Jacquemin, C. (2010, Abril). O corte da genitália feminina: rompendo o debate e ainda assim, violando direitos humanos. Revista Espaço Acadêmico – n. 107. (23-29).
Johnsdotter, S.; Essen, B. (2011). A política de modificações dos genitais e a questão étnica.
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Oliveira, F. A. V. (2012). Mutilação genital feminina: Cultura ou crime. Portugal, Recuperado em 12 de março, 2015, [online] In Psicologia.PT – O portal dos Psicólogos: <www.psicologia.pt>.
Oliveira, M. K. (1992). Vygostky e o processo de formação de conceitos. In La Taille, Y. (Org.), Piaget, Vygotsky e Wallon: Teorias psicogenéticas em discussão (pp. 23-34). São Paulo, SP: Summus.
Otoo-Oyortey. N. (2007). Mutilação genital feminina – Uma preocupação da saúde e de direitos sexuais reprodutivos. In A. Frade. (Org.), Por nascer mulher: Um outro lado dos
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Piacentini, D. Q. (2007). Direitos humanos e interculturalismo: análise da prática cultural
da mutilação genital feminina. Dissertação (Mestrado em Direito). Universidade Federal de
Santa Catarina – Centro de Ciências Jurídicas, Florianópolis.
Piedade, S. M. P. R. (2008). Mutilação genital feminina em Portugal. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e das Organizações). Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Departamento de Psicologia social e das Organizações. Lisboa, Portugal.
Saueressig. J. (2010, set./dez.). A mutilação genital feminina e a fundamentação ética dos direitos humanos. RCA - Revista Cientifica da Ajes, v. 01, n.02, p.01-07. Juína, MT.