SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS EM MOVIMENTOS SOCIAIS: UMA CARTOGRAFIA DA PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE NUM ACAMPAMENTO DO MST.

Texto

(1)

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS EM MOVIMENTOS SOCIAIS: UMA CARTOGRAFIA DA PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE NUM ACAMPAMENTO DO

MST.

Fábio Henrique Araújo Martins1.

Resumo:Desde a articulação de vários saberes, funcionando numa espécie de “bricolagem”2entre teorias e práticas terapêuticas, pedagógicas, sociológicas, artísticas, filosóficas, políticas...; procuramos, cartografar a produção de subjetividade num acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil), em sua relação dinâmica com a luta político-social contemporânea. A pesquisa busca compreender a constituição de novos sujeitos coletivos de luta, portadores de subjetividades insurgentes. Assim defendemos a hipótese que a ação coletiva de organização contra-hegemônica e autogestiva dos Movimentos Sociais em torno das necessidades e desejos, geram novas sensibilidades solidárias, produtoras de afetos terapêuticos e pedagógicos. Ou seja, a ação coletiva funciona como uma forma de terapia social. Neste sentido a subjetividade não pode ser entendida ou reduzida à lógica do sujeito individual. “Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social”3. O individuo, portanto, seria o resultado provisório do entrecruzamento de várias determinações coletivas, constitutivas de subjetividade. Assim, quando um Movimento Social (agente coletivo mobilizador) como o MST, organiza uma base social e, em sua luta, produz ações autogestivas e autoanalíticas singulares, orientadas por uma racionalidade contra-hegemônica satisfazendo as necessidades para a reprodução de seu grupo segundo a maneira de viver própria, mostra que as noções de justiça (direitos humanos) e saúde (saúde mental), em sua origem, não se encontram, nos discursos dos especialistas e profissionais, mas no “saberes sujeitados das pessoas”4. Nesse sentido, procuramos de um lado, dessujeitar os saberes históricos, de outro, demonstrar a re-significação e re-invenção dos conceitos de saúde mental e direitos humanos, promovidas por sujeitos históricos-sociais, em sua luta pela terra.

1

Email: fabiohamartins@yahoo.com.br

2

Baremblitt, F. Gregório. Introdução a Esquizoanálise. Instituto Felix Guattari, Belo Horizonte. 1992. Pág.18.

3Guattari, F. Micropolitica: Cartografias do Desejo. Vozes. Petrópolis. 1993. Pág.34. 4

(2)

As tensões sociais mostram que o campo está vivo, e clama por nossa atenção. Procurando uma vida digna é que as pessoas se lançam na luta pela Reforma Agrária. A passagem de uma situação de isolamento, medo, miséria, ameaça em que se vivem milhares de “sem terra” espalhados pelo país; para a condição de “Sem-Terra do MST”, promove uma transformação produtora de “sujeito irreverentes”, novos sujeitos coletivos de Direitos, que assumem coletivamente a condição de construtores de seu próprio destino humano e social, de sua história.“De miserável a pobre” essa mudança imediata na vida das pessoas, gera confiança e autonomia, o futuro então, pode ser sonhado. Quando alguém entra no Movimento Sem-Terra passa a ter a oportunidade de viver de outra maneira.

No acampamento existem muitos obstáculos, a rotina do dia-a-dia é uma prova de resistência. As pessoas passam a ter em suas mãos a responsabilidade de organizar e coordenar o acampamento, assim as carências materiais são minimizadas pela riqueza das experiências humanas e dos “encontros alegres”.Nas cidades de lona, a solidariedade é uma necessidade prática. A instancia máxima é a Assembléia Geral das Famílias Acampadas, lugar onde são definidas as prioridades. Organizados em núcleos de base, formado pelo conjunto de famílias (geralmente 10) é que se dividem as tarefas no acampamento: Alimentação, Saúde, Educação, Segurança, Negociação... As equipes de trabalho se reúnem para avaliar e planejar as ações orientadas pelos princípios organizativos do MST (direção coletiva, divisão das tarefas, participação direta...). No interior de um acampamento ocorrem muitas mudanças: “quem nunca abria a boca, de repente vira locutor da rádio do acampamento; quem se dizia tímido, vira referência nas negociações com o governo; quem era considerado fofoqueiro na comunidade de origem vira articulador das propostas na

(3)

base...”5. Nos anos que acompanho o Movimento, pude observar de perto esse fenômeno subjetivo incrível.

Na atualidade vivemos temporalidades abertas a novas suavidades, existe uma busca incessante por alternativas, “desvios”, linhas de fuga, relativas aos processos de produção de subjetividades insurgentes, solidárias, afirmativas, esperançosas, ativas, criativas, alegres.

Recorrendo à gênese histórica da sociedade, do Estado e da questão agrária no Brasil podemos entender porque o instrumental “técnico-cientifico” dos profissionais-especialistas, não correspondem às prementes demandas, conflitos e contradições sociais; ainda que não ignoradas, são tidas como “sinônimos de perigo, crise, desordem”6. Numa sociedade autoritária, Chauí ressalta: “as divisões sociais são naturalizadas em desigualdades postas como inferioridade natural” e as diferenças tendem a aparecer “ora como desvios da norma”, “ora como perversão e monstruosidade”, a única resposta possível é “a repressão policial e militar, para as camadas populares, e o desprezo condescendente, para com os opositores em geral”7, a relação social assume a forma nua da opressão física e/ou psíquica. A divisão social é naturalizada por práticas que tentam mistificar a determinação histórica da exploração, da discriminação e da dominação.

Em tempos de “Guerra e Globalização”8, onde o CMI (Capitalismo Mundial Integrado)9 se propaga potencialmente a todo o planeta, um “mal-estar” inevitável toma conta das várias dimensões do ser e do saber. Neste momento histórico de vertiginosas mudanças, as incertezas e inseguranças geram medo, angústia; as pessoas se perguntam

5

Caldart, R. S. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo. Expressão Popular. 2004. Pág. 181. Fonte: depoimento colhido de pessoas acampadas.

6

Chauí, M. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Perseu Abramo, 2000. Pág. 92.

7 Chauí, M. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Perseu Abramo, 2000. Pág. 89-95. 8 Chossudovsky, Michel. Guerra e Globalização. Expressão Popular. 2004.

9

(4)

assustadas sobre o futuro de suas vidas e de suas famílias, o destino do país, os caminhos da humanidade... Grandes questões estão na pauta do dia. Bombardeados por informações contraditórias, ficamos confusos.

O CAPI (Capitalismo Planetário Integrado) funciona num processo de “desterritorialização e reterritorialização ”10 que integra centro e periferia, vai dos paises desenvolvidos aos paises subdesenvolvidos, não possui um centro, os “espaços” de poder encontram-se pulverizados, são multicentros de decisão, o poder circula no Império.11 Não é mais possível falar de um “dentro” ou um “fora” no “sistema-mundo” contemporâneo.

Milton Santos, afirma que após conformar a economia, a cultura, a política, as relações interpessoais e os próprios comportamentos individuais, o avanço da forma capitalista de atividade econômica, sua racionalidade atinge o próprio meio da vida dos homens12. Os espaços geográfico e subjetivo se tornam funcionais à fluidez dos fatores essenciais ao capitalismo contemporâneo.

Já Boaventura de Sousa Santos que aponta, acertadamente, para uma certa “insuficiência” na lógica hegemônica da cientificidade moderna, um esgotamento teórico, nas ciências sociais, no Direito..., uma ampla crise de paradigmas, “enfrentamos problemas modernos para os quais não há soluções modernas”13. As construções teóricas, não dão conta dos problemas postos pela realidade societária atual, em tempos de transição paradigmática, nos deparamos com limites, inflexibilidades, erros e lacunas.

10

Gilles Deleuze e Feliz Guattari. O Anti-Edipo: Capitalismo e Esquizofrenia. Imago. Rio de Janeiro. 1976. Pág.304 e seg.

11 Antonio, Negri. Cinco Lições sobre o império.

12

Neste sentido ver: Santos, Milton. A Natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2002.

13 Boaventura de Sousa Santos. A Critica da Razão Indolente. P: contra o desperdício da experiência. São

(5)

Nesse contexto, as ciências “dominantes” funcionam tal qual instrumentos estratégicos de produção discursiva de “verdade”, aparentemente protege indivíduos e sociedade, mas, na realidade, legitima e justifica o controle e a dominação contra os mesmos; produto mistificador responsável por terríveis violências simbólicas, revela interesses bem definidos. Submetidas a dogmas que alimentam a crença mítica de que o Direito-Psicologia-Medicina mantém a “normalidade”, a ordem (social e psíquica) a lei, produzem a paz, a justiça, a verdade, a saúde, o bem.

As concepções dominantes e vigentes no universo “Psi”, se forjaram, desde os parâmetros da anomalia e da doença mental, num procedimento de “patologização do comportamento humano”14. Já no campo jurídico, se cristalizam as construções “clássicas”, entorno dos textos de Direito Positivo consagradores dos Direitos Humanos universais.

A análise da práxis política cotidiana do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, ajuda a rever e refundar as noções tradicionais de “Saúde Mental e Direitos Humanos”, ao demonstrar como se constroem sujeitos histórico sociais coletivos, capazes de exercer em seu cotidiano complexo, o princípio da solidariedade na produção de um outro direito não-estatal e uma saúde mental comunitária, pressupostos pela base social que o compõe, e que não se pauta pela lógica instrumental ao capitalismo mundial. Mostra que a luta para efetivação dos direitos humanos e saúde mental coletiva, não se deve circunscrever às exigibilidades dos ditames “psiquiátrico-psicológicos” ou dos textos programáticos inscritos em tratados ou “normas de papel”, mas àquelas ações das pessoas em movimento que potencializem a construção de soluções inéditas, orientadas para as possibilidades concretas de experimentar relações humanas emancipatórias e solidárias, que

14Amarante, Paulo. Manicômio e Loucura no Final do Século e do Milênio, In. Fim de Século: ainda

(6)

permitam libertar a capacidade criativa dos imperativos da exploração e dos poderes disciplinares/reguladores reproduzidos pela compulsão capitalista de auto-expansão.

Referências Bibliográficas

AMARANTE, Paulo. Manicômio e Loucura no Final do Século e do Milênio, In. Fim de

Século: ainda Manicômios? IPUSP, São Paulo, 1999

BAREMBLITT, F. Gregório. Introdução a Esquizoanálise. Instituto Felix Guattari, Belo Horizonte.1992.

CALDART, S. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo. Expressão Popular. 2004. CHAUÍ, M. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária.São Paulo: Perseu Abramo,

2000.

CHOSSUDOVSKY, Michel. Guerra e Globalização. Expressão Popular. 2004.

DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Felix. Anti-edipo, Capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro. Imago. 1976.

FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo, Martins Fontes, 1999. GUATTARI, Felix. Micropolitica: Cartografias do Desejo. Rio de Janeiro. Vozes. 1993. MINAYO, M. C. Ciência, Técnica e Arte: O Desafio da Pesquisa Social. In. MINAYO, M.

C. (org). Pesquisa Social, Teoria, Método e Criatividade. Vozes. Petrópolis. 2001. NEGRI, Antonio. Cinco Lições sobre Império. DP&A. 2003.

PICHON, R. e QUIROGA, A. Pisicologia de la vida cotidiana. Buenos Aires. Nueva Vision. 2002.

SANTOS, Milton. A Natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2002.

SANTOS, S. B. A critica a razão indolente, contra o desperdício da experiência. São Paulo. Cortez. 2000.

Imagem

Referências

temas relacionados :