Publicações Matemáticas
O Método do Referencial Móvel
Manfredo do Carmo
IMPA
Impresso no Brasil / Printed in Brazil Capa: Noni Geiger / Sérgio R. Vaz
Publicações Matemáticas
• Introdução à Topologia Diferencial – Elon Lages Lima • Criptografia, Números Primos e Algoritmos – Manoel Lemos
• Introdução à Economia Dinâmica e Mercados Incompletos – Aloísio Araújo • Conjuntos de Cantor, Dinâmica e Aritmética – Carlos Gustavo Moreira • Geometria Hiperbólica – João Lucas Marques Barbosa
• Introdução à Economia Matemática – Aloísio Araújo • Superfícies Mínimas – Manfredo Perdigão do Carmo
• The Index Formula for Dirac Operators: an Introduction – Levi Lopes de Lima • Introduction to Symplectic and Hamiltonian Geometry – Ana Cannas da Silva
• Primos de Mersenne (e outros primos muito grandes) – Carlos Gustavo T. A. Moreira e Nicolau Saldanha
• The Contact Process on Graphs – Márcia Salzano
• Canonical Metrics on Compact almost Complex Manifolds – Santiago R. Simanca • Introduction to Toric Varieties – Jean-Paul Brasselet
• Birational Geometry of Foliations – Marco Brunella • Introdução à Teoria das Probabilidades – Pedro J. Fernandez • Teoria dos Corpos – Otto Endler
• Introdução à Dinâmica de Aplicações do Tipo Twist – Clodoaldo G. Ragazzo, Mário J. Dias Carneiro e Salvador Addas Zanata
• Elementos de Estatística Computacional usando Plataformas de Software Livre/Gratuito – Alejandro C. Frery e Francisco Cribari-Neto
• Uma Introdução a Soluções de Viscosidade para Equações de Hamilton-Jacobi – Helena J. Nussenzveig Lopes, Milton C. Lopes Filho
• Elements of Analytic Hypoellipticity – Nicholas Hanges • Métodos Clássicos em Teoria do Potencial – Augusto Ponce • Variedades Diferenciáveis – Elon Lages Lima
• O Método do Referencial Móvel – Manfredo do Carmo
• A Student's Guide to Symplectic Spaces, Grassmannians and Maslov Index – Paolo Piccione e Daniel Victor Tausk
• Métodos Topológicos en el Análisis no Lineal – Pablo Amster
• Tópicos em Combinatória Contemporânea – Carlos Gustavo Moreira e Yoshiharu Kohayakawa • Uma Iniciação aos Sistemas Dinâmicos Estocásticos – Paulo Ruffino
• Compressive Sensing – Adriana Schulz, Eduardo A.B.. da Silva e Luiz Velho • O Teorema de Poncelet – Marcos Sebastiani
• Cálculo Tensorial – Elon Lages Lima
• Aspectos Ergódicos da Teoria dos Números – Alexander Arbieto, Carlos Matheus e C. G. Moreira
• A Survey on Hiperbolicity of Projective Hypersurfaces – Simone Diverio e Erwan Rousseau • Algebraic Stacks and Moduli of Vector Bundles – Frank Neumann
• O Teorema de Sard e suas Aplicações – Edson Durão Júdice • Tópicos de Mecânica Clássica – Artur Lopes
Pref´
acio da 1
¯
edi¸
c˜
ao
Estas notas constituem parte de um curso dado no IMPA no per´ıodo Mar¸co-Junho de 1976 e foram preparadas especialmente para a Terceira Escola Latino-Americana de Matem´atica.
O objetivo das notas ´e apresentar o m´etodo do referencial m´ovel em Geometria Diferencial a partir de um m´ınimo de prerequisitos. A leitura das notas pressup˜oe apenas um curso de geometria diferencial de curvas e superf´ıcies, no¸c˜oes de variedades diferenci´aveis e uma certa familiaridade com formas diferenciais em variedades.
A fim de evitar apelos a conhecimentos de Grupos de Lie, restringimo-nos `a estrutura riemaniana, que corresponde ao grupo ortogonal. De resto, o grupo ortogonal possui aparentemente aquela medida de complexidade que torna o estudo da sua geometria uma tarefa n˜ao trivial por´em trat´avel. No primeiro cap´ıtulo estabelecemos os fatos fundamentais do m´etodo do referencial m´ovel. Adotamos o ponto de vista de partir do Rn e ir
constru-indo progressivamente as situa¸c˜oes mais gerais. Entre as aplica¸c˜oes feitas neste cap´ıtulo, encontram-se um teorema de E. Cartan sobre a determina¸c˜ao local da m´etrica pela curvatura, o c´alculo da curvatura do fibrado tangente unit´ario da esfera S2, e um teorema de E. Hopf sobre fun¸c˜oes subharmˆonicas
em variedades riemanianas compactas. O cap´ıtulo pode ser considerado como uma breve introdu¸c˜ao `a Geometria Riemaniana pelo m´etodo do refe-rencial m´ovel.
No segundo cap´ıtulo apresentamos algumas aplica¸c˜oes a problemas de imers˜oes em espa¸cos de curvatura constante. Demonstramos o lema de Chern e Lashof para espa¸cos de curvatura constante (ao que saibamos, esta forma do lema n˜ao se encontra publicada), o teorema de Sacksteder para o caso compacto (K ≥ 0), o teorema de unicidade de Cohn-Vossen (K ≥ 0), alguns resultados recentes sobre redu¸c˜ao de codimens˜ao, o teorema de unicidade de Allendoerfer e, finalmente, o teorema de Chern e Lashof sobre a curvatura total.
O leitor (ou leitora) poder´a se restringir ao uso particular de imers˜oes em espa¸cos euclideanos, em cujo caso as Se¸c˜oes 6 e 11 do Cap´ıtulo I poder˜ao ser omitidas.
Durante a prepara¸c˜ao destas notas utilizamos livremente as fontes exis-tentes, tanto escritas como orais. ´E imposs´ıvel dar cr´edito a todas mas gostar´ıamos de destacar v´arios cursos feitos em Berkeley com S.S. Chern, com quem aprendemos a “ver” o m´etodo do referencial m´ovel.
cuss˜oes sobre este curso durante as exposi¸c˜oes orais, e a Wilson G´oes pela esmerada digita¸c˜ao. Agradecimentos especiais s˜ao devidos a Antonio Car-los Asperti e Renato Tribuzy que leram criticamente todo o manuscrito, corrigiram v´arios erros e apresentaram in´umeras sugest˜oes.
Rio, 27 de Maio de 1976 Manfredo Perdig˜ao do Carmo
Pref´
acio da 2
¯
edi¸
c˜
ao
Para esta edi¸c˜ao, corrig´ı alguns erros matem´aticos e tipogr´aficos, que me foram bondosamente apontados por colegas e alunos, aos quais agrade¸co penhoradamente. Al´em disto, atualizei, o tanto quanto me foi poss´ıvel, a Bibliografia, e introduz´ı algumas referˆencias adicionais que se reportam a problemas tratados no texto. No mais, o texto permanece o mesmo.
Desejo agradecer a Wilson G´oes, que datilografou a 1a
¯ edi¸c˜ao e digitou
a atual. Agradecimentos s˜ao tamb´em devidos a Rog´erio Dias Trindade pela editora¸c˜ao desta edi¸c˜ao.
Rio, junho de 2008 Manfredo Perdig˜ao do Carmo
´Indice
Cap´ıtulo 1: O M´etodo do Referencial M´ovel . . . 1
1.1 Equa¸c˜oes de estrutura do Rn. . . 1
1.2 O lema de Cartan e a unicidade das formas de conex˜ao . . . 5
1.3 Aplica¸c˜oes `as superf´ıcies em R3 . . . 6
1.4 O Teorema de Gauss-Bonnet para superf´ıcies compactas . . . 13
1.5 Subvariedades de um espa¸co euclideano . . . 16
1.6 Variedades riemanianas . . . 24
1.7 Tensores em variedades riemanianas . . . 40
1.8 Equa¸c˜oes de estrutura em referenciais geod´esicos; determina¸c˜ao local da m´etrica pela curvatura . . . 46
1.9 Imers˜oes riemanianas . . . 51
1.10 Globaliza¸c˜ao do m´etodo do referencial m´ovel . . . 61
1.11 Um modelo para o espa¸co hiperb´olico . . . 69
Cap´ıtulo 2: Imers˜oes em um espa¸co de curvatura constante . . . 76
2.1 Hipersuperf´ıcies em um espa¸co de curvatura constante. O lema de Chern e Lashof. Convexidade e curvatura . . . 76
2.2 Unicidade de hipersuperf´ıcies. O Teorema de Cohn-Vossen . . . 89
2.3 Posto e n´umero tipo de uma imers˜ao. Redu¸c˜ao de codimens˜ao. As formas de ordem superior de uma imers˜ao . . . 100
2.4 O Teorema de Allendoerfer. Curvatura total de uma imers˜ao. O Teorema de Chern e Lashof . . . .116
Referˆencias . . . 127
Cap´ıtulo 1
O M´
etodo do Referencial
M´
ovel
1.1
Equa¸
c˜
oes de estrutura do R
nUma variedade riemaniana ´e uma variedade diferenci´avel M e uma escolha, para cada ponto p ∈ M, de um produto interno positivo definido h , ip no
espa¸co tangente Tp(M ) de M em p, que varia diferenciavelmente com p no
seguinte sentido: Se X e Y s˜ao campos diferenci´aveis de vetores em M , ent˜ao a fun¸c˜ao p 7→ hX, Y ip, p ∈ M, ´e diferenci´avel em M. Diferenci´avel sempre
significar´a de classe C∞. O produto interno h , i ´e usualmente chamado
uma m´etrica riemaniana em M .
A no¸c˜ao natural de equivalˆencia entre variedades riemanianas ´e a no¸c˜ao de isometria. Um difeomorfismo f : M → M0 entre duas variedades
rie-manianas M de M0 ´e uma isometria se para todo p ∈ M e todo par
X, Y ∈ Tp(M ), tem-se
hX, Y ip= hdfp(X), dfp(Y )if(p).
A importˆancia da no¸c˜ao de variedade riemaniana ´e que nela podemos definir as no¸c˜oes m´etricas usuais (ˆangulo, comprimentos, ´areas, etc.) da geometria euclideana. Em verdade, a geometria euclideana ´e o estudo das no¸c˜oes m´etricas na mais simples de todas as variedades riemanianas, a saber, o Rn munido da estrutura diferenci´avel usual e do seguinte produto interno:
Se u = (u1, . . . , un) e v = (v1, . . . , vn) s˜ao vetores do Rn, define-se
hu, vip= u1v1+ · · · + unvn, para todo p ∈ Rn.
Observe-se que estamos identificando os espa¸cos tangentes do Rn com o
espa¸co vetorial Rn.
Mesmo sendo a variedade riemaniana mais simples, o Rn´e, em um certo
sentido, a variedade riemaniana universal. Isto ficar´a mais claro `a medida que formos desenvolvendo o m´etodo do referencial m´ovel que pretendemos utilizar nestas notas.
Iniciaremos, portanto, estabelecendo as chamadas equa¸c˜oes de estrutura do Rn.
Seja U ⊂ Rnum aberto do Rne sejam e
1, . . . , en n campos diferenci´aveis
de vetores em U de tal modo que, para todo p ∈ U, se tenha hei, ejip= δij,
onde δij = 0 se i 6= j e δij = 1 se i = j, i, j = 1, . . . , n. Um tal conjunto de
campos de vetores ´e chamado um referencial ortonormal m´ovel em U . De agora por diante omitiremos os adjetivos ortonormal e m´ovel.
A partir do referencial {ei} podemos definir formas diferenciais lineares
pela condi¸c˜ao ωi(ej) = δij; em outras palavras, em cada ponto p ∈ U, a base
{(ωi)p} ´e a base dual da base {(ei)p}. O conjunto das formas diferenciais
{ωi} ´e chamado o coreferencial associado ao referencial {ei}.
Cada campo ei pode ser pensado como uma aplica¸c˜ao diferenci´avel
ei: U ⊂ Rn → Rn. A diferencial (dei)p: Rn → Rn, em p ∈ U, ´e uma
aplica¸c˜ao linear. Portanto, para todo v ∈ Rn, podemos escrever
(dei)p(v) =
X
j
(ωij)p(v)ej.
´
E imediato verificar que as express˜oes (ωij)p(v), acima definidas, dependem
linearmente de v. Portanto (ωij)p ´e uma forma linear em Rn. Como ei
´e um campo diferenci´avel, ωij ´e uma forma diferencial linear. Com estes
signficados em mente, escreveremos dei=
X
j
ωijej, (1)
como defini¸c˜ao das formas ωij, que s˜ao chamadas formas de conex˜ao do Rn
no referencial {ei}.
Derivando a express˜ao hei, eji = δij, obteremos
0 = hdei, eji + hei, deji = ωij+ ωji,
isto ´e, as formas de conex˜ao ωij = −ωjis˜ao antisim´etricas nos ´ındices i, j.
O ponto fundamental no m´etodo do referencial m´ovel ´e que as formas ωi, ωij satisfazem as chamadas equa¸c˜oes de estrutura de Elie Cartan.
Teorema 1 (equa¸c˜oes de estrutura do Rn). Seja {e
i} um referencial
ortonormal m´ovel em um aberto U ⊂ Rn. Sejam {ω
i} o coreferencial
asso-ciado a {ei}, e ωij as formas de conex˜ao de U no referencial {ei}. Ent˜ao:
dωi = X k ωk∧ ωki, (2) dωij = X k ωik∧ ωkj, k = 1, . . . , n. (3)
Demonstra¸c˜ao: Seja ai = (1, 0, . . . , 0), a2 = (0, 1, 0, . . . , o), . . . ,
an = (0, 0, . . . , 0, 1) a base canˆonica do Rn e seja xi: U → R a fun¸c˜ao
que faz corresponder a cada ponto p = (x1, . . . , xn) ∈ U e sua i-´esima
co-ordenada. Ent˜ao dxi´e uma forma diferencial em U , e como dxi(aj) = δij,
conclu´ımos que {dxi} ´e o coreferencial associado ao referencial {ai}.
O referencial dado se exprime em termos dos ai por
ei=
X
j
βijaj, (4)
onde os βij s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis em U e, para cada p ∈ U, a matriz
(βij(p)) ´e uma matriz ortogonal. Como ωi(ej) = δij, temos
ωi= X j βijdxj. (5) Diferenciando (4), obteremos dei= X k dβikak = X k dβik X j βjkej. Como dei=P j ωijej, conclu´ımos que ωij = X k dβikβjk, (6) ou seja X j ωijβjs = X jk dβikβjkβjs= d βis, s = 1, . . . , n. (7)
Finalmente, diferenciando exteriormente (5) e usando (7), obteremos dωi= X j dβij∧ dxj = X jk ωikβkj∧ dxj= X k ωk∧ ωki,
Diferenciando (6) e usando (7), obteremos dωij= − X k dβik∧ dβjk= − X k ½¡Xn `=1 ωi`β`k ¢ ∧¡ X s ωjsβsk ¢¾ = −X s ωis∧ ωjs= X k ωik∧ ωkj,
que ´e a segunda equa¸c˜ao de estrutura (3).
A id´eia b´asica do m´etodo do referencial m´ovel pode ser descrita da maneira seguinte.
Seja x : M → Rn+q uma imers˜ao de uma variedade diferenci´avel de
dimens˜ao n em um espa¸co euclideano Rn+q (dizer que x ´e uma imers˜ao
´e dizer que x ´e diferenci´avel e que a diferencial dxp: Tp(M ) → Rn+q ´e
injetiva para todo ponto p ∈ M). ´E uma conseq¨uˆencia do teorema da fun¸c˜ao inversa que, para todo p ∈ M, existe uma vizinhan¸ca U ⊂ M de p tal que a restri¸c˜ao x|U de x a U ´e injetiva. Seja V ⊂ Rn+q uma vizinhan¸ca
de x(p) em Rn+qde tal modo que V ⊃ x(U). Admitamos V suficientemente
pequeno para que exista um referencial m´ovel ©e1, . . . , en, en+1, . . . , en+q
ª em V com a propriedade que, quando restritos a x(U ), os vetores e1, . . . , en
sejam tangentes a x(U ) e os vetores en+1, . . . , en+q sejam normais a x(U ).
Um tal referencial ´e dito um referencial adaptado a x.
A existˆencia de um referencial adaptado pode ser provada da seguinte maneira. Se V ´e suficientemente pequeno, existe um difeomorfismo g : V → V tal que g ◦x(U) ´e um aberto de uma subvariedade linear de dimens˜ao n de Rn+q. A existˆencia de um referencial f
1, . . . , fn, fn+1, . . . , fn+q adaptado a
g ◦ x(U) em g(V ) ´e imediata. A imagem inversa dg−1(f
1), . . . , dg−1(fn+q)
de um tal referencial pode n˜ao ser ortonormal. Usaremos ent˜ao o processo de ortonormaliza¸c˜ao de Gram-Schmidt em cada ponto de V . Observando que os vetores obtidos por um tal processo “variam diferenciavelmente” com os vetores dados, obteremos em V um referencial ortonormal adaptado a x(U ).
Em V est˜ao definidas as formas ωido coreferencial de {ei} e as formas de
conex˜ao ωij que satisfazem as equa¸c˜oes de estrutura (2) e (3). A aplica¸c˜ao
x : U ⊂ M → V ⊂ Rn+q induz formas diferenciais x∗(ω
i), x∗(ωij) em U .
Como x∗ comuta com a deriva¸c˜ao exterior e com o produto exterior, tais
formas em U satisfazem as equa¸c˜oes de estrutura (2) e (3). Acontece que toda a geometria m´etrica local da imers˜ao x est´a contida nestas equa¸c˜oes de estrutura, o que reflete o car´ater “universal” do Rn.
A justificativa da afirma¸c˜ao acima n˜ao pode ser dada agora mas espera-mos torn´a-la clara antes de terminar este cap´ıtulo.
1.2
O lema de Cartan e a unicidade das formas de conex˜
ao
Antes de darmos aplica¸c˜oes do m´etodo do referencial m´ovel, precisamos de alguns lemas preliminares.
Inciaremos com um fato puramente alg´ebrico. Recordemos que se ω1, ω2
s˜ao formas lineares em um espa¸co vetorial V de dimens˜ao n, ent˜ao o produto exterior ω1∧ω2de ω1com ω2´e a forma bilinear alternada ω1∧ω2: V ×V →
R dada por
(ω1∧ ω2)(v1, v2) = ω1(v1)ω2(v2) − ω1(v2)ω2(v1), v1, v2∈ V.
Al´em disto, se ω1, . . . , ωn ´e uma base para o espa¸co das formas lineares V∗,
ent˜ao ωi∧ ωj, i < j, i, j = 1, . . . , n, formam uma base para o espa¸co Λ2V∗
das formas bilineares alternadas de V × V .
Lema (Cartan). Seja V um espa¸co vetorial de dimens˜ao n. Sejam ω1, . . . , ωr: V → R, r ≤ n, formas lineares de V linearmente independentes.
Suponhamos que existam formas lineares θ1, . . . , θr: V → R satisfazendo a
seguinte condi¸c˜ao: Pr
i=1 ωi∧ θi= 0. Ent˜ao θi = X j aijωj, i, j = 1, . . . , r, aij= aji.
Demonstra¸c˜ao: Completemos as formas ω1, . . . , ωr, em uma base
ω1, . . . , ωr, ωr+1, . . . , ωn de V∗ e escrevamos θi= X j aijωj+ X ` bi`ω`, ` = r + 1, . . . , n.
Basta agora observar que a condi¸c˜aoP
i ωi∧ θi= 0 implica em que 0 =X i ωi∧ θi= X i ωi∧ X j aijωj+ X ` ωi∧ X ` bi`ω` =X i<j (aij− aji)ωi∧ ωj+ X i<` bi`ωi∧ ω`.
Como os ωk∧ ωs, k < s, k, s = 1, . . . , n, s˜ao linearmente independentes,
conclui-se que aij = ajie bi`= 0.
Lema 2. Seja U ⊂ Rn. Sejam ω
1, . . . , ωn formas diferenciais linearmente
independentes em U . Suponha que exista em U um conjunto de 1-formas diferenciais ωij satisfazendo as condi¸c˜oes:
ωij= −ωji, dωj=
X
k
Ent˜ao um tal conjunto ´e ´unico.
Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que exista um outro conjunto de formas ¯ωij
com ¯ ωij = −¯ωji, dωj = X k ωk∧ ¯ωkj. Ent˜aoP k
ωk∧ (¯ωkj− ωkj) = 0, e pelo lema de Cartan,
¯ ωkj− ωkj= X i Bkij ωi, Bkij = Bjik. Observe que ¯ ωkj− ωkj= X i Bkij ωi = −(¯ωjk− ωjk) = − X i Bk jiωi
e, como os ωi s˜ao linearmente independentes, Bkij = −Bkji. Usando as
simetrias obtidas, conclu´ımos que Bk ji= −B j ki= −B j ik= B i jk= Bkji = −Bijk = −Bjik = 0, ou seja, que ¯ωkj= ωkj.
1.3
Aplica¸
c˜
oes `
as superf´ıcies em R
3Vamos aplicar o m´etodo do referencial m´ovel a um caso particular razoavel-mente bem conhecido, a saber, a teoria das superf´ıcies em R3.
Seja S uma variedade diferenci´avel de dimens˜ao 2 e x : S → R3 uma
imers˜ao. Para cada ponto p ∈ S fica ent˜ao definido um produto interno h , ip em Pp(S) pela regra: se v1, v2∈ Tp(S),
hv1, v2ip= hdxp(v1), dxp(v2)i,
onde no segundo membro aparece o produto interno usual do R3. ´E imediato
verificar que h , ip´e diferenci´avel e define, portanto, uma m´etrica riemaniana
em S, chamada a m´etrica induzida pela imers˜ao x.
Vamos estudar a geometria local de S em torno de um ponto p ∈ S. Seja U ⊂ S uma vizinhan¸ca de p em S tal que a restri¸c˜ao x|U seja injetiva. Seja V uma vizinhan¸ca de x(p) em R3 tal que V ⊃ x(U). Tomando V e U
suficientemente pequenos, podemos escolher em V um referencial ortonor-mal m´ovel e1, e2, e3, adaptado a x, isto ´e, de modo que, quando restritos a
Em V est˜ao definidas as formas ωi do coreferencial de {ei}, i = 1, 2, 3 e
as formas de conex˜ao ω12= −ω21, ω32 = −ω23, ω13= −ω31. Tais formas
satisfazem em V as equa¸c˜oes de estrutura:
dω1= ω2∧ ω21+ ω3∧ ω31, dω2= ω1∧ ω12+ ω3∧ ω32, dω3= ω1∧ ω13+ ω2∧ ω23, dω12= ω13∧ ω32, dω13= ω12∧ ω23, dω23= ω21∧ ω13.
A imers˜ao x : U ⊂ S → V ⊂ R3 induz em U formas x∗(ω
i), x∗(ωij), i, j =
1, 2, 3. Como x∗ comuta com d e ∧, tais formas satisfazem as mesmas
equa¸c˜oes acima. Observe-se que x∗(ω3) = 0, pois para todo q ∈ U e todo
v ∈ Tq(S), teremos dx(v) = a1e1+ a2e2, e portanto
(x∗ω3)(v) = ω3(dx(v)) = ω3(a1e1+ a2e2) = 0.
Para n˜ao sobrecarregar a nota¸c˜ao, e como s´o vamos, em geral, tratar de formas em U , convencionaremos escrever
x∗ωi= ωi, x∗ωij = ωij.
Esta conven¸c˜ao equivale a pensar em U como um subconjunto de R3 pela
inclus˜ao x (observe que x|U ´e injetiva) e pensar nas formas ωi, ωij como
restritas a U ⊂ V ⊂ R3. Tais formas satisfazem portanto as equa¸c˜oes acima,
com a rela¸c˜ao adicional ω3= 0.
Passemos agora ao estudo da geometria local de S. Como ω3= 0, temos
que
dω3= ω1∧ ω13+ ω2∧ ω23= 0
e, pelo lema de Cartan,
ω13= h11ω1+ h12ω2,
ω23= h21ω1+ h22ω2,
onde hij = hji, i, j = 1, 2, s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis em U . Para interpretar
geometricamente estas fun¸c˜oes, observemos que, por um lado, ω13(e1) = h11ω1(e1) + h12ω2(e1) = h11,
ω13(e2) = h12,
ω23(e1) = h21,
e, por outro lado, como dei=P j
ωijej,
de3(v) = ω31(v)e1+ ω32(v)e2,
para todo q ∈ U e todo v ∈ Tq(S). Portanto, escrevendo v = a1e1+ a2e2,
obteremos de3= µ a1 a2 ¶ = µ −h11 −h12 −h21 −h22 ¶ µ a1 a2 ¶ ,
isto ´e, (−hij) ´e a matriz da diferencial da aplica¸c˜ao e3: U → R3 na base
{e1, e2}. Como |e3| = 1, esta ´ultima aplica¸c˜ao toma valores na esfera
unit´aria S2 ⊂ R3. Fixemos orienta¸c˜oes em U e R3 e escolhamos o
refe-rencial {e1, e2, e3} de tal modo que, para todo q ∈ U, (e1)q(e2)q seja uma
base de Tq(S) na orienta¸c˜ao escolhida e (e1)q, (e2)q, (e3)q seja uma base
positiva de R3; um tal referencial ´e dito compat´ıvel com as orienta¸c˜oes de
U e R3. Neste caso, a aplica¸c˜ao e
3: U → S2 ⊂ R3 est´a completamente
definida e ´e chamada a aplica¸c˜ao normal de Gauss em U . Portanto (−hij)
´e a matriz da diferencial da aplica¸c˜ao normal de Gauss na base {e1, e2}.
Observe que quando S ´e orientada ´e poss´ıvel definir a aplica¸c˜ao normal de Gauss globalmente em S.
Como hij ´e uma matriz sim´etrica, conclu´ımos imediatamente que a
dife-rencial da aplica¸c˜ao normal de Gauss ´e uma aplica¸c˜ao linear auto-adjunta. Por um resultado de ´Algebra Linear, uma tal aplica¸c˜ao linear pode ser diagonalizada, com valores pr´oprios −λ1, −λ2 reais, e vetores pr´oprios
or-togonais. ´
E usual definir a curvatura Gaussiana K de S em p por K = det(de3)p= λ1λ2= h11h22− h212,
onde as fun¸c˜oes envolvidas est˜ao calculadas em p. Decorre da defini¸c˜ao de K que
dω12= ω13∧ ω32= −(h11ω1+ h12ω2) ∧ (h21ω1+ h22ω2) =
= −(h11h22− h212)ω1∧ ω2= −Kω1∧ ω2.
A express˜ao dω12 = −Kω1∧ ω2 permite demonstrar um dos teoremas
mais importantes da teoria das superf´ıcies, descoberto por Gauss.
Teorema(Gauss). K depende apenas da m´etrica induzida de S, isto ´e, se x, x0: S → R3 s˜ao duas imers˜oes de S tais que as m´etricas induzidas em S
por x e x0 coincidem, ent˜ao K(p) = K0(p), p ∈ S, onde K e K0 indicam as
curvaturas Gaussianas de x e x0, respectivamente.
Demonstra¸c˜ao: Considere um referencial {e1, e2} em um aberto U ⊂ M,
ortonormal na m´etrica induzida. Ent˜ao, {dx(e1), dx(e2)} pode ser
esten-dido a um referencial adaptado a V ⊃ x(U). Analogamente, {dx0(e 1),
dx0(e2)} pode ser estendido a um referencial adaptado em V ⊃ x(U).
Indi-caremos por 0 as entidades referentes `a imers˜ao x0. Como as m´etricas
in-duzidas por x e x0 coincidem, ω1= ω0
1 e ω2= ω20 . Pelo Lema 2, ω12= ω120 .
Decorre da´ı que
dω12= dω120 = −K ω1∧ ω2= −K0ω01∧ ω20
donde K = K0.
O Teorema de Gauss significa que a curvatura Gaussiana, embora tenha sido definida usando o espa¸co “ambiente” R3, s´o depende de medidas feitas
sobre a superf´ıcie. Isto levou Gauss em 1827 a imaginar a existˆencia de geometrias independentes do espa¸co ambiente. Por falta de conceitos aquados (particularmente da no¸c˜ao de variedade diferenci´avel), ele n˜ao de-senvolveu estas id´eias que foram retomadas por Riemann em 1852, dando in´ıcio ao que hoje chamamos de Geometria Riemaniana.
Exemplo 1. Considere a imers˜ao x : U ⊂ R2→ R3, onde U ´e dado por
U = {(s, v) ∈ R2; −∞ < x < ∞, 0 < v < 2π}
e x ´e dado por
x(s, v) = (h(s) sen v, h(s) cos v, g(s)).
as fun¸c˜oes h(s) e g(s) s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis em s que satisfazem a condi¸c˜ao¡dh
ds
¢2
+¡dgds¢2= 1. A imagem x(U ) ´e uma superf´ıcie de revolu¸c˜ao do eixo 0z cuja curva geratriz y = h(s), z = g(s) ´e parametrizada pelo comprimento de arco de s.
Vamos mostrar que a curvatura desta superf´ıcie de revolu¸c˜ao ´e K = −h00
h , onde linha indica derivada em rela¸c˜ao a s.
Observe inicialmente que v
h mede o comprimento de arco do c´ırculo
paralelo x (const., v). Portanto e1 = dx¡∂x∂ ¢, e2 = dx¡h1 ∂v∂ ¢ s˜ao vetores
ortonormais e tangentes a x(U ). Completando-os com um vetor e3unit´ario
e normal a x(U ), teremos um referencial adaptado e1, e2, e3. Em verdade,
para o c´alculo da curvatura, n˜ao precisaremos nos preocupar com o e3, e
basta calcular ω1, ω2, ω12.
´
E imediato verificar que ω1= ds, ω2= hdv. Usando que
0 = dω1= ω2∧ ω21= hdv ∧ ω21,
e que
h0ds ∧ dv = dh ∧ dv = dω2= ω1∧ ω12= ds ∧ ω12,
conclu´ımos que ω12 = h0dv. Levando estes valores na express˜ao dω12 =
−K ω1∧ ω2, obteremos finalmente
ou seja,
K = −h
00
h , que ´e a express˜ao procurada.
Em geral, entidades geom´etricas em S que podem ser calculadas a partir de ω1, ω2 e ω12 dependem apenas da m´etrica induzida de S no sentido
acima mencionado, e devem poder ser definidas sem fazer men¸c˜ao alguma `a imers˜ao x. Voltaremos a este assunto na Se¸c˜ao 1.9.
Pelo que vimos anteriormente, dada uma imers˜ao x : S → R3 ficam
definidas duas formas quadr´aticas em cada Tp(S), p ∈ S, da maneira
seguinte.
A primeira forma quadr´atica Ip´e simplesmente a forma quadr´atica
as-sociada `a forma bilinear h , ip isto ´e,
Ip(v) = hv, vi, v ∈ Tp(S).
Em um referencial local adaptado e1, e2, e3, a primeira forma quadr´atica
se escreve
Ip(v) = (ω1ω1+ ω2ω2)(v) = (ω12+ ω22)(v), (1)
onde ω1ω1, por exemplo, ´e o produto sim´etrico (e n˜ao exterior) de ω1com
ω1, isto ´e, ω1ω1(v) = ω1(v)ω1(v). Para verificar (1), escrevamos v = v1e1+
v2e2. Ent˜ao
Ip(v) = ω1(v)ω1(v) + ω2(v)ω2(v) = v12+ v22= hv, vi.
Portanto a primeira forma quadr´atica, isto ´e, a m´etrica induzida de S, se escreve
I = ω21+ ω22,
onde, como usualmente, deixamos cair a indica¸c˜ao do ponto p.
A segunda forma quadr´atica IIp´e definida em um referencial local
adap-tado e1, e2, e3por
IIp(v) = (ω13ω1+ ω23ω2)(v) =
X
ij
hijωiωj(v), i, j = 1, 2,
onde, de novo, os produtos de formas diferenciais s˜ao produtos sim´etricos. Para que a defini¸c˜ao fa¸ca sentido, ´e necess´ario que II n˜ao dependa do refe-rencial escolhido. Este ´e o caso quando S ´e orientada, pois, conforme vimos, (−hij) ´e ent˜ao a matriz da diferencial da aplica¸c˜ao normal de Gauss em um
referencial compat´ıvel com a orienta¸c˜ao. Em verdade, IIp(v) = −hde3(v), vip, v ∈ Tp(S).
Uma outra interpreta¸c˜ao geom´etrica de II, que ser´a generalizada pos-teriormente, ´e a seguinte. Seja U ⊂ S uma vizinhan¸ca de p e seja e1, e2,
e3 um referencial em U adaptado a x e compat´ıvel com a orienta¸c˜ao de S.
Ent˜ao, para todo q ∈ U e todo v ∈ Tq(S), temos
hdxq(v), (e3)qi = 0,
ou seja,
hdx, e3i = 0. (2)
A equa¸c˜ao (2) significa que se α : (−ε, ε) → U ´e uma curva em S parametrizada digamos, pelo comprimento de arco s, com α(0) = p e α0(0) = v, ent˜ao, escrevendo x ◦ α(s) = x(s), e3◦ α(s) = e3(s), teremos ¿ dx ds, e3(s) À = 0, donde ¿d2x ds2, e3(s) À¯¯¯ ¯ s=0 = − ¿dx ds, de3 ds À¯¯¯ ¯ s=0 = −hdx(v), de3(v)i = −hdx, de3i(v) = −hω1e1+ ω2e2, ω3e1+ ω32e2i(v) = hω, ω13+ ω2ω23i(v) = IIp(v) Portanto, IIp(v) = ¿ d2x ds2, e3(s) À¯¯¯ ¯ s=0 = hkn, e3i = khn, e3i,
onde k ´e curvatura de α e n ´e o seu vetor normal principal em p.
Esta ´ultima express˜ao ´e chamada a curvatura normal de α em p. Decorre da´ı que o valor da segunda forma quadr´atica em um vetor v ∈ Tp(S) ´e o
valor da curvatura normal de qualquer curva que ´e tangente a v em p (o que implica que tais curvas tˆem todas a mesma curvatura normal).
Um fato interessante ´e que as formas quadr´aticas I e II determinam a imers˜ao x : S → R3a menos de um movimento r´ıgido de R3. Voltaremos a
este assunto posteriormente, quando demonstraremos este resultado de uma maneira mais geral. No momento, queremos apenas chamar a aten¸c˜ao para o fato que isto significa que a geometria local da imers˜ao x est´a inteiramente contida nas formas quadr´aticas I e II e, portanto, nas equa¸c˜oes de estrutura que lhes deram origem.
A geometria da primeira forma quadr´atica, isto ´e, o estudo das entidades geom´etricas que s´o dependem da m´etrica induzida de S ´e chamada a ge-ometria intr´ınseca de S. Al´em da curvatura Gaussiana, um outro conceito que pode ser definido intrinsecamente ´e o de derivada covariante de campos de vetores, que passaremos a introduzir.
Seja X um campo diferenci´avel de vetores tangentes a S e seja v ∈ Tp(S),
p ∈ S. Seja α: (−ε, ε) → S uma curva parametrizada com α(0) = p, α0(0) = v. Restrito `a curva α, o campo X(α(t)) = X(t) ´e uma fun¸c˜ao
vetorial X : (−ε, ε) → R3. Define-se a derivada covariante ∇
vX de X em v
no ponto p por
(∇vX)(p) = proje¸c˜ao ortogonal sobre Tp(S) de
µ dX dt ¶ t=0 . Em outras palavras, (∇xX)(p) ´e a parte da derivada usual
¡dX
dt
¢
t=0 que ´e
“vista de Tp(S)”.
Para mostrar que a derivada covariante s´o depende da m´etrica induzida de S, consideremos um referencial local adaptado e1, e2, e3, definido em uma
vizinhan¸ca de p. Escrevamos X = x1e1+ x2e2e calculemos¡dXdt¢t=0, onde
X = X(t) ´e a restri¸c˜ao de X a uma curva α : (−ε, ε) → S com α(0) = p e α0(0) = v. Por simplicidade, deixaremos cair a indica¸c˜ao de t = 0 nas
express˜oes abaixo: µ dX dt ¶ t=0 =dx1 dt ei+ dx2 dt e2+ x1 de1 dt + x2 de2 dt =dx1 dt e1+ dx2 dt e2+ x1(ω12(v)e2+ ω13(v)e3) + x2(ω21(v)e1+ ω23(v)e3) = µ dx1 dt + x2ω21(v) ¶ e1 + µ dx2 dt + x1ω12(v) ¶ e2+ B e3,
onde o termo B n˜ao nos interessa. Decorre da´ı que (∇vX)(p) = µ dx1 dt + x2ω21(v) ¶ e1+ µ dx2 dt + x1ω12(v) ¶ e2,
o que mostra que ∇vX depende apenas da m´etrica induzida.
Observe-se que h∇ve1, e2i = ω12(v) e, portanto, a derivada covariante
permite reobter a forma de conex˜ao ω12. Neste sentido, a no¸c˜ao de derivada
covariante ´e equivalente `a no¸c˜ao de conex˜ao, e a geometria da primeira forma quadr´atica deve poder ser desenvolvida a partir de qualquer um destes dois conceitos.
1.4
O Teorema de Gauss-Bonnet para superf´ıcies compactas
As considera¸c˜oes do par´agrafo anterior s˜ao estritamente locais. Entretanto, um dos aspectos mais interessantes do m´etodo do referencial m´ovel ´e que ele permite a demonstra¸c˜ao de teoremas globais de dif´ıcil acesso por outros m´etodos. Ilustraremos esta situa¸c˜ao com a demonstra¸c˜ao do teorema de Gauss-Bonnet para superf´ıcies compactas do R3.
Seja S ⊂ R3 uma superf´ıcie compacta e orientada do R3. Seja p ∈ S e
V ⊂ R3uma vizinhan¸ca de p em R3tal que em V exista um referencial e 1,
e2, e3 adaptado a S e compat´ıvel com as orienta¸c˜oes de S e R3. Sejam ωi,
ωij as restri¸c˜oes a V ∩ S das formas do coreferencial associado a {ei} e das
formas de conex˜ao, respectivamente.
Primeiro, observamos que a forma ω1∧ ω2 n˜ao depende do referencial
escolhido (dentro da classe dos referenciais compat´ıveis com a orienta¸c˜ao de S), e ´e, portanto, definida globalmente em S. Com efeito, a forma ω1∧ ω2
aplicada a um par de vetores u = u1e1+ u2e2, v = v1e1+ v2e2 de Tp(S),
linearmente independentes e na orienta¸c˜ao de Tp(S), fornece
ω1∧ ω2(u, v) = ω1(u)ω2(v) − ω2(u)ω1(v) = u1v2− u2v1,
que ´e a ´area de paralelogramo formado por u e v. Por esta raz˜ao ω1∧ω2= σ
´e chamado o elemento de ´area de S.
Como S ´e compacta, podemos considerar a integral Z S K ω1∧ ω2= Z S K σ,
que ´e chamada a integral de K estendida a S. O teorema de Gauss-Bonnet afirma que este n´umero depende apenas da topologia de S.
Para mostrar isto, levamos em conta a express˜ao dω12= −K ω1∧ ω2
e procuramos integrar dω12 em S. Como ω12 n˜ao ´e globalmnete definida
em S, vamos primeiro estudar como muda esta forma por uma mudan¸ca de referencial.
Sejam ent˜ao e1, e2, e3 e ¯e1, ¯e2, ¯e3 = e3 referenciais compat´ıveis com a
orienta¸c˜ao de S e relacionados por ¯ e1= cos θ e1+ sen θ e2, ¯ e2= − sen θ e1+ cos θ e2, (1) De (1) decorre que ¯ ω1= cos θ ω1+ sen θ ω2, ¯ ω2= − sen θ ω1+ cos θ ω2,
donde, usando as equa¸c˜oes de estrutura,
d¯ω1= − sen θdθ ∧ ω1+ cos θdθ ∧ ω2+ cos θdω1+ sen θdω2
= dθ ∧ ¯ω2+ cos θ(ω2∧ ω21) + sen θ(ω1∧ ω12) = dθ ∧ ¯ω2+ ¯ω2∧ ω21= ¯ω2∧ (ω21− dθ). (2) Analogamente d¯ω2= ¯ω1∧ (ω12+ dθ). (3) Portanto, as formas ¯ ω12= ω12+ dθ, ω¯21= ω21− dθ = −¯ω12
s˜ao antisim´etricas e satisfazem as equa¸c˜oes (2) e (3). Pela unicidade do Lema 2 da Se¸c˜ao 1.2, elas s˜ao as formas de conex˜ao de S no referencial ¯e1,
¯ e2, ¯e3.
Passemos agora `a demonstra¸c˜ao do Teorema de Gauss-Bonnet. Seja v um campo diferenci´avel de vetores tangentes a S com um n´umero finito de pontos singulares p1, . . . , pk (isto ´e, v(pi) = 0, i = 1, . . . , k). Para cada
pi, seja Bi ⊂ S uma vizinhan¸ca de pi de tal modo que Bi n˜ao contenha
outro ponto singular al´em de pi e que ∂Bi seja uma curva fechada regular
orientada positivamente. Em S −S
i{p
i} podemos escrever ¯e1= |v|v · Como
S ´e orient´avel, podemos escolher em S −S
i{p
i} um referencial adaptado ¯e1,
¯
e2, ¯e3compat´ıvel com a orienta¸c˜ao de S. Ent˜ao, pelo teorema de Stokes,
Z S−SBi K ¯ω1∧ ¯ω2= − Z S−SBi d¯ω12= X i Z ∂Bi ¯ ω12. (4)
Quando Bi se aproxima de pi, a integral do primeiro membro tende
para a integral de K estendida a S (observe que ¯ω1∧ ¯ω2 n˜ao depende
do referencial). Nas mesmas condi¸c˜oes, entretanto, a integral do segundo membro depende do referencial ¯e1, ¯e2, ¯e3, que n˜ao est´a definido em pi.
Portanto, para calcular este limite, introduziremos, em uma vizinhan¸ca Ui⊃
Bi, um referencial adaptado e1, e2, ¯e3= ¯e3, compat´ıvel com a orienta¸c˜ao de
S e dado por (1). Em Ui− {pi}, ¯ω12= ω12+ dθ e portanto, pelo teorema
de Stokes, Z ∂Bi ¯ ω12= Z ∂Bi ω12+ Z ∂Bi dθ = Z ∂Bi dω12+ Z ∂Bi dθ = − Z ∂Bi Kω1∧ ω2+ Z ∂Bi dθ,
pois e1, e2, e3 est´a definido em Bi. Decorre da´ı que lim Bi→pi Z ∂Bi ¯ ω12= lim Bi→pi Z ∂Bi dθ. (5) Observe agora queR∂B
idθ ´e a integral em uma curva fechada da varia¸c˜ao
do ˆangulo θ que faz o campo v = |v| ¯e1 com o vetor e1. Como ambos, v e
e1, voltam `a sua posi¸c˜ao inicial, esta integral ´e um m´ultiplo inteiro Ii de
2π, isto ´e, Z
∂Bi
dθ = 2π Ii.
O n´umero inteiro Ii ´e chamado o ´ındice do campo v no ponto singular pi
e mede, intuitivamente o n´umero de “voltas” que o campo v d´a ao longo de ∂Bi. ´E poss´ıvel definir o ´ındice de maneira mais rigorosa e provar, ao
mesmo tempo, que ele n˜ao depende da escolha da curva ∂Bi, da escolha do
referencial {ei} e da maneira como S est´a mergulhada em R3(para detalhes
v. M. do Carmo [dC1]). Portanto lim Bi→pi Z ∂Bi dθ = 2π Ii. (6)
Juntando (4), (5) e (6), obteremos o seguinte resultado
Teorema. Seja S ⊂ R3 uma superf´ıcie compacta em R3 e seja K a sua curvatura Gaussiana. Seja v um campo diferenci´avel de vetores tangentes a S com um n´umero finito de pontos singulares p1. . . , pk. Ent˜ao a integral
de K estendida a S ´e igual a 2π vezes a soma dos ´ındices de v nos pontos pi, i = 1, . . . , k, isto ´e, Z
S
K σ = 2π Σ Ii. (7)
Como o primeiro membro de (7) n˜ao depende do campo v e o segundo membro n˜ao depende da m´etrica induzida, conclu´ımos que ambos os mem-bros dependem apenas da variedade S e permanecer´a o mesmo para todas que lhe sejam difeomorfas.
Observa¸c˜ao: Na demonstra¸c˜ao do teorema de Gauss-Bonnet utilizamos o fato que toda superf´ıcie compacta e orientada do R3 admite um campo diferenci´avel de vetores tangentes com um n´umero finito de pontos singu-lares. Isto ´e um fato geral que ´e v´alido em qualquer variedade diferenci´avel compacta (V. Lima [Li1], pg. 144). Para o caso de S ⊂ R3, poder´ıamos
obter uma demonstra¸c˜ao mais direta utilizando, por exemplo o Teorema de Sard para a aplica¸c˜ao normal de Gauss de S; uma outra demonstra¸c˜ao pode ser encontrada em M. do Carmo [dC4], pg. 174.
1.5
Subvariedades de um espa¸
co euclideano
Voltemos `as nossas considera¸c˜oes do fim da Se¸c˜ao 1.1. Seja x : Mn→ Rn+q
uma imers˜ao de uma variedade de dimens˜ao n em Rn+q. (De agora em
diante, usaremos um ´ındice superior quando quisermos indicar a dimens˜ao de uma variedade). Seja p ∈ M e U uma vizinhan¸ca de p em M na qual a restri¸c˜ao x|U seja injetiva. Seja V uma vizinhan¸ca de x(p) em Rn+q de tal
modo que x(U ) ⊂ V e que em V esteja definido um referencial adaptado e1, . . . , en, en+1, . . . , en+q. Pensaremos em x como uma inclus˜ao de U em
V ⊂ Rn+q e usaremos a mesma nota¸c˜ao para uma entidade em V ou a sua
restri¸c˜ao a U . De agora por diante, esta conven¸c˜ao ser´a usada sem maiores coment´arios.
Usaremos os seguintes tipos de ´ındices:
1 ≤ A, B, C, · · · ≤ n + q, 1 ≤ i, j, k, · · · ≤ n, n + 1 ≤ α, β, γ, · · · ≤ n + q.
Dado o referencial {eA} em V , definimos o coreferencial {ωA} e as formas
de conex˜ao ωAB em V por
dx = Σ ωAeA, (1)
deA= Σ ωABeB. (2)
As formas ωA e ωAB satisfazem as equa¸c˜oes de estrutura
dωA= Σ ωA∧ ωBA, (3)
dωAB= Σ ωAC∧ ωCB. (4)
As restri¸c˜oes das formas ωA, ωAB e U ⊂ V satisfazem ainda as equa¸c˜oes
(3) e (4), com a rela¸c˜ao adicional ωα= 0, para todo α. Esta ´ultima rela¸c˜ao
prov´em do fato que os vetores eα s˜ao normais a U , e portanto, para todo
q ∈ U e todo v = Σ viei∈ Tq(M ), tem-se
ωα(v) = ωα(Σ viei) = 0.
No que se segue s´o usaremos formas restritas a U . Como ωα= 0, temos
que
0 = dωα= Σ ωB∧ ωBα= Σ ωβ∧ ωβα+ Σ ωi∧ ωiα= Σ ωi∧ ωiα.
Pelo lema de Cartan, ωiα=
X
j
hα
A forma quadr´atica IIα=X i ωiωiα= X ij hαijωiωj
´e chamada a segunda forma quadr´atica de x na dire¸c˜ao eα.
Para cada p ∈ M, o espa¸co gerado pelos vetores de Rn+qque s˜ao normais
a dxp(Tp(M )) ´e chamado o espa¸co normal da imers˜ao x em p e indicado
por Np(M ). Um campo diferenci´avel de vetores normais ´e uma aplica¸c˜ao
diferenci´avel ν : M → Rn+q com ν(p) ∈ N
p(M ), p ∈ M. Dado um campo
diferenci´avel unit´ario de vetores normais ν : U ⊂ M → Rn+q, em uma
vizinhan¸ca U suficientemente pequena de p, podemos escolher um referen-cial adaptado {eA} em U de tal modo que en+1 = ν. A segunda forma
quadr´atica IIn+1´e chamada a segunda forma quadr´atica de x na dire¸c˜ao ν
e indicada por IIν.
O significado geom´etrico de IIν ´e obtido generalizando uma situa¸c˜ao
semelhante que encontramos no caso de superf´ıcies em R3. Para isto, seja
v ∈ TpM , |v| = 1, e consideremos uma curva α: (−ε, ε) → U parametrizada
pelo comprimento de arco s, com α(0) = p, α0(0) = v. Ent˜ao, como
hdα ds, νi = 0, ¿d2α ds2, ν À = − ¿dα ds, dν ds À = −hdx(v), dν(v)i = −hdx, dνi(v) = −¿ X i ωiei, X j ωn+1,jej+ X β ωn+1,βeβ À = −X i ωiωn+1,i= X ωiωi,n+1= IIν(v). (5)
Portanto, IIν(v) ´e a componente do vetor normal de α segundo o vetor
unit´ario ν. Decorre da´ı que IIν ´e independente da escolha do referencial.
Como a toda forma quadr´atica em um espa¸co vetorial est´a associada uma aplica¸c˜ao linear auto-adjunta, temos que, para todo p ∈ M e todo vetor unit´ario normal ν ∈ Np(M ), existe uma transforma¸c˜ao linear
auto-adjunta Aν: T
p(M ) → Tp(M ), tal que
IIν(v) = −hAν(v)vi,
para todo v ∈ Tp(M ). Por (5), ´e claro que
hAν(v), vi = hdν(v), dx(v)i,
e que a matriz de Aν em um referencial adaptado com e
n+1= ν ´e dada por
¡ − hn+1ij
¢ .
Vamos agora escrever as equa¸c˜oes de estrutura (3) e (4), tendo o cuidado de separar as partes tangenciais (´ındices i, j, . . . ) das partes normais (´ındices α, β, . . . ). Obteremos as equa¸c˜oes: dωi= X j ωj∧ ωji, (6) dωij= X k ωik∧ ωkj+ X α ωiα∧ ωαj, (7) dωiα= X j ωij∧ ωjα+ X β ωiβ∧ ωβα, (8) dωαβ= X j ωαj∧ ωjβ+ X γ ωαγ∧ ωγβ. (9)
Observe que as equa¸c˜oes (7) s˜ao semelhantes `as equa¸c˜oes de estrutura de um espa¸co euclideano, com um “termo de corre¸c˜ao” dado por
X
α
ωiα∧ ωαj = Ωij, Ωij= −Ωji.
Para esclarecer o significado das 2-formas Ωij, notemos que a imers˜ao
x : Mn → Rn+qdetermina uma m´etrica riemaniana h , i em M dada por:
hv1, v2ip= hdxp(v1), dxp(v2)i, p ∈ M, v1, v2∈ Tp(M ),
onde o produto interno do segundo membro ´e o produto interno usual do Rn+q. A m´etrica riemaniana h , i em M ´e chamada a m´etrica induzida por
x. A m´etrica induzida e a parte tangente {ei} do referencial determinam as
formas ωi, donde as formas dωi. Pelo Lema 2 da Se¸c˜ao 1.2, as formas ωij
ficam ent˜ao inteiramente determinadas pela imers˜ao, e o mesmo se verifica para as formas
Ωij= dωij−
X
k
ωik∧ ωkj.
Portanto, a matriz anti-sim´etrica de 2-formas (Ωij) depende apenas da
m´etrica induzida (e da escolha do referencial).
Isto sugere que a matriz (Ωij) ´e uma esp´ecie de medida de quanto a
m´etrica induzida deixa de ser euclidiana. (Ωij) ´e chamada a matriz das
formas de curvatura no referencial {ei}.
Observe que se Mn= Rn, Ω
ij = 0. Al´em disto, se x : M2→ R3, temos
que
Ω12= dω12− 0 = −K ω1∧ ω2,
o que mostra que (Ωij) generaliza a no¸c˜ao de curvatura Gaussiana de uma
Para associar um significado geom´etrico `a matriz das formas de cur-vatura, precisamos verificar como elas variam com uma mudan¸ca da parte tangente do referencial {ei} (a parte normal {eα} do referencial n˜ao afeta as
formas Ωij). Para isto ser´a conveniente usar a seguinte nota¸c˜ao matricial.
As matrizes das formas ωij e Ωij ser˜ao indicadas por W e Ω,
respecti-vamente, e o vetor coluna das formas ωi, por ω. As equa¸c˜oes de estrutura
(6) e (7) se escrevem ent˜ao
dω = W ∧ ω, dW = W ∧ W + Ω.
Uma mudan¸ca na parte tangente {ei} do referencial ser´a dada por ei =
Σ uije¯j, onde (uij) = U ´e uma matriz de fun¸c˜oes diferenci´aveis em M ;
al´em disso, U ´e ortogonal, isto ´e, U U∗ = identidade, onde U∗ indica a
matriz transposta de U .
Lema 1. Por uma mudan¸ca do referencial tangente {ei} dada por ei =
P
j
uije¯j, a matriz das formas de conex˜ao W muda por
W = d U U∗+ U W U∗, (10) e a matriz das formas de curvatura Ω muda por
Ω = U Ω U∗, (11) onde uma barra indica a entidade correspondente no referencial {¯ei}.
Demonstra¸c˜ao: De ei = P j uije¯j decorre que ωi = P j uijω¯j, isto ´e, ω = U ¯ω, e ent˜ao ¯ω = U∗ω. Portanto, dω = dU ∧ ¯ω + U d¯ω = dU ∧ (U∗ω) + U (W ∧ ¯ω) = (dU U∗+ U W U∗) ∧ ω. Decorre da´ı, pelo lema de unicidade, que
W = d U U∗+ U W U∗,
o que demonstra (10). Para demonstrar (11), observemos que d U U∗ =
−U(dU)∗ e passemos a calcular W ∧ W e dW . Obteremos
W ∧ W = (d U U∗+ U W U∗) ∧ (d U U∗+ U W U∗) = −d U U∗U ∧ (dU)∗− U W U∗U ∧ (dU)∗
+ d U U∗U ∧ W U∗+ U W U∗∧ U W U∗
e
dW = −dU ∧ (dU)∗+ dU ∧ W U∗− U W ∧ (dU)∗+ U∗dW∗∧ U. Portanto,
Ω = −W ∧ W + dW = −U W ∧ W U∗+ U d W U∗ = U (dW − W ∧ W )U∗= U Ω U∗,
o que demonstra (11).
Decorre do lema que, fixado p ∈ M, quando mudamos o referencial tangente {ei}, a matriz de formas
¡ (Ωij)p
¢
muda como a matriz de uma transforma¸c˜ao linear em Tp(M ). Portanto, fixados dois vetores X, Y ∈
Tp(M ), a matriz num´erica
©
(Ωij)p(X, Y )
ª
representa uma transforma¸c˜ao linear em Tp(M ), que indicaremos por
¡ RXY
¢
p: Tp(M ) → Tp(M ),
e que n˜ao depende do referencial tangente. RXY ´e chamado o operador de
curvatura da m´etrica induzida.
Passemos agora a analisar as equa¸c˜oes (9). Escrevevendo (9) na forma dωαβ= X γ ωαγ∧ ωγβ+ Ωαβ, onde Ωαβ= X i ωαi∧ ωiβ = −Ωβα,
vemos que elas possuem uma certa analogia formal com as equa¸c˜oes de estrutura de um espa¸co euclideano com um “termo de corre¸c˜ao” Ωαβ. Por
um racioc´ınio inteiramente an´alogo ao do Lema 1, verificaremos que a matriz de formas (ωαβ) = W⊥ e a matriz de formas (Ωαβ) = Ω⊥ se transformam,
por uma mudan¸ca da parte normal {eα} do referencial, de modo semelhante
`as formas W e Ω, respectivamente. Por esta raz˜ao, chamaremos ωαβ as
formas da conex˜ao normal e Ωαβ as formas da curvatura normal.
´
E claro que, fixados p ∈ M e dois vetores X, Y ∈ Tp(M ), a matriz
©
(Ωαβ)p(X, Y )
ª
determina uma transforma¸c˜ao linear¡R⊥ XY
¢
p: (Np(M ) →
Np(M ). R⊥XY ´e chamado o operador de curvatura normal da imers˜ao x.
Para o caso x : M2→ R4, podemos definir, por analogia com a curvatura
Gaussiana, uma fun¸c˜ao KN chamada curvatura normal da imers˜ao x por
Como no caso de superf´ıcies, as formas ωij possuem a seguinte
inter-preta¸c˜ao geom´etrica. Seja X um campo diferenci´avel de vetores tangentes em M , seja Y ∈ Tp(M ), e seja α : (−ε, ε) → M uma curva diferenci´avel com
α(0) = p e α0(0) = Y . Definamos ¡ ∇YX ¢ p= proj. sobre Tp(M ) de µ dX dt ¶ t=0 ,
onde t ´e o parˆametro da curva α. Em outras palavras, (∇YX)p´e a parte da
derivada usual¡dXdt¢t=0que ´e “vista de Tp(M )”. Vamos mostrar que ∇YX
s´o depende da m´etrica induzida em M por X.
Para isto, escolhamos um referencial adaptado {eA} em uma vizinhan¸ca
U ⊂ M e escrevamos X = Σ xiei, onde xi s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis em U .
Como dX dt = X i dxi dt ei+ X i xi dei dt =X j dxj dt ej+ X i xi X j ωij µ∂ ∂t ¶ ej+ X i xi X α ωiα µ∂ ∂t ¶ eα, temos que (∇YX)P = X j ½ dxj dt + X i ωij µ ∂ ∂t ¶ xi ¾ ej =X j © dxj(Y ) + X i ωij(Y )xi ª ej
o que mostra que ∇¡ YX s´o depende dos ωij e portanto da m´etrica induzida.
∇YX
¢
p´e chamada a derivada covariante do campo X segundo o vetor
Y no ponto p. Se X = ei, obteremos
h∇Y ei, eji = ωij(Y ),
o que fornece uma interpreta¸c˜ao geom´etrica das formas de conex˜ao ωij em
termos da deriva¸c˜ao covariante.
Uma interpreta¸c˜ao an´aloga pode ser dada `as formas de conex˜ao normal ωαβ: Seja η um campo diferenci´avel de vetores normais em M e y ∈ Tp(M ).
A derivada covariante normal (∇⊥
y η)p de η em rela¸c˜ao a y no ponto p ´e a
proje¸c˜ao sobre o complemento ortogonal Np(M ) de Tp(M ) da derivada usual
¡dη dt
¢
t=0. Como anteriormente, t ´e o parˆametro de uma curva diferenci´avel
α : (−ε, ε) → M, com α(0) = p, α0(0) = y.
De uma maneira inteiramente an´aloga `a anterior, verifica-se que ¡ ∇⊥yη ¢ p= X β © dηα(y) + X α ωαβ(y)ηα ª eβ, η = X α ηαeα,
isto ´e, ∇⊥
y η depende apenas das formas ωαβ. A interpreta¸c˜ao geom´etrica
das formas ωαβ´e obtida observando que, se η = eα, temos
h∇⊥y eα, eβi = ωαβ(y).
Finalmente, deve ser observado que as equa¸c˜oes de defini¸c˜ao Ωij= X α ωiα∧ ωαj, Ωαβ= X i ωαi∧ ωiβ,
relacionam as formas de curvatura da m´etrica induzida e as formas da cur-vatura normal com as segundas formas quadr´aticas de imers˜ao da seguinte maneira: Ωij = − X α © X ` hαi`ω`∧ X k hαjkωk ª =X k<` © X α (hα i`hαjk− hαikhαj`) ª ωk∧ ω` (12) e Ωαβ= − X i © X k hαikωk∧ X ` hβi`ω` ª =X k<` © X i (hαkih β i`− h β kih α i`) ª ωk∧ ω` (13)
As equa¸c˜oes (12) e (13) s˜ao chamadas as equa¸c˜oes de Gauss e as equa¸c˜oes de Ricci, respectivamente.
Tudo se passa como se a geometria da imers˜ao x se decompusesse em duas, uma geometria tangente e uma geometria normal, ligadas pelas segun-das formas quadr´aticas, isto ´e, as formas ωiα. Neste contexto, as equa¸c˜oes
(8) (Equa¸c˜oes de Codazzi) exprimem as diferenciais das formas ωiα (isto
´e, as segundas formas quadr´aticas) em termos das formas ωiα, da conex˜ao
tangente e da conex˜ao normal.
Exemplo 1(O toro de Clifford). Seja x : R2→ R4uma aplica¸c˜ao
diferen-ci´avel dada por
x(u, v) = (cos u, sen u, cos v, sen v), (u, v) ∈ R2. Como
dx = (− sen u du, cos u du, − sen v dv, cos v dv), teremos dx µ ∂ ∂u ¶ = (− sen u, cos u, 0, 0), dx µ ∂ ∂v ¶ = (0, 0, − sen v, cos v),
e portanto x ´e uma imers˜ao. Como x(u + 2nπ, v + 2mπ) = x(u, v), para n, m inteiros, a imagem x(R2) ´e um toro S1× S1⊂ R4.
Para estudar a geometria deste toro, escolhamos um referencial ortonor-mal e adaptado: e1= (− sen u, cos u, 0, 0), e2= (0, 0, − sen v, cos v), e3= 1 √
2(cos u, sen u, cos v, sen v), e4=
1 √
2(− cos u, − sen u, cos v, sen v). Como dx = Σ ωiei, conclu´ımos que
ω1= hdx, e1i = du, ω2= dv, ω3= 0, ω4= 0.
Para o c´alculo das ωij, calcularemos primeiro
de1= (− cos u du, − sen u du, 0, 0),
de2= (0, 0, − cos v dv, − sen v dv),
de3=
1 √
2(− sen u du, cos u du, − sen v dv, cos v dv), donde ω12= hde1, e2i = 0, ω13= hde1, e3i = −du√ 2 , ω14= hde1, e4i = du √ 2, ω23= hde2, e3i = −dv√ 2 , ω24= hde2, e4i = −dv√ 2 , ω34= hde3, e4i = 0.
De ω12= 0, conclu´ımos que a curvatura Gaussiana da m´etrica induzida
´e zero. De ω34 = 0, conclu´ımos que a curvatura normal KN da imers˜ao
tamb´em ´e zero.
Para o c´alculo das segundas formas quadr´aticas nas dire¸c˜oes e3 e e4,
faremos
ω13= h211ω1+ h312 ω2,
donde h3 11= −1√2, h312= h213 = 0, h322= −1√2, isto ´e, A2= −1 ±√ 2 0 0 −1±√2 . Analogamente, A4= 1±√2 0 0 −1±√2 .
Observe que e3 = √12x descreve uma esfera unit´aria, pois |x| =
√ 2. Portanto x(S1 × S1) est´a contida na esfera S√3
2 de raio
√
2 de R4 e o
referencial e1, e2, e4´e tangente a esta esfera, com e3 normal a x(S1× S1).
Como imers˜ao, x : S1 × S1 → S√3 2 em S
3 √
2, x descreve o chamado toro
de Clifford. Observe que ´e natural considerar A4 como a segunda forma
quadr´atica desta imers˜ao (uma defini¸c˜ao rigorosa ser´a dada na Se¸c˜ao 1.9) e que o tra¸co de A4 ´e zero. Como veremos na Se¸c˜ao 1.9, isto significa que o
toro de Clifford ´e uma superf´ıcie m´ınima da esfera S3.
1.6
Variedades riemanianas
As equa¸c˜oes de estrutura relativas a uma m´etrica induzida por uma imers˜ao, a saber,
dωi=
X
j
ωj∧ ωji, (1)
nos sugerem a possibilidade de desenvoler o m´etodo do referencial m´ovel para uma variedade riemaniana Mn. Seja p ∈ M um ponto de M e seja
U ⊂ M uma vizinhan¸ca de p em M, onde seja poss´ıvel definir campos diferenci´aveis de vetores e1, . . . , en tais que hei, eji = δij. O conjunto {ei},
i = 1, . . . , n, ser´a chamado um referencial (ortonormal, m´ovel) em U . Se-jam ωi formas diferenciais em U definidas por ωi(ek) = δij (o coreferencial
associado a {ei}). J´a vimos no Lema 2 da Se¸c˜ao 1.2 que se existirem formas
diferenciais ωij = −ωji satisfazendo (1), elas estar˜ao inteiramente
determi-nadas. Que tais formas existem a partir da m´etrica riemaniana de M ´e o conte´udo do lema seguinte.
Lema 1(Levi-Civitta). Escolhido um referencial {ei} em um aberto U ⊂ M
de uma variedade riemaniana M existe em U um (´unico) conjunto de formas diferenciais ωij que s˜ao anti-sim´etricas, ωij = −ωji, e satisfazem (1).
Demonstra¸c˜ao: Fa¸camos dωj(ek, ei) = Ajki, isto ´e,
dωj=
X
k<i
Queremos determinar fun¸c˜oes Ci
kj= −Cjki tais que as formas diferenciais
ωkj=
X
i
Ckji ωi (2)
satisfa¸cam (1). Se tais fun¸c˜oes existirem, teremos dωj = X k<i Ajkiωk∧ ωi= X k ωk∧ ωkj= =X k ωk∧ ¡ X i Ci kjωi ¢ =X k<1 (Ci kj− Cijk) ωk∧ ωi.
Igualando os coeficientes de termos correspondentes nas equa¸c˜oes acima, temos Ajki= Ci kj− Cijk , Ak ij = C j ik− Cjki , Ai ij = Ckij − Cjik .
Adicionando membro a membro as igualdades acima, obteremos a seguinte condi¸c˜ao necess´aria para a existˆencia dos Ci
kj: Ckji = 1 2(A j ki+ A k ij+ Aikj). Definindo Ci
kjpela equa¸c˜ao acima e as formas ωij por (2), verificamos
facil-mente que elas satisfazem as condi¸c˜oes pedidas.
As formas ωij s˜ao chamadas as formas de conex˜ao de M no referencial
{ei}. O interesse geom´etrico das formas de conex˜ao ´e que elas permitem
definir uma no¸c˜ao de deriva¸c˜ao para campos de vetores em M . Observe-se que em uma variedade diferenci´avel, podemos derivar fun¸c˜oes, por´em n˜ao campos de vetores. O conte´udo do Lema 1 e da proposi¸c˜ao seguinte ´e que em uma variedade riemaniana uma tal deriva¸c˜ao ´e bem definida.
Proposi¸c˜ao 1. Sejam X e Y campos diferenci´aveis de vetores em M e seja {ei} um referencial em um aberto U ⊂ M. Suponhamos que Y =P
i yiei e fa¸camos ∇XY = X j © dyj(X) + X i ωij(X)yi ª ej. (3)
Ent˜ao ∇XY ´e independente do referencial {ei} e, portanto, globalmente
definido em M .
Demonstra¸c˜ao: Ser´a conveniente usar a nota¸c˜ao matricial estabelecida no par´agrafo anterior, com as adi¸c˜oes seguintes. e = (e1, . . . , en) ser´a uma
matriz linha e y = (y1, . . . , yn) ser´a uma matriz coluna; assim Y = ey. Se
¯
e ´e um outro referencial, fa¸camos e = ¯eU∗; assim y = U ¯y. Com uma tal
nota¸c˜ao, a equa¸c˜ao (3) se escreve
∇XY = e(dy(X) + W∗(X)y).
Como X n˜ao ir´a interferir nos c´alculos, vamos abandon´a-lo nas express˜oes abaixo. Inicialmente, observemos que
dy = dU ¯y + U d¯y, e que, da equa¸c˜ao (10) do par´agrafo anterior, vem
W∗y = U (dU )∗y + U W∗U∗y = −dUU∗y + U W∗U∗y = −dU ¯y + UW∗y.¯ Portanto
e(dy + W∗y) = e(dU ¯y + U d¯y − dU ¯y + UW∗y)¯
= eU d¯y + eU W∗y = ¯¯ e(d¯y + E∗y),¯ o que mostra que (3) n˜ao depende da escolha do referencial {ei}.
∇XY ´e chamada a derivada covariante de Y em rela¸c˜ao a X. Que ela ´e
uma deriva¸c˜ao “de boa qualidade” ´e garantido pelos quatro primeiros itens da seguinte proposi¸c˜ao.
Proposi¸c˜ao 2. Sejam X, Y , Z campos diferenci´aveis de vetores em M , f , g fun¸c˜oes diferenci´aveis em M e a, b n´umeros reais. Ent˜ao:
1) ∇f X+gZY = f ∇XY + g ∇ZY ,
2) ∇X(aY + bZ) = a ∇XY + b ∇XZ,
3) ∇X(f Y ) = f ∇XY + X(f )Y ,
4) h∇XY, Zi + hY, ∇XZi = X(hY, Zi),
5) Se p ∈ M, (∇XY )(p) s´o depende do valor de X no ponto p e dos
valores de Y ao longo de uma curva parametrizada α :(−ε,ε)→M, com α(0) = p, α0(0) = X(p).
Demonstra¸c˜ao: Verifica¸c˜ao direta a partir da defini¸c˜ao (3). Os detalhes podem ser deixados como exerc´ıcios.
Uma observa¸c˜ao importante ´e que a deriva¸c˜ao covariante permite inter-pretar geometricamente as formas de conex˜ao. Com efeito, de (3) decorre que, para todo campo X,
Portanto ωij(ek) = h∇ekei, eji.
Conv´em estender a no¸c˜ao de derivada covariante para campos de vetores definidos ao longo de uma curva parametrizada α : (a, b) → M da maneira seguinte. Um campo diferenci´avel de vetores ao longo de α ´e uma corre-spondˆencia que a cada t ∈ (a, b) associa um vetor Y (t) ∈ Tα(t)(M ) de tal
modo que escolhendo um referencial {ei} em torno de α(t), as fun¸c˜oes yi(t)
dadas por Y (t) = Σ yi(t)ei sejam diferenci´aveis; ´e claro que esta condi¸c˜ao
n˜ao depende do referencial escolhido. Pelo item (5) da Proposi¸c˜ao 2, a express˜ao DY dt = X j ( dyj dt + X i α∗ω ij µ∂ ∂t ¶ yi ) ej = ∇ dα¡∂ ∂t ¢Y (t)
est´a bem definida, e ´e chamada a derivada covariante de Y ao longo de α. Um campo Y ao longo de α ´e paralelo se DY
dt ≡ 0. Uma curva α ´e uma
geod´esica se o seu campo de vetores tangentes (que ´e um campo ao longo de α) ´e paralelo, isto ´e, se D
dt dα
dt ≡ 0.
A condi¸c˜ao para que o campo Y (t) = Σ yi(t)ei seja paralelo, isto ´e,
dyi dt + X j α∗ωji µ∂ ∂t ¶ yj= 0, i = 1, . . . , n,
´e evidentemente um sistema de equa¸c˜oes diferenciais lineares em yi(t).
De-corre da´ı que dado Y0 ∈ Tα(t0)(M ) existe um e um ´unico campo paralelo
Y (t) ao longo de α com Y (t0) = Y0. O campo Y (t) assim obtido ´e chamado
o transporte paralelo de Y0em α.
Se uma curva parametrizada γ : (a, b) → M ´e uma geod´esica, ent˜ao, pelo item (4) da Proposi¸c˜ao 1, d dthγ 0(t), γ0(t)i = 2 hDγ0(t) dt , γ 0(t)i = 0
isto ´e, o vetor tangente γ0(t) tem comprimento constante. Observe,
entre-tanto, que γ pode ter auto-intersec¸c˜oes.
Os seguintes fatos sobre geod´esicas ser˜ao apresentados sem demons-tra¸c˜oes. As demonstra¸c˜oes dependem dos teoremas de existˆencia, unicidade e dependˆencia das condi¸c˜oes iniciais das equa¸c˜oes diferenciais ordin´arias e podem ser encontradas em M. do Carmo [dC ].
Para todo ponto p ∈ M e todo vetor v ∈ Tp(M ) existe uma ´unica
geod´esica γ(t; p, v) definida em um intervalo (−ε, ε) e satisfazendo `as con-di¸c˜oes: γ(0; p, v) = p, γ0(0; p, v) = v; uma tal geod´esica ´e homogˆenea no
γ¡t λ; p, v ¢ est´a definida em t ∈¡−ε λ, ε λ ¢ e λ µ t λ; p, v ¶ = γ(t; p, λv), λ ∈ R.
Al´em disso, fixado p ∈ M, o ponto γ(1; p, v) est´a definido para todo v pertencente a uma bola aberta Bη(0) ⊂ Tp(M ), centrada na origem de
Tp(M ), e varia diferenciavelmente com v.
Os fatos acima permitem definir uma aplica¸c˜ao diferenci´avel expp: Bη(0) ⊂ Tp(M ) → M
chamada a aplica¸c˜ao exponencial em p, dada por expp(v) = γ(1; p, v).
Observe que expp(0) = p e que a diferencial de expp na origem ´e dada por
(d expp)0(v) = d dtγ(1; p, tv) ¯ ¯ ¯ ¯ t=0 = d dtγ(t; p, v) ¯ ¯ ¯ ¯ t=0 = γ0(0, p, v) = v.
Pelo teorema da fun¸c˜ao inversa, expp ´e um difeomorfismo em uma
vizi-nhan¸ca V da origem de Tp(M ). A imagem expp(V ) = U ´e chamada uma
vizinhan¸ca normal de p ∈ M. As geod´esicas de U que passam por p s˜ao chamadas geod´esicas radiais da vizinhan¸ca normal U . Note que todo q ∈ U ´e ligado a p em U por uma ´unica geod´esica radial.
Dada uma curva α : (a, b) → M parametrizada pelo comprimento de arco, o campo D
ds dα
ds ao longo de α mede o quanto α deixa de ser geod´esica.
O valor de D ds
dα
ds ´e chamado o vetor curvatura geod´esica de α em M .
Passemos agora `a introdu¸c˜ao da curvatura em uma variedade riemani-ana. Motivados pela Se¸c˜ao anterior, definiremos
Ωij= dωij−
X
k
ωik∧ ωkj. (5)
As formas Ωij s˜ao chamadas as formas de curvatura de M no referencial
{ei}. O significado geom´etrico de tais formas ´e inteiramente an´alogo ao das
formas Ωij da Se¸c˜ao anterior, isto ´e, para cada p ∈ M e cada par de vetores
X, Y ∈ Tp(M ), a matriz
©
(Ωij)p(X, Y )
ª
´e a matriz de uma aplica¸c˜ao linear ¡
RXY¢p: Tp(M ) → Tp(M ).
RXY ´e chamado o operador de curvatura de M . Como Ωij = −Ωji, e
operador de curvatura: Se X, Y , Z e T s˜ao campos diferenci´aveis de vetores em M , ent˜ao
hRXYZ, T i = −hRY XZ, T i, (6)
hRXYZ, T i = −hRXYT, Zi. (7)
Derivando exteriormente as equa¸c˜oes (1), obteremos 0 =X k dωk∧ ωkj− X k ωk∧ dωkj =X ki ωi∧ ωik∧ ωkj− X i ωi∧ dωij =X i ωi∧ ¡ X k ωik∧ ωkj− dωij ¢ = −X i ωi∧ Ωij ou seja X i ωi∧ Ωij= 0. (8)
A equa¸c˜ao (8) ´e chamada a primeira identidade de Bianchi. Em termos do operador curvatura, ela se traduz da maneira seguinte. Se X, Y e Z s˜ao campos diferenci´aveis de vetores em M , ent˜ao, para todo j = 1, . . . , n,
0 =X i ωi∧ Ωij(X, Y, Z) =X i © ωi(X)Ωij(Y, Z) − ωi(Y )Ωij(X, Z) + ωi(Z)Ωij(X, Y ) ª = hRY ZX − RXZY + RXYZ.eji, donde RXYZ + RY ZX + RZXY = 0. (8’)
De (8’) e (7) decorre a seguinte identidade
hRXYZ, T i = hRZTX, Y i (9)
que pode ser demonstrada da maneira seguinte: a partir de (8), obtemos hRXYZ, T i + hRY ZX, T i + hRZXY, T i = 0,
hRY ZT, Xi + hRZTY, Xi + hRT YZ, Xi = 0,
hRZTX, Y i + hRT XZ, Y i + hRXZT, Y i = 0,
Somando as equa¸c˜oes acima, conclu´ımos que
2hRZXY, T i + 2hRT YZ, Xi = 0,
donde, usando (7),
hRZXT, Y i = hRT YZ, Xi,
que ´e equivalente `a express˜ao (9).
Derivando exteriormene a equa¸c˜ao (5), obteremos 0 =X k dωik∧ ωkj− X k ωik∧ dωkj+ dΩij =X k ¡ X s ωis∧ ωsk+ Ωik¢∧ ωkj −X k ωik∧ ¡ X m ωkm∧ ωmj+ Ωkj ¢ + dΩij = dΩij+ X k Ωik∧ ωkj− X k ωik∧ Ωkj, (10)
que ´e chamada a segunda identidade de Bianchi.
Como as formas Ωij s˜ao formas de grau dois, elas podem ser escritas
Ωij = − 1 2 X k` Rijk`ωk∧ ω`= − X k<` Rijk`ωk∧ ω`.
As fun¸c˜oes Rijk` s˜ao chamadas as componentes do tensor curvatura de M .
Veremos na pr´oxima se¸c˜ao o significado desta express˜ao. ´E claro que hRek,e`(ei), eji = Ωji(ek, e`) = − 1 2 X s,t Rjistωs∧ ωt(ek, e`) = Rijk` = hReiej(ek), e`i.
As formas de curvatura permitem definir v´arios tipos de curvatura em M , o mais importante sendo a curvatura seccional que passaremos a intro-duzir. Seja P ⊂ Tp(M ) um subespa¸co de dimens˜ao dois do espa¸co tangente
Tp(M ) de M em p ∈ M. Escolhamos um referencial ortonormal e1, . . . , en
em uma vizinhan¸ca de p de tal modo que e1, e2 geram P . Vamos mostrar
que o n´umero¡Ω12¢p(e1, e2) depende apenas do subespa¸co P .
Para isto, seja ¯e1, . . . , ¯en um outro referencial em torno de p de modo
¯
e1, ¯e2 ainda geram P . Ent˜ao ei = Σ uij¯ej, onde a matriz U = (uij) ´e da
forma U = A 0 0 B
e A = cos θ sen θ − sen θ cos θ ou A = − sen θ cos θ cos θ sen θ
dependendo da orienta¸c˜ao de ¯e1, ¯e2relativamente a e1, e2. Pelo Lema 1 da
Se¸c˜ao 1.5, Ωij= X k` uikΩk`uj`, donde Ω12= X k` u1ku2`Ωk`= ±¡cos2θ Ω12− sen2θ Ω21¢= ± Ω12
onde o sinal depende da orienta¸c˜ao. Portanto
Ω12(e1, e2) = ± Ω12(e1, e2) = Ω12(¯e1, ¯e2),
qualquer que seja a orienta¸c˜ao adotada, o que prova o afirmado. O n´umero Kp(P ) = −(Ω12)p(e1, e2) = h(Re1e2)p(e1), e2i
´e chamado a curvatura seccional de M em p segundo P .
Para obter a express˜ao da curvatura seccional em termos do operador de curvatura, tomemos dois vetores linearmente independentes X, Y ∈ P ⊂ Tp(M ), e um referencial ortonormal {ei} tal que e1, e2 gerem P . Ent˜ao
X = x1e1+ x2e2, Y = y1e1+ y2e2, e, por linearidade e pelas rela¸c˜oes
de simetria (6) e (7),
hRXYX, Y i = hRx1e1+x2e2,y1e1+y2e2x1e1+ x2e2, y1e1+ y2e2i
= (x1y2− x2y1)hRe1e2x1e1+ x2e2, y1e1+ y2e2i
= (x1y2− x2y1)2hRe1e2e1, e2i = (A(X, Y ))
2K(P ),
onde A(X, Y ) ´e a ´area do paralelogramo formado por X e Y . Portanto K(P ) =hRXYX, Y i
(A(X, Y ))2 · (11)
Diz-se que uma variedade riemaniana M ´e isotr´opica em p ∈ M se todas as curvaturas seccionais em p tˆem o mesmo valor, isto ´e, se Kp(P )
n˜ao depende de P ⊂ Tp(M ).
Proposi¸c˜ao 3. Seja M uma variedade riemaniana, p um ponto de M e {ei} um referencial em uma vizinhan¸ca de p. Ent˜ao M ´e isotr´opica em p
se e s´o se
Demonstra¸c˜ao: Sejam X = Σ xiei e Y = Σ yiei dois vetores linearmente
independentes de Tp(M ). Por linearidade,
h(RXY)X, Y i =
X
i,j,k,`
Rijk`xiyjxky`.
Por outro lado,
(A(X, Y ))2= |X|2|Y |2− hX, Y i2 = à X ik δikxixk ! X j` δj`yjy` − X ij δijxiyj à X k` δk`xky` ! = X i,j,k,` (δikδj`− δijδk`)xixkyjy`.
Suponhamos agora que M seja isotr´opica em p, isto ´e, para todo X, Y ∈ Tp(M ), hRXYX, Y i = Kp(A(X, Y ))2, ou seja, X i,j,k,` xiyjxky`= Kp X i,j,k,` (δikδj`− δijδk`)xiyjxky` , para todo X, Y .
Afirmamos que isto implica que (note a mudan¸ca de ´ındices no lado direito da igualdade)
Rijk`= Kp(δikδj`− δkjδi`).
Para provar nossa afirma¸c˜ao, escolha:
X = (0, . . . , 0,1, 0, . . . ,i k1, 0, 0, . . . ), Y = (0, . . . , 0,1, 0, . . . ,j 1, 0, 0, . . . ).` Ent˜ao,
1 = xixkyjy`= xkxiyjy`= xixky`yj= xkxiy`yj,
e todos outros produtos s˜ao nulos. Segue-se que Rijk`= Kp(δikδj`− δijδk`).
Da express˜ao acima, obt´em-se
2(Rijk`+ Rkji`) = Kp[δikδj`− δijδk`] + [δkiδej− δk`δij]
+ [δkiδj`− δi`δkj] + [δkiδj`− δkjδi`],
donde
Rijk`+ Rkji`= Kp[2δikδj`− δijδk`− δkjδi`] (i)
De (i), conclu´ımos
Rkij`+ Rjik`= Kp[2δkjδi`− δkiδj`− δjiδk`]. (ii)
Finalmente, escrevemos a igualdade de Bianchi,
Rijk`+ Rkij` Rkji`= 0. (iii)
Se agora tomarmos a soma (i) + (iii) − (ii), obteremos Rijk` = Kp(δikδj`− δkjδi`),
como hav´ıamos afirmado. Portanto, Ωij = − 1 2 X k` Rijk`ωk∧ ω` = −X k` Kp(δikδj`− δijδk`) ωk∧ ω`= −Kpωi∧ ωj.
Revertendo os passos do argumento, provaremos a rec´ıproca.
Diz-se que uma variedade riemaniana M tem curvatura constante se Kp(P ) n˜ao depende de p e de P . O resultado seguinte ´e surpreendente e
mostra que se dim M ≥ 3, a isotropia de M em todos os seus pontos implica na constˆancia da curvatura de M .
Teorema (Schur). Seja Mn uma variedade riemaniana conexa, n ≥ 3.
Suponha que M ´e isotr´opica para todo p ∈ M. Ent˜ao M tem curvatura constante.
Demonstra¸c˜ao: Diferenciando a rela¸c˜ao (12), obteremos dΩij = −dKp∧ ωi∧ ωj− Kpdωi∧ ωj+ Kpωi∧ dωj.
Por outro lado, a segunda identidade de Bianchi (10) e as equa¸c˜oes de estrutura fornecem dΩij = − X k Ωik∧ ωkj+ X k ωik∧ Ωkj =X k Kpωi∧ ωk∧ ωkj− X k Kpωik∧ ωk∧ ωj = Kpωi∧ dωj− Kpdωi∧ ωj.