Moção
Orçamento do Estado para 2017
O Orçamento do Estado (OE) para 2016 ficou marcado pelo mote de “Modernizar, Qualificar e Diversificar o Ensino Superior e Ciência” que tinha como principal objetivo, a médio-prazo, a realização das metas traçadas pela estratégia Europa 2020, nomeadamente os 40% de diplomados na faixa etária dos 30-34 anos. Este ainda distante objetivo, por razão de o número total de diplomados em Portugal, no ano de 2015, ser de 76 8921, que corresponde a aproximadamente 32% e a convergência para a média europeia do investimento em Investigação e Desenvolvimento, situada em 2% do PIB2.
De facto, o OE de 2016 representou uma ligeira melhoria relativamente ao OE de 2015 pelas suas principais linhas de ação: um crescimento relativo à dotação orçamental para a ciência, tecnologia e Ensino Superior, um reforço da autonomia das Instituições do Ensino Superior (IES) e a ideia de participação pública das instituições científicas e académicas no desenvolvimento do país. Pretende o Movimento Associativo Estudantil fazer um balanço da execução orçamental do OE de 2016 nos três pilares supracitados, explicitando as medidas orientadoras que devem ser mantidas e complementadas para 2017, bem como enquadrar matérias de definição estratégica que devem ser executadas, com vista a garantir a sustentabilidade económica do sistema, bem como o cumprimento da sua missão social.
Em 2016, em termos globais, a Despesa Total Consolidada do Programa de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior atingiu os 2.256M€, mais 77,6M€ (3,6%) do que a do ano de 2015. Do seu total só 40,5% provém do Estado, sendo o restante proveniente dos Serviços de Fundos Autónomos e das Entidades Públicas Reclassificadas. Todavia, apesar do aumento das verbas estatais para o Ensino Superior (2,6% face a 2015), a estagnação da dotação orçamental para as IES, mesmo sendo uma inversão na curva do financiamento comparativamente com anos transatos, levou a um entrave ao seu pleno desenvolvimento e foram tímidos os avanços durante o ano letivo da corresponsabilização das instituições científicas e académicas no desenvolvimento do país, concluindo-se que a mudança de paradigma efetuada pelo OE 2016 fica aquém do necessário para atingir os objetivos da Europa 2020. Não obstante, o reinvestimento público que fez face ao claro défice de financiamento estrutural, já é posição política de grupos parlamentares fazer depender o apoio ao OE 2017 do aumento da verba estatal para Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Em concordância e sob as premissas do alargamento da base social do Ensino Superior, da consolidação do seu papel institucional de principal veículo para a mobilização social ascendente e democratização do acesso
1 Fonte: Eurostat
ao conhecimento como via para a consolidação da sociedade do conhecimento estruturada na cultura e conhecimento científico, o movimento associativo estudantil considera fundamental o reforço das transferências financeiras estatais para Ensino Superior e Ciência como via para a consolidação orçamental do setor, bem como para a legitimação do contrato de confiança que se pretende estabelecer com as instituições científicas e de Ensino Superior.
Analisando detalhadamente as matérias de Ensino Superior, regista-se uma variação positiva face ao Orçamento do Estado transato. A dotação orçamental prevista no OE 2016 aumentou 2,6% comparativamente com a dotação orçamental 2015, o que se traduz num aumento absoluto de 28,6M€ na dotação orçamental do Ensino Superior. Nas despesas por classificação económica destacam-se as despesas correntes, detendo 87,5% do total de despesas. De facto, as despesas com pessoal constituem a maioria deste último valor (56,8% do total), seguindo das transferências correntes (16,6%), onde se inclui o Fundo de Ação Social e bolsas de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e IES. Assim, 65,6% dos recursos disponibilizados seriam para as IES e 20% para a investigação científica, sendo a FCT a entidade mais relevante. Contrariamente ao expectável em função do enquadramento orçamental, o aumento da dotação orçamental das IES não ocorreu, avançando-se como justificação a constituição de um modelo de orçamento plurianual no ano de 2017. Por consequente, no OE de 2017 fará sentido aumentar a dotação orçamental de cada IES de forma a suprir o estado de subfinanciamento em que se encontram.
Durante a execução orçamental patente para este ano letivo, foi mais que uma vez referida a vontade de planear um quadro de financiamento plurianual (2017-2019), sendo que o Ministério da Ciência, Tecnologia do Ensino Superior (MCTES) já ouviu o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) e o Conselho Coordenador dos Institutos Superior Politécnicos (CCISP). Um financiamento plurianual promove, acima de tudo, uma maior estabilidade, reforço no equipamento e infraestruturas e promoção de redes e consórcios. Importa reforçar que não seja novamente descurada a definição e implementação da medida, inclusive incluída no pacto de confiança proposto no programa governamental da atual Legislatura. Todavia, ainda não foi esclarecido em que moldes funcionaria este quadro de financiamento, sendo de extrema importância, em primeiro lugar, a efetiva constituição de um orçamento plurianual e, seguidamente, da clarificação dos trâmites do mesmo.
No seguimento da proposta apresentada no Encontro Nacional Direções Associativas Vila Real 2016, intitulada de Uniformização das Taxas e Emolumentos e sendo de extrema importância fixar este regulamento, já previsto em Diário da República, considerou-se que “...a existência de um
regulamento nacional e geral que uniformize o valor das taxas e emolumentos a pagar pelos estudantes é uma reforma positiva, que vem colmatar os constantes abusos da autonomia das IES que utilizam os valores cobrados a esse título sem critério, com o objetivo único de conseguir mais financiamento, aproveitando-se do vazio legal existente até então.”. Uma vez que não foi obtida
resposta por parte do MCTES, importa reforçar o significado da eliminação destas taxas e emolumentos tão nocivos para o estudante do Ensino Superior antes da proposta de OE de 2017 visto que terá uma influência direta no reforço da dotação orçamental para cada uma das IES.
Com o objetivo de alargar os públicos do Ensino Superior, o Ministro Manuel Heitor, em discurso proferido a 2 de setembro de 2016, avançou o reforço orçamental para a Ação Social como aposta nuclear no OE 2017, delineando como objetivo a atribuição de 70 000 bolsas por ano a estudantes economicamente carenciados. A dotação orçamental prevista para a pasta em questão no OE 2016 aumentou em 18,6M€ comparativamente ao ano anterior, aumento que se deve a uma dotação a uma maior contribuição dos Fundos Comunitários. Este aumento destacou-se pela positiva e ainda mais positivo é o compromisso de reforço a que se dispôs o Ministério para o próximo Orçamento do Estado. Paralelamente ao reforço mencionado, deverá o sistema de ação social escolar ser repensado de forma a ser otimizado e dar resposta às reais necessidades dos estudantes, rompendo com o paradigma da ação social escolar como instrumento de financiamento do próprio Estado.
Ao longo do último mandato procurou apostar-se numa maior autonomia para as Instituições científicas e de Ensino Superior no compromisso para a legislatura entre o Governo e as IES. A par de uma maior responsabilização financeira das mesmas, continua a verificar-se uma redução do número de docentes e, como consequência da não renovação deste corpo, o seu envelhecimento. Ainda assim, os quadros de docência foram alvos de mudanças, procurando aumentar o seu nível de qualificação, tal como o decreto-lei aprovado pelo Governo a 28 de julho que permitiu um regime transitório a cerca de 400 docentes dos Institutos politécnicos por forma a concluírem o grau de doutoramento. Com o estreito trabalho em conjunto com a Fundação para a Ciência e Tecnologia o MCTES conseguiu criar neste primeiro período da sua legislatura um novo paradigma de combate à precariedade do emprego científico que avança no bom caminho embora tenham que ser dados passos largos na sua elaboração.
O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior afirmou que no próximo ano e meio está prevista a alocação de cerca de 70 milhões de euros para projetos de investigação e desenvolvimento no ensino politécnico, assim como para a modernização de equipamentos para os Cursos Técnicos Superiores Profissionais. Afirma também que estão previstas verbas da Fundação para a Ciência e Tecnologia por forma a estimular o emprego científico assim como de fundos estruturais da União Europeia. Um reforço que pauta pela sua importância no estímulo à ciência em Portugal e que vai de encontro aos vários projetos e compromissos para o culminar de uma cultura de conhecimento.
Por forma a combater a precariedade no emprego científico, Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior anunciou, no Dia Nacional do Estudante, a aprovação do diploma que permite a substituição gradual da atribuição de bolsas de pós-doutoramento por contratos de investigadores. O ministro afirmou tratar-se de um processo complexo a cumprir progressivamente no prazo da legislatura. Por conseguinte, será fundamental ter em conta este processo naquelas que serão as linhas de ação para o Orçamento de Estado de 2017, movendo fundos e esforços para que a precariedade sentida pelos bolseiros não se perpetue para os investigadores contratados. Não só as Instituições e os parceiros sindicais deverão ser auscultados no tratamento do processo e sua regulamentação, mas também os próprios estudantes e respetivas Associações. A nova medida é de especial relevo para a fixação dos recentes diplomados em Portugal, mas para isso o Orçamento de Estado para 2017 deverá ter em conta os ajustes das condições salariais necessárias à substituição
em questão. Segundo a previsão avançada por Manuel Heitor, os números ficam muito aquém dos ideais face à dimensão do problema, sendo que os contratos propostos abrangerão cerca de 329 doutorados, apenas 14% dos atuais bolseiros de pós-doutoramento. Desta forma, também o Orçamento de Estado para 2017 deverá contemplar uma solução para a insuficiência destes números. Adicionalmente, no dia 16 de Julho, o Governo e as IES formalizaram o contrato para a legislatura que permitiria às Instituições a contratação de mais 3000 professores e investigadores até 2020 no âmbito do “Compromisso com o Conhecimento e a Ciência 2016”, associado a uma ideia de rejuvenescimento do quadro docente. Estão em causa várias fontes de financiamento nomeadamente na libertação de verbas de acesso restrito. Ao abrigo de regime transitório, também cerca de 600 professores dos politécnicos irão entrar nos quadros até ao final de 2018.
O contrato de legislatura assinado entre o Governo, o CRUP e várias instituições universitárias e politécnicas visam definir um novo regime legal e programa de estímulo ao emprego científico, incentivando a contratação responsável de doutorados e evitando a precariedade do trabalho qualificado. Procura também estabelecer condições contratuais com as Instituições de Ensino Superior visando a estabilidade financeira das mesmas. O Governo compromete-se a aumentar o esforço público na formação avançada e no emprego científico, reforçar o investimento público em I&D em todas as áreas de conhecimento e continuar a estimular a internacionalização e envolvimento em redes europeias. O programa aponta o desenvolvimento científico e tecnológico como prioridade nacional, definindo metas e indicadores para a legislatura: atingir 5,5 investigadores por mil ativos, passar de 1000 a 1500 novos doutoramentos por ano, aumentar em 50% a produção científica referenciada internacionalmente, passar de 400 para 600 publicações científicas por milhão de habitantes e por ano triplicar o número de patentes registadas. Para isso, admite-se que urge aumentar o número de licenciados, duplicar o investimento público e triplicar o investimento privado em I&D. Foi também realizada uma alteração das normas que regulam os cursos superiores técnicos superiores profissionais, presentes no Decreto-lei nº74/2006, aprovado em Conselho de Ministros, destacando-se o estímulo à componente de investigação prática na organização curricular dos cursos, a criação de redes entre institutos politécnicos e escolas que ministram cursos de ensino profissional de nível secundário e a supressão da possibilidade de acesso com o ensino secundário incompleto.
Assim, aposta-se na valorização económica da investigação feita em Portugal. No entanto, se traçar uma ponte entre a Educação e a Economia traz benefícios para o país e para a comunidade civil e estudantil, é importante realçar que não se pode cair na mercantilização do Ensino Superior. A European Students Union (ESU), no seu documento ‘Policy paper on public responsibility, governance and financing on higher education’ nota que a Educação tem também um papel fundamental no desenvolvimento social, económico e democrático. É do interesse geral que se aumente o nível de conhecimento da sociedade independentemente da especulação económica do mesmo ou qualquer ideologia de privatização. A Educação não se pode cingir a um recurso para a prosperidade e os estudantes não podem ser vistos como capital humano para o mercado laboral. A mercantilização leva a uma pressão competitiva desnecessária, suprimindo valores fundamentais de cooperação, o que vai ao encontro do objetivo do atual governo de fomentar uma cultura científica
de diálogo em detrimento do investigador isolado. Igualmente desnecessária é a competição entre Instituições, que também elas se devem reger pelos valores de cooperação. Com a ideologia do New Public Management, tem sido atribuída importância à eficiência e retorno do investimento reclamando uma maior autonomia para as IES, um dos principais motes do MCTES. As receitas externas não deixam de ser importantes, mas é dever estatal o financiamento suficiente para que as instituições não se tornem dependentes de externos. Assim, não obstante a valorização económica do conhecimento, há que apontar que o Ensino Superior deve formar as bases de aprendizagem pessoal, tolerância, democracia e pensamento crítico.
Por fim, investe-se fortemente na internacionalização da atividade científica, apostando principalmente nos países da CPLP. Tem sido feito um avanço no reforço da cooperação internacional, nomeadamente através da extensão da cooperação com a Fraunhofer Portugal que procura estudar novas linhas de orientação na cooperação atlântica e nas áreas da agricultura e medicina. Em Junho foi também realizado em Portugal o evento ‘MIT Portugal: 10 anos a construir um futuro melhor’, orientado para as novas áreas da engenharia e a sua relação com o desenvolvimento empresarial e económico. A respetiva conferência foi orientada para lançar o debate sobre a evolução futura da colaboração entre Portugal e o MIT, que tem reforçado positivamente a mobilidade desde 2006. O Ministro deslocou-se ainda ao Brasil nos passados dias 5 e 6 de setembro para discutir oportunidades de cooperação no projeto de um centro de pesquisa aeroespacial dos Açores, reforçando a possibilidade de cooperação científica entre Brasil e Portugal. O Azores Internacional Research Center está previsto ser inaugurado no próximo ano. De facto, é consideração que se deve apostar nesta internacionalização a longo prazo, ou seja, nos próximos anos da legislatura, através do aumento de verbas no Orçamento do Estado que se destinem a apoiar programas de mobilidade e os estudantes neles interessados. A criação de mais cursos em Inglês nas várias IES e a contratação de docentes especializados assim como a mobilidade dos mesmos deverão ser levadas a cabo pelas Instituições e para isso o Governo deverá criar mecanismos para o seu incentivo, reforçando os valores e ideais patentes no processo de Bolonha e na democratização do ES europeu, baseada na tolerância, diversidade e mobilização social. Estas medidas permitirão uma maior captação de interesse externo e possível desenvolvimento de regiões do país que atualmente carecem de atração internacional, trazendo-lhes nova informação e conhecimento, a possibilidade de explorar a criação de consórcios e clusters internacionais assim como outro tipo de parceria.
Assim, as Associações e Federações Académicas reunidas no Encontro Nacional de Direções Associativas nos dias 10 e 11 de setembro, em Évora, deliberam que o Orçamento do Estado de 2017 para Ciência, Tecnologia e Ensino Superior deve ter em conta as seguintes linhas orientadoras:
- Aumento da verba orçamental global para Ciência, Tecnologia e Ensino Superior; - Aumento da dotação orçamental para as IES;
- Constituição de um quadro de financiamento plurianual para o triénio 2017-2019 e respetiva reflexão, definição e implementação coletiva dos seus trâmites;
- Criação de um regulamento nacional de taxas e emolumentos;
- Reforço positivo da promessa feita pelo Ministro Manuel Heitor de aumentar, para 70 000, o número de bolsas de apoio a estudantes carenciados;
- Uma maior aposta na internacionalização da atividade científica e na mobilidade da comunidade académica, tanto a nível de financiamento de programas e consórcios como na contratação de docentes especializados;
- Continuação do reforço na investigação científica e sua valorização económica tendo em especial atenção para a não mercantilização do Ensino superior e dependência dos interesses privados e corporativos;
- Reforçar as medidas de combate à precariedade no emprego científico sem descurar das condições salariais, do aumento do número de bolsas e da estabilidade dos contratos de trabalho, reforçando o financiamento e ajustando as medidas com base num processo gradual para a legislatura;
- Garantir que as propostas avançadas em sede de OE 2016 e declarações que perspetivam o OE 2017 sejam constantes do mesmo.