Processo 8621/17.6T8LSB.L1-2 Data do documento 21 de maio de 2020 Relator Inês Moura
TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Contrato de locação financeira > Execução específica > Licença de utilização > Incumprimento definitivo > Litigância de má fé
SUMÁRIO
1. Quando está em causa uma insuficiência ou omissão da fundamentação da decisão de facto, na explicação dada pelo tribunal para a formação da sua convicção ao considerar provados e não provados os factos controvertidos em razão dos meios de prova produzidos, tal não determina a nulidade da sentença nos termos do art.º 615.º n.º 1 al. b) do CPC, apenas podendo haver lugar à remessa do processo ao tribunal de 1ª instância para que fundamente algum facto essencial que não esteja devidamente fundamentado, conforme prevê expressamente o art.º 662.º n.º 2 al. d) do CPC.
2. No âmbito de um contrato promessa de compra e venda de uma fração autónoma, a não realização da escritura no prazo estabelecido pelas partes não é imputável ao vendedor, se a não emissão da licença de utilização se ficou a dever a circunstâncias que não estão na sua disponibilidade controlar, por estar dependente da realização de obras no edifício que são da responsabilidade do condomínio.
3. Deve ser tida como impossibilidade absoluta a prestação de realizar a venda de um imóvel, quando decorreram cerca de 15 anos sem que tal se tenha verificado por falta de licença de utilização, quando continuam a existir vários constrangimentos à sua emissão que não está na disponibilidade do devedor superar e que pela sua natureza e complexidade não dão qualquer certeza de que possam ser ultrapassados.
4. Tendo em conta a natureza e características do contrato de locação financeira não podemos dizer que o valor residual que cabe ao locatário pagar no final do contrato se pretender exercer a opção de compra constitui a única contrapartida da obrigação de venda do bem pelo locador, na medida em que a amortização do valor da compra do bem pelo locatário é feita ao longo de todo o contrato através do pagamento das rendas acordadas.
5. Na situação de impossibilidade absoluta da prestação não imputável ao devedor, o credor não tem o direito a haver simplesmente a restituição de tudo o que prestou em contrapartida, já que o art.º 795.º n.º 1 do C.Civil vem limitar o dever de restituição do devedor aos termos prescritos para o enriquecimento sem causa.
TEXTO INTEGRAL
Acordam na 2ª secção do Tribunal da Relação de Lisboa
I. Relatório
Vêm os AA. MF…, AJ…, MC… e JM…, intentar ação declarativa de condenação contra a R. BBVA Leasimo – Sociedade de Locação Financeira, S.A. formulando a final os seguintes pedidos:
“- Deve a presente acção ser julgada provada e por isso procedente e, em consequência, condenar-se a R. nos precisos termos;
- Deve assim, declarar-se reconhecido o interesse dos AA., na realização da prestação;
- Reconhecer-se que estão preenchidos os requisitos necessários à dedução da execução específica do contrato;
- Reconhecer-se o “Direito de Retenção”, alegado e peticionado, para possibilitar a A., seu titular, à não entrega da coisa retida a quem a ela tenha direito, enquanto a R. não cumprir a obrigação que tem para com ela; por outro, permitir-lhe, que em caso de venda do bem em execução, seja pago pelo seu valor atualizado, com preferência a qualquer outro credor do mesmo devedor que não disponha de privilégio imobiliário sobre ela.
- Deve ainda a Ré, ser condenada nos precisos termos, decretando o douto Tribunal sentença que produza imediatamente os efeitos da declaração negocial do faltoso, ou seja, o resultado prático do cumprimento, independentemente e mesmo contra a vontade da R., por via da execução específica, condenando-se a Ré, à celebração da escritura e ou transmitindo-se e registando-se a propriedade a favor da A;
- Reconhecer-lhe o seu direito de propriedade inscrevendo-se tal direito no registo;
- E em alternativa, e caso a execução específica do contrato nos termos do artigo 830.º do CC., não seja decretada, ser a Ré, condenada a restituir à A., a quantia recebida a título de pagamento total do preço, em dobro, sendo o valor atualizado e capitalizado à data do decretamento da sentença, acrescida de todas as despesas liquidadas pela A., no decurso do contrato, acrescido de juros legais desde a citação da R., até efetivo pagamento;
- Deve ainda a R., ser condenada, a sanção pecuniária compulsória, isto é, ao
pagamento de um valor diário, a fixar pelo tribunal, nos termos do artigo 384 nº2 do CPC e 829-A do CC., segundo critérios de razoabilidade, a título de sanção pecuniária compulsória, por cada dia de atraso no pagamento e ou no cumprimento do que vier a ser condenada;
- Deve a R., ser condenada ao pagamento de custas judicias, custas de parte e procuradoria, bem como, honorários de advogado nos termos do regulamento do código das custas judiciais;
- E porque o A., já liquidou a totalidade do preço, deverá ficar isenta de prestar depósito do preço;
- Deve ainda a presente acção ser registada oficiosamente, pelo funcionário judicial, conforme preceitua a lei Registral;
- Deve ainda ser a Ré condenada a realizar todas as diligências necessárias com vista à emissão de todos os documentos necessários à realização da escritura, designadamente, licenças de utilização, certificado energético e todos e quaisquer documentos que se manifestam necessários e imprescindíveis à realização da mesma, devendo ser condenada ainda, ao pagamento de todas as despesas inerentes à obtenção dos respetivos documentos, bem como, às despesas da escritura e todos os emolumentos a que haja lugar, como forma de compensação pela mora em que incorre.”
Alegam, em síntese, para fundamentar o seu pedido que em 14/02/1995 a 1ª A. celebrou com a R. um contrato de locação financeira que teve por objeto a fração “O” correspondente à loja n.º … do prédio urbano sito na Rua …, n.º …, … A e …B, freguesia de Alcântara, por força do qual prometeram simultaneamente comprar e vender o referido imóvel, decorridos que fossem três meses do términus do prazo de duração do contrato conforme cláusula 20º, n.º 1 do contrato. O contrato terminou em 14/02/2005 e a escritura de compra e venda nunca se realizou, não obstante as manifestações de vontade por parte da A., por a R. não se mostrar disponível invocando falta de licença de utilização. A A. cumpriu todas as obrigações contratuais a que se vinculou, liquidou e continua a liquidar todos os impostos referentes ao Imóvel bem como as despesas com seguro e condomínio.
Regularmente citada, a R. veio contestar, concluindo a final pela improcedência da ação e pela sua absolvição do pedido.
Alega que inexiste qualquer incumprimento culposo da sua parte e que também pretende celebrar o contrato de compra e venda, apenas não o fazendo por impossibilidade do seu cumprimento. Refere que a loja objeto do contrato de leasing se insere num centro comercial desde há muito encerrado ao público já que a CML não emite licenças de utilização do imóvel por não se mostrarem concluídas obras constantes da licença de obras n.º … que eram da responsabilidade do promotor – Lusitejo imobiliária, Lda. Esta situação de falta de licença camarária, por falta de realização de obras nas zonas comuns do edifício mantém-se hoje, facto do qual os AA. têm conhecimento. No que respeita ao pedido alternativo formulado, refere que os AA. não indicam quais os valores despendidos, sendo, por isso, um pedido ilíquido; que o contrato dos autos não é um contrato promessa desde logo porque o R. não estava obrigado a vender nem a A. obrigada a compra e porque a A. beneficiou desde o inicio do contrato do gozo da loja, o que não podem pretender ter feito gratuitamente, exigindo o pagamento de todas as quantias que lhe foram entregues.
Os AA. apresentaram articulado de resposta no qual requereram ainda a condenação da R. como litigante de má-fé.
A R. respondeu, afirmando a inadmissibilidade da resposta apresentada e pugnando pela improcedência do pedido de condenação como litigante de má fé.
Realizou-se Audiência prévia, tendo sido elaborado despacho saneador que afirmou a regularidade da lide, fixou o objeto do litigio e enunciou os temas da prova.
Procedeu-se a julgamento com a observância de todas as formalidades legais.
Foi proferida sentença que julgou a ação parcialmente procedente condenando a R. a pagar aos AA. a quantia de 946,83€ acrescida de juros à taxa legal desde a citação até integral pagamento, mais absolvendo a R. do pedido de condenação como litigante de má-fé.
É com esta decisão que os AA. não se conformam e dela vem interpor recurso pedindo que se declare nula e de nenhum efeito a decisão recorrida, ou se assim se não entender, que se decida nos exatos termos do pedido na PI ou ainda que se condene a R. a pagar à A., a título de enriquecimento sem causa, restituindo tudo o que recebeu e com o qual enriqueceu, a quantia de € 79807,66 €, correspondente a todas as rendas pagas, acrescidas do valor residual, dos impostos pagos e quotas de condomínio, à qual acrescerão juros desde a data da citação até integral pagamento, devendo ainda a R. ser condenada como litigante de má-fé e, em consequência, no pagamento à A. de indemnização cujo montante será decidido pelo Tribunal, apresentando para o efeito as seguintes conclusões, que se reproduzem:
1- O presente recurso é da decisão que decidiu do mérito da ação, concluindo pela procedência parcial da ação e, em consequência, absolvendo a R. parcialmente do pedido.
2- O Tribunal a quo considerou provado, e no que releva para efeito da presente apelação:
I – Que o contrato celebrado em 14 de Fevereiro de 1995 entre a A. e a R. é um contrato de locação financeira, findo o qual a R. promete vender à A., pelo valor indicado, a fração objeto do contrato;
II – A escritura pública de compra e venda nunca se realizou apesar da vontade da A. na respetiva concretização;
III - Aquando da celebração da escritura pública de compra e venda inexistia licença de utilização da fração em causa, tendo sido aquele ato público outorgado com base em certidão de licença da CML para prorrogação do prazo de licença de obras;
IV) A A. cumpriu com todas as suas obrigações contratuais, incluindo o pagamento do valor residual fixado, além de ter liquidado e continuar a liquidar todos os impostos atinentes ao imóvel;
V) A emissão de licença de utilização parcial não é viável por falta de requisitos legais; VI) O condomínio não dispunha de fundos para realizar as obras necessárias;
VII) O Banco tudo fez junto da CML para que a licença parcial fosse emitida.
3- A douta sentença recorrida não apresenta qualquer fundamentação de facto e de direito para a conclusão de que o “banco tudo fez junto da CML para que a licença parcial fosse emitida”.
4- Nada há na prova documental ou na prova testemunhal que aponte naquele sentido, bem pelo contrário, veja-se documentos juntos aos autos e que supra mencionados foram.
5- Da prova produzida nada indica que o banco tenha diligenciado como era sua obrigação; Tribunal a quo considera que a R. “tudo fez”, mesmo sabendo que a única manifestação de interesse em resolver a questão foi incumbir um técnico de uma diligência de investigação, 10 anos após a data prevista para a realização da escritura.
6- E 14 anos em que a R. se dignou, por uma única vez, e volvidos 10 anos da data em que deveria ter sido realizada a escritura, mandar saber o ponto de situação do processo camarário.
7- Dos documentos juntos aos autos, conforme se colhe da leitura do citius dos articulados com referência 21550314 de 17/01/2019 (do Representante da Administração do Condomínio) e 21609790 de 22/01/2019 (da Câmara Municipal de Lisboa), e que foram solicitados pelo tribunal, dos quais resulta, que o Banco Nada fez!!!!!!!!!
8- Dos referidos documentos (ofício da Câmara Municipal) lê-se: - “.. não se detectou ali, qualquer requerimento em nome do Banco BBVA Leasimo.. em que este tivesse encetado diligências junto da
Câmara Municipal, na qualidade de proprietário do prédio acima referido e com vista à obtenção de licença de utilização.” Veja-se documentos juntos aos autos fhs 379 a 399 e ss.
9- Veja-se ainda, oficio da Câmara Municipal, que se encontra junto aos autos, e que ordenado foi e solicitado pela Magistrada, e no qual é atestado pela Câmara Municipal de Lisboa, o seguinte: “… desde 1993 – 28-01-1993 – que viria a ser indeferido em 1995, que não foi formalizado qualquer outro pedido de licença..”.
10- E ainda a prova documental junto aos autos, requerimento com data de 17 de janeiro de 2019, e em resposta ao ordenado pela Meritíssima em sede de instrução, veio o administrador do condomínio do prédio, informar por escrito, que ao longo de todos estes anos, “… houve apenas dois contactos por parte do Banco BBVA…”, tudo conforme se colhe da leitura de todos estes documentos.
11- Pelo que é, surpreendente como é que o Tribunal a quo, deu como provado e considerou que o Banco tudo fez junto da CML para que a licença fosse emitida.
12- Resulta claro que nada no processo permite concluir que a R. tudo fez para obter a licença de utilização.
13- Alias, além dos documentos supra referidos, da própria leitura do artigo 14 da contestação, considerou o BANCO, que a impossibilidade da obtenção da licença era originária, pelo que, e das regras da experiência comum, a leitura possível é só uma, ia fazer o que e para que????
14- Pelo que, nunca poderia ser dado como provado que o Banco tudo fez. 15- Existindo assim, um erro na apreciação da prova e falta de fundamentação.
16- Resultou provado, pelo depoimento da testemunha apresentada pela R., Senhor arquiteto JP…, que a única diligência feita pelo Banco, ora R., no sentido da realização da escritura, foi incumbir aquela testemunha de realizar uma due diligence, com o objetivo de conhecer o ponto de situação do processo camarário.
17- Esta due diligence foi incumbida àquela testemunha 10 anos depois da data prevista para a realização da escritura.
18- Na apreciação da prova testemunhal, a Meritíssima juíza a quo ignora, por
completo, o restante do depoimento da testemunha supra citada, no que diz respeito às diligências necessárias à obtenção da licença de utilização.
19- Ora, segundo aquela testemunha, cujo depoimento é valorado numa parte pela Meritíssima juíza e noutra parte completamente ignorado, resulta que teria sido possível a obtenção da licença de utilização com a realização de obras que seriam, apenas “trabalhosas”, cumprindo-se as exigências menos severas da legislação em vigor em 2005, ano em que deveria ter sido outorgada a competente escritura.
20- Efetivamente o princípio da livre apreciação da prova mostra-se consagrado entre nós no artigo 607.º nº 5 do CPC em termos de: “O juiz aprecia livremente as provas segundo a sua prudente convicção acerca de cada facto; a livre apreciação não abrange os factos para cuja prova a lei exija formalidade especial, nem aqueles que só possam ser provados por documentos ou que estejam plenamente provados, quer por documentos, quer por acordo ou confissão das partes”, ora provado ficou por documento que a Ré, nada fez!!
due dilegence solicitada pela R., esta não logrou tomar qualquer atitude no sentido da resolução do problema.
22- Resulta claro que a R. nada fez para que a escritura fosse realizada.
23- Por outro lado, nada na sentença indica como foi alcançada a convicção da Meritíssima juíza a quo, pois a mesma é totalmente omissa a tal respeito.
24- De facto, a lei determina expressamente a exigência de objetivação, através da imposição da fundamentação da matéria de facto, devendo o tribunal analisar criticamente as provas e especificar os fundamentos que foram decisivos para a convicção do julgador (art.º 607.º, nº3, do CPC), determinando a norma jurídica que o juiz faça uma análise crítica das provas produzidas (expressão que já estava prevista, no que concerne à sentença, no art.º 607.º, nº 4) e que especifique os fundamentos decisivos para a sua convicção, deve ser posto definitivamente de parte o método (ou o “expediente”) frequentemente utilizado de apresentar, como fundamentação, os simples meios de prova, «A exigência legal, para ser acatada, impõe que, de acordo com as circunstâncias do caso concreto, se estabeleça o fio condutor entre a decisão da matéria de facto (resultado) e os meios de prova que foram usados na aquisição da convicção (fundamentos), fazendo a respetiva apreciação crítica, nos seus aspetos mais relevantes». «Por conseguinte, quer relativamente aos factos provados quer quanto aos factos não provados, deve o tribunal justificar os motivos da sua decisão, declarando por que razão, sem perda da liberdade de julgamento garantida pela manutenção do princípio da livre apreciação das provas (art.º 607.º n.º 5 do CPC), deu mais credibilidade a uns depoimentos e não a outros, julgou relevantes ou irrelevantes certas conclusões, achou satisfatória ou não a prova resultante de documentos particulares, etc. Ora o tribunal a quo não atuou conforme o normativo, já que não fundamentou a razão pela qual deu como provado que o Banco tudo fez!!!
25- Na verdade, existe uma flagrante desconformidade entre os elementos de prova, documentos e prova testemunhal e a decisão, havendo assim erro de julgamento;
26- Existiu um de manifesto erro na apreciação da prova, uma flagrante desconformidade entre os elementos probatórios disponíveis e a decisão do tribunal a quo sobre matéria de facto quanto ao quesito 22 que foi dado como provado, já que neste caso estávamos perante um sistema de prova vinculada, pois efetivamente constam do processo elementos e documentos probatórios que só por si imponham decisão diversa (art.º 616.º n.º 2 alínea a) do CPC.).
27- Por outro lado, foi dado como provado que o processo de construção não estava concluído, ponto 15 da sentença, mas tal não resulta de toda a prova documental junta aos autos pela própria Câmara Municipal. 28- Na verdade, a construção foi concluída, mas sem respeitar algumas exigências camarárias, dai ser necessária apresentar alterações, basta ler os documentos juntos pela Câmara Municipal.
29- Mas ainda que assim não fosse o próprio facto dado como provado em 15 está em contradição com o facto provado em 16 e 17, porque efetivamente as obras estavam concluídas, mas sem respeitar as regras ou exigências camarárias, ora é bem diferente de afirmar que as obras não foram concluídas.
30- A este propósito, vejam-se ofícios da Câmara Municipal.
31- Ainda a respeito da negligência absoluta da R., impõe-se referir, na senda, aliás, do que ficou dito supra, que a sentença não apreciou nem se pronunciou sobre a matéria constante dos artigos 6º, 7º e 8º
da PI, que invoca o tempo passado desde a data prevista para a realização da escritura, ou seja, os 14 anos passados sem que a mesma tivesse ido outorgada.
32- Ora, no momento previsto para o cumprimento, a R. tinha obrigação, no mínimo, de diligenciar junto do construtor, a realização das obras e a obtenção do documento.
33- Note-se que as circunstâncias referidas na sentença, para “agora”, de lojas penhoradas e obras de difícil execução por falta de meios, não se colocavam à
época em que a obrigação devia ter sido cumprida.
34- Mais, ainda, nem sequer se punha a questão das dificuldades do condomínio, pois que ainda não estava formalmente constituído, na ocasião, nem poderia estar.
35- Acresce que a sentença em análise não se pronunciou sobre o facto de a A. estar de boa-fé convicta de que passaria a ser a legítima proprietária da fração em causa, no final do contrato, pois tal obrigação constava do contrato e tal expectativa foi criada pela R., Banco, que continuou até apresentar data a imputar-lhe pagamento dos impostos, designadamente IMI, quotas de condomínio, pagamento de obras. Contudo a Meritíssima deu como provado tal facto, mas não lhe extraiu quaisquer consequências jurídicas, não se pronunciando sobre tais factos, tal como lhe competia.
36- Importa não perder de vista que aquela expectativa da A. justifica que, durante todos estes anos, pagasse todas as despesas inerentes à fração, embora não fosse proprietária e não pudesse usá-la.
37- Esta matéria foi completamente ignorada na sentença, apesar de ter sido amplamente explanada nas declarações de parte da A. e as instâncias da própria juíza a quo.
38- Como alias foi aduzido na resposta à contestação e à litigância de má fé deduzida pela Ré, contra a A., e na qual a ora A. deduziu “abuso de direito” sem que o Tribunal a quo se tenha pronunciado sobre a essa matéria.
39- Invocou ainda a nulidade, e igualmente aqui o tribunal a quo nada disse!!!
40- Requereu registo da acção judicial, veja-se pedido inicial (petição inicial) e, o Tribunal a quo nada fez, ocorrendo assim nulidade.
41- Havendo assim, uma objetiva falta de pronuncia o que constituí nulidade, e que aqui se invoca. 42- Caso esta matéria não tivesse sido ignorada por completo, forçoso seria concluir pela culpa da R.. 43- Outra matéria relevante que foi ignorada foi o facto de a A. não poder ter o uso do imóvel.
44- A própria juíza, ao tomar as declarações de parte conclui nesse sentido, embora não retire daí qualquer ilação ou atribua qualquer efeito.
45- A este propósito, veja-se no final da inquirição da A. em sede de depoimento de parte, que refere, conforme gravado no suporte magnético com a referência 20190917101853_19306206_2871029, 22:19 a 23:28, diz a Juíza, “já percebemos a situação. Continua a ter despesas e não tem uso nenhum do espaço”. 46- Julga a A. que esta matéria é relevante para efeito de determinação de uma eventual indemnização e, ainda, se for o caso, para aplicação do regime do enriquecimento causa.
47- Instituto este que a própria R., na sua contestação invocou aceitando que essa poderia ser a única forma de compensar os AA.
48- Acresce significar que, no seu pedido judicial, peticionaram os AA., entre outros, que a Ré, “Deve ainda ser a Ré condenada a realizar todas as diligências necessárias com vista à emissão de todos os
documentos necessários à realização da escritura, designadamente, licenças de utilização, certificado energético e todos e quaisquer documentos que se manifestam necessários e imprescindíveis à realização da mesma, devendo ser condenada ainda, ao pagamento de todas as despesas inerentes à obtenção dos respetivos documentos, bem como, às despesas da escritura e todos os emolumentos a que haja lugar, como forma de compensação pela mora em que incorre”.
49- Ora sobre este pedido, a Meritíssima, não referiu uma só palavra.
50- Ora da sentença provado ficou no ponto 10 que os AA., mantem interesse na celebração da escritura. 51- Provado ficou igualmente que os RR., alegam também querer celebrar o contrato de compra e venda. 52- Ora os AA., com esta ação judicial, pretendiam ver reconhecidos os seus direitos com vista à celebração de escritura.
53- No seu pedido judicial, peticionaram os AA., entre outros, que a Ré, “Deve ainda ser a Ré condenada a realizar todas as diligências necessárias com vista à emissão de todos os documentos necessários à realização da escritura, designadamente, licenças de utilização, certificado energético e todos e quaisquer documentos que se manifestam necessários e imprescindíveis à realização da mesma, devendo ser condenada ainda, ao pagamento de todas as despesas inerentes à obtenção dos respetivos documentos, bem como, às despesas da escritura e todos os emolumentos a que haja lugar, como forma de compensação pela mora em que incorre”.
54- Ora o Tribunal a quo, sobre este pedido não se pronunciou.
55- Impunha-se que o Tribunal a quo, se pronunciasse sobre este pedido.
56- Ocorrendo assim nulidade, consistente na omissão de pronúncia, já que o Tribunal a quo deixou de pronunciar sobre questões ou pretensões que devesse apreciar e cuja apreciação lhe foi colocada.
57- Ora, o Tribunal a quo deverei condenar os RR., a encetar diligências com vista à obtenção da licença 58- Em sede de fundamentação de Direito a sentença começa por referir que a “Doutrina e a Jurisprudência têm tratado esta obrigação de prever, no contrato de locação financeira, a opção de compra como uma promessa unilateral de venda”.
59- E assim conclui que poderia estar sujeita ao regime da execução específica, o qual não é aplicável ao caso concreto porque não existe culpa da R., na falta de condições legais para a realização da escritura. 60- Ora, como se viu supra, existe culpa da R. que nada fez para que a licença fosse emitida logo no período em que a escritura deveria ter sido outorgada, nos termos contratuais.
61- Ao considerar que não houve culpa por parte da Ré, tal levou a um levou a um erro de subsunção da norma jurídica.
62- Ora, havendo culpa da Ré, por aplicação do disposto no artigo 801º do Código Civil, constitui-se esta, face ao circunstancialismo do negócio, na obrigação de indemnizar a A.
63- No entanto, a sentença assim não concluiu e afasta a aplicação do regime da execução específica por ausência de culpa da R.
64- No entanto, e de forma absolutamente contraditória, considera a sentença não ser de aplicar o regime do contrato-promessa, para efeito de devolução em dobro dos valores prestados.
65- Assim, começa a sentença por defender o regime do contrato-promessa que justificaria a disciplina da execução específica para, mais tarde afastar tal regime, a propósito do sinal.
66- Também no que toca à posição supra, a sentença é omissa em matéria de fundamentação de direito. 67- Ora a jurisprudência é unânime em considerar que a estes contratos se aplica o regime do contato promessa, o que aliás a própria Meritíssima aplicou, mas apenas, e só quanto ao regime da execução especifica.
68- Solução que se impunha diferente, aliás resulta da própria escritura junta aos autos como documento 1, que as partes assinaram escritura: - “Compra e locação” –
69- O único facto que a primeira A. conhecia e tinha obrigação de conhecer, é que ia fazer, como, aliás fez, uma escritura com licença de construção (licença de obra), bem sabendo, como resulta do contrato junto com a pi., que incumbiria ao Réu obter a licença de utilização aquando a transmissão definitiva do imóvel, basta ler o contrato então assinado e o que estipula a lei, cujo o desconhecimento não aproveita ninguém. 70- Alegar o contrário é demasiado ostensivo da falta de boa fé processual e falta de boa fé contratual. 71- Os A., celebraram escritura de compra com contrato de locação com os documentos que à data eram necessários e obrigatórios.
72- Não sabendo nem tendo de saber se existiam ou não obras por concluir. 73- Admitir e defender o contrário, é um verdadeiro “abuso de direito”.
74- É de sublinhar que à data dos factos era comum e habitual, além de permitido por lei, celebrar escrituras com simples licença de construção, não podendo dai se ilidir que a parte, então autora, aceitasse que existiam problemas na emissão da licença.
75- Mas mesmo que assim fosse, sempre se dirá que, quer da lei, quer da escritura celebrada, resultava que incumbia à então locadora efetuar todas as diligencias necessárias à celebração da escritura. (doc. 1 da p.i.).
76- Igualmente e ao contrário do alegado, somente o Réu então locadora, podia e devia diligenciar no sentido de que a licença de utilização fosse emitida, tal como, unicamente o Réu é que teria e tem que custear as despesas necessárias às alegadas conclusão das obras necessárias à emissão da licença de utilização, e tal resulta não apenas das obrigações que assumiu no contrato como da própria lei.
77- E sublinha-se dada a natureza do contrato então celebrado, ainda que não fosse imputável ao Ré, a não conclusão das obras, incumbia a este desenvolver todos os esforços necessários para obter a documentação necessária à realização da escritura, logo licença de utilização, o que não fez!!!
78- E se a licença não é viável, à luz do contrato de “compra e locação” assinando, compete ao Réu assumir, tal responsabilidade.
79- Mas grave é ao legado no artigo 14 da contestação da Ré, onde diz que a licença parcial não era possível nem hoje nem à data da escritura.
80- Então porque fez a escritura de locação com compra e venda??
81- Por que razão aceitou fazer um contrato com promessa unilateral de venda, bem sabendo, que nunca poderia ter licença de utilização, e que já à data, a lei na segunda transmissão exigia a licença de utilização.
82- Então enganou os AA., pois sabia que nunca poderia obter a licença. 83- Actua com culpa!!!
85- Então prometeu vender objecto cuja licença nunca seria emitida e cujo conhecimento era prévio??? 86- Consequentemente existe uma situação de incumprimento, e ainda que não existisse haveria mora, logo, obrigação de indemnizar.
87- Ora como se viu e provado ficou o Banco nada fez junto da CML, para que a licença parcial fosse emitida, aliás nenhuma prova documental foi junta.
88- Tudo vale para fazer vencer a tese de que nenhuma responsabilidade possui.
89- Recebeu a totalidade do preço, e agora, tal como Pilatos: - “Não existe licença, não é possível fazer escritura a autora que se conforme!!!! Nós não temos nada a haver com isso dai lavamos as mãos.
90- Duvidas não restam que foi celebrado contrato de locação com promessa de venda.
91- O gozo e a fruição do imóvel não constituem requisito para que não possamos falar em contrato promessa.
92- É unanime o entendimento da jurisprudência que aos contratos e locação desta natureza aplica-se o regime do contrato promessa.
93- Os Autores alegaram que foram pagas todas rendas acordadas e estipuladas no contrato de locação financeira e ainda juntaram fatura de quitação dos valores liquidados.
94- Factos esses que o reu aceitou por acordo e confissão nos artigos 49.º da contestação, logo o pedido nunca poderia ser ilíquido.
95- Pelo que não existe nenhum pedido genérico ou ilíquido, os autores claramente peticionaram em dobro todo o valor pago, no caso concreto o valor total de 79.807.66€, acrescido dos respetivos juros, vencidos e vincendos.
96- Ora na contestação, alegado foi, e que teve acolhimento na douta sentença, que a impossibilidade objetiva de cumprimento com base na falta de licença de utilização.
97- Ora, é verdade que, na escritura celebrada entre a A. e o R. foi apresentada uma “licença de obras” e que a apresentação dessa licença pressupõe a falta de licença de utilização. A lei exige, no âmbito do próprio contrato-promessa –art.º 410º, nº3 – como requisito de validade formal, no caso de respeitar à constituição e transmissão de direito real sobre edifício ou fracção autónoma, já construído, como é o caso, a certificação pelo próprio notário, no documento respetivo, da licença de utilização, como medida de combate à construção clandestina. Mas não é verdade que seja, indicio/pressuposto de que a necessária licença de utilização nunca vai ser emitida.
98- Ora, a A. celebrou o contrato promessa de compra e venda, de boa fé e na espectativa de que as obras se iam realizar e que a necessária licença ia ser emitida, ao contrário do R., Banco, que pelo seu artigo 14 da contestação diz que sabia que a mesma nunca poderia ser emitida!!!!
99- Mais uma vez tentou a Ré, lavar as mãos como “Pilatos”, imputando as culpas ou ancorando a sua desresponsabilizada no conhecimento que a A., teria dessa inexistência de licença de utilização, tão referida ao longo da sentença.
100- Se a culpa não pode ser atribuída à R. muito menos o pode ou poderia ser imputável à primeira A. 101- Então, juridicamente a principal questão coloca-se em saber se a falta de
licença de utilização é uma situação originária ou superveniente à data da celebração do contrato promessa de compra e venda.
102- De qualquer forma ambas as situações levam à compensação/indemnização dos AA. pela falta de cumprimento do contrato promessa de compra e venda, mesmo que essa não derive de culpa subjetiva da R.
103- Senão veja-se,
104- Caso se considere que a impossibilidade legal (obtenção de licença de utilização) já existia à data da constituição da obrigação, o que não corresponde a verdade, constituindo uma impossibilidade originária, o negócio deve ser declarado nulo nos termos do preceituado no art.º 280º do Código Civil.
105- A nulidade do negócio só pode conduzir à aplicação do preceito do art.º 289.º do Código Civil que se traduz na condenação do Réu na restituição do sinal em singelo.
106- Caso se considere que a impossibilidade legal (obtenção de licença de utilização) constitui uma impossibilidade superveniente, mesmo que o R. prove de forma suficiente e indubitável os esforços e diligências que empreendeu para cumprir a sua obrigação, o que nos presentes autos e face à prova documental produzida e ao testemunho recolhido, não provou, aliás resulta provado o contrário, isto é, que nada fez, então, tal é causa de extinção da obrigação (art.º 790º, nº1) e é tratada como se aquele faltasse ao cumprimento da obrigação respetiva, nos termos previstos no artº801º, nº1 do CC.
107- O art.º 401º, nº3 do CC, refere ainda que apenas se considera impossível a prestação que o seja em relação ao objecto e não em relação à pessoa do devedor, sendo que a mesma regra se aplica à impossibilidade superveniente, por força do disposto no artº 791º. CC. 91º
108- É importante realçar que a nulidade ou invalidade decorrente da omissão de licença é uma nulidade ou invalidade mista ou atípica, como o tem entendido a jurisprudência e a doutrina (v. a este respeito, o Ac. deste Supremo de 28/02/2008, reportado por Ângelo Abrunhosa in “O Contrato-Promessa! 2ª ed., p.110 e os demais da resenha feita por Menezes Leitão, “Direito das Obrigações, Vol. I, 5ªed., 225,) apenas a podendo invocar o promitente adquirente, o que no caso não aconteceu.
109- Donde, a falta de licença de utilização é um facto superveniente à celebração do contrato promessa de compra e venda. À data da celebração do mesmo ela não existia, nada fazia prever que, futuramente, a mesma não ia ser concedida, pelo que sempre assistiria aos autores o direito a requerer, como requerido foi na p.i., a restituição do sinal em dobro.
110- O pedido principal consistia no R. ser condenado a executar todas as diligencias com vista à obtenção da licença, e conhecimento da propriedade a favor dos AA., pela via da execução especifica, não o sendo possível, a via seria a da restituição do sinal em dobro, e por fim, e não sendo deferidos tais pedidos, aplicar-se-ia o instituto do enriquecimento sem causa.
111- A obtenção da licença de utilização está a cargo do proprietário, apenas com o reconhecimento da propriedade a favor dos AA. passava a caber a estes, tal ónus, e só nesse caso ficaria a Ré, ora apelada livre de qualquer obrigação ou dever.
112- Em matéria de aplicação do regime do enriquecimento sem causa, como
decidido pela sentença, a mesma merece reparo pelos exatos termos em que é definido.
113- Conclui a douta sentença que o montante a devolver à A. pela R., no âmbito daquele regime, é apenas o correspondente ao valor residual, pois que este “é a verdadeira contrapartida da venda prometida”.
114- No entanto, e mais uma vez, não é apresentado qualquer fundamento para tal conclusão.
115- A Meritíssima Juíza a quo faz “tábua-rasa” de toda a abundante doutrina e jurisprudência na matéria, que entendem que o valor de venda terá de ter em linha de conta o valor das rendas.
116- Assim o defendem os eminentes Juristas Gravato de Morais, Nóbrega Pizarro, Calvão da Silva e Diogo Leite de Campos, entre outras.
117- Na mesma linha de orientação aponta-se o Acórdão da Relação de Coimbra, no processo nº 2677/12.5TBFIG.C1, de 06.10.2019, que determina. “… (i) a prevalência da função de financiamento na locação financeira, onde o lucro obtido emerge da remuneração desse financiamento e não da alienação do bem, que é eventual e feita por um valor residual mínimo e pré-fixado”.
118- A este propósito, sem margem para dúvida, é a própria Lei a fixar o valor a ter em conta para efeito de determinação do valor de venda do imóvel no final de um contrato de locação financeira, no nº 5, do artigo 46º do CIRS, que se transcreve: “Nos casos de bens imóveis adquiridos através do exercício do direito de opção de compra no termo da vigência do contrato de locação financeira, considera-se valor de aquisição o somatório do capital incluído nas rendas pagas durante a vigência do contrato e o valor pago para efeitos de exercício do direito de opção, com exclusão de quaisquer encargos”.
119- Releva, ainda, para efeito de aplicação do regime do enriquecimento sem causa que a R. recebeu integralmente o valor previsto em termos contratuais, o que significa que recebeu o preço da compra e venda, custos, juros, riscos de crédito e lucro, além de permanecer com a propriedade do imóvel, mantendo-se as obrigações típicas do proprietário, como impostos, seguros e condomínio, a serem suportados pela A.
120- Assim, o valor a pagar a A. pelo enriquecimento sem causa da R., nunca poderá ser o valor residual, mas sim o valor integral que foi pago pela A. ao longo de mais de 24 anos.
121- Ainda quanto ao pedido de pagamento de todas as despesas pagas pela A., o tribunal a quo deu as mesmas como provadas, veja-se ponto 8, para depois desconsiderar tal pedido, considerando falta de liquidez, ora de forma errada não condenou a Ré ao seu pagamento ou devolução dos valores, em sede de liquidação de sentença.
122- Pedido que nunca poderia ser considerado ilíquido, pois a própria Ré, confessou que a A., teria pago todas as rendas!!!!
123- Em matéria de litigância de má-fé, considerou a sentença, a ver da A., erradamente, que inexistem nos autos elementos suscetíveis de determinar o preenchimento dos pressupostos exigidos pela Lei. 1) No entanto, esses pressupostos estão comprovados nos autos. A saber: alega a R., em 24º da Contestação: “Note-se que o Banco tudo fez junto da CML para que a licença parcial fosse emitida.” Ora, como ficou demostrado, a R. nada fez para que fosse emitida a licença.
124- Assim, a R. deduziu oposição cuja falta de fundamento não ignora e alterou a verdade dos factos relevantes para a decisão da causa, preenchendo-se, assim, os requisitos constantes das alíneas a) e b) do nº 2 do artigo 542º do Código de Processo Civil.
125- Em suma, e a este respeito de litigância de má fé,
126- Não obstante a urbanidade que importa respeitar, sempre se dirá que, a versão da Ré., no seu todo, é composta por um conjunto de inverdades, não mais se reduzindo a uma construção fáctica que ao Réu
importa criar, para nada pagar e para que não lhe seja imputada qualquer responsabilidade, levando ao ponto de e no seu artigo 14 da contestação, confessar que sempre soube que a licença de utilização não poderia ser emitida, além de uma conduta processual reprovável e revestida de má-fé, constitui um verdadeiro “abuso de direito”, actua numa verdadeira atitude abusiva, criou a convicção de que o a compra e venda iria ser realizada, para afinal e no processo, e da palavra escrita não se pode fugir, dizer que sabia que nunca iria nem poderia ser emitida.
127- Assim, deixou a autora permanecer na fracção criando-lhe a expectativa que iria celebrar um dia a escritura, para agora invocar impossibilidade de cumprimento de formalidades e a recusa na sua obtenção. 128- Logo atua agora com “abuso de direito” na modalidade de "venire contra factum proprium” (art.º 334 do cc)
129- Há "venire contra factum proprium" quando alguém exerce uma posição jurídica em contradição com o comportamento pelo mesmo assumido anteriormente.
130- A proibição do "venire contra factum proprium" reconduz-se à doutrina da confiança, pressupondo, como elemento subjetivo, que o confiante adira realmente ao facto gerador de confiança.
131- E em clara litigância de má fé
132- Ao contrário do alegado pela Ré, os autores limitaram-se a reproduzir os factos tal como ocorreram. 133- Assim, a Ré na mais clara violação da boa fé processual, e com o maior desrespeito para com o tribunal distorceu a verdade dos fatos e invocou factos falsos cuja a verdade não podia desconhecer, tal como o facto de alegar que desconhece que a autora liquidou a totalidade do preço e o facto de afirmar que tudo fez, quando provado ficou que apenas foi uma vez à Camara Municipal e apenas fez dois contactos com o condomínio!!!!!!
134- Ainda assim, a Meritíssima considerou não existir má-fé!!!
135- Tudo para que possa justificar o seu comportamento se eximir ao eventual pagamento em dobro. 136- Atua assim o Apelante, com má fé processual, já que o Réu, deduziu oposição cuja falta de fundamento factual e legal não podia ignorar, fazendo do processo um uso manifestamente reprovável. Assim, deverá Considera-se assim, que o Réu, deveria ter sido condenado em litigância de má fé, nos termos do disposto no art.º 542.º a 544.º, todos do NCPC.
137- No que concerne a fundamentação de direito, determina o artigo 615º do Código de processo Civil que a sentença é nula, designadamente, nos seguintes casos:
“a) não especifique os fundamentos de facto e de direito que justificam a decisão;
b) os fundamentos estejam em oposição com a decisão ou ocorra alguma ambiguidade ou obscuridade que torne a decisão ininteligível
c) O Juiz deixe de pronunciar-se sobre questões que devesse apreciar ou conheça de questões de que não podia tomar conhecimento”.
73 - No caso sub judice, são diversas as causas de nulidade da sentença, destacando-se as seguintes: 1) a falta de fundamentação de facto no que toca à consideração de que o banco tudo fez para a realização da escritura e a consequente ausência de culpa da R.
2) a falta de fundamentação de direito quanto ao valor a pagar pela R. à A., no âmbito do regime do enriquecimento sem causa;
138- a ambiguidade de uma decisão que tão depressa defende a aplicação do regime próprio do contrato-promessa como determina que tal regime não é aplicável à mesma situação.
139- Face a todo o exposto concluiu-se que:
1) Uma decisão justa e tomada com observância das normas legais, designadamente as constantes dos nºs 3 e 4 do artigo 607º do Código de Processo Civil, levaria à explanação dos fundamentos que, na decisão em crise, estão ausentes;
2) Por outro lado, a devida avaliação das provas, nos termos impostos pela Lei, levariam a que se considerasse provado que a R. nada fez para a realização da escritura, pelo que está provada a respetiva culpa.
3) A valoração feita sobres os depoimentos das testemunhas suprarreferidas, não respeitou o princípio da livre apreciação de prova consagrado no ex vi art. 655.º, nº 1, e atual 607.º n.º 4 e 5 do NCPC, e da análise critica das provas que apelam à sã prudência e às regras da experiência ou do normal acontecer, que a meritíssima não quis reconhecer, como ínsito naquele depoimento testemunha, violou, por isso a douta sentença apelada, para além de outros, os 607.º n.º n.º 4 e 5, e 615.º n.º 1 b), c) d), 616.º 653, nº 2, todos do CPC e 342º, este do CC.
4) havendo erro notório na valoração das provas, por força do disposto no art.º 607.º, n.º 4 e 5, 615.º, e 616.º, todos do CPC, já que já que constavam do processo documentos de prova plena que só por si, implicavam necessariamente decisão diversa da proferida, não teve em conta os factos que estavam provados por documento e não podiam ser abrangidos pela livre apreciação da prova.
5) Foram ainda violados designadamente entre outros, os seguintes normativos, 280.º, 342.º, 410.º, 411.º, 405.ºn. º 2, 408.º, 440.º, 442.º n.2, 473.º, 754.º 755.º alínea f), 762.º, 473.º 790.º, 798.º, 795.º e 801.º, todos do Código Civil, e ainda nº 5 do artigo 46º do CIRS.
6) Pelo que se conclui que o tribunal a quo proferiu sentença fazendo uma aplicação errada da lei. 7) Assim, impunha-se solução jurídica diferente.
8) A solução corretiva que se impunha no caso concreto sempre teria de passar, e em face de toda a factualidade dada como provada, a perfilhar-se a tese de que o Banco, ora apelado, assumiu a obrigação de vender, e contudo, nada fez para que a licença fosse emitida, e apenas se limitou a apurar, e somente após a instauração da presente ação e após notificada pela A., a a razão da sua não emissão através da contração de um arquitecto, logo provado fica, que o Banco nada fez, logo actuou com culpa, e com má-fé, pois e apesar de ter constatado que em 2005, data em que a escritura do contrato prometido deveria ter sido celebrada não existia licença, a verdade é que nada fez, não resolveu o contrato por impossibilidade objetiva e superveniente, e continuou agir como se fosse possível a realização de tal contrato criando a expectativa de que a escritura seria feita, tratando a A., como se fosse proprietária e como tal exigindo à A., o pagamento de todas as despesas inerentes ao imóvel por mais de 10 anos, impostos, quotas de condomínio e outras, facto também dado como provado, logo imponha-se, que o Banco fosse condenado nos precisos termos, declarado culpado e devendo ser condenado a executar todos os atos necessários à obtenção da licença de utilização e ou ressarcir indemnizar os AA., pelos prejuízos e danos que lhe causarem, e ou em ultima instancia condenados restituir aquilo com que enriqueceram!
do Código de Processo Civil.
10) O Acórdão ora posto em crise enferma de nulidade por violação do disposto no artigo 615º, n.°1, alínea b), c) d) e e), todos do Código de Processo Civil, já que omitiu a apreciação de matéria direito, essencial, no que tange à qualificação jurídica do contrato de mandato, por outro lado constavam do processo elementos e provas documentais, que implicavam decisão diversa o que levou a uma incorreta aplicação das normas jurídicas, já suprarreferidas.”
A R. veio responder pugnando pela improcedência do recurso com a confirmação da sentença proferida. II. Questões a decidir
São as seguintes as questões a decidir tendo em conta o objeto do recurso delimitado pela Recorrente nas suas conclusões- art.º 635.º n.º 4 e 639.º n.º 1 do C.P.C.- salvo questões de conhecimento oficioso- art.º 608.º n.º 2 in fine:
- da impugnação da decisão de facto;
- da nulidade da sentença nos termos do art.º 615.º n.º 1 al. b), c) e d) do CPC; - da execução específica do contrato;
- do pagamento em dobro das quantias entregues; - da condenação do R. como litigante de má fé. Questão prévia
Constata-se que no presente recurso os Recorrentes apresentam conclusões que não respeitam os requisitos legais, sendo muito extensas e complexas, constituindo em grande parte a repetição dos argumentos que foram indicados na motivação do recurso, não observando as exigências de clareza e de síntese impostas pelo art.º 639.º do CPC.
O art.º 639.º do CPC com a epígrafe “Ónus de alegar e formular conclusões” dispõe, logo no seu nº 1: “O recorrente deve apresentar a sua alegação, na qual conclui, de forma sintética, pela indicação dos fundamentos porque pede a alteração ou a anulação da decisão.” O n.º 2 deste artigo enumera o que as conclusões devem indicar quando o recurso versa sobre matéria de direito.
Prevê o n.º 3 deste artigo que: “Quando as conclusões sejam deficientes, obscuras, complexas ou nelas não se tenha procedido às especificações a que alude o número anterior, o relator deve convidar o recorrente a apresentá-las, completá-las, esclarecê-las ou sintetizá-las, no prazo de 5 dias, sob pena de não se conhecer do recurso na parte afetada.”
As conclusões apresentadas pelos Recorrentes assumem a importante função de delimitar o objeto do recurso, como decorre dos art.º 635.º e 639.º do CPC, daí a maior relevância de serem respeitados os critérios legais na sua elaboração.
Tal como nos diz Abrantes Geraldes, in Recursos no Novo Código de Processo Civil, pág. 117-118: “A lei exige que o recorrente condense em conclusões os fundamentos por que pede a revogação, a modificação ou anulação da decisão. Com as necessárias distâncias, tal como a motivação do recurso pode ser associada à causa de pedir, também as conclusões, como preposições sintéticas, encontram paralelo na formulação do pedido que deve integrar a petição inicial.”
Como se referiu, as conclusões do recurso apresentadas estão longe de cumprir os critérios legais enunciados, dificultando o trabalho do tribunal e da parte contrária, o que não pode deixar de se censurar.
Considera-se, porém, inútil o cumprimento do art.º 639.º n.º 3 do CPC no sentido de formular convite aos Recorrentes para corrigirem as conclusões do recurso, na medida em que, ainda que com maior dificuldade, das mesmas podem retirar-se as questões que os mesmos pretendem submeter à apreciação deste tribunal, que também foram apreendidas pelo Recorrido como decorre da resposta ao recurso apresentada, sendo que tal ato apenas iria atrasar o prosseguimento do processo, optando-se assim por não o determinar.
III. Fundamentos de Facto
O tribunal da 1ª instância considerou provados os seguintes factos com interesse para a decisão da causa: 1. A A. MF… celebrou com a Ré, à data de 14 de Fevereiro de 1995, um contrato de “locação financeira”, conforme doc. 1 junta aos autos que se dá por integralmente reproduzido.
2. O referido contrato teve por objecto a fracção “O”, correspondente à loja nº …, na …ª cave (…º piso comercial), …º Piso, do prédio urbano sito na Rua …, nºs …, …-A e …-B, freguesia de Alcântara, concelho de Lisboa, melhor identificado na Certidão de Registo Predial e na Caderneta Predial juntas como docs. 2 e 3, que se dão por integralmente reproduzidas.
3. Consta do n.º 1 da cláusula 20ª do referido contrato, sob a epígrafe “opção de compra” que “A locadora promete vender à locatária o imóvel objecto do presente contrato, decorrido que seja o prazo estabelecido nas condições particulares, e pelo valor residual aí indicado, a ser liquidado em noventa por cento na data do termo do presente contrato e os restantes dez por cento na data da prometida escritura, a qual deverá ter lugar dentro dos três meses subsequentes àquele termo”.
4. O contrato de locação financeira então assinado entre as partes, foi celebrado pelo prazo de 10 anos, com início em 14 de Fevereiro de 1995 e terminus em 14 de Fevereiro de 2005.
5. A escritura pública de compra e venda nunca se realizou não obstante as inúmeras manifestações de vontade por parte da Autora, no sentido de que a escritura fosse realizada.
6. Consta das condições particulares do contrato celebrado que o valor da aquisição seria de 9.160.000$00, pago em 120 prestações mensais no valor unitário de 146.751$00 e como valor residual 160.000$00. 7. A 1ª A. cumpriu todas as obrigações contratuais designadamente todas as rendas acordadas e estipuladas no contrato de locação financeira e bem assim o valor residual no valor de 946,83€ (cfr. Doc. 4 da PI).
8. A 1ª Autora liquidou e continua a liquidar todos os impostos inerentes ao imóvel objecto do contrato designadamente, IMI, seguros e condomínio.
9. Com o contrato de locação financeira a 1ª Autora passou a exercer, de forma pública e pacífica, a posse sobre o referido imóvel, bem como o pagamento de todas as despesas inerentes ao mesmo, designadamente luz, água, seguros, impostos como o IMI, taxas de saneamento, condomínio, entre outras. 10. Os AA. mantêm interesse na celebração da escritura publica de compra e venda.
11. A fracção objecto do contrato referido em 1. encontra-se integrada num “centro comercial”, o Centro comercial Lusíadas, há muito encerrado ao público.
12. Aquando da celebração do contrato de locação financeira referido em 1. Inexistia licença de utilização para a referida fracção.
da CML, com data de 02.01.1995 para prorrogação do prazo de licença de obras número …, por 730 dias. 14. As obras autorizadas pela licença n.º …, eram da responsabilidade do Promotor – Lusitejo Imobiliária, Lda.
15. O processo de construção nunca foi concluído.
16. A emissão de licença de utilização parcial não era e não é viável já que as zonas comuns não estão em conformidade com as exigências camarárias e a loja em causa situa-se num piso abaixo da soleira, com acesso necessariamente por tais zonas comuns.
17. Por informação datada de 28/01/2005 – doc. 3 com a contestação que se dá por reproduzido- a CML refere que “se verificou não existir licença de utilização para o local embora o edifício tenha sido construído legalmente através do processo .../OB/1979 (…) o processo de alterações e telas finais com o n.º …/OB/1993 teve despacho de indeferido”.
18. Situação que se mantém até hoje e que é do conhecimento dos AA.
19. Os condóminos do prédio em causa foram convocados para uma Assembleia com o expresso propósito de deliberar sobre as obras de que carecia o prédio, em particular nas referidas zonas comuns.
20. As obras não foram aprovadas até que fosse resolvida a situação decorrente das penhoras fiscais de algumas fracções.
21. O condomínio não dispunha de fundos para realizar as necessárias obras, sendo uma das razões o elevado montante de créditos do condomínio sobre os condóminos.
22. O banco tudo fez junto da CML para que a licença parcial fosse emitida - da impugnação da decisão de facto
Vêm os Recorrentes impugnar a decisão de facto proferida, quanto aos seus pontos 15 e 22 que consideram que não estão provados.
Por terem cumprido os requisitos do art.º 640.º n.º 1 e n.º 2 a) do CPC, ainda que de forma algo confusa e pouco sistematizada, procede-se à sua apreciação.
- Quanto ao ponto 15 da decisão de facto tem o mesmo o seguinte teor: 15- O processo de construção nunca foi concluído.
Entendem os Recorrentes que tal não resulta de toda a prova documental junta aos autos pela própria Câmara, mas ainda que assim não fosse tal matéria está em contradição com a que consta dos pontos 16 e 17, porque as obras estavam concluídas mas sem respeitar as exigências camarárias.
O tribunal a quo fundamentou da seguinte forma a resposta que deu a estes factos provados:
“Os factos n.º 14 a 20 assim se consideraram em face das explicações dadas pelo administrador do condomínio e pela CML constantes de fls. 319/320, 322/328 e 374/376, 379/399 dos autos conjugadas com o depoimento de parte da A. e da testemunha inquirida nos autos. Na verdade, esclareceu a A. que: O centro comercial, no qual a loja está inserida se encontra encerrado há cerca de 13/14 anos, que chegou a abrir ao publico a loja em causa, como perfumaria, sendo que nessa altura ainda havia muitas lojas fechadas tendo encerrado a loja, ainda antes do encerramento do Centro comercial. Mais afirmou ter conhecimento da necessidade de realização de obras nas zonas comuns do centro comercial, que a administração do condomínio chegou a enviar-lhe orçamentos para as obras, porém, não é viável a sua realização por haver várias lojas penhoradas. Não tendo estado presente na assembleia de condóminos,
refere ter visto numa acta que as obras terão que aguardar a solução das penhoras das várias lojas para que cada condómino assuma a sua parte na realização das mesmas, uma vez que o condomínio não tem dinheiro para pagar a totalidade das obras. A testemunha JP…, arquitecto, referiu que em finais de 2015 o BBVA lhe pediu uma due deligence de investigação para resolver o problema, pelo que tentou perceber o que seria necessário efectuar para conseguir obter licença de utilização da fracção. No âmbito desse processo foi feita consulta directa à CML para perceber por que razão a licença de utilização não tinha sido emitida. Referiu que o projecto inicial sofreu várias alterações, que o projecto de arquitectura estava aprovado mas na vistoria dos bombeiros foram apontadas deficiências relacionadas com inexistência de bocas de incêndio que levaram à não emissão da licença de utilização. A única loja que se encontra em funcionamento é uma loja onde funcionam os CTT que tem saída para o exterior e por isso foi possível obter licença de utilização parcial, o que não se passa com a loja em causa já que apenas tem acesso pelas partes comuns que não preenchem os requisitos de segurança impostos. Mais refere que chegou a reunir com a administração de condomínio no sentido de solucionar o problema, concluindo que o problema teria que ser solucionado de forma conjunta, e que o condomínio estava empenhado em resolver a questão.” É incontroverso de que é necessária a realização de obras no prédio para dotar o mesmo de todas as especificações que estão previstas no projeto camarário aprovado, como decorre dos pontos 16, 17 e 19 a 21 dos factos provados, matéria que não é impugnada pelos Recorrentes.
Isso mesmo se retira ainda do documento junto aos autos a fls. 374 ss., que corresponde a esclarecimentos escritos prestados pelo administrador do condomínio sobre a questão; é necessária a realização de obras para que seja concedida a licença de utilização, que não são feitas porque o condomínio não tem dinheiro para as realizar, matéria esta que encontra acolhimento nos já referidos pontos 19 a 21 da decisão de facto.
Também os documentos camarários indicados pelos Recorrentes, ofícios que se encontram juntos os autos a fls. 379 ss., não põem em causa o facto que consta do ponto 15, antes pelo contrário, já que deles decorre que o licenciamento de obras de alterações e telas finais foi indeferido, do que resulta que para a obtenção da licença de utilização, torna-se necessária a realização de obras no prédio, para que o mesmo possa corresponder ao projeto aprovado pela CML, já que esta entidade indeferiu as alterações propostas. Tal permite dizer que o processo de construção que admite a emissão de licença de utilização pela CML não está concluído.
Naturalmente que a resposta ao ponto 15 da matéria de facto, afirmando que o processo de construção não foi concluído, tem de ser entendido no sentido de que faltam as obras necessárias à emissão da licença de utilização, o que encontra suporte não só nos mencionados documentos camarários, único elemento probatório que os Recorrentes invocam para fundamentar a alteração pretendida, mas também no documento de fls. 374, nas declarações de parte prestadas pela A. em audiência de julgamento que vão no sentido da necessidade de realização de obras nas zonas comuns do edifício e no depoimento da testemunha JP…, arquiteto, que informou o tribunal de diligências realizadas junto da CML que levaram à conclusão de que a licença de utilização não foi emitida pela circunstância das partes comuns do prédio não preencherem os requisitos de segurança, nomeadamente pela falta de bocas de incêndio.
Recorrentes não admitem a alteração da matéria de facto pretendida, antes a confirmam, encontrando a decisão suporte nos meios de prova referidos, sendo matéria que é complementada e não contrariada pelos factos que constam dos pontos 16 e 17 da decisão, bem como com os enunciados nos pontos 19 a 21 da mesma, que não são impugnados.
Improcede por isso a alteração pretendida para este ponto. - Quanto ao ponto 22 da decisão de facto, tem o seguinte teor:
22- O banco tudo fez junto da CML para que a licença parcial fosse emitida.
Consideram os Recorrentes que este facto deve ser alterado e que o que ficou provado foi que o Banco nada fez para que fosse emitida a licença de utilização.
Para fundamentarem esta alteração os Recorrentes tecem várias considerações e juízos sobre o comportamento da R. e o tempo decorrido e indicam os concretos meios de prova que, no seu entender, determinam a alteração da decisão: o depoimento da testemunha JP…, nos excertos de gravação que indicam, bem como os documentos da CML e do Administrador do condomínio que identificam.
Invocam ainda a falta de fundamentação apresentada na sentença para a prova deste facto.
Começando por esta última questão, verifica-se, na verdade, que a sentença recorrida motivou a decisão de forma concretizada quanto aos factos que teve como provados e não provados, indicando os meios de prova que levou em conta, agregando-os consoante a identidade da matéria a que respeitam, esquecendo, porém, os pontos 21 e 22 da decisão de facto aos quais não faz expressa menção na motivação que apresenta.
Esta circunstância, porém, não é suscetível de determinar a invalidade, a alteração ou a eliminação deste facto da decisão. A falta de fundamentação da decisão de facto, que deve ter lugar nos termos previstos no art.º 607.º n.º 4 do CPC apenas pode vir a determinar a remessa do processo ao tribunal de 1ª instância para que este a fundamente, caso se trate de um facto essencial e se o tribunal de recurso o tiver por conveniente, nos termos do disposto no art.º 662.º n.º 2 al. d) do CPC.
No caso, tal não se torna necessário, na medida em que a matéria que consta deste ponto 22 da decisão de facto, alegada pelo R. no art.º 24.º da sua contestação, não pode ser considerado um facto, mas antes uma conclusão à qual o tribunal a quo não tinha de responder em sede de decisão de facto.
Um facto representa uma realidade suscetível de ser apreendida por qualquer meio de prova enquanto realidade objetiva, distinguindo-se de matéria puramente conclusiva a avaliar precisamente em função dos factos que venham a resultar provados.
O art.º 607.º n.º 4 do C.P.C. estabelece: "Na fundamentação da sentença o juiz declara quais os factos que julga provados e quais os que julga não provados, analisando criticamente as provas, indicando as ilações tiradas dos factos instrumentais e especificando os demais fundamentos que foram decisivos para a sua convicção; o juiz toma ainda em consideração os factos que foram admitidos por acordo, provados por documento ou por confissão reduzida a escrito, compatibilizando toda a matéria de facto adquirida e extraindo dos factos apurados as presunções impostas pela lei ou pelas regras de experiência".
Consideramos que é pacífica a conclusão de que a decisão sobre a matéria de facto só pode ser integrada por factos, o que decorre da norma mencionada, devendo assim ficar afastados da mesma os juízos meramente conclusivos ou os conceitos de direito.
Os contornos entre o que é facto e o que é direito são muitas vezes ténues, ensinando-nos Anselmo de Castro, in Direito Processual Civil Declaratório, Vol. III, pág. 269: “a linha divisória entre facto e direito não tem carácter fixo, dependendo em considerável medida não só da estrutura da norma, como dos termos da causa; o que é facto ou juízo de facto num caso, poderá ser direito ou juízo de direito noutro. Os limites entre um e outro são flutuantes”.
Assim, nem sempre é fácil distinguir um facto de uma conclusão ou distinguir matéria de facto de matéria de direito. Diz-nos o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 07/10/2013, no proc. 488/08.1TBVPA.P1, in. www.dgsi.pt : “Pode afirmar-se, em sentido muito simplificador, que uma conclusão implica um juízo sobre factos e estes, quando em si mesmos considerados, revelam uma realidade, compreensível e detetável sem necessidade de qualquer acréscimo dedutivo.”
A jurisprudência tem vindo a considerar, do que é exemplo o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 7 de Maio de 2014, no proc. 39/12.3T4AGD.C1.S1, in. www.dgsi.pt que: “são de afastar expressões de conteúdo puramente valorativo ou conclusivo, destituídas de qualquer suporte factual, que sejam suscetíveis de influenciar o sentido da solução do litígio, ou seja, na expressão do Ac. de 09-12-2010 deste Supremo Tribunal, que invadam o domínio de uma questão de direito essencial.”
À luz destas considerações e revertendo para o caso em presença, sem grande dificuldade se percebe que a matéria que consta do ponto 22 da decisão tem natureza conclusiva, apenas podendo ser alcançado com recurso a factos concretos que o revelem. Saber se o Banco tudo fez junto da CML para que a licença parcial fosse emitida é conclusão que apenas poderá resultar da avaliação da atividade que foi desenvolvida pelo Banco junto da CML. Só a ponderação do comportamento concreto do Banco é que pode permitir a conclusão de que o mesmo fez tudo ou não fez nada para que a licença fosse emitida.
De referir ainda que esta matéria pode ser relevante para efeitos de avaliação da eventual culpa do R. na falta de realização da escritura pública de transmissão do direito de propriedade da fração em causa aos AA., invocando estes o incumprimento culposo pelo Banco R. da prestação a que o mesmo estava obrigado pelo contrato celebrado.
Verifica-se assim que o ponto 22 da decisão de facto contém matéria conclusiva e não puramente factual, à semelhança da alteração pretendida pelos Recorrentes, à qual o tribunal não deve dar resposta nesta sede.
Em face do exposto, o ponto 22 da decisão de facto tem de considerar-se como não escrito, embora não pelas razões indicadas pelos Recorrentes, mas antes por não conter um facto mas antes uma conclusão apenas passível de ser avaliada em função do conjunto dos factos que resultam provados, determinando-se por isso a sua eliminação da decisão de facto.
IV. Razões de Direito
- da nulidade da sentença nos termos do art.º 615.º n.º 1 al. b), c) e d) do CPC
A Recorrente vem invocar a nulidade da sentença proferida, nos termos do art.º 615.º n.º 1 al. b), c) e d) do CPC.
Não pode deixar de salientar-se alguma confusão que resulta da motivação do recurso com os conceitos de nulidade da sentença decorrente do vício formal da mesma prevista no art.º 615.º do CPC, com a discordância da apreciação jurídica da causa e da solução sobre o mérito da ação.
O art.º 615.º n.º 1 do CPC estabelece que a sentença é nula quando: “a) não contenha a assinatura do juiz;
b) não especifique os fundamentos de facto e de direito que justificam a decisão;
c) os fundamentos estejam em oposição com a decisão ou ocorra alguma ambiguidade ou obscuridade que torne a decisão ininteligível;
d) o juiz deixe de pronunciar-se sobre questões que devesse apreciar ou conheça de questões de que não podia tomar conhecimento.
e) o juiz condene em quantidade superior ou em objeto diverso do pedido.”
Os Recorrentes invocam a nulidade da sentença por verificação dos vícios previstos nas al. b), c) e d). Quanto à previsão da al. b) do n.º 1 do art.º 615.º do CPC relativa à falta de especificação dos fundamentos de facto e de direito que justificam a decisão, importa ter em conta que a elaboração da sentença deve respeitar determinadas exigências formais, que o legislador contempla no art.º 607.º do CPC.
O n.º 3 deste artigo impõe ao juiz que na sentença faça a discriminação autónoma dos factos que considera provados e que indique, interprete e aplique as normas jurídicas correspondentes, concluindo pela decisão final. Acrescenta o n.º 4 que: “Na fundamentação da sentença, o juiz declara quais os factos que julga provados e não provados, analisando criticamente as provas e indicando as ilações tiradas dos factos instrumentais e especificando os demais fundamentos que foram decisivos para a sua convicção; o juiz toma ainda em consideração os factos que estão admitidos por acordo, provados por documento ou confissão reduzida a escrito, compatibilizando toda a matéria de facto adquirida e extraindo dos factos apurados as presunções impostas pela lei ou por regras de experiência.”
As exigências do art.º 607.º n.º 3 do CPC com a imposição da indicação na sentença dos factos provados, bem como das normas jurídicas aplicadas e sua interpretação, incorporam a necessidade de fundamentação das decisões cujo princípio vem previsto não só no art.º 154.º do CPC mas também no art.º 205.º da CRP e cuja falta pode determinar a nulidade da sentença.
O dever de fundamentação das decisões impõe-se ao juiz, nos termos do art.º 154.º do CPC e corresponde a uma exigência constitucional, prevendo o art.º 205.º n.º 1 da CRP que “as decisões dos tribunais que não sejam de mero expediente são fundamentadas na forma prevista na lei.”
O art.º 154.º do CPC sob a epígrafe “dever de fundamentar a decisão”, estabelece:
“1. As decisões proferidas sobre qualquer pedido controvertido ou sobre alguma dúvida suscitada no processo são sempre fundamentadas.
2.A justificação não pode consistir na simples adesão aos fundamentos alegados no requerimento ou na oposição, salvo quando, tratando-se de despacho interlocutório, a contraparte não tenha apresentado oposição ao pedido e o caso seja de manifesta simplicidade.”
As partes têm o direito de saber as razões da decisão do tribunal, pois só assim podem avaliar a bondade da mesma e, se for caso disso, ponderar a sua impugnação. O dever de fundamentação assenta na necessidade de esclarecimento das partes e constitui uma fonte de legitimação da decisão judicial.
O grau de fundamentação exigível dependerá tanto da complexidade da questão sobre a qual incide a decisão, como da controvérsia revelada pelas partes sobre a situação a decidir.