DCJS – DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS
FABÍOLA THAÍS MAFFISSONI
CRIMES PASSIONAIS:
VIOLENTA EMOÇÃO E OS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS
Ijuí (RS) 2017
FABÍOLA THAÍS MAFFISSONI
CRIMES PASSIONAIS: VIOLENTA EMOÇÃO E OS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS
Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noro-este do Estado do Rio Grande do Sul.
DECJS – Departamento de Ciências Jurídicas e
Sociais
Orientadora: Marcia Cristina de Oliveira
Ijuí (RS) 2017
Dedico este trabalho primeiramente a Deus, aos meus pais e amigos por todo apoio e com-preensão nesta jornada acadêmica.
Agradeço еm primeiro lugar а Deus quе ilumi-nou о mеυ caminho durante esta caminhada. A minha orientadora Marcia Cristina de Oliveira pela sua dedicação e disponibilidade.
À minha família, pоr sua capacidade dе acredi-tar еm mіm е investir еm mim. Mãe, sеυ cuida-do е dedicação me deram, а esperança pаrа seguir. Pai, sυа presença significou segurança е certeza dе qυе não estou sozinha nessa ca-minhada.
A todos que colaboraram de uma maneira ou outra durante a trajetória de construção deste trabalho, meu muito obrigada!
“Quantas vezes me bateu sem falar o que eu fiz eu só queria ser feliz você não compreendeu o meu coração sofreu sentindo o corpo padecer em troca de tanto amor tive sofrimento e dor mas não vivo sem você É difícil de entender porque sou tão submissa sirvo pra tua cobiça teu momento de prazer porém nada vou dizer o meu direito é se calar se nem piso na calçada mesmo assim fico marcada sem ter forças pra lutar Apenas vou chorar recuar mais uma vez diante a tua embriaguez nada posso recusar tudo tenho que aceitar calada sou agredida e por ser tão dependente vivo casada e carente escrava da própria vida Gostaria de gritar para o mundo inteiro ouvir o tanto que sofri sem poder denunciar se não tenho onde morar vivo a mercê da sorte vou me recolher tão cedo convivendo com o medo de escrever a própria morte”. (Guibson Medeiros)
RESUMO
O presente trabalho de pesquisa monográfica faz um breve relato sobre o his-tórico dos crimes passionais. Discute brevemente as penas aplicadas, buscando compreender a motivação desde a época na qual imperava o machismo, a violência de gênero e a objetivação da mulher. As principais evoluções das penas, e suas apli-cações, bem como a motivação do agressor e os sentimentos e influências da vítima. A violenta emoção como tese defensiva e, por fim, a aplicação das penas aos casos polêmicos nacionais e internacionais.
ABSTRACT
The present work of monographic research gives a brief account of the history of crimes of passion. It briefly discusses the penalties applied, seeking to understand the motivation from the era in which machismo, gender violence and objectification of women prevailed. The main evolutions of the sentences, and their applications, as well as the motivation of the aggressor and the feelings and influences of the victim. The violent emotion as a defensive thesis and, finally, the application of penalties to national and international controversial cases.
Keywords: Criminal law; Passion crimes; Violent emotion;
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 9
1 HISTÓRICO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E CONTRA A MULHER ... 11
1.1 Violência de gênero... 16
1.2 Marcos normativos internacionais ... 18
1.3 Marcos normativos Nacionais ... 20
1.4 Crimes passionais ... 22
1.5 Lesões Leves, graves e gravíssimas e lesão seguida de morte. ... 23
1.6 Estupro... 24
1.7 Homicídio/ Feminicídio ... 27
2. CIRCUNSTÂNCIAS MOTIVADORAS DO CRIME PASSIONAL ... 30
2.1 Ciúmes ... 30 2.2 Amor... 33 2.3 Paixão ... 34 2.4 Ódio ... 39 2.5 Honra ... 40 2.6 Emoção ... 40 2.7 Perfil do agressor ... 42
2.8 Perfil das vítimas ... 47
2.9 Análise psicopatológica ... 49 3 CRIMES EMBLEMÁTICOS ... 51 3.1 Elisa Samudio ... 51 3.2 Eloa Pimentel ... 53 3.3 Daniella Perez ... 54 3.4 Mercia Nakashima ... 57 3.5 Marcio Matsunaga... 59
4 IMPUTABILIDADE PENAL NOS CRIMES PASSIONAIS ... 59
4.1 Da aplicabilidade da tese da defesa da honra e a violenta emoção. ... 60
4.2 Da legítima defesa da honra ... 61
4.3 Entendimento jurisprudencial da defesa da honra ... 62
4.4 A doutrina e a violenta emoção ... 66
4.5 A minorante da violenta emoção como tese defensiva nos crimes passionais ... 69
CONCLUSÃO ... 71
INTRODUÇÃO
O presente trabalho irá abordar as modalidades de crimes passionais existen-tes no ordenamento jurídico e enquadrados pela doutrina e jurisprudência nacional.
A violência, que atinge centenas de milhares de brasileiras cotidianamente, é apenas um dos desdobramentos do sexismo impregnado em nossa sociedade. A violência física é apenas uma das diversas formas de agressão perpetradas contra a mulher, que também é vítima de violência psicológica, sexual, financeira, etc. A for-ma for-mais extrefor-ma de violência contra as mulheres é o feminicídio.
Na tentativa de combater essas agressões, historicamente toleradas pelo Es-tado, e eventualmente justificadas por ele, surgem iniciativas que visam mudar esse cenário, como a Lei nº 11.340/2006, apelidada de Lei Maria da Penha e a lei nº 13.104/15, que incluiu a qualificadora do feminicidio no crime de homicidio do código penal brasileiro.
Nesse sentido, o primeiro capítulo, serão analisados aspectos referentes à vi-olência em sentido amplo e em sentido estrito, ligado diretamente à vivi-olência de gê-nero. Após, averiguar-se-á o contexto histórico-social em que se fomentou a discus-são sobre a problemática da violência de gênero, traçando uma breve evolução das formas punitivas estatais nacionais e internacionais. A seguir, procura-se identificar os tratados e convenções internacionais e as leis internas que trataram da violência de gênero, apontando as principais mudanças trazidas por cada estatuto.
No segundo capítulo apresentar-se-á as circunstâncias motivadoras do agen-te passional, além de serem traçados os perfis de vítima e agressor. Os aspectos que influenciam o seu acontecimento, quais sejam: jurídico, criminológico e vitimoló-gico, abordando, assim, não apenas o fato em si, mas também as condições psico-lógicas do criminoso e da vítima, ou seja, os sentimentos que levam à prática do crime (influência da emoção, da paixão, etc.) até o modo como se dá a sua execu-ção e, posteriormente, a aplicaexecu-ção das penalidades. A culpabilidade, a responsabili-dade penal e a imputabiliresponsabili-dade, no âmbito do Direito Penal, bem como a classificação dos homicídios dolosos, também são abordadas.
Homicídio passional é, portanto, a conduta de causar a morte de alguém, mo-tivada por emoções intensas, como uma forte paixão. Paixão doentia, carregada de ciúme, de posse. O Código Penal Brasileiro não define o que é “crime passional”, nem faz previsão expressa desse tipo. A doutrina é que assim denomina, de forma restrita, a conduta do cônjuge traído ou desprezado que, por ciúme ou amor incon-trolável ou desvairado, mata o seu cônjuge porque este o traiu ou simplesmente de-seja o fim da relação.
A justificativa apresentada pelos criminosos passionais é que “mataram por amor”. Nos delitos passionais, a motivação constitui uma combinação de sentimen-tos extremos, como o egoísmo, o amor próprio, o ódio, a possessividade, o ciúme, o instinto sexual, o desejo de vingança, a prepotência e o rancor. Para essa compre-ensão, é necessário estabelecer uma ligação entre a personalidade/estado psicoló-gico do criminoso, as razões que o levaram a matar, a ocorrência do crime e a ação/omissão da vítima.
O terceiro capítulo irá trazer os crimes emblemáticos, a abordagem da mídia e as sentenças judiciais com base no apelo da população frente à tamanha crueldade dos casos amplamente divulgados.
Por fim, a tese da violenta emoção ou legítima defesa da honra, rotineiramen-te utilizada nos tribunais como rotineiramen-tentativa de arotineiramen-tenuar a pena do agenrotineiramen-te passional, sob a percepção da doutrina e jurisprudência.
1 HISTÓRICO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E CONTRA A MULHER
Primeiramente é preciso conceituar a violência doméstica que é aquela oriun-da oriun-das relações de parentesco e convívio no lar, tais como, agressão, abuso sexual, morte. Observar ainda a partir dos conceitos as formas de concretização da violên-cia.
Nesse sentido, Cavalcanti (2006, apud COUTINHO, 2014, p. 12) afirma que
a violência contra a mulher constitui ofensa contra a dignidade humana e é manifestação das relações de poder historicamen-te desiguais entre mulheres e homens; permeia todos os seto-res da sociedade, independentemente de classe, raça, grupo étnico, renda, cultura, nível educacional, idade ou religião e afeta negativamente suas próprias bases.
Regina Navarro Lins ensina que, na pré-história, as sociedades eram organi-zadas de forma igualitária, nas quais:
(...) desconhecia-se o vínculo entre sexo e procriação. Os ho-mens não imaginavam que tivessem alguma participação no nascimento de uma criança, o que continuou sendo ignorado por milênios. A fertilidade era característica exclusivamente fe-minina (...). A ideia de casal era desconhecida. (...) Apesar da linhagem ter sido traçada por parte da mãe e as mulheres re-presentarem papeis predominantes na religião e em todos os aspectos da vida, não há sinais de que a posição do homem fosse de subordinação (LINS, 2011, p. 21-26).
Surgiu, a partir daí, a noção de família como casal heterossexual monogâmico e seus filhos. Tanto filiação como herança passaram a ser masculina, e o homem assume a direção da casa.
De acordo com Engels (1997, p. 31-32) a liberdade sexual da mulher, caracte-rística de épocas anteriores, sofre sérias restrições. Mas a liberdade sexual do ho-mem continua garantida. Sobre a condição da mulher nesse novo arranjo social, En-gels documenta:
A mulher foi degradada, convertida em servidora, em escrava do prazer do homem e em mero instrumento de reprodução. Esse rebaixamento da condição da mulher, (...) tem sido gra-dualmente retocado, dissimulado e, em alguns lugares, até re-vestido de formas mais suaves, mas de modo algum eliminado (ENGELS, 1997, p. 75).
A violência doméstica ocorre desde os tempos primórdios, no entanto, devido a uma cultura machista era pouco divulgada, a mulher era vista como objeto perante a sociedade, devendo obedecer e acatar as vontades do marido.
Com o passar dos anos e a conquista de direitos pela mulher, tal prática pas-sou a ser considerada como violação de direitos principais, tais como liberdade se-xual, violação do corpo, livre arbítrio, liberdade e passou a prevalecer a harmonia no lar, o respeito mútuo, a fidelidade, entre outros valores que nas sociedades antigas encontravam-se em declínio.
Surgiram então penas aplicadas a tais delitos, inicialmente previstas no Códi-go Penal de 1940 e posteriormente reafirmadas em leis específicas como a Lei Ma-ria da Penha e a lei do Feminicídio.
Dados do IBGE de 1996 dão conta de que a cada quatro minutos a polícia re-gistrava uma agressão física contra uma mulher, 63% das agressões ocorriam em suas próprias residências e tendo relações de parentesco, as mulheres representa-vam 65,8% das vítimas (MUNHOZ, 2003, p. 32).
A maioria das violências consideradas domésticas ocorre no âmbito familiar, sempre na justificativa de que o homem não consegue conter seus impulsos sexu-ais, como se tudo não passasse de um problema hormonal e não psíquico.
Há ainda as violências ocorridas no trabalho, dados da conferência Internaci-onal da mulher de 2000 apontam que 2% das trabalhadoras pesquisadas foram as-sediadas sexualmente no ambiente de trabalho e 9% foram intimidados e assedia-dos moralmente (MUNHOZ, 2003, p. 33).
Na Índia, na Malásia, na Sérvia, o estupro conjugal não é considerado crime. O Haiti não reconhece a violência conjugal, quer seja psicológica ou física. Na Costa Rica, na Etiópia, no Libano, no Peru e no Uruguai se o estuprador casar com a víti-ma ele não será punido. E na França se o assédio vier de um colega não é conside-rado crime apenas se for de um superior hierárquico (MUNHOZ, 2003, p. 33).
O movimento feminista trouxe a tona tais abusos aos direitos das mulheres. Em todo o mundo uma a cada cinco mulheres já sofreu algum tipo de violência. No Brasil cerca de 70% dos crimes são cometidos pelos maridos ou companheiros das vítimas. Segundo a Unicef uma a cada dez mulheres no mundo são vítimas de pes-soas do seu convívio (MUNHOZ, 2003, p. 34).
A pesquisa realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo revelou que uma em cada cinco mulheres afirmou já ter sofrido alguma vez “algum tipo de vio-lência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido”. Diante de 20 moda-lidades de violência citadas, no entanto, duas em cada cinco mulheres já teriam so-frido alguma, ao menos uma vez na vida, sobretudo algum tipo de controle ou cerce-amento, alguma violência psíquica ou verbal, ou alguma ameaça ou violência física propriamente dita (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO e SESC, 2010)
Isoladamente, entre as modalidades mais frequentes, 16% das mulheres já levaram tapas, empurrões ou foram sacudidas, 16% sofreram xingamentos e ofen-sas recorrentes referidas a sua conduta sexual e 15% foram controladas a respeito de aonde iriam e com quem sairiam. Além de ameaças de surra, uma em cada dez mulheres já foi de fato espancada ao menos uma vez na vida, ou seja, uma mulher espancada a cada 24 segundos, ou cinco a cada 2 minutos (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO e SESC, 2010).
Com exceção das modalidades de violência sexual e assédio, em todas as demais modalidades de violência o parceiro é o responsável por mais de 80% dos casos reportados. No que diz respeito à raça/etnia, a pesquisa informa que 35% das mulheres já sofreram alguma violência são pardas, 11% negras e 45% brancas. Amarelas e indígenas correspondem a 2% cada. A Pesquisa Nacional de Domicílio (PNAD) – Características da Vitimização e Acesso à Justiça mostra que, quanto à
autoria da agressão, pessoas desconhecidas foram responsáveis por 39% dos ca-sos de agressão, pessoas conhecidas respondem por 36%, o cônjuge, 12,2% e pa-rentes 8,1%. Se somados, os percentuais dos casos em que a agressão foi cometida por conhecido, incluindo cônjuges e parentes, chegasse ao percentual de 52,5% (IBGE, 2009).
Ainda, conforme a mesma pesquisa, 55,7% das vítimas de agressão não pro-curou a polícia. Dentre as razões para não procurá-la, 33,1% afirmaram que tinham medo de represália ou não queria envolver a autoridade policial no caso IBGE, 2009).
Dados semelhantes podem ser encontrados também no Mapa da Violência de 2012, no que se refere aos atendimentos às vítimas de violência doméstica e sexual pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2011, dos 107.572 atendimentos registra-dos no SINAM (Sistema Nacional de Informação de Agravos e Notificação, do Minis-tério da Saúde) 70.270 foram mulheres vítimas de violência, ou seja 65,4% do total (WAISELFISZ, 2012).
Em todas as faixas etárias, a pesquisa aponta que a residência da mulher é o que decididamente prepondera como local onde as situações de violência ocorre-ram, com 71,8% do total, permitindo concluir que é no âmbito doméstico onde as mulheres sofrem mais violência. Dos 20 aos 59 anos, o cônjuge aparece como o principal agressor, sendo que na faixa etária feminina dos 30 aos 39, é o agressor em 49,3% dos casos. A partir dos 60 anos, contudo, são os filhos os principais res-ponsáveis pela violência, evidenciando a violência praticada contra mulheres idosas (WAISELFISZ, 2012).
No Sistema Único de Saúde, o atendimento à violência física é também pre-ponderante, correspondendo à 44,2% dos casos, a partir dos 15 anos de idade. A violência psicológica ou moral aparece em mais de 20% dos casos informados, e a sexual é responsável por 12,2% dos atendimentos – apenas no ano de 2011, foram atendidas acima de 13 mil mulheres vítimas de violência sexual no país (WAISEL-FISZ, 2012).
Dos 26.358 atendimentos que registraram algum tipo de risco decorrente das violências sofridas, 50% relatam que há o risco de morte, seguido pelo risco de es-pancamento (39%) (COMPROMISSO E ATITUDE, 2012).
Em relação ao homicídio feminino, denominado feminicídio, segundo o Mapa da Violência 2012, o Brasil ocupa a 7ª posição, entre 84 países, nas taxas de homi-cídio feminino, atrás apenas de El Salvador, Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia e Colômbia. São 4,4 assassinatos a cada 100 mil mulheres. Nos 30 anos decorridos entre 1980 e 2010, foram assassinadas no país mais de 92 mil mulheres, 43,7 mil só na última década (WAISELFISZ, 2012, p. 8)
O número de mortes nesse período passou de 1.353 para 4.465, que repre-senta um aumento de 230%, mais que triplicando o quantitativo de mulheres vítimas de assassinato no país (WAISELFISZ, 2012, p. 8).
No Brasil, entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil femini-cídios: ou seja, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma morte a cada 1h30. Entre os esta-dos brasileiros, Espírito Santo, Alagoas e Paraná ocupam as três primeiras posições com, respectivamente, 9,8, 8,3 e 6,4 feminicídios para cada 100 mil mulheres. Nos últimos três lugares, encontramos Santa Catarina, São Paulo e Piauí, com as taxas de 3,5, 3, 2 e 2,5, respectivamente (WAISELFISZ , 2012, p. 11).
Como aponta Waiselfisz em suas considerações finais ao Mapa da Violência, altos níveis de feminicídios frequentemente vão acompanhados de elevados níveis de tolerância da violência contra as mulheres e, em vários casos, são o resultado de dita tolerância. Os mecanismos pelos quais essa tolerância atua em nosso meio po-dem ser variados, mas um prepondera: a culpabilização da vítima como justificativa dessa forma de violência, ou seja, foi estuprada porque provocou o incidente, porque vestia roupas curtas, foi assassinada por seu companheiro porque, diante da primei-ra agressão, não abandonou o lar, etc (WAISELFISZ, 2012, p. 26).
1.1 Violência de gênero
Torna-se estranho discutir a violência doméstica sem mencionar a questão de gênero. Em princípio precisa-se diferenciar sexo, sexualidade e gênero que não po-dem ser confundidos.
Sexo diz respeito a identificação biológica do ser humano, macho/fêmea, são as características físicas, no entanto com o avanço da ciência e da medicina, fre-quentemente poder-se-á encontrar indivíduos com identidade social masculina e corpo feminino e vice-versa, ou ainda indivíduos hermafroditas, ou seja, que possu-em ambos os sexos num só corpo, há ainda os indivíduos geneticamente modifica-dos, os quais chamamos transexuais.
Sexualidade, no entanto, é a opção sexual do indivíduo, é a atração sexual seja por pessoas do mesmo sexo, ou ainda do sexo oposto. Culturalmente admitia-se apenas a atração admitia-sexual entre homem e mulher e era repugnada qualquer forma diversa de atração.
Nesse sentido, Gayle Rubin afirma que:
A esfera da sexualidade também tem sua política interna, desi-gualdades, e modos de opressão. Como em outros aspectos do comportamento humano, as formas institucionais concretas da sexualidade em um determinado tempo e lugar são produto da atividade humana. São imbuídos de conflitos de interesse e manobras políticas, ambas deliberadas e incidentais. Nesse sentido, o sexo é sempre político. Mas há períodos históricos em que a sexualidade é mais nitidamente contestada e mais excessivamente politizada. Nesses períodos, o domínio da vida erótica é, de fato, renegociado (RUBIN, 1984, p. 1).
Já o gênero refere-se a identificação individual do indivíduo. Segundo Joan Scott, o termo gênero refere-se a uma organização social, construída sobre a per-cepção das diferenças sexuais sobrepostas as relações desiguais de poder.
gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado as relações de poder. (...) Seria melhor
di-zer: o gênero é um campo primário no interior do qual, ou por meio do qual, o poder é articulado (SCOTT, 1995, p. 86-88).
Para Gomes (2008, p. 239), “gênero se refere a atributos culturais associados a cada um dos sexos, (...) estruturando-se como construção cultural e produzindo efeitos para a produção/ reprodução/modelação de ser homem e ser mulher em da-da socieda-dade”.
Machado (2000, p. 06), nos trás a seguinte definição:
Gênero é uma categoria engendrada para se referir ao caráter fundante da construção cultural das diferenças sexuais, a tal ponto que as definições das diferenças se-xuais é que são interpretadas a partir das definições cul-turais de gênero. Gênero é assim uma categoria classifi-catória que, em princípio, pode metodologicamente ser o ponto de partida para desvendar as mais diferentes e di-versas formas de as sociedades estabelecerem as rela-ções sociais entre os sexos e circunscreverem cosmolo-gicamente a pertinência da classificação de gênero. Este conceito pretende indagar metodologicamente sobre as formas simbólicas e culturais do engendramento social das relações sociais de sexo e de todas as formas em que a classificação do que se entende por masculino e feminino é pertinente e faz efeito sobre as diversas di-mensões das diferentes sociedades e culturas.
A violência doméstica está relacionada diretamente com as questões de gê-nero e predomina em face ao sexo feminino, seja pela questão de coabitação ou ainda pela cultura machista impregnada.
O Conselho Estadual da Condição Feminina conceitua:
Qualquer ato de violência que tem como base o gênero que re-sulta em dano ou sofrimento de natureza física, sexual ou psi-cológica, inclusive ameaças, a coerção ou a privação arbitrária de liberdade, quer se produzam na vida pública ou privada (MUNHOZ, 2003, p. 35).
É importante mencionar que existe sim violência doméstica em face ao ho-mem, punida pelo Código Penal Brasileiro no artigo 129, parágrafo 9º. No entanto por prevalecer no Brasil a cultura sexista, poucos são os casos denunciados, seja
em virtude de vergonha ou de falta de atenção das autoridades aos casos que mui-tas vezes acarretam em homicídio.
Para o feminismo, a discriminação contra a mulher
Se processa pela atribuição dicotômica e hierarquizada de pre-dicados aos sexos, em cuja bipolarização não apenas são opostas qualidades masculinas às femininas, mas estas são in-feriorizadas: racional/ emocional, objetivo/ subjetivo, concreto/ abstrato, ativo/ passivo, força/ fragilidade, virilidade/ recato, tra-balho na rua/ no lar, público/ privado. O pólo ativo é represen-tado pelo homem-racional-ativo-forte-guerreiro-viril-trabalhador-público, o pólo passivo é representado pela mulher-emocional-passiva-fraca-impotentepacífica-recatada-doméstica (ANDRA-DE, 2004, p. 02).
Esse entendimento é corroborado por Alessandro Baratta:
As pessoas do sexo feminino tornaram-se membros de um gê-nero subordinado, na medida em que a posse de certas quali-dades e o acesso a certos papéis vêm percebidos como natu-ralmente ligados somente a um sexo biológico e não a outro. Esta conexão ideológica e não ‘natural’ entre os dois sexos condiciona a repartição dos recursos e a posição vantajosa de um dos gêneros (BARATTA, 1999, p. 21-22).
Conforme o disposto no artigo 5° da Lei 11340/06, “[...] configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”. A violência doméstica, no entendimento da lei, é, assim, qualquer des-sas ações ou omissões praticadas contra a mulher em razão do vínculo de natureza familiar ou afetiva.
1.2 Marcos normativos internacionais
A Primeira Conferência Mundial sobre a Mulher foi realizada na cidade do México, em 1975. Em 1979 realizou-se a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, também conhecida como “Carta Inter-nacional dos Direitos da Mulher”. É o primeiro tratado de direitos humanos a afirmar
os direitos reprodutivos das mulheres e a organizar uma agenda para ação nacional com o intuito de por fim a tal segregação (OLIVEIRA, 2015, p. 37-38).
O Brasil aderiu a esta Convenção, como Estado-parte, assinando-a em Nova York, na data de 31 de março de 1983. No entanto, o Congresso Nacional ratificou esta assinatura em 1984, com reservas, suspensas estas pelo Decreto Legislativo n. 26, de 22 de junho de 1994(BRASÍLIA, 1994).
Em 1980, foi realizada a Segunda Conferência Mundial sobre a Mulher, em Copenhague, Dinamarca. Seu planejamento de ação solicitou mais medidas nacio-nais para assegurar o domínio e controle de propriedade das mulheres, e melhorias quanto aos seus direitos referentes à herança, guarda dos filhos e perda da naciona-lidade (NASCIMENTO, 2013).
Em 1985, ocorreu a Conferência Mundial para Revisão e Avaliação das Reali-zações da Década das Nações Unidas para a Mulher: Igualdade, Desenvolvimento e Paz, realizada em Nairóbi, no Quênia. O evento resultou no “nascimento do femi-nismo global” (NASCIMENTO, 2013).
A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência con-tra a Mulher, Convenção do Belém do Pará, aprovada pela Assembleia Geral da Or-ganização dos Estados Americanos (OEA), em 09 de junho de 1994, foi ratificada pelo Brasil em 1995 e promulgada através do Decreto n. 1.973, de 1º de agosto de 1996 (BRASIL, 1996).
Este decreto ratificou a adesão do Estado brasileiro ao Protocolo Facultativo à Convenção de sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mu-lher, concluso durante a 43ª Sessão da Comissão do Status da Mulher na ONU, em 12 de março de 1999, ampliando a competência dos Comitês de cada um dos Esta-dos-partes(MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2000).
Em 1995, aconteceu em Pequim, na China a Quarta Conferência Mundial so-bre as Mulheres. Considerou os direitos das mulheres como direitos humanos e se comprometeu com ações próprias para garantir o respeito a esses direitos (NASCI-MENTO, 2013).
Ocorreu ainda um grande progresso quanto à fiscalização da proteção e ga-rantia dos direitos das mulheres no Brasil, realizado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ao promulgar o Decreto n. 4.316, de 31 de julho de 2002 (BRASIL, 2002).
Quanto à tipificação expressa do feminicídio, sete países da América Latina tomaram a decisão política de tipificar o feminicídio/femicídio: Costa Rica, El Salva-dor, Guatemala, Nicarágua, Chile, México, Peru (BUZZI, 2014, p. 72-73).
1.3 Marcos normativos Nacionais
A Constituição Federal, em seu artigo 5º, elenca os direitos e garantias fun-damentais de mulheres e homens, dentre os quais, o direito à vida, à igualdade, a não discriminação e à segurança. O inciso I do artigo mencionado estabelece que homens e mulheres são iguais em direitos e deveres, nos termos da Constituição (BRASIL, 1988).
O artigo 226, por sua vez, estabelece que a família tem especial proteção do Estado, e prevê, em seu § 8º, que “o Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações”.
Modernamente, a Lei 11.340 de 07 de agosto de 2006, popularmente conhe-cida como Lei Maria da Penha, cujo principal objetivo era aumentar o rigor punitivo nos casos de violência doméstica em face da mulher é mais um instrumento de pro-teção às vítimas de violência doméstica.
O caso conhecido como de nº 12.051 da OEA1, de Maria da Penha Maia Fer-nandes, foi o caso que desencadeu uma maior punição por parte do estado as mu-lheres vitimas de violência Doméstica. Maria da Penha foi vítima de violência domés-tica durante 23 anos, por parte de seu marido. Em 1983, ele por duas vezes, tentou assassiná-la. Na primeira vez, com arma de fogo, deixando-a paraplégica, e na se-gunda, por eletrocussão e afogamento. Após essa tentativa de homicídio ela tomou coragem e o denunciou. O marido de Maria da Penha foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado, para revolta de Maria com o poder público (MACIEL, 2011, p. 97-111).
Em razão desse fato, o Centro pela Justiça pelo Direito Internacional e o Co-mitê Latino - Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), juntamente com a vítima, formalizaram uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Huma-nos da OEA, ocasião em que o país foi condenado por não dispor de regulamenta-ção normativa a fim de coibir tais práticas (MACIEL, 2011, p. 97-111).
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos considerou ter o Estado brasileiro violado os deveres assumidos quando da ratificação da Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (Carta Inter-nacional dos Direitos da Mulher) e da Convenção Interamericana para Prevenir, Pu-nir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará), o que culminou na promulgação da Lei n. 11.340, de 07 de agosto de 2006 (MACIEL, 2011, p. 97-111).
Tal ordenamento jurídico alterou o Código Penal, como no parágrafo 9º, do Artigo 129, possibilitando que agressores de mulheres em âmbito doméstico ou fami-liar sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada. Estes agressores também não poderão mais ser punidos com penas alternativas. A legis-lação aumenta o tempo máximo de detenção previsto de um para três anos; a lei prevê, ainda, medidas protetivas que vão desde a remoção do agressor do domicílio à proibição de sua aproximação da mulher agredida (BRASIL, 2006).
1
1.4 Crimes passionais
E nesse contexto de violência doméstica entende-se por agente passional aquele que age motivado pela paixão, daí decorre o crime passional que seria quan-do o agente ultrapassa os limites da paixão, aginquan-do de forma impulsiva, quan-doentia, sem a consciência dos seus atos.
Partindo do entendimento de que a arte inspira-se na vida, reflete a realidade, são interessantes os esclarecimentos de Alves (1986, p. 01):
É inegável que o crime sempre existiu como fonte de inspiração literária, a começar pela citação da morte de Abel por Caim, na Bíblia, desde que o fenômeno humano e social que existe na arte não podia ignorar o grande conteúdo humano e social existente no delito e no delinquente. Existe, assim, certa afini-dade entre a obra de arte em geral - literatura, pintura, escultu-ra, etc. - e a criminalidade. A arte inspira-se na vida, reflete a realidade, busca expressar, também, o homem e a sociedade e assim sendo não poderia ignorar a realidade humana e social do fenômeno criminal, sobretudo a personalidade do criminoso. Sobre a influência das artes para a ocorrência de homicídios passionais, pre-ceitua Eluf (2003, p. 113):
A literatura mundial está repleta de romances que relatam homicídios passionais. Tanto se escreveu sobre o tema, e de forma por vezes tão adocicada, que se criou uma aura de perdão em torno daquele que mata seu objeto de desejo. O homicídio passional adquiriu gla-mour, atraiu público imenso ao teatro e, mais modernamente, ao ci-nema; foi, por vezes, tolerado, resultando disso muitas sentenças ju-diciais absolutórias até que a sociedade, de maneira geral, e as mu-lheres, de forma especial, por serem as vítimas prediletas dos tais “apaixonados”, insurgiram-se contra a impunidade e lograram mos-trar a inadmissibilidade da conduta violenta “passional”.
Ainda, conforme Eluf, a luta pelos direitos das mulheres, a fim de erradicar com um pensamento patriarcal no julgamento dos crimes passionais, trouxe um avanço significativo também aos julgamentos:
A evolução da posição da mulher na sociedade e o desmoronamento dos padrões patriarcais repercutiram significativamente nas decisões judiciais, principalmente nos julgamentos dos crimes passionais.
As-sassinos que, não raras as vezes, eram perdoados com base nos di-reitos “superiores” do homem sobre a mulher, foram, aos poucos, sendo submetidos a punições cada vez mais rigorosas, na medida em que a sociedade brasileira se dava conta de que as mulheres não podiam ser tratadas como pessoas inferiores, submetidas ao poder de homens, que teriam o direito de vida e morte sobre elas (GAIA, 2010, p. 17).
Nesse sentido, poder-se-á afirmar que antigamente tais violências eram mais toleradas pela sociedade, haja vista que a mulher era tida como objeto do marido. Com o passar dos anos e a evolução de direitos concedidos às mulheres tal ato passou a ser repugnado e punido com rigor.
1.5 Lesões Leves, graves e gravíssimas e lesão seguida de morte.
Já a lesão corporal tipificada no artigo 129 e seus parágrafos do Código Penal Brasileiro, diz respeito à ofensa da integridade física da vítima.
Os crimes de lesão corporal leve ou culposa, pela regra do art. 88 da Lei 9.099/95 procedem mediante representação do ofendido. O prazo para oferecer a denúncia decorre em 06 meses a contar da data em que a vítima ou seu represen-tante, tenha conhecimento de quem seja o agressor.2
No caso do parágrafo 1º, serão graves as lesões que tornem a vítima incapa-citada para suas atividades habituais por mais de 30 dias; as que gerem perigo de vida, as que gerem debilidade permanente de um membro, sentido ou função; e as que acelerem o parto.
As lesões gravíssimas estão descritas no parágrafo 2º do artigo mencionado, que gerará para a vítima a incapacidade permanente para o trabalho, enfermidade incurável, perda ou inutilização de membro, sentido ou função, deformidade perma-nente ou gere o aborto em gestante (BRASIL, 1940).
2 Art. 38. Salvo disposição em contrário, o ofendido, ou seu representante legal, decairá no direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de seis meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia (BRASIL, 1941)
A lesão seguida de morte é tratada no parágrafo 3º do artigo 129, é um crime exclusivamente preterdoloso, pois se o agente agiu com dolo, ou seja, com a inten-ção de matar, trata-se de homicídio doloso (BRASIL, 1940).
Ocorre quando o agente deseja ferir sua vítima, mas a morte deve ser conse-quência imprevisível e indesejada de sua ação. Não admite tentativa. O dolo não é de matar, mas apenas de ferir a vítima e a morte sobreveio como resultado indese-jado.
1.6 Estupro
Estupro é a prática sexual forçada, ou seja, sem consentimento da vítima. O ato pode ser realizado por força física, coerção, abuso de autoridade ou contra uma pessoa incapaz de oferecer um consentimento válido, tal como quem está inconsci-ente, incapacitado, tem uma deficiência mental ou está abaixo da idade de consen-timento.
O ato sexual era realizado nos tempos primórdios apenas com intuito de pro-criação ou reprodução, no entanto, com o passar dos anos, passou-se a se des-prender desta ideologia, e, assim, o ato sexual adquiriu três finalidades, exterioriza-ção do desejo sexual, procriaexterioriza-ção e afetividade. O ser humano se desprendeu da ideia de realizar a prática apenas no intuito de preservação da espécie e passou a praticar o ato como forma de prazer e demonstração de afeto (MUNHOZ, 2003, p. 04).
Os crimes sexuais normalmente são de autoria masculina, independente da opção sexual da vítima. Importante mencionar, que não estamos fazendo qualquer discriminação de sexo, tão pouco acusando os homens como autores absolutos dos crimes sexuais, no entanto, os crimes sexuais, onde figuram como vítimas, são pou-co divulgados e denunciados, em virtude de uma cultura machista predominante até os tempos atuais, onde o homem figura como ser supremo, autor de ação, detentor do poder e não como ser vitimado pela sociedade (MUNHOZ, 2003, p. 07).
No direito hebraico, aplicava-se a pena de morte ao homem que violasse a mulher desposada, isto é, prometida em casamento. Se a vítima fosse mulher vir-gem, não desposada, deveria o autor indenizar o pai da vítima em cinquenta ciclos prata, como também deveria casar-se com sua filha, não podendo “despedir em to-dos os seus dias”, porquanto a humilhou (OLIVEIRA, 2008, p. 11).
No Egito a pena era de mutilação. Já na Grécia, era aplicada uma pena de multa e depois a morte veio a ser imputada. Em Roma, a violência carnal era punida com pena de morte. Já na Alemanha, as penas também eram severas. No canônico exigia-se que a vítima fosse mulher virgem e o ato cometido mediante violência (OLIVEIRA, 2008, p. 11-13).
No direito espanhol, as penas aplicadas eram a pena de morte do réu, ou com a declaracion de enemistad, que concediam aos familiares da vítima o direito de ma-tar seu agressor. No direito inglês, o crime de estupro era punido com a morte e ao passar do tempo fora substituído por castração e pelo vazamento dos olhos (OLI-VEIRA, 2008, p. 12).
Segundo Dr. Magalhães Noronha e o Professor Chrysolito de Gusmão, no di-reito brasileiro, o estupro era punido desde as Ordenações do Livro V, com grande severidade.
Dispõe o título XVII:
Do que dorme per força com qualquer mulher, ou tava dela, ou a leva per sua vontade, prescrevia: Todo homem de qualquer estado e condição que seja, que forçosamente dormir com qualquer mulher posto que ganhe dinheiro per seu corpo, ou seja escrava, morra por ello (NORONHA, 2002, p. 67-68). Segue ainda no caso de casamento consentido entre as partes, “E posto que o forçador, depois do maleficio feito case com a mulher forçada e ainda que o casa-mento seja feito por vontade dela, não será revelado da dita pena, mas morrerá, as-sim como se ela não houvesse casado” (MESTIERE, 1982, p. 08).
Em 1830, a punição era mais elevada, se comparado à 1890 e ao atual, o ar-tigo 222 trazia a seguinte punição à tal delito: “Ter cópula carnal por meio de violên-cia ou ameaça com qualquer mulher honesta. Pena de prisão por três a doze anos, e de dotar a ofendida” (PIERANGELLI, 1980).
Atualmente, o estupro é considerado prática hedionda, nos termos do art. 1º da Lei dos crimes hediondos, Lei nº 8072/90. Punido conforme art. 213 do Código Penal Brasileiro, que trás a seguinte redação: “constranger mulher a conjunção car-nal, mediante violência ou grave ameaça” (BRASIL, 1990).
Conforme Mirabete (1991, p. 417), trata-se de um delito de constrangimento ilegal em que se visa a prática da conjunção carnal. O nomem juris deriva de stu-prum, do direito romano, termo que abrangia todas as relações carnais.
O bem jurídico a ser preservado é a liberdade sexual da mulher, sob o prisma de dispor como quiser de seu próprio corpo, liberdade de escolha pela prática sexu-al. A doutrina dominante entende ser somente o homem sujeito ativo no delito, uma vez que a conjunção carnal só poderia ser realizada com mulher, prática normal.
A co-autoria ocorre mediante a participação no resultado estupro, ainda que tal sujeito não tenha mantido relações sexuais com a vítima. Havendo mais de um agente ofensor é considerado concurso material, respondendo cada qual pelo delito.
A conduta típica é a conjunção carnal por meio de violência ou grave ameaça. Conjunção carnal é a cópula vagínica, completa ou incompleta, entre homem e mu-lher. Para configuração do estupro não é exigido o rompimento do hímen, bem como que tenha ocorrido ejaculação.
Segundo Mirabete:
É indispensável para a caracterização do estupro que tenha havido constrangimento da mulher mediante violência ou grave ameaça. Exige-se que a vítima se oponha com veemência ao ato sexual, resistindo com toda sua força e energia, em dissen-so sincero e positivo. Não basta uma platônica ausência de adesão, uma recusa puramente verbal, uma oposição passiva
e inerte ou meramente simbólica, um não querer sem maior re-beldia. Deve-se configurar, portanto, uma oposição que só a violência física ou moral consiga vencer, que a mulher seja obrigada, forçada, coagida, compelida à pratica da conjunção carnal (MIRABETTE, 1991, p. 420).
O tipo subjetivo é o dolo, que seria a vontade de constranger, obrigar e forçar a mulher a praticar a conjunção carnal. Segundo Nelson Hungria (2002, p. 82), para que ocorra o crime é necessário o fim de saciar a paixão lasciva do agente.
As causas de aumento de pena encontram-se elencadas no artigo 224 do CP, e agravam a pena até a metade, observando-se o limite máximo de 30 anos de re-clusão, conforme artigo 9º da Lei 8.072/90 – Lei dos Crimes Hediondos. São de aplicação obrigatória e natureza objetiva (BRASIL, 1990).
A pena mínima prevista na legislação brasileira para o crime de estupro é de seis a dez anos de reclusão (artigo 213, caput do Código Penal). Se resultar em le-são grave a reclule-são passa a ser de oito a doze anos (artigo 223, caput); com resul-tado morte, de doze a vinte e cinco anos (parágrafo único). A pena pode ser aumen-tada até a quarta parte se houver concurso de pessoas, se o agente é casado ou possui relações especiais com a vítima (artigo 226) (BRASIL, 1940).
O artigo 225 do Código Penal estabelece que a ação penal se procede medi-ante representação da vítima ou através de um representmedi-ante legal da mesma, quando tratar-se das condições do artigo 224 da legislação pertinente (BRASIL, 1940).
1.7 Homicídio/ Feminicídio
Já o homicídio ou feminicídio, consiste em matar alguém, tipificado no artigo 121 do Código Penal, a pena é agravada se a vítima for mulher, incisos VI e VII, in-cluído pela Lei nº 13.104 de 09 de março de 2015, popularmente conhecida como a Lei do Feminicídio (BRASIL, 2015).
O homicídio nos crimes passionais decorre do sentimento de paixão avassa-ladora, misto de amor, ódio, ciúme, rancor ou até mesmo vingança. Normalmente
ocorre nas relações em que um dos cônjuges/parceiros não aceitou o término ou ainda por ciúme desmedido, traição, dificuldades financeiras, etc.
Importa mencionar, que os crimes passionais é a relação direta com o senti-mento de paixão, em geral ocorre entre homem/mulher, mas pode vir a atingir as demais relações de parentesco, desde que motivadas pela paixão.
Há no homicídio ainda o tipo privilegiado, na qual a ação do agente é motiva-da por relevante valor moral ou social ou acometido de violenta emoção logo após a injusta provocação da vítima, conforme disposto no art. 121, §1º do Código Penal (BRASIL, 1940).
Por tratar-se de um crime doloso contra a vida humana é julgado pelo Tribu-nal do Júri, conforme previsto na Constituição Federal art. 5º, incisos XXXVIII.
O termo femicide foi prolatado pela primeira vez pela feminista Diana Russell no Tribunal Internacional de Crimes contra Mulheres, realizado na cidade de Bruxe-las, na Bélgica. O termo foi utilizado para designar toda e qualquer forma de crime patriarcal e opressão sexual de mulheres (RUSSEAL, 1990).
No México, a feminista Marcela Lagarde, ao traduzir os textos de Diana Rus-sell alterou o termo femicídio para feminicídio. Para ela, femicídio seria o homicídio feminino, de maneira que o feminicídio englobaria a violência exercida por homens contra mulheres, em condições de desigualdade, de subordinação, de exploração ou de opressão e com a particularidade da exclusão (LAGARDE, 2006).
A classificação mais comum divide o feminicídio em três grupos: o feminicídio íntimo, o não íntimo e por conexão.
O feminicídio íntimo ocorre quando a vítima tem ou teve uma relação afetiva com o homicida, relação essa que inclui a relação presente ou passada, podendo nesta hipótese abarcar companheiros, noivos e namorados, não se limitando, por-tanto, à união matrimonial (SOUZA, 2015, p. 23).
Já o feminicídio não íntimo ocorre quando a vítima não possuía qualquer rela-ção de casal, familiar ou de convivência com o agressor, podendo envolver agressão sexual ou não. Em regra, ocorre por homens com as quais a vítima possuía alguma relação de confiança ou hierarquia, tais como colegas do trabalho, amigos ou po-dendo ser o agressor um desconhecido. Essa categoria costuma abarcar também o feminicídio cometidos contra mulheres envolvidas em profissões marginalizadas, como é o caso das prostitutas (SOUZA, 2015, p. 25).
Por fim, o feminicídio por conexão, faz referência a mulheres assassinadas por estarem na “linha de fogo” de um homem que pretendia matar uma outra mulher, ou seja, mulheres que tentam evitar o cometimento de um assassinato e acabam morrendo, que pode ocorrer na “aberratio ictus” (SOUZA, 2015, p. 25).
Antes da lei n. 13.104/2015, não havia qualquer punição específica para os homicídios perpetrados contra mulheres em razão do gênero. Nessa esfera, em jus-tificação apresentada pelo Senado Federal no Projeto de Lei n. 292/2013, há uma excelente explicação dos principais motivos que levaram à “tipificação” do feminicí-dio:
A importância de tipificar o feminicídio é reconhecer, na forma da lei, que mulheres estão sendo mortas pela razão de serem mulheres, expondo a fratura da desigualdade de gênero que persiste em nossa sociedade, e é social, por combater a impunidade, evitando que fe-minicidas sejam beneficiados por interpretações jurídicas anacrôni-cas e moralmente inaceitáveis, como o de terem cometido ‘crime passional’. Envia, outrossim, a mensagem positiva à sociedade de que o direito à vida é universal e de que não haverá impunidade. Pro-tege, ainda, a dignidade da vítima, ao obstar de antemão as estraté-gias de se desqualificarem, midiaticamente, a condição de mulheres brutalmente assassinadas, atribuindo a elas a responsabilidade pelo crime de que foram vítimas (BRASIL, 2013).
A violência doméstica está presente em nossa sociedade nas mais variadas formas, muito embora tenham sido criados ordenamentos jurídicos a fim de punir tais delitos, verifica-se ainda a presença constante da submissão das mulheres aos ho-mens, evidenciado pela cultura machista autoritária.
2. CIRCUNSTÂNCIAS MOTIVADORAS DO CRIME PASSIONAL
2.1 Ciúmes
Trata-se de uma perturbação causada pela suspeita ou receio de infidelidade nos relacionamentos, sejam eles amorosos ou não. O ciúme está diretamente ligado a uma ameaça de perda, de concorrência (GAIA, 2010, p. 48).
É um sentimento individualista. Seus principais motivos são: insegurança, imaturidade afetiva, falta de estrutura emocional, julgamento precipitado quanto ao sentimento da outra parte, orgulho ferido e egoísmo, fazendo com que o ciumento desenvolva a possessividade nas suas relações. Especialistas afirmam que o ciúme pode estar relacionado a problemas de infância e transtornos psicológicos (GAIA, 2010, p. 49).
Costuma-se dizer que não existe amor sem ciúme, porém, é importante des-tacar que o amor afetuoso é diferente do amor possessivo, embora em ambos possa existir ciúme (GAIA, 2010, p. 49).
Conforme Beraldo Júnior (2003), quando o ciúme tem relação com o desejo sexual, ou seja, quando está ligado ao relacionamento amoroso, ele caminha ao la-do la-do amor, mas, quanla-do o amor acaba, e o ciúme continua, juntamente com a ideia de rejeição, de não ser capaz de amar uma nova pessoa. Nesse momento, o ciúme ultrapassa as barreiras do amor. O ciumento sente que foi ferido em sua honra, que o companheiro não era merecedor de confiança e incapaz de restaurar seu amor próprio.
Existem várias situações que vão desencadear o ciúme, bem como existem ciúmes de diferentes graus de intensidade. O ciúme patológico é aquele que neces-sita tratamento, visto que pode vir a ocasionar problemas à vida social e pessoal do agente. Nesse caso, a pessoa cria uma dependência emocional extrema, ligada a relação. Qualquer atitude do parceiro pode ser encarada como uma ameaça, capaz de colocar em risco não apenas o relacionamento, mas toda a sua vida, uma vez que é incapaz de imaginar viver sem o companheiro (GAIA, 2010, p. 49).
O “ciumento patológico” é aquele que permite ser dominado pelo ciúme. Sen-te-se inseguro, ferido ou humilhado em seu decoro, com medo de perder seu objeto de desejo e amor; incapaz de manter a atenção do companheiro, incapaz de ganhar ou manter afastado um possível rival (GAIA, 2010, p. 49).
O ciúme, em seu nível extremo cria fantasias sobre possíveis traições sem que haja de fato algum perigo ou iminência de concretização de tal ato. O compa-nheiro ciumento sente-se ameaçado por um simples olhar ou sorriso, não importan-do que seja de pessoas importan-do convívio importan-do casal ou importan-do companheiro, para este é uma ameaça e deve ser afastada (GAIA, 2010, p. 49).
Para Alves (apud ELUF, 2003, p. 115):
o ciumento considera a pessoa amada mais como “objeto” que verdadeiramente como “pessoa” no exato significado desta pa-lavra. Esta interpretação é característica do delinquente por ci-úme.
Outra situação que pode manifestar o ciúme é o sentimento de inferioridade. A pessoa sente-se inferior em vários aspectos, que variam desde a aparência física à intelectual, por exemplo. Quando encontra alguém com essas qualidades que julga não possuir, sente-se ameaçada (GAIA, 2010, p. 50).
Mas a situação que mais enseja o ciúme é aquela em que o parceiro manifes-ta admiração ou interesse em outras pessoas. E em razão da dependência emocio-nal em relação ao companheiro, e por sentir-se ameaçado, não suportam cogitar a ideia de perda do parceiro para um terceiro (GAIA, 2010, p. 50).
É o receio de ser abandonado, rejeitado, menosprezado; medo de não ser mais importante e amado; enfim, medo da solidão, de tornar-se dispensável na vida do outro (GAIA, 2010, p. 50).
Cada pessoa sofre à sua maneira. Há os que sofrem em razão do sentimento de possessividade que desenvolvem em relação ao companheiro, que tem medo pavor de idealizar seu “objeto de desejo” entregando-se à outra pessoa. Por outro
lado, há àquele que se sente ferido em razão de não ser correspondido. Este, no entanto, sofre silenciosamente, é incapaz de fazer mal ao ser amado (BERALDO JÚNIOR, 2003).
A maioria das pessoas portadoras de ciúme sabem que o tem, de modo que, quando estão em um relacionamento amoroso, vivem em função do ser amado, mesmo que isso os perturbe. Responsabilizando o parceiro por sua insegurança, afirmando-se vítimas quando, na realidade, criam ideias que acabam lhes pertur-bando. O ciumento obsessivo idealiza casos, tira suas próprias conclusões e sempre acha que está correto. O passado amoroso do parceiro o amedronta tanto quanto as historias que ele mesmo fantasia (GAIA, 2010, p. 50).
Se considerarmos o ciúme como um sentimento genuíno do ser humano, cus-toso, que não podemos evitar, entendemos a urgência de distinguir se é algo natural ou incontrolável, que necessita de tratamento médico (GAIA, 2010, p. 50).
Agravado, esse sentimento leva a problemas psiquiátricos, podendo acarretar em agressões físicas, sendo utilizado como justificativa nos homicídios passionais “Se não for minha, não será de ninguém mais” (GAIA, 2010, p. 50).
Corroborando com o acima exposto, vários autores já definiram ou discorre-ram sobre os crimes derivados da passionalidade:
Como observa Rabinowicz (apud ELUF, 2003, p. 113-114):
Curioso sentimento o que nos leva a destruir o objeto de nossa pai-xão! Mas não devemos extasiar-nos perante o fato: é, antes, preferí-vel deplorá-lo. Porque o instinto de destruição é apenas o instinto de posse exasperado. Principalmente quando a volúpia intervém na sua formação.
Por fim, dever-se-á ficar atentos a todos os tipos de manifestação de ciúme, a fim de evitar possíveis transtornos psicológicos, uma vez que em grau elevado pode ocasionar a morte do companheiro ou de quem deste se aproximar, eis que o ciu-mento age por impulso e motivado pela ideia fixa de posse sob seu “objeto de dese-jo”.
2.2 Amor
O amor, é a soma de outros sentimentos, tornando-se algo sublime, raro, in-tenso, podendo acarretar em resultados catastróficos (GAIA, 2010, p. 51).
O minidicionário Aurélio da língua portuguesa (2008, p. 118) define o amor como:
1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem. 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma cau-sa. 3. Inclinação ditada por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa [...].
Observe que, se por um lado o amor é “querer bem”, é “esforçar-se para fazer o outro feliz”, é gentileza, estima, compreensão, proteção, cuidado, por outro lado ele pode ocasionar atração, inveja, posse, desejo. Trata-se da colisão entre o afetu-oso (platônico) e o possessivo (físico), duas formas de amar distintas, e que mere-cem ser consideradas, diante dos equívocos e dos resultados que podem produzir, como a sua inclinação ou não de acarretar ao crime (GAIA, 2010, p. 51).
O amor platônico ou afetuoso é aquele em que o amante tem seu escopo na pessoa amada, sem talvez nunca tê-la tocado. Não se concretiza em contato físico, mas sim num furor de ternura e pureza, num encontro de almas grandiosas (GAIA, 2010, p. 52).
Por outro lado, o amor físico ou possessivo, é aquele de cunho sexual, selva-gem, obsceno. É um sentimento carnal, enlouquecedor, tornando-o egocêntrico. O amor físico torna o ser amado em propriedade, objeto, exige ser exclusivo e não aceita jamais o abandono. Também é possível notar a presença de outro sentimen-to: o ódio, causado justamente pelo medo do abandono (GAIA, 2010, p. 52).
O amor afetuoso não gera a ideia de morte porque é capaz de perdoar eter-namente, mesmo havendo ciúme. Já o amor sexual-possessivo, por ser egocêntrico, pode gerar momentos de grave violência, inclusive ao homicídio (GAIA, 2010, p. 52).
Dessa maneira, fica comprovado que o “amor” citado pelo criminoso passional é o físico, possessivo, pois é egoísta e imaturo, ocasionando o homicídio (GAIA, 2010, p. 52).
2.3 Paixão
O minidicionário Aurélio da língua portuguesa (2008, p. 603) à paixão:
1. Sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade. 2. Amor ardente. 3. Entusiasmo muito vivo. 4. Atitude, hábito ou vício dominador [...]”. Na mesma fonte (p. 340), a emoção é definida como “1. Ato de mover-se moralmente. 2. Perturbação do espírito provoca-da por situações diversas e que se manifesta como alegria, tristeza, raiva, etc.; comoção. 3. Estado de ânimo despertado por sentimento estético, religioso, etc.
Para Eluf (2003, p. 111):
Paixão não é sinônimo de amor. Pode decorrer do amor e, então, se-rá doce e terna, apesar de intensa e perturbadora; mas a paixão também resulta do sofrimento, de uma grande mágoa, da cólera. Por essa razão, o prolongado martírio de Cristo ou dos santos torturados é chamado de “paixão”.
Como explica Beraldo Júnior (2003), o que retrata a paixão é a sua intensida-de. Quando nasce, o amor é afetuoso; com o passar do tempo, torna-se físico, pos-sessivo, sexual e surge o ciúme, crescendo junto com ele. Quando o ciúme ultrapas-sa as barreiras do amor, surge a paixão.
Para os psicólogos, o estado passional é um estado emocional continuado. Branco (1975, p. 139) diferencia a paixão – “tensão permanente, obsessão constan-te” – da emoção – “sintoma passageiro, que surge como reação a um estímulo ex-terno” –, sendo que tanto as emoções como as paixões, sentimentos originários do homem, quando modificados tornam-se violentos, que escapam do equilíbrio e deno-tam uma anormalidade emocional ou passional, própria dos indivíduos supersensí-veis ou psiconeuróticos.
Mirabete (2006, p. 218) também traz a sua diferenciação entre emoção e pai-xão:
Emoção é um estado afetivo que, sob uma impressão atual, produz repentina e violenta perturbação do equilíbrio psíquico. Sendo inten-sa, é comparável à torrente que rompe um dique (Kant). São emo-ções a ira, o medo, a alegria, a surpresa, a vergonha, o prazer eróti-co etc. A paixão é uma profunda e duradoura crise psieróti-cológica que ofende a integridade do espírito e do corpo, o que pode arrastar mui-tas vezes o sujeito ao crime. É duradoura como uma força que se in-filtra na terra, minando o obstáculo que, afinal, vem a ruir. São pai-xões o amor, o ódio, a avareza, a ambição, o ciúme, a cupidez, o pa-triotismo, a piedade etc.
Ainda, para Mirabete (2006, p. 218), “a diferença entre a emoção e a paixão reside no fato de ser a primeira aguda e de curta duração e a segunda crônica e de existência mais estável”.
Parecer compatível encontramos em Hungria (apud BITENCOURT, 2006, p. 450):
Emoção é uma viva excitação do sentimento. É uma forte e transitó-ria perturbação da afetividade a que estão ligadas certas vatransitó-riações somáticas ou modificações particulares das funções da vida orgâni-ca. A paixão é a emoção em estado crônico, perdurando como um sentimento profundo e monopolizante (amor, ódio, vingança, fana-tismo, desrespeito, avareza, ambição, ciúme etc.).
Enfim, diferenciar emoção e paixão não é fácil, pois não apresentam diversi-dades de natureza e grau, e, da mesma maneira como há paixões violentas e emo-ções calmas, o contrário também pode acontecer. A única diferença efetiva é que a emoção é passageira e a paixão é duradoura (GAIA, 2010, p. 54).
Os criminologistas da escola clássica do direito penal dividiam os sentimentos morais exagerados em paixões cegas e paixões racionais. Para Carrara (apud LEAL, 2005), paixões cegas são aquelas que “agem com veemência sobre a vonta-de e ultrapassam as resistências da razão, vonta-deixando ao intelecto menor povonta-der vonta-de reflexão”. Para ele, essas formas de paixão “devem ser admitidas como causas mi-norantes da imputação porque merecem escusa quem se deixa arrastar ao mal pelo ímpeto de súbita perturbação”. Como exemplo de paixões cegas, que têm ação per-turbadora da inteligência, os clássicos citavam o amor e o ciúme.
Já as paixões racionais, como a paixão pelo jogo e pelo dinheiro, que respei-tam, o raciocínio, eram definidas por Carrara (apud LEAL, 2005) como sendo as que “aguçam os cálculos do raciocínio e deixam ao homem a plenitude do arbítrio, que fica sujeito à obrigação de recordar as proibições da lei e de refletir sobre as conse-quências das próprias ações”.
Ferri (apud ELUF, 2003, p. 112) distingue a paixão em duas espécies: as so-ciais e as antissoso-ciais, conforme seus benefícios e danos aos amantes e à socieda-de. Podemos considerar sociais o amor, a honra, o patriotismo e o afeto materno; já as paixões antissociais são o ódio, a vingança, a cólera, a ferocidade, a cobiça e a inveja.
Dessa maneira, aquele que mata buscando vingança está agindo impelido tanto por uma paixão social (honra) como por uma paixão antissocial (ódio) (GAIA, 2010, p. 55).
No entanto, nem todas as paixões são moralmente iguais. Algumas são boas e outras ruins; algumas são cabulosas e pejorativas, outras são respeitáveis e im-pulsionam os homens na conquista de seus objetivos (GAIA, 2010, p. 55).
Trata-se aqui não da paixão no sentido amplo do termo, mas sim da paixão em sentido estrito, como um sentimento, mais especificamente do amor egocêntrico e excessivo, possessivo, vindo a tratar o companheiro como um pertence/ proprie-dade (GAIA, 2010, p. 55).
A paixão tende a se manifestar em indivíduos desprovidos emocionalmente, isto é, imaturos para assumir uma relação amorosa. Em indivíduos egoístas, ela aparece da pior forma, pois são pessoas que não sabem encarar a realidade, vivem numa constante utopia, onde idealizam o ser amado e as situações. Geralmente, o homicídio passional ocorre quando esse indivíduo sofre uma decepção amorosa e a sua soberba lhe impede de solucionar a situação de maneira saudável. A decepção somente ocorre quando há criação de expectativas em torno de devaneios. Esse é o ambiente de um homicida passional, que não suporta ser ferido naquilo que possui de mais valioso: seu decoro (GAIA, 2010, p. 55).
A forma de ação também pode ser diferente, enquanto uns se entregam ao si-lêncio, à depressão, outros reagem de forma brutal e fria, sendo impulsivos e explo-sivos (GAIA, 2010, p. 55).
Nas palavras de Eluf (2003, p. 117):
Para solucionar a insatisfação amorosa-sexual entre parceiros há vá-rias alternativas, dentre as quais o diálogo, a compreensão, o perdão ou a separação, sem violência. Por que alguns matam? Porque pa-decem de amor obsessivo, de desejo doentio, de insensatez. São narcisistas, querem ver na outra pessoa o engrandecimento de seus próprios egos, transformando o ser amado em ideia fixa, em única razão de existir.
Esse indivíduo possui para si a pessoa amada, de forma egocêntrica que o leva a não suportar a recusa; por isso, quando esta acontece, o amor transforma-se em ódio, de modo que prefere matá-lo a sofrer a dor da perda e do ciúme. O homici-da passional não pensa na vítima, no ser “amado”, mas em si mesmo, pois apenas existem as suas necessidades e vontades (GAIA, 2010, p. 56).
Croce e Croce Júnior (1995, p. 526-527) trazem a maneira como as emoções e as paixões são geradas no organismo humano:
A emoção e a paixão particularmente vívidas são geradas pelo sis-tema límbico (arquipallium), região cerebral constituída pelo tálamo, hipotálamo, amígdala, hipófise e hipocampo. Com efeito, descargas elétricas no sistema límbico às vezes desencadeiam sintomas seme-lhantes aos das psicoses ou aos produzidos por drogas psicodélicas ou alucinógenas. [...]
Nesse sentido, ainda, os mesmos doutrinadores, trazem:
Uma parte pelo menos do papel determinador da emoção e da pai-xão nos sistemas endócrinos límbicos, como a hipófise, a amígdala, o hipotálamo, é proporcionada através de pequenas proteínas hor-monais - das quais a mais conhecida é o ACTH (hormônio adenocor-ticotrópico) -, que afetam diversas funções mentais, como a retenção visual, a ansiedade e o prazo da atenção. É útil saber que o mau funcionamento do sistema límbico, tanto por hipo quanto por hiperes-timulação natural ou artificial, pode produzir a ira, o medo ou um ex-cesso de sentimentalismo, podendo os indivíduos afetados ser toma-dos erroneamente por loucos, mas que, também, é neles que se for-ma a violenta emoção a que se refere a lei.
Não devemos analisar o homicídio passional apenas pelo aspecto criminal, pois a paixão que leva o agente a cometer o crime é um sentimento que provoca uma ação ocasionada por diversos motivos: sociológicos, psicológicos e patológicos (GAIA, 2010, p. 56).
Para a Psicologia e Psiquiatria Forense o indivíduo que pratica o homicídio passional possui em razão da suposta motivação, um transtorno mental ou, até mesmo, já era portador de um transtorno de personalidade antissocial (GAIA, 2010, p. 57).
Por isso, em casos de homicídios passionais, deve-se levar em conta a pos-sibilidade do agente ter algum transtorno de personalidade, associado a um estado transitório de insanidade (ciúme, por exemplo) (GAIA, 2010, p. 57).
Segundo Eluf (2003, p. 112):
A paixão não basta para produzir o crime. Esse sentimento é comum aos seres humanos, que, em variáveis medidas, já o sentiram ou sentirão em suas vidas. Nem por isso praticaram a violência ou su-primiram a existência de outra pessoa. A paixão não pode ser usada para perdoar o assassinato, senão para explicá-lo. É possível entre-ver os motivos que levam um ser dominado por emoções violentas e contraditórias a matar alguém, destruindo não apenas a vida da víti-ma, mas, muitas vezes, sua própria vida, no sentido físico ou psico-lógico. Sua conduta, porém, não perde a característica criminosa e abjeta, não recebe a aceitação social.
Para Farias Júnior (1993, p. 189):
Nada existe ao acaso. Nada existe fora da relação causa-efeito. Se há crimes passionais, se há crimes em razão da dor moral, em razão do amor próprio ferido, é porque há causa, há fatores internos e ex-ternos.
Croce e Croce Júnior (1995, p. 528-529) esclarecem a respeito das influên-cias internas e externas da emoção e da paixão:
A emoção e a paixão são estados somatopsíquicos em ato potencial, uníssonos qualitativamente, diferenciados apenas pelo tempo - que é sempre fugaz na emoção e duradouro na paixão -, capazes de, na vigência de terreno mórbido predisponente e sob influência do
tem-peramento, da raça, da idade e do sexo, mediante estímulos internos ou externos, desencadear reações emotivas ou passionais de inten-sidade variável [...].
Tanto a emoção como a paixão atuam no organismo alterando a fre-quência do pulso, o débito e os batimentos cardíacos, os movimentos respiratórios, a sudorese, a diurese (e algumas vezes, mas nem sempre, gerando aumento na glicemia e na acidose sanguínea e, mais frequentemente, dos ácidos graxos livres) e as funções psíqui-cas, inibindo voluntariamente a inteligência e determinando o auto-matismo. Porém, só a emoção patológica causa a inconsciência completa, com perda da memória nos predispostos. Por isso é que o Código Criminal em vigor, em seu art. 28, I, não considera a emoção ou a paixão excludentes de imputabilidade penal, porém reconhece atenuação da pena ao agente. Também assim dispõe o art. 121, § 1º, e os arts. 129, § 4º, e 65, III, c, desde que a ação delituosa resulte da “violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da víti-ma”.
No homicídio passional, o estímulo é dado por um conjunto de sentimentos como egoísmo, amor próprio, ódio, possessividade, ciúme, vingança, frustração alia-do à prepotência, desejo ou instinto sexual frustraalia-do com rancor, toalia-dos associaalia-dos a uma visão distorcida de justiça, fazendo com que o criminoso passional entenda ter agido conforme seus “direitos”. Assim, a Psiquiatria Forense trata o homicida passi-onal como um doente mental, que possui um amor doentio, possessivo e egoísta e, por agir sem controle deixa-se levar pelos instintos, não pode ser encarado como um indivíduo normal e, nesse sentido, ser tratado como um criminoso qualquer (GAIA, 2010, p. 58).
O agente que age impelido por paixão, acredita ter sido ferido em seu ego, uma vez que sendo um ser altamente egoísta não admite outra manifestação de sua vítima, que não seja em face dele próprio. É possessivo, intenso, impulsivo, além de estar agindo em razão de um misto de sentimentos que é incapaz de controlar.
2.4 Ódio
Não podemos deixar de mencionar o ódio nos crimes passionais. Conforme afirma Ferri, “... Na análise magnífica da personalidade humana, diziam que o ódio é vizinho do amor” (s.d., p. 13).
Em sua profunda análise, Ferri assevera que os sentimentos de honra e amor, nos limites da vida normal são a expressão e o fermento sadio e fecundo da