O ARGUMENTO DO SONHO NO TEETETO DE PLATÃO: UMA ABORDAGEM
EXTERNALISTA (2011)
ZARTH, Fernando Henrique Faustini
1 1Mestrando em Filosofia, bolsista CAPES - Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
E-mail: [email protected].
RESUMO
Esse texto analisa a leitura de Frederick F. Schmitt do Teeteto de Platão, em
especial, o argumento do sonho. Nesse argumento Platão refuta a tese de que
conhecimento é sensação, tese atribuída ao sofista Protágoras, realizando uma comparação
entre estado de vigília e estado de sonho. Schmitt confronta a tradição internalista
epistêmica entendendo que o argumento do sonho de Platão só pode ser entendido como
um argumento externalista, apresentando a noção de que para Platão, no Teeteto,
conhecimento é crença verdadeira confiável. Parte de uma tese maior, a análise do Teeteto
revela que o externalismo epistêmico não é algo novo na história da filosofia, como muitos
acreditam, mas algo presente em toda tradição. A conclusão contrária se deve ao fato de
existir para o leitor pós-cartesiano a tendência de ler argumentos céticos clássicos à luz do
que foi apresentado na Meditações Metafísicas, de Descartes.
Palavras-chave: Platão; Teeteto; externalismo; ceticismo; epistemologia.
1. INTRODUÇÃO
Em Knowledge and Belief, Frederick F. Schmitt defende que o externalismo
epistêmico foi assumido por uma parte maior da história da filosofia do que é normalmente
aceito. Essa tese confronta com a visão geral de que o externalismo epistêmico é algo
inovador, que busca redefinir e resignificar a epistemologia em sua renúncia ao internalismo.
Esse modo de pensar se encontra evidente no manifesto escrito por Bonjour: “é seguro dizer
que até tempos muito recentes, nenhum filósofo do conhecimento sério sonhou em sugerir
que as crenças de uma pessoa possam ser epistemicamente justificadas meramente em
virtude dos fatos ou relações que são externas a sua concepção subjetiva” (BONJOUR,
1985, p. 36-37). Schmitt, no entanto, aponta que isso é um grande equívoco, e empreende
demonstrar que a tradição da epistemologia até Descartes era essencialmente externalista,
de modo que o confiabilismo não representa uma revolução de nosso tempo, mas antes, um
resgate. Nesse espírito, Schmitt toma como ponto de partida para sua análise histórica
aquele que é tradicionalmente reconhecido como uma das primeiras e mais influentes obras
a tratar do problema do critério, o Teeteto de Platão, analisando a resposta dada pelo
personagem Sócrates à primeira definição de conhecimento. Para Schmitt, Platão apresenta
na fala de Sócrates um argumento que só pode ser entendido como externalista,
corroborando sua assunção inicial. A análise desse argumento constitui o tema dessa
pesquisa.
2. O CETICISMO NO TEETETO DE PLATÃO
Segundo Schmitt, Sócrates toma por base o pressuposto de que conhecimento é
crença verdadeira perfeitamente confiável, para lançar um desafio cético contra a
concepção protagórica de que conhecimento é sensação. Essa definição, embora Platão
não apresente explicitamente desse modo, pode ser evidenciada a partir da fala de
Sócrates: “Então percepção (aisthesis) é sempre o que é, e, sendo conhecimento, é infalível
(apseudes)” (152c). Apseudes aparece como um adendo necessário a simples noção de
que sensação sempre corresponde ao que é, caso queiramos a tomar como conhecimento.
A introdução dessa segunda condição mostra a compreensão de Platão de que
conhecimento acarreta não apenas a posse de uma crença verdadeira, mas também, que
essa crença seja confiável. Em outra fala de Sócrates encontramos ainda outra evidência de
que crença perfeitamente confiável acarreta conhecimento: “Pois bem, se sou infalível
(apseudes), e não tropeço no meu pensamento (dianoia) sobre as coisas que são, ou
venham a ser, como poderia deixar de ter conhecimento das coisas que percebo?” (160d).
Schmitt compreende que também aqui apseudes deve ser traduzido como confiável, visto
que “não tropeço no meu pensamento” nada mais é que não tomar por falso o que é
verdadeiro (uma crença verdadeira, portanto), e estando em conjunção com apseudes, lê-lo
como “verdadeiro” tornaria a frase redundante. Mais ainda, afirmar que ser verdadeira é
suficiente para a crença constituir conhecimento entraria em contradição com uma
importante passagem do Menon, onde Platão afirma que o conhecimento se distingue da
opinião certa por seu encadeamento racional.
É melhor, então, lê-lo como afirmando que crença verdadeira perfeitamente confiável acarreta conhecimento. Assim, podemos concluir que para Platão conhecimento é crença verdadeira perfeitamente confiável – crença
sancionada por um critério de verdade, isto é, por um critério perfeitamente confiável. (SCHMITT, 1992, p. 12).
É importante destacar, portanto, que para Schmitt a análise do conhecimento de
Platão é estritamente externalista
1, o que implica mudanças importantes na interpretação da
refutação da tese sensista de Protágoras por parte de Platão, se comparada com a
perspectiva tradicional internalista. A questão que resta aqui e que Platão empreende avaliar
é se a sensação, tal como proposta por Teeteto, constitui um critério confiável de verdade.
A tese de que sensação é conhecimento está totalmente atrelada ao relativismo de
Protágoras sobre a verdade, tal como pode ser visto em sua famosa frase: “O homem é a
medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são,
enquanto não são” (152a), tal que, se seu relativismo não estiver correto, também não será
correta sua afirmação de que conhecimento é sensação. É só na medida em que todo o
universo possível de conhecimento se reduza à experiência subjetiva que se poderia
sustentar tal argumento. Nesse sentido, como aponta Schmitt, Platão desafia de uma só vez
tanto o relativismo quanto a confiabilidade da sensação enquanto critério. E esse desafio,
chamado anteriormente de desafio cético, é o de que a sensação é o critério utilizado por
aqueles que estão dormindo, doentes ou loucos, e nesses mesmos estados eles
desenvolvem crenças falsas. Dado que o critério utilizado por esses quando produzem
crenças ilusórias é o mesmo critério utilizado quando acordados e plenamente sãos,
sensação não é um critério confiável. E uma vez que sensação só é conhecimento se for
confiável, o resultado é que sensação não pode ser conhecimento. A seguinte passagem
ilustra esse argumento:
E falta falar sobre os sonhos, as doenças e, entre outras, da loucura e de tudo quanto diz respeito a ouvir mal, a ver mal, ou a qualquer outra percepção ilusória. De facto, suponho que sabes que em todas estas situações parece ser consensual a refutação do que ainda agora passamos em revista, dado que, mais que tudo, são percepções falsas que nascem nelas, muito faltando para que o que aparece a cada um seja isso, pois é tudo ao contrário, nada sendo o que aparece (157e-158a).
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O externalismo, e aqui Schmitt toma como principal influência Alvin Goldman, propõe abandonar a questão da justificação interna, afirmando que uma pessoa não precisa ser capaz de explicitar a justificação de suas crenças para ter conhecimento. Para ter justificação, é preciso apenas que sua crença tenha sido formada através de algum processo confiável.
Schmitt destaca que há uma tendência para o leitor pós-cartesiano de interpretar o
desafio cético de Platão como internalista, tal como no ceticismo de Descartes na
Meditações Metafísicas. Trata-se da tese proposta na primeira meditação, onde Descartes
defende que ele só pode saber que está sentado diante de uma fogueira com um papel na
mão se sua experiência sensorial for capaz de lhe dar certeza, isto é, de eliminar qualquer
possibilidade concorrente, o que inclui estar apenas sonhando. Ao passo que a evidência
sensorial não elimina essa possibilidade, pois freqüentemente percebemos coisas que
tomamos como reais quando dormimos, e sendo a evidência sensorial a única coisa que se
poderia ter para se crer que está diante de uma fogueira, conclui-se que não temos
conhecimento de nada, ou ao menos, de que algo seja o caso no tempo t
2. De acordo com
essa tradição internalista, o desafio cético de Platão estaria apontando que nós não temos
nenhuma garantia de confiabilidade e não apenas que esse seja realmente não confiável.
SÓCRATES – Aquilo que penso que frequentemente terás ouvido, quando se pergunta se seria possível dar uma prova a alguém que agora perguntasse como estamos no momento presente: se, a dormir, sonhamos tudo o que pensamos, ou se estamos acordados e conversamos uns com os outros, no estado de vigília.
TEETETO – Também, Sócrates, não é fácil saber que prova há que mostrar; de facto, todas as questões se sucedem umas às outras, como estrofe e antístrofe. Efectivamente, nada impede que o que agora dizemos também se pareça com o diálogo de uns com os outros durante o sono; e, quando, a sonhar, parece que contamos os sonhos, é estranha a semelhança do sonho à realidade.
SÓCRATES – Vês, então, que não é difícil debater a questão, quando até podemos discutir se estamos acordados ou a sonhar e se o tempo em que estamos a dormir é igual àquele em que estamos acordados, e se em cada um destes a nossa alma sustenta sempre que as opiniões apresentadas
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A possibilidade de se estar dormindo não é suficiente para apontar que não sabemos nada em absoluto, pois ainda que eu esteja dormindo agora, o papel, a fogueira e todos os outros objetos que se possa estar sonhando são objetos que de algum modo correspondem a algo que conheci, quando estava acordado por exemplo. A dúvida se limita, portanto a: “como posso saber que não estou sonhando agora?”. Descartes (2005) compreende isso e introduz pela primeira vez o seu famoso argumento do gênio maligno, que possui mais profundidade que o próprio argumento do sonho, pois o gênio poderia deturpar as percepções sensoriais, nos enganando, nos induzindo a sensações de coisas que talvez nem existam, colocando assim em dúvida a realidade do mundo físico, incluindo nosso próprio corpo. Ele poderia me enganar de tal forma que poderia me fazer pensar que é completamente óbvio que 2+2 = 4, quando isso pudesse na verdade ser uma falsidade. O mesmo vale para todas as outras testemunhas que eventualmente pudesse contar para decidir sobre a realidade das coisas, pois elas próprias podem ser produto de minha ilusão.
são verdade acima de tudo; de modo que, metade do tempo, afirmamos que umas coisas são reais, na outra metade, que são as outras, mantendo ambas com a mesma firmeza (158b-158d).
É tentador realizar uma leitura internalista desse argumento, compreendendo que é
possível em princípio que o critério que utilizamos quando tenho a experiência de estar
acordado não seja confiável, pois se trata do mesmo critério empregado quando sonho e
julgo ser verdadeiro aquilo que na verdade não é real, sendo possível ainda que estejamos
dormindo e crendo estar acordados por confiar erradamente nesse critério. Mais ainda, se
nosso critério em estado de vigília é prima facie não confiável, não há nenhuma
possibilidade dele ter sua confiabilidade resguardada, pois nos tornamos incapazes de
apresentar premissas adequadas para salvá-lo. Uma tentativa desse tipo se sustentaria
novamente a partir de nossas experiências, de modo que estar acordado pareceria
verdadeiro ainda que estivéssemos na verdade dormindo, e ainda, devido ao fato da
premissa ser escolhida a partir do que se está em litígio, o argumento incorreria em petição
de princípio, o que o torna inválido. A leitura internalista se sustenta, portanto, na exigência
(internalista) de que é preciso que tenhamos uma prova desse critério utilizado em estado
de vigília que independa desse próprio critério, o que se revela impossível.
Algumas diferenças entre as interpretações internalistas e externalistas merecem ser
destacadas. A leitura internalista diz que para cada experiência em vigília (waking
experience), existe prima facie uma experiência em sonho (dreaming experience) possível
que lhe é idêntica. Já em uma leitura externalista, compreendemos que Platão esta dizendo
que para cada estado de vigília existe de fato um estado de sonho suficientemente similar.
Nesse contexto, para sustentar que o critério que utilizamos quando estamos acordados não
é confiável, é preciso demonstrar que esse critério sanciona crenças que possuímos quando
estamos de fato dormindo, é preciso mostrar que estados de vigília e estado de sonho são
suficientemente similares, mas não propriamente iguais. Não se trata, portanto de uma
análise sobre a experiência de perceber algo em vigília ou em sonho, mas uma análise
externalista sobre a validade do critério utilizado e o produto dos estados de se estar
acordado e se estar em vigília. Ambos são colocados como similares no que concerne ao
critério empregado, porém ainda assim, visto apenas como estados e não experiências,
estar acordado e estar sonhando se preservam distintos. A ideia de que vigília e sonho
sejam indistinguíveis entre si, como no exemplo de Descartes, só faz sentido quando
adotamos um internalismo epistêmico; para o externalista, uma análise interna da
experiência é dispensável, importando apenas o processo que a causa.
Schmitt reforça que é preciso resistir à tentação natural de aceitar o argumento em
uma perspectiva internalista, pois ela envolve um tratamento da noção de experiência em
vigília e experiência em sonho que Platão não realiza. Para isso seria necessário o
comprometimento com a tese de que, como mencionado, experiência em vigília seja
idêntica a uma experiência possível em sonho, o que exigiria, por conseguinte, que ele
tenha concebido uma nítida separação entre as experiências que possuímos quando
estamos acordados e seus correlatos fisiológicos e ambientais, distinção essa que não
estaria estabelecida em Platão. Schmitt toma por base o estudo feito por Myles Burnyeat
(2010) sobre o ceticismo grego e o ceticismo cartesiano, onde ele explica que a ausência de
um argumento do tipo gênio enganador entre os céticos gregos – fato esse a primeira vista
surpreendente, dado a quantidade e variedade de argumentos céticos por eles
apresentados – se deve ao fato de que eles não fizeram distinção entre experiência,
correlatos físicos e correlatos ambientais. Conforme Burnyeat, a hipótese do gênio só
poderia ser levantada se imaginada uma separação entre mente e corpo, ou ainda, uma
experiência sem um corpo que a detém. Não é o caso de inferir que seja necessário o
comprometimento com uma tese dualista de que mente e corpo sejam mesmo coisas
distintas, sendo suficiente a habilidade de conceber hipoteticamente tal separação. Schmitt
entende que assim como os céticos gregos, Platão teria falhado em fazer tal distinção, não
concebendo a possibilidade de experiência sem o corpo que o percebe, e assim, que aquilo
que se é experienciado quando se está sonhando pudesse ser exatamente igual ao que se
é experienciado quando se está acordado. Ainda, como já referido, Platão não compara o
experienciado em sonhos com o experienciado em vigília, mas somente estado de vigília e
estado onírico:
Assim, Platão não diz que estados de vigília e sonhos são exatamente iguais, mas apenas que eles ‘correspondem exatamente, como contrapartes’. Há uma correspondênca exata entre estado de vigília e sonho, mas a semelhança entre eles é dito extraordinária, não exata. Estado de vigília e sonho diferem em seus componentes corporais e correlatos ambientais, e isso precisa ser levado em conta no julgamento de sua similaridade (SCHMITT, 1992, p. 15).
6. CONCLUSÃO
A admissão de que Platão apresenta um desafio cético externalista explica porque
não se seguiu do argumento do sonho algo como um gênio maligno, tal como na
Meditações Metafísicas de Descartes. O gênio cartesiano é uma decorrência natural do
argumento do sonho, lido em uma perspectiva internalista, diferindo dele somente quanto ao
grau de penetrabilidade da dúvida no sistema de crenças, tal como destacado na nota 2. Já
foi mencionada a observação de Burnyeat sobre como os gregos não fizeram a distinção
entre experiência e corpo, o que explica a ausência de um gênio cartesiano na tradição
grega. Porém, mesmo essa observação não explica completamente a razão pela qual não
se tenha apresentado nenhuma forma de “demon challenge” nessa tradição, “Nem mesmo
uma forma que isenta o corpo dos artifícios do demônio” (SCHMITT, 1992, p. 17), questão
essa que é sanada pela adoção de uma leitura puramente externalista; se o demônio
enganador é uma conseqüência natural do argumento internalista do sonho, tal como
referido em Descartes, tal afirmação não procede quando o se toma como externalista. Essa
afirmação se justifica, pois o desafio do sonho de Platão, na análise de Schmitt, requer que
a similaridade entre sonho e vigília seja real, e não apenas prima facie possível, pois seu
objetivo é mostrar como nosso critério em estado de vigília admite crenças falsas quando
sonhamos, de onde se conclui a não confiabilidade da sensação. Já crenças produzidas por
demônios não existem, não identificamos de fato nenhum gênio enganador e, portanto, não
podemos realizar uma comparação entre as crenças produzidas pela sua malevolência e
aquelas que não o são, condição necessária para se propor uma similaridade. Isso
demonstra como “demons challenges” só podem nascer onde se considere experiências
que são prima facie possíveis (e não de fato existentes), o que se dá somente em uma
análise internalista do conhecimento, portanto. A não presença desse tipo de argumento
cético constitui, por fim, mais uma motivação para aceitar uma leitura externalista do
Teeteto.
REFERÊNCIAS
BONJOUR, Laurence. The Structure of Empirical Knowledge. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1985.
BURNYEAT, Myles. O cético em seu lugar e tempo. Trad. Rodrigo Pinto de Brito. Kínesis, Vol. II, n° 04, Dezembro-2010, p. 312-348.
DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. Trad. Maria Ermantina Galvão. 2º ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
PLATÃO. Teeteto. Trad. Fernando Meira. Lisboa: Inquerito, 1970.