Heloísa Alberto Torres
(
1895
-
1977
)
Luiz
d e C a s t r o F a h i a H eloísa A lberto T o rres na sceu no Rio de J a n e iro no d ia 17 de setem bro de 1895. Seu pai, como todos sabem , foi u m dos m ais sólidos e a rg u to s pen sad o res brasileiros. S u as o b ras se to rn a ra m clássicas, de re fe rê n cia o b rig a tó ria, e n e la s p ro c u ra ra m in sp iração políticos, ad m in istra d o re s, c ie n tista s sociais e refo rm ad o res de todos os m atizes. M as n ã o a p e n a s os seus livros e vários escritos exerce ra m in flu ên cia. Suas digressões em to rn o dos g ran d es p ro b lem as b r a sileiros d a época, su a fa la d irig id a aos am igos e a d m ira d o re s que o cercavam , su a ação d ire ta , oral, vivaz, contagiosa, fo ra m in s tr u m entos fecundos de a tu a ç ã o co n stru tiv a.“Em sessões sem an ais d a su a casa de C o p acab an a e, depois, das Laranjeiras, os discípulos que se n ta v a m em to rn o do M estre . . . ” es
creveria Oliveira V ian a em linguagem bíblica, ao evocar a in flu ê n cia pessoal e direta de A lberto T orres. R o q u e tte -P in to ev ocaria m ais tarde a aua figura: “A cabeça j á b ra n c a e o ro sto sem ru g as, co rado, varonil e belo” . . . “H a rm o n ia p e rfe ita de vida e de p e n sa mento, ardor social e qualidades esté tic a s de u m a r a r a p u reza de l i n h a s ...”
Alberto Torres m o rre u em 1917, qu an d o H eloísa com pletava v in te e dois anos. E foi nesse am b ie n te de ativ id ad e in te le c tu a l in tensa, vibrante e re fin a d a , n u m a c a sa em c u ja sala de v isitas se reuniam escritores de nom es consagrados, que H eloísa fo rm a ria a sua personalidade.
H abituou-se c e rta m e n te, desde en tão , a esse tipo de convivência intelectual; p rep aro u -se, n a v erdade, p a r a viver assim , como p a rte de uma «llte social, que e ra ta m b é m u m a elite de p en sam en to .
F a la v a fra n c ê s e inglês de m a n e ira quase p erfe ita . C onhecia lite ra tu ra , a rte , h istó ria , e tn o g ra fia . T udo isso e ra necessário, m as n ão o suficiente, p a ra se a f irm a r no seu grupo social. P a r a ta n to to rn a v a -s e in d isp en sáv el algo m u ito pessoal, o efeito de presença, e isto H eloísa A lberto T orres possuiu e soube u s a r com m estria.
A su a fig u ra se re n a, altiv a, bela, to rn a v a -a inconfundível. E ra n o ta d a , observada, m esm o a n te s que o seu nom e fosse m encionado. E ste, p o r su a vez, d a v a de im ed ia to u m a n o v a dim ensão a su a fi gu ra. A lb erto Torres — é curioso o fa to — p ren o m e e nom e tão com uns, sin g e lam en te associados, a d q u irira m sonoridade e sig n ifi cação que re p e rc u tiam de m a n e ira im pressiva n o s a m b ien tes a c a d ê micos. T ra n sm itia m u m a sensação p a rtic u la r de grandeza, de su p erio rid ad e e de respeito. Não desig n av am a p e n a s u m a pessoa, m as
u m a obra.
A fig u ra e o nom e ela os tra z ia , e ra m predicados de fam ília. M as a ascen d ên cia que p assav a a ex ercer onde estivesse e ra um a trib u to seu, lu c id am en te construído. Ela conhecia a sua fo rça e
a u sav a com d ignidade e grandeza.
J á e ra assim H eloísa A lberto T orres, quando em 1925 ingressou no M useu N acional.
P e ra n te a C ongregação, ta l como e ra estabelecido pelo R egu la m e n to de 1916 e n tã o em vigor, p re sto u concurso de p ro v as p a ra P ro fe sso r-S u b stitu to d a Seção de A ntropologia e E tn o g rafia, que t i n h a como P ro fesso r-C h efe E d g ard R o a u e tte -P in to . A provada com
d istin ção foi n o m ead a p o r decreto de 2 de setem bro desse m esm o a n o de 1925 e te m início a su a c a rre ira n o M useu N acional.
A tr a je tó r ia que com eça a p e rc o rre r segue p a d rõ es j á co n sa g rad o s — tra b a lh o s de cam po, que devem c o n firm a r a su a cap aci d ad e como pesquisadora, ca p az de lev ar a d ia n te o conhecim ento acum ulado, de descobrir novos fatos, de colecionar peças, de p ro p o r explicações m ais co n siste n tes p a r a as questões p o stas em dúvida. Em 1926 v ia ja p a ra o lite ra l de São P aulo, a fim de v erifica r em que estad o se e n c o n tra v a m os sam baquis de Iguape, descritos p o r K rone. Em 1927 v ia ja p a ra M inas G erais e em V espasiano e x a m in a sítios arqueológicos. Em 1928 in icia u m a série de v isitas r e g u lares a sítios arqueológicos do Rio Iriri, em Magé, ricos em ce râ m ic a p in ta d a , de tra d iç ã o T u p i-G u a ra n i.
Ao m esm o tem p o tr a b a lh a em le v a n ta m e n to de fo n tes biblio g ráficas, o rg an iza a s coleções de arqueologia e e tn o g ra fia , re s ta u ra peças, id en tifica m a te ria is com base em docum entos do arquivo h
is-tórico g era l do M useu, lê a s o b ra s m ais re c e n te s de e tn o g ra fia e arqueologia, a g o ra n ã o a p e n a s em fra n c ê s e inglês, m a s ta m b é m em alem ão, que a p re n d e p a r a esse fim .
Em 1926 v ia ja p a r a o lito ra l de São P aulo, a fim de v e rifica r a tra v é s de a tiv id a d e in te n s a — de m anuseio, de catalo g ação , de re s ta u ra ç ã o — to d a s a s g ra n d e s coleções arqueológicas e e tn o g rá
ficas do M useu N acional.
É n e ste an o que p ro fe re n a Escola N acional de B elas A rtes a co n fe rê n cia “C erâm ica ãe M arajó”, que teve g ra n d e rep ercu ssão e cujo tex to , publicado em fo lh eto (Rio, Tip. “B rasil Social”, 1929, 22 p.), foi d u ra n te m u ito s a n o s re fe rê n c ia ob rig ató ria.
Em 1930, fin a lm e n te , realiza o que te r ia sido o seu g ran d e sonho, ao se su b m e te r ao concurso de in co rp o ração ao grupo de pesq u isa dores do M useu N acional — recebe au to rizaç ão m in iste ria l e a u x í lio fin a n c e iro p a r a fa z e r u m a ex cu rsão de estu d o s à I lh a de M a rajó . E ssa viagem , que tev e a d u ra ç ã o de seis m eses, p e rm itiu que realizasse escavações arqueológicas nos sítios de onde p ro v in h a m a s fam osas p eças de c e râm ica a cujo estudo se d ed icara. Na época um em p reen d im en to de ta l ordem tin h a sem dúvida um c a r á te r in u sitado, a dim ensão de im en sa a v e n tu ra . P o r isso, talvez, te n h a sido ro m a n c e a d a p o r B astos de Ávila (No P acoval de C arim bê, Rio, C al- vino P ilh o Ed., 1932).
C o n sag ra-se assim como pesq u isad o ra de cam po; a su a p ro d u ção in te le c tu a l no dom ínio d a arqueologia b ra sile ira fic a leg itim ad a. Em 1931 j á te m início u m a seg u n d a e ta p a de su a tr a je tó r ia profissional. P o r D ecreto de 31 de a b ril é n o m ead a p a r a exercer o cargo de P ro fesso r-C h efe d a Seção de A ntropologia e E tn o g ra fia do M useu N acional. As su as ativ id a d es a d m in istra tiv a s d aí p o r d i a n te vão se to r n a r c a d a vez m ais absorventes. De 1935 a 1937 exerce a fu n ção de V ice-D iretor, e le ita p e la C ongregação, n a fo rm a do R e g u lam ento, e fin a lm e n te a p a r tir de fin s de 1938 assum e p o r D e creto do P re sid e n te d a R epública o cargo de D ireto r do M useu N a cional, no q u al p e rm an ec eu a té 1955.
Nesse longo e difícil período e n fre n to u n u m ero sas dificuldades, m as conseguiu sem dú v id a co nduzir com êxito u m a série de in ic ia tivas, que m a rc a ra m de m a n e ira p o sitiv a a feição m o d ern a do M u seu N acional.
Com a desacu m u lação de cargos, im p o sta pelo E stado Novo, a in stitu iç ã o se vê p ra tic a m e n te vazia de um m om ento p a ra outro. Pelo m enos vazia de g ra n d e s nom es. H eloísa A lberto T orres, que
era, sem possibilidade de co n testação , u m esp írito renovador, a p ro v e ita a o p o rtu n id a d e — vários jovens que te n ta v a m in ic ia r u m a c a rre ira de pesquisa nos dom ínios d a an tro p o lo g ia, d a b o tân ica, d a geologia e d a zoologia e n c o n tra m de p ro n to apoio e estím ulo. A lguns são nom eados in te rin a m e n te p a ra as vagas existentes, m a s ao m es m o tem po ela p ro c u ra o b ter a fixação de u m q uadro fu n cio n al m ais am plo e re g u la rm e n te provido.
Em 1944, fin a lm e n te , p o r gestões su as são ab erto s os concursos públicos de provas e títu lo s p a r a as q u a tro g ra n d e s divisões do M useu N acional (A ntropologia, B o tân ica, G eologia e Zoologia), e
dcze jovens pesquisadores in g re ssam n a in stitu içã o . E m pouco te m po eles se to rn a ra m o corpo e a voz d a in stitu iç ã o m odernizada.
As in ic ia tiv a s de H eloísa A lberto T orres m a rc a ra m p ro fu n d a m e n te o M useu N acional, n ão a p e n a s n a s u a dim ensão física — re fo rm a to ta l d as in stalaçõ es, com realo cação de espaços p a r a la b o rató rio s e g abinetes, co n stru ção de anexo — como n a su a fi g u ra in stitu c io n a l. O B o letim assum e n ova feição (séries A ntropolo gia, B o tân ica, Geologia, Z o o lo g ia); ap arece a série Publicações A vu l sas, os Arquivos re ap a recem , n a su a fo rm a tra d ic io n a l. G raças ao
seu g ra n d e prestígio e g ra ç a s tam b ém a u m a capacid ad e de tr a b a lh o re a lm e n te in v ejáv el H eloísa A lberto T o rres proporcionou ao
M useu N acional e aos seus pesquisadores recursos a b u n d a n te s em te rm o s de equipam entos e facilidades d e tra b a lh o no cam po. Foi além do m ais u m a d ire to ra im p a rc ia l — n u n c a pen so u em seções do M useu, n ã o as d istin g u ia. O M useu p a r a ela foi sem pre um todo.
Em 1955 H eloísa A lberto T orres é ex o n e rad a d a direção do M u seu N acional, e poucos m eses depois n o m e a d a P resid en te do C on selho N acional de P ro te ção aos ín d io s. F o ra m dezessete anos de vida consum idos p o r a d m in istra ç ã o , em condições n e m sem pre fav o rá veis, e em alg u n s m om en to s a té b a s ta n te d u ras. E n ão é de s u r p re e n d e r que tivesse publicado pouco. Ao estudo “C erâm ica de M a r a jó ” (1929), seg u iram -se — Contribuição pa ra o estu d o da proteção ao m a teria l arqueológico e etn o g rá fico n o B rasil (Rev. do P a trim . H ist. e A rt. Nac-, I, Rio, 1937); A rte In d íg e n a da A m a zô n ia (P u b li cações — S.P.H.A.N., Rio, MEC, 1940). D eixou u m pequeno tra b a lh o inédito, com dados originais, sobre “A lguns aspectos d a In d u m e n tá r ia d a C rioula B a h ia n a ”.
A a tiv id ad e acad êm ica de H eloísa A lberto T o rres n ã o ficou li m ita d a ao M useu N acional.
C riad a a U niversidade do D istrito F ederal, G ilberto F re y re é escolhido p o r Anísio T eixeira p a ra assu m ir a c á te d ra de A ntropo
logia Social. Ao a fa s ta r-s e do Rio, G ilberto in d ica como seu su b s titu to H eloísa A lberto T orres, que p o r essa época já d e sfru ta v a um p restíg io in te le c tu a l incontestável.
Ao escrever “A propósito d a P o lítica C u ltu ra l do B rasil n a Amé ric a ” diz G ilbeto F rey re :
Pertence a esse movimento brasileiro de humanismo cien tífico a iniciativa, — que se deve a um dos nossos cientistas mais ilustres de hoje, a Sra. Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional do Rio de Janeiro — de reunir na capital do Brasil, em futuro próximo, um congresso de estudos ame ríndios que articule pesquisas e preocupações da América in teira com as do Brasil. Que mobilize energias e valores, hoje dispersos, de todos os povos indo-americanos. E quem diz povos indo-americanos diz, em linguagem sociológica, a América por assim dizer total. . .
O círculo de in flu ên cia de Heloísa A lberto T orres e ra m u ito am plo, suas relações re a lm e n te in te rn a c io n a is. P rospectos de pesquisas a n tropológicas no B rasil, n e ssa fase, podem ser apreciad o s n a in te n sa corresp o n d ên cia que m anteve, por exem plo, com F. Boas, R a lp h L in- to n , P a u l R ivet, A. M étrau x e m u ito s m ais.
A ativ id ad e de ensino u n iv e rsitá rio de H eloísa foi in in te rru p ta depois de exercê-la n a U.D.F., ex e rc e u -a n a a n tig a F acu ld ad e d'e Filosofia do In s titu to L afa iete e depois n a U.E.G., h o je U n iv e rsid a de do E stado do Rio de Ja n e iro . A su a g ran d e lição, no e n ta n to , foi a su a p ró p ria vida pública, u m a longa e com ovedora lição de dignidade, de d esp ren d im en to e de discrição.