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O papel do som nos filmes do movimento Mumblecore 1

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O papel do som nos filmes do movimento Mumblecore1 Nathália Monteiro da COSTA2

Rodrigo Octávio D’Azevedo CARREIRO3

Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE RESUMO

A pesquisa tem como foco aprofundar os conhecimentos acerca dos aspectos sonoros de alguns dos filmes contemporâneos mais prestigiados, que integram um movimento denominado Mumblecore. Tal movimento, de modo geral, conta com poucos estudos na área da pesquisa acadêmica de materiais audiovisuais. Assim, a pesquisa tem o intuito de auxiliar na compreensão do processo criativo do som por esse grupo de realizadores, que representam um nicho cada vez maior do cinema atual. Dessa forma, aspectos de estilo, participantes e produção desses foram estudados, mostrando características pertencentes ao gênero.

PALAVRAS-CHAVE: Mumblecore; Cinema; Som no cinema; Cinema Indie; Cinema Independente; lo-fi.

Introdução

Sem dinheiro para alugar câmeras na pré-produção de The Blair Witch Project (1999, no Brasil intitulado de A Bruxa de Blair), os diretores Eduardo Sánchez e Daniel Myrick resolveram o problema comprando uma Hi8 por U$ 500 no cartão de crédito, realizando as filmagens e pedindo reembolso ao devolver o equipamento por um motivo técnico qualquer (ROMBES, 2009). O episódio sublinha o motivo por A Bruxa de Blair ter se tornado marco de um fenômeno cultural: a valorização de imagens com aparência amadora. O sucesso do filme4 demonstrou como o amadorismo, tratado como modo de

produção, acabou por se tornar paradigma estético da virada do milênio.

A popularização de celulares e câmeras digitais de baixo custo e alta resolução, associados à circulação massiva de material produzido com esses dispositivos através de redes sociais, naturalizou a estética do amadorismo e tornou esse tema muito ativo entre pesquisadores da área de comunicação, como Chris Anderson (2006), que em sua obra

The Long Tail (em português, A Cauda Longa), defende que a cultura está cada vez mais

voltada para públicos específicos e segmentados. Ou seja, o amadorismo no cinema

1 Trabalho apresentado no IJ04 – Comunicação Audiovisual, da Intercom Júnior – XVI Jornada de Iniciação Científica

em Comunicação, evento componente do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação

2 Estudante de Graduação. 6º. Semestre do Curso de Cinema e Audiovisual da UFPE, e-mail: [email protected] 3 Orientador do trabalho. Professor do Curso de Cinema e Audiovisual da UFPE, e-mail: [email protected] 4Sucesso mundial, o filme A Bruxa de Blair arrecadou 249 milhões de dólares ao redor do mundo.

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encontrou o seu público-alvo. Dessa forma, gêneros e movimentos começaram a adotar tal estética, gerando uma quebra do padrão, de qualidade de som e imagem, imposto por Hollywood.

Assim, entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000 surgiu o

Mumblecore, movimento que conta com filmes de baixo orçamento, faz parte do “lado

b” do cinema, circula em pouquíssimos festivais, pouco conhecido pelo grande público e consequentemente pouco estudado.

Desse modo, ao longo dos doze meses da duração cronológica da pesquisa, durante discussões e análises fílmicas, pretendeu-se com o artigo encontrar os elementos que constroem a estética do som do Mumblecore, indo contra o senso comum de que este gênero negligencia por completo seu sonido5.

Tentou-se trazer a luz aspectos pouco refletidos acerca da produção e da estética sonora do Mumblecore. Questionamentos sobre os equipamentos usados, a influência da estética naturalista e do cinema independente, e o modo de execução das etapas sonoras foram analisados com a finalidade de mostrar que há preocupação com o som e sua estética por parte dos artistas. Além disso, foi estudado como fatores monetários e sociais atingiram esse movimento.

Durante o tempo decorrido, o estudo foi focado em leituras críticas de textos, análises e revisões dos filmes pertencentes ao movimento Mumblecore, além de encontros com o professor orientador. Filmes importantes do gênero como Funny Ha Ha (2002),

Mutual Appreciation (2005), ambos de Andrew Bujalski, e Hannah Takes The Stairs

(2007), de Joe Swanberg, foram amplamente analisados.

O Mumblecore

O movimento Mumblecore, segundo a pesquisadora Nessa Johnston, tem seu surgimento datado em meados dos anos 2000, nos Estados Unidos, com uma produção fílmica de baixo orçamento, propiciada pelo desenvolvimento e barateamento das novas tecnologias digitais6. Joe Swanberg, Aaron Katz, Andrew Bujalski, Mark e Jay Duplass foram os primeiros cineastas a despontarem com as produções assinadas com o selo

5Há diversas matérias que falam do suposto desleixo dos diretores do Mumblecore acerca do som dos filmes.

Incluindo, Zuleyma Sanchez, “Mumblecore: an unspoken genre”, Washington Square News, 05 abril 2018. https://www.nyunews.com/2018/04/03/04-05-theme-zuleyma

6 Na primeira metade da década de 2000, câmeras digitais e filmadoras portáteis tornaram-se populares por conta de

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Mumblecore. O longa Funny Ha Ha (2002), de Andrew Bujalski, é considerado o marco

inicial do movimento.

Tendo sido bastante influenciado pelo Cinema Indie Americano, os filmes do

Mumblecore operam com temáticas semelhantes. Em geral, são jovens da classe média

que tem dificuldades em se relacionar com os outros e por vezes com o mundo, entrando em uma constante busca de identidade e do seu papel no mundo, convivendo com as incertezas do futuro. Dessa forma, as narrativas dependem mais dos diálogos e dos relacionamentos entre as personagens e menos dos temas. Ou seja, o Mumblecore essencialmente se refere ao cinema do tipo Do It Yourself; os cineastas e seus amigos fazem filmes sobre eles próprios e seus amigos falando sobre eles próprios e seus amigos. O cineasta Joe Swanberg afirmou que: “As únicas histórias que realmente posso contar são as minhas e as de meus amigos”.

Vale ressaltar que práticas como o Do It Yourself (Faça Você Mesmo, em tradução para o português) e o Mumblecore só foram possíveis graças à era digital e seus produtos portáteis. O cinema Hollywoodiano, desde muito cedo, se caracterizou como uma indústria, exigindo assim equipamentos de ponta que, em sua maioria, contam com altos valores sendo inacessíveis a grande parte das pessoas. Com o surgimento dos equipamentos digitais não profissionais, de baixo valor, os cineastas encontraram a chance de começar a autofinanciar e realizar suas obras, tornando a estética digital uma característica do movimento. Assim, como produto do cinema independente, a produção de baixo orçamento desempenhou um papel distinto na caracterização deste subgênero.

Seu estilo, definido por muitos estudiosos como realista, tem como um dos primeiros indicadores estéticos do gênero o uso de não-atores e os diálogos improvisados. Por conta disso, os diretores do Mumblecore também são chamados de slackavettes7, uma referência ao diretor John Cassavetes8 – que a partir do final dos anos 50 tornou-se referência por sua abordagem realista – e a palavra slacker, preguiça em tradução do inglês. Esse último termo reforça ainda mais o estereótipo de que os realizadores do movimento são desleixados. Ademais, a aparência rudimentar provém do uso de poucos recursos de pós-produção, e do estilo câmera na mão, com várias tomadas longas. Assim,

7 Várias publicações da imprensa citam o termo. Incluindo Rafael Dias, “Mumblecore: Geração blá blá blá”, Revista

O Grito!, 30 jun 2008. http://revistaogrito.com/mumblecore/.

8 Frequentemente chamado de fundador do Cinema Independente estadunidense, Cassavetes trabalhava com um

estilo autoral. Em geral, seus filmes tinham baixo orçamento e, por conta disso, contava com amigos na equipe de produção. Seu longa de estreia Shadows (1959) foi um marco para o Cinema Independente.

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tudo caminha para que o aspecto do filme seja o mais próximo da realidade. Com o som não é diferente.

O Papel do Som no Mumblecore

O termo “Mumblecore” pode ser traduzido livremente do inglês como ‘geração do resmungo’. Mas, ao contrário do que sugere o nome, esse movimento fílmico não traz em seus roteiros grandes reclamações ou revoltas. Dessa forma, o fato que realmente deu origem ao termo foi o som de seus filmes. Em 2005, o mixador de som Eric Masunaga cunhou o termo após trabalhar nos filmes Funny Ha Ha (2002) e Mutual Appreciation (2005), ambos de Andrew Bujalski, por conta dos murmúrios (em inglês, mumble) que permeiam os longas (BRODY, 2015).

A expressão bem-humorada, mas também pejorativa, desagrada aos cineastas envolvidos. Esses, além de acharem que o termo remete a um som ruim, não se consideram como grupo ou movimento. Durante uma entrevista em 2007, para o The New York Times, Joe Swanberg afirmou que desaprova o termo, pois este foi feito como uma piada para reduzir a qualidade dos filmes e, além disso, populariza a ideia de que todos os cineastas associados ao movimento produzem o mesmo filme. “Ninguém gosta desse nome. Ele foi feito para significar algo jocoso” (SWANBERG, 2018).

Ademais, tal como no cinema independente, o som acabou por tornar-se uma marca distintiva dos filmes do movimento. Características como estilo lo-fi, ruídos, diálogos com voz baixa e pouco uso de pós-produção, compõem a qualidade estilística das obras do Mumblecore.

O lo-fi é uma forma de produção sonora que, geralmente, é usada quando há limitações financeiras. Assim, enquanto categoria econômica, dados ao pequeno orçamento, o Mumblecore é considerado um movimento “house indie”, ou seja, produz filmes independentes e caseiros. Desse modo, os equipamentos de captação sonoros usados têm uma menor qualidade que os usados em filmes de grandes produtoras, o que resulta em um som mais baixo e com mais ruídos. Além disso, há um número menor de profissionais envolvidos, como falado por Swanberg no making of do filme LOL. Esse menciona que ao invés de empregar uma equipe de som ao filmar uma cena, ele prefere filmar sozinho, com uma câmera e um microfone preso a um tripé (WAGNER, 2011).

Porém, há de compreender-se que o contexto econômico não é o único ponto que associa o Mumblecore ao lo-fi. Existe por trás disso a questão estética do naturalismo,

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que busca alcançar um sonido realista, visto que a maioria dos roteiros costuma abordar situações intimas e de confissões pessoais, que é “entendido como sinceridade, em oposição ao pastiche e à ironia cool das tendências pós-modernistas do cinema contemporâneo” (HORTON, 2009).

Um dos elementos que colabora com o aspecto realista é o ruído presente nas bandas sonoras, característico dos realities shows e dos vídeos confessionais do Youtube. Existe uma abordagem simplificada do som, em que não se exerce muito controle sobre a captura limpa deste, o que gera gravações permeadas por ruídos de equipamentos cênicos e em uso, além de barulhos vindos do ambiente externo, visto que a maioria das locações são casas de membros da equipe. Diversas cenas exemplificam bem a questão sonora do ruído nesses filmes. Em Funny Ha Ha há uma cena em que a protagonista, Marnie (Kate Dollenmayer), e seu colega de trabalho, Mitchell (Andrew Bujalski), estão sentados e girando em cadeiras de escritório, que emitem um ruído forte. Nesta cena o barulho pode passar ao espectador um sinal de que ambos estão entediados em suas funções, mas, para muitos, este deveria ser desconsiderado e reduzido na pós-produção. Desse modo, o ruído pode até chegar a se sobrepor aos diálogos, mas contribuirá para o ganho de significados a história, pois “carrega conotações para além do mero descaso” (JOHNSTON, 2019). Funciona como identidade ou assinatura sônica do movimento, visto que traz consigo uma percepção de legitimidade e verdade na produção realista.

Para mais, mesmo que tais características que compõem o som do Mumblecore, como o ruído, não tivessem uma função narrativa, seu uso não poderia ser tratado como um mero erro. Seguindo o princípio da estética da acumulação, em 1953, o pintor Jean Dubuffet cunhou a expressão Assemblage9 – colagem, em francês - em que todo e qualquer material pode ser incorporado a uma obra de arte, criando um novo conjunto sem que esta perca o seu sentido original. Dessa forma, o som do Mumblecore é como uma ‘colagem’ de elementos que cria e reafirma obras pertencentes a estética realista.

Ademais, como citado por Birger Langkjaer em sua obra Spatial Perception and

Technologies of Cinema Sound (1997), antes do surgimento de tecnologias para reduzir

o ruído, as gravações sonoras eram feitas em espaços sonoros abertos10. Os captadores

9 O termo foi incorporado as artes durante a exposição The Art of Assemblage, no Museu de Arte Moderna de Nova

Iorque, o MoMA.

10 Em locais fechados é mais provável que ocorra o fenômeno da reverberação. Nesse caso, as ondas sonoras

propagam-se em todas as direções, assim o receptor escuta a mesma informação mais de uma vez devido a reflexão das ondas contra as paredes. Tal efeito não ocorre em espaços sonoros abertos.

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sonoros eram postos longe dos ruídos e, em primeiro plano eram colocados os diálogos. Entretanto, com a tecnologia digital, há um maior alcance do áudio fazendo com que mais ruídos sejam gravados.

Outra característica marcante do Mumblecore é o pouco uso de recursos na pós-produção, o que acaba acarretando em dificuldades no foley11 e na compreensão dos diálogos. Sabe-se que na indústria cinematográfica o diálogo gravado em locações é posteriormente editado, mixado – com vários takes - e, quando necessário, novos diálogos são gravados. Contudo, é evidente que esses passos não são seguidos nas obras do movimento, pois a maior parte dos filmes não são mixados em surround 5.1 - o padrão digital - e sim em dois canais estéreos. Dessa forma, a inserção e edição se torna mais difícil com o som estéreo, ao contrário do que ocorre no surround, em que os elementos sonoros podem ser separados, ouvidos e editados em numerosas faixas. Assim, há diversas cenas em que a falta do foley é evidente, como em Hannah Takes the Stairs (2007), de Joe Swanberg. Há dois momentos no longa em que é nítido a falta de efeitos sonoros complementares: primeiro, na cena em que Hannah (Greta Gerwig) e Mike (Mark Duplass) estão na praia e não é audível o barulho – ou foley- do mar. Em seguinte, a cena em que Hannah e seus chefes, Matt (Kent Osborne) e Paul (Andrew Bujalski), brincam com as mãos, em um escritório, é notável a falta de foley durante o contato das pulseiras e relógios das personagens.

Entretanto, em alguns casos o uso da pós-produção foi necessário para que o ruído característico não anulasse por completo longos minutos de fala. Em uma das primeiras exibições de Funny Ha Ha, ruídos de lâmpadas fluorescentes tornaram o diálogo que as personagens têm na cena do restaurante chinês quase inaudível, precisando que sua trilha fosse limpa para as seguintes exibições (JOHNSTON, 2014).

Somado a isso, o diálogo, que é o suporte das narrativas nesses filmes, costuma ser duramente criticado tanto pela qualidade, dado ao estilo lo-fi, quanto à desarticulação e conexão narrativa. Como anteriormente afirmado, as vozes gravadas são comprometidas pelo uso de equipamentos não profissionais e a falta de correção na pós-produção, entretanto, o uso de diálogos improvisados e dos não atores acaba por acentuar tais dificuldades, ao passo que contribui para a sinceridade emocional dos filmes. Muitos jornalistas e estudiosos apontam que o mumble, (múrmuro) do Mumblecore seria a fala

11 Também chamado de sonoplastia, é a reprodução de efeitos sonoros complementares em obras do audiovisual

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hesitante das personagens, proveniente de um diálogo improvisado12. Em análise dos filmes do movimento, é comum encontrar cenas em que as personagens dão longas pausas entre uma fala e outra, passando a impressão de que o texto não é simplesmente decorado e sim um diálogo que fluiu naturalmente com sinceridade emocional. Sarah Kozloff, pesquisadora da história do cinema, em sua obra Overhearing Film Dialogue (2000), afirma que o uso de hesitações e sons fáticos garante ao espectador que sua declaração é verdadeira, pois esta demonstra desconforto verbal que pode ser proveniente da pressão do momento e das emoções da personagem.

Além disso, as temáticas usadas nestes filmes também influenciam nos diálogos. A tecnologia é um assunto recorrente em tais obras fílmicas, enfatizando a problemática da comunicação após a internet, celular e outros novos equipamentos. Dessa forma, é comum que as personagens saibam se comunicar bem por mensagens e e-mails, mas pessoalmente não consigam este feito, fazendo uso de longas pausas, gesto com as mãos ou, como acontece com recorrência em Funny Ha Ha, as falas tendem a passar umas por cima das outras em cenas grupais. Ou seja, apesar da alcunha de “Novos Talkies” – em referência a um movimento de filmes independentes dos anos 90 – as personagens não sabem falar entre si sem o uso de alguma tecnologia.

Outro ponto importante acerca dos diálogos é o uso de atores não profissionais, o que soma ainda mais veracidade aos filmes. Grande parte do elenco é composta por amigos dos cineastas ou por membros da própria equipe de produção, assim, os escolhidos para atuar nos filmes sempre tem algo em comum com a personalidade de sua personagem. Isso foi um dos fatores que alimentou a ideia de que o Mumblecore é um movimento, pois há colaboração direta nas obras entre os diretores. É comum que eles trabalhem como atores nos filmes um dos outros, como em Hannah Takes The Satirs, dirigido por Joe Swanberg e com atuações de Andrew Bujalski e Mark Duplass, e Quiet

City (2007), de Aaron Katz e com atuação de Joe Swanberg.

Também construída por meio de colaborações, as trilhas sonoras costumam ser simples, assemelhando-se as imagens, e com poucas canções. Como citado anteriormente, o uso da pós-produção é evitado ao máximo pelos realizadores e, quando é escolhido pôr

12 Há várias matérias tratando do múrmuro característico das personagens do Mumblecore como traço característico

de conversas informais e corriqueiras. Incluindo, matéria do portal Cineclick, “Mumblecore: movimento do cinema independente assume o título de voz da geração dos “vinte e poucos”, 05 jan 2015.

https://cineclick.uol.com.br/noticias/mumblecore-conheca-o-movimento-do-cinema-independente-que-assume-o-titulo-de-voz-da-geracao-y

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uma música, geralmente esta é diegética. Variando entre o Pop Indie e o Rock Indie, os autores das canções costumam ser artistas pouco conhecidos que encontram nos filmes uma forma de divulgação. Assim, como as músicas também seguem um estilo lo-fi, há um ‘casamento perfeito’ entre imagem e som, que acentua a ansiedade e as relações complicadas característicos dos roteiros do movimento. Em LOL (2006), de Joe Swanberg, as canções aparecem em número maior do que em outros filmes por conta do personagem Alex, vivido por Kevin Bewersdorf. Esse produz videoclipes através de vídeos, achados na internet, de pessoas fazendo barulhos com a boca, os quais Alex chama de “noiseheads”. Nesse caso, a música é o elemento central da cena, então, seu volume é superior aos dos diálogos, que são poucos nesses momentos. Entretanto, LOL parece ser uma exceção do que ocorre nos outros filmes do Mumblecore em que a música e os diálogos estão no mesmo volume onde um ou outro elemento torna-se inteligível. Em

Hannah Takes the Stairs e Funny Ha Ha, as canções aparecem em momentos de festas,

na casa de amigos das protagonistas. Mas no primeiro são as falas que são de difícil compreensão, e no segundo as músicas.

Desse modo, o movimento foi capaz de conquistar muitos elogios, mas também muitas críticas, em especial ao seu som. Acostumados com o som ‘realista’ de Hollywood, em que a captação e edição são feitos a fim de deixar o som limpo de ruídos, muitos especialistas e amantes do cinema começaram a taxar o som do Mumblecore como ruim. A crítica de cinema Amy Taubin escreveu que: “Mais do que o pesadelo para o diretor de som, as falas murmuradas nos filmes do Mumblecore são significativamente sobredeterminadas. Em um nível técnico, esses são filmes de baixíssimo orçamento onde o som é quase sempre negligenciado” (2007). Em contrapartida, Joe Swanberg defende a estética no making of de LOL, afirmando que se tivesse mandado o filme para um técnico de som hollywoodiano isso o desagradaria.

“Se tivéssemos filmado LOL do jeito que o fizemos e mandado para um técnico de som de Hollywood para criar a paisagem sonora e os desenhos de som, eles se distanciariam tanto que o filme ficaria horrível. Seria tipo, o som ficaria ótimo. Não ficaria como deveria” (SWANBERG, 2007).

Além disso, outras críticas são tecidas aos roteiros do movimento. Tidos como clichês, as histórias e o elenco carecem de representatividade. As temáticas sempre semelhantes, contam com garotos brancos e de classe média enfrentando problemas nos estudos, trabalho e principalmente nos relacionamentos amorosos. Outro ponto da narrativa que merece atenção é a forma estereotipada que retratam as mulheres. Em geral,

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são frágeis e contidas, arquétipos que ainda eram bastante utilizados no início dos anos 2000, mas que hoje em dia causariam polêmicas e críticas.

Considerações Finais

A maior parte das críticas recebidas pelo Mumblecore provém de aspectos que são comparados com a indústria hollywoodiana, que por sua popularidade passou a ser visto como padrão. Tais comparações atribuem ao movimento características negativas e, por muitas vezes, errôneas.

É certo que o cinema mainstream, por conta da captação de recursos e investimentos que recebe, trabalha com aparelhos mais modernos e com qualidade superior aos que os diretores do movimento têm acesso - aparelhos portáteis digitais-. Dessa forma, as comparações soam genéricas, tendo em conta que o cinema convencional e o Mumblecore ocupam nichos diferentes. Enquanto o primeiro costuma circular em diversas salas de cinemas, o segundo encontra seu pouco espaço em premiações do cinema independente, como o South by Southwest Festival13.

Ademais, enquanto Hollywood preocupa-se com a eliminação de ruídos, desde a captação até a pós-produção do som, o Mumblecore recorre a uma gravação crua e evita recursos que possam limpar esta, em busca de uma trilha realista. Assim, o público acostumou-se com a realidade do som hollywoodiano, tratando este como correto e único, não levando em conta que, depois de tantos tratamentos, este não é mais tão fiel a realidade.

Os resultados do estudo concluíram que há diversos elementos influenciados pela estética naturalista/realista que modulam a produção sonora do Mumblecore, provando que este, indo contra o pensamento comum, não é proveniente do desleixo e sim de uma forma nova de construir o desenho sonoro de um filme. De fato, há fatores econômicos - equipamentos digitais baratos e baixo orçamento das produções - que interferem diretamente no som do movimento, mas os fatores estéticos - estética lo-fi, Do It Yourself e dos improvisos – tem uma influência muito maior. Ou seja, muito além do baixo orçamento e do desleixo, os artistas do Mumblecore buscam um aspecto mais realista em suas obras fílmicas, onde todos os elementos têm um propósito dentro da narrativa.

13Diversas publicações citam que o mumblecore tornou-se conhecido por conta do South by Southwest Festival.

Incluindo Dennis Lim, “A Generation Finds Its Mumble”, The New York Times, 19 ago de 2007. https://www.nytimes.com/2007/08/19/movies/19lim.html

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Portanto, mesmo com as limitações financeiras dos orçamentos de suas produções, o Mumblecore busca ser sempre fiel a uma estética que destaca as emoções das personagens. Em análise de filmes e textos, nota-se que o lo-fi, os ruídos, a câmera na mão e os improvisos nos diálogos, além de caracterizarem a unidade estilística do movimento, são recursos que acentuam situações vividas nos longas. Há a construção de uma atmosfera que pode fazer o público entender as decisões e ímpetos das personagens.

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Videografia

FUNNY Ha Ha. Direção de Andrew Bujalski. Estados Unidos: Ethan Vogt, 2002. 1 filme (89 min), cor.

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QUIET City. Direção de Aaron Katz. Estados Unidos: Brenda McFadden, 2007. 1 filme (78 min), cor.

MUTUAL Appreciation. Direção de Andrew Bujalski. Estados Unidos: Ethan Vogt, 2005. 1 filme (109 min), PeB.

HANNAH Takes the Stairs. Direção de Joe Swanberg. Estados Unidos: Joe Swanberg , 2007. 1 filme (83 min), cor.

THE PUFFY Chair. Direção de Jay Duplass, Mark Duplass. Estados Unidos: Mark Duplass, 2005. 1 filme (85 min), cor.

DANCE Party USA. Direção de Aaron Katz. Estados Unidos: Brenda McFadden, 2006. 1 filme (66 min), cor.

KISSING on the Mouth. Direção de Joe Swanberg. Estados Unidos: Joe Swanberg, 2005. 1 filme (78 min), cor.

HUMPDAY. Direção de Lynn Shelton. Estados Unidos: Lynn Shelton, 2009. 1 filme (94 min), cor.

Referências

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