N
.º
5 – M
aio de 2020
Fundada em 1848 2ª Época 1905 Publicação iniciada em Janeiro de 1849
Pessoa Colectiva de Utilidade Pública II Século – 72º Volume – N.º 5 N.º 2620 – Maio de 2020 Mensal • Preço avulso € 7,00
A Capa da "Revista Militar"
Uma espada antiga e uma pena, do emblema da "Revista Militar", passada em aspa, acompanhadas de quatro escudos, o do chefe de um leão marinho, alado, segurando na garradextra uma espada antiga, o do flanco dextro, de um leão rampante, segurando na garra dianteira dextra uma espada antiga (Exército), o do flanco sinistro, de uma águia estendida (Força Aérea) e o da ponta de um golfinho (Marinha), simbolizando o âmbito da actividade da "Revista Militar"; tudo assentado no colar da Ordem Militar de Santiago da Espada, de que a "Revista Militar" é Grã‑Cruz, e sendo encimado pela divisa tradi‑ cional: Pró‑Pátria.
Fundada em 1848 2ª Época 1905 Publicação iniciada em Janeiro de 1849
Pessoa Coletiva de Utilidade Pública II Século – 72º Volume – N.º 5
FICHA TÉCNICA Título: Revista Militar
Publicação mensal, N.º 2620, maio de 2020
Direção: Presidente: General José Luiz Pinto Ramalho
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As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores. A Direção agradece a colaboração segundo as normas tradicionais da “Revista Militar”.
Revista Militar
Editorial 425
General José Luiz Pinto Ramalho
O Exército e a pandemia 431
General António Eduardo Queiroz Martins Barrento
Forças Armadas: e depois da COVID‑19? 437
General Luís Valença Pinto
A crise do coronavírus (COVID‑19), a guerra e a estratégia: 445 uma reflexão crítica
Tenente-general Abel Cabral Couto
Confrontos geopolíticos em tempo de pandemia 473
Prof. Doutor José Manuel Sobral
Reflexos da SARS de 2003 vs COVID‑19 479
Major-general Esmeraldo Alfarroba
Segurança Sanitária e Cooperação Multissectorial: Contributos 499 do Exército Português durante o período interpandémico 2010-2019
Tenente-Coronel Júlio Manuel Coutinho Franco Gouveia-Carvalho
Uma guerra diferente 517
Prof. Doutor António Correia de Campos
COVID‑19: e agora? 521
Professor Doutor Adalberto Campos Fernandes
Economia portuguesa: sustentação e recuperação 525
Prof. João Ferreira do Amaral
A COVID‑19 e o futuro 531
Dr. Vitor Ramalho
Com os olhos postos no topo da montanha 533
Dr. Luís Barbosa
Crónicas
Crónicas Militares 537
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1. A situação de emergência criada pelo coronavírus (COVID‑19) está a
abalar os fundamentos da ordem internacional que, até há bem pouco tempo, dávamos como assente. Esta era, em poucas palavras, a de um mundo em que a globalização neoliberal havia triunfado, marcado pela expensão do capitalismo transformado em único sistema económico. Tudo isto era fruto de mudanças profundas na economia e na vida política, em particular as associadas ao desaparecimento dos regimes comunistas a Leste com o fim correlativo das suas economias socialistas, e à introdução das reformas liberais na China, a partir de 1979.
As transformações associadas à globalização implicaram a transferência de grande parte da produção industrial da Europa central ocidental e da América do Norte para outros países, em particular os situados na Ásia. A uma potência industrial antiga, como o Japão, vieram juntar‑se os chamados quatro tigres asiáticos – Hong‑Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan –, a Índia e, mais recentemente, a China, a Índia e outros. Todavia, a mudança mais significativa pelo seu impacto global teve lugar na China. Conduzida sob a liderança do mesmo partido comunista que prosseguira as políticas socialistas do maoísmo, levou a cabo uma alteração radical no seu sistema económico e uma profunda transformação social, nas antípodas dessa ideologia. O capitalismo e a iniciati‑ va privada foram favorecidos, mantendo‑se mecanismos de controlo estatais – e, naturalmente, do partido – sobre a economia e a sociedade. Chamou‑se a este novo sistema económico e social “capitalismo político” (Milanovic 2019).
A implantação deste sistema permitiu retirar centenas de milhões de pes‑ soas da pobreza, aumentando substancialmente, no entanto, a desigualdade
Confrontos geopolíticos em tempo
de pandemia
* Investigador Principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Prof. Doutor José Manuel Sobral*
Revista Militar N.º 5 – maio 2020 pp. 473‑477
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(Alvaredo et. al 2018). Também modificou de modo radical a relação de forças entre os países a nível mundial, fazendo da China uma potência que concorre em influência com o poder norte-americano.
2. A pandemia teve o seu início na China, em Dezembro de 2019, e daí
irradiou para outros países. O modo como o Estado chinês lidou com a cri‑ se pandémica, pondo em prática políticas radicais de confinamento, coeren‑ tes, aliás, com o caráter autoritário do seu Estado, mas que se revelaram adequadas, e a demonstração de eficácia de que deu provas, redundou, so‑ bretudo de início, em prestígio internacional. Este veio em bom momento para o regime, que estava a ser pressionado pela movimentação liberal‑de‑ mocrática em Hong‑Kong.
A crise pandémica tornou particularmente visíveis traços da globalização das últimas décadas, como a dependência das sociedades ocidentais de bens de primeira necessidade cuja produção se deslocara para a China. Não se trata apenas das máscaras e ventiladores destinados ao combate à infeção, doados ou vendidos pela China e transportados em aviões chineses para os países da União Europeia mais afetados pela COVID‑19. Ficou‑se a saber que até o paracetamol e os antibióticos eram produzidos na China, na sua quase totalidade (Agência Lusa, 2020), um sinal eloquente da amplitude e das con‑ sequências do movimento de deslocalização da produção industrial em bus‑ ca de custos de produção mais baixos.
Estes acontecimentos são reveladores de uma mudança histórica extraor‑ dinária: a ascensão do Leste da Eurásia. Estamos a assistir ao fim da hege‑ monia da sua parte ocidental, que manteve uma superioridade económica e militar indiscutível entre a Revolução Industrial e o final da Segunda Guerra Mundial (Goody, 2009; CRS Report, 2019). Esta foi a era clássica do imperia‑ lismo, que permitiu às potências ocidentais ocupar toda a África e a maior parte da Ásia. A China nunca foi integralmente ocupada, mas foi derrotada nas Guerras do Ópio e obrigada a aceitar esse comércio promovido pela Grã-Bretanha no século XIX. O império chinês teve de ceder Hong-Kong, viu Pequim ser invadida e saqueada por um exército anglo-francês e, na sequên‑ cia da derrota dos nacionalistas Boxers, em princípios do século XX, foi compelido a aceitar o estabelecimento de zonas controladas pelas potências ocidentais no seu solo – as concessões – sobre as quais não tinha poderes. A esta situação, acrescentar‑se‑ia a invasão japonesa ainda antes da Segunda Guerra Mundial. É importante ter em conta este legado histórico, quando observamos o confronto atual entre os EUA e a China, que se tem exacerbado no contexto da pandemia. Este passado de humilhação é parte do naciona‑ lismo chinês, uma componente da política do partido comunista desde a sua fundação até hoje (French 2018; Moore 2013).
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A diferença na posição da China em termos económicos e geopolíticos, entre os inícios da República Popular em 1949 e os nossos dias, é enorme. Passou de potência regional – com capacidade, no entanto, para enfrentar os norte‑americanos na Guerra da Coreia e apoiar insurreições anticoloniais com sucesso no Vietname e noutros locais – a grande potência mundial, que se afirma económica e politicamente. É o principal parceiro comercial dos EUA e compete com os norte‑americanos pela primazia económica mundial (CRS Report, 2019).
Lançou recentemente uma iniciativa de enorme alcance, a Nova Rota da Seda (One Belt, One Road), um projeto sem precedentes de investimentos em infraestruturas que liga a China aos outros continentes. A designação não deixa de lembrar simbolicamente os tempos em que o império chinês era o maior poder em termos mundiais. O reequilíbrio de relações com o Ociden‑ te não é apenas económico, mas também político (Milanovich, 2019)
3. A vitória de Trump levou a uma mudança profunda da política norte‑
‑americana, que está a questionar a ordem internacional das últimas décadas, contrapondo‑lhe uma política nacionalista e isolacionista. Em contraste abso‑ luto com a sua atitude nos dois primeiros meses do ano, em que as atitudes das autoridades chinesas face ao vírus foram objeto de louvor (Ward, 2020), o presidente e os governantes norte-americanos têm vindo mais recentemen‑ te a atacar a China. Estes ataques acompanham a marcha da pandemia no seu país, que pôs a nu as insuficiências do Estado norte-americano para a conter. Passaram das menções ao vírus “chinês”, ao ataque frontal à Organização Mundial de Saúde, tida como subserviente face à China. Por último, têm procurado atribuir a responsabilidade direta pela génese da pandemia às autoridades chinesas, defendendo que o vírus teria sido criado num labora‑ tório da cidade de Wuhan, de que teria escapado por acidente (The New York
Times, 2020).
Há evidentemente razões imediatas, táticas, para este tipo de discurso: o presidente teme os efeitos da crise desencadeada pela pandemia, que come‑ çou por desvalorizar, e que são da maior importância num ano de eleições, e procura oferecer um bode expiatório que desvie as atenções da população da crítica às autoridades federais. Todavia, para lá desta circunstância, elas são coerentes com a prossecução de uma política consistente de afirmação da supremacia dos EUA, ligada a um discurso nacionalista crítico do modo como a globalização tem decorrido, por entender que se tem revelado des‑ favorável para os EUA. Para compreender estas atitudes de modo cabal, convém olhar um pouco retrospetivamente.
O poder americano afirmou‑se ao longo de um período histórico iniciado com o fim da Segunda Guerra Mundial, que viu não apenas a destruição da
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enorme potência económica, científica e militar da Alemanha nazi ou a do Japão, mas também o desaparecimento dos grandes impérios coloniais das potências europeias enfraquecidas, que controlavam grande parte da África e da Ásia. Foi substancialmente reforçado com o desaparecimento do inimigo da Guerra Fria, a União Soviética e os seus satélites. As atitudes da atual admi‑ nistração americana, em contraste aberto com as vigentes no tempo da presi‑ dência Obama, devem entender-se como reação à mudança enorme que se está a operar a nível global e que alterou a posição dos Estados Unidos a nível global. O mundo de hoje já é bem diferente do de há poucos anos atrás.
4. Todavia, a China não é o único objeto dos ataques e sanções dos
norte-americanos. Estas últimas têm atingido países da União Europeia, que vêm os seus produtos submetidos a tarifas destinadas a encarecê-los, pois, no entendimento dos norte‑americanos, as relações comerciais vigentes são prejudiciais aos EUA (Reuters, 2020). Mas a ofensiva americana não se ficou até agora pelo plano económico. Traduziu‑se num ataque político em toda a escala ao próprio princípio da construção europeia, com o apoio entusiástico ao Brexit, pois a UE acrescenta poder à coligação de Estados em que assen‑ ta. Sem ela, mesmo os seus Estados economicamente mais poderosos, como a Alemanha, não passariam de potências de média dimensão. Além da UE, a própria NATO, onde os EUA foram sempre a potência dominante, é posta em causa pela política norte‑americana na época do presidente Trump, por se achar que é pouco útil aos seus interesses e uma fonte de despesas. Os países da UE são, entretanto, cominados a seguir a política norte‑americana de confronto com a China, como se vê na tentativa de impedir que o gigan‑ te tecnológico chinês Huawei assegure contratos de telecomunicações de quinta geração (5 G) com países europeus. O multilateralismo é menospre‑ zado e apenas se aceitam políticas em que os interesses dos Estados Unidos prevaleçam (Langlois 2018).
5. Sendo por si só um acontecimento dramático, que afeta milhares de
seres humanos, a pandemia provocou uma crise económica e social de am‑ plitude invulgar, cujos efeitos se receiam. Veio também contribuir para exa‑ cerbar um conjunto de tensões da maior importância para o nosso futuro. Como procurámos assinalar, está em curso um enorme confronto pela pree‑ minência mundial entre as duas maiores potências, que também o são no plano militar, embora a China não ostente um poderio equiparável ao norte‑ ‑americano, bem como um questionamento do bloco político europeu, que enfrenta as suas próprias querelas internas. A mais importante é, sem dúvida, a da partilha do fardo económico acarretado pela pandemia. Se não existir uma solidariedade suficientemente forte entre os países da UE, o que implica
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uma modificação radical das atitudes dos mais ricos do Norte face à partilha das responsabilidades da dívida, a comunidade enfraquecerá, pelo menos, substancialmente e perderá a influência de que ainda usufrui. E esta é im‑ portante, pois permite manter vivo e atuante um núcleo político autónomo das superpotências, que pode atuar como dissuasor de conflitos graves no futuro próximo.
Referências
Agência Lusa. 2020. “União Europeia defende ‘autonomia estratégica’ em sectores como o dos medicamentos”. Diário de Notícias, https://www.dnoticias.pt/mundo/uniao‑ europeia‑defende‑autonomia‑estrategica‑em‑sectores‑como‑o‑dos‑medicamentos‑ DC6224140#, acesso a 6‑05‑2020.
Alvaredo, Facundo, Lucas Chancel, Thomas Piketty, Emmanuel Saez, Gabriel Zucman. 2018. World inequality Report 2018. Paris: World Inequality Lab.
CRS Report (Congressional Research Service). 2019. China’s Economic Rise: History,
Trends, Challenges, implications for the United States. https://fas.org/sgp/crs/row/ RL33534.pdf
French, Howard W. 2018. Everything Under the Heavens: How the Past Helps Shape
China’s Push for Global Power. New York: Vintage Books. Goody, Jack. 2009. The Eurasian Miracle. Cambridge: Polity Press.
Langlois, Lisa. 1918. “Trump, Brexit, and the Transatlantic Relationship: The New Paradigms of the Trump Era”. LiSA e-journal XVI (2): 1‑20.
Milanovic, Branko. 2019. Capitalism, Alone: The Future of the System that Rules the
World. Cambridge, Massachussetts e Londres: The Belknap Press of Harvard Uni‑ versity Press.
Moore, Aaron W. 2013. “Nationalism in North-East Asia since 1945”. In The Oxford
Handbook of the History of Nationalism, ed. John Breuilly, 453-471. Oxford: Oxford University Press.
Shalal, Andrea, David Lawder. 2020. “As Trump takes aim at EU trade, European offi‑ cials brace for fight”. Reuters. https://www.reuters.com/article/us‑usa‑trade‑europe‑ analysis/as-trump-takes-aim-at-eu-trade-european-officials-brace-for-fight-idUSKB N2051AK, acesso a 6‑05‑2020.
The New York Times. 2020. “China assails the U. S. over Wuhan lab leak alegations, and Pompeo hits back” https://www.nytimes.com/2020/05/06/world/coronavirus- news.html?type=styln-live-updates&label=global&index=0&action=click&module=S potlight&pgtype=Homepage#link-44a03bf7, acesso a 7-05-2019.
Ward, Myah. 2020. “Fifteen Times Trump praised China as Coronavirus was spreading across the Globe”, Politico, https://www.politico.com/news/2020/04/15/trump‑china‑ coronavirus‑188736, acesso a 6‑05‑2019.
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