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ANA KARINE MARTINS GARCIA

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Academic year: 2019

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ANA KARINE MARTINS GARCIA

A CIÊNCIA NA SAÚDE E NA DOENÇA:

Atuação e prática dos médicos em Fortaleza

(1900-1935)

DOUTORADO EM HISTÓRIA SOCIAL

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ANA KARINE MARTINS GARCIA

A CIÊNCIA NA SAÚDE E NA DOENÇA:

Atuação e prática dos médicos em Fortaleza

(1900-1935)

DOUTORADO EM HISTÓRIA SOCIAL

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em História Social sob a orientação da Prof.(a), Dra. Denise Bernuzzi de Sant´Anna.

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“A gratidão é a memória do coração.” Antístenes

Eis que chegou um dos momentos mais felizes e de grande satisfação, pois nesse espaço quero deixar registrada minha sincera gratidão aos que contribuíram direta e indiretamente para a realização desse trabalho.

À minha família por toda confiança e carinho dedicado.

À minha orientadora Profª Drª Denise Bernuzzi de Sant´Anna pela confiança, apoio, generosidade, paciência e pelos incentivos que me conduziram de forma segura e prudente do mestrado ao doutorado.

Aos professores da Pós-Graduação em História da PUC-SP, que contribuíram para o desenvolvimento dessa tese direta e indiretamente e sempre foram muito atenciosos comigo.

Aos amigos do NEAJ - Núcleo Espírita de Educação e Apoio à Juventude que sempre me incentivaram e estiveram presentes nos momentos difíceis e desafiadores dessa tese e que continuam presentes em minha vida.

À amiga Kênia Rios que sempre me apoiou e com palavras sábias e sinceras me ajudou durante o caminho do mestrado e do doutorado.

À amiga Raquel Alves pela amizade e auxílio em vários momentos da pesquisa das fontes.

À amiga Larissa Gifoni pela amizade e ajuda na correção ortográfica dessa tese.

Ao amigo Jennyson Oliveira por tão generosamente ter me ajudado com o abstract.

A Tibério Campos e à Aline Medeiros pela grande ajuda com as pesquisas das principais fontes que utilizei nessa tese.

Ao casal de amigos Angeliza e Lacy pela amizade e acolhida tão generosa em sua casa.

À família Freitas que sempre me acolheu com tanto carinho e me ajudou nos momentos em que mais precisei.

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em Portugal.

Aos amigos do doutorado Luiz Blume, Bianca Souza, Eduardo Assis, Bebel Nepomuceno, Patrícia Silva, Denaldo Alchorne, Valéria Alves e Anthoula Fyskatoris pelos valiosos momentos que passamos juntos e que nunca saíram da minha memória.

Aos amigos Jiani Langaro, Fernanda Galve, Sandra Soares, Ailton Siqueira, Leno Barata, Simei Torres e Elizabete Espindola pela oportunidade de conviver e aprender com vocês, pois são pessoas importantes em minha vida.

As amigas Dulce Pereira, Lilian Vidal, Arianna Lambertini e Mércia Diniz que me receberam tão solicitamente em Évora - PT e com quem tive grandes aprendizados.

Ao Profº. Dr. Luis Soares e à Profª Drª Carla Longhi pela importante contribuição que me deram durante a banca de qualificação e que me ajudou no melhoramento de algumas das questões centrais da tese.

À Profª. Drª. Laurinda de Abreu pela atenção e orientação durante o estágio na Universidade de Évora em Portugal.

Aos funcionários da Biblioteca Nacional de Portugal pelo acesso as edições do jornal A Medicina Contemporânea.

À Fundação Biblioteca Nacional- RJ pela disponibilização do microfilme da

Revista Norte Médico do ano de 1913.

Aos funcionários da Academia Cearense de Medicina por possibilitarem o acesso às revistas do Centro Médico Cearense.

À Stephanie Godiva que realizou a pesquisa dos relatórios da Comissão Rockefeller no Brasil e que estão nos arquivos da Fiocruz-RJ.

À Instituição financiadora CAPES, pela bolsa do estágio em Portugal.

À instituição financiadora CNPq, pela bolsa de pesquisa concedida e que contribuiu para a concretização dessa tese.

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Este trabalho tem como proposta analisar os discursos e ações referentes às práticas dos médicos na cidade de Fortaleza no começo do século XX. E especialmente, perceber as estratégias e medidas empregadas para a participação mais ativa desse grupo na cidade. Dentre as questões principais analisadas nesse estudo estão: a atuação dos médicos nas ações de melhoramento da salubridade, a busca por um espaço de trabalho mais efetivo no campo da saúde pública, a formação e participação do Centro Médico Cearense em Fortaleza e as intervenções dos médicos cearenses e da Comissão Rockefeller na prevenção e combate da febre amarela. As diversificadas fontes contribuíram para entender como os médicos neste momento conquistaram um lugar no direcionamento e organização do cotidiano de Fortaleza (1900-1935).

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This work proposes to analyze the speeches and actions concerning to doctors’ practices at Fortaleza city in the early twentieth century. And, specially, understand the strategies and measures employed for more active participation of this group in the city. Among the main issues examined in this work, there are: the role of the doctors in actions to improve the health, the search for a more effectively workspace in the field of public health, training and participation of the Centro Médico Cearense (Medical Center from Ceará), in Fortaleza, and the interventions of doctors from Ceara and the Rockefeller Commission in preventing and fighting yellow fever. The diversified research sources contributed to understand how doctors earned at that time a place in directing and organizing the daily life of Fortaleza (1900-1935).

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FIGURA1 - MERCADO DE FERRO (1897)... 24

FIGURA 2 - PRAÇA DO FERREIRA (1902)... 24

FIGURA 3 - CENTRO DE SAÚDE DE FORTALEZA ... 68

FIGURA 4 - CAPA DA REVISTA NORTE MÉDICO ... 104

FIGURA 5 - ESPAÇO DE PUBLICIDADE DA REVISTA CEARÁ MÉDICO... 106

FIGURA 6 - PROPAGANDA DE SERVIÇOS MÉDICOS ... 108

FIGURA 7 - SUMÁRIO DA REVISTA CEARÁ MÉDICO ... 112

FIGURA 8 - SUMÁRIO DA REVISTA CEARÁ MÉDICO ... 112

FIGURA 9 - CAPA DO JORNAL A MEDICINA CONTEMPORÂNEA ... 115

FIGURA 10 - PROPAGANDA DE MEDICAMENTO ... 116

FIGURA 11 - ILUSTRAÇÃO DA REVISTA CEARÁ MÉDICO ... 120

FIGURA 12 - PARTICIPANTES DO 1º CONGRESSO MÉDICO CEARENSE ... 141

LISTA DE TABELAS TABELA 1 - HISTÓRICO POPULACIONAL DE FORTALEZA ... 32

TABELA 2 - FUNCIONÁRIOS DA SAÚDE PÚBLICA DE FORTALEZA ... 54

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INTRODUÇÃO ... 11

CAPÍTULO 1 - INTINERÁRIOS DA MEDICINA EM FORTALEZA ... 19

1.1-NOSCAMINHOSDACIDADE ... 20

1.2-NOSCAMINHOSDASAÚDEPÚBLICA ... 34

1.3-NOSCAMINHOSDOSESCULÁPIOS ... 72

CAPÍTULO2-OCENTROMÉDICOCEARENSE ... 85

2.1-AFORMAÇÃO ... 86

2.2 - A REVISTA ... 103

2.3 - A AÇÃO NA CIDADE ... 123

2.4 -O 1º CONGRESSO MÉDICO CEARENSE ... 134

CAPÍTULO 3 - A BATALHA AOS MOSQUITOS ... 143

3.1 - AÇÕES MÉDICAS CONTRA OS MOSQUITOS ... 144

3.2 - SALVAÇÃO OU EMPECILHO? ... 159

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 178

ANEXOS ... 181

1 - ESTATUTO DO CENTRO MÉDICO CEARENSE ... 182

2 - DIRETORIA DO CENTRO MÉDICO CEARENSE ... 188

3 - TEMAS APRESENTADOS NO 1º CONGRESSO MÉDICO CEARENSE (1935) ... 189

FONTES ... 190

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INTRODUÇÃO

Este trabalho foi organizado e projetado a partir do desejo de entender as trajetórias dos médicos, no início do século XX, em Fortaleza. Buscou-se através das fontes possíveis respostas para analisar as formas de atuação e participação dos médicos pelos espaços da urbe e sua relação com a população local.1

Nos primeiros momentos acreditava-se que a ausência de fontes seria um dos motivos para existência de poucas pesquisas2 e publicações desse tema no Ceará; no entanto, as pesquisas apontaram o contrário e encontrou-se uma diversidade de fontes pouco preservadas e cuja existência era desconhecida. Tal fato instigou ao desenvolvimento dessa tese e possibilitou ver uma diversidade de caminhos que levou a analisar a construção da medicina acadêmica e da saúde pública no Ceará, percebendo que a constituição do campo médico em Fortaleza não ocorreu sem embates.

As fontes pesquisadas foram importantes guias desse processo de análise das ações médicas em Fortaleza. Obteve-se uma documentação diversificada e repleta de questões que mostraram um campo de estudo bastante rico para a história local.3 Isso permitiu ter outro olhar sobre a cidade e seus moradores e

também entender o papel e a atuação dos médicos nesse contexto.

A escolha da periodização, a princípio, abrangeu o final do século XIX e início do XX; no entanto, percebeu-se que tal escolha proporcionaria certo desvio e prejuízo quanto aos objetivos delimitados para este trabalho, já que se pretendeu analisar e compreender como os médicos ganharam espaço e confiança dos

1 Durante as investigações das obras publicadas sobre a história da medicina e saúde pública em

Fortaleza somente encontraram-se autores médicos, já que são ainda muito poucas as publicações de pesquisas históricas nessa área no Ceará. Espera-se que possam aparecer mais publicações de trabalhos de historiadores, uma vez que esse é um campo bastante rico de análises e fatos para a História do Ceará. Dentre os livros publicados encontrados estão: BARBOSA, José Policarpo de Araujo. História da Saúde Pública do Ceará: da colônia a Vargas. Fortaleza; Edições UFC, 1994 e LEAL, Vinicius Barros. História da Medicina no Ceará. Fortaleza; SECULT, 1979.

2 Esta realidade fazia parte dos primeiros momentos da minha pesquisa em 2006, atualmente, isso

foi alterado e já se observa que esse campo de investigação no Ceará foi ampliado e que existem vários pesquisadores em busca de analisar a História da medicina acadêmica e da saúde pública no Ceará.

3 Dentre as fontes principais usadas nessa tese encontram-se: jornais da época, relatórios dos

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moradores para agirem mais efetivamente nas questões de saúde pública da cidade e que somente o estudo mais aprofundado do século XX ajudaria nessa compreensão. Assim, direcionou-se toda a pesquisa para os anos de 1900 a 1935 por acreditar que esse período marcou as principais transformações na área da saúde pública no Ceará e isso possibilitou perceber a trajetória das ações médicas em Fortaleza.

Foram diversos os caminhos apontados para a trajetória desses personagens, que tiveram sua ascensão no Brasil, sobretudo, no começo do século XX e que lutaram por um espaço físico e imaginário junto à população citadina.

Na atualidade o médico desempenha seu papel cercado de fatores que acompanham essa profissão, desde os fins do século XIX, e que coloca em xeque o seu desempenho e a sua credibilidade. Apesar das circunstâncias e contextos serem diferentes no século XXI, se percebeu a existência de questões que ainda perduram e fazem parte da definição do papel do médico na sociedade brasileira. Dentre essas estão a experiência, prestígio, arsenal tecnológico, especializações, confiança e formação profissional.

No final do século XIX e início do XX, Fortaleza passou por significativas transformações na organização da saúde pública. Observou-se que, apesar da intensa divulgação dos novos conceitos médicos de tratamento desenvolvidos na Europa, houve a permanência de alguns preceitos da ciência que vinham sendo usados ao longo do século XVIII e XIX, assim também os da medicina popular e da Igreja Católica que também influenciavam no modo de ver e tratar as doenças. Deve-se mencionar que os estudos da microbiologia, desenvolvidos por Louis Pasteur a partir da segunda metade do século XIX, possibilitaram o aparecimento de novas formas de tratamentos para as doenças e, sobretudo, um aprofundamento dos estudos científicos sobre o contágio e a transmissão das moléstias, uma vez que o desconhecimento dos modos de contaminação levava a explicações relacionadas ao castigo divino e à crença das alterações climáticas.

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instrumento de organização dessa classe que até então agia individualmente e sem um ideal coletivo de defesa aos seus interesses profissionais e, por fim, observar as práticas médicas trazidas pela Comissão Rockefeller e que entraram em choque com os métodos já aplicados pelos médicos cearenses.

Fortaleza, no começo do século XX, não possuía uma significativa organização em sua saúde pública; o que havia era um setor responsável pelos cuidados da higiene pública cujas ações limitavam-se aos períodos de epidemias enfrentadas pela cidade. Nesse momento grande parte dos médicos atuava em consultórios particulares, prestavam serviços gratuitos à Santa Casa de Misericórdia e alguns chegavam a assumir o cargo de inspetores de higiene pública, como foi o caso do médico e membro do Centro Médico Cearense Carlos Ribeiro.

Distinguindo-se poucos dias depois da minha chegada ao Estado com o convite de S. Exc.ª o Snr. C.el Presidente para assumir a direcção da repartição de hygiene publica...cheguei mesmo a ter a pretensiosa velleidade de me imaginar um homem útil, dedicando todos os meus esforços a nobre causa, e de antever ao fim um simulacro de cidade hygienica ou hygienizada no meu estado natal.4

Percebe-se no relato de Carlos Ribeiro que assumir um cargo público ligado à saúde era de alguma forma tornam-se mais útil e participativo para a manutenção e melhoramento da higiene na cidade, contudo, serão esses somente os interesses dos médicos em assumir tais cargos? No decorrer desse trabalho pode-se notar que um dos principais motivadores vai ser a busca por espaços para legitimar o discurso da medicina acadêmica e assim adequar a cidade aos conceitos e práticas médicas, tornando sua atuação mais visível diante da população.

A busca por um espaço de atuação e de confiança em seu trabalho e os novos conhecimentos da medicina acadêmica possivelmente forçaram a classe médica de Fortaleza a organizar-se e assim agir coletivamente com a finalidade de obter seus propósitos. Não se pode deixar de mencionar as disputas com outros profissionais que também desempenhavam funções no tratamento das doenças como os curandeiros5.

4 Relatório da Inspetoria de Higiene Pública do Estado do Ceará, 1º de maio de 1915, p. 6.

5 Os estudos e pesquisas com relação ao curandeirismo são bastante significativos para a análise da

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Desse modo, surgiu em 1913 o Centro Médico Cearense, que tinha entre suas metas unir os médicos, os farmacêuticos e os odontólogos com o objetivo de desenvolver suas pesquisas, divulgar seus projetos e buscar aproximar-se mais da população local. Mas não se pode deixar de mencionar que essa associação teve duas fases distintas e que em suas atividades já demonstrava seus interesses e objetivos.

A formação desta associação possibilitou à classe médica uma maior participação e visibilidade dentro da cidade e também permitiu que aos poucos esses profissionais tivessem uma participação mais direta nos assuntos ligados à saúde pública. Entre os instrumentos de divulgação e ação usados pelo Centro Médico Cearense tem destaque a publicação da Revista Norte Médico, que mais adiante assumia o nome de revista Ceará Médico.

Uma revista modestamente feita pode alias realisar um programma assaz utilitario e, para os que vivem no tirocínio clinico, o mais interessante e proveitoso sem sempre é a dissertação erudita, que tantas veses falseia a lição dos factos, porem o conselho pratico insinuante e intuitivo com a própria verdade.6

Essa revista foi uma das principais responsáveis pela propagação das atividades do Centro Médico e sua pretensão era atingir aos profissionais ligados à área da saúde através de um texto simples, mas ―interessante e proveitoso‖ como apontou o médico e diretor da revista o Dr. Aurélio Lavor.

A preocupação inicial era direcionar e delimitar mais a problemática do trabalho e para isso buscou-se o apoio teórico de alguns autores que também trabalhavam na temática e que apesar das diferenças de contextos possibilitaram perceber questões presentes na documentação pesquisada. Desse modo, esses textos foram base para o entendimento de questões como os interesses médicos e suas atuações na saúde pública, os meios usados para obtenção de espaços de trabalho dentro da cidade e a busca por uma confiança junto à população menos abastada, uma vez que desconheciam seus métodos e também desconfiavam de seus resultados.

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André Pereira Neto, através do livro Ser Médico no Brasil7, trouxe

importantes reflexões, no decorrer da construção desse trabalho, pois mostrou como os médicos no começo do século XX, sobretudo no Rio de Janeiro foram se adaptando aos novos conceitos da medicina e, com o aparecimento das especializações, buscaram-se novos espaços de trabalho para, assim, obter um maior respeito e presença no cotidiano dos moradores da cidade. Assim, o entendimento do que era a profissão médica neste momento conseguiu com que nas fontes houvesse um novo olhar e entendimento sobre a forma de agir e os interesses dos médicos em Fortaleza neste período.

Na questão da saúde pública buscou-se o filósofo George Rosen, que em seu livro Uma História da Saúde Pública8 apontou caminhos que mostraram os debates e as ações da saúde no século XX como reflexos de medidas e pensamentos gerados nos séculos anteriores. E entender esse passado ajuda a observar melhor os interesses desses médicos no começo do século XX. Um dos pontos analisados pelo autor e que contribuiu também para o encaminhamento dessa tese foram as ações individuais de alguns médicos para o melhoramento da saúde pública sem que com isso tivessem o apoio do governo. De acordo com Rosen, essas ações também ficaram conhecidas como ações voluntárias e estiveram presentes tanto no início do século XX como em outros períodos.

A promoção da saúde e a prevenção da doença em Fortaleza eram vistos, no começo do século XX, como de exclusiva responsabilidade do governo. No entanto, em muitas ocasiões a ação voluntária precedeu, e até estimulou, a presença do governo no campo da saúde. Assim, notou-se que a ação de grupos privados ou indivíduos assentou-se, amiúde, em uma organização criada com o propósito de solucionar certos problemas da saúde pública. E como abordou Rosen a ação voluntária em Saúde Pública não é fenômeno novo e em períodos anteriores, em especial nos séculos XVIII e XIX, se manifestou.9

No decorrer deste trabalho, pode-se perceber que as ações individuais estiveram bastante presentes nas transformações da saúde pública em Fortaleza,

7 NETO, André de Faria Pereira. Ser médico no Brasil: o presente no passado. Rio de Janeiro-RJ;

Editora Fiocruz, 2001.

8 ROSEN, George. Uma História da Saúde Pública. São Paulo-SP; Editora Hucitec, 1994.

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uma vez que essa era precária e contava com a ação desses médicos e profissionais da saúde que tinham interesse em participar mais ativamente das questões relacionadas ao melhoramento das condições higiênicas urbanas.

Para entender o processo de desenvolvimento de Fortaleza e sua organização higiênica, buscou-se no livro Fortaleza Belle Époque10 os indicativos para a compreensão do contexto político, econômico e social. Em seu texto, o historiador Ponte mostrou como os caminhos da saúde pública entrecruzavam-se com as questões sociais e estruturais da cidade e também as lutas desses médicos por uma maior participação e aplicação de suas práticas junto à população local. Apesar de lento esse processo, pode-se visualizar como esse profissionais tornaram-se mais presentes no cotidiano da cidade e, sobretudo, como eles pensaram e atuaram para as transformações desta saúde que estava em processo de desenvolvimento. Observar essa perspectiva foi fundamental para encontrar algumas das problemáticas desta tese e tentar perceber a contribuição e participação dessa classe vigente que passava a direcionar e a influenciar a população e a organização da saúde em Fortaleza.

Para perceber a participação e os objetivos da Fundação Rockefeller no Ceará, utilizou-se das ideias da historiadora Maria Gabriela M. da Cunha Marinho através do livro Elites em Negociação11, em que são mostrados os acordos e ações da Fundação Rockefeller na formação da Faculdade de Medicina de São Paulo. Apesar dos contextos serem diferentes de atuação, pode-se observar que a intenção dessa Fundação no Ceará quanto aos métodos eram os mesmos empregados no combate às doenças como febre amarela, ancilostomose e malária em outros estados brasileiros. Desse modo, perceber o processo desenvolvido pela Comissão Rockefeller em São Paulo fez entender alguns de seus interesses ao manter e firmar contatos com o Ceará. Assim, buscou-se entender como os médicos cearenses reagiram e viram a participação e intervenção dessa Comissão em Fortaleza.

No primeiro capítulo ―Itinerários da Medicina em Fortaleza‖, procurou-se uma divisão em três momentos. O entendimento e análise da cidade no início do século

10 PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque: reforma urbana e controle social (1860-1930),

Fortaleza-CE; Edições Demócrito Rocha, 2001.

11 MARINHO, Maria Gabriela da Cunha. Elites em Negociação: breve história dos acordos entre a

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XX; os saberes e ações aplicadas na organização da saúde pública e como os médicos prepararam e agiram para o melhoramento da saúde pública e da sua atuação em Fortaleza. Para a compreensão dessas questões usou-se como fonte os memorialistas, os almanaques de Fortaleza (publicados a partir de 1920), os médicos e os historiadores que abordaram o assunto na cidade relacionado à saúde. Infelizmente entre os anos de1900 a 1928 não se encontrou jornais que pudessem contribuir com a análise proposta nesse primeiro capítulo.

No segundo capítulo, ―O Centro Médico Cearense‖, procurou-se entender como os médicos que atuavam individualmente construíram essa associação com o objetivo de se unir, a princípio, aos farmacêuticos e odontólogos, para se consolidarem e se tornarem mais presentes nas discussões de saúde pública. No entanto, foi visto que esse grupo passou por duas importantes etapas e conquistou um espaço mais efetivo na cidade a partir de 1928. O grupo contou para a divulgação de suas atividades através da revista Ceará Médico que foi fundada com o objetivo de servir aos interesses do Centro Médico. A consolidação dos seus objetivos veio com a organização e realização do Primeiro Congresso Médico Cearense, em 1935, o que possibilitou a essa associação obter mais visibilidade e atuação nas questões da saúde pública da cidade.

No terceiro capítulo, ―A batalha aos mosquitos‖, buscou-se analisar como os médicos locais enfrentaram os mosquitos e moscas, causadores de algumas das principais doenças existentes em Fortaleza e como a visão da Fundação Rockefeller influiu nos métodos de combates a serem aplicados contra a febre amarela no Ceará e também entender os conflitos ocasionados a partir da aplicação de alguns métodos preventivos junto à população, uma vez que ela reagia à imposição e ao cumprimento das determinações da Comissão Rockefeller. Desse modo, as fontes como jornais, relatórios e memorialistas foram úteis para o entendimento e análise sobre os métodos empregados por essa Comissão e os embates ocasionados entre a população e os funcionários da Rockefeller, os chamados “mata-mosquitos”.

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CAPÍTULO 1

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1.1 – NOS CAMINHOS DA CIDADE...

A cidade é, portanto, o ponto de convergência de uma multiplicidade de olhares que irão fundamentar a constituição de uma forma de dominação apoiada no conhecimento científico, na intervenção espacial e na disciplinarização de mentes e corpos.

Robert M. Pechman12

Pensar o papel dos médicos na cidade exige, antes de qualquer ação, observar a estruturação urbana e as relações sociais, a partir das novas práticas da medicina. Exige também perceber como os hábitos e costumes desses habitantes divergiram e adaptaram-se às ideias e ações da ciência médica em Fortaleza no início do século XX.

Atualmente muitos pesquisadores estudam a temática da cidade no Brasil durante o século XIX e XX. E, principalmente, são muitos os que procuram fazer uma análise histórica a partir da perspectiva da medicina.13 No entanto, ainda são

poucas as publicações de historiadores que trabalham especificamente com as práticas e atuações dos médicos, pois em geral os estudos estão voltados ao corpo, à saúde pública e à medicina de uma forma mais ampla.

O historiador Pechman, em seus estudos sobre cidade, vem trazer reflexões e olhares sobre esse espaço, que tem sua grande ascensão no século XX. Ele mostra que o conhecimento científico foi um dos fatores significativos para se definir e para se intervir nesses locais que vão tendo visibilidade no final do século XIX e início do séc. XX.

A leitura dessa tese possibilitará aos leitores e estudiosos da cidade uma caminhada pela Fortaleza do começo do século XX e, sobretudo, uma compreensão

12 PECHMAN, Robert Moses. Olhares sobre a cidade. Rio de Janeiro-RJ; Ed. UFRJ, 1994, p.6.

13 Ver, por exemplo, SANT´ANNA. Denise Bernuzzi de. Cidade das águas: usos de rios, córregos,

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de como as preocupações com a saúde pública nesse local tornaram-se um campo fértil para os médicos legitimarem sua profissão e também intervirem na organização urbana a partir das suas práticas.

A cidade de Fortaleza, nos meados do século XIX, constituiu-se um importante centro comercial de entrada e saída de produtos para a Europa e outras cidades brasileiras, sobretudo após a ascensão do algodão nos anos de 1870. De certa forma, esse desenvolvimento comercial contribuiu para algumas das mudanças ocorridas na estrutura física e social de Fortaleza no início do século XX.

O advento da República não trouxe grandes alterações entre os representantes administrativos da cidade, já que se observou que os antigos grupos políticos da monarquia adaptaram-se rapidamente à vida republicana e logo estavam de volta ao poder, como foi o caso do bacharel Nogueira Acioly.14 No entanto, é importante destacar que Fortaleza passou a sofrer algumas mudanças no campo das políticas públicas, principalmente em sua estrutura física, com as tentativas de reformas urbanísticas de praças e prédios comerciais, que já vinham sendo almejadas desde a década de 70 do século XIX.

Outro ponto relevante nesse momento são as problemáticas sociais como a pobreza, a violência, a prostituição e os hábitos considerados nocivos, já que esses estavam presentes apesar de serem escondidos. As reformas urbanas foram uma das formas de controle encontradas para tentar deter essas questões, como apontou a pesquisadora Marta Emisia Barbosa em sua dissertação ―Fortaleza na Contramão‖.

As reformas urbanas, traduzidas no processo de remodelação da cidade, extensivo aos habitantes, constituíram-se no esforço de ordená-la. De acordo com técnicas de planejamento do espaço físico e social, desenharam-se correções, coações, normatizações, que agiram mapeando Fortaleza. Resultou numa ação ampla de perseguir habitações consideradas insalubres, extinguindo-as, ou afastando para os limites da cidade aqueles moradores que se enquadravam no roteiro de insalubridade vigente.15

14

Nogueira Acioly ocupou a presidência da província em 1878, porém esse cargo durou poucos dias. Em 1889 foi eleito senador do Império, porém não chegou a assumir devido à Proclamação da Republica e logo aderiu ao novo regime, fundando a União Republicana, que contava com a participação dos antigos liberais e também de ex-conservadores. No entanto, sua grande ascensão veio com a ocupação da Presidência do Estado durante 1896-1912, consolidando sua oligarquia. Ver, por exemplo, PONTE, Sebastião Rogério. Op. cit., nota 10.

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Os objetivos desse trabalho não estão ligados diretamente às ações políticas, à modernização e à organização social e estrutural de Fortaleza nesse período, posto que se pretende analisar centralmente os olhares médicos sobre a cidade e suas atuações no campo da saúde pública. Desse modo, é imprescindível

entender como os ideais de “progresso” e “civilização”, presentes desde o século

XIX e mais intensamente no início do século XX, tornam-se visíveis nos discursos e ações dos médicos e profissionais da saúde na capital cearense.

O desejo por uma modernização16 era característica de uma elite, na qual fazia parte tantos os médicos como os advogados e engenheiros. E suas intenções estavam presentes nos discursos e nas tentativas de reformas urbanas realizadas na Fortaleza do final do século XIX e início do XX, uma vez que um dos objetivos dessas estruturações era a adaptação urbana aos modelos e padrões civilizatórios que vinham ocorrendo na Europa. Assim, como exemplo destaca-se a atuação do Intendente Guilherme Rocha, responsável pelas transformações urbanas no Governo Accioly, que promoveu várias obras de reforma urbana e embelezamento na cidade. E todas as medidas estavam associadas às questões higiênicas.

Dentre seus empreendimentos para a remodelação e ajustamento de Fortaleza aos padrões de modernização destaca-se o Mercado de Ferro e as principais praças daquele período: Ferreira, Marquês do Herval (atual José de Alencar) e da Sé. É importante destacar que todas essas mudanças tinham como base as recomendações médicas e dos higienistas, posto que esses lugares deveriam ser salutares e proporcionar aos citadinos um ambiente mais arejado e ventilado, permitindo o desenvolvimento de algumas atividades físicas e de uma moral mais equilibrada e controlada.

Os jornais na época acompanhavam e publicavam essas realizações urbanísticas. Dessa fonte conseguiu-se perceber os interesses predominantes em tais empreendimentos.

Os grandes monumentos de um povo são escolas de virtude cívica e têm missão civilizadora. Neles se aprende a amar o progresso que se afirma

16 Dentro das análises feitas nessa tese usou-se o termo modernização para caracterizar as atuações

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pela solidariedade social e pela pacificação dos espíritos e dos corações... Prova documental de quanto merece o conceito universal de progresso.17

Nota-se nesse trecho, que fez parte do discurso do intendente Guilherme Rocha no dia da inauguração do Mercado de Ferro, que suas intenções eram ampliar cada vez mais essas obras, já que ele acreditava que a modernização e o progresso eram conquistados através da construção de grandes obras e que tudo seria alcançado a partir dessas reformas urbanas.

O Mercado de Ferro (Figura 1) foi concluído no ano de 1897, durante o Governo Acioly, e foi um dos primeiros grandes empreendimentos do Intendente Guilherme Rocha nas primeiras reformas urbanas do início do século XX. O historiador Ponte afirma que essa obra reunia vários signos alinhados com as idéias de progresso, salubridade e beleza...18 É importante destacar que o material de sua estrutura foi produzido na França, e essa construção teve como objetivo organizar melhor a venda de carnes, peixes e outros gêneros alimentícios de acordo com padrões de salubridade e higiene que já vinham sendo recomendados pelos médicos e higienistas.

Outras significativas reformas realizadas durante o Governo Acioly com a finalidade de modernizar a cidade foram as das construções e melhorias realizadas na Praça do Ferreira (Figura 2). O historiador Girão, diante dessas transformações, chega à conclusão de que ―A frescura e a beleza ornamental do jardim, aliando-se à alacridade dos Cafés e, agora, às sinfonias das retretas noturnas, espiritualizando mais e mais o ambiente, concorreram para transformar a Praça no mais pulsátil coração urbano‖ 19. Resumindo um pouco de sua visão sobre a Praça do Ferreira, em 1902, percebe-se que esse local tornou-se uma área fundamental para a vida da cidade, uma vez que essa estrutura resplandece intuitos e projetos de progresso alimentados pelo Intendente Guilherme Rocha.

17 Jornal A República de 19.04.1897 transcrito por CASTRO, José Liberal em ―Arquitetura Eclética no

Ceará‖ In: Fabris, Annateresa (Org.) Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo-SP; Nobel/Edusp, 1987, p. 218.

18 PONTE, Sebastião Rogério. Op.cit., p. 1, nota 10.

19 GIRÃO, Raimundo. Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza-CE; Casa de José de Alencar, 1997,

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FIGURA 1- MERCADO DE FERRO (1897)

(Foto retirada do índice analítico e iconográfico da cronologia ilustrada de Fortaleza)

FIGURA 2- PRAÇA DO FERREIRA (1902)

Avenida 7 de setembro construída e inaugurada pelo intendente Guilherme Rocha e, que atualmente é chamada de Praça do Ferreira. (Foto retirada do índice analítico e iconográfico da cronologia

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No entanto, é necessário perceber que muitas dessas tentativas de reformas urbanas tão almejadas pelos representantes do governo estadual e do município não saíram do papel e os planos, envoltos em ideais modernizadores, poucos efeitos causaram à cidade. Basta observar as ações no campo da saúde pública, que tiveram mais participação e atuação dos médicos do que governamental. Como exemplo, pode-se observar as realizações de alguns médicos ao fundarem instituições destinadas à organização da saúde pública de Fortaleza no início do século XX, e que apesar de contarem com apoio Estadual e Federal partiam de ideais e ações individuais de alguns médicos.20 Deve-se destacar que a ideia sobre saúde passava por transformações em Fortaleza, nesse período, já que as práticas médicas advindas com a medicina acadêmica21 estavam predominando e acentuando mais ainda a distância e a rejeição às práticas populares de cura.

No final do século XIX e começo do XX os métodos de prevenção eram ainda poucos conhecidos e utilizados e talvez os fatores estejam todos centrados na forma com que a doença e a cura eram vistas e tratadas, pois enquanto o governo, possivelmente, via a doença como ameaça ao progresso da cidade, os médicos tentavam deter sua proliferação a partir do conhecimento científico. Já a população acabava, muitas vezes, atribuindo as doenças ao castigo divino e a única saída era a resignação ou a cura através da medicina popular.22

Em seus estudos sobre os projetos e metamorfoses, o antropólogo Gilberto Velho afirmou que o projeto:

20 Quando se afirmou que em sua maioria as ações realizadas, sobretudo, no campo da saúde foram

de cunho individualista é para demonstrar que a participação do governo na área da saúde pública em vários momentos foi secundária e que as atuações de particulares predominaram na construção dessa organização da saúde pública em Fortaleza.

21 É importante diferenciar história da saúde e história da medicina acadêmica, pois uma não

representa a outra e atuam em campos diferenciados, apesar de terem objetivos próximos. A história da saúde abrange as diversas práticas de curas tanto ligadas à atuação dos médicos como as utilizadas pela população a partir de suas crenças e estava voltada ao doente e já a história da medicina acadêmica limita-se ao âmbito das pesquisas, construção de teoria e práticas médicas voltadas para o melhoramento da saúde da cidade.

22 Não tive como aprofundar essas questões, mas acredito que esse assunto é bastante importante

(26)

...é instrumento básico de negociação da realidade como outros atores, indivíduos, ou coletivos. Assim ele existe, fundamentalmente, como meio de comunicação, como maneira de expressar, articular interesses, objetivos, sentimentos, aspirações para o mundo.23

Observa-se que entre os pontos abordados pelo autor para a efetivação de projetos estão os interesses e desejos individuais e coletivos. E pensando Fortaleza nesse contexto e também na área da saúde pública, compreende-se que nesse processo essas aspirações foram mais individuais do que coletivas. Desse modo, entende-se que as tentativas de reformas modernizadoras estiveram mais presentes nos discursos e planejamentos do que nas ações.

É interessante observar que os projetos urbanísticos aplicados, através de deliberações do Governo Provincial do Ceará, a partir de meados do século XIX, apresentados através das plantas urbanas do engenheiro Adolfo Herbster em 1875 e 188824, e, também nos códigos de posturas a partir de 1870, estiveram efetivamente mais presentes do que no início do século XX. Apesar das poucas mudanças e realizações do poder público nas reformas urbanas.

Provavelmente esse fato explique a falta de alguns mapas e outras documentações sobre a cidade de Fortaleza nas primeiras décadas do século XX. É importante ressaltar que o trabalho com mapas possibilita a ampliação das questões estudadas no campo da História.

...quase nada foi realizado em Fortaleza que favorecesse de uma moderna estrutura urbana, apesar do crescimento do seu espaço, que se deu muito mais à iniciativa privada do que à concretização de um plano orientador, a cargo do poder municipal.25

Através das colocações do historiador Jucá, notou-se que o crescimento e a organização da cidade não seguiram em sua história a prática e os parâmetros determinados como modernizadores, o que faz pensar que em geral faziam parte dos discursos de ideais e não algo concreto. A remodelação de praças, com a criação de novos jardins, a edificação e reformas nos prédios públicos, a ampliação

23 VELHO, Gilberto. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de

Janeiro-RJ; Editora Zahar, 2003, p.163.

24 A esse respeito ver: CASTRO, José Liberal de. Contribuições de Adolfo Herbster à forma urbana

da cidade de Fortaleza. Fortaleza-CE; Separata da Revista do Instituto do Ceará, 1994.

25 JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza. São Paulo-SP;

(27)

das áreas de lazer como o Passeio Público26 e a construção do Teatro José de

Alencar27 não serviram apenas para embelezar, mas também para facilitar a

circulação e a possível “cura” da cidade. E as tentativas de reestruturação e reforma

das habitações de palha, da população mais pobre, o abastecimento de água, a construção de esgotos, a educação básica e superior, e, sobretudo a organização da saúde pública. Seriam esses possíveis meios de obter uma cidade civilizada?

...Mas já se habituara a essa aquarela macilenta a cidade distinta como um governo imposto pelo destino a sua pobreza, à sua simplicidade provinciana de praças ainda sem jardins, antes monótonos quadros de pastagem do gado à solta de rua pavimentadas de capim-de-burro, quase bocejando numa inexistência morna, meio sonolenta, acomodados os governantes as bonanças de uma oligarquia que, por sinal, era apenas o retrato, a expressão de um regime político de trancado afilhadissimo a estagnar, em todo o norte do País, as administrações e a sufocar ânsias e os impulsos de um progresso mais rápido...28

Diferentemente da visão de alguns memorialistas e cronistas que enxergam a cidade como um desabrochar da modernidade, o historiador Raimundo Girão olhava para a Fortaleza do início do século XX de uma forma crítica e de certa forma desiludida. Suas questões apontavam determinadas barreiras que acreditava serem

as causas do entrave do progresso para o alcance da cidade “sonhada”.

Primeiramente, Girão afirmou que a cidade criou hábitos que a impediam de mudar e desse modo continuava presa ao provincianismo, no qual o meio urbano e rural coexistem em um espaço comum e que sob os olhares do moderno é algo impróprio e determina atraso. De certa forma, através de sua censura, percebem-se os ideais de uma cidade civilizada, posto que as praças com jardins e sem a presença de animais soltos indicavam a vivência desse progresso.

26 O Passeio Público passou a funcionar em novembro de 1879, segundo o cronista João Nogueira.

No entanto pode-se observar pelas bibliografias sobre esse espaço que seu auge foi no início do século XX, quando esse local era usado mais frequentemente pelos fortalezenses como um local de lazer e diversão. Ver, por exemplo, NOGUEIRA, João. Fortaleza Velha: crônicas. Fortaleza-CE; Edições UFC/PMF, pp15-26 e NOGUEIRA, Carlos Eduardo Vasconcelos. Tempo, Progresso, Memória. Fortaleza-CE; Dissertação de Mestrado em História Social pela UFC, 2006.

27 Em 1904 é que foi oficialmente autorizada a construção do Theatro José de Alencar, através da lei

768, de 20 de agosto. Em 6 de junho de 1908 as obras oficialmente tiveram início, e as peças de ferro fundido que compõem a estrutura do teatro foram importadas de Glasgow, na Escócia. Foi inaugurado em 17 de junho de 1910. De acordo com Ponte ―a contrução do Teatro José de Alencar

significou importante triunfo para os adeptos locais da afirmação civilizatória. Ver, por exemplo, PONTE, Sebastião Rogério. Op.cit., p. 42, nota 10.

(28)

Depois aponta como outro entrave as mudanças do contexto político no qual se encontrava a cidade. Girão criticava indiretamente a oligarquia de Acioly e

considerava esse governo como acomodado e vivendo de uma “bonança” que se

travava do desenvolvimento de Fortaleza e que também estava presente em outros estados da região norte do país.

Mas, as transformações urbanas foram lentas e o que se percebe com os escritos dos memorialistas e historiadores é que as dificuldades com a organização e estruturação física eram enormes e as questões como a pobreza, a falta de abastecimento de água, de sistema de esgoto e as doenças eram vistas como entraves ao progresso da cidade.

É interessante perceber que nos primeiros anos do século XX a atenção para a saúde em Fortaleza foi preocupação dos médicos e governantes, uma vez que se tinha entre os interesses desses grupos o desejo de evitar a eclosão das epidemias. Já a população, sobretudo os mais pobres, lidavam com essa situação somente durante os momentos das doenças e utilizavam-se dos conhecimentos da medicina popular para aliviar os efeitos das enfermidades e evitar a morte.

As questões ligadas ao abastecimento de água em Fortaleza foram um problema recorrente e estiveram presentes nas discussões políticas e organizacionais urbanas anteriores ao século XX. “...continuava a cidade a suprir-se do precioso líquido retirando-o de cacimbas escavadas nos quintaes das casas e elevada por moinhos de vento a rodarem desesperadamente dia e noite...‖29. O serviço estruturado de abastecimento de água e esgoto somente foi efetivado no ano de 1926, no governo do Des. José Moreira da Rocha. No entanto, é importante destacar que alguns projetos foram iniciados anteriormente, como o projeto realizado pelo engenheiro João Felipe Pereira, mas não foram efetivados e nem tiveram continuidade.

...Quanto ao serviço de esgoto, o processo era por demais grosseiro e inconveniente. A maioria das casas mantinham, no quintal, cloacas fixas, às vezes simples buracos aberto no chão, outras um barril ou um caixão enterrado, servindo de depósito às dejeções domésticas.30

O sistema de esgoto foi tão precário quanto o abastecimento de água e também começou a ser organizado em 1926. Anteriormente, não se dava

29 GIRÃO, Op.cit., p. 227, nota 19.

(29)

prosseguimento às obras, que ficaram apenas nos projetos. Através do texto do historiador Girão, pode-se observar as dificuldades que a cidade enfrentava nesse período com relação a não continuidade de obras consideradas como fundamentais para uma cidade civilizada.

É relevante notar como essa estrutura de abastecimento e esgoto, ainda em processo de construção, mas vista como necessária pelos médicos e higienistas brasileiros para evitar as doenças, teve dificuldades de ser organizada e concluída pela administração de Fortaleza. Possivelmente, pela falta de recursos financeiros para tais empreendimentos e também porque os médicos, representantes da medicina acadêmica, não tinham naquele momento tanta visibilidade e representatividade política para fazer com que suas teorias fossem aceitas e aplicadas na cidade.

Mas, além das dificuldades com o sistema de esgoto e água, a cidade enfrentava o problema do transporte desse material para fora das casas e, por conseguinte, para fora da área urbana de Fortaleza. Nas descrições de Girão pode-se ter uma noção de como funcionava o cotidiano e também o tipo de trabalhadores selecionados para esse serviço.

...os condutores dos barris, recrutados na escória da ínfima classe dos jornaleiros, pela natureza repugnante do serviço são outros tantos agentes de infecção da cidade. Imundos, asquerosos, mostram nas suas vestes os traços do oficio. Não raro, por embriaguez ou pelo mau estado dos vasos despejam os excrementos nas ruas, nas quais permanecem dias e dias, apenas cobertos por tênue camada de areia sem que a autoridade sanitária mande proceder à desinfecção delas.31

Deve-se ressaltar que os problemas enfrentados na cidade por esse tipo de serviço não eram inéditos, mas já estavam presentes desde o século XIX. O diferencial estava nos condutores, pois anteriormente essa mão de obra era de escravos. No entanto, pelas descrições observa-se que esse tipo de serviço era reprovado, os trabalhadores eram vistos de uma forma repugnante e traziam perigo à cidade, uma vez que foram considerados, através de um discurso autoritário, como ―agentes de infecção‖. Esse tipo de serviço demonstra o quanto na prática Fortaleza, no começo do século XX, ainda enfrentava problemas em sua estrutura e o quanto isso ia de encontro aos ideais de progresso daquele momento.

(30)

A iluminação pública em Fortaleza também esteve entre as questões centrais dos discursos e ideais de estruturamento e melhoramentos urbanos, durante o século XIX e início do XX, no entanto, também enfrentou dificuldades no seu funcionamento. De acordo com o memorialista e escritor João Nogueira, a cidade passou por três fases de iluminação. A primeira foi a era do azeite (1848-1866), a segunda foi a do gás carbônico (1866-1933) e por fim a era da eletricidade, que só passou a vigorar em 1934 de uma forma mais ampla.32

A iluminação pública restringiu-se às áreas mais centrais, uma vez que a cidade nesse período ainda não era tão extensa. E desse modo, é importante notar que nem mesmo nos lugares centrais essa iluminação era abrangente e limitava-se a algumas ruas e praças.

Brevemente pelo contrato celebrado pela Câmara Municipal em 5 de novembro 1893 com Pamplona, Irmão e Cia em virtude da lei nº 72 de 16 de agosto do mesmo ano, começará a iluminação à luz elétrica nos estabelecimentos e aposentos particulares.33

Os anseios por uma energia elétrica estavam entre os interesses das cidades brasileiras que almejavam uma modernização, inclusive de Fortaleza. No entanto, o contrato descrito pelo memorialista Bezerra de Menezes não se realizou, pois essa iluminação elétrica somente passou a vigorar, de forma restrita, em algumas propriedades particulares a partir de 1913. E as praças e ruas continuaram sendo responsabilidade da Ceará Gás Co. Ltda34.

Aos 10 de outubro de 1933 foram instaladas, a título de experiência, quatro lâmpadas de cem velas na Rua Formosa, entre a Municipal e a das Hortas; e por fim, aos 8 de dezembro de 1934, inaugurou-se a iluminação geral, começando-se pela colocação de algumas lâmpadas na Praça do Ferreira.35

Observando esse trecho, percebe-se quanto tardio foi esse processo da iluminação elétrica e, diante disso, é interessante pensar como uma cidade que

32 NOGUEIRA, João. Op. cit., pp 27-31, nota 26.

33 BEZERRA DE MENEZES, Antônio. Descrição da cidade de Fortaleza. Fortaleza-CE; Edições UFC,

1992, p. 38.

34 É interessante abordar que a Ceará Gás já vinha sendo responsável pela Iluminação Pública desde

1866 e somente em 1934 com um novo contrato a energia elétrica passa a vigorar nas ruas e praças e fica sob a responsabilidade da Ceará Tramway Light and Power Co. Ltd.

35

(31)

ansiava por um modo de vida de qualidade e civilizado vai estar distante desses ideais em seu cotidiano. Assim, analisar a saúde pública de Fortaleza, nesse momento, é tentar entender as condições estruturais urbanas existentes e como os profissionais da saúde agiram para tentar organizar a saúde e a higiene da cidade.

As ações governamentais, nos primeiros anos do XX, com relação à saúde pública em Fortaleza, foram processuais. Possivelmente, a falta de experiência desses administradores na área da saúde tenha contribuído para essa situação. Assim, observou-se que os médicos foram os mais assíduos colaboradores na construção dessa cidade almejada. Os métodos preventivos nesse momento eram ainda muito precários e a possível falta de materiais e recursos financeiros tenha limitado as atuações desses dois grupos. No entanto, deve-se observar que somente nos períodos das epidemias era que ações passavam a ser mais efetivas, já que a situação se tomava emergencial. Num segundo momento, observou-se que medidas foram tomadas e se direcionaram as construções de locais próprios para o tratamento e atendimento aos doentes, como hospitais e casas de saúde, e também foram realizadas campanhas preventivas das doenças entre citadinos.

Inicialmente as questões ligadas à saúde urbana de Fortaleza estavam associadas aos períodos epidêmicos e como esses, em geral, apareciam mais intensamente durante os períodos de seca36, ficavam restritos a tratamentos e a

36

(32)

soluções momentâneas. No entanto, não se pode pensar que fora dessas crises as ações médicas estivessem paradas, mas ficavam menos visíveis, posto que os atos individuais tinham mais destaque, uma vez que as ações caritativas predominavam e a atuação Governamental em prol da organização e melhoramento da saúde pública era menos visível.

Percebe-se que os períodos de secas sempre estiveram presentes no decorrer da história do Ceará, no entanto, no início do século XX, em Fortaleza, os dirigentes e influentes já se utilizavam mais frequentemente do discurso da tragédia para justificar os atrasos e problemas estruturais da cidade. Evidentemente que não se pode negar que nesses períodos tinha-se um agravamento de várias questões sociais e estruturais, mas apontar isso como o causador de atrasos e barreiras do crescimento da cidade é equivocado, pois fora desses momentos a cidade enfrentava os mesmos problemas: as epidemias, a falta de abastecimento de água e esgoto, as precárias moradias para a população pobre e a iluminação precária. Desse modo, percebe-se que a seca tornou-se no discurso o problema central para o impedimento de muitas das realizações no campo da saúde pública em Fortaleza.

A capital cearense contava com 48.369 habitantes37 no ano de 1900 e

observou-se que no decorrer das décadas de 10, 20 e 30 do século XX esse crescimento apresentou significativas variações. (Tabela 1) Provavelmente, esses números variavam com os fluxos migratórios que ocorriam tanto nos períodos de seca, como fora deles e através dos atrativos urbanos proporcionados pelos novos aparatos tecnológicos, uma vez que morar numa grande cidade significava para muitos ter uma melhor qualidade de vida.

TABELA 1

HISTÓRICO POPULACIONAL DE FORTALEZA

(Dados retirados dos históricos do IBGE do Ceará)

37 GIRÃO, Raimundo. Op. cit., p. 225, nota 19.

1900 48.369

1910 65.816

1920 78.500

(33)

Analisando Fortaleza nas diferentes fases do início do século XX, consegue-se obconsegue-servar momentos bem distintos e significativas mudanças, sobretudo no campo político, estrutural e da saúde pública da cidade. Podem-se separar esses períodos para uma melhor análise em quatro fases: os primeiros anos do século XX, em que poucas foram as mudanças; a década de 10, que já apresentou transformações como o aparecimento dos carros, instituições de saúde pública e grande quantidade de obras com o objetivo de ampliar as áreas de lazer, como a inauguração do Teatro José de Alencar em 1910; a década de 20, com a presença do Governo Federal nas campanhas contra a febre amarela, e reestruturação da cidade através da criação de um sistema de esgoto e abastecimento de água e, por fim, a década de 30, que passou a vigorar com um maior número de organizações ligadas à saúde, à ampliação na área da educação e às reformas nacionais realizadas pelo Presidente Getúlio Vagas, que trouxeram mudanças no campo trabalhista e da saúde pública.

(34)

1.2 - NOS CAMINHOS DA SAÚDE PÚBLICA...

Na virada do século o mundo da medicina e da saúde pública ainda se ajustava as descobertas revolucionárias de Pasteur, Koch, e outros microbiologistas...

George Rosen 38

Na passagem do século XIX para o XX houve significativas mudanças no campo da saúde pública. Como apontou Rosen em seus estudos, esse ajuste e também adaptação aos novos conceitos não se deu de forma brusca e levou um determinado tempo para que a população e os médicos abandonassem o conceito dos miasmas e visualizassem as questões das doenças e da organização da saúde pública através do olhar da microbiologia.

É necessário lembrar que esses momentos de transição no campo da saúde foram de intensas divergências, uma vez que a medicina acadêmica disputava espaço com as práticas populares de cura e enfrentava em seu próprio meio uma disputa entre a teoria dos miasmas e a dos micróbios.

O processo de desenvolvimento da saúde pública no Brasil foi mais lento e diferenciado do ocorrido na França, Inglaterra, Alemanha e Estado Unidos, uma vez que o contexto social, político e econômico desses países estavam mais adiantados, propiciando medidas e reformas mais efetivas na organização da saúde pública.39

Assim, nesse período, falar sobre saúde pública no Brasil estava associado a implantar ações imediatas para tentar controlar as epidemias e doenças como a varíola, febre amarela, peste, sífilis, ancislotomose e outras. É interessante mencionar que a atuação do Governo Federal tornou-se mais presente em alguns estados brasileiros a partir dos anos de 1910, com a aplicação de algumas campanhas de prevenção das doenças e de incentivos às reformas sanitárias.

No Ceará, especificamente em Fortaleza, nos primeiros anos do século XX, a situação da saúde e higiene pública era bastante precária. Pode-se atribuir esse

38 ROSEN, George. George. Op. cit., p. 294, nota 8.

39 Para aprofundar mais sobre essas questões ver, por exemplo, ROSEN, George. Op.cit., nota 8; Ver

(35)

fator à ausência de um investimento governamental na organização da saúde pública e ao agravamento das doenças nos períodos de seca40.

De certa forma pode-se ter como ponto de partida para uma preocupação e estruturação da saúde pública, no âmbito nacional, as medidas tomadas a partir do decreto Federal de 30/XII/1891, em que foi declarada a seguinte determinação: II —

Passarão para os Estados as despesas com os governadores ou presidentes e secretários e com o serviço de higiene terrestre nos respectivos territórios.41

O decreto-lei de 1891 tirou das mãos do Governo Federal a responsabilidade com os serviços de saúde pública de todo o país, seguindo um modelo administrativo em que a autonomia de alguns setores da União fosse prioridade. No entanto, essa descentralização apontava alguns problemas como a falta de recursos estaduais, de medicamentos, de médicos e da fiscalização da União quanto ao cumprimento dessa lei. O investimento Federal e Estadual na saúde era mínimo e insuficiente em todo Brasil, com exceção dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo,42 uma vez que esses locais tinham um adiantado processo

econômico, social e político e também eram estados cujas práticas sanitárias já vinham sendo desenvolvidas efetivamente desde o final do século XIX.

Diante desse contexto é necessário analisar as dificuldades encontradas a partir dessa descentralização dos serviços de saúde pública e como o Governo Estadual pensava e atuava sobre as questões sanitárias em Fortaleza. Traçando um caminho do desenvolvimento das questões ligadas à saúde pode-se afirmar que no início do século XX, em Fortaleza, existiram organizações e ações de melhoramento da saúde pública, uma vez que já se apontava nos relatórios do Governo Estadual

40 Deve-se ressaltar que não se defende a ideia de que a seca era a responsável ou ocasionadora da

pobreza na cidade, mas que essa agravava as precariedades já presentes no espaço urbano, sobretudo, a proliferação das doenças. Ver; por exemplo, GARCIA, Op.cit., nota 36.

41 MASCARENHAS, Rodolfo dos Santos. História da saúde pública no Estado de São Paulo. São

Paulo-SP; Rev. Saúde Pública, v. 7, n. 4, dez. de 1973, p.435.

42 Para a análise sobre o processo de desenvolvimento da saúde pública no Rio de Janeiro e São

(36)

os projetos das reformas urbanísticas? Os médicos tiveram uma atuação mais efetiva nessa estruturação?

Antes de iniciar as análises sobre a trajetória da saúde pública e a participação dos médicos é necessário ressaltar que o decreto- lei de 1891 teve uma grande importância para as mudanças da saúde pública no Brasil, pois instituiu, de certa forma, um início de preparo para um ordenamento da saúde e higiene pública brasileira, posto que se observou que nas ações anteriores à República, os serviços eram realizados mediante as leis provinciais ou nos momentos das grandes epidemias.43

Contudo, é relevante analisar que essa lei não motivou de imediato uma organização de uma área específica da saúde pública, já que ela ainda apresentava variações entre os momentos com e sem epidemias.

Em momentos “normais”, a saúde não se caracterizava por ser uma área

especifica, tanto que os recursos a ela destinados encontram-se

englobados em “Socorros Públicos”, mostrando ainda seu caráter

filantrópico e emergencial...44

Apesar de seus estudos estarem centrados na cidade de São Paulo, Massako Lyda apontou duas situações que predominavam antes da lei de 1891 e que permaneceram até a estruturação de um campo mais efetivo da saúde pública no Brasil. Observando a construção desse processo em Fortaleza percebeu-se que de certa forma houve, nos primeiros momentos, um desconhecimento de como lidar com as questões da saúde, contudo, a experiência e as novas medidas apresentadas pela medicina acadêmica apresentaram modelos a serem seguidos pelo médicos em suas atuações na cidade.

Constata-se, portanto, que, mesmo na República, apesar do quadro de morbidade e de alta mortalidade, as questões de saúde pública eram tratadas como área não especifica, e seus recursos, destinados à assistência médico-hospitalar ou outras.45

43 Deve-se ressaltar que predominava entre o final do século XIX e início do XX os ideais do

liberalismo no país e a administração do governo no Ceará já demonstrava que não tinha interesse em ações centralizadoras e assistencialista, sobretudo, na área da saúde. E que sua participação era mais presente para subsidiar instituições particulares. Ver; por exemplo, CARVALHO, José Murilo. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro-RJ; Civilização Brasileira, 2003.

44 LYDA, Massako. Cem anos de Saúde Pública: a cidadania negada. São Paulo-SP; UNESP, 1994,

p.34.

(37)

Diante desse quadro, pode-se observar que as primeiras medidas tomadas pelo Governo Federal para a formação de uma área específica da saúde pública estavam relacionadas à prevenção das doenças. E dentre as soluções mais eficazes e imediatas tinha destaque a vacinação, já que as questões ligadas à higiene pública não foram organizadas e planejadas tão rapidamente e somente passaram a vigorar mais efetivamente na década de 10 do século XX. No entanto, deve-se mencionar que mesmo existindo uma lei voltada à obrigatoriedade da vacina, não significa dizer que na prática ela era cumprida e aceita pela população.

A determinação Federal para a obrigatoriedade da vacinação ficou sob a organização e o encargo de cada estado brasileiro, que recebeu como apoio do Governo Federal as vacinas a serem aplicadas. Contudo, esse apoio dado era muitas vezes insuficiente, pois as condições com que eram enviadas essas vacinas para os estados que a solicitavam eram precárias e o seu transporte era demorado e o material acabava danificado.

Deve-se abordar que a decretação de vacinação obrigatória somente foi implantada no Ceará no ano de 1892 e voltou a ser efetivada novamente entre os anos de 1897 a 1900. Mas, o processo de aceitação dessa vacina sempre foi difícil, uma vez que a população desconhecia essas técnicas e desconfiava das ações do governo quanto à aplicação dos mecanismos profiláticos.

A princípio esse serviço era realizado pela Inspetoria de Higiene Pública do Ceará que recebia o fornecimento da linfa animal46, vinda do Rio de Janeiro, e que

mais adiante passaria a ser fabricado em Fortaleza pela iniciativa do farmacêutico Rodolfo Teófilo.47

46 A vacinação com a linfa animal teve início com as investigações do médico inglês Edward Jenner

em 1798 e que demonstrou que os trabalhadores que lidavam com as vacas contaminadas pela

varíola, a chamada “cowpox”, desenvolviam-se pústulas semelhantes às dos animais numa condição

benigna e não eram contagiados com a varíola. Assim, a linfa animal passou a ser retirada das vacas e usada como vacina para prevenir e proteger a população contra a varíola. Ver; CAMPOS, André Luiz Vieira de. A história e o conhecimento envolvido na produção da vacina antivariólica. Rio de Janeiro-RJ; História, Ciência e Saúde - Manguinhos, 2000.

47 Filho de pais cearenses, Rodolfo Teófilo (1853-1932), eventualmente nasceu em Salvador, mas

(38)

Mesmo com as deliberações determinadas pelo Governo Federal, a situação do Ceará permaneceu inalterada, diferentemente de outros estados, como já foi abordado. Esse processo de estruturação, em Fortaleza, foi bastante lento e precário, e observa-se que nesse momento o Governo do Ceará deu continuidade às Inspetorias de higiene,48 que passaram a ter ações mais efetivas, uma vez que não atuavam somente durante os períodos de secas e epidemias, mas passaram a ter uma participação mais frequente, contudo, limitada a ações emergenciais e não medidas preventivas contra as doenças.

Desse modo, as inspetorias eram responsáveis por realizar relatórios anuais sobre as doenças vigentes, tomar medidas sanitárias durante as grandes calamidades, fazer as vigilâncias sanitárias dos portos e aplicar vacinas antivariólicas. Na prática muitas dessas medidas eram precárias e tinham determinados efeitos a partir de realizações individuais, como foi o caso do combate e prevenção da varíola, realizado pelo farmacêutico Rodolfo Teófilo a partir de 1901.

Registro com satisfação e louvor o inestimável serviço prestado pelo distincto pharmaceutico Rodolfo Marcos Theophilo que, por amor do bem publico, se prestou a vaccinar gratuitamente a centenares (sic) de pessoas, no periodo agudo de epidemia.49

Pode-se dizer que pela primeira vez o Ceará experimentou ações mais efetivas na área da prevenção de doenças, posto que nos períodos anteriores não houve resultados tão significativos como os alcançados pela campanha de vacinação contra a varíola. E nas palavras e elogios do Presidente do Estado, o médico Pedro Borges, ficou registrado quem foi o responsável por tal feito.

A campanha de vacinação contra a varíola implantada por Teófilo teve seu diferencial, primeiramente, por ter sido esta vacina fabricada pelo próprio

(agremiação de rapazes e letras, fundado em 30 de maio de 1892, em Fortaleza e que contou com a participação de escritores como Adolfo Caminha, Antônio Bezerra, Antônio Sales, Juvenal Galeno e outros). Ver; PONTE, Sebastião Rogério. Op.cit., pp. 107-110, nota 10; TEÓFILO, Rodolfo. Variola e Vacinação no Ceará. Fortaleza-CE; Ed. fac-sim, Fundação Waldemar Alcântara, 1997 e BARBOSA, José Policarpo de Araujo. Op. cit., pp. 70-80, nota 1.

48 Deve-se ressaltar que a Inspetoria de higiene teve um funcionamento, dentro das novas medidas

republicanas, entre os anos de 1893 a 1918, contudo, acredita-se que até o Governo Vagas, com as reformas da saúde, ela esteve ligada à Secretária de Educação do Ceará, apesar de aparecerem departamentos e instituições anteriores aos anos 30.

49Mensagem apresentada a Assembleia Legislativa do Ceará pelo Presidente do Estado Dr. Pedro

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