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Aldeia da Estrela. Sociologia e Arquitectura ao Serviço de uma População

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Academic year: 2021

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(1)Capa Aldeia da Estrela.qxp_Layout 1 25/03/15 16:52 Page 1. Outros títulos de interesse:. «Querem Fazer um Mar...». Viver no Parque das Nações Espaços, Consumos e Identidades Maria Assunção Gato. Criatividade e Instituições Novos Desafios à Vida dos Artistas e dos Profissionais da Cultura Vera Borges Pedro Costa (organizadores). Capa: Plano de pormenor da Aldeia da Estrela (implantação). Apoio:. UID/SOC/50013/2013. Rodrigo Rosa /Manuel Graça Dias / Egas José Vieira Aldeia da Estrela. Ensaio sobre a Barragem de Alqueva e a Aldeia Submersa da Luz Fabienne Wateau. A Aldeia da Estrela encontra-se entre os povoados alentejanos cujas condições de vida sofreram alterações profundas após o enchimento da barragem de Alqueva. Encerradas as comportas, a água veio cobrir grande parte da terra arável e cercou esta aldeia, reduzindo-a a uma pequena península. Contribuir para atenuar os efeitos sociais da implantação da barragem foi o desafio lançado aos arquitectos responsáveis pelo Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela. Projectar uma outra organização do aglomerado exigia, porém, conhecer a vida na Estrela, bem como identificar as necessidades e as expectativas face ao futuro de uma população amplamente despojada das fontes de rendimento que asseguravam a sua subsistência. Reconhecendo as virtualidades da articulação entre competências sociológicas e arquitectónicas, os autores deste livro procuraram derrubar os obstáculos que a crescente especialização de saberes ergue ao conhecimento interdisciplinar, elaborando uma proposta de reconfiguração da Estrela capaz de traduzir a relação que os seus habitantes estabelecem com o espaço. A fundamentação dessa proposta constituiu, justamente, o objectivo da investigação sociológica e do estudo para o plano de pormenor apresentados no livro.. Rodrigo Rosa Manuel Graça Dias Egas José Vieira. ICS www.ics.ulisboa.pt/imprensa. Aldeia da Estrela. Sociologia e Arquitectura ao Serviço de uma População. Rodrigo Rosa é doutorado em Sociologia (ISCTE-IUL, 2009) e investigador do ICS-UL. É professor auxiliar convidado do DA/UAL. Tem realizado investigação quer no âmbito da sociologia urbana, quer no âmbito da sociologia da família e do género. Em 2004 foi responsável pelo Inquérito Sociológico à População da Aldeia da Estrela. Manuel Graça Dias, arquitecto (ESBAL, 1977), é professor auxiliar da FAUP, onde concluíu o doutoramento (2009), e professor catedrático convidado do DA/UAL, que também dirigiu (2000-2004). Egas José Vieira, arquitecto (FA/UTL,1985), foi professor auxiliar convidado da ESTGAD, Caldas da Rainha (1997-2001), sendo actualmente professor auxiliar convidado do DA/UAL. Autores do polémico estudo de reconversão urbana do Estaleiro da Lisnave, em Almada, Manuel Graça Dias e Egas José Vieira ganharam o Prémio AICA/MC (arquitectura), em 1999, pelo conjunto da obra que têm vindo a construir em comum, desde o Pavilhão de Portugal em Sevilha (1992) ou a sede da Ordem dos Arquitectos, em Lisboa (1994), aos mais recentes Museu da Oliveira e do Azeite, em Mirandela (2014) ou Museu da Resistência e Liberdade (Aljube), em Lisboa (2015).. ICS.

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(5) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 5. Rodrigo Rosa Manuel Graça Dias Egas José Vieira. Aldeia da Estrela Sociologia e Arquitectura ao Serviço de uma População.

(6) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 6. Imprensa de Ciências Sociais. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Av. Prof. Aníbal de Bettencourt, 9 1600-189 Lisboa – Portugal Telef. 21 780 47 00 – Fax 21 794 02 74 www.ics.ulisboa.pt/imprensa E-mail: [email protected]. Instituto de Ciências Sociais — Catalogação na Publicação ROSA, Rodrigo Aldeia da Estrela : sociologia e arquitectura ao serviço de uma população / Rodrigo Rosa, Manuel Graça Dias, Egas José Vieira. Lisboa : ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2015. ISBN 978-972-671-349-4 CDU 316. Capa e concepção gráfica: João Segurado Revisão: Levi Condinho Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito legal: 387591/15 1.ª edição: Março de 2015.

(7) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 7. Índice Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Rodrigo Rosa, Manuel Graça Dias e Egas José Vieira Um exercício de interdisciplinaridade ao serviço de uma população. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Rodrigo Rosa Da certeza incerta que do acertar se acerca: retrato de um processo interdisciplinar . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 Manuel Graça Dias e Egas José Vieira As partes e as secções do livro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39. Parte I Inquérito sociológico à população da Estrela . . . . . . . . . . . . . . . . Rodrigo Rosa Aspectos fundamentais de caracterização da aldeia. . . . . . . . . . . Uma independência relativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desvalorização da terra e declínio populacional. . . . . . . . . . Estratificação social, propriedade e emigração . . . . . . . . . . . A família na Estrela: namoro, casamento e divisão sexual do trabalho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Identidade e pertença. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Viver hoje na Estrela. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Atitudes e expectativas face ao enchimento da barragem de Alqueva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 41 46 47 49 51 56 61 64 65.

(8) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 8. A importância da água. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Mobilidade e hábitos de consumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Avaliação das necessidades da aldeia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Síntese e recomendações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 73 75 79 83. Parte II Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Manuel Graça Dias e Egas José Vieira Preâmbulo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Enquadramento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 Objectivos gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92 Avaliação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 Estrutura da propriedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98 Levantamento urbanístico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98 Proposta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 Descrição geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 Praça da Estrela . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 Largo da Igreja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 Praça do Sol ou dos Ofícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 Ancoradouro de pesca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 Ancoradouro de recreio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110 Ancoradouro de emergência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Recinto de touradas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Promontório das pousadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112 Memorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114 Promontório das piscinas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 Pontão de pesca desportiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Bar Pôr-do-Sol . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Zona de expansão habitacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Parque de Ronda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 Ficha técnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125.

(9) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 9. Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 Anexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Anexo 1 – Inquérito por questionário à população da Aldeia da Estrela . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Anexo 2 – Principais números do plano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147.

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(11) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 11. Índice dos quadros, gráfico e figuras Quadros 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6 1.7 1.8 1.9 1.10 1.11 1.12 1.13 1.14 1.15 1.16 1.17 1.18 1.19 1.20 1.21 1.22 1.23. Ano de nascimento dos entrevistados............................................... População da Aldeia da Estrela entre 1911 e 2001 .......................... Local de habitação dos filhos dos casais entrevistados com filhos Escolaridade do filho mais escolarizado do casal ............................ Escolaridade segundo o ano de nascimento..................................... Activos e reformados segundo o grupo socioeconómico ............... Condição perante a actividade económica....................................... Propriedade actual segundo a propriedade alagada ......................... Situação na profissão principal .......................................................... Dimensão da propriedade dos agregados ........................................ Circunstâncias em que os cônjuges se conheceram ........................ Formalização da união conjugal........................................................ Alojamento no início da vida conjugal............................................. Norma de divisão sexual do trabalho................................................ Divisão do trabalho doméstico e do poder no casal ....................... Atitude face ao divórcio ..................................................................... Religião segundo o sexo ..................................................................... Disponibilidade para exercer uma actividade profissional ligada ao turismo na Estrela .......................................................................... Frequência com que os habitantes se ausentam da aldeia .............. Meio de transporte utilizado para sair da aldeia .............................. Motivos que levam os habitantes a sair da Estrela........................... Local de aquisição dos diversos produtos......................................... Avaliação que os habitantes fazem das necessidades da aldeia........ 50 50 51 51 52 53 54 54 55 57 57 58 58 60 60 61 62 72 76 76 78 78 82. Gráfico 1.1. Consequências do alagamento ........................................................... 85.

(12) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 12. Figuras 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19. 20 21 22. A Aldeia da Estrela antes do enchimento total da albufeira, 2002 ...... Uma das novas enseadas da Aldeia da Estrela, 2004............................. O «Grande Lago» visto a partir do terraço de recreio da escola primária, 2004........................................................................... Debandada turística, depois de um dia a experimentar as águas do Alqueva, 2004...................................................................................... Alqueva Bar: a roulotte que teve de partir quando o pequeno outeiro sombreado se transformou numa ilha, 2004............................ Primeira visita da equipa à aldeia, 2004.................................................. «A aldeia estava agora vazia, recolhida, fechadas as casas que se mostravam ‘à venda’», 2004......................................................... Alguns barcos de pesca atravessados nos recortes da fronteira nova, 2004 ................................................................................................. Casas ao longo da rua principal da aldeia, 2004.................................... Primeiro esquema de ensaio de significação do território da Aldeia da Estrela, 2004........................................................................ Habitantes da Aldeia da Estrela, 2004 .................................................... Indecisão entre a pastorícia e a pesca, 2004 ........................................... Estrada nas cercanias da Aldeia da Estrela, 2004 ................................... Vista da aldeia sobre a lagoa de Alqueva. Aldeia da Estrela, 2004....... Preparando uma queimada. Aldeia da Estrela, 2004............................. Aldeãos jogando dominó no café, que é a sala de convívio dos homens. Aldeia da Estrela, 2004 ...................................................... Aldeãs em passeio ao entardecer. Aldeia da Estrela, 2004 .................... Conversando com António da Conceição Pereira. Aldeia da Estrela, 2004............................................................................................................ Localização da Aldeia da Estrela [marcação sobre extracto da planta de síntese do Plano de Ordenamento das Albufeiras do Alqueva e Pedrógão (POAAP)]............................................................................... Um dos novos promontórios da Aldeia da Estrela, 2004..................... Placa fixada no alçado de uma das casas da aldeia, 2004 .................... O novo vernáculo popular, 2004............................................................. 19 19 27 28 28 30 30 30 30 33 37 40 42 42 43 47 48 48. 90 90 93 94.

(13) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 13. 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49. Mais uma casa vazia à venda, 2004......................................................... «Múltiplos sinais exteriores que, aos nossos olhos ávidos de arquitectura ‘popular’, soam com agressividade», 2004 ................... O perfil quase estabilizado da rua principal da aldeia, 2004................ «Quintais desmazelados e pobres», 2004................................................ Divisão cadastral da aldeia, 2005............................................................. Ficha de Inquérito Arquitectónico do Plano: Parcela A33, 2005 ........ Ficha de Inquérito Arquitectónico do Plano: Parcela A36, 2005 ........ Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela (esquisso de trabalho, 2005)... Praça da Estrela (troço da maqueta final, 2006)..................................... Largo da Igreja: situação actual, com marcação das propriedades a demolir, 2006 ......................................................................................... Largo da Igreja: proposta do plano, compreendendo a reedificação, 50 metros para nascente, das propriedades a demolir, 2006 ................ Largo da Igreja: situação actual, 2004 ..................................................... Uma das propriedades a demolir, de modo a «abrir» o novo Largo da Igreja, 2004 ................................................................................ Praça do Sol ou dos Ofícios (troço da maqueta final, 2006)................ Sugestão de forma para a confecção de bolachas «Estrela», 2006........ Ancoradouro de pesca (troço da maqueta final, 2006)......................... Ancoradouro de recreio (troço da maqueta final, 2006)....................... Recinto para touradas, anichado na enseada do embarcadouro de recreio (troço da maqueta final, 2006)............................................... Promontório das pousadas (troço da maqueta final, 2006).................. Promontório das pousadas (esquisso de trabalho, 2005)...................... O antigo cemitério, antes do enchimento completo da albufeira que o viria a cobrir, 2004 ......................................................................... O caminho que conduzirá ao Memorial, 2004..................................... Promontório das piscinas (troço da maqueta final, 2006) .................... As zonas de expansão habitacional ao longo dos promontórios mais salientes (troço da maqueta final, 2006) ........................................ Aldeia da Estrela (levantamento do existente, 2006)............................. Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela (implantação, 2006) ............. Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela (maqueta global, 2006)......... 94 95 96 96 97 98 99 102 103 105 105 106 106 108 108 109 110 111 113 113 114 115 115 118 119 120 122.

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(15) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 15. I futuri non realizzati sono solo rami del passato: rami secchi. Italo Calvino. «Changer la vie», «changer la société», cela ne veut rien dire s’il n’y a pas production d’un espace approprié. Henri Lefebvre.

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(17) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 17. Agradecimentos A vontade dos habitantes da Aldeia da Estrela em participar, intervir e, deste modo, sentir-se implicados no processo de reconfiguração da aldeia e da sua envolvente traduziu-se no empenho em colaborar na realização do trabalho de investigação sociológica, dando a conhecer as suas necessidades e anseios, bem como as expectativas depositadas no futuro da aldeia e, designadamente, no desenvolvimento urbanístico que as propostas delineadas pelo Plano de Pormenor procuram orientar. Uma palavra de gratidão é assim devida a todos os habitantes da Estrela, pela amabilidade com que sempre acolheram a equipa e se dispuseram a colaborar, proporcionando grande parte da matéria substantiva para a realização do trabalho de investigação sociológica. Um agradecimento especial a António da Conceição Pereira, cujo apoio foi essencial no contacto com a comunidade, bem como à Associação de Moradores da Estrela, por ter disponibilizado à equipa um espaço de trabalho. Uma palavra de apreço é também devida a todas as pessoas e instituições que contribuíram para a realização deste trabalho. A Manuel Teles Grilo (CRIA-FCSH/UNL) e a Túlia Marques (ICSP/UTL), o apoio no trabalho de campo e recolha de informação sobre a Aldeia da Estrela. A Catarina Lorga (CIES/ISCTE-IUL), a participação na análise dos dados do inquérito. A Karin Wall (ICS/UL), os importantes comentários no aprumo do questionário. A Humberto Nixon (EDIA), a disponibilidade no fornecimento dos resultados do inquérito realizado para a Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA) em meados da década de 1990. Ao Instituto Nacional de Estatística (INE), a disponibilização dos dados referentes aos diversos recenseamentos da população a nível do lugar. Os nossos agradecimentos são, evidentemente, extensíveis a toda a equipa pluridisciplinar reunida para a elaboração do Plano de Pormenor,. 17.

(18) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 18. Aldeia da Estrela. sem cuja concorrência este não poderia ter sido levado a efeito, não podendo deixar de ser realçado, ainda, o papel sempre positivo da Comissão de Acompanhamento nomeada pela Câmara Municipal de Moura e coordenada pela Dra. Maria José Lufinha. Uma última palavra de apreço é devida a Teresa Costa Pinto, pelas importantes sugestões na afinação do manuscrito, alertando para um conjunto de aspectos relativos à intervenção em espaços socialmente apropriados e, contudo, resguardados de quem não é, por hábito, confrontado com os desafios da interdisciplinaridade.. 18.

(19) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 19. Figura 1 – A Aldeia da Estrela antes do enchimento total da albufeira, 2002. Figura 2 – Uma das novas enseadas da Aldeia da Estrela, 2004. 19.

(20) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 20.

(21) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 21. Rodrigo Rosa Manuel Graça Dias Egas José Vieira. Introdução Contribuir para definir e enquadrar o desenvolvimento urbanístico da Aldeia da Estrela constituiu o principal objectivo do trabalho de investigação sociológica e do estudo para o Plano de Pormenor que deram origem a este livro. Após a subida do nível das águas decorrente do fecho das comportas da barragem de Alqueva, em Fevereiro de 2002, o monte onde se encontra situada a Aldeia da Estrela assume hoje os contornos de uma pequena península nas margens da enorme lagoa. Ao Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela coube, então, delinear as propostas de reconfiguração do espaço do aglomerado, orientando o seu crescimento urbanístico e anunciando os seus limites no sentido de dar resposta às diversas necessidades da população e, sobretudo, contribuir para resolver as tensões inerentes aos processos de apropriação e usos do solo. A natureza desta intervenção pressupunha, evidentemente, um estudo da vida na aldeia. Um inquérito sociológico foi então elaborado, com o principal objectivo de efectuar um levantamento das condições e modos de vida dos habitantes da Estrela, levantamento esse fundamental ao enquadramento e à compreensão da relação que esta população estabelece com o espaço, bem como das suas atitudes e expectativas face à recente transformação do cenário que a envolve. Pretendia-se assim que as propostas delineadas pelo plano viessem dar respostas às necessidades que a subida do nível das águas após o fecho das comportas da barragem de Alqueva veio impor a esta população. Para além da usual coexistência dos diferentes saberes técnicos envolvidos em projectos desta natureza, o desafio que desde logo se impôs consistiu na articulação de sensibilidades, competências e conhecimentos específicos da sociologia e da arquitectura, áreas cujo diálogo, teórico ou prático, persiste sobremodo aquém do apelo de diversos sociólogos e arquitectos no sentido da interdisciplinaridade. Com a exposição do trabalho de investigação sociológica sobre a Aldeia da Estrela e do estudo informado por esse trabalho tendo em vista a elaboração do Plano de Pormenor, procura este livro contribuir para derrubar as barreiras que a 21.

(22) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 22. Aldeia da Estrela. crescente especialização de saberes ameaça erguer ao conhecimento interdisciplinar. Antes de expormos, porém, os resultados do estudo sociológico e apresentarmos o Plano de Pormenor entretanto elaborado, importa reflectir sobre as virtualidades da interdisciplinaridade e, sobretudo, revelar os contornos que o diálogo entre sociólogo e arquitectos assumiu no próprio processo de elaboração deste trabalho.. 22.

(23) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 23. Rodrigo Rosa. Um exercício de interdisciplinaridade ao serviço de uma população As configurações espaciais detêm sobretudo o estatuto de fronteira nos contextos societais de alguma forma resguardados dos fenómenos da mobilidade, da miscigenação e decorrente hibridização das identidades (Appadurai 1996). Reduzidas, nesses contextos, as barreiras que estão destinadas a localizar no espaço os quadros da interacção social, a separar os tipos de actividade ou a segregar indivíduos, grupos e instituições, as configurações espaciais radicam numa concepção dicotómica do real que opõe exterior e interior, público e privado, profissional e doméstico, rural e urbano. Ora, é particularmente desafiante o papel social da arquitectura numa era em que a definição das configurações espaciais não se prende apenas com a elevação de fronteiras entre os diversos agentes e interacções caracterizantes da vida em sociedade. Afirmar que as configurações espaciais não podem ser simplesmente perspectivadas enquanto fronteiras erigidas em função de estratégias sociais de segregação não equivale, contudo, a subestimar os condicionalismos do próprio espaço. De facto, há sempre condicionalismos materiais que se impõem aos usos e apropriações do espaço. Pelo contrário, pretende-se com tal afirmação sublinhar a transformação e a complexificação dos desafios que, crescentemente, se apresentam à arquitectura. Na verdade, em virtude da progressiva articulação entre estruturas e domínios sistémicos que transcendem a ordem da interacção (Costa 1999), bem como da progressiva desmaterialização das situações de co-presença,1 as configurações espaciais revestem-se hoje de acrescidas complexidades enquanto elementos de organização do espaço, podendo tanto ser investidas do estatuto de fronteiras que proporcionam o fecha-. 1 A desmaterialização das situações de co-presença resulta da compressão espaço-tempo originada pelo desenvolvimento das tecnologias de transporte e comunicação (Giddens, 1992 [1989]).. 23.

(24) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 09/03/15 19:12 Page 24. Aldeia da Estrela. mento, quanto constituir limiares que propiciam a comunicação (Shields 1991). Torna-se claramente mais exigente, portanto, um diagnóstico do contributo das configurações espaciais na estruturação das sociedades, estruturação essa de que elas próprias, afinal, são expressão. É certo que, entre essa organização do espaço e o modo como se estrutura uma sociedade, são improváveis os nexos de causalidade directa, mas a elaboração das configurações espaciais – e, em particular, o seu contributo na transformação do património construído – não é, certamente, alheia aos processos sociais que a enredam. Já esses processos se traduzem em relações de resistência e conflito perante a materialização formal que, nas suas componentes funcionais e simbólicas, constitui frequentemente o claro sintoma do esforço no sentido de uma representação do espaço, ou seja, da imposição de uma planificação resultante de uma ideologia dominante e, portanto, indiferente à sua apropriação quotidiana e respectivos processos culturais que o definem enquanto espaço de representação (Lefebvre 2000). As cumplicidades entre o exercício de organização do espaço e a estruturação da sociedade obrigam, em suma, a rejeitar a ideia de que a própria arquitectura e o planeamento urbanístico operam algures entre o papel, a maqueta e o vazio social. Confrontados com o desafio da interdisciplinaridade, sociólogo e arquitecto são impelidos a dialogar, concedendo reciprocamente aos diferentes conhecimentos, competências e sensibilidades o papel de clarificação e reformulação das propostas delineadas no decurso de um trabalho partilhado, sem que esta reciprocidade seja alheia à divisão elementar de tarefas assente nessa diferença. Assim, o sociólogo ausculta os processos que evidenciam as referidas cumplicidades a nível do lugar de observação, necessariamente delimitado, tendo em vista o aprumo de um escrutínio dos efeitos sociais que decorrem das soluções esboçadas pelo arquitecto. Já a este caberá uma compreensão que, embora num primeiro momento impressionista, procurará, depois de sociologicamente informada, o encontro de soluções que confirmem a sua justeza propositiva dentro do quadro detectado pela análise. E, no caso do exercício interdisciplinar apresentado neste livro, em primeiro lugar, uma leitura do sítio, do território – que contém a aldeia e onde a aldeia se contém – e, ainda, de tudo para que o edificado e o espaço físico apontam, face à procura das principais linhas de crescimento e desenvolvimento do povoado. Em segundo lugar, a leitura que a sociologia forneceu dos desejos mais profundos da população, das recorrências, das faltas pressentidas, das sugestões de quem habita hoje a aldeia e imagina a construção de um futuro melhor. Por fim, a própria intuição do arquitecto, ajustada ao 24.

(25) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 25. Um exercício de interdisciplinaridade ao serviço de uma população. programa entretanto esquematizado, procurando prever, não só a localização mais apropriada às várias hipóteses em jogo, mas, sobretudo, a melhor disposição, face à análise espacial estabelecida a partir do território construído existente. O exercício de interdisciplinaridade pressupõe, com efeito, a influência recíproca entre disciplinas no sentido de uma real integração de perspectivas, disciplinas essas que, já se vê, não se circunscrevem às ciências sociais. Um primeiro exemplo de aplicação do conhecimento interdisciplinar entre a sociologia e a arquitectura foi, de facto, o estudo desenvolvido por Nuno Portas sobre as preocupações sociais da habitação (2004), estudo esse que viria a dar origem à sua tese em Arquitectura. Ao expor um exemplo de diálogo interdisciplinar, pretende este livro sobretudo corroborar o papel activo que a sociologia pode e deve assumir no exercício socialmente responsável da arquitectura. O diálogo interdisciplinar foi, na verdade, um critério decisivo no estudo e na elaboração do Plano de Pormenor que a Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA) confiou ao atelier Contemporânea Lda., no sentido de delimitar e enquadrar o desenvolvimento urbanístico da Aldeia da Estrela (EDIA/ Gestalqueva 2004). Em virtude do alagamento da terra arável, a Aldeia da Estrela confrontou-se com a drástica redução das possibilidades de acesso ao seu principal meio de subsistência – a agricultura. Aos arquitectos colocou-se então o desafio de elaborar um plano cujas propostas procurassem harmonizar de forma sustentável o parco património construído na aldeia, os modos de vida e expectativas face ao futuro da população residente, a premente necessidade de repovoamento e as recentes transformações a nível do sistema ecológico. As soluções delineadas pelo plano deveriam não apenas adequar-se à escala da aldeia, mas também anunciar ainda as possibilidades do seu crescimento físico, tendo subjacente um compromisso entre a procura turística e as oportunidades de adaptação de uma população a actividades profissionais sobretudo ligadas a este sector económico. O aproveitamento das potencialidades turísticas da aldeia e envolvente foi, com efeito, considerado um eixo estratégico no projecto de desenvolvimento da Estrela. Perante esta meta ambiciosa e delicada, revelou-se desde logo essencial auscultar uma população fortemente afectada pela subida do nível das águas após o fecho da barragem de Alqueva por duas razões fundamentais. Por um lado, um levantamento das suas condições de vida – condições essas preexistentes ao alagamento da maior parte das terras de cultivo – permitiria enquadrar objectivamente as carências e as expectativas dos estrelenses; por outro lado, a realização de um inquérito 25.

(26) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 26. Aldeia da Estrela. sociológico poderia contribuir para estimular o envolvimento da comunidade no projecto de desenvolvimento a ser delineado no Plano de Pormenor. Com efeito, para o êxito deste projecto seria sempre fundamental que a população da Estrela estivesse a par dos objectivos por ele traçados, reconhecendo os valores que se procura promover, valores de acolhimento face a visitantes e novos residentes – apelando à partilha das tradições e aos modos de vida locais –, mas também valores ambientais, consubstanciados numa redefinição do papel do agricultor – necessariamente exímio conhecedor da terra que trabalha – em «conservador da natureza» (Capucha 1996). O trabalho de investigação sociológica levado a cabo proporcionou a informação necessária para uma caracterização da vida na Estrela, permitindo um diagnóstico objectivo das implicações socioeconómicas do alagamento definitivo da terra arável. Foi precisamente este diagnóstico que constituiu a base do diálogo entre sociólogo e arquitectos no decurso da elaboração do Plano de Pormenor. No esforço de afinação das propostas delineadas pelo plano, pretendiam os arquitectos reunir os elementos essenciais a uma interpretação sociologicamente fundamentada da relação que esta população estabelece com o espaço, relação essa não apenas manifesta nos elementos materiais que o compõem – ou seja, no património construído, no traçado incerto e, dir-se-ia, espontâneo das ruas e vielas, na descontinuidade arquitectónica das casas de emigrantes temporária ou definitivamente regressados à aldeia, etc. –, mas também nos usos e apropriações da habitação, do espaço público e, em suma, da Estrela enquanto lugar impregnado de memória e dotado de sentido. Por sua vez, cabia ao sociólogo efectuar o levantamento e respectiva análise da informação fundamental ao conhecimento objectivo das condições e modos de vida de quem habita na Estrela. Deveria igualmente contribuir, partindo da sua experiência etnográfica, para a apreensão da aldeia enquanto espaço que, ficando a dever ao modo como é apropriada a sua configuração, activa, no seu uso quotidiano, o conhecimento prático e sensorial de quem o habita e percorre. Resultante assim deste esforço colectivo de heuristicidade que caracterizou o exercício interdisciplinar presente em cada etapa do processo de elaboração do Plano de ormenor, a apreensão da Estrela enquanto lugar cuja memória – enraizada nos recantos da aldeia em virtude da própria configuração do espaço e respectiva metamorfose ao longo do tempo – acalenta a identidade local e denuncia a história e a estrutura social de uma população, revelar-se-ia decisiva para definir o carácter das futuras intervenções da arquitectura, bem como os limites do cresci26.

(27) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 09/03/15 19:15 Page 27. Um exercício de interdisciplinaridade ao serviço de uma população. Figura 3 – O «Grande Lago» visto a partir do terraço de recreio da escola primária, 2004. mento urbanístico da aldeia. O plano final decorre de um cruzamento entre as espacialidades pressentidas no território e o desejo expresso pela população, cruzamento esse a que se sobrepuseram as potencialidades contidas no desenho, cujo objectivo último será antecipar-se às múltiplas variantes da vida.. 27.

(28) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 28. Aldeia da Estrela. Figura 4 – Debandada turística, depois de um dia a experimentar as águas do Alqueva, 2004. Figura 5 – Alqueva Bar: a roulotte que teve de partir quando o pequeno outeiro sombreado se transformou numa ilha, 2004 28.

(29) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 29. Manuel Graça Dias Egas José Vieira. Da certeza incerta que do acertar se acerca Retrato de um processo interdisciplinar Perante a proposta de elaborar um «plano» que criasse condições e definisse os limites para um desenvolvimento turístico «ligeiro» na Aldeia da Estrela, fomos desde logo confrontados com a geografia territorial radicalmente nova a que aquele espaço comunitário tinha sido sujeito. O primeiro passo para enfrentar esse desafio seria visitarmos o lugar, sozinhos, procurando que por ali fluísse a nossa intuição, o nosso registo acumulado da curiosidade das cidades, o nosso acervo de previsibilidades de ligação e síntese que o treino, o conhecimento e o diálogo com outras disciplinas nos têm vindo a proporcionar, enquanto arquitectos. Foi num domingo ou num sábado de Verão que, pela primeira vez, passeámos a pé pela pequenez do sítio. Captámos apenas duas fotografias, que não nos cansámos depois de divulgar, pois revelavam a «pressão» turística que a água insólita, rodeando a antiga aldeia alcandorada, atraía. Enquanto assistíamos à debandada alheia, bebemos uma cerveja numa roulotte sob uma enorme azinheira na quase ilha solta que era uma terra sombreada e redonda já muito rodeada pela água. Tornou-se para nós evidente que precisávamos de passar pelo menos um dia inteiro, um dia vulgar de semana, sem aquela presença «estrangeira», e na companhia da equipa que reuníramos para a elaboração do plano. O dono da obra, a Câmara Municipal de Moura – através da EDIA, que nos contratou como parte das contrapartidas previamente negociadas e assumidas –, havia estipulado apenas a necessidade de prever «pequenas» intervenções de apoio ao turismo que se adivinhava, evitando que na sua quimera de El Dorado, as iniciativas turísticas exercessem uma violência cega, tornando a nova pequena península irreconhecível. Temia-se, sobretudo, o que pudesse ser a violência da escala. 29.

(30) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 30. Aldeia da Estrela. Figura 6 – Primeira visita da equipa à aldeia, 2004. Figura 7 – «A aldeia estava agora vazia, recolhida, fechadas as casas que se mostravam ‘à venda’», 2004. Figura 8 – Alguns barcos de pesca atravessados nos recortes da fronteira nova, 2004. Figura 9 – Casas ao longo da rua principal da aldeia, 2004. A necessidade de trazer toda a equipa, sobretudo os engenheiros, sempre mais técnicos e práticos, prendia-se com a vontade de os sensibilizar, no enquadramento das suas especialidades – abastecimento de água, saneamento, alimentação eléctrica –, para os diversos pormenores que, em diálogo, contribuiriam para pensar noutras soluções, noutros problemas, agudizando-lhes a atenção para a complexidade do tema que nos trazia àquele lugar. Prendia-se igualmente com a intenção de lhes emprestar à sensibilidade aquele suplemento de excepcionalidade que nós próprios leváramos dessa primeiríssima visita. Precisávamos de os ter connosco; não na «obediência» cega ao que pudessem ir sendo as decisões dos arquitectos, mas numa verdadeira colaboração investida da atenção recíproca. Colaboração que surgisse então, naturalmente, através de lembranças propositadas, empenhadas, envolvidas, intencionais e capazes de acrescentar graus de justificação e razoabilidade a decisões que não se pretendiam aleatórias. 30.

(31) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 31. Da certeza incerta que do acertar se acerca. Entre os membros da equipa estaria, indubitavelmente, um jovem sociólogo recentemente admitido como professor do curso de licenciatura em Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa, onde todos trabalhávamos. Depressa o gelo se quebrara entre nós quando nos apercebemos do modo como tentava sensibilizar os novos candidatos a arquitectos, sem os massacrar, apenas lhes ajustando a capacidade de leitura do real com o apport das ciências sociais; longe da «ganga» decorada que a memória dos nossos cursos na antiga ESBAL (depois, FA/UTL) ainda fantasmava... O passeio, aldeia adentro, com toda a equipa a assistir ao dificilmente descritível, ao invulgar de toda a água impressionante do Alqueva a acercar-se do casario naquele final de Verão, irmanou o grupo de uma vontade de entregar testemunhos novos, ali, onde outro modo de actuar teria necessariamente de nascer. As conversas informais eram mais entre nós, porque a aldeia estava agora vazia, recolhida, fechadas as casas que se mostravam «à venda». Apenas um ou outro vizinho atravessando o lugar com «bons-dias» quase desconfiados – «o que quererão mais, estes, agora?» – e alguns homens à pesca nos recortes da fronteira nova. Viemos encontrar um grupo maior no bar da Associação de Moradores, verdadeiro centro de encontro possível no final da manhã quente. Águas, cafés, cervejas, e a conversa foi surgindo solta, como se estivesse ali aprisionada, dentro do bar da Associação, há muito tempo. Emigrar, sair, diziam os antigos agricultores das encostas ou pescadores do Guadiana que não compreendiam – compreendiam, claro –, a estupefacção da rapidez da mudança; as águas ontem, lá em baixo, hoje acordadas em cima, inundado os terrenos, empapando os caminhos transversais, ocultando os talvegues. «E os senhores o que vêm cá fazer?» «Um plano, para ver se isto muda, se se pode voltar a trabalhar aqui.» «Ah, isso já ninguém vai querer! Viver aqui; isto agora, só se for para os turistas!» «Por isso é necessário fazer o plano. Havemos de voltar, para conversarmos melhor, com mais calma, com todos, e perceber bem o que é que a maioria pensa...» Saímos de novo para o sol da aldeia inóspita, de casas pobres afeiadas com o dinheiro dos subsídios e das expropriações dos terrenos agora debaixo das águas; casas, apesar de tudo, alinhadas pelos ainda inteligíveis tortuosos caminhos de ir e vir, pelos espigões entrando a água; quintais rústicos e galinheiros, propriedades marcadas com pneus meio enterrados à volta. Voltámos, já tarde, ao «conforto» de Moura: um bom jantar e logo ali a discussão se iniciou. 31.

(32) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 32. Aldeia da Estrela. Dos sinais do estranho novo problema, cada «intuição» – umas mais dirigidas, as dos engenheiros, outras mais pânicas, as dos arquitectos, a do paisagista e a do sociólogo –, sentira mensagens próprias que, apropriadamente, recordava deverem fazer-se afirmar. Excitante cacofonia de desejos que se adiantavam, informados pelas suas múltiplas experiências, às decisões que tínhamos expressado (ao dono da obra) querer inquirir da população.1 Fez-se um «ponto de ordem» no meio da alegria. A arquitectura, como de costume (somos uma arte de síntese), definiria o quadro geral, onde depois as diversas especialidades se inseririam, tomando em linha de conta muito do que, com grande razoabilidade, tinha vindo a ser dito; mas, sobretudo, só depois de a «sociologia» entrar pelo terreno dentro, depois de nos fazer chegar um qualquer primeiro relatório preliminar. Nem sequer foi preciso um grande formalismo. O sociólogo, que formara uma pequena equipa, englobando uma estudante de Política Social e um estudante de Antropologia, definiu os critérios do inquérito e, com muito tacto, foi repetidas vezes à aldeia até recuperar o maior número possível de vozes, das mais participativas às mais desconfiadas ou recolhidas. À noite telefonávamo-nos. A equipa já estava num restaurante a jantar ou a assistir aos noticiários televisivos num hotel de Moura. Havia sempre novidades: «Sabiam que muitas mulheres referem o facto de lavarem os tapetes, na Páscoa, lá em baixo, no rio, e que agora, com as interdições de não sujar as águas do Alqueva, não sabem onde os poderão vir a lavar?» Ou, noutro dia, «Já percebemos a questão em relação ao novo cemitério».2 «O problema não é o cemitério, até aceitaram, de um modo geral, o processo que envolveu a transladação; o problema é a capela mortuária! A nova capela mortuária fica dentro do recinto do cemitério; são todos muito idosos e é-lhes difícil, nas noites de Inverno, galgar aquela estrada toda, a pé, para irem velar os seus familiares, parentes e amigos. Queriam 1 Os «processos participativos» não podem ser, nem acções populistas aparentemente moderadas por arquitectos desistentes ou sem vislumbre de desejo ou vontade, nem passos burocráticos obrigatórios dados por «desfastio» para cumprir calendário e processos, driblando, pelo caminho, os destinatários com as opacidades das leis e as inevitabilidades dos prazos. Para nós, sempre foi a nobre arte de ouvir e distinguir, de dialogar e perceber, de analisar e interpretar, em seguida, o que verdadeiramente se esconde sob as falas; procurar a resposta inteligente que absorva (contudo) o grosso dos desejos e das vontades expressas; procurando encontrar a qual quase certeza incerta que do acertar se acerca. 2 O novo cemitério à entrada alta da aldeia — o antigo situava-se na zona alagada — fora um processo complexo, ocorrido antes da adjudicação do plano, muito acompanhado por psicólogos, e que implicou a transladação dos corpos.. 32.

(33) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 33. Da certeza incerta que do acertar se acerca. Figura 10 – Primeiro esquema de ensaio de significação do território da Aldeia da Estrela, 2004. que lhes abrissem a igreja para os velórios, mas o padre opõe-se... daí, a relutância para com o novo cemitério». «Se arranjássemos, aqui na aldeia, perto da igreja, um espaço para uma discreta capela mortuária, esse problema já não se colocava?», perguntámos. «Exactamente!», e o sociólogo entusiasmava-se perante a facilidade com que o peso que trazia, parecia ver-se resolvido nos ecos que lhe retribuíamos. Porque, afinal, trabalhávamos em paralelo. A nossa leitura, mais ou menos intuitiva, do sítio, das gentes, dos problemas, nas confirmações ou nas desarmantes surpresas que, quer o sociólogo quer os colaboradores que com ele percorriam o terreno, completando os inquéritos, relatavam, tinham-nos, expressa ou informalmente, de tal modo motivado 33.

(34) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 34. Aldeia da Estrela. que, quando o sociólogo nos visitou no atelier para a entrega de um primeiro provisório documento, ainda «em bruto», também nós tínhamos, «para a troca», uns desenhos esquemáticos que procuravam sintetizar globalmente a informação que nos tinha sido a pouco e pouco transmitida. «Há uma coisa muito curiosa que foi repetida por diversos entrevistados: havia necessidade de garantir espaços para venda de recordações e artesanato, que não deveriam, contudo, ficar logo à entrada da aldeia. Aperceberam-se da necessidade de não sobrecarregar aquele espaço com automóveis, mas têm receio de que as pessoas de fora, os ‘turistas’, nem cheguem a ultrapassar a zona de chegada, mais então, se fizerem logo ali meia dúzia de compras. Como a estrada antiga termina, hoje, num impasse à beira da água, sugerem um percurso que leve as pessoas a circular por toda a aldeia e ninguém se quer sentir excluído desse movimento novo...» A proposta passou a incluir uma espécie de «marginal» ligeira e «paisagística» que, com origem na rua principal, herdada do caminho da cumeeira que atravessava o povoado, lhe garantiria, a partir daí, um sentido e uma «circularidade», bem como a obrigatoriedade de passar pela extrema da aldeia; serviria, também, no enrolado simpático movimento sul pelos meandros da nova costa, de apoio às diferentes ocupações que cada pontão nos pareceria poder solicitar. Este o verdadeiro entrosamento, o diálogo. O sociólogo, recordando alguns dos temas mais recorrentes dos entrevistados, «Boa! Há um senhor que viveu na Suíça e que refere que gostaria de ter um passeio ‘marginal’ ao longo desses pontões a sul, como em Genebra e em Zurique...»; nós, interpretando, nos limites da nossa disciplina, os modos, as soluções para os englobar. Mas estes diálogos não se verificaram apenas no cruzamento entre a arquitectura e a sociologia. Chamado à discussão, o paisagismo (a cargo de João Gomes da Silva, que connosco também assina o plano), perante o apontar por muitos entrevistados do desmazelo que representavam os quintais virados, agora a norte, à água («que bonito para quem andar de barco por ali!»), «inventou» os «muros transparentes». Os «muros transparentes» são uma espécie de «ovo de Colombo» que nos resolveu um dos problemas do plano. Por um lado, economicamente acessíveis, já que não passarão de sobreposições de grelhas cerâmicas para caiar, comporão mais disciplinadas traseiras por detrás do rendilhado que irão perfazendo, não se compreendendo assim tanto os acrescentos, os desastrados galinheiros, a roupa a secar, os nabais abandonados; por outro lado, 34.

(35) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 35. Da certeza incerta que do acertar se acerca. «transparentes», porque a visão, a partir de dentro dos quintais, continuará alegrada pelo brilhar da água azul, atrás desses múltiplos quadrados ou rectângulos vazados que construirão a malha miúda e serpenteante dos vários muros. Dizem que «a juventude chega aqui e não encontra coisa nenhuma», alertava-nos, noutra vez, o sociólogo. A juventude não encontrava nada a não ser o desperdício que seria o Verão, agora, com tanta água fresca em volta da aldeia e a EDIA a proibir com veemência os banhos no Alqueva. Sugerimos, então, as piscinas; duas, relativamente pequenas. Uma, coberta, permitirá a moradores ou visitantes o conforto de um interior, no tempo mais frio, mas a segunda, ao ar livre, quase mergulhada na água, fará parecer, a quem nadar, que o faz na albufeira que vê, larga, ao seu redor. A partir das várias conversas e entrevistas, separámos também os ancoradouros: um será uma «marina», para barcos de recreio como solicitado na encomenda oficial; o outro, numa «baía» ao lado, será reservado a barcos de pesca, possibilitando o crescimento de uma actividade hoje praticamente só explorada por espanhóis, mais desligados do trauma da enchente. O sociólogo, ao explicar-nos, a dado momento, que, na aldeia, «os habitantes, ainda que confrontados com o abandono dos campos e com o despovoamento», mantinham um forte vínculo de pertença, bem como «uma identidade local, produto da antiga condição generalizada de assalariados e dos laços de parentesco», e que, para além disso, se orgulhavam também da nova condição – um morador dissera-lhes, expressamente, «o problema não é a água, porque disso nós até gostamos; e a Estrela tem sido muito visitada; era uma terra que não tinha nome e agora tem nome por todo o lado, até na internet» –, acabou por nos incentivar a avançar com a ideia da «Praça da Estrela». A Praça da Estrela foi uma proposta que, desde o princípio, nos perseguira sem que tivéssemos, até então, reunido argumentos que nos dessem a certeza de não estarmos a desenhar apenas um capricho de arquitecto ou um gesto menos útil. A Praça da Estrela, à entrada, reproduzindo na sua configuração física, vista de um ponto mais alto da estrada, quase ao chegar à aldeia, o desenho de uma estrela, e reunindo algumas das funções cívicas requeridas pelo plano e pela vontade dos habitantes (postos da GNR e de turismo, sala de apoio comunitário, biblioteca), seria o primeiro momento de identificação e coincidência de uma nome que, se até havia pouco «não existia», se veria agora reforçado e alegremente cravado no novo ponto de arranque pelas novas surpresas da aldeia. Entre as «necessidades» mais referidas nas entrevistas, contava-se o pedido de um campo de futebol e de um recinto para a largada de touros. O pri35.

(36) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 36. Aldeia da Estrela. meiro contava com uma certa antipatia nossa, pela escala excessiva que semelhante estrutura, ainda que mínima, poderia trazer àquele equilíbrio tão ténue que procurávamos preservar; o segundo contava com uma certa oposição das entidades encomendadoras que não lhe adivinhavam o sentido, fora das festas anuais. Acabou por se resolver tudo a contento. O campo, desenhámo-lo para futebol de sete (45 x 25 m), numa plataforma simpática e arborizada, nas traseiras da «Pousada de Juventude», beneficiando de apoio logístico (balneários), no piso inferior do edifício e integrando-se, paisagisticamente, entre muros de pedra que serão, também, bancadas informais. O recinto para as largadas de touros é apenas um disco pétreo, cravado num dos pequenos «golfos» a sul, quase uma «praia» que alguns muros curvos de suporte e apoio depois sublinham no recorte já existente da baía. E será tanto um recinto de «touradas», como palco para concertos de Verão, como um largo eirado para bailes, como um sítio para onde se ir sozinho ver o Sol desaparecer no lago e então chorar-se, no crepúsculo, a perda de alguém, ou para tudo aquilo que a imaginação da população vier a descobrir aí poder fazer. Uma invenção misturada, portanto. Uma invenção que partiu do que existia para estabelecer o novo, o que pudesse vir responder à exigida transformação. Mas que não é ex-novo ou imposto, porque é parte do que existe. E é uma invenção misturada que não tem só configuração física. São casas, palheiros, muros, cobertos, ruínas, troços de ruas, becos, estradas antigas, completadas com outros muros, outras casas agora novas, caminhos à beira de água, equipamentos necessários, pequenas praças, travessas, jardins, continuações e ligações, claro. Mas são sobretudo pessoas; pessoas com desejos sobre aqueles espaços, pessoas com memórias daqueles espaços, pessoas com vontades para aqueles espaços; pessoas que ouvimos e para quem projectamos espaços a que possam vir fazer agarrar os desejos, as memórias, as vontades. Pessoas para quem projectamos espaços a que possam vir fazer agarrar a vida.. 36.

(37) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 37. Da certeza incerta que do acertar se acerca. Figura 11 – Habitantes da Aldeia da Estrela, 2004. 37.

(38) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 38.

(39) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 39. As partes e as secções do livro O presente livro está organizado em duas partes. A Parte I, da autoria de Rodrigo Rosa (sociólogo), expõe o trabalho de investigação sociológica sobre a população da Aldeia da Estrela, contemplando as duas primeiras secções. Na primeira secção (Aspectos fundamentais de caracterização da aldeia), são abordados alguns aspectos cruciais para uma caracterização do povoado, procedendo-se à identificação dos equipamentos colectivos, à observação da evolução populacional e do perfil social dos inquiridos, à análise de alguns dos indicadores mais significativos da vida familiar e, enfim, a uma reflexão sobre o forte sentimento de identidade que distingue a comunidade. Uma abordagem do quotidiano da Aldeia da Estrela após o fecho das comportas da barragem de Alqueva abre a segunda secção (Viver hoje na Estrela). Tem, de seguida, lugar uma análise das expectativas e atitudes da população face ao enchimento da barragem – procurando-se designadamente avaliar os significados que a água da lagoa assume –, bem como a auscultação das necessidades primordiais na perspectiva dos inquiridos. No desfecho da secção, é elaborada uma síntese e apresentado um conjunto de recomendações devidamente sustentadas pelos resultados do inquérito, recomendações essas respeitantes, ora a uma configuração do espaço envolvente e afecto à aldeia, ora aos equipamentos colectivos dignos de serem contemplados no Plano de Pormenor. A Parte II, da autoria de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira (arquitectos), dá conta do resultado do estudo, apresentando uma síntese do Plano de Pormenor elaborado para a Aldeia da Estrela, síntese essa que engloba uma leitura de enquadramento e a proposta, propriamente dita, explicitadas através de texto, esquissos, fotografias do lugar e da maqueta final, para além de algumas peças desenhadas.. 39.

(40) 00 Aldeia da Estrela Intro.qxp_Layout 1 05/03/15 10:14 Page 40. Aldeia da Estrela. Figura 12 – Indecisão entre a pastorícia e a pesca, 2004. 40.

(41) 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 41. Rodrigo Rosa. Parte I. Inquérito sociológico à população da Estrela Um espelho recortado entre montes parcialmente submersos é a imagem da lagoa imensa que define a paisagem e surpreende o percurso do caminho – desvio da estrada entre Reguengos de Monsaraz e a vila de Moura – rumo à Aldeia da Estrela. Após o encerramento das comportas da barragem de Alqueva, o vasto alagamento da terra arável veio afectar de forma considerável a Estrela, aldeia hoje situada nas margens dessa lagoa com uma superfície de 250 km2 e um perímetro de 1100 km que a subida do nível das águas originou. Ao contrário da antiga aldeia da Luz, a Estrela escapou à submersão, apesar de os estrelenses terem igualmente testemunhado o alagamento total do seu cemitério e, portanto, todo o doloroso processo de transladação dos corpos dos seus antepassados para uma nova infra-estrutura às portas do povoado. Por não ter sido alagada a aldeia, nunca se lhe colocou a alternativa de reconstrução fora das margens da lagoa de Alqueva. Contudo, a situação de proximidade com a água constitui um aspecto claramente perturbador para as populações desta região do interior alentejano, tal como o demonstra a própria preferência dos habitantes da Luz pela construção de uma nova aldeia face à hipótese inicial de construção de diques, que permitiriam manter a velha aldeia no mesmo local. São, aliás, os próprios luzenses a lamentar a situação da Estrela, hoje quase totalmente cercada pela água da lagoa (Saraiva 2003). No percurso do único acesso que permite a entrada na Aldeia da Estrela insinua-se mais profundamente essa extensa e radical transformação do espaço e da paisagem que, desde logo, suscita interrogações. Que futuro fica reservado à população da Aldeia da Estrela se o monte cercado de terra arável que viu nascer o povoado deu lugar a uma pequena pe41.

(42) 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 42. Aldeia da Estrela. Figura 13 – Estrada nas cercanias da Aldeia da Estrela, 2004. Figura 14 – Vista da aldeia sobre a lagoa de Alqueva. Aldeia da Estrela, 2004. nínsula nas margens da lagoa de Alqueva? Que significado atribuem os habitantes desta aldeia à água que apagou o campo da paisagem? Que relações identitárias estabelecem com um espaço de tal forma alterado? São interrogações tanto mais plausíveis quanto a esta transformação da 42.

(43) 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 43. Inquérito sociológico à população da Estrela. Figura 15 – Preparando uma queimada. Aldeia da Estrela, 2004. paisagem acresce o conhecido declínio da sociedade camponesa e, portanto, a perda progressiva de controlo da comunidade local sobre a sua própria economia, ambos sintomas dos problemas socioeconómicos de uma região – votada, como tantas outras, ao isolamento e ao abandono dos campos – em que a própria Estrela se insere. Os problemas sociais e económicos que, nas últimas décadas, têm afectado particularmente as zonas rurais mais isoladas não podem, na verdade, ser dissociados dos processos de produção e reconfiguração do espaço que caracterizam a dinâmica das sociedades capitalistas contemporâneas (Harvey 2001). Se a reestruturação geográfica da actividade económica é hoje um factor determinante da globalização,1 ainda num passado recente era o próprio funcionamento das economias nacionais decisivo nos processos migratórios, concentrando indústrias e serviços nos grandes centros urbanos, transformando a agricultura no sentido da mecanização e da monocultura com objectivos de mercado e, em suma, originando a dependência económica das populações do campo. Dessa dependência são suficientemente elucidativos o declínio da agricultura tradicional e o assalariamento agrícola, bem como as diversas estratégias de pluriactividade. 1. Sobretudo as nações dos países ocidentais são crescentemente confrontadas com a ameaça do desmantelamento e da deslocalização dos seus tecidos industriais para países que proporcionam mais baixos custos de produção.. 43.

(44) 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 44. Aldeia da Estrela. das famílias no campo e o êxodo rural (Sobral 1999a; Wall 1998; Almeida 1998 [1993]; Almeida 1999 [1986]; Pinto 1985). A este cenário de dependência económica à qual as condições de vida na Estrela não são, evidentemente, alheias – tal como demonstra o progressivo despovoamento da aldeia – acresce hoje o desafio resultante do alagamento da terra arável. Importa sublinhar que, para o povoado, esta foi a consequência inevitável do fecho das comportas daquela que é a maior barragem da Europa. A construção da barragem de Alqueva constitui uma componente central numa obra de vasta envergadura – o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva – que, para além da produção de energia hidroeléctrica e do regular abastecimento de água às populações, conta entre os seus principais objectivos, precisamente, o combate ao despovoamento desta região rural recuada através da dinamização dos diversos sectores de actividade, entre os quais se destaca o turismo. Ora, o Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela veio enquadrar-se nos objectivos de valorização dos recursos e redução das implicações sociais e económicas dessa súbita proximidade da água decorrente do fecho das comportas da barragem. À execução do plano colocou-se o desafio de orientar o desenvolvimento urbanístico futuro desta aldeia hoje cercada por uma mega-albufeira, desafio esse ao qual não é obviamente alheia uma responsabilidade social, ou não tivesse a concretização desta proposta implicações seja nas condições e modos de vida dos habitantes da Estrela, seja na própria revitalização da comunidade aldeã. Tendo presente essa responsabilidade social, considerou-se de importância decisiva acrescentar a sociologia à diversidade de especialidades vulgarmente implicadas na execução de um plano de pormenor (arquitectura, engenharia, paisagismo, desenho urbano). Um inquérito sociológico à população da Estrela foi então elaborado com o principal objectivo de fazer o levantamento das condições e modos de vida dos habitantes, levantamento esse fundamental ao enquadramento e à compreensão das suas atitudes e expectativas face à recente transformação do cenário que circunda a aldeia. Pretendia-se assim que as soluções delineadas viessem ao encontro das diversas necessidades impostas pelo enchimento da barragem de Alqueva a esta população, contribuindo particularmente para atenuar as tensões a que os processos de (re)apropriação do espaço aldeão estão sujeitos. A informação relevante foi captada através de um inquérito por questionário aplicado aos habitantes da Estrela. Foram inquiridos 24 homens e 34 mulheres, perfazendo um total de 58 indivíduos. A par da aplicação do questionário, os inquiridos foram também solicitados para uma entrevista, que teve por objectivo o esclarecimento e o aprofundamento de 44.

(45) 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 45. Inquérito sociológico à população da Estrela. algumas questões dificilmente captáveis através da exclusiva aplicação do questionário. A duração das entrevistas foi, contudo, muito variável, entre 30 e 120 minutos. Por outro lado, foram decisivas as reuniões informais com informantes privilegiados, sobretudo para captar alguns aspectos da história da aldeia e dos percursos dos seus habitantes. O período de recolha de dados decorreu entre Outubro e Dezembro de 2004. Embora o nosso objectivo fosse, à partida, aplicar os questionários à totalidade da população presente, o inquérito a todos os habitantes tornou-se impraticável em virtude, quer da inacessibilidade da população emigrada e apenas temporariamente residente na Estrela, quer da recusa dos demais em responder ao inquérito. A amostra reunida contempla, ainda assim, mais de metade da população.2 A grande maioria dos inquiridos é casada, contando-se somente nove pessoas solteiras, duas divorciadas e uma viúva. Mesmo que nem sempre tenha sido possível entrevistar os dois cônjuges, recolheu-se a informação necessária a uma caracterização de trinta e um casais, com ou sem filhos. Para os habitantes da Aldeia da Estrela, o fecho das comportas da barragem de Alqueva teve duas consequências imediatas. Por um lado, traduziu-se no alagamento da maior parte das terras de cultivo que possuíam ou arrendavam. Por outro lado, veio impor a esta população um contacto inédito com a água. Com efeito, quinze das trinta e uma famílias entrevistadas possuíam ou arrendavam terras entretanto alagadas. No total, a dimensão de terra submersa que era propriedade dos habitantes inquiridos ronda os 140 ha. Já mais de 300 ha de terra alagada estavam arrendados a três famílias inquiridas. À excepção de dois casos, em que a área submersa é inferior ao restante da propriedade,3 a dimensão da terra alagada é, grosso modo, bastante superior à área de terra que as famílias actualmente possuem. Duas famílias sem propriedade arável e cuja subsistência dependia do cultivo de terra arrendada hoje totalmente submersa, e uma outra família à qual resta apenas 1 dos 40 ha de terra que possuía antes da subida do nível das águas, constituem as situações mais dramáticas. Que consequências advêm desta drástica mudança na vida da população da Estrela? Como vêem os habitantes da aldeia esta transformação com profundas implicações nas suas condições de vida? Num. 2 De acordo com o recenseamento de 2001 (INE), a população residente na Estrela era de 119 indivíduos. Já em 2004, data de realização do inquérito, a população rondava os 100 indivíduos, de acordo com a informação obtida junto dos habitantes. 3 Um casal proprietário de 10,5 ha de terra possuía 3,5 ha de terra alagada; outro casal, hoje proprietário de 29 ha, arrendava 130 ha de terra alagada.. 45.

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Figura 1 – A Aldeia da Estrela antes do enchimento total da albufeira, 2002
Figura 3 – O «Grande Lago» visto a partir do terraço de recreio da escola  primária, 2004
Figura 4 – Debandada turística, depois de um dia a experimentar as águas  do Alqueva, 2004
Figura 11 – Habitantes da Aldeia da Estrela, 2004
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Referências

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