DA DECADÊNCIA À REGENERAÇÃO:
JACINTO E O PERCURSO DE AUTO-DESCOBERTA
EM A CIDADE E AS SERRAS
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM ESTUDOS PORTUGUESES INTERDISCIPLINARES
UNIVERSIDADE ABERTA
LISBOA 2007
Dissertação
de
Mestrado
apresentada à Universidade
Aberta, para a obtenção do
grau de Mestre em Estudos
Portugueses
DA DECADÊNCIA À REGENERAÇÃO:
JACINTO E O PERCURSO DE AUTO-DESCOBERTA
EM A CIDADE E AS SERRAS
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM ESTUDOS PORTUGUESES INTERDISCIPLINARES
ORIENTADORA: PROFESSORA DOUTORA ANA NASCIMENTO PIEDADE
UNIVERSIDADE ABERTA
LISBOA 2007
A relevância do bocejo – uma incursão p. 3
Introdução p. 5
Capítulo I – Eça de Queiroz e a problemática fin-de-siècle p. 11
Capítulo II – Da cidade para as serras
A – Antecedentes na obra queirosiana de A Cidade as Serras p. 19
B – Afinidades entre “Um dia de Chuva”, “Civilização”
e A Cidade e As Serras p.42
Capítulo III – A Cidade e As Serras: a relevância do bocejo como exteriorização do tédio p. 56
Conclusão: A evolução de Jacinto e o equilíbrio encontrado p. 87
Apêndice p. 93
«Melancolia» de Albert Durer
“Eu penso que o riso acabou – porque a humanidade entristeceu. E entristeceu – por causa da sua imensa civilização. (...) Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. (...) O Infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio – O Grande Civilizado.”
Eça de Queiroz, “A Decadência do riso”, in Notas Contemporâneas, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, 2000, pp.165-166.
A relevância do bocejo – Uma incursão
Por uma empatia muito especial; percorri viagens nos romances e contos de Eça de Queiroz, não só em busca de prazer, mas principalmente em busca de algo que me despertasse uma curiosidade muito especial.
Desta maneira, iniciei uma longa caminhada sempre na companhia de personagens marcantes da obra queirosiana.
Naveguei com Teodorico até à cidade Santa, Jerusalém, em busca de
A Relíquia para a sua querida Titi. Enjoei nos paquetes com Teodoro até à China em O Mandarim. Emocionei-me com os amores trágicos que envolveram o Padre Amaro e Amélia em O Crime do Padre Amaro, Luísa e Basílio em O Primo Basílio, Carlos Eduardo e Maria Eduarda em Os Maias, Vítor e Genoveva em A Tragédia da Rua das Flores. Visitei A Capital com
Artur. Entediei-me na cidade de Paris, percorri as serras de Tormes e redescobri o riso com Jacinto em A Cidade e As Serras. Descobri a Torre de Gonçalo em A Ilustre Casa de Ramires. Sonhei e viajei em Os Contos, e por fim, descansei em “Um dia de chuva”.
Com estas leituras, o meu apreço pela escrita deste autor do século XIX cresceu e foi assim que a minha peregrinação à descoberta de uma simples palavra como o “bocejo” se iniciou.
No Grande Dicionário de Língua Portuguesa encontramos o seguinte significado para a palavra “bocejo”: “abrir a boca involuntariamente como sucede ao que tem sono, tédio ou aborrecimento, ou está muito farto de comida”1; é uma necessidade fisiológica como outra qualquer, mas é principalmente, um acto inteligente2 de libertar as tensões associadas à fome, à sede, à doença, ao sono e ao que mais nos interessa, ao mal-estar inerente ao tédio e ao aborrecimento. Na verdade, o acto de bocejar pode parecer irrelevante aos olhos de muitos, todavia através de uma reflexão mais profunda, descobre-se que é analisando “quem boceja”, “como se boceja” e “o porquê do bocejo” que se percebe a facilidade como Eça trabalha a escrita, construindo de forma subtil um ambiente, uma atmosfera, uma imagem: o retrato de uma sociedade.
O levantamento do substantivo “bocejo” e dos seus derivados, tais como o verbo bocejar nas suas diversas formas, serve então de embrião para este trabalho.
1 Grande Dicionário de Língua Portuguesa, Tomo II, p. 366.
2 “E deve o leitor ter notado que são os animais mais inteligentes os que bocejam. Boceja o
homem, boceja o macaco, o cão, bocejam os carnívoros de um modo geral.”- Cruz Malpique, Psicologia do Tédio – Ensaio, Porto, Livraria Ofir, 1963, p. 133.
Introdução
Ao principiar um trabalho deste género, o problema inicial que se encontra é o da escolha do tema da dissertação. Muitas dúvidas surgiram perante a vastidão de assuntos interessantes para desenvolver numa tese de mestrado na área da Literatura Portuguesa.
Tendo em conta, não só as minhas aptidões, como também os meus gostos e interesses pessoais, avaliei a possibilidade de investigar e de aprofundar os meus conhecimentos sobre um autor, que desde sempre despertou na Literatura Portuguesa, variados interesses e controversas paixões.
pelo modo como modela as suas personagens, mas também, pelo modo como imperceptivelmente envolve os leitores nos enredos das suas obras e na sua escrita. Umas vezes subtil, outras vezes mais intensa, alternada entre o humor e a ironia, a leitura dos textos de Eça de Queiroz, proporciona deliciosos momentos de prazer a qualquer leitor.
Claramente inserido na substância cultural da sua época, Eça estabelece uma íntima relação com o século XIX, que se reflecte nas suas atitudes de pensamento e de sensibilidade. Aliás, essa harmonia com o tempo em que vive, em que dá especial atenção ao pensar e ao acontecer da sociedade contemporânea, permite-lhe ter uma aguda consciência da história. É um escritor com um espírito atento ao fluir e refluir do devir histórico, e é aqui que se revela o espírito deste grande autor que sem ser historiador, se mostra muito atento à evolução da sua época.
Foi, sem dúvida, um visionário no século XIX. Eça de Queiroz apercebeu-se das grandes problemáticas e modificações da sociedade que iriam influenciar os séculos vindouros. Actualmente, é comum ouvirem-se expressões que se referem à sociedade como “massa”, o que permite entender uma população como algo indiscriminado que pensa e que age da mesma maneira uniforme e sem criatividade; correndo-se o risco de uma despersonalização civilizacional e de uma perda de autenticidade da mesma. O problema da massificação é um problema muito actual no século XXI, mas Eça, em obras como A Cidade e As Serras ou ainda em Os Maias, refere-se subtilmente a este problema: “O sentir entediado de fim de século e a proposta” para resolver os problemas da massificação “constituem factores de grande modernidade”3 neste autor.
Estando no século XXI, século em que se menospreza cada vez mais o primordial, o essencial, e se valoriza cada vez mais uma civilização,
3 Henriqueta, Gonçalves, “A Crónica e o Romance pós 1888: Interacções”, in 150 Anos com Eça de Queirós – III Encontro Internacional de Queirosianos, São Paulo, Centro de Estudos Portugueses /Universidade de São Paulo, 1997, p. 234.
aparentemente, mais “civilizada”, aparece-nos A Cidade e As Serras4 como
antevisão de uma realidade muito actual.
A sociedade moderna tem preguiça de pensar. O mundo evolui rapidamente, a cada momento somos confrontados com novas tecnologias; as informações são veiculadas com velocidade e a sociedade, alienada com o progresso, que não pondera sobre as coisas, tem cada vez mais dificuldade em reflectir sobre as mesmas.
Pensar dá trabalho, exige prudência, discernimento e competência por parte do indivíduo.
Hoje em dia, numa sociedade onde se observa a total passividade da grande maioria dos nossos jovens, tanto nas escolas como na vida activa, prevalece a seguinte questão: quanto mais civilizados, mais passivos, mais comodistas, mais aborrecidos e por isso mais decadentes?
A ociosidade, o tédio, a melancolia, a abulia, o excesso de capacidade mental e intelectual sem concretização, são temas frequentes em Eça de Queiroz; as personagens Carlos da Maia e João de Ega em Os Maias, Jacinto e Zé Fernandes em A Cidade e As Serras e até Fradique Mendes e o narrador em A Correspondência de Fradique Mendes protagonizam e problematizam os grandes males, tipicamente fin-de-siècle, mas que também se revelam tão actuais no século XXI.
O embrião deste trabalho nasce da perplexidade e da curiosidade perante a modernidade de uma obra como A Cidade e As Serras, obra que se tornou intemporal e que se adapta a todas as épocas.
O tema da decadência da sociedade do século XIX é tema recorrente em Eça, como iremos constatar ao longo deste trabalho, e daí advém o interesse em ver como o peso da massificação se reflecte na maioria das suas obras, em observar como o tédio e o pessimismo decadentista,
4 A primeira edição deste romance é de 1901 pela Livraria Chardron de Lello e Irmão, um
existentes na época, são transmitidos ao leitor de hoje.
Sendo assim, e tendo como ponto de partida o “bocejo”, característico de uma sociedade civilizada em decadência, parte-se para o tédio, para a ociosidade e para a decadência que marca uma geração – a geração de 70 – que por sua vez, marcou todo o final do século XIX.
Este grupo de intelectuais insurgiu-se contra a ausência de um esforço da renovação ideológica e sociocultural que acompanhasse os progressos materiais que beneficiavam o país. No primeiro capítulo, veremos como esta elite, a viver nas últimas décadas do século XIX, o período da Regeneração, se destacou pelo seu desejo de intervenção e de renovação da vida política, social e cultural.
Eça, colaborando para a resolução do tema da problemática decadência, apresenta a renovação, o equilíbrio, a felicidade e a ocupação que se atinge com a ajuda da natureza, não como diminuição do problema do tédio mas como contribuição para a sua solução.
Por razões metodológicas baseadas no rigor e não, na exaustividade, seleccionou-se, entre a vasta obra de Eça de Queiroz, as seguintes obras como corpus propriamente dito do trabalho: o romance A Cidade e As
Serras sendo este texto, o núcleo propriamente dito do trabalho; o conto “Civilização”5 que constitui a génese deste romance; e o conto “Um Dia de Chuva”6, onde se encontram várias semelhanças temáticas com os outros
dois textos, como veremos mais adiante no capítulo dois deste trabalho. A delimitação do corpus do trabalho não invalida quando pertinente, o recurso a outros romances ou textos mais curtos do último Eça, tais como
Os Maias, A Ilustre Casa de Ramires, “A Perfeição”7, “A Decadência do
5 Eça de Queiroz, “Civilização” in Contos, fixação do texto e notas de Helena Cidade
Moura, vol. 9, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, s. d., pp. 65-93.
6 Eça de Queiroz, “Um dia de Chuva” in Cartas inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas, Porto, Livraria Chardron de Lello e Irmão, 1929, pp. 93-139.
7 Eça de Queiroz, “A Perfeição” in Contos, fixação do texto e notas de Helena Cidade
Riso”8, uma vez que o tema escolhido tem especial relevância nesta fase.
Através de um levantamento exaustivo da palavra “bocejo”, fio condutor deste trabalho, faz-se uma comparação entre estes três textos escolhidos como corpus, acentuando pontos comuns, mas também discrepâncias entre eles.
Encontra-se uma diversidade de palavras associadas semanticamente que permitem observar com precisão, a dicotomia existente entre a cidade e as serras; facultando também a observação de uma série de binómios associativos que se puderam desenvolver a partir desta: decadência / renovação, ociosidade / ocupação no campo das ideias, ou ainda, em termos de elementos práticos encontrados frequentemente nos textos: cinzento / verde, águas citadinas / águas correntes.
O objecto de estudo centraliza-se então, essencialmente, em “Um Dia de Chuva”, em “Civilização” e em A Cidade e As Serras por serem narrativas com evidentes perspectivas dicotómicas: decadência – regeneração / ociosidade – ocupação. Em obras como O Primo Basílio, O
Crime do Padre Amaro, A Ilustre Casa de Ramires, Os Maias, a decadência associada ao tédio também está presente; todavia não é tão evidente a perspectiva da regeneração, pelo menos não a da “suposta” regeneração resultante da contribuição da natureza e da auto – descoberta / experiência pessoal, tal como iremos observar nos textos em estudo.
O que parece em relação a O Primo Basílio, a O Crime do Padre
Amaro, a Os Maias e A Ilustre Casa de Ramires é que o tédio se associa à decadência e depois regenera-se numa perspectiva colectiva; ao contrário do que se observa em “Um Dia de Chuva”, em “Civilização” e em A Cidade e
As Serras onde a regeneração surge problematizada numa perspectiva
8 Eça de Queiroz, “A Decadência do Riso” in Notas Contemporâneas, fixação do texto e
notas de Helena Cidade Moura, vol.13, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, 2000, pp. 162-167.
individual, em função da evolução que se vai operando num determinado trajecto existencial.
Capítulo I – Eça de Queiroz e a problemática fin-de-siècle
Muito em voga em alguns países da Europa na segunda metade do século XIX e marcante na sociedade e cultura oitocentista, o tema da “Decadência”9 não passou despercebido em Portugal.
António Machado Pires, em A Ideia de Decadência da Geração de
70, refere-se a esta temática como sendo “um conceito dinâmico, linear, a fase final de uma trajectória que atingiu um auge de desenvolvimento que já
9 Decadência: “facto, processo ou resultado de decair; estado decadente (ou) aproximação
do fim, perda progressiva de poder, de esplendor, de prosperidade, de valor”, definição encontrada no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, I Vol., Lisboa, Verbo, 2001, p. 1070.
não pode manter”10; uma fase final de uma trajectória é certo, mas que
implica, como afirma Sérgio de Campos Matos, uma memória de um “passado glorioso, o contraste entre um presente de deterioração, de dissolução e mediocridade e um passado de progresso em que se evidenciavam nobres virtudes”11. E é exactamente este conceito de declínio e deterioração de uma cultura e de uma civilização que interessou particularmente a Eça de Queiroz.
Como resposta à artificialidade, à formalidade e aos exageros dum Romantismo de sentimentalidade mórbida, manifestou-se pela primeira vez uma geração com o intuito de renovar o clima das letras e a vida portuguesa, geração essa que desejava reagir contra o marasmo e mediocridade em que tinha caído o país: a Geração de 70.
Em A Ideia de Decadência da Geração de 70, António Machado Pires define esta geração como sendo “um grupo de homens, em vários momentos diversamente reunidos, para contestarem e discutirem valores culturais mais ou menos assentes”, mas que também foi “uma problemática, uma atitude mental, uma interrogação sobre a identidade nacional”, assim sendo, “falar desta geração é também abstrair dos homens e das obras e encarar uma temática comum, uma enunciação de problemas, uma definição do pensamento nacional”12. A Geração de 70 foi um grupo de amigos intelectuais que deseja intervir profundamente na modificação da sociedade de fin-de-siècle, tinha como “ideal comum de tirar o seu país do obscurantismo, do atraso intelectual e das amarras da religião”13. Com base
10 António Machado Pires, A Ideia de Decadência na Geração de 70, Ponta Delgada,
Universidade dos Açores, 1980, p. 17.
11 Sérgio de Campos Matos, “Decadência”, in Dicionário de Eça de Queiroz, 2º ed., Lisboa,
Editorial Caminho, 1993, p. 254.
12António Machado Pires, A Ideia de Decadência na Geração de 70, Ponta Delgada,
Universidade dos Açores, 1980, p. 53.
13Natália Gomes Thimóteo, “Fradique Mendes e o Ideário da «Geração de 70»”, in Congresso de Estudos Queirosianos – IV Encontro Internacional de Queirosianos – Actas, II Volume, Coimbra, Almedina, 2000, p. 831.
na reivindicação da autonomia e da liberdade intelectual, numa fase mais madura, desenhou com maior nitidez, os contornos do que seria o Realismo em Portugal, embora este não se identificasse com os postulados do Realismo defendido pela escola francesa.
Unido a Eça pelo irremediável desencanto do fin-de-siècle, Oliveira Martins, observa o fenómeno literário da decadência como sendo “a expressão sintética mais eloquente do estado mental colectivo” que corresponde ao estado mental da própria geração de 70, da qual também faz parte, verificando que este estado é, no final do século XIX, o “espelho do desgosto profundo, da melancolia invencível que por toda esta Europa invadem os que raciocinam, pensam ou sentem a vida”14. Um sentimento pessimista que se difunde por toda a sociedade portuguesa e que é bem visível e notório em toda a obra de Eça, tal como afirma Sérgio de Campos Matos15, a decadência é um dos temas mais explicitados e desenvolvidos em Eça de Queiroz.
Apesar de não ter participado nos debates de ideias de 1865, Eça respirou no ambiente espiritual dessa época; numa nova manifestação em que os cidadãos podiam reflectir inteligentemente na promoção da agitação intelectual, “As Conferências Democráticas do Casino” abriram espaço a uma nova era de convulsões sociais e de debates ideológicos, “O realismo como nova expressão da arte” é o resultado dessa influência. A proposta de Eça era que a literatura se inspirasse na mesma ideia de Revolução que se impunha no domínio da ciência, da política, e da vida social.
Sob a influência do Cenáculo16 – “grupo de intelectuais que tentam preencher um vazio cultural e criar condições para um debate de ideias de
14 Oliveira Martins, “Pessimismo” in Obras Completas – O Repórter, Lisboa, 1957, p. 141. 15 Sérgio de Campos Matos, “Decadência”, in Dicionário de Eça de Queiroz, 2º ed., Lisboa,
Editorial Caminho, 1993, p. 254 – 261.
16No Cenáculo, temos nomes como Antero de Quental, Eça de Queiroz, Batalha Reis,
Germano Vieira de Meireles, Salomão Sáraga, Manuel de Arriaga, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.
teor eminentemente europeizante e modernizador”17 – e da figura
proeminente de Antero de Quental, Eça, depois de se consciencializar das transformações, das limitações e das fraquezas da sociedade portuguesa, ataca então, o estado das letras nacionais e propõe uma nova arte, uma arte revolucionária, uma arte que agisse como regeneradora da consciência social que pintasse o real sem floreados. Contra uma literatura enervante e empobrecedora, defendia uma pintura objectiva, analítica e rigorosa do real, a procura da verdade sem idealizações deformadoras nem indiscretas expansões de sentimento individual. A ideia de realismo para Eça, nesta conferência, “é uma base filosófica para todas as concepções do espírito, uma lei, uma carta de guia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região artística do belo, do bom e do justo. (…) o realismo (…) é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático, e do piegas. É a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o realismo é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade”18.
Para Eça, só uma arte que mostrasse efectivamente como era a realidade, mesmo que isso implicasse entrar em campos sórdidos, poderia fazer diagnóstico do meio social, com vista à sua cura. Assim, reagia contra o espírito da arte pela arte, visando mostrar os problemas morais e assim contribuir para aperfeiçoar a sociedade.
17 Carlos Reis, (org.), As Conferências do Casino, Lisboa, Publicações Alfa, 1990, p. 12. 18 Carlos Reis, (org.), As Conferências do Casino, Lisboa, Publicações Alfa, 1990, pp.
Com a publicação d’ O Crime do Padre Amaro19, observa-se a implantação efectiva do Realismo em Portugal, seguida dois anos mais tarde, d’O Primo Basílio20; uma minuciosa observação e análise dos tipos sociais, físicos e psicológicos são a base dos métodos de narração e descrição que os caracterizam; factores como o meio, a educação e a hereditariedade aparecem então, a determinarem o carácter moral das personagens. São romances que têm afinidade com os romances de Émile Zola21, com o intuito de crítica de costumes e reforma social. António Machado Pires n’ A Ideia de Decadência da Geração de 70 reforça esta ideia, “o Realismo pressupõe para o criador literário a atitude do espírito científico que procede por observação dos factos e indução de leis: reflecte a preocupação positivista de dar a dimensão da «realidade», das «coisas», do quotidiano, do sensível, sempre com base numa observação documentada. A «matéria-prima» da obra literária é o facto verificado, é o documento humano e social estudado tal como procede a ciência no laboratório. Quando os processos se deixam de todo contaminar pelo rigor do método de observação das ciências naturais e se faz da obra literária ilustração de teses científicas, então estamos perante o Naturalismo”22.
A polémica e a oposição entre o Realismo e o Romantismo estalam definitivamente; Eça é apontado como o autor que introduz este movimento
19 O Crime do Padre Amaro foi publicado pela primeira vez em romance em1876, todavia
em 1875, entre Fevereiro e Maio, foi publicado uma primeira versão na Revista Ocidental, sem o consentimento de Eça que queria ainda rever e refundir as provas finais.
20 A primeira edição d’ O Primo Basílio foi publicada pela editora Chardron do Porto em
1878, tendo Eça redigido este romance aquando da sua estadia em Newcastle. Nesse mesmo ano, foi lançada a segunda edição, visto os 3000 exemplares da primeira terem esgotado rapidamente.
14 Temos por exemplo Germinal de Émile Zola, publicado em 1885, e que é um símbolo do
romance político na literatura francesa, trata de temas sensíveis tais como a questão social – da luta entre as classes.
15 António Machado Pires, A Ideia de Decadência na Geração de 70, Ponta Delgada,
no país, sendo o romance social, psicológico e de tese, a principal forma de expressão. O romance deixa de ser apenas distracção e torna-se meio de crítica a instituições, à hipocrisia burguesa (avareza, inveja, usura), à vida urbana (tensões sociais, económicas, políticas), à religião e à sociedade, interessando-se pela análise social, pela representação da realidade circundante, do sofrimento, da corrupção e do vício. A escravatura, o racismo e a sexualidade são retratados com uma linguagem clara e directa.
Por volta de 1890, o Realismo/Naturalismo tinha perdido o seu ímpeto em Portugal. Neste final de século, o avanço da ciência abria perspectivas sobre a complexidade do universo; a luz da ciência, à medida que se erguia, revelava cada vez melhor a imensidão dos problemas e o carácter provisório dos resultados. As certezas positivistas eram abaladas pelas descobertas feitas sobretudo no domínio da física e das matemáticas. Procuravam-se respostas para as inquietações do espírito, fora da ciência. A esta despromoção da ciência vinha associar-se um desgosto da sociedade da época, pela prodigiosa transformação que advinha do progresso técnico. Os progressos não atingiam os mais desfavorecidos, servia apenas para acentuar de forma mais clamorosa, as desigualdades e injustiças sociais.
Por outro lado, a civilização moderna, uniformizadora e descaracterizadora, aparecia aos espíritos requintados como uma detestável ameaça de vulgaridade e monotonia. O excesso de cultura acumulada, despertavam o sentimento de que nada havia a dizer de original e de novo.
Este desgosto da hipercivilização, sentimento tão característico de
fin-de-siècle:
“ [E]xpressão francesa porque a pátria original desse fenómeno foi a França, mais rigorosamente Paris, caracteriza-se por um conjunto de manifestações: quebra de preconceitos, avidez no gozo, pôr a nu os instintos, modas aberrantes que se imitam servilmente, desejo de experimentar sensações novas, nervosismo até à perversão. É uma disposição de espírito, uma atitude perante a vida, o fruto de uma sentida impotência que se
vinga em exibicionismos aberrantes, de uma consciência de abatimento que é a decadência senil de uma sociedade, como «le déséspoir impuissant d’un malade chronique qui, au milieu d ela nature exuberante et étérnelle, se sent peu à peu mourir». «Fin de siècle» que (…) deveria ser chamado «Fin de race»”23
marca, como se irá observar, muitas páginas de Eça de Queiroz, na última fase da sua carreira. A Literatura reflecte a rejeição do positivismo e do cientismo; o mistério, o sobrenatural, o maravilhoso, atraem cada vez mais os espíritos da época; perante as náuseas que lhe causam o realismo, o herói “decadentista” toma uma atitude de excentricidade mórbida e adopta uma postura dândi, de narcisismo exacerbado.
Em 1893, o próprio Eça observa o declínio do realismo/naturalismo e declara-o morto em “ Positivismo e Idealismo” nas Notas Contemporâneas: “o romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria). (…) A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação (…)”.24 Embora se limite a descrever, como puro observador, o movimento a que assiste, e o situe apenas na “geração nova”, no final do artigo, propunha como esperança para o homem futuro, uma fórmula conciliatória ente a razão e a imaginação; a verdade é que a simpatia de Eça foge irresistivelmente, para a segunda. A sua fé naturalista apresenta-se fortemente abalada:
“o positivismo científico, porém, considerou a imaginação como sua concubina comprometedora, de quem urgia separar o homem: - e apenas se apossou dele, expulsou duramente a pobre e gentil imaginação, fechou o homem num laboratório a sós com a sua esposa clara e fria, a razão. O resultado é que o homem recomeçou a aborrecer-se monumentalmente e a suspirar por aquela outra companheira tão alegre, tão inventiva, tão cheia de graça e de luminosos ímpetos,
23 António Machado Pires, A Ideia de Decadência na Geração de 70, Ponta Delgada,
Universidade dos Açores, 1980, p. 111.
24 Eça de Queiroz, “Positivismo e Idealismo”, in Notas Contemporâneas, Lisboa, Edição
que de longe lhe acenava ainda, lhe apontava para os céus da poesia e da metafísica, onde ambos tinham tentado voos tão deslumbrantes. E um dia não se contém, arromba a porta do laboratório, (…) e corre aos braços da imaginação, com quem larga a vaguear de novo pelas maravilhosas regiões do sonho, do mito e do símbolo.”25
De modo inegável, existe na obra de Eça de Queiroz o sentir a História, não se trata de fazer história mas sim de demonstrar com veracidade e o mais perto do real, as cenas da vida quotidiana e os hábitos das personagens. Eça desperta para a vida literária sob o signo do Romantismo, que o marcará toda a vida, se não participou nos debates de ideias contra Castilho em 1865, como já foi referido, acusou fortes influências desta mesma. Parece controverso, no entanto, convém ter sempre em mente que o Romantismo e Realismo não são correntes literárias que se sucedem rigidamente no tempo, vão-se misturando uma na outra, coexistindo numa complexidade que cabe aos intelectuais da época definirem.
Assim, Eça parece reflectir na sua obra o duplo pendor do século, que em certa medida parece corresponder a exigências íntimas da sua natureza, a literatura será uma busca incessante de beleza, mas também um relevante instrumento de intervenção de um julgamento moral sobre a vida e homens da sociedade do século XIX.
25 Eça de Queiroz, “Positivismo e Idealismo”, in Notas Contemporâneas, Lisboa, Edição
Capítulo II – Da cidade para as serras
A.
Antecedentes na obra queirosiana de A Cidade e As
Serras
O tédio, “sentimento que a par da angústia parece traduzir vazio de sentido, de razão, do valor do tempo (...) comparável, em muitos aspectos, a uma pardacenta impressão de nojo e de enfastiamento”26 é um tema perene em Literatura e ocupa um lugar proeminente na obra queirosiana.
26 Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, vol. 5, Lisboa/São Paulo, Verbo, s.d.,
O Realismo compraz-se em envolver as suas personagens numa capa de tédio – sentimento que os realistas não desprezaram porque faz parte da vida; a sua exploração foi uma das tarefas do Romantismo e, como tal, não merecia ser renegado por aqueles, que nas suas intenções estéticas e morais se julgavam mais argutos que os seus predecessores; lembremo-nos, por exemplo, de algumas personagens queirosianas. Jacinto em “Civilização” e em A Cidade e As Serras sofre pesadamente do tédio do ócio. A fartura excessiva e o acumular, de bens materiais e acessórios não permitem uma actividade mental adequada, tal como refere António Sérgio em “Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na obra novelística de Queirós”, acrescentando que Jacinto “não sofre de fartura (…) sofre do tédio do viver ocioso; sofre do aborrecimento da incriação mental”27, por isso com diz António Sérgio, ao chegar às serras não é o espaço que regenera Jacinto mas sim a actividade física e mental. Carlos da Maia e João de Ega em Os Maias não fogem, nem ao acumular de bens e noções, nem à inactividade mental “passaram toda a vida na mais pura inércia, em desocupação perfeita, na plenitude do ócio, como náufragos incapazes para o verdadeiro esforço, para a verdadeira acção – que é o esforço mental, que é a acção mental”28. Até Ulisses, em “A Perfeição”29, sofre de tédio por viver numa ilha perfeita sem ter ocupação mental e física. Ao querer sair da ilha, Ulisses deseja poder resolver o problema das “coisas imperfeitas”.
Eça toma uma atitude pedagógica, seguindo as correntes reformistas e de índole social, problematiza questões de âmbito colectivo e observadas no quotidiano dos leitores que esperava reeducar; a crítica à
27 António Sérgio, “Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na
obra novelística de Queirós”, in Ensaios VI, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1980, p.67.
28 António Sérgio, “Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na
obra novelística de Queirós”, p. 101.
29 A palavra “bocejo” não se encontra no conto “A Perfeição”, todavia o tema do tédio é
sociedade serve para esta se educar, corrigindo-se e redimindo-se dos erros do passado. Eça não podia ser outro que um revolucionário que denunciava e criticava, nas suas obras, os defeitos de um Portugal decadente, na medida em que começa “a escrever quando o realismo entrava em luta com o romantismo”, pertence “a uma geração que se viu na contingência de abalar, política e intelectualmente, o velho Portugal”30 como refere Lúcia Pereira em “Eça de Queirós visto através das suas cartas”, mais adiante esta autora acrescenta ainda “(...) [o] seu amor a Portugal, (…) [fazia Eça meter o país] a ridículo, denunciava-lhe sem piedade todas as fraquezas, justamente porque o amava e se revoltava não o ver como queria, respeitado e audaz”31. Em “Civilização”, conto publicado na Gazeta do Rio de Janeiro entre 16 e 23 de Outubro de 1892, somente coligido em 1902 por Luís de Magalhães em Contos, verifica-se que o tédio faz parte integrante da vida da personagem Jacinto, como também da sociedade em geral do final do século, por isso é importante aprofundar esta temática para melhor perceber a sua essência e a relevância nas obras em estudo.
Convém desde logo ter a noção que o tédio assalta o homem essencialmente por três motivos:
- por este não ter nada que fazer ou porque quando tem o que fazer, a actividade em causa não lhe agrada
- pela monotonia dos actos rotineiros - falta de interesse por aquilo que o rodeia
As raízes do tédio que provém quase sempre da desocupação, vão dar à ociosidade, a falta de ocupação mental ou física é então, o grande motor que faz desenvolver o tédio.
Para o entediado, nada tem sabor, tudo é insípido; a presença
30 Lúcia Miguel Pereira, “Eça de Queirós visto através das suas cartas”, in Livro do Centenário de Eça de Queirós, Lisboa/ Rio, Edição Dois Mundos, 1945, p. 265.
31 Lúcia Miguel Pereira, “Eça de Queirós visto através das suas cartas”, in Livro do Centenário de Eça de Queirós, Lisboa/ Rio, Edição Dois Mundos, 1945, p. 269.
do tédio não implica falta de saúde física e, como exemplo, temos o caso concreto de Jacinto que, como veremos adiante mais em pormenor, num estado perfeito de saúde sofre pesadamente de fastio e de aborrecimento.
Ao iniciar a leitura do conto “Civilização” deparamo-nos logo nos dois primeiros parágrafos com o levantar do véu da problemática central do texto “ três, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo, cavo e lento, passando os dedos finos sobres as faces, como se nelas só palpasse palidez e ruína. Porquê?”32.
A caracterização passada da personagem serve para qualificar a situação actual da mesma. A simbologia da nascença “desde o berço”, a referência à mãe de Jacinto “senhora gorda e crédula de Trás-os-Montes”, quase se confunde com a própria natureza, as indicações sobre a saúde de Jacinto “mais resistente e são que um pinheiro das dunas”, também inevitavelmente associadas à natureza, são todas associações ao estado mais puro do ser humano. Jacinto incorpora, sem dúvida, a natureza forte, robusta e feliz, por ter raízes numa progenitora não corrompida pelas influências da evolução, representando inicialmente a utopia do ser humano feliz, genuíno e puro:
“ Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-Montes, espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fora sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas pedaços lustrosos de um céu de Verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de champanhe gelado, mais doçura e facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto.”33
32 Eça de Queiroz, “Civilização” in Contos, fixação do texto e notas de Helena Cidade
Moura, vol. 9, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, s. d., pp. 67-68.
No entanto, na sequência do segundo parágrafo do conto “Civilização”, é visível que as influências exteriores do progresso vão crescendo, afastando progressivamente Jacinto do seu estádio natural. O saber que provém da civilização, aqui na sua vertente mais intelectual associado directamente ao conhecimento, opõe-se à natureza – saudável e inocente – do ser humano. Jacinto, personagem que desde o nascimento tem todas as condições para ser feliz, alimenta-se de leituras pessimistas, como podemos observar desde o início do conto “já se vinha repastando de Schopenhauer, do «Ecclesiastes», de outros pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento”34, afastando-se cada vez mais da natureza e caminhando progressivamente para a negatividade e tédio da vida. É de salientar que o bocejo é, sem sombra de dúvida, a exteriorização de alguma crise que emana da alma da personagem, podendo mesmo dizer-se que o bocejo e o tédio têm o mesmo laço inseparável que um filho e a sua mãe.
Na obra queirosiana, existem outras personagens com as mesmas características que definem Jacinto. Observemos por exemplo, Carlos da Maia, em Os Maias35. Esta personagem tem também fortes raízes rurais que advém do seu avô paterno, Afonso, personagem conservadora e religiosa. Com a morte de Pedro da Maia, Carlos é conduzido para fora da cidade para a quinta de Santa Olávia no Douro para aí ser educado e criado. As raízes de Afonso da Maia alimentam-se da água da quinta de Santa Olávia, símbolo da fertilidade da terra onde abundam “águas vivas, nascentes, repuxos”, a energia que retira dela é uma “viva tonificação”, que lhe permitiu “vir ao mundo sem uma dor e sem uma doença”. A quinta de Santa Olávia é, sem dúvida, um espaço natural com
34 Eça de Queiroz, “Civilização” in Contos, fixação do texto e notas de Helena Cidade
Moura, vol. 9, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, s. d.,pp. 67-68.
35 Eça de Queiroz, Os Maias – Episódios da vida romântica, fixação de texto e notas de
uma conotação muito positiva que simboliza um local de purificação. A água que nasce neste local é fonte de vida e providencia a regeneração do espírito. As raízes da família da Maia procuram nas águas purificadoras, novas energias. Esta é a força energética que Afonso da Maia transmite ao seu neto Carlos, que o torna um rapaz alegre, “são” e “rijo”. Mas será suficiente?
“Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela idade, de Verão ou de Inverno, ao romper do Sol, estava de pé, saindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era um grande mergulho na água fria. Sempre tivera o amor supersticioso da água; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem – que o sabor de água, som de água e vista de água. O que o prendera mais a Santa Olávia fora a sua grande riqueza de águas vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espelhar de águas paradas, fresco murmúrio de águas regantes... E a esta viva tonificação da água atribuía ele o de ter vindo assim, desde o começo do século, sem uma dor e sem uma doença, mantendo a rica tradição de saúde da sua família, duro, resistente aos desgostos e anos – que passavam por ele, tão em vão como passavam em vão, pelos seus robles de Santa Olávia, anos e vendavais.”36
De regresso à cidade37 de Lisboa, ao voltar ao Ramalhete, Carlos é tal como Jacinto subjugado pela civilização e deixa-se corromper pela facilidade que os progressos da vida moderna proporcionam, vida essencialmente supérflua, fútil, que o meio lisboeta torna ainda mais vã,
36 Eça de Queiroz, Os Maias – Episódios da vida romântica, pp. 11-12.
37 Cidade – “É na cidade que se encontra a expressão concentrada de vida urbana que
também decorre em aglomerados menores, enquanto a vida rural, se processa no campo, na aldeia ou na dispersão do habitat, até ao limite da desertificação. A cidade constitui estrutura dependente do campo, donde recebe bens agrários para consumo quotidiano mas oferece estímulos de troca ao proporcionar a polarização dos processos de socialização e de desenvolvimento. O campo pode manter-se autónomo, bastando-se a si próprio no essencial, mesmo em produtos industriais do seu artesanato.” Polis Enciclopédia Verbo da
incapaz de se equiparar a outras cidades ocidentais, tais como Paris ou Londres, identificando-se mais com a vida de uma aldeia de grande dimensão.
Finalizados os estudos, Carlos volta para Lisboa cheio de grandiosos planos para praticar medicina, todavia depressa sucumbe à inactividade; assim, e apesar das boas intenções, Carlos vê-se sem ocupação, cheio de tédio e boceja: “[o] seu gabinete, no consultório, dormia numa paz tépida entre os espessos veludos escuros, na penumbra que faziam os estores de seda verde corridos. (...) E Carlos – exactamente como o criado que, na ociosidade da antecâmara, dormitava sob o “Diário de Notícias”, acaçapado na banqueta – acendia um cigarro “Laferme”, tomava uma revista, e estendia-se no divã. A prosa, porém, dos artigos estava como embebida do tédio moroso do gabinete: bem depressa bocejava (...)”38.
Carlos da Maia é, de facto, um diletante, que se interessa por inúmeras coisas tais como a medicina, a literatura, os cavalos, as armas, o que o levará à dispersão no seu comportamento, e redundará na ausência da realização de todos os seus projectos, não consegue, de modo algum fixar-se num só projecto com o objectivo de metódica e sistematicamente o concretizar e finalizar. Inactividade, incapacidade de acção útil ou diletantismo, que Eça não deixa de criticar, como veremos mais adiante em relação a Fradique Mendes. Na realidade, Carlos da Maia é influenciado por dois factores determinantes: por um lado, a hereditariedade, que transparece na sua beleza física e no seu requintado e exacerbado gosto pelo luxo, e por outro lado, o meio em que se insere, pois, apesar do seu programa educacional à inglesa e da sua cultura, que o tornará, uma personagem nitidamente superior ao contexto sociocultural que o envolve,
38 Eça de Queiroz, Os Maias – Episódios da vida romântica, fixação do texto e notas de
Carlos será absorvido pela inércia e apatia em que se insere o Portugal da época.
No final desta obra, Carlos da Maia, tal como João da Ega, acabam por assumir que falharam na vida. De facto, a ociosidade crónica da sociedade portuguesa acaba por contagiar as personagens, levando-os a viver para a satisfação do prazer dos sentidos e a renunciar à actividade física e aos projectos que os dominavam, aquando da sua chegada à capital lisboeta. Carlos pode assim simbolizar em Os Maias, a incapacidade de regeneração de Portugal a que se propusera a própria geração de 70.
Este protagonista adopta o culto da sua imagem, numa pura atitude de dândi, valorizando naturalmente este tipo social. Encontramos um dandismo que se revela não só pelo narcisismo que se alia a um prazer exagerado pela opulência, como através de uma auto-marginalização voluntária em relação à sociedade, motivada pelo cepticismo e pela consciência do absurdo e do vazio que governa o seu mundo e o mundo daqueles que o rodeiam.
O dandismo, na sua forma exacerbada e generalizada de narcisismo, pode ser considerado um fenómeno histórico-social da época. Orlando Grossegesse define o dândi da seguinte forma “O dândi representa a figura heróica que empreende a última tentativa já desesperada de criar valores autênticos que sejam eximidos do nivelamento na sociedade burguesa.” O mesmo autor acrescenta ainda que “consciente da futilidade deste objectivo, o dândi provoca sem forma subversiva, adopta impassivelmente opiniões e posições contraditórias e é, no fundo, idêntico às diversas máscaras que lhe deveriam outorgar aquela unidade e excepcionalidade individual que de facto perdeu.”39
O poeta Charles Baudelaire é sem dúvida, o escritor que
39Orlando, Grossegesse, “Dandismo” in Dicionário de Eça de Queiroz, 2ª ed., Lisboa,
melhor define, face às sociedades burguesas da época, a atitude e postura antiutilitária e aristocrática do dândi. Este pensador valoriza em diversos poemas este tipo social; observemos como exemplo o poema “Mon coeur mis à nu”40. Nesta recolha de pensamentos e reflexões, Baudelaire provoca o leitor, testemunhando num tom provocatório a sua paixão pelo dandismo, e valorizando este tipo social e histórico da época; “la femme est le contraire du dandy. Donc elle doit faire horreur. La femme a faim, et elle veut manger; soif, et elle veut boire. (…) la femme est naturelle, c’est-à-dire abominable. Aussi est-elle toujours vulgaire, c’est-à-c’est-à-dire le contraire du dandy. (…) Éternelle superiorité du Dandy. (…) Un Dandy ne fait rien. Vous figurez-vous un dandy parlant au peuple, excepté pour le bafouer.”
Em Eça de Queiroz, a personagem que melhor exemplifica o dandismo é Carlos Fradique Mendes, em A Correspondência de Fradique
Mendes.
Nesta obra de Eça de Queiroz, Fradique é descrito com admiração pelo narrador que lança sobre ele um olhar seduzido e pormenorizado como se pode observar na seguinte citação: “[t]razia uma quinzena solta, de uma fazenda preta e macia, igual à das calças que caíam sem um vinco: o colete de linho branco fechava por botões de coral pálido: e o laço da gravata de cetim negro, dando relevo à altura espelhada dos colarinhos quebrados, oferecia a perfeição”41. A imagem que o narrador vai
construindo beira o excessivo. Fradique Mendes é caracterizado como um homem maduro, esplêndido, que se destaca pelo seu visual cuidado e excêntrico. O diletantismo, exercido por esta personagem, faz dele um ser
65Charles Baudelaire, “Mon coeur mis à nu”, in L’Enyclopédie de l’Agora,
http://agora.qc.ca/reftext.nsf/Documents/Charles-Pierre_Baudelaire--Mon_coeur_mis_a_nu_par_Charles-Baudelaire, copiado de Écrits Intimes, organização Jacques Crépet e introdução Jean-Paul Sartre, Paris, Les Éditions du Point du Jour, 1946, pp. 41-79.
41 Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes, fixação do texto e notas de
superior; por um lado, por ser capaz de simular uma diversidade de identidades e, por outro lado, por saber beber na variedade de opiniões como “a abelha, de cada planta pacientemente extraindo o seu mel: - quero dizer, de cada opinião recolhendo essa «parcela de verdade»”, ao contrário do diletante que “corre entre as ideias e os factos como as borboletas correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo”42.
No entanto, o diletantismo praticado por Carlos Fradique Mendes é bem diferente do que existe em A Cidade e As Serras, visto que não sucumbe à passividade e ao pessimismo tal como sucede a Jacinto. Fradique está sempre alegre, bem vestido, de bem com a vida, robusto e radiante, enquanto Jacinto se vai esvaziando sob o peso da civilização. O protagonista de A Correspondência de Fradique Mendes é descrito como um mancebo, um jovem soberbamente viril e magnífico, no entanto, entediado com a monotonia de uma existência de uma vida sem grandes realizações, ele está sempre em busca de algo novo que o despertasse para à vida plena e feliz. A busca de novidade também é excessiva e excêntrica como se pode observar quando Fradique recebe “como sempre” uma comunicação da alfândega porque “tinha lá encalhado um caixote, contendo uma múmia egípcia”43.
Fradique Mendes é um dândi por excelência, erra pelo mundo em busca de aventuras, conhece diferentes culturas mas fixa-se essencialmente em Paris e Londres, visitando regularmente a pátria. No entanto Lisboa só lhe interessava enquanto paisagem já que estava marcada pela imitação francesa como ele mesmo dizia “Lisboa é uma cidade
traduzida do francês em calão”44. Deste modo, esta personagem demonstra de forma subtil a decadência de Portugal, há um certo saudosismo e desejo
42 Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes, p. 69. 43 Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes p. 25. 44 Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes p. 80.
de que Portugal pudesse voltar a recuperar a originalidade da cultura portuguesa. Constatando estas mudanças ocorridas na sua querida pátria, Fradique Mendes mergulha no pessimismo perante a vida que o faz concluir que “não há nada a fazer”45 senão deixar-se ir.
Carlos Fradique Mendes eterniza-se como o dândi perfeito até à morte; morre literalmente por não se submeter e se recusar a aceitar a uniformidade da sociedade burguesa. No episódio da troca da casaca, Fradique Mendes recusa-se a vestir a casaca do general Terran-d’Azy, não permitindo ou possibilitando uma possível troca de identidade, ficando assim gravemente doente com uma “forma raríssima de pleuris” contraída nessa noite, e tão rapidamente morre, morte que no texto se descreve com a sugestiva expressão “tinha vivido”46.
Em A Ilustre Casa de Ramires47, Gonçalo Ramires busca na tradição, associado ao Portugal rural, a energia necessária para suplantar a decadência em que se encontra a família Ramires. Neste romance, o campo adquire uma nova dimensão permitindo ao espírito de Gonçalo caminhar para a regeneração. A falta de dinheiro é o problema central da vida de Gonçalo Ramires no entanto, ao partir para África onde vai enriquecer graças ao seu trabalho na terra, consegue alcançar a sua própria regeneração e a do nome da família Ramires, tornando-se deste modo, digno dos seus antepassados.
No final desta obra, Gonçalo, de regresso à sua Torre, símbolo do passado glorioso, situada na margem esquerda do rio Douro, entre as
45 Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes p. 94. 46 Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes, p. 95.
47 Eça de Queiroz, A Ilustre Casa de Ramires, fixação do texto e notas de Helena Cidade
Moura, vol. 6, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, 2003. Este romance começou a ser publicado, ao longo de 20 números, a 20 de Novembro de 1897, na Revista Moderna; Helena Cidade Moura escreve na nota final desta edição “[A] Casa de Ramires que levou sete anos a transformar-se em livro. A Ilustre Casa de Ramires teve uma longa gestação, de que ficaram marcas entre os papéis do escritor (…). Enfim uma longa elaboração, uma longa documentação, que atestam a preocupação de verdade, de perfeição da parte do escritor.” p. 364.
colinas e águas purificadoras, é comparado por Eça, a Portugal com todas as suas qualidades e defeitos.
No conto “A Perfeição”48, a necessidade de encontrar um equilíbrio é bem visível. Ulisses, na ilha de Ogígia “numa escura e pesada tristeza”, sofre claramente de um tédio por excesso… Excesso de algo que a humanidade, ao longo dos tempos, tenta alcançar – a perfeição. Neste caso preciso, a perfeição na ilha de Calipso, equivale a uma total inactividade física e mental por parte do herói, e ao contrário do que se poderia imaginar, Ulisses quando atinge a plenitude daquilo que é perfeito sem se preocupar, e convém reforçar a ideia de preocupação (pré-ocupação) com o que deve comer ou beber, perdendo mesmo esses desejos primários, “repercorria sem curiosidade os sabidos caminhos da ilha”, aborrecendo-se de tédio por causa da “serenidade sublime” existente na ilha.
Segundo Maria Eduarda Pereira em “Condições de Ficção Literária: A Propósito de «José Matias» e «A Perfeição»”49, Ulisses quer voltar a sentir como um homem, quer renunciar à imortalidade, quer voltar a amar, anseia pelo trabalho e pelo prazer que daí advém para poder, novamente, dar sentido à sua existência. A perfeição, existente na ilha, deixa este herói lânguido na ociosidade. A falta de ocupação do corpo e do espírito fazem-no desejar o que é incompleto e imperfeito, a alma de Ulisses “arde no desejo do que se deforma e se suja, e se espedaça, e se corrompe”50, ansiando regressar para junto de Penélope por não suportar
48 O conto “A Perfeição” foi publicado no primeiro número da Revista Moderna no Porto, a
15 de Maio de 1897, posteriormente incluído em 1902, por Luís de Magalhães na colectânea Contos.
49 Maria Eduarda Vassalo Pereira, “Condições de Ficção Literária: A Propósito de «José
Matias» e «A Perfeição»”, in 150 anos com Eça de Queiroz – III Encontro Internacional de
Queirosianos, São Paulo, Centro de Estudos Portugueses/Universidade de São Paulo, 1997, p. 365.
50 Eça de Queiroz, “A Perfeição” in Contos, fixação do texto e notas de Helena Cidade
mais a perfeição, Ulisses quer “(…) voltar a uma humana Penélope que [ele] mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos onde antes, como o lume se nutre dos ventos contrários”51.
Apesar de não bocejar em nenhuma parte do conto, percebe-se o quanto o tédio ocioso é relevante, pode assim dizer-se, que o tédio encontra-se no excesso da perfeição. O homem procura atingir a perfeição mas não a pode – e nem a deve – alcançar completamente; é uma característica específica do homem, a procura da perfeição sem a poder atingir.
A verdadeira felicidade do homem encontra-se na eterna e incessante busca de algo que não se pode alcançar e nas pequenas conquistas diárias para tentar lá chegar. Uma vez alcançado o desejado, corre-se o risco de cair numa apatia e desinteresse pela vida em sim mesma, o que se verifica claramente com Ulisses. A sua felicidade depende da preocupação, que resulta das dificuldades que a vida humana lhe traz e do esforço para as vencer. Não suportando mais a “paz” e a “serenidade” do paraíso que lhe oferece a deusa Calipso, o seu mais sofrido desejo é regressar “para a delícia das coisas imperfeitas” 52, a vida do ser humano é uma luta constante.
Pode-se então concluir que a verdadeira felicidade depende da incessante procura e desejo de alcançar a perfeição e não resulta da própria perfeição em si mesma, que torna a vida do homem monótona, triste e sem interesse. No equilíbrio entre o imperfeição da condição humana e o perfeição do sonho desejado é que reside a felicidade da vida, entre o tudo e o nada, entre a ociosidade e a ocupação.
Regressando à “Civilização”, apercebemo-nos que o narrador
51 Eça de Queiroz, “A Perfeição” in Contos, p. 237. 52 Eça de Queiroz, “Civilização” in Contos, p. 244.
volta ao início dando-nos uma visão mais restrita do seu amigo Jacinto, o que demonstra que os dois parágrafos iniciais funcionam como uma abertura para o resto do conto. Parte-se então para a oposição directa e clara entre:
Natureza Civilização
Jasmineiro Civilização material, ornamental, intelectual
Sol Electricidade
Parece que, desta contraposição constante, pode existir uma harmonia se houver equilíbrio porém, para Jacinto só resulta tédio.
Em “Civilização”, Eça retrata de forma subtil e irónica, o excesso de bens materiais associada à falta de interesse e inércia, “(...) vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. (...) E o único inconveniente deste monumental armazém do saber era que todo aquele que lá penetrava, inevitàvelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que, providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e paz estirada de um leito.”53
Mais adiante, o narrador mostra que a questão inicial continua em aberto, sem resposta ao “Porquê?”, retomando assim os pressupostos dos primeiros parágrafos: “[q]uando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda, entrançada (para restabelecer a circulação), de seda frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento. Era um bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e filósofos. (...) bocejava constantemente,
palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas”54.
Reforçando a ideia que a fartura não traz nada mais, nada menos do que aborrecimento, desinteresse e fastio, Eça quer deixar claro que não é somente a personagem da “Civilização” que se mostra entediada e entediante mas sim, toda uma sociedade fin-de-siècle. O tédio transborda para fora do livro, o bocejo e o desinteresse de Jacinto tende também a repercutir-se no leitor. Para tal, Eça utiliza longas observações e descrições pormenorizadas dos ambientes que pretendem basear a ficção na realidade, isto é, na observação do ser humano e de todas as condicionantes que o rodeiam. Será então que os parágrafos iniciais deste conto defendem exactamente o que pretendiam certos naturalistas; o homem nasce naturalmente bom e a sociedade é que o corrompe, tal como pretendia Jean-Jacques Rousseau, um dos mais considerados pensadores europeus do século XVIII que defendia que a própria civilização era responsável pela origem do mal e das injustiças sociais que afligem o homem.
O terceiro capítulo de “Civilização” abre com uma viragem no comportamento de Jacinto: “[o]ra justamente depois desse Inverno, em que ele se embrenhara na moral dos negroídes e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral de partir para o Norte, para o seu velho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e foi com desusado tédio que ele se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste”55. Instala-se uma fase de ruptura em que Jacinto sente uma súbita necessidade de ir às terras, para Torges56, como se interiormente existisse algo que o chamasse a regressar ao seu
54Eça de Queiroz, “Civilização” in Contos, p. 74. 55 Eça de Queiroz, “Civilização” in Contos, p. 76.
56 Torges – variante de Tormes em A Cidade e as Serras. A palavra Tormes “faz parte do
mundo ficcional de Eça de Queiroz, mas passou rapidamente ao domínio do senso comum, como referência toponímica. (…) designa um espaço físico real que outrora era designado por Quinta de Vila Nova ou, metonomicamente, por Quinta de Santa Cruz do Douro, tal foi a popularidade do autor.” Henriqueta Maria Gonçalves, Tormes: uma utopia rural –
ambiente natural e de origem. O facto de instalar luz eléctrica própria da civilização, entre os arvoredos do jardim mostra que Jacinto estaria a tentar transformar a própria natureza do jardim, trazendo-lhe algo de artificial e civilizacional. “Os arvoredos do jardim” constituem um possível escape, que parecem influenciar a personagem a partir para Norte.
A própria preparação da viagem está imbuída de tédio, não existe o mínimo vestígio de entusiasmo por parte de Jacinto que “com desusado tédio” vai enfrentar esta jornada.
A preparação da viagem ajuda, através de certos símbolos, à decifração da problemática em questão. Jacinto prepara a viagem durante “sete semanas”, sabe-se que o número sete simboliza “ l’achévement cyclique et (…) son renouvellement. (…) [il] est bien universellement le symbole de la totalité, mais d’une totalité en mouvement ou d’un dynamisme total. (…) [le numéro] sept comporte cependant une anxiété par le fait qu’il indique le passage du connu à l’inconnu: un cycle s’est accompli, quel sera le suivant? (…) le sept symbolise [entre autre] l’achévement du monde et la plenitude des temps”57. A quinta “fica nas serras” sendo a serra uma montanha que representa “la rencontre du ciel et de la terre, demeure des Dieux et terme de l’ascension humaine” simbolizando ainda “le terme de l’evolution humaine et de la fonction psychique du surconscient, qui est précisément de conduire l’homme au sommet de son développement”58. O narrador compara mesmo esta viagem ao Êxodo, saída dos Hebreus do Egipto para a terra de Canãa, como se Jacinto partisse para a terra da salvação. Será então uma viagem iniciática? Prevê-se realmente uma ascensão da personagem, uma subida a um patamar superior. Jacinto prepara a sua viagem rodeando-se de caixas e
57 Jean Chevalier et Alain Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles – mythes, rêves, coutumes, gestes, formes, figures, couleurs, nombres, France, Robert Laffont, 1969, pp. 686-691.
mais caixas de civilização recheadas de “camas de penas”, “garrafeira”, “poltronas”, “divãs”, “lâmpadas”, “banheiras”, “tapetes”, “geleira”, e muitos mais acessórios. Ao perder toda os bens da civilização que preparara para levar para Tormes, anuncia-se a passagem a um novo ciclo de vida, diferente do anterior.
Em “Um Dia de Chuva”, a personagem José Ernesto também percorre um caminho árduo para entrar na Quinta de Loures: “[e]ra ao escurecer, e logo o caminho para a quinta o encantou, apesar de áspero, com os seus arvoredos pacíficos, um rumor d’agua corrente, um cheiro forte de pomares e de prados. O casarão, lá em cima, pintado d’amarello, com uma grande varanda coberta que o ligava a uma velha ruína, tinha um bello aspecto romântico; a ceia, que preparara o caseiro, rescendia…”59
A estadia na quinta, oferece a José Ernesto, tempo para reflectir sobre o peso da cidade, acabando por se libertar desse fardo repleto de tédio. Esta reflexão é permitida pela permanência forçada dentro do casarão, provocada pelas abundantes chuvas que mantiveram esta personagem trancada neste espaço rural, oferecendo-lhe tempo de sobra para reflectir sobre a sua relação com a cidade e com o campo, acabando José Ernesto por privilegiar o segundo.
É interessante observar que existe, em diversas obras de Eça de Queiroz, uma relação muito ténue entre a reflexão / transformação e a água como meio simbólico de purificação e regeneração. Este par encontra-se em “Um dia de Chuva” como referimos, mas também em “Civilização”, logo à chegada a Torges: “a frescura das águas cantantes” e “os espertos regatos riam”60. Em A Cidade e As Serras, a água estagnada da cidade opõe-se à água corrente de Tormes. Também em A Correspondência de Fradique
Mendes a água “borbulha” e “refulgia” contribuindo para uma harmonia que
59Eça de Queiroz, “Um Dia de Chuva” in Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas, Porto, Livraria Chardron de Lello e Irmão, 1929, p. 97.
faz elevar o espírito.
Durante todo o trajecto até à quinta de Torges não se encontra a palavra “bocejo” todavia o aborrecimento é sentido nas palavras “que maçada” e “enfastiadamente”. Com o avançar da viagem, percebe-se que a lenta ascensão começa a dar frutos, Jacinto e o seu amigo experimentam outros sentimentos não relacionados com o aborrecimento, “a grandeza era tanta como a graça…Dizer os vales fofos de verdura, os bosques quase sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma doçura de Paraíso, toda majestade e toda a lindeza – não é para mim, homem de pequena arte. Nem creio mesmo que fosse para mestre Horácio. Quem pode dizer a beleza das coisas, tão simples e inexprimível? Jacinto adiante, na égua murmurava: - Ah! que beleza! (…) Por entre estes «ahs!» maravilhados chegámos a uma avenida de faias, que nos pareceu clássica e nobre”61.
Todavia, estes sentimentos depressa se extinguem quando Jacinto se apercebe que nada do que tão demoradamente preparara, fora executado. A civilização não chegou à serra, fora impedida como que por milagre, de subir, de aceder às alturas e assim de “profanar” a natureza. Jacinto fica desolado principalmente pela ausência de bens materiais. Assim, Jacinto chegou à serra despojado de civilização exactamente como quando nasceu, iniciando-se um novo ciclo, uma nova etapa em que se anuncia a “morte” de um ciclo – a cidade – e o nascimento de outro ciclo – as serras. Apesar do sucedido, Jacinto continua melancólico, não age ou reage perante o que vem de lhe acontecer. A não acção, a abulia evidente é uma das consequências, como já foi referido anteriormente, do estado depressivo da vida rotineira da cidade, em que predomina o tédio.
A oposição ocupação/não ocupação é um dos grandes binómios